OS WESTERNS DE BUDD BOETTICHER – RANDOLPH SCOTT

July 30, 2010

Entre 1956 e 1960, Budd Boetticher dirigiu um maravilhoso ciclo de sete westerns, todos interpretados por Randolph Scott, dos quais cinco (O Resgate do Bandoleiro / The Tall T / 1957, Entardecer Sangrento / Decision at Sundown / 1957, Fibra de Herói / Buchanan Rides Alone / 1958, O Homem Que Luta Só / Ride Lonesome / 1959 e Cavalgada Trágica / Comanche Station / 1960) foram produzidos por Scott e Harry Joe Brown e distribuídos pela Columbia. O primeiro filme da série, Sete Homens sem Destino / Seven Men from Now / 1956, foi produzido pela companhia Batjac de John Wayne e Um Homem de Coragem / Westbound / 1959 por Henry Blanke para a Warner que, tal como havia feito com Sete Homens sem Destino, se encarregou da distribuição. Entretanto, costuma-se denominar o ciclo pelo nome da companhia de Scott e Brown, a Ranown, alusão ao nome do ator (Ran) e ao de Harry Joe Brown (Own), porque existem múltiplos elementos repetitivos ou semelhantes nos sete filmes, mais constantemente o tema da vingança.

Oscar “Budd” Boetticher Jr. (1916-2001) nasceu em Chicago, Illinois. Sua mãe morreu de parto, o pai momentos depois, atropelado por um bonde, e ele foi adotado por Oscar e Georgia Boetticher de Evansville, Indiana.

Atleta na Ohio State University, Boetticher viajou para o México nos meados dos anos 30, decidido a aprender a arte de tourear. Ele estudou principalmente com Fermin Espinoza, apelidado “Armillita” e seu jovem novillero Carlos Arruza e, graças à sua experiência na arena, ingressou na indústria cinematográfica. Boetticher foi contratado como consultor técnico de Rouben Mamoulian em Sangue e Areia / Blood and Sand / 1941. Ele trouxe Armillita para dublar Tyrone Power nas cenas de tourada e concebeu a coreografia do torero’s paso doble, dançado por Rita Hayworth e Anthony Quinn.

Porém o mais importante para a sua futura carreira de diretor, foram as duas semanas que passou com a montadora Barbara McLean, que o chamara para ajudá-la. Na sua autobiografia (When in Disgrace, Fallbrook, 1996), Boetticher disse que Barbara lhe ensinou a narrar uma história pela maneira mais prática. Ele nunca pensou em cinema, mas subitamente lhe deu vontade de fazer filmes. No ano seguinte, Boetticher trabalhou em tempo integral na Columbia, ascendendo de mensageiro a assistente de George Stevens e Charles Vidor.

Seu nome apareceu nos créditos como diretor pela primeira vez em O Caso do Diamante Azul / One Mysterious Night / 1944, filme da série Boston Blackie, produzida pela Columbia e protagonizada por Chester Morris, assinando como Oscar Boetticher Jr. Depois de uma breve interrupção para o serviço militar no Photographic Science Laboratory da Marinha, Boetticher continuou na área das produções classe “B” por toda a década de 40 (Eagle Lion, Monogram, etc.) até que, em 1951, nasceu o Boetticher que nós conhecemos como Budd em Paixão de Toureiro / The Bullfighter and the Lady, o primeiro espetáculo que ele reconheceu como “um de seus filmes”, produzido pela companhia Batjac de John Wayne e distribuído pela Republic.

Boetticher foi indicado para o Oscar de Melhor História Original, a Universal imediatamente lhe ofereceu um contrato e ele aceitou entusiasmado, pensando que, com orçamentos mais folgados e melhores atores, teria mais oportunidade criativa. Ele de fato passou a ter à sua disposição no novo estúdio melhores recursos de produção, mas não podia escolher o que ia filmar. Mesmo assim, conseguiu fazer cinco westerns interessantes (O Último Duelo / The Cimarron Kid / 1951, O Império do Pavor / Horizons West / 1952, Seminole / Seminole / 1953, Sangue por Sangue / The Man from de Alamo / 1953 e Revolta do Desespero / Wings of the Hawk / 1954, nos quais parece que estava se preparando para a fase seguinte de seu itinerário artístico.

Farto da Universal, Boetticher deixou o estúdio para filmar uma produção independente, The Americano, no Brasil, com Glenn Ford no papel principal; porém surgiram problemas financeiros e ele se desligou do projeto. William Castle (que fora aprendiz de Boetticher na Columbia) assumiu a direção, convocando outros atores secundários e rodando o filme inteiramente nos Estados Unidos, embora incorporando algumas das tomadas feitas por seu antecessor em nosso país.

Em seguida, Boetticher preparou sua nova produção, O Magnífico Matador / The Magnificent Matador / 1955, a história de um toureiro renomado que foge da arena e perde a sua reputação, até que um admirador o ajuda a recuperar sua coragem e ele retorna ao estádio em triunfo. Foi a primeira colaboração de Boetticher com o fotógrafo Lucien Ballard, que se tornaria um de seus melhores amigos.

O Assassino Anda Solto / The Killer is Loose / 1956, a trama do criminoso cuja mulher foi morta por um detetive da polícia durante a sua prisão e que pretende vingar-se matando a esposa do policial, reuniu novamente Boetticher com Ballard, desta vez num thriller criminal de baixo orçamento.

A carreira de Boetticher não estava melhorando como independente. Ele teve um projeto abortado, um filme de orçamento médio filmado apressadamente (como Boetticher admitiu numa entrevista) e um thriller barato. Então John Wayne chamou-o para lhe mostrar um argumento original elaborado por um jovem escritor, que ele contratara para a Batjac. O autor era Burt Kennedy e o argumento, “Seven Men From Now”.

Como vimos, Boetticher já havia feito westerns interessantes, mas foi com o ciclo Ranown que se projetou diante do público e da crítica. O mérito de ter descoberto Sete Homens e um Destino foi de André Bazin (“Un western exemplaire: Sept Hommes à Abattre” – Cahiers du Cinéma, 1957), que via no filme “o melhor western do pós-guerra juntamente com O Preço de um Homem / The Naked Spur / 1953 de Anthony Mann e Rastros de Ódio / The Searchers / 1956 de John Ford. Segundo Bazin, “O primitivo encantamento que nos oferece Sete Homens e um Destino tem a ver com a perfeição de um argumento que consegue a proeza de nos surpreender sem parar, a partir de uma trama rigorosamente clássica”.

