FILME NOIR I

March 21, 2014

Film Noir é uma expressão inventada por alguns críticos francêses no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, para designar um grupo de dramas criminais americanos, produzidos a partir dos anos quarenta, com certos traços comuns que os distinguiam dos filmes policiais feitos antes da guerra. Eles usaram a palavra noir, inspirando-se na Série Noire, que era uma coleção de romances policiais com uma capa preta, criada por Marcel Duhamel para a editora Gallimard. Como a maioria desses romances eram traduções em francês de obras de autores americanos como Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M. Cain, Cornell Woolrich etc. e os dramas criminais cinematográficos também se baseavam nos livros desses romancistas, por analogia com o nome da coleção, eles os chamaram de filmes noirs.

Durante a ocupação alemã, os filmes dos estúdios de Hollywood não podiam ser exibidos na França. A proibição começou na zona ocupada e, a partir de outubro de 1942, estendeu-se a todo o território francês. Quando o país foi libertado, a produção acumulada dos últimos quatro anos inundou o mercado cinematográfico. Em poucas semanas, sucederam-se nas telas parisienses Relíquia Macabra/ The Maltese Falcon/ 1941 de John Huston,  Laura / Laura / 1944 de Otto Preminger, Até a Vista, Querida / Murder, my Sweet /1944 de Edward Dmytryk, Pacto de Sangue / Double Indemnity / 1944 de Billy Wilder  e Um Retrato de Mulher / Woman in the Window / 1945 de Fritz Lang, e os críticos começaram a notar que estes dramas criminais possuíam traços comuns no que se referia ao tema, personagens, atmosfera, estrutura narrativa e estilo visual.

Humphrey Bogart em Relíquia Macabra

Humphrey Bogart em Relíquia Macabra

Eles não procediam de uma forma de produção original – não eram “cinema de arte” de qualquer espécie – nem suas equipes criativas constituíam um grupo ou uma escola dentro de Hollywood. O termo filme noir era desconhecido pela indústria cinematográfica e pelas platéias. Nem Huston, nem Preminger, Dmytryk, Wilder ou Lang tinham consciência de estavam fazendo filmes noirs. O termo filme noir foi criado a posteriori pelos críticos.

O crítico Nino Frank foi o primeiro a empregar o termo film noir em um artigo intitulado “Un Nouveau genre ‘policier’ : l’aventure criminelle”, publicado na revista Écran Français nº 61 em  agosto de 1946. Ele não empregava a palavra noir no título, mas dizia em um trecho: “Ainsi, ces films ‘noirs’ n’ont-ils pas rien de comun avec les bandes policières de type habituel; ce qui y importe vraiment ce sont les visages, les comportements, les paroles”. Em novembro do mesmo ano, um outro crítico, Jean-Pierre Chartier, escreveu na Revue du Cinéma nº2 um artigo denominado “Les Américains aussi font des films noirs”, usando o adjetivo noir no próprio título. Finalmente, em 1954, surgiu um livro pioneiro, “Panorama du Film Noir Américain 1941-1953”, escrito por Raymond Borde e Étienne Chaumeton (Éditions de Minuit), que, apesar de suas limitações, serviu de base para todos os estudos posteriores sobre a matéria.

O termo e o conceito de filme noir demoraram um pouco para serem adotados pelos críticos anglo-saxões. A primeira abordagem em língua inglêsa sobre o assunto só apareceu quatorze anos depois, no capítulo “Black Cinema” do livro “Hollywood in the Forties”, de Charles Higham e Joel Greenberg (A. S. Barnes, 1968). Desde então, aumentou muito a literatura sobre filme noir, principalmente nos Estados Unidos a partir de 1976, quando foi publicado “Towards a Definition of the American Film Noir: 1941-1949, de Amir Massoud Karimi (Arno Press, 1976).

A bibliografia do filme noir é cada vez mais extensa e especializada, pois ele continua sendo uma categoria fílmica muito debatida pelos estudiosos do cinema. Cada crítico ou historiador apresenta a sua definição e uma lista pessoal de filmes para justificá-la. Para complicar, nenhuma lista é igual a outra. No que diz respeito ao assunto filme noir prevalece o ditado popular: “Cada cabeça, uma sentença”.

