RAYMOND BERNARD II

April 4, 2013

Os quatro filmes que Raymond Bernard fêz para a Pathé-Natan – Faubourg Montmartre / 1931, Cruzes de Madeira / Les Croix des Bois / 1931, Os Miseráveis / Les Misérables / 1933 e Tartarin de Tarascon / 1934 – eu  pude ver todos.

Faubourg Montmartre é um melodrama impregnado de um populismo trágico com personagens arquetípicos: duas irmãs, Ginette (Gaby Morlay) e Céline (Line Noro), cujo pai, um viajante comercial, está quase sempre ausente, ficam entregues a si mesmas no seu apartamento no Faubourg Montmartre. Céline, ligada ao proxeneta e traficante Dédé (Charles Vanel), adere às drogas e tenta induzir a irmã à prostituição. Mas Ginette escapa desse meio e encontra o amor junto de um homem honesto, Frédéric (Pierre Bertin), que a leva para longe do bairro. Nesse melodrama já encontramos a estética e o clima do que se chamaria mais tarde realismo poético.

A atmosfera sombria e cinzenta pesa como uma fatalidade sobre um grupo de personagens, que vivem em um ambiente deletério, onde se misturam, a fome, o desespêro, a droga e a prostituição. Este  clima é bem enfatizado na cena em que a cantora gorda (Odette Barencey), interpreta a canção “Faubourg Montmartre” em um quarto cheio de fumaça, cercada por Céline, Dédé e algumas prostitutas. À imagem das jovens de olhar perdido sucede a imagem de uma boneca desequilibrada.

A visão noire da existência de Ginette emociona. Entre a degradação de sua irmã, o egoísmo arrogante e a superficialidade de sua prima Irène (Florelle) e o amargor de sua tia (Pauline Carton), a única pessoa suscetível de proteger Ginette é seu pai (André Dubosq) que, simbolicamente, não sobrevive após seu retorno ao bairro.

Após a sensação opressiva que domina a maior das sequências, a parte final do filme – quando Ginette procura reencontrar um equilíbrio na mansão provinciana   de Frédéric – provoca uma ruptura  desconcertante no tom da narrativa; porém o episódio, no qual aparece Antonin Artaud como o rei de um carnaval grotesco, organizado pelos camponeses para assustar os estranhos julgados indesejáveis, é uma cena admirável de cinema mudo, onde a imagem e a iluminação reencontram tôda a sua força.

Devido ao sucesso comercial de Faubourg Montmartre, Raymond Bernard pôde se debruçar mais uma vez sobre as superproduções, que ele amava tanto. O romance de Roland Dorgelès, “Les Croix des Bois”, um dos mais belos testemunhos da guerra 1914 – 1918 e sobre a guerra em geral, propiciou-lhe  ocasião de realizar mais um grande espetáculo.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem estudante de Direito, Gilbert Demachy (Pierre Blanchar), se alista, decidido a enfrentar o invasor alemão.  A frente de batalha está estabilizada nas planícies de Champagne. Os exércitos francês e alemão aguardam nas trincheiras a ofensiva do inimigo. No 39º regimento de infantaria, Gilbert faz amizade com Bréval (Charles Vanel), Sulphart (Gabriel Gabrio) e outros companheiros. Depois vêm as patrulhas e os confrontos. Ele descobre os horrores da guerra e morre nesse inferno.

A lama, o frio, o medo, a fadiga e a fome acabam por desanimar os homens que, alguns meses antes, estavam prontos para botar os alemães para correr. Essa passagem do patriotismo para a desilusão é narrada com muito realismo, facilitado pelas filmagens em locação na região de Reims e pelo fato de que a maior parte do elenco – notadamente Pierre Blanchar e Charles Vanel – era de veteranos da guerra 1914-1918.