Ben Stride (Randolph Scott), ex-xerife de Silver Springs, persegue os sete homens que mataram sua mulher durante um assalto. No percurso, Stride ajuda um casal, Annie (Gail Russell) e Jack Greer (Walter Reed), a tirar sua carroça do atoleiro. Preocupado com eles, resolve acompanhá-los, a fim de protegê-los dos índios Chiricahuas esfomeados, que vagueam pela região. Ao mesmo tempo, Masters (Lee Marvin), um fora-da-lei e seu cúmplice Clete (Donald Barry), unem-se a eles e, com a intenção de se apropriar dos vinte mil dólares que os assaltantes procurados por Stride levaram, oferece auxílio ao xerife. A certa altura, Stride e Masters descobrem que Jack fora inocentemente encarregado de transportar o dinheiro roubado. Em vários incidentes, os bandidos vão sendo eliminados e só resta o duelo final entre Stride e Masters, no deserto, diante do cofre com o tesouro.

Trata-se de um enredo convencional na sua ação e nos seus personagens, porém é a maneira pela qual a história foi tratada, que torna o filme interessante. A primeira seqüência basta para nos revelar o estilo sêco, conciso e eficaz do cineasta. Chove e os relâmpagos iluminam um canto do deserto, vendo-se ao fundo o fraco clarão de uma fogueira crepitando sob uma gruta. Stride aparece no quadro de costas e caminha em direção ao fogo. No interior da gruta dois homens que tomam café, ficam espantados de ver chegar um estranho. Plano próximo do rosto duro e fechado de Stride. Uma discussão começa em simples e belos campos / contracampos. Apesar da aparente ausência de encenação, tudo isto é de uma grande força, pois muitas coisas se passam no cinema de Boetticher mais por intermédio dos olhares e dos gestos do que pela expressão oral. A tensão aumenta. Vemos os dois homens se levantarem para puxar seus revólveres. Depois de um corte, a câmera mostra dois cavalos sob a chuva no mesmo instante quando estalam dois tiros violentos. Escurecimento. Na tomada seguinte, é dia e Stride se apropriou dos cavalos cujos donos ele matou. No duelo do final do filme, Boetticher utiliza de novo a elipse de maneira audaciosa: em nenhum momento vemos o xerife sacar sua arma e atirar – a câmera permanece apontada para Masters desabando no solo e, quando se volta para Stark, ele já está colocando sua arma na cartucheira.

Boetticher renova constantemente a narrativa com um acontecimento inesperado (vg. a aparição dos índios e o susto de Annie; o homem que Stride acabara de salvar, volta-se bruscamente contra ele; Masters, depois de eliminar todo o resto do bando rival, no mesmo impulso atira contra seu próprio auxiliar), realizando um filme surpreendente do começo ao fim.

Tal como John Ford, Boetticher tinha o seu John Wayne na pessoa de Randolph Scott, seu Monument Valley em Lone Pine (área perto de Los Angeles), e um método e estilo inimitáveis. Boetticher gostava muito de Scott, “um verdadeiro gentleman” e seu modo de filmar minimalista ajustava-se perfeitamente ao personagem que o ator costumava interpretar.

O diálogo foi escrito como se toda palavra fôsse importante: a tagarelice de John Greer,  as interrupções de Annie para acalmar os ânimos dos homens, os comentários insolentes de Masters, as observações e respostas monossilábicas de Stride, que na maioria das vezes responde uma pergunta com outra, como um desafio.

O tema da vingança, exposto sem psicologismos, sem pitorescos inúteis, e com poucas digressões é enriquecido por um percuciente estudo de comportamentos e também não há floreios no que se refere à encenação.

O estilo austero e sucinto de Boetticher atingiu a perfeição em O Resgate do Bandoleiro, O Homem que luta Só e Cavalgada Trágica, que se distinguem pelos seus finais imprevisíveis.

O Resgate do Bandoleiro é um filme quinta-essencial de Boetticher com alguns dos temas principais do diretor: orgulho e honra e como as pessoas escolhem seus caminhos na vida em um oeste que está se tornando cada vez mais civilizado, porém, paradoxalmente, mais violento e amoral.

Depois de ter perdido seu cavalo em uma aposta com o antigo patrão, Pat Brennan (Randolph Scott) é recolhido por uma diligência que, conduzida por seu velho amigo Rintoon (Arthur Hunnicut), transporta os recém-casados Willard (John Hubbarb) e Doretta Mims (Maureen O’ Sullivan). Frank Usher (Richard Boone) e seus jovens companheiros Billy Jack (Skip Homeier) e Chink (Henry Silva) capturam a diligência. Após matarem Rintoon, os bandidos ficam sabendo (por intermédio do medroso Willard) que o pai de Doretta possui uma grande fortuna e decidem pedir resgate pela filha. Enquanto Frank vai buscar o dinheiro, Pat consegue eliminar Billy Jack e Chink. Depois será a vez de Frank.

A narrativa é desenvolvida com brevidade, suspense e uma abordagem psicológica interessante. Dos quatro personagens principais do filme, três apresentam uma persona pública diferente de seus pensamentos e desejos secretos. Willard Mims parece ser um homem gentil, apaixonado por sua esposa, mas na realidade ele se casara com Doretta por dinheiro e a trai para salvar sua própria vida. Doretta se comporta como uma boa filha e esposa submissa, porém, após a morte de Willard, admite que se casou com ele para fugir à solidão e escapar de um pai que a odiava. Frank Usher também está se enganando a si mesmo, imaginando que algum dia terá o seu rancho e deixará de ser um fora-da-lei; ele se considera um homem melhor do que os seus companheiros, que descreve como “animais”. Somente Pat Brennan não nos dá a impressão de ser alguém diferente do que realmente é.