Existem controvérsias sobre seu período de vigência (anos 40/50 ou até os nossos dias?) e seus limites geográficos (pode haver filme noir realizado fora dos Estados Unidos?).

Cena de Homens em Fúria

Cena de Homens em Fúria

Entendo que há um período clássico do filme noir, que vai de Relíquia Macabra / 1941 a Homens em Fúria / Odds Against Tomorrow / 1959. Nos anos sessenta inicia-se, de forma irregular, um período novo noir ou neo-noir (vg. Detetive Marlowe em Ação / Marlowe / 1969), que assume maior força a partir dos anos setenta (vg. O Perigoso Adeus / The Long Goodbye / 1973, Chinatown / Chinatown / 1974, Um Lance no Escuro / Night Moves / 1975). O filme neo-noir é autoconsciente e incorpora as convenções narrativas e estilísticas do filme noir clássico, projetando-as em um quadro cinematográfico moderno (cor, tela larga, sistemas de som mais avançados, montagem frenética, etc.). Como todo gênero, o filme noir modificou-se, para se manter de acordo com os novos tempos. E muitos filmes noirs clássicos inspiraram refilmagens. Nos anos oitenta e noventa os realizadores se animaram ainda mais para homenagear ou reavivar o filme noir (vg. Corpos Ardentes / Body Heat / 1981, O Destino Bate à Porta / The Postman Always Rings Twice / 1981, Morto ao Chegar / D.O.A. / 1988, Voltar a Morrer / Dead Again / 1991, O Poder da Sedução / The Last Seduction / 1994, Fugindo do Passado / Twilight / 1998).

Dana Andrews em Laura

Dana Andrews em Laura

Quanto à extensão territorial, o filme noir está enraizado em um tempo e lugar particulares – a América urbana contemporânea. Mas, assim como acontece com o western, gênero americano por excelência, nada impede que sejam produzidas imitações de filmes noirs na Europa ou em outros países.

Entretanto, a discussão mais importante é com relação à natureza do filme noir. Seria um movimento, um ciclo, um estilo, um gênero? A meu ver, o filme noir não é um movimento como o Expressionismo Alemão, o Neo-Realismo Italiano ou a Nouvelle Vague Francêsa, porque é menos autoconsciente e articulado. Nem um ciclo como o das comédias da Ealing ou o dos filmes de horror da Hammer, porque não é tão restrito no tempo.

Resta saber se é um estilo ou um gênero. Existem adeptos de ambos os conceitos. Respeitando as opiniões em contrário, entendo (como Nino Frank, que foi o inventor do termo e disse cristalinamente: “Un Nouveau genre …”) que o filme noir é um gênero, ou melhor, digo eu, um subgênero do drama criminal. Penso que o gênero drama divide-se basicamente em: melodrama, drama social, drama psicológico, drama romântico, drama histórico, drama político, drama esportivo, drama de guerra e drama criminal. O drama criminal, por sua vez, pode ser subdividido em: filme de gângster, filme de assalto, filme de prisão, filme de procedimento policial, filme de amantes fugitivos ou fora-da-lei, filme noir etc. Assim sendo, o filme noir se incorpora em um gênero preexistente: o drama criminal. No meu convencimento, um filme, para ser considerado noir, tem que ser, antes de tudo, um drama criminal.

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, Querida

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, Querida

Se considerarmos o filme noir apenas como um estilo, poderíamos ter western noir, filme de ficção científica noir, musical noir, e até comédia noir etc., porém creio que, se aceitarmos a ocorrência deste fenômeno transgenérico, corremos o risco de descaracterizar o filme noir: não existiria propriamente um tipo de filme (o filme noir) distinto dos demais, mas somente, para usarmos a frase pitoresca de Jeanine Basinger (American Cinema-One Hundred Years of Filmmaking, Rizzoli, 1994), “uma espécie de vírus que ataca um gênero saudável e faz ele ficar doente”.

Além disso, o estilo dos primeiros filmes noirs da década de quarenta é radicalmente diferente do estilo dos filmes noirs da década de cinquenta. O expressionismo extravagante dos primeiros noirs cedeu lugar para um estilo menos brilhante, mais realista dos anos cinquenta. Ou seja, o filme noir tem mais de um “look”.