Raymond Bernard explora todos os meios visuais e sonoros de que dispõe, para imergir o espectador no pesadelo dos combates. Travelings laterais seguindo a corrida dos soldados no campo de batalha, imagens chocantes das paisagens devastadas, agitação da câmera reforçando a confusão, planos focalizando cadáveres ou homens abatidos ao sairem das trincheiras, estrondos inquietantes e contínuos de detonações,  tudo isso agindo nervosamente sobre o espectador.

A busca de autenticidade é bem nítida também na maneira de mostrar a morte sem heroísmo nem romantismo. A agonia de Bréval (praguejando contra a esposa infiel e depois a perdoando) e a de Gilbert são momentos de grande intensidade dramática, nos quais o medo e a dor física são expressados admiravelmente pela interpretação de Charles Vanel e Pierre Blanchar.

Os planos simbólicos nos quais Demachy,  ferido de morte, revê sua vida e onde os soldados alemães e francêses marcham juntos, vítimas que, tais como os crucificados, carregam suas cruzes até o Golgotha, é uma das mais emocionantes do drama.

No trabalho de adaptação do romance de Victor Hugo, “Os Miseráveis”, Raymond Bernard contou com a colaboração de seu co-roteirista de Tarakanowa André Lang. A obra de Hugo, tão vasta, cheia de parênteses históricos, filosóficos, sociais e de inúmeros personagens e acontecimentos, foi dividida em três partes (Tempête sous un Crâne/ Les Thénardier/ Liberté, Liberté Chérie), cada qual correspondendo praticamente a um filme, totalizando 4h 53min. Posteriormente essa duração foi sendo reduzida conforme as reprises (em 1935 chegou a ser exibida uma versão de apenas 2h 30min.), mas atingiu 4h 41min. na versão atual restaurada, que saiu em dvd (juntamente com Cruzes de Madeira) pela Criterion (Eclipse Series).No Brasil o filme foi exibido no Cinema Odeon em dois capítulos em duas semanas.

Apesar da compressão da intriga, o grande afresco romântico foi levado à tela com muita fidelidade, conservando-se o “idealismo humano” do grande escritor. Em síntese, Jean Valjean (Harry Baur depois de cogitado Gabriel Gabrio) foi enviado para as galés por ter roubado um pão. Após sua libertação, ele é acolhido pelo bondoso bispo Myriel (Henry Krauss). Valjean lhe rouba uma baixela de prata. Os guardas o prendem, mas o prelado o inocenta, afirmando que lhe havia doado seu serviço de mesa, aos quais ele acrescenta dois candelabros de prata. A partir daí, sempre perseguido pelo implacável inspetor Javert (Charles Vanel), Valjean encontra uma galeria de personagens como Fantine (Florelle), Cosette (Josseline Gaël depois de cogitada Danielle Darrieux), os Thénardier (Charles Dullin, Marguerite Moreno), Marius (Jean Servais), Eponine (Orane Demazis depois de cogitada Arletty), Gavroche (Emile Genevois) etc … se redime pela bondade e pelo trabalho e se torna um verdadeiro santo.

Graças ao orçamento considerável que foi colocado à disposição do cineasta e aos eminentes artistas que o assistiram, Arthur Honegger (música) e seus colaboradores mais assíduos, Jean Perrier (cenários) e Jules Kruger (fotografia), ele conseguiu transpor cada trecho de antologia do livro em imagens memoráveis.

A preferência de Kruger pela abundância de composições com a câmera oblíqua, muito influenciada pelo estilo expressionista alemão foi perfeitamente complementada pela direção de arte deslumbrante de Perrier, que recriou exteriores da Paris do século dezenove em exteriores em Biot, cidade medieval perto de Antibes na Côte d’Azur.