Pat e Frank são inversões um do outro, como imagens na frente de um espelho. Sua discordância resulta do fato de que “Pat é um homem moral com tendências violentas e Frank, um homem violento com tendências morais”. O conflito entre os dois é descrito como um equilíbrio delicado de poder, no qual Pat, a força do Bem, não é necessariamente mais forte ou mesmo melhor do que Frank – mas apenas mais esperto no final.

Neste momento derradeiro, Pat e Frank são os únicos sobreviventes do Velho Oeste e  estão intrigados com a possibilidade de começar uma nova vida. Ambos têm condições de obter sucesso no mundo civilizado, só que Frank não quer tentar pacificamente, por esforço próprio. “Gosto de você”, Frank diz a Pat, mas acrescenta que, se tivesse que escolher entre Pat, Chink e Billy Jack, “Eu cavalgaria com eles”. Uma das ironias do filme é que, em circunstâncias diferentes, Pat e Frank poderiam ter sido amigos.

Em O Homem que luta Só, o xerife Ben Brigade (Randolph Scott) e dois jovens malfeitores, Sam (Pernell Roberts) e Wild (James Coburn), disputam a posse do assassino Billy John (James Best), que deverá ser conduzido para Santa Cruz. Ben atrasa propositadamente a viagem, na esperança de ser alcançado por Frank (Lee Van Cleef), o irmão de Billy que, em passado distante, matara sua mulher. Sam e Wild sonhando com um pequeno rancho, desejam obter o perdão prometido pela captura de Billy. No final, Ben mata Frank, põe fogo simbolicamente na árvore onde sua esposa fora enforcada e permite que os dois rapazes partam com Billy e Carrie (Karen Steele), uma viúva que eles encontraram no caminho.

O filme se organiza em seqüências bem delimitadas no espaço e no tempo, que fazem progredir a ação com uma lentidão bem planejada. Boetticher desenvolve a história com um rigor quase matemático. Ao redor de Ben, os comparsas – um bandido que serve de isca, dois jovens desencaminhados que querem se tornar cidadãos honrados, uma mulher cujo marido foi morto pelos índios – são apenas peças de um jogo de xadrez: cada gesto, cada palavra sendo calculados para produzir o máximo de efeito. Assim, no final do filme, Ben sacia o seu desejo de vingança e, ao mesmo tempo, torna claras todas as combinações do jogo; os dois rapazes podem apoderar-se do bandido e ganhar sua anistia; a mulher, cuja presença sugeria um idílio possível com o herói, pode partir com eles, porque para Ben só importa a lembrança da esposa. A fogueira que consome a árvore da vingança não põe fim aos sofrimentos de um homem, cuja solidão é reavivada sem cessar pela imagem do ente desaparecido.

A maneira com que Boetticher opõe seus personagens uns aos outros, o cuidado com que escolheu as paisagens – a assombrosa clareira tendo no meio a “árvore dos enforcados” – e o rigor da realização dão ao filme uma beleza geométrica.

No início de Cavalgada Trágica, Jefferson Cody (Randolph Scott) liberta a mulher de um fazendeiro, Mrs. Lowe (Nancy Gates), dos comanches e a conduz para junto do marido, sem saber que este oferecera um prêmio para sua entrega. No percurso encontra-se com três bandoleiros que fogem dos índios: Ben (Claude Akins) e seus dois jovens companheiros Frank (Skip Homeier) e Dobie (Richard Rust). Os três pretendem ficar com a mulher para cobrar a recompensa. Ben freqüentemente comenta sobre a covardia do marido, por ter mandado outro homem fazer o que ele deveria ter feito. Frank é morto pelos índios, Dobie morre pelas mãos de Ben. Cody oferece a Ben, a quem sempre respeitara, uma chance para escapar; mas Ben puxa sua arma e é morto por Cody. Este leva a mulher até seu marido, que vem a ser um cego.

Cavalgada Trágica não trata de vingança, mas sim de esperança. Cody sabe que sua esposa foi raptada pelos Apaches há dez anos, porém ignora se ela ainda está viva. Ele tenta arrancar dos acampamentos indígenas, uma por uma, todas as mulheres retidas como prisioneiras, esperando encontrar um dia a sua. É uma busca permanente, insensata, movida por um amor infinito.

Entre Cody e Ben as relações são instáveis, meio desconfiadas, meio familiares, quase cúmplices, mas os dois mantêm um respeito mútuo. A diferença entre ambos é que, aderindo à estrutura mítica do herói do western, Cody permanece fiel aos ideais de honestidade, coragem e necessidade de socorrer os que precisam de ajuda enquanto seu antagonista, um sujeito cínico, mas amável, acha tudo isso inútil, preferindo a excitação e a compensação financeira que a vida de fora-da-lei lhe oferece. No final, Ben cai sob as balas de Cody e perde a oportunidade de ganhar os cinco mil dólares do prêmio, dizendo simplesmente: “É vergonhoso o que o dinheiro pode fazer com os homens”.

A direção de Boetticher, bastante despojada, dá uma densidade particular aos personagens e não esquece os vastos espaços que fazem a grandeza dos westerns, forjando alguns enquadramentos inspirados em uma sábia utilização do CinemaScope.

Os três westerns restantes do ciclo Ranown não possuem o mesmo nível artístico dos filmes já mencionados – provavelmente pela intromissão de outros roteiristas (Charles Lang Jr. em Entardecer Sangrento e Fibra de Herói; Berne Giles em Um Homem de Coragem), porém têm muitas qualidades.

Em Entardecer Sangrento, um estranho, Bart Allison (Randolph Scott), chega a Sundown com seu amigo Sam (Noah Beery Jr.), interrompe as núpcias de Tate Kimbrough (John Carroll) e o desafia para um duelo de morte. Outrora, Tate teria seduzido a mulher de Bart e esta, em seguida, se suicidara. Porém, Bart descobre que Tate fora apenas mais um na vida de sua esposa. Quando vai se dar o confronto entre Bart e Tate, a amante deste (Valerie French) lhe dá um tiro no ombro, para impedi-lo de enfrentar Bart. O vingador então abandona a cidade embriagado e deprimido.