Acompanho Foster Hirsch (Film Noir: The Dark Side of the Screen, DaCapo, 1981) na sua percepção de que o filme noir tem todas as espécies de convenções fílmicas que normalmente associamos com gêneros cinematográficos (convenções de estrutura narrativa, caracterização, tema e estilo visual) e o uso repetido destas convenções o qualifica como um gênero, tão intensamente codificado quanto o western.

Não há dúvida de que, tanto certas convenções temáticas quanto o estilo visual noir, são muito fortes e podem contaminar quaisquer gêneros mas, neste caso, o filme contaminado não deixa de pertencer ao seu gênero originário. Por exemplo, Sangue na Lua / Blood in the Moon / 1948 pode ter ingredientes noir no seu conteúdo e na sua forma, porém não deixará de ser um western, um western noir se quiserem, mas sempre um western; não será um filme noir porque, como já disse, para ser filme noir, tem que ser antes de tudo um drama criminal (Nino Frank deixou bem claro: “… l’aventure criminelle”).

Por causa da concepção do filme noir como um estilo, é que existem tantas listas de filmes noirs tão abrangentes, algumas chegando ao absurdo. Recentemente, Michael F. Keaney no seu livro “Film Noir Guide” (Mc Farland, 2011) enumera nada menos do que 745 filmes noirs possíveis, entre eles: Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca / 1940, O Homem Que Vendeu a Alma / The Devil and Daniel Webster / 1941, Casablanca / Casablanca / 1942, Os Filhos de Hitler / Hitler’s Children / 1943, O Retrato de Dorian Grey / The Picture of Dorian Grey / 1945, Amar foi Minha Ruina / Leave Her to Heaven / 1945, Monsieur Verdoux / Monsieur Verdoux / 1947, Crepúsculo dos Deuses / Sunset Blvd. / 1950, A Morte do Caixeiro Viajante / Death of a Salesman / 1951, O Homem do Oeste / Man of the West / 1958.

Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue

Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue

Na coletânea editada por Alain Silver e James Ursini, “Film Noir Directors” (Limelight, 2012), variados articulistas nomeiam os filmes noirs de cada diretor, emergindo entre eles: Carta de uma Desconhecida / Letter from an Unknown Woman / 1948 (Max Ophuls), Atlântida, o Continente Perdido / Siren of Atlantis / 1949 (John Brahm), Jardim do Pecado / Garden of Evil / 1958 (Henry Hathaway), Intriga Internacional / North by Northwest / 1959 (Alfred Hitchcock), O Dia em que a Terra Parou / The Day the Earth Stood Still / 1951 (Robert Wise).

Raymond Durgnat no seu artigo Paint it Black: The Family Tree of the Film Noir, publicado em Film Noir Reader, editado por Alain Silver e James Ursini (Limelight, 1996) aponta como filmes noirs : King Kong / King Kong / 1933, Matar ou Morrer / High Noon /  1952 e 2001, Uma Odisséia no Espaço / 2001, A Space Odyssey / 1968.

Com a devida vênia, nenhum desses filmes pode ser classificado como noir, simplesmente porque eles não são dramas criminais. Crepúsculo dos Deuses e Amar foi Minha Ruina, que vêm sendo designados por vários autores como noirs desde a Enciclopédia de Alain Silver e Elizabeth Ward (Overlook Press, 1979), embora contenham crimes nas suas tramas, são dramas psicológicos, respectivamente sobre os distúrbios mentais de uma atriz decadente do cinema mudo e uma mulher possuída por um ciúme doentio do marido.

Joan Bennett e Edward G. Robinson em Um Retrato de Mulher

Joan Bennett e Edward G. Robinson em Um Retrato de Mulher

Em O Outro Lado da Noite: Filme Noir (Rocco, 2001), indiquei como noirs, filmes que não eram dramas criminais (vg. Angústia / The Locket / 1947, Alma em Suplício / Mildred Pierce / 1945, Gilda / Gilda / 1946, Acossado / Cornered / 1945, Anjo do Mal / Pickup on South Street / 1953, Nuvens de Tempestade / The Woman on Pier 13, No Silêncio da Noite / In a Lonely Place / 1950, O Tempo Não Apaga / The Strange Love of Martha Ivers / 1946, Ao Cair da Noite / Moonrise / 1949 mas sim,  respectivamente, um melodrama (os três primeiros), uma drama de guerra (o quarto), um drama político ou de propaganda anticomunista (o quinto e o sexto), um drama romântico (o oitavo) e um drama psicológico (o nono e o décimo). A presença de elementos noirs em todos esses filmes me confundiu; porém devo dizer que a maioria dos autores continuam considerando-os como filmes noirs.