O elenco de primeira grandeza deixou-se literalmente transportar pelo sopro épico. A interpretação de Harry Baur, que está sublime em todas as encarnações do personagem, jamais foi superada por outro ator. Também admiráveis são os trabalhos de Charles Vanel, como o inflexível Javert; Florelle, assumindo os traços luminosos de Fantine ; Charles Dullin e Marguerite Moreno, nos papéis de Thénardier e senhora, representando com seus sorrisos ávidos e sua fisionomias de raposa, a escória da sociedade.

Aproveitando o talento de Marcel Pagnol como adaptador do romance de Léon Daudet  e tendo Raimu como intérprete ideal daquele fanfarrão meridional que, por força de se vangloriar de caçadas imaginárias é levado para a África, Raymond Bernard realizou uma comédia parcialmente agradável e divertida. Na parte tarasconêsa da trama até a viagem de Tarascon para a África trata-se de uma comédia de costumes com uma observação pitoresca dos saborosos e simpáticos tipos meridionais; entretanto, na expedição algeriana, o filme cai muito, sucedendo-se uma série de episódios indigentes, para não dizer grotescos.

Como explicou Raymond Castans na sua biografia de Raimu (Éditions de Fallois, 1999), desde a primeira semana de filmagem  houve uma ruptura entre Marcel Pagnol e Raymond Bernard, pois eles tinham concepções de cinema bem diferentes. Bernard pertencia, como muitos realizadores, à tendência de René Clair, para o qual um filme falado continuava sendo um filme mudo, ao qual se juntava a palavra. Para Pagnol, era o contrário: no novo cinema, a palavra deveria ser predominante. Na adaptação de Pagnol, Tartarin sonhava suas aventuras sem sair de Tarascon o que, para Bernard, era o “anticinema”. Como, pensava este último, rodar um Tartarin sem leão, sem deserto, sem uma Fatma que fará a dança do ventre? Na segunda parte da narrativa, Bernard acrescentou todo esse amontoado de coisas exóticas ao trabalho de Pagnol, mostrando Raimu  com um barrete e uniforme de zuavo, a barbicha ao vento e o bacamarte. O resultado foi desastroso. Pagnol consolou Raimu: “Tartarin, é o nosso Don Quixote. Don Quixote é o mitômano perfeito, personagem que não suporta a transição para a tela”.

Os sete filmes restantes de Raymond Bernard nos anos trinta foram: Amants et Voleurs / 1935 (refilmagem da comédia Costaud de Épinettes / 1922 com Pierre Blanchar, Florelle, Michel Simon e Arletty); Dominadores do Espaço / Anne-Marie / 1936 (homenagem à aviação civil, escrita por Antoine de Saint-Exupéry, tendo como intérpretes Annabella e Pierre Richard-Willm); Le Coupable / 1936; Marthe Richard Au Service de La France / 1937; J’étais une aventurière / 1938; Les Otages / 1939 e Cavalgada do Amor / Cavalcade D’Amour / 1939 (filme escrito por Jean Anouilh e Jean Aurenche, constituido por três histórias de amor e casamento situadas em épocas diferentes, contando com a participação de Claude Dauphin, Michel Simon, Janine Darcey, Simone Simon e Corinne Luchaire). Ví apenas Le Coupable, Marthe Richard  e J’étais une aventurière.

Em Le Coupable, Jérôme Lescuyer (Pierre Blanchar), estudante de direito, vive uma história de amor com uma jovem florista, Thérèse (Madeleine Ozeray). Com a declaração da Primeira Guerra Mundial, ele é convocado, deixando Thérèse grávida. O pai de Jérôme (Gabriel Signoret), magistrado severo, recusa a ajuda que lhe pede Thérèse e lhe faz crer que seu filho morreu. Sentindo-se abandonada, Thérèse casa-se com seu primo Edouard (Marcel André), que adota a criança. Durante uma licença, Jérôme, sabendo que Thérèse se casou com outro, aceita um casamento arranjado com uma moça rica, Marie-Louise (Suzet Maïs). Brutalizada pelo marido, Thérèse morre, deixando seu filho (Gilbert Gil) à deriva. Este é preso por vagabundagem e conduzido para uma casa de correção. Libertado, agride um velho usurário e vai ser julgado em um tribunal. É justamente seu pai verdadeiro, agora promotor, que deve acusá-lo; porém, assumindo corajosamente sua própria responsabilidade, Jérôme consegue absolver o filho que até então ignorara, e os dois, enfim, se aproximam.