Neste western psicológico, no qual um homem procura encontrar no extermínio do outro a solução para os problemas advindos da traição da esposa, Boetticher acompanha o desespero em que se debate o herói e mostra também a tomada de consciência coletiva da população, o itinerário moral de uma comunidade que, diante da aventura individual dos dois homens, envergonha-se de sua sujeição ao corrupto manda-chuva da cidade. A presença de Bart em Sundown estimulou o rompimento da ordem social estabelecida.

Tal como Anthony Mann, Boetticher usa a geografia do western como paralelo do estado psicológico do herói. Porém, em contradição com Mann, Boetticher não emprega panoramas recortados para simbolizar distúrbios íntimos. Ele prefere usar ambientes pequenos, claustrofóbicos, para colocar seus personagens angustiados: o saloon, a igreja e interiores domésticos.

À medida em que a história de desenrola, percebemos que o desejo de vingança de Bart não tem nada de heróico. Sam revela que a mulher de Bart mantinha não só um romance com Kimbrough, mas também com outros homens. Ficamos sabendo também que Bart estava ciente destes fatos, mas preferiu desconsiderar a infidelidade da esposa. Bart não parece mais ter sido motivado por uma questão de honra. Agora ele é visto como um homem atormentado por seu orgulho ferido e obcecado por uma vingança sem sentido, ou melhor, por uma obsessão psicótica.

O protagonista de Fibra de Herói, Buchanan (Randolph Scott), chega ao povoado de Agry Town, dominado pelos irmãos Agry: Lew (Barry Kelley), o xerife; Simon (Tol Avery), o juiz; e Amos (Peter Whitney), o dono do hotel. Quando defende Juan (Manuel Rojas), um jovem mexicano rico que matou o filho do juiz, para vingar a honra de sua irmã, ambos são presos. Buchanan é obrigado a sair da cidade, mas ele consegue reverter a situação e derrotar a família corrupta, que já estava dividida por causa do dinheiro do resgate pedido ao pai de Juan. Carbo (Craig Stevens), guarda-costas dos Agry, um sujeito basicamente decente, assume o controle da cidade.

Passado inteiramente no ambiente urbano, o filme contém boas cenas de violência e lances imprevistos. Certa dose de originalidade é dada pela presença de uma família que detém todos os postos importantes e cujos membros se matam uns aos outros por causa da ambição. Curiosamente, o herói escapa várias vezes da morte, não por ser mais forte, rápido no gatilho ou esperto do que seus oponentes, mas simplesmente porque tem sorte.

Um Homem de Coragem foi o filme que mais sofreu, na comparação com as quatro obras-primas do ciclo, mas tem alguns méritos. Nele, John Hayes (Randolph Scott), capitão nortista, recebe o encargo de transportar ouro para abastecer o Exército da União. Ele usa a linha de diligências, que possuía antes da guerra, contratando os serviços de um soldado de seu regimento, Rod Miller (Michael Dante), que se reformara por ter perdido um braço. O povoado no qual Hayes monta as suas operações secretas, está dominado por seu antigo amigo Putnam (Andrew Duggan), casado com a ex-noiva de Hayes, Norma (Virginia Mayo), e simpatizante do Sul. Os capangas de Putnam destroem sistematicamente as diligências e matam Rod. Putnam lamenta este assassinato e, na batalha final, faz-se matar, tentando impedir uma carnificina.

O diretor cria uma atmosfera de tensão sufocante desde o momento em que Hayes chega à cidade e é publicamente humilhado pelo capanga de Mace (Michael Pate). Nem Rod, o mutilado de guerra condenado ao ostracismo e insultado pelos bandidos, merece compaixão: o dono de um restaurante local oferece-lhe comida estragada.   O filme contém pelo menos um lance admirável: a da morte de Rod num tiroteio inesperado, justamente quando ele havia aprendido a manejar o rifle, apesar da sua deficiência física.

Uma singularidade do espetáculo é o fato de que os “maus” não se contentam em destruir e matar. Eles pensam; e seu chefe até sucumbe a louváveis remorsos. Nota-se também uma tentativa sincera de dar um peso e um valor aos personagens: é muito comovente a cena em que a jovem mulher descobre, abraçando Rod, que ele não tem mais o braço.

Quando sua arte estava começando a ser reconhecida – inclusive pela realização de um filme de gangster bem recebido pela crítica, O Rei dos Facínoras / The Rise and Fall of Legs Diamond – e ele atingira uma segurança financeira, Boetticher foi para o México, para filmar um documentário sobre a carreira de seu amigo, o grande toureiro Carlos Arruza. Obstinado por este documentário, ele recusou propostas lucrativas de Hollywood e sofreu humilhação e desespero para concretizar seu projeto – ficou sem dinheiro, divorciou-se, passou sete dias na cadeia, uma semana num asilo de loucos e quase morreu, primeiramente de inanição e depois de uma grave doença no pulmão.

Neste ínterim, Arruza, o herói de seu filme, faleceu num desastre de automóvel assim como boa parte de sua equipe. Voltando para Hollywood em 1967, Boetticher iniciou uma associação com Audie Murphy. Murphy produziu e Boetticher dirigiu na Espanha A Time for Dying, um filme que poderia rejuvenescer suas carreiras. Eles tinham outros projetos no estágio de planejamento, quando Murphy foi morto num desastre de avião em 1971.

Depois do ciclo Ranown, Randolph Scott, com uma fortuna de cerca de cem milhões de dólares, não precisava mais trabalhar e, com 60 westerns no seu currículo, não havia muita coisa mais que ele poderia fazer no gênero.  Mas ele deixou bem claro para Boetticher e Kennedy que, se por acaso surgisse um bom script, daria uma olhada nele. E então um grande script apareceu. Chamava-se Guns in the Afternoon, que gerou Pistoleiros do Entardecer / Ride the High Country / 1962, o filme com o qual Scott encerrou, de forma magnífica, a sua longa jornada cinematográfica.

15 Responses to “OS WESTERNS DE BUDD BOETTICHER – RANDOLPH SCOTT”

  1. Os trabalhos de Scott e Boetticher sao obrigatórios não apenas para quem gosta de westerns, mas para qualquer um que admire cinema.