Deixei de incluir como noir alguns dramas criminais que não tinha visto (vg. Johnny Angel / Johnny Angel / 1945, The Lady Confesses / 1945, Mulher Dilinger / Decoy / 1946, Prisioneiro do Medo / The Pretender / 1947, Maré Alta / High Tide / 1947, Impacto / Impact / 1949, Desafiando o Perigo / Red Light / 1950, Na Noite do Crime / Woman on the Run / 1950, Cidade Tenebrosa / Crime Wave / 1954, Fúria Assassina / Naked Alibi / 1954, Pecado e Redenção / Rogue Cop / 1954).

Richard Widmark em Sombras do Mal

Richard Widmark em Sombras do Mal

Para ser franco, ainda tenho dúvidas sobre se determinados filmes, são noir ou não, porque nem sempre é fácil distinguir o gênero de um filme. Sombras do Mal / Night and the City / 1950 tem todos os ingredientes de um filme noir, porém a ação transcorre fora do ambiente urbano americano. E seria um drama criminal? Ou um drama psicológico? Borde e Chaumenton escolheram a foto de Richard Widmark como o seu personagem em Sombras do Mal para a capa do seu livro pioneiro sobre o filme noir. Entretanto, no Índice Cronológico das Séries (pois eles consideravam o fenômeno noir como uma série, sugerindo, não se sabe bem, se um ciclo ou um gênero) os dois autores não colocaram o filme de Jules Dassin entre os Films Noirs, mas sim entre os de Psychologie Criminelle, ao lado de Amar foi Minha Ruina, como se fosse um drama psicológico, onde ocorre um crime. Outro exemplo seria Loura de Gelo / Blonde Ice / 1948,  que vem sendo apontado como filme noir, porém acho que se trata mais de um drama psicológico. Spencer Selby  (Dark City – The Film Noir, McFarland, 1894) tinha razão ao sugerir que “o filme noir é talvez a mais escorregadia de todas as categorias fílmicas”.

Todavia, é melhor ter algumas dúvidas de classificação, do que cair na teoria do filme noir como estilo que, como já disse, leva à descaracterização do filme noir como tipo fílmico autônomo e à listagens delirantes. (vg. King Kong como filme noir é demais!).

Mas é preciso deixar bem claro que não basta que um filme seja um drama criminal para ser noir.  Ele tem que ter elementos típicos no que concerne ao tema, personagens, atmosfera, estrutura narrativa e estilo visual.

3 Responses to “FILME NOIR I”

  1. Custo a imaginar que já se passaram treze anos desde a publicação de “O Outro Lado da Noite”. Seu livro tornou-se obrigatório para qualquer estudioso do film noir. Cumpre, contudo, saudá-lo pela excelente ideia de revisitar o tema aqui no Histórias de Cinema. Afinal, o incansável estudioso que você é encontrará sempre meios de enriquecer e trazer novas perspectivas mesmo a um assunto sobre o qual já havia se debruçado longamente. Cumprimento-o pelo tipicamente límpido, abrangente e instigante texto, esperando que a matéria continue a merecer sua atenção.

  2. Infelizmente, com os poucos dados que me deu não posso ajudá-la

  3. Obrigado Sergio. Um elogio seu – apesar de suspeito, porque você é meu amigo – é valiosíssimo, pois sou admirador da sua cultura cinematográfica incomensurável. Pretendo dar prosseguimento ao tema nos próximos artigos. O filme noir é um assunto muito controvertido e, portanto, instigante. Mais uma vez, obrigado e aguardo ansiosamente seu novo livro.Tenho acompanhado suas pesquisas e posso lhe assegurar que não conheço nada igual em toda a bibliografia de cinema mundial. Um forte abraço.

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