Trata-se de um melodrama, baseado em um romance de François Coppée, com uma sátira mordaz à uma certa burguesia mesquinha, denunciando outrossim o militarismo, o sistema repressivo das casas de correção e a justiça de classes.

O longo episódio do julgamento é um grande momento do filme, no qual o diretor manteve habilmente o equilíbrio entre a comicidade das testemunhas, a incompetência dos juízes e o patético do discurso de Jérôme, que a interpretação de Pierre Blanchar revestiu de uma grandeza trágica.

Marthe Richard é uma reconstituição fantasiosa da vida da espiã francêsa Marthe Betenfeld (Edwige Feuillère), durante a Primeira Guerra Mundial, focalizando suas relações com o chefe da contraespionagem alemã (Erich von Stroheim), chamado de von Ludow no filme.

Os roteiristas Steve Passeur, Raymond Bernard e Bernard Zimmer basearam-se no relato romanceado das aventuras de Marthe, publicado pelo Comandante Ladoux, um dos responsáveis pelo serviço secreto francês naquele período, sem se preocuparem com a autenticidade dos fatos. A cena de abertura, filmada com sombras expressionistas e enquadramentos inclinados, nos mostra Marthe como uma jovem inocente assistindo, em agosto de 1914, a execução de seus progenitores por soldados alemães cumprindo ordens de von Ludow. Na realidade, os pais da verdadeira Marthe  não foram fuzilados e ela, com a idade de 25 anos em 1914, já tinha 1`passado pela casa de correção até mesmo pela prostituição.

O filme prende a atenção do espectador, graças ao longo duelo que se desenvolve entre os personagens interpretados por von Stroheim e Edwige Feuillère e à aura dos dois astros, Stroheim, impondo como sempre a sua personalidade e suas excentricidades na caracterização do personagem (vg. a cadeira em forma de sela sobre a qual von Ludow toma seu café da manhã ao som de uma música militar).

O momento mais tocante da narrativa é o do suicídio de von Ludow, na qual o vemos, injetar em si mesmo um veneno e arrancar seus galões em planos barrocos enfeitados por candelabros, que dão à cena a impressão de um velório insólito. Sem o monóculo, ele é filmado como um ser ferido, traído e a música de Arthur Honegger reforça o patético dessa cena estranha, onde a própria Marthe parece comovida com o destino do seu inimigo.

Raymond Bernard dirigiu de novo Edwige Feuillère em uma comédia produzida por Grégor Rabinovitch (Ciné-Alliance): J’étais une aventurière. A heroína é uma condessa russa, Vera Vronsky (Edwige Feuillère), que seduz os homens ricos, para caloteá-los com a ajuda de dois cúmplices, Paulo (Jean Tissier) e Désormeaux (Jean Max). Porém Vera se apaixona por uma de suas vítimas, o industrial Pierre Glorin (Jean Murat), decide cessar sua vida de aventureira e se casa com ele. Após uma estada na prisão, Paulo e Désormeaux reaparecem e querem desviá-la do bom caminho. Vera revela seu passado a Pierre e eles conseguem se desembaraçar dos dois escroques.

Evidentemente, houve por parte do roteirista Jacques Companeez o propósito de  criar algo equivalente às comédias sofisticadas americanas, situadas em um universo de luxo,  construído em torno de uma mulher independente, viva e inteligente. Combinando beleza e elegância, Edwige Feuillère interpreta magnificamente esse tipo feminino, seguindo o modelo criado por Irene Dunne ou Katharine Hepburn. O filme se aproveita do seu charme (que ela usa não somente para seduzir os homens, mas também para acalmá-los depois que eles percebem que foram enganados), tem um ritmo fluente, leveza, boas surpresas e alguns toques lubistcheanos, constituindo-se em um espetáculo delicioso.