  2. Obrigado Daniel. Você é um visitante do blog com grande cultura cinematográfica.

  3. COM COMENTÁRIOS COMO ESTES O WESTERN JAMAIS CAIRÁ DO CAVALO;JAMAIS MORRERÁ…
    BUDD BOETTICHER ESTÁ ENTRES OS MAIORES DIRETORES DO GÊNERO WESTERN; BEM COMO 7 HOMENS SEM DESTINO ESTÁ ENTRE OS MAIORES WESTERNS DE TODOS OS TEMPOS!

  4. Obrigado Edivaldo. John Ford, Budd Boetticher, Anthony Mann, Delmer Daves, John Sturges, Howard Hawks, Andre de Toth… Quantos bons westerns eles fizeram.

  5. Antonio Carlos, você praticamente já disse quase tudo concernente ao Budd Boetticher e ao excelente western 7 HOMENS SEM DESTINO, mas, com a devida venia, vou dar minha opinião:
    Sem sombras de dúvidas 7HOMENS SEM DESTINO (Seven Men From Now)-1956, está entre os melhores westerns de todos os tempos, bem como seu autor Budd Boetticher (pronuncia-se (bétiquer), está entre os melhores cineastas do gênero.
    7 HOMENS SEM DESTINO foi vítima de ser um filme, quando do seu lançamento, ser tratado como uma obra menor, exibidos apenas em cinemas considerados populares, e que se tivesse sido lançado de modo mais hábil , certamente, teria tido outra carreira cinematográfica, digna do seu valor extraordinário. Felizmente, assim como tinha sido, com o melhor western de todos os tempos – Rastros de Ódio – foi descoberto ou redescoberto pelos críticos franceses. Assim escreveu o celebérrimo crítico André Bazin “ É o momento de aplicar aqui o que escrevi sobre a política dos autores. A minha admiração por 7 HOMENS SEM DESTINO não me fará concluir que Budd Boetticher é o maior realizador de westerns – ainda que não exclua essa hipótese – mas apenas que o seu filme é talvez o melhor western que vi depois da guerra. Só a recordação de O Preço de um Homem (Naked Spur) 1953 e de Rastros de Ódio (The Searchers)-1956, me obrigam a fazer uma reticência. É, com efeito, difícil de discernir com exatidão nas qualidades deste filme excepcional as que dependem especificamente , sem falar naturalmente das virtudes anônimas da tradição que não pretendem senão expandir quando as condições de produção as não contrariam. Confesso não ter, infelizmente, senão uma recordação muito vaga dos outros westerns de Boetticher para avaliar no triunfo deste o que se deve às circunstâncias ou ao acaso, aspectos que pouco pesam, reconheço-o, num Anthony Man. Seja como for, e mesmo se 7 HOMENS SEM DESTINO é o resultado de uma conjuntura excepcional, não considero este filme como um dos triunfos exemplares do western contemporâneo.
    Que o leitor me desculpe se não puder confirmar as minhas afirmações, sei que falo de uma obra que provavelmente não verá. Assim o decidem os distribuidores. 7 HOMENS SEM DESTINO não saiu senão em versão original em exclusivo de estação baixa numa pequena sala dos Campos Elíseos. Se o filme não foi dublado, não o encontrarão nos cinemas de bairro.
    É que o western continua a ser o gênero mais incompreendido. Para o produtor e o distribuidor, o western não seria mais do que um filme infantil e popular, destinado a acabar na televisão, ou uma superprodução ambiciosa com grandes astros e estrelas. Só a cotação comercial dos intérpretes ou do realizador justifica então o esforço de publicidade e de distribuição. Entre os dois é o acaso do êxito ou da indiferença: a crítica, tal como o distribuidor, é preciso dizê-lo, não estabelece uma diferença sensível entre os filmes produzidos sob o rótulo do western. Assim Os Brutos Também Amam (Shane)-1953, ambiciosa superprodução da Paramount para as bodas de ouro cinematográfica de Zukor, foi saudado como uma obra-prima e 7 HOMENS SEM DESTINO, muito superior ao filme de Stevens, passará despercebido e regressará às prateleiras da Warner donde não sairá senão para tapar buraco…Continuando Bazin sentencia: Assim o primitivo encantamento que nos oferece 7 HOMENS SEM DESTINO, tem haver com a perfeição de um argumento que consegue a proeza de nos surpreender sem parar, a partir de uma trama rigorosamente clássica. Nenhum símbolo, nenhum fundo filosófico, nenhuma sombra de psicologia, nada senão personagens ultra convencionais em aplicações ultra conhecidas, mas uma execução extraordinariamente engenhosa e, sobretudo, uma invenção constante quanto aos detalhes capazes de renovar o interesse das situações.”
