JAMES STEWART

June 22, 2017

Alto, magro, reconhecido pelo público pela sua maneira de falar lenta e hesitante, James Stewart encarnou como ninguém a figura de um homem correto, tornou-se um símbolo do patriotismo como o primeiro ator de Hollywood a entrar para o serviço das Fôrças Armadas na Segunda Guerra Mundial, e conquistou uma popularidade consistente ao longo de toda a sua trajetória artística.

James Stewart

James Maitland Stewart (1908 – 1997) nasceu em Indiana, cidade da Pennsylvania, filho de Elizabeth Ruth Jackson e Alexander Maitland Stewart, dono de uma loja de ferragens muito próspera. Seus pais eram respectivamente de descendência irlandêsa e escocêsa e Stewart foi criado como Presbiteriano. Ainda bem jovem, ele aprendeu a tocar acordeão e, na escola secundária Mercersburg Academy, dedicou-se ao esporte, arte dramática e música. Durante as férias de verão, Stewart trabalhou com operário na construção de estradas. Posteriormente, na Universidade de Princenton, integrou o Triangle Club, trupe teatral da faculdade, passando rapidamente de acordeonista para papéis principais em comédias musicais. Formou-se em arquitetura em 1932.

A Depressão oferecia pouca procura por arquitetos, de modo que Stewart aceitou o convite de um colega de universidade, Joshua Logan, para ingressar na University Players, companhia intercolegial que apresentava peças teatrais apenas durante o verão em West Falmouth, Massachussetts. Ali ele conheceu Henry Fonda, que se tornaria um grande amigo por toda a sua vida.

O jovem Stewart e seu acordeão

No final da temporada, Stewart foi para Nova York, onde atuou brevemente em peças que ficavam pouquíssimo tempo em cartaz até que, a partir de 1934, recebeu um importante papel em “Yellow Jack”, como um soldado que servia de cobaia em uma pesquisa sobre febre amarela. Finalmente, na representação de “Divided by Three”, interpretando um jovem atordoado pelo adultério de sua mãe, chamou a atenção de um caçador de talentos da MGM. Depois de fazer alguns testes, ele assinou um contrato com “A Marca do Leão” em abril de 1935 com o salário de 350 dólares por semana. Por curiosidade, em 1934, ele já havia participado de uma comédia curta de Shemp Howard na Warner Bros., intitulada Art Troubles, que lhe serviu apenas para dizer no futuro, que havia contracenado com um dos Três Patetas. Como ele recordaria, “Eu não estava interessado em fazer o filme, mas a oferta de 50 dólares por dia parecia inacreditável para mim na época, e tive que saber se não era uma piada. Não era”.

Stewart na porta da loja de ferragens do pai

O primeiro trabalho de Stewart no estúdio foi como participante de testes para as novas estrelinhas. A princípio ele teve dificuldade em ser escolhido para compor o elenco dos filmes por causa de sua aparência (muito alto – um metro e noventa um), magro, desajeitado, e uma presença na tela tímida e humilde. O ator relatou como a MGM tentou em vão aproveitá-lo no papel de um camponês chinês em Terra dos Deuses / 1937: “O trabalho de maquilagem durou toda a manhã. Eles colocaram uma careca de borracha na minha cabeça, puxaram minhas pálpebras com um adesivo, e cortaram minhas pestanas … Como eu era muito alto, eles tiveram que cavar uma vala, na qual eu entrei e caminhei lado a lado com o astro, Paul Muni. Então Muni começou a perder o equilíbrio, tropeçou, e caiu dentro da vala. Após três dias de tentativas, Mayer finalmente mandou parar, e deu o papel para Keye Luke”.

Stewart fez sua estréia em um longa-metragem como um repórter novato em Entre a Honra e a Lei / The Murder Man / 1935 ao lado de Spencer Tracy, que, percebendo sua aflição, lhe disse “para esquecer que a câmera estava lá” e depois recordaria que, desde a sua primeira cena, ele já demonstrava todas as aptidões para ser um bom ator.

James Stewart, Jeanette MacDonald e Nelson Eddy em Rose Marie

Em seguida, Stewart ficou afastado das câmeras por três mêses, exceto para participar dos testes. Mas com Rose Marie / Rose-Marie / 1936, opereta estrelada por Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, na qual fez um papel de destaque – o irmão fugitivo da heroína -, conseguiu garantir sua presença em mais oito filmes no mesmo ano: Amemos Outra Vez / Next Time We Love, emprestado para a Universal a pedido de Margaret Sullavan, a atriz principal do filme, que o estimulou a ser ele mesmo totalmente, e mais confiante nos seus dotes interpretativos; Ciúmes / Wife vs. Secretary, figurando em quarto lugar nos créditos, depois de Clark Gable, Jean Harlow e Myrna Loy, como um pretendente da secretária desempenhada por Harlow;

James Stewart e Janet Gaynor em Garota do Interior

Joan Crawford, Barbara Stanwyck (de visita), James Stewart e Henry Fonda (de visita) no set de Mulher Sublime

Cena de Nascí para Bailar

James Stewart como assassino em A Comédia dos Acusados

Garota do Interior / Small Town Girl, como rival romântico (e rústico) de Robert Taylor pelas afeições de Janet Gaynor; No Limite da Velocidade / Speed, no seu primeiro papel principal – como um mecânico obcecado em desenvolver um carburador mais aperfeiçoado – ao lado de Wendy Barrie; Mulher Sublime / The Gorgeous Hussy, como um dos namorados, além de Robert Taylor, Melvyn Douglas e Franchot Tone, da personagem de Joan Crawford; Nascí para Bailar / Born to Dance, como um marujo envolvido em um romance com Eleonor Powell, que é atrapalhado por Virginia Bruce – e ele canta “Easy to Love” para Eleonor, ajudado por Cole Porter; A Comédia dos Acusados / After the Thin Man, no papel surpreendente de um assassino em mais um filme da série The Thin Man, estrelada por William Powell e Myrna Loy.

James Stewart e Simone Simon em Sétimo Céu

Robert Young, Tom Brown e James Stewart em Juventude Valente

Em 1937, Stewart foi novamente emprestado, desta vez para a 20thCentury-Fox, a fim de compor o elenco da refilmagem de Sétimo Céu / Seventh Heaven, como o limpador de esgotos enamorado de uma jovem sofrida das ruas de Montmartre (Simone Simon), e fez mais dois filmes na MGM: O Último Gangster / The Last Gangster e Juventude Valente / Navy, Blue and Gold, neles interpretando, respectivamente, um repórter que se casa com a ex-esposa de um gângster (Edward G. Robinson) e um cadete passando por atribulações na Academia Naval em Annapolis, ao tentar limpar a honra de seu pai.