Com um roteiro original e impecável de Léo Mittler, Victor Trivas e Jean Anouilh, Les Otages é a meu ver a obra-prima de Raymond Bernard, que sofreu cortes e ficou perdida por muito tempo, mas desde 2004 pode ser vista em dvd, restaurada pela “Les Documents Cinématographiques”.

Em Champlagny-sur-Marne, o prefeito  Adrien Beaumont (Fernand Charpin) e o castelão M. Rossignol (Saturnin Fabre), discutem sobre um direito de passagem, deixando em uma posição delicada seus respectivos filhos, Pierre (Jean Paqui) e Annie (Annie Vernay), que estão apaixonados um pelo outro. Porém a cidade é perturbada pela guerra: os jovens são convocados e as tropas alemãs ocupam Champlagny. Um oficial alemão é morto por Pierre, que havia sido convocado e acabado de se casar secretamente com Annie. É justamente Beaumont, inimigo íntimo de Rossignol, quem ajuda Pierre a fugir e se juntar às linhas francêsas. O comandante do exército alemão exige que cinco habitantes se apresentem como reféns, até que o culpado se apresente, caso contrário eles serão mortos, para que a cidade não seja destruída. O prefeito, Rossignol, o oficial de justiça (Pierre Larquey), o guarda-campestre (Noël Roquevert) e o barbeiro (Pierre Labry) se oferecem como prisoneiros da Kommandatur e aguardam seu destino funesto. Quando chegam à prisão encontram lá o caçador furtivo das redondezas (Dorville) como um sexto refém, por ter ofendido os alemães. Beaumont e Rossignol se unem diante da adversidade, mas quando um contra ataque, em plena Batalha do Marne, os liberta, os rancores reaparecem, até que, ao verem a propriedade objeto de sua controvérsia destruída, ambos  esquecem suas antigas disputas.

A produção foi iniciada em 1938, quando predominava o medo de outro conflito europeu e a França se sentia ameaçada pelos seus vizinhos fascistas. Embora não seja um filme pacifista ele transmite algum sentimento anti-bélico que está resumido na cena final na qual os dois rivais, Beaumont e Rossignol, fazem as pazes. Isto é quase uma convite para que os dois lados da guerra iminente resolvam suas diferenças pacificamente em vez de destruirem todo um continente. Infelizmente quando o filme foi lançado em 1939, a guerra se tornara inevitável.

Graças à rica caraterização dos personagens por um grupo de grandes atores (os chamados “excentriques du cinema français”, que geralmente eram vistos em papéis coadjuvantes), Les Otages é uma obra que diz muito sobre o período na qual foi feita e também sobre a natureza humana. Ele mostra a necessidade das pequenas comunidades ficarem unidas em uma época de crise, a futilidade de divergências mesquinhas e também o medo e a ansiedade que acompanham os atos de heroísmo.

Serve como exemplo desse último aspecto a sequência hilariante mas comovente, na qual, a caminho do cárcere, os cinco reféns dão uma corrida rápida para atrás de um monte de feno, a fim de aliviarem seus ventres desarranjados pela angústia, que ele não ousam exprimir.  Um outro momento  parecido é o do retorno dos “heróis” que, à vista das silhuetas de seus conterrâneos, que correm em sua direção para saudá-los efusivamente, confundem-nos com as tropas alemãs e fogem amendrontados.