    7 HOMENS SEM DESTINO é um filme soberbo com cenas e sequências memoráveis e inesquecíveis, apenas citarei três: a primeira é quando, numa noite terrivelmente chuvosa, Bill Masters, interpretado pelo grande Lee Marvin, entra no carroção, com ar sarcasticamente diabólico, onde estão Stride(Randy Scott), Anne Greer (Gail Russell) e seu marido John Greer(Walter Reed), conversando e tomando café, fazendo um duro e malicioso discurso, provocando ciúmes no herói. Esta sequência é uma das mais belas, jamais escrita; a segunda cena marcante e sutilmente erótica, ainda em prosseguimento à primeira, é quando a bela Anne – já em trajes de dormir – dialoga com Stride, separados apenas pelo assoalho do carroção – sublime;e, a terceira cena é o duelo final, estonteante e inesquecível, numa cena memorável – quando Stride saca a sua arma contra Masters, o espectador não consegue vê-lo sacar, tamanha a sua rapidez. Sua imaginação é que tenta visualizar o quão rápido Stride saca! Stride é tão rápido para sacar que a câmera não consegue enquadrá-lo, e o espectador somente vê Bill Masters ser baleado e caindo morto – pura magia.
    Referente ao “showdown” final ainda acrescento que Boetticher, idealizou, planejou e coreografou toda esta inesquecível sequência, como se fosse um magnífico espetáculo da tauromaquia: no imaginário, Bill Masters – um célebre “Toureiro”, por conseguinte, um magnífico matador – entra na arena lotada, com gente saindo pelo ladrão, aplaudido de pé, por uma platéia frenética, com a certeza absoluta que mataria mais um “Touro”, contudo, para sua surpresa, o dia era do “Touro” – belíssimo!
    7 HOMENS SEM DESTINO é magistralmente dirigido por Budd Boetticher, com interpretações magníficas: Randy Scott no melhor papel de sua carreira, como o herói monossilábico, com ar impenetrável – uma combinação perfeita para o estilo cara de pedra. Este papel caiu como uma luva para Randy, daí afirmarmos que foi excelente John Wayne não poder interpretar Ben Stride, posto que Wayne não tem o estilo lacônico, com ar brutalmente impenetrável de Randolph Scott. Neste estilo Randy teve seguidores,e, obviamente, influenciou Clint Eastwood no western Estranho Sem Nome (High Plains Drifter)-1973, e na trilogia do grande “chupador” Sergio Leone, Por Um Punhado de Dólares(Fistful of Dollars)-1964, Por Um Punhado de Dólares(For a Few Dollars More)-1966, e Três Homens em Conflito( The Good, The Bad and The Ugly)-1966; Lee Marvin no papel do vilão Bill Masters tem uma performance espetacular, brilhante sobre todos os aspectos, roubando todas as cenas, em suma, dando um show. Sua interpretação, de alguma maneira, já antecipava o papel do sádico Liberty Valence, no western O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valence)-1962. Se traçarmos um paralelo entre essas duas notáveis interpretações, diríamos que ambas são monumentais, ou seja, no filme de Boetticher ele é diabolicamente cínico, e no filme de Ford ele é diabolicamente sádico; Gail Russell no papel da doce e bela e esperançosa Anne, que apesar de amar o marido, sente-se atraída pelo “xerife” Stride, Dái surgindo entre eles sempre uma tensão sexual. Assim a trágica Gail Russell, já apresentando sinais acentuados de alcoolismo, está bastante bem em sua última interpretação proeminente. Ela morreu cinco anos depois, sem ainda ter completado 36 anos de idade. Salientamos ainda as presenças marcantes de Walter Reed, como o marido de Anne, a quem Masters chama de meio-homem, mas que ao final se recupera, e do vilão John Larch, como o fora-da-lei Payte Bodeen, chefe dos bandidos.
    Finalmente destacamos o perfeito roteiro de Burt Kennedy, a estupenda fotografia do mestre William Clothier, explorando sobremaneira as belas paisagens de Lone Pine, e bonita trilha musical de Henry Vars.
    Do exposto podemos sentenciar que 7 HOMENS SEM DESTINO é um filme soberbo, com uma magistral direção, com interpretações magníficas, com um roteiro excelente, com uma direção de fotografia sensacional e trilha sonora de boa qualidade. Por isso mesmo trata-se de um western imperdível o qual recomendamos, não só para os fãs do gênero, mas também para todos os amantes da Sétima Arte.
    Em tempo: Em termos de “badmen” muito se fala da interpretação de Jack Palance no western Os Brutos Também Amam. Que me perdoe os fãs desse western, mas a interpretação do Lee Marvin em 7 Homens Sem Destino é muito superior. Lee Marvin ganha de goleada…E eu nem falei de Liberty Valence. Eu vou mais além, se fizermos uma lista das maiores interpretações – em termos de badmen, no gênero western, penso que a interpretação de Jack Palance não ficaria nem entre os dez:Eis a minha lista:
    1- Lee Marvin – O Homem que Matou o Facínora
    2- Lee Marvin – 7 Homens Sem Destino
    3- Burt Lancaster – Vera Cruz
    4- Robert Ryan – O Preço de Um Homem
    5- Richard Boone – O Resgate do Bandoleiro
    6- Robert Mitchum – Poquer de Sangue
    7- Richard Widmark – Duelo na Cidade Fantasma
    8- Richard Widmark-Lança Partida
    9- Dan Duryea – Traição Cruel
    10- Glenn Ford – Galante e Sanguinário
    11- Jack Palance- Os Brutos Também Amam
    12- Russell Crowe – Os Indomáveis
    13- Jack Elam – Correio do Inferno
    14- Lee J. Cobb¬ – O Homem do Oeste
    15- John McIntire – Região do Ódio – Punido Pelo Próprio Sangue
    Sou membro do Cineclube dos Amigos do Westers-CAW-São Paulo-Capital