Walter Huston, Beulah Bondi e James Stewart em Ingratidão

O ano de 1938 foi muito vantajoso artisticamente para a carreira de Stewart, porque, depois de fazer na MGM: Ingratidão / Of Human Hearts, como o filho de um pregador religioso (Walter Huston) que se torna cirurgião graças aos esforços de sua mãe (Beulah Bondi) e O Último Beijo / The Shopworn Angel, como o inocente fazendeiro do Texas prestes a embarcar como soldado para a Primeira Guerra Mundial, relacionado sentimentalmente com uma irreverente artista do teatro de revista (Margaret Sullavan) e, na RKO: Que Papai Não Saiba / Vivacious Lady, como um professor de botânica assistente apaixonado por uma cantora de boate (Ginger Rogers), que custa a encontrar coragem para anunciar seu matrimônio a seus pais e à sua ex-noiva. Na RKO, ele se encontrou com Frank Capra, que seria responsável por três grandes sucessos do ator.

Cena de Do Mundo Nada se Leva

Frank Capra em uma comemoração com o elenco no intervalo da filmagem de De Mundo Nada se Leva

Cena de Do Mundo Nada se Leva (James Stewart e Jean Arthur no centro)

Foi o realizador nascido na Itália que solicitou Stewart da MGM para a adaptação da peça “You Can’t Take It With You” de George S. Kaufman e Moss Hart (intitulada no Brasil, Do Mundo Nada se Leva), na qual o ator, como o filho de um milionário (Edward Arnold) apaixonado pela neta (Jean Arthur) do patriarca (Lionel Barrymore) de uma família excêntrica, demonstrou uma espontaneidade maior do que a que Margaret Sullavan lhe havia sugerido e teve seu nome ligado pela primeira vez a uma produção premiada com o Oscar.

James Stewart e Claudette Colbert em Que Mundo Maravilhoso

Ainda na década de trinta, Stewart fez mais cinco filmes: Nascidos para Casar / Made for Each Other, como um advogado as voltas com problemas no seu casamento (com a personagem de Carole Lombard); Folia no Gelo / The Ice Follies of 1939, compondo com Joan Crawford, um par de patinadores no gelo que vê seu matrimônio abalado quando ela busca o estrelato no cinema; Que Mundo Maravilhoso / It’s a Wonderful World, como um detetive particular que, ao fugir da polícia, depois de ter sido preso por uma acusação injusta, sequestra uma poetisa (Claudette Colbert), por quem se apaixona; A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington (com Jean Arthur na Columbia) e Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again (Com Marlene Dietrich na Universal), assumindo em ambos os traços de um jovem honesto, que luta contra a corrupção.

James Stewart em A Mulher faz o Homem=

James Stewart e Jean Arthur em A Mulher faz o Homem

No primeiro filme (orientado mais uma vez por Frank Capra), como o senador idealista do interior, Stewart expressou admiravelmente as virtudes do bom moço americano, atingindo excepcional eloquência nas cenas finais, quando discursa por horas a fio. Stewart tinha que ficar rouco nos momentos derradeiros de sua obstrução, mas teve dificuldade em fingir sua rouquidão, principalmente quando tinha que projetar sua voz. Capra consultou um otorrinolaringologista e perguntou: “Doutor, o senhor sabe como reduzir a rouquidão, mas será capaz de induzí-la? “. “Sim, eu acho que posso”, ele respondeu. Duas vêzes ao dia a garganta de Stewart foi esfregada com algodão embebido de uma detestável solução de mercúrio, que inchava e irritava suas cordas vocais. O resultado foi espantoso. Pelo seu trabalho, Stewart recebeu sua primeira indicação para o Oscar.

James Stewart e Marlene Dietrich em Atire a Primeira Pedra

No segundo filme, seu primeiro western, gênero com o qual se tornaria identificado mais tarde na sua carreira, Stewart também interpretou um rapaz decente, desta vez como o xerife pacifista de uma pequena cidade do faroeste, que expõe um bando de assassinos e impõe a justiça – pelo menos até o final da trama – sem necessidade de usar armas. Esses dois filmes foram até então os mais expressivos da carreira do ator.

Comemoração na filmagem de Tempestades d’Alma (o diretor Frank Borzage à direita de Margaret Sullivan diante do bolo)

James Stewart, Margaret Sullavan e Robert Young em Tempestades d ‘Alma

John Howard, Cary Grant, James Stewart e Katharine Hepburn em Núpcias de Escândalo

James Stewart e Margaret Sullavan em A Loja da Esquina

Ernst Lubitsch orienta James Stewart e Margaret Sullavan na filmagem de A Loja da Esquina

Rosalind Russell e James Stewart na filmagem de A Vida é uma Comédia. ã direito, sentado no sofá, o diretor William Keighley.

Os últimos sete filmes de Stewart antes de os Estados Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial, foram: A Loja da Esquina / The Shop Around the Corner; Tempestades d’Alma / The Mortal Storm; A Vida é uma Comédia / No Time for Comedy (na Warner); Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story; Pede-se um Marido / Come Live With Me; Ouro do Céu / Pot O’ Gold (United Artists) e Este Mundo é um Teatro / Ziegfeld Girl, todos, salvo as duas exceções apontadas, produzidos pela MGM. Nos dois primeiros filmes Stewart foi respectivamente um húngaro, balconista de uma loja de calçados e um alemão anti-nazista (sem fazer nenhum esforço para imitar os sotaques), contracenando em ambos com Margaret Sullavan. Juntamente com Núpcias de Escândalo, no qual faz o papel de um repórter encarregado de cobrir um casamento na alta sociedade com sua colega (Celeste Holm), estes filmes se destacam dos outros cinco, principalmente pelo encaminhamento cinematográfico primoroso que lhe deram seus diretores, respectivamente Ernst Lubitsch, Frank Borzage e George Cukor.

James Stewart e Ginger Rogers recebendo seus Oscar

Núpcias de Escândalo proporcionou a Stewart o Oscar de Melhor Ator. O próprio Stewart disse para todo mundo que o prêmio de melhor ator deveria ser concedido a seu grande amigo Henry Fonda pelo seu papel como Tom Joad em Vinhas da Ira / The Grapes of Wrath / 1940. Após ter perdido com A Mulher Faz o Homem no ano anterior, ele também deixou óbvio que não tinha desejo de presenciar outra noite agonizante, vendo os apresentadores abrindo envelopes. Stewart mudou de idéia, somente quando recebeu um telefonema enigmático de um representante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas pouco antes da cerimônia marcada para acontecer no Biltmore Hotel. Segundo o ator, o homem disse, “Sei que não é da minha competência dizer isto, mas realmente acho que é do seu maior interesse comparecer”. Stewart pensou em dois significados para este convite: uma indicação de que ele ganhara o Oscar ou um aviso de que, se um indicado não comparecesse à cerimônia, poderia esquecer sobre outras indicações. Stewart era o único candidato a Melhor Ator presente no Biltmore Hotel em 27 de fevereiro de 1941, quando o apresentador Alfred Lunt anunciou o seu nome como vencedor. Antes mesmo dele subir ao palco para aceitar seu prêmio, já existia um consenso de que estava sendo honrado como compensação por ter sido recusado com A Mulher Faz o Homem doze mêses atrás.