Ao lado da coragem e sentimento de patriotismo de alguns habitantes, como o caçador furtivo e o velho “Pére Labiche”, que reivindicam comicamente o direito de ser refém, privilégio que, segundo eles, deve caber também aos simples homens do povo e não somente aos cidadãos eminentes, há lugar na trama para os covardes, como o barbeiro que teme ser escolhido e o conselheiro Tartagnac (Marcel Pérès) que, depois de ter sido sorteado, apesar de seus princípios militares de honra, se suicida.

É precisamente a dosagem certa entre drama e humor (e um certo suspense) que dá todo o encanto a esse clássico pouco conhecido do cinema francês.

Cavalcade d’Amour, que Raymond Bernard realizou depois de Les Otages, foi o seu último filme antes da Segunda Guerra Mundial. Com a ocupação alemã, devido a sua origem judaica, ele teve que suspender sua carreira e fugir para o maquis de Vercors, onde se encontrou com sua esposa Jeannette e seu irmão Étienne, que se tornou médico-chefe dos movimentos da Resistência. Após a Libertação, o cineasta resolveu prestar uma homenagem ao maquis de Vercors, onde encontrou refúgio, e foi um roteiro de Jacques Companeez, que lhe deu esta oportunidade.

A ação de Un ami viendra ce soir situa-se em um hospital psiquiátrico nas cercanias de uma pequena cidade dos Alpes Francêses. No interior da clínica, administrada pelo Dr. Lestrade (Marcel André), estão Lemaret (Michel Simon) que se diz presidente do “país da inocência”; Prunier (Saturnin Fabre),  que perambula de peito nú, ardendo de um “fogo interior”; a “baronesa” (Lily Mounet), que humilha a todos com o seu desprezo; Martin (Louis Salou, depois de cogitado Louis Jouvet), comissário de policia aposentado, que escrutiniza rigorosamente seus companheiros; Pierre (Daniel Gélin), um poeta exaltado; Jacques (Jacques Clancy), um pianista taciturno; e a loura Hélène (Madeleine Sologne), uma jovem perdida nos seus sonhos. De repente, a vida cotidiana do estabelecimento é transtornada pela chegada de soldados alemães à procura do comandante Gérard, o chefe dos resistentes da região. Maurice Tiller (Paul Bernard), agente da gestapo encarregado de desmascarar Gérard, faz-se passar por um cirurgião suíço e seduz Hélène, que se torna sua amante. Ocorre que Lestrade, Pierre, Jacques, Hélène e alguns outros são camaradas da rede de resistência, que se escondem na clínica e, com seu líder Gérard (disfarçado como Martin), aguardam a mensagem da Radio-Londres “Un ami viendra ce soir”, para passar à ofensiva. Ao descobrir a verdadeira identidade de Tiller, Hélène lhe revela que é judia e o abate antes de perder a razão.

Combinando mais uma vez drama e comédia, Raymond Bernard nos faz viver nesse meio curioso de demência, onde convivem loucos falsos e verdadeiros, um nazista camuflado apaixona-se por uma judia de nervos frágeis e a agressão germânica é tratada com moderação – os oficiais alemães demonstram um auto-domínio e uma nobreza surpreendentes.

E, tal como em Les Otages, um grupo de atores extraordinários, comumente vistos em segundo plano (Michel Simon, Saturnin Fabre, Louis Salou), dão um show de interpretação, principalmente na cena muito engraçada do interrogatório, quando eles expõem a alienação de seus personagens, respondendo arrogantemente ao oficial alemão, sem demonstrarem o menor temor do inimigo.

Os filmes seguintes de Raymond Bernard foram: Até Logo, Querida / Adieu Chérie / 1946,  comédia romântica com Danielle Darrieux; Maya,  a Desejável / Maya / 1949; Le Jugement de Dieu / 1950, drama histórico sobre o relacionamento de Agnès Bernauer (Andrée Debar) com Albert, futuro Duque da Baviera (Jean-Claude Pascal); Le Cap de L’Espérance /1951; La Dame aux Camélias / 1952, adaptação da peça de Alexandre Dumas filho com Micheline Presle como Marguerite Gauthier; La Belle de Cadix / 1953; Frutos do Verão Les Fruits de L’Été / 1954 e Le Septième Commandement / 1956, comédias sofisticadas ambas com Edwige Feuillère e Le Septième Ciel / 1957, comédia de humor negro com Danielle Darrieux. Ví apenas,  Maya, a Desejável, Le Cap de l’ Espérance e La Belle de Cadix.