  6. Referente aos foras-da-lei, gostaria de acrescentar que acabei esquecendo de Henry Fronda -Era uma Vez no Oeste;de William Holden – Meu Ódio Será a Sua Herança; de Marlon Brando – A Face Oculta. Que eu coloco todos na frente do Jack Palance…
    Nessa lista eu também colocaria HENRY BRANDON o mais sinistro índio dos westerns, que é o “vilão” do filme Rastros de Ódio, dependendo do lado que se vê.

  7. Antonio Carlos você, permita-me tratá-lo assim, de passagem falou do western The Americano. Já que se trata de um filme pouco conhecido no Brasil, vou me atrever a escrever a respeito, esperando que me perdoe…
    Glenn Ford, Cesar Romero, Arthur Kennedy e Budd Boetticher e o produtor Robert Silmann desembarcaram no Rio de Janeiro em junho de 1953. Glenn veio acompanhado da esposa Eleanor Powell e de seu filho Peter.
    Robert Stilmann veio ao Brasil para cumprir um contrato assinado por ele e a Cia Cinematográfica Vera Cruz. Assim The Americano seria o primeiro filme de um pacote de nove filmes, todos coloridos. Você sabe, fazer filmes coloridos no Brasil naquela época era algo proibitivo, pois o custo era demasiadamente elevado.
    Todavia antes de ser iniciadas as filmagens Stilmann se deparou com uma série de problemas – problemas de toda ordem. A Vera Cruz, por exemplo, queria que o roteiro fosse modificado e que Tonia Carrero ficasse com o primeiro papel feminino. Ao que Stilmann não concordou. Para ele o principal papel feminino deveria ser de uma estrela internacional. Assim Sarita Montiel que fazia sucesso no cinema mexicano foi contratada, tirando assim o papel que seria de Tonia Carrero. Outra exigência da Vera Cruz era que o filme fosse feito em duas versões: uma em inglês e outra em português. Stilmann também não concordou. Outro entrave que surgiu foi que a Vera Cruz não tinha equipamentos para fazer filmes coloridos. Isso tudo sem falar que a Vera Cruz começava dar sinais de problemas financeiros que a levaria à falência logo a seguir. Destarte com todos esses problemas a Vera Cruz rescindiu o contrato com o produtor Stilmann.
    Sarita Montiel foi a última chegar e outro problema veio com ela, ou seja, ela não sabia falar inglês. A solução foi contratar um professor de inglês.
    Enquanto aguardavam, que os problemas financeiros e técnicos fossem solucionados, e que Sarita Montiel apreendesse inglês, Glenn Ford e Eleanor Powell passeavam pelas belas praias, até então, do Guarujá, a Pérola do Atlântico.
    Porém, apesar dos pesares, Stilmann apoiado por um grupo de capitalistas paulistas e do dono do Cine Marabá, que completou a quantia necessária, aluga os equipamentos da Multifilme, em Mairiporã-SP, e as filmagens foram iniciadas num sitio em Mairiporã, nas proximidades de Itanhaém-SP, e em Campo Grande, no atual Mato Grosso do Sul, que os americanos chamam de “Wild Matto Grosso” e “ Matto Grosso Jungle”
    Quando tudo parecia solucionado, os transtornos voltaram novamente e cada vez maiores; o custo de produção aumentava, Budd Boetticher abandonou as filmagens, e o produtor Stilmann,finalmente, não teve alternativa, cancelou o projeto de filmagens no Brasil, do filme The Americano.
    Alguns meses depois o projeto foi retomado e o filme The Americano foi concluído em Hollywood. Do elenco que esteve no Brasil, permaneceram apenas Glenn Ford e Cesar Romero; Sarita Montiel, por não estar disponível, foi substituída por Abbe Lane. Para reforçar o elenco foram contratados Frank Lovejoy e Ursula Thiess. O restante do elenco, que fazia papéis de brasileiros foi trocado por atores mexicanos. The Americano é, portanto, um filme trilingue, pois é falado em inglês, espanhol e português. Como vemos uma salada mista.
    Esclarecendo, por oportuno, que The Americano, é uma co-produção Brasil – Estados Unidos. Tendo como produtores: do lado brasileiro, Benny Dionisio e Oscar Ferreira e seu filho, e do lado americano Robert Stilmann.
    Uma curiosidade o filho do produtor brasileiro Benny Dionísio, Bruce Dionisio faz uma ponta no filme, na cena Glenn Ford oferece ao menino uma goma de mascar.
    Numa noticia dada pelo jornal O Globo, William Castle, que substituiu Budd Boetticher esteve fazendo sondagens no Brasil, a fim de concluir o filme The Americano, em 1954.
    The Americano não foi exibido nos cinemas do Brasil, sob a estranha alegação dos exibidores que o filme denigre a imagem do Brasil, essa alegação foi uma tremenda bobagem…
    Filmado parcialmente, em locação no Brasil, no “Wild Matto Grosso” The Americano é um “brazilian style western” por isso mesmo um filme diferente. O filme tem a direção de William Castle , com uma direção apenas regular. É evidente que o filme, às vezes, deixa um pouco a desejar, porém, no todo, não chega a decepcionar. Lamentável foi o abandono de Budd Boetticher , já que as cenas de “vivid on-location” foram dirigidas por ele. Se o filme fosse concluído por ele, certamente, o resultado seria outro. Filme fotografado , em technicolor, por William Snyder; a bonita trilha sonora é de Roy Webb. A destacar ainda e bela canção “El Americano” de autoria de Xavier Cugat, marido de Abbe Lane. No elenco vale apenas destacar a presença de Frank Lovejoy e de Cesar Romero, a melhor figura do filme. Saliento ainda a presença marcante da “brejeira” Abbe Lane que neste filme dança e canta como nunca. Aliás a sua dança de terreiro é tão sensual que, não sei como não teve problemas com a rígida censura da época;a sua dança, um misto de rumba e macumba, vale por todo o filme.
    Resumo do filme
    Um cowboy americano, com problemas financeiros, Sam Dent (Glenn Ford), de Clearwater, no Texas, depois de uma exaustiva viagem, chega ao interior do Brasil, para entregar três touros reprodutores da raça Brahma, para um fazendeiro chamado Barbossa e receber a quantia de $25,000. Ao chegar é recebido com hostilidade pela população local. Sem saber os reais motivos de tal recepção, o americano sai à procura do fazendeiro Barbossa. Desesperado entre num botequim, onde toma conhecimento que Barbossa tinha sido misteriosamente assassinado. Quem lhe dá a noticia é Manuel Silvera, vulgo “El Gato” (Cesar Romero), o bandido mais temido da região. Após beberem juntos algumas “brazilian beers” El Gato se oferece para levar o texano à presença do barão do gado, Bento Hermanny (Frank Lovejoy). Tudo se resolve: Hermanny compra-lhe os touros. O problema é que na volta ele é violentamente atacado pelas costas, e quando acorda , dá conta que o seu dinheiro tinha sido roubado e o seu guia morto a tiros. Entrementes a americano encontra a bonita Marianna (Ursula Thiess), vizinha de Hermanny, que tenta alertá-lo,porém, em vão, quanto ao real caráter de Hermanny. Todavia para o americano o culpado de tudo é o bandido El Gato.
    Hermanny é um “land-hungry cattle baron”, ou seja, é um homem sedento por terras, e as fazendas que não consegue comprar, manda incendiá-las. O clima está cada vez mais tenso, e quando o americano percebe, está no meio de uma guerra rural. O pior de tudo é que ele não sabe de que lado tomar partido; não sabe se fica do lado da bela Marianna ou se fica do lado do ambicioso Hermanny. O que o americano quer mesmo é voltar o mais rápido possível, para o seu Texas. Mas antes disso tem uma dura missão: recuperar os seus $25,000, e, para tanto tem que fazer justiça com as próprias mãos.
    Vale à pena, ainda, enfatizar uma frase profética citada pelo poderoso Bento Hermanny: “O futuro do Brasil não está no café, e sim no gado…”
    Mais uma curiosidade: esse filme se inicia na cidade de Clearwater , no Texas; 10 anos depois essa cena foi “chupada” no western Os Filhos de Katie Elder.
    Finalizando vou transcrever a última entrevista dada pelo grande Glenn Ford para Revista Wildest Westen:
    WW: How did you like shooting the Exotic Western, The Americano in Brazil?
    GF: The trip to Brazil to make The Americano was an absolute disaster. I was down there for two months with Ellie and Peter. We only filmed for 16 days the whole time we were there. When we came back to the States, we had about 27 minutes of film in the can. Bad weather, non money, disorganization, problems with the local crew and equipment, you name it—we were in deep trouble from the minute we got off the boat.
    WW: Sounds awful. This horror specialist William Castle’s first big film as director. Any thoughts on working with him?
    GF: You know, Budd Boetticher was de director on that South America location, not William Castle.
    WW: Oh really?
    GF: We sent to South America in June 1953 and eventually finished in July 1954, over year later. Bill (Castle) took over when we started in June in 1954 back in the states. I liked him a lot but when you take over someone else’s directing chores under those circumstances, it’s a difficult situation. There was the feeling of “let’s just get this over with” by those of us who had been involved with the project from the beginning. The producer ran out of money in Brazil, and finally got the funding , and Bill came in to clean up the mess, so to speak.
    WW: And your leading lady, Ursula Thiess…?
    GF: Ursula Thiess did the role that the Spanish actress Sara Montiel was cast to do. When we arrived in South America, Budd realized Montiel couldn’t speak a word of English and had never ridden a horse! I don’t know how she ever got cast in the first place. (But getting back to) Bill Castle, (he) and I never worked again I’m sorry to say , but (we) saw each other socially around town – a nice man.