Hedy Lamarr e James Stewart em Pede-se um Marido

Lana Turner e James Stewart em Este Mundo é um Teatro

Em A Vida é uma Comédia, Stewart é o autor de uma comédia de sucesso para uma atriz (Rosalind Russell), com quem se casa; mas as coisas se complicam, quando ele resolve escrever um drama de “significação social”. Em Pede-se um Marido, é um escritor maltrapilho que aceita um “empréstimo semanal” de uma imigrante (Hedy Lamarr), em troca de se casar com ela, salvando-a de ser deportada para o seu país controlado pelos nazistas. Em Ouro do Céu, é o gerente de uma loja de instrumentos musicais que, aliado à filha (Paulette Goddard) do dono de uma pensão, ajuda uma banda a fazer sucesso no rádio. Em Este Mundo é um Teatro, é um chofer de caminhão namorado de uma (Lana Turner) das três (as outras são Judy Garland e Hedy Lamarr) aspirantes a corista no Ziegfeld Follies.

James Stewart no curta-metragem de propaganda de guerra Quem Quiser ter Asas

Stewart, que já obtivera um brevê de piloto particular (em 1935) e um de piloto comercial (em 1938), foi convocado em outubro de 1940 para o Exército, mas não alcançou o peso exigido para os novos recrutas. Para chegar aos 65 quilos necessários, ele procurou ajuda do professor de musculação do ginásio da MGM, Don Loomis, que era famoso por sua capacidade de ajudar as pessoas a adicionar ou subtrair peso. Finalmente, Stewart conseguiu ser aceito, e se tornou o primeiro astro do cinema americano a vestir um uniforme na Segunda Guerra Mundial. Depois de prestar serviço militar, exercendo funções de propaganda no rádio e em curtas-metragens (v. g. Quem Quiser ter Asas / Winning your Wings) bem como de treinamento de pilotos de bombardeiros, ele foi promovido a capitão em 9 de julho de 1943, e designado comandante de esquadrilha. Após vários treinamentos, voou na sua primeira missão de combate em 13 de dezembro de 1943, para bombardear instalações de submarinos em Kiel na Alemanha e, três dias depois, Bremen.

James Stewart piloto de guerra

James Stewart e sua tripulação no bombardeiro (ele é o quarto a partir da esquerda na segunda fila)

Stewart condecorado

Em 22 de março de 1944, executou sua décima segunda missão de combate, liderando uma esquadrilha em um ataque sôbre Berlim. Ele foi um dos poucos americanos a emergir de soldado raso a coronel em apenas quatro anos durante a Segunda Guerra Mundial, recebeu por duas vêzes a Distiguinshed Flying Cross, e foi agraciado também com a Croix de Guerre Francêsa e a Air Medal. Depois do fim do conflito mundial, Stewart foi promovido a coronel em 1953 e serviu como Comandante da Reserva da Fôrça Aérea. Em 23 de julho de 1959, foi promovido a general brigadeiro. Em 20 de fevereiro de 1966, voou como um observador em um B-52 em uma missão durante a Guerra do Vietnã. Após 27 anos de serviço, reformou-se em 31 de maio de 1968, recebendo a United States Air Force Distinguished Service Medal.

Donna Reed e James Stewart em A Felicidade não se Compra

Retornando da guerra no final de 1945, Stewart não renovou seu contrato com a MGM e recorreu, como free lancer, à agência MCA, comandada por Lew Wasserman. Como seu primeiro filme depois de cinco anos, ele apareceu no terceiro e último filme com Frank Capra, A Felicidade Não Se Compra / It’s Wonderful Life / 1946. Capra comprou os direitos da história da RKO e formou (com Samuel Briskin e depois William Wyler e George Stevens) sua própria companhia produtora, Liberty Films. Stewart deu vida a George Bailey, um jovem banqueiro de uma pequena cidade, com dificuldades financeiras e existenciais que, levado ao suicídio na véspera do Natal, é salvo por um “anjo de segunda classe”, Clarence Odbody (Henry Travers), que o ajuda a reavaliar sua vida.

Frank Capra e James Stewart no intervalo da filmagem de A Felicidade Não Se Compra

Embora tivesse sido indicado para o Oscar em cinco categorias (inclusive a terceira nomeação de Stewart para Melhor Ator), o filme recebeu críticas divergentes (alguns o julgaram demasiadamente sentimental) e obteve apenas um sucesso moderado na bilheteria. Entretanto, a partir da década de setenta, devido às suas constantes exibições na televisão na época do Natal, atingiu imensa popularidade, passou a ser considerado um clássico, e Stewart declarou em uma entrevista de 1973, que ele era seu filme favorito. Porém, como consequência do mau resultado financeiro da produção, a Liberty faliu.

Cena de Sublime Devoção

Por intermédio de Wasserman, Stewart estrelou cinco filmes para diversas companhias: Cidade Encantada / Magic Town / 1947 (RKO com Jane Wyman), como um pesquisador de opinião pública que tenta encontrar a cidade que reflita perfeitamente o ponto de vista médio da população americana; Sublime Devoção / Call Northside 777 / 1948 (20thCentury-Fox com Richard Conte), como um jornalista que, convencido da inocência de um condenado, reabre um caso policial para prová-la; No Nosso Alegre Caminho / On Our Merry Way / 1948 (United Artists com Henry Fonda), com um músico de jazz em um dos três episódios nos quais um repórter pergunta às pessoas qual o impacto que uma criança teve nas suas vidas; Festim Diabólico / Rope / 1948 (Warner Brothers com Farley Granger e John Dall, depois de cogitados Cary Grant e Montgomery Clift), como ex-professor de dois assassinos, que matam um colega somente pela emoção de praticar o ato, e se desafiam a si próprios, oferecendo um jantar para os amigos e familiares do morto – com o cadáver escondido no local; A Conquista da Felicidade / You Gotta Stay Happy / 1948 (Universal com Joan Fontaine), como um piloto de avião de carga envolvido com uma noiva fugitiva. Sublime Devoção e Festim Diabólico foram os mais interessantes, não pela atuação de Stewart, mas pela adoção do estilo semidocuentário, no caso do primeiro e pela experiência técnica hitchcockiana de ausência recortes, no caso do segundo.

Farley Granger, James Stewart e John Dall em Festim Diabólico

Farley, Hitchcock, Stewart e Dall na filmagem de Festim Diabólico

Os dois últimos filmes de Stewart nos anos quarenta, Sangue de Campeão / The Stratton Story e Malaia / Malaya, produzidos pela MGM em 1949, mostraram, pela ordem, o ator como o jogador de basebol que teve uma perna amputada em virtude de um acidente, mas não interrompeu sua carreira e como um jornalista que, juntamente com um presidiário (Spencer Tracy), transformado em mercenário, contrabandeavam a borracha dos japonêses na península malaia durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro obteve um êxito enorme na bilheteria e era ligeiramente melhor do que o segundo; porém ambos proporcionaram um bom divertimento.

James Stewart e Agnes Moorehead em Sangue de Campeão

James Stewart e Spencer Tracy em Malaia

James Stewart e Gloria no dia do casamento

No mesmo ano, Stewart casou-se com Gloria Hatrick, filha de Edgar Hatrick, responsável pelo cinejornal Metrotom Atualidades / Hearst Metrotone News (depois conhecido como Notícias do Dia / News of the Day) de William Randolph Hearst. Gloria era divorciada e tinha dois filhos e, com Stewart, teve gêmeas. Eles permaneceram casados até a morte de Gloria em 1994.

Jeff Chandler e James Stewart em Flechas de Fogo

Barbara Hale, Patricia Medina e James Stewart em Radiomania

James Stewart em meu Amigo Harvey

Os anos cinquenta foi o período dourado profissional de James Stewart, graças à negociação esperta de seu agente Lew Wasserman, que lhe abriu caminho para papéis mais variados – ex-entregador de correspondência a cavalo e batedor do exército que intermedia um acordo de paz com os Apaches em Flechas de Fogo / Broken Arrow / 1950 (20thCentury-Fox); vencedor de um concurso radiofônico que não consegue pagar os impostos sobre os prêmios que ganhou em Radiomania / The Jackpot (1950 20thCentury-Fox); solteirão que gosta de beber acima da conta, amigo de um coelho gigante invisível em Meu Amigo Harvey / Harvey / 1950 (Universal), atuação que rendeu mais uma indicação para o Oscar;

James Stewart em O Maior Espetáculo da Terra

James Stewart como Charles Lindbergh em Águia Solitária

Lee Remick, James Stewart e Ben Gazzara em Anatomia de um Crime

engenheiro que tenta desesperadamente convencer o piloto e os passageiros de que o avião que os transporta corre o risco de cair em Na Estrada do Céu / No Highway in the Sky / 1951 (20thCentury-Fox); palhaço com um passado misterioso em O Maior Espetáculo da Terra / The Greatest Show on Earth / 1952 (Paramount); inventor de um rifle famoso em Dupla Redenção / Carbine Williams / 1952 (MGM); célebre aviador Charles A. Lindbergh em Águia Solitária / The Spirit of St. Louis / 1957 (Warner Brothers); ex-funcionário de uma ferrovia cujo irmão (Audie Murphy) tenta roubá-la em Passagem da Noite / Night Passage / 1957 (Universal); editor assediado por uma bela feiticeira em Sortilégios do Amor / Bell, Book and Candle / 1958 (Columbia); agente do FBI em A História do FBI / The FBI Story / 1959 (Warner Brothers); advogado de defesa de um militar em Anatomia de um Crime / Anatomy of a Murder / 1959 (Columbia), suscitando mais uma recomendação para o prêmio da Academia – e para o seu trabalho, sob as ordens de dois grandes diretores: Anthony Mann e Alfred Hitchcock.

James Stewart, Will Geer e Stephen McNally em Winchester 73

James Stewart em E Sangue Semeou a Terra

James Stewart, Millard Mitchell e Ralph Meeker em O Preço de um Homem

James Stewart em Um Certo Capitão Lockhart

Eles o ajudaram a formar uma nova persona na tela, uma imagem mais complexa: seus personagens deixaram de ser aqueles inocentes tímidos que ele interpretou no final dos anos trinta e anos quarenta e deram lugar para protagonistas amargurados, irritados ou obsessivos, como os que ele interpretou nos cinco westerns maravilhosos de Anthony Mann, Winchester 73 / Winchester 73 / 1950 (Universal), ganhando uma fortuna pela participação nos lucros em vez de receber salário; E O Sangue Semeou a Terra / Bend of the River /1952 (Universal); O Preço de um Homem / The Naked Spur / 1953 (MGM); Região do Ódio / The Far Country / 1955 (Universal); Um Certo Capitão Lockhart / The Man from Laramie /1955 (Columbia) – ver meu post Os Westerns de Anthony Mann de 22 de março de 2010.

Anthony Mann dirige James Stewart e Dan Duryea em Borrasca

James Stewart e June Allyson em Música e Lágrimas

James Stewart, Jay C. Flippen e June Allyson em Comandos do Ar

No anos cinquenta, ele fêz mais três filmes, nos quais foi: inventor (com Dan Duryea) de uma plataforma de perfuração de petróleo à prova de tempestades em confronto com pescadores de camarão na Louisiana em Borrasca / Thunder Bay / 1953 (Universal); famoso chefe de orquestra em Música e Lágrimas / The Glenn Miller Story / 1954 (Universal); jogador de basebol reconvocado para a Fôrça Aérea em Comandos do Ar / Strategic Air Command / 1955 (Paramount). Com Hitchcock, Stewart chegou ao auge de sua trajetória artística, participando de: Janela Indiscreta / Rear Window / 1954 (Paramount); O Homem Que Sabia Demais / The Man Who Knew Too Much / 1956 (Paramount) e Um Corpo Que Cai / Vertigo / 1958 (Paramount). Neste último filme, mais do que um homem obcecado, o personagem de Stewart é a própria obsessão personificada.

James Stewart e Grace Kelly em Janela Indiscreta

Alfred Hitchock, James Stewart e Grace Kelly na filmagem de Janela Indiscreta

Doris Day e James Stewart em O Homem Que Sabia Demais

James Stewart e Kim Novak em Um Corpo Que cai

Hithcock dá instruções para Kim Novak e James Stewart

Stewart participou de treze filmes nos anos sessenta: O Homem Que Destrói / The Mountain Road / 1960 (Columbia), como um major encarregado de comandar um grupo de demolição na China, a fim de impedir o avanço dos japonêses durante a Segunda Guerra Mundial; Terra Bruta / Two Rode Together / 1961 (Columbia), como um xerife contratado para resgatar crianças e mulheres de pioneiros capturados pelos comanches, uns dez anos depois do rapto; O Homem Que Matou o Facínora / The Man Who Shot Liberty Valance / 1962 (Paramount), como um senador que se tornou famoso por ter eliminado um bandido perverso e, no enterro de um velho amigo (John Wayne), revela para um jornalista toda a verdade sobre seu feito;

John Wayne, John Ford e James Stewart na filmagem de O Homem Que Matou o Facínora

James Stewart e Carroll Baker em A Conquista do oOste

As Férias de Papai / Mr. Hobbs Take a Vacation / 1962 (20th Century-Fox), como um banqueiro que deseja passar férias tranquilas em uma praia, porém sua esposa convida toda a família para ficar com eles; A Conquista do Oeste / How The West Was Won /1963 (20thCentury-Fox), como um caçador de ursos que ajuda uma família de pioneiros a se livrar de bandidos; Papai Não Sabe Nada / Take Her, She’s Mine /1963 (20thCentury-Fox), como presidente do conselho de diretores de uma escola que se mete em encrencas, tentando defender a virtude de sua filha adolescente;

James Stewart e Arthur Kennedy em Crepúsculo de uma Raça

Crepúsculo de uma Raça / Cheyenne Autumn / 1964 (Warner Brothers), como Wyatt Earp em um interlúdio de quatorze minutos; Minha Querida Brigitte / Dear Brigitte / 1965 (20thCentury-Fox), como professor adepto das ciências humanas cujo filho é um gênio da matemática com uma paixão por Brigitte Bardot; Shenandoah – Paraíso Perdido / Shenandoah / 1965 (Universal), como fazendeiro viúvo indiferente à Guerra Civil até sua família ser envolvida no conflito; O Vôo do Fênix / The Flight of the Phoenix / 1966 (20thCentury Fox), como piloto de um avião que caiu no deserto do Sahara ao transportar um grupo de trabalhadores de um campo de petróleo; Raça Brava / The Rare Breed / 1966 (Universal), como um vaqueiro de má sorte que concorda em levar um touro Hereford para um rancheiro; O Último Tiro / Firecreek / 1968 (Warner Brothers), como fazendeiro que enfrenta um bando de foras-da-lei; O Preço de um Covarde / Bandolero! / 1968 (20thCentury-Fox), como irmão de um bandido que procura ajudar a se regenerar, mas tem como ele, um fim trágico. O melhor filme foi O Homem Que Matou o Facínora, apesar da pobreza dos cenários de interiores e das cenas de exteriores terem sido rodadas dentro do estúdio.

Cena de Shenandoah

Nos anos setenta, Stewart trabalhou um pouco mais na televisão, onde já vinha aparecendo desde 1955, e fez de início Cheyenne / The Cheyenne Social Club / 1970 (National General), como o caubói que recebe como herança deixada por um irmão, um clube que não passa de um bordel disfarçado e O Olho da Justiça / Fool’s Parade / 1971 (Columbia), como ex-presidiário que, com dois amigos, resolve abrir um negócio com o cheque de vinte e cinco mil dólares que economizou, mas tem que enfrentar um grupo de assassinos de ôlho no seu dinheiro, liderados por um policial corrupto e pelo dono do banco onde a importância vultosa seria sacada – ambos os filmes de pouca relevância na sua folha corrida cinematográfica. Depois de O Olho da Justiça, Stewart foi um dos narradores de Era Uma Vez em Hollywood / That’s Entertainment / 1974.

James Stewart e Robert Mitchum em A Arte de Matar

Na sua fase crepuscular como ator, Stewart apenas contribuiu com participações especiais, para enriquecer o elenco de alguns filmes: O Último Pistoleiro / The Shootist / 1976 (Warner Brothers), como médico que informa o pistoleiro protagonista (John Wayne) de que ele está morrendo de câncer; Aeroporto 77 / Airport’ 77 / 1977 (Universal), como bilionário que aguarda ansiosamente que a Marinha dos Estados Unidos remova seu jato luxuoso do fundo do oceano; A Arte de Matar / The Big Sleep / 1978 (Winkast/ITC), como milionário que contrata o detective Philip Marlowe (Robert Mitchum) para desmascarar um chantagista; A Magia de Lassie / The Magic of Lassie / 1981 (Lassie Productions), como viticultor que se esforça para reunir Lassie com sua neta; Afrika Monogatari, produção japonesa intitulada The Green Horizon nos EUA/ 1981 (Sanrio Communications), como veterano das regiões selvagens da África, que detesta cidades e adora animais.

Este último filme foi o projeto mais bizarro da carreira de Stewart e marcou sua derradeira aparição na tela grande, não se contando o uso de sua voz para o personagem do xerife Wylie Burp, uma década depois, no desenho animado Um Conto Americano: Fievel Vai Para o Oeste / An American Tail: Fievel Goes West.

Em outubro de 1980, em visita ao Rio de Janeiro, para promover o relançamento de quatro filmes de Alfred Hitchock, James Stewart concedeu entrevista coletiva à Imprensa. Nesta ocasião, tive oportunidade de lhe fazer algumas perguntas e, no final, entreguei-lhe uma foto de Janela Indiscreta, pedindo seu autógrafo. Ele colocou sua assinatura no ombro de Grace Kelly, e se desculpou, com aquela voz calma e pousada que todos nós conhecemos: “I hate to do this with Grace”.

Stewart nos cativou a todos pela sua simplicidade e honestidade, ao relatar fatos de sua vida particular e profissional, deixando bem claro sua admiração pelo sistema de estúdio, que lhe permitiu aprender seu ofício com os melhores diretores e técnicos da indústria.

Entre outras homenagens, Stewart recebeu o Life-Achievement Award do American Film Institute em 1980, um Oscar especial “por 50 anos de desempenhos memoráveis, por seus nobres ideais, ambos dentro e fora da tela em 1985” e a Presidential Medal of Freedom, a honraria mais alta da nação americana concedida a um cidadão que não é militar.

CAROL REED II

June 9, 2017

Como membro da Army Officer’s Emergency Reserve, no qual se alistara juntamente com Rex Harrison, Reed recebeu o pôsto de capitão-ator na Royal Army Ordnance Corps (RAO), que tinha sob sua responsabilidade o Army Kinematograph Service (AKS), sediado no antigo estúdio da Fox British. Sua missão era fazer filmes de treinamento, o primeiro dos quais destinado aos futuros chefes de desembarque em uma invasão anglo-americana na Europa, com a finalidade de abrir uma nova frente de batalha.

Após três semanas de preparação para o filme. Reed foi designado para trabalhar com os roteiristas Eric Ambler e Peter Ustinov, e os três foram para Troon na Escócia, a fim de se apresentarem a Thorold Dickinson. Os quatro ficaram alarmados sobre os fatos que iam descobrindo sobre os planos do exército para o desembarque nas praias, principalmente no que se referia ao número de baixas esperado; porém subitamente o projeto foi cancelado.

Cena de The New Lot

Ficou então decidido que o short a ser feito, intitulado The New Lot, seria para ajudar os recrutas a se adaptarem à vida militar. Quando o filme de 40 minutos acabou de ser exibido para um comitê de generais na sala de projeção do War Office, um deles, dirigindo-se a Reed, desabafou: “Você não pode chamar esses homens de soldados; eles não fazem outra coisa senão resmungar. Soldados de verdade nunca resmungam”. O curta-metragem foi considerado inútil e possivelmente subversivo, inclusive proibido de ser mostrado não somente aos recrutas como também para qualquer outra pessoa estranha ao War Office.

Tanto a Marinha quanto a Aeronáutica haviam sido beneficiadas por filmes que fizeram sucesso popular nos cinemas. A Marinha teve Nosso Barco, Nossa Alma / In Which We Serve, filme comercial dirigido por Noel Coward e David Lean, sobre os sobreviventes de um destróier torpedeado e a Royal Air Force, E … Um Avião Não Regressou / One of Our Aicraft is Missing, dirigido por Michael Powell e Emeric Pressburger sobre a tripulação de um bombadeiro abatido na Holanda ocupada pelos nazistas. O Exército necessitava de um filme como esses para levantar a moral dos novos recrutas. David Niven, tecnicamente major na Rifle Brigade, foi solicitado como interlocutor, pois desfrutava da posição de intermediário entre as forças armadas e os estúdios cinematográficos como Two Cities, que produzira Nosso Barco, Nossa Alma. Primeiro, ele pediu a Noel Coward que fizesse um filme semelhante para o exército, mas Coward delicadamente recusou. Então mostraram a Niven The New Lot, do qual ele gostou muito. Finalmente, ficou decidido que Carol Reed seria liberado do serviço militar e ficaria responsável pela direção de Têmpera de AçoThe Way Ahead, versão ampliada do curta, a ser produzido pela Two Cities de Filippo del Giudice.

Cena de Têmpera de Aço

Trata-se de um filme de guerra sobre a Infantaria, seguindo passo a passo o treinamento de um grupo de recrutas composto por pessoas de diferentes profissões e classes sociais, que se transformam de novatos imaturos em soldados disciplinados, e prontos para enfrentar o inimigo, substituindo o ressentimento pelo respeito por seus superiores, representados pelo afável Tenente Jim Perry (David Niven) e pelo rigoroso sargento Fletcher (William Hartnell). Embora realizado com fins de propaganda, o espetáculo não glamouriza nem glorifica, apenas tenta mostrar tudo com realismo.

Cenas de Têmpera de Aço

A narrativa é simples, mas eficiente, e o sentimentalismo é reduzido ao mínimo. Reed deixou as sequências de ação para o final, quando o navio que conduz a tropa é bombardeado por um submarino alemão e em seguida os homens enfrentam o inimigo no Norte da África, revelando sua coragem e espírito coletivo. Nesses momentos, Reed demonstra sua habilidade técnica, mais notadamente na cena do afundamento do navio, por meio de uma montagem rápida e uso de angulações inusitadas, para transmitir o choque inicial e a desordem entre a tripulacão. Além disso, durante todo o desenrolar do relato – escrito por Eric Ambler e Peter Ustinov – as figuras do grupo que aprendem progressivamente o ofício de combatente, são sempre enquadradas com muito equilíbrio dentro de cada plano.

A Verdadeira Glória / The True Glory / 1945 é um exemplo raro na história do filme documentário de uma colaboração bem sucedida entre dois diretores de países diferentes, Carol Reed (Grã Bretanha) e Garson Kanin (Estados Unidos), trabalhando sob a supervisão de um comitê militar. A principal tarefa dos dois cineastas foi selecionar e dar unidade artística a uma quantidade enorme de sequências filmadas pelos cinegrafistas de combate de nove nações aliadas (sem falar nos episódios de cinejornais feitos pelos inimigos, que haviam sido capturados), entrecortando-as com mapas para facilitar o acompanhamento pelo público do progresso dos Aliados das praias da Normandia até a conquista da Alemanha propriamente dita.

Cenas de A Verdadeira Glória

Cena de A Verdadeira Glória

O que mais impressiona é o trabalho de montagem através de uma sucessão rápida de planos curtos ligados por uma pontuação que lhes dá uma fluência, uma continuidade perfeita. Além da narração explicativa dos fatos, ouvem-se comentários na primeira pessoas nos mais variados sotaques, por soldados, enfermeiras, e alguns civis – na verdade, Richard Attenborough, Françoise Rosay, Claude Dauphin, Sam Levene, Peter Ustinov, Arthur MacRae, Jimmy Hanley, Frank Harvey, John Laurie, Reed e Kanin falando em voz over, textos escritos pelos roteiristas. Os eventos panorâmicos da guerra são contrapostos sutilmente com pequenos detalhes de caráter pessoal – um toque possivelmente providenciado por Reed – como uma senhora idosa vestida de preto andando entre as ruínas de uma cidade. Em uma escala maior, o filme contrabalança a chegada das tropas americanas em Rennes, o retorno triunfante de De Gaule a Paris com o barbarismo dos campos de concentração, onde chama atenção a cena comovente de uma sobrevivente vista beijando a mão de um soldado. Pelos seus méritos indiscutíveis, A Verdadeira Glória arrebatou o Oscar de Melhor Documentário de longa-metragem.

Cena de A Verdadeira Glória

O fim da guerra trouxe muitas oportunidades para Reed, agora conhecido em ambos os lados do Atlântico (seus filmes Gestapo e Sob a Luz das Estrelas fizeram grande sucesso nos Estados Unidos) como um mestre no thriller, na comédia de costumes, no drama de época, no filme de ação e no documentário. Ele sentiu que estava sendo tão solicitado, que poderia escolher um assunto, e ter certeza de que um patrocinador arranjaria o dinheiro para o seu filme ser feito. O assunto que escolheu (prontamente aceito por Filippo del Giudice) para Condenado / Odd Man Out / 1946, foi o de tom mais sombrio do que quaisquer outros de seus projetos anteriores: a história um líder de uma organização revolucionária da Irlanda do Norte, Johnny McQueen (James Mason) que, ferido mortalmente em uma tentativa de assalto a uma fábrica, vagueia pelas ruas de Belfast na escuridão da noite, em busca de segurança.

Na sua fuga, Johnny vai se seconder em um abrigo anti-aéreo. Seus amigos procuram por ele, porém são rapidamente presos ou mortos pela polícia, que estende suas redes e procede a várias investigações. Kathleen (Kathleen Ryan), a jovem em cuja casa estava se escondendo desde que fugira da prisão, também procura por ele. Seguida pelo chefe da polícia (Denis O’Dea), ela procura ajuda junto ao sacerdote, Padre Tom (W. G. Fay). Este recebe a visita de um vendedor de pássaros excêntrico, Shell (F. J. MacCormick), que sabe onde Johnny se encontra, mas quer vender sua informação.

Kathleeen Ryan e James Mason em Condenado

Entrementes, Johnny sai do abrigo e se arrasta de porta em porta. Ele desmaia na rua e duas transeuntes o recolhem, pensando ter sido atropelado. Quando descobrem quem ele é, Johnny parte, e se infiltra no taxi de “Gin” Jimmy (Joseph Tomelty) que, ao reconhecê-lo, o deixa em um depósito de ferro-velho, onde Shell o encontrou. Finalmente, Johnny chega em um bar no qual está um pintor perturbado mentalmente, Lukey (Robert Newton), que leva o moribundo para a sua casa a fim “captar o brilho do olhar que vê a morte”. Johnny consegue escapar novamente. Kathleen o encontra, lhe revela seu amor e, sabendo que ambos estão perdidos, ela atira na direção dos policiais que se aproximam. Uma rajada de balas, e Johnny e Kathleen caem mortos na praça em frente do porto, onde estava de partida, o navio que levaria Johnny para bem longe dalí.

Carol Reed dirige James Mason em Condenado

Assumindo também a posição de produtor, Reed conduz de maneira excitante a narrativa na sua primeira parte, mas quando, na segunda parte, começa a sublinhar os aspectos teológicos do enredo, o andamento do filme fica um pouco pesado, principalmente no diálogo entre o padre e o vendedor de pássaros, que aliás se torna implausível, quando o sacerdote dissuade um sujeito mal afamado como Shell de vender Johnny em troca da fé.

James Mason e F. J. McCormick

F.J. McCormick e Robert Newton em Condenado

Cena de Condenado

Cena de Condenado

Sob o ponto de vista puramente cinematográfico, Reed, com o auxílio precioso do fotógrafo Robert Krasker (o mesmo de O Terceiro Homem / The Third Man / 1948), produz efeitos de luz expressionista muito parecidos com aqueles que a dupla John Ford-Gregg Toland ensejou em A Longa Viagem de Volta / The Long Voyage Home / 1940 e com os dos films noirs, tão em voga na época. O clima pessimista e fatalista evoca filmes do Realismo Poético Francês de antes da guerra como Cais das Sombras / Quai des Brumes / 1938 de Marcel Carné, notadamente naquele final de uma grandeza trágica no porto.

Cena de Condenado

Cena de Condenado

Cena de Condenado

Kathleen Ryan e James Mason em Condenado

Reed forja cenas marcantes: a bola que um transeunte chuta e vai cair no esconderijo de Johnny; a menina contemplando-o silenciosa e mais tarde tímida atrás do poste, indicando ao companheiro do fugitivo onde achá-lo; o encontro com o casal furtivo no abrigo anti-aéreo; as imagens em câmera alta sobre a rua cercada pela polícia; a briga no ônibus; a chegada de Johnny à cabine telefônica, última esperança de salvação que se esvai, vendo-a ocupada por duas mulheres risonhas; o uso do relógio significando a passagem inexorável do tempo para quem tem os minutos de vida contados; as bolhas de espuma da cerveja na mesa do bar com a visão alucinatória dos rostos das pessoas com as quais Johnny cruzou na sua fuga e o grito desesperado do moribundo, causando um silêncio paralisante naquele ambiente barulhento e cheio de gente; os quadros que, no delírio de Johnny, se movem no atelier do pintor desequilibrado; e o clímax na praça coberta de neve, onde Kathleen finaliza o drama.

Penelope Dudley Ward

Em 1948, Reed divorciou-se de Diana Wyniard, casou-se com Penelope Dudley Ward e, mantendo a capacidade de funcionar também como produtor, que lhe havia sido assegurada no seu filme anterior, começou a trabalhar com Alexander Korda, dono da London Films Productions. O Ídolo Caído / The Fallen Idol / 1948 foi uma co-produção Anglo-Americana, financiada por Korda e David Selznick, baseada em um conto de Graham Greene, “The Basement Room”, e com roteiro do próprio autor da obra literária.

Depois de algumas modificações, aceitas por Greene, a história ficou assim: um menino, Felipe (Bobby Henrey), filho do embaixador francês em Londres, é deixado por seus pais aos cuidados do mordomo da embaixada, Baines (Ralph Richardson), e de sua esposa (Sonia Dresdel). Felipe idolatra Baines e testemunha as brigas constantes dele com sua mulher tirânica e perversa. Ele também descobre que Baines está vivendo um romance com uma francêsa, esteno-datilógrafa da embaixada, Julie (Michele Morgan). Mrs. Baines finge sair de casa durante um fim-de-semana, mas logo retorna, a fim de surpreender Baines com sua amante. Ao vigiá-los, sofre uma queda fatal tentando abrir uma janela. Como o breve interlúdio que separou uma discussão entre o casal presenciada por Felipe e o acidente, foi apenas imaginado por este ao descer a escada de incêndio, o garoto está certo de que Baines matou a esposa.

Cena de O Ídolo Caído

Ralph Richardson e Bobby Henrey em O Ídolo Caído

Cena de O Ídolo Caído

Desorientado, ele sai correndo de pijama pela rua molhada até ser levado para a delegacia por um guarda. Os policiais o levam de volta para a embaixada e começa a investigação sobre a morte da esposa de Baines, considerando-o principal suspeito. Desejando salvar o amigo, o menino se envolve em uma série de mentiras, que comprometem o mordomo quase irremediavelmente. A descoberta ocasional de um vaso quebrado estabelece a inocência do acusado, mas, ironicamente, esta prova é falsa, e quando o menino – ainda achando que Baines foi o culpado – procura explicar aos policiais que foi ele quem quebrou o vaso (pela primeira vez dizendo a verdade), ninguém lhe dá crédito.

Michele Morgan e Ralph Richardson em O Ídolo Caído

Embora integrando o gênero policial, o filme tem ressonância psicológica, pois é uma evocação da infância e sua relação com um mundo adulto confuso. A historia é contada do ponto de vista do menino, que observa as paixões de um triângulo romântico, em torno do qual Reed criou uma narrativa interessante e cheia de suspense. À proporção que os conflitos emocionais se amontoam, é o menino que ouve, que deduz e, finalmente, que confunde as intenções daqueles que espreita. Felipe é uma criança separada emocionalmente de seus pais, segregada do convivio com outras crianças de sua idade, e educada por uma mulher, que é uma verdadeira megera. Porém Baines lhe dedica uma atenção extremada, leva-o ao jardim zoológico ou o fascina com histórias fantásticas de uma frica imaginária, cativando a sua mente infantil; daí sua idolatria pelo mordomo.

Carol Reed dá instruções para Bobby Henry

Reed dirige Ralph Richardson

Reed dirige Michele Morgan

O essencial no argumento é a progressiva desilusão do menino que atinge o auge, quando o mordomo diz a polícia jamais ter estado na África. Porém o público mereceu um final feliz: o amor entre Julie e Baines prevalece e Felipe adquire uma visão mais madura da vida. Duas sequências de puro cinema tornaram-se inesquecíveis: o jogo de esconde-esconde na mansão deserta e escura, salientando-se as colocações de câmera, ângulos e efeitos de iluminação inusitados, e o momento no qual o avião de papel, contendo um telegrama condenatório de Baines, rodopia graciosamente do alto da escadaria até aterrissar nos pés do detetive.

Depois de O Ídolo Caído, Reed continuou a trabalhar como produtor-diretor para a London Films em O Terceiro Homem / The Third Man, colaborando mais uma vez com Graham Greene.

A ação do filme situa-se na Viena do pós-guerra, dividida pelas quatro forças de ocupação aliadas, uma cidade que quase parece ser um personagem da história. Ali chega um escritor americano de romances populares, Holly Martins (Joseph Cotten), com pouco dinheiro no bolso, a convite de seu amigo de infância, Harry Lime (Orson Welles, depois de cogitado Noel Coward), que lhe oferecera um emprego. Holly vai ao apartamento de Harry, e fica sabendo pelo porteiro, que seu amigo foi atropelado por um carro e morto. Três homens carregaram a vítima mas Holly só consegue identificar dois: falta-lhe o terceiro. No enterro de Harry, Holly é informado pelo Major Calloway (Trevor Howard) de que Harry era um escroque notório. Mais tarde, Holly conhece a amante de Harry, Anna Schmidt (Alida Valli, uma atriz que se apresenta no Josefstadt Theatre), que suspeita de que a morte de Harry não foi um acidente.

Alida Valli e Joseph Cotten em O Terceiro Homem

Eles começam a investigar e, depois de alguns incidentes, o Major Calloway põe Holly a par do mercado negro de penicilina, do qual Harry fazia parte, explicando que os traficantes costumam aumentar seus lucros, diluindo o remédio e provocando assim efeitos médicos desatrosos. Holly fica estupefacto com as atividades de seu amigo, vai procurar Anna, diz que está voltando para os Estados Unidos, e admite seus fortes sentimentos por ela. Após deixar o apartamento de Anna, Holly percebe um homem nas sombras e quando um vizinho abre uma janela, a luz ilumina o rosto de Harry Lime, que desaparece antes que Holly possa alcança-lo. Holly pede ajuda a Calloway que novamente traça a rota de fuga de Harry, e descobre um quiosque, que conduz subterrâneamente a um esgôto. Calloway manda abrir o caixão de Harry e o corpo encontrado é o do chofer dele. Através de um intermediário, Holly consegue marcar um encontro com seu amigo “desaparecido” na roda gigante de um parque de diversões.

Orson Welles em O Terceiro Homem

Cinicamente e com muita calma, Harry repudia o ultraje moral de Holly com relação ao contrabando de penicilina e o adverte de que deve parar de falar com a polícia. Sem se intimidar, Holly oferece-se para ajudar Calloway a capturar Harry em troca de um salvo-conduto para Anna, que está prestes a ser presa pelos russos. Quando Anna rejeita furiosamente este acordo, Holly quer desistir de seu auxílio à polícia militar, mas Calloway o leva a um hospital infantil, para que ele veja as jovens vítimas com o cérebro danificado pela penicilina adulterada de Harry. Deprimido pelo que viu, Holly concorda em servir de isca para a captura de Harry. Após aguardar Harry durante horas em um café, Holly de Anna que o repreende por estar colaborando com a polícia. Quando Harry chega, Anna o avisa da emboscada, e ele escapa pelo esgoto, sendo perseguido por Holly, Calloway e seus homens. Harry atira e mata um soldado e Holly mata Harry, quando ele tentava se arrastar até uma saída para a superfície. Depois do segundo enterro de Harry, Holly vê Anna passar silenciosamente na sua frente, como se ele não existisse.

Reed e Graham Greene examinam o roteiro de O Terceiro Homem

Reed na direção de O Terceiro Homem

O Terceiro Homem, é um thriller policial, mas também drama de consciência e defesa de uma tese: luta do Bem contra o Mal. Vemos um mundo corrupto, que perdeu sua humanidade e seu limite ético. Harry acha que “o mundo não é dos trouxas, e se os governos têm planos quinquenais, ele também pode tê-los pois, afinal”, diz com um sorriso, “a Itália dos Borgia conheceu trinta anos de guerra, terror, derramamento de sangue, mas dela saíram Miguel Angelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. A Suiça conheceu a fraternidade e quinhentos anos de democracia. E o que foi que eles produziram? O relógio de cuco!”. Porém Holly não dá ouvidos ao canalha, e prefere ficar do lado do Bem e da Verdade, sacrificando a Amizade pela Coletividade.

Trevor Howard e Alida Valli em O Terceiro Homem

Joseph Cotten em O Terceiro Homem

Joseph Cotten e Orson Welles em O Terceiro Homem

Visualmente, a instabilidade histórica e moral é expressa por uma escuridão frequente, sombras imensas e planos inclinados, providenciados pela admirável fotografia expressionista de Robert Krasker, notando-se outrossim a influência do formalismo russo, no que se refere aos primeiros planos, tudo isto reforçado pela música inquietante oriunda de um único instrumento, a cítara de Anton Karas, que adquire uma força de expressão maior do que uma orquestra.

Orson Welles em O Terceiro Homem

O filme está repleto de ótimas sequências, destacando-se a primeira aparição de Harry Lime na entrada escura de um prédio, quando um gato se acomoda nos seus pés; o encontro de Holly e Harry no parque de diversões; a perseguição do criminoso pelos esgôtos onde avulta a admirável montagem visual sonora e simbólica de Oswald Hafenrichter (que depois iria prestar serviço nas produções da nossa Vera Cruz); e o desenlace da trama, quando Holly aguarda por Anna na longa alameda do cemitério, coberta pelas fôlhas das árvores ressecadas. Ela é uma pequena figura que vai crescendo progressivamente enquanto algumas folhas caem e se ouve uma música suave. Anna passa lentamente