A heroína de Maya é Bella (Vivianne Romance), personagem simbólica de prostituta que, à imagem da “maya” hindu (a ilusão universal, de aparências múltiplas), torna-se para cada homem de passagem, aquela que ele espera, que ele imagina.

Vivianne Romance identificou-se com a personagem. Ela disse em uma entrevista: “ Esta mulher – animal e deusa, fêmea e fada, inacessível e presente – me atraiu violentamente e me conquistou, pela sua humanidade profunda, seu mistério e, ouso dizer, pela sua pureza natural”.

O tema do filme é cativante e poético. Raymond Bernard tentou incutir poesia nas imagens, e conseguiu fazer isso algumas vezes; porém o grande trunfo do espetáculo é mesmo a presença marcante da atriz.

Em Le Cap de l’Espérance,  história de amor e de traição situada em um universo de gangsters, o cineasta procurou ornamentar o relato com um certo realismo poético de antes da guerra, em um cenário portuário onde vão se desfazer as esperanças de fuga e de uma vida melhor. “Sempre sonhei morar em um porto”, confessa Lyria (Edwige Feuillère), “tem barcos … Oh, a gente nunca os pega, mas ainda assim, eles podem nos levar, um dia…”. “Para onde”, lhe pergunta o comissário Troyon (Jean Debucourt), com a qual ela viveu um dia uma história de amor. “Algures”, ela responde, evasivamente.

Filmada quase sempre em uma quase-penumbra, onde esconde suas feridas e sua prostração, Lyria, dona de um bar apaixonada por um advogado (Frank Villard) que se envolveu com malfeitores e a traiu com outra (Cosetta Greco) – filha do chefe da quadrilha (Paolo Stoppa) -, é a única personagem que atrai realmente o público.

La Belle de Cadix é a versão francêsa da opereta de Francis Lopez, La Bella de Cadiz, em cujo enredo o cantor Carlos Molina (Luis Mariano), astro de uma produção que está sendo filmada no Sul da Espanha,  após alguns equívocos, contrai um matrimônio fictício, que todos crêem real, com sua parceira espanhola, a cigana Maria Luisa (Carmen Sevilla); eles brigam, mas finalmente confessam seu amor mútuo e Carlos rompe com sua noiva Alexandrine (Claude Maurier).

O argumento não importa, porque o filme tem tudo o que é preciso para agradar aos fãs de Luis Mariano e Carmen Sevilla, uma dupla de muito sucesso nos anos cinquenta, unindo com talento o canto e a dansa à sua juventude e seu charme pessoal. Raymond Bernard limitou-se a filmar essa história de amor em paisagens pitorescas, utilizando ao máximo as possibilidades do Gevacolor. A música de Francis Lopez é tanto doce e melancólica quanto trepidante, resultando números musicais agradáveis.

Pelo que pude conhecer da obra de Raymond Bernard, embora não tivesse alcançado o status artístico de um Julien Duvivier, Jean Renoir ou Marcel Carné, ele pode ser considerado um cineasta muito importante do cinema clássico francês, devendo ser melhor conhecido e reverenciado pelas novas gerações de estudiosos do cinema.

2 Responses to “RAYMOND BERNARD II”

  1. Olá, parceiro, estou de volta, pronto para trocar comentários e seguir suas postagens. Fico feliz em ver que seu blog continua a todo vapor.
    Cumprimentos cinéfilos!

    O Falcão Maltês

  2. Sua visita é sempre um prazer.

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