  8. Obrigado Edivaldo. Leitores como você enriquecem o meu blog.

  9. Exato. Ainda vou fazer artigos sobre Randolph Scott e Joel McCrea.

  10. Amigo Edivaldo. Acho uma boa idéia um artigo sobre os vilões do gênero western, mas não sei quando poderei escrever a respeito, pois existe uma infinidade de temas que eu desejo abordar, concernentes aos cinemas de variados países. É difícil apontar apenas um grande vilão. Por isso não podemos dizer que Jack Palance foi o maior. Mas, a meu ver, a lentidão de seus gestos se encaixa muito bem naquela admirável sequência silenciosa de Shane, propiciando suspense. Sua apreciação sobre Henry Brandon / Scar- Ethan Edwards / John Wayne no filme Rastros de Ódio é perfeita. Quanto a minha opinião sobre Shane, ela coincide com a de Andre Bazin e consta do meu livro Publique-se a Lenda: A História do Western (ed. Rocco). Um grande abraço.

  11. Antonio Carlos,
    Por falar no excelente livro PUBLIQUE-SE A LENDA, na página 65 você aborda os chamados westerns de orçamento médio, chamados de “COFEATURES”, porque tinham o mesmo status de um filme “A”. Tecnicamente falando muitos autores dão como o último western “B” como sendo Pistoleiro Por Equívoco (Two Guns and a Badge)-1954, com Wayne Morris. Aqui no Cineclube dos Amigos do Western-CAW, amigos entendidos no assunto, teimam em chamar os filmes feitos depois da data citada como sendo westerns “B”, como é o caso dos westerns de Randolph Scott, Rod Cameron, Audie Murpjy, Dale Robertson, Joel McCrea, George Montgomery, Jeff Chandler,Rory Calhoun, e outros como sendo westerns “B”, algo que não concordo. Em resposta eu digo: “Se esses westerns de orçamento médio são “B” ou Bezinhos como alguns chamam, os westerns estrelados por Roy Rogers, Rex Allen, Allan “Rocky’ Lane, Lush La Rue, Tex Ritter, Whip Wilson, Charles Starrett, e muitos outros, que eram feitos em cinco ou sete dias, que vocês teimam em chamar de “B”, na minha opinião são filmes “Z”.
    Por exemplo o grande diretor Budd Boetticher, ficava furioso quando alguns críticos chamavam seus westerns de filmes “B”, em resposta ele dizia pereptoriamente: Não me falem de western “B”. Fiz uma séries de filmes “B”, preto e branco, com maus atores. Nunca fiz um western “B”. Talvez custassem o preço de um western “B”, mas isso não acontecia por trabalhar com Lucien Ballard, Russel Metty, William Clothier, unicamente tecnicos de primeira grandeza. Esses filmes não custavam muito porque sabíamos o que fazíamos. Além disso nunca construímos cenários, empregávamos os de Deus. E depois havia Randolph Scott. De inicio, ninguém acreditava que ia funcionar, o estúdio lançou-os sem publicidade”.
    Baseado no que escrevi eu gostaria, se puder, é claro, que falasse mais a respeito dos westerns feitos com orçamentos médios “cofeatures” que muita gente, não sei porque, chamam de filmes “B”.
    Você foi o primeiro autor que vi usar o termo ‘COFEATURES”.

  12. Amigo Edivaldo. Acho que você tem razão. O co-feature não se confunde com o western B. Gosto muito dos co-features de Randolph Scott, Joel McCrea e Audie Murphy e pretendo escrever artigos sobre os seus westerns, só não sei quando, porque gosto de variar, abordando assuntos referentes ao cinema clássico mundial e não somente ao americano.

  13. Edivaldo, eu gosto de abordar assuntos inusitados na literatura ou jornalismo cinematográficos no Brasil, como, por exemplo, Os Cine-Jornais Americanos, A Época de Ouro do Cinema Mexicano, Os Curtas-Metragens na Hollywood dos Anos 30 /40, As Séries Policiais dos anos 30/40, Raimu, Harry Baur, Mario Soldati, Lida Baarova, Os Melodramas de Época da Gainsborough, Michael Powell, etc., e, sem dúvida, os co-features também entram nessa categoria.

  14. excelente o artigo sobre randolph scott,,,já está na hora de publicar mais um livro para a alegria de todos nós que admiramos seu trabalho desde os artigos na Cinemim do amigo José Simões Filho de Guaçui ES

  15. Livro dá muito trabalho e eu ando meio preguiçoso. Penso em escrever no meu blog sobre Randolph Scott, Audie Murphy e Joel McCrea, mas ainda preciso rever alguns westerns deles. Um forte abraço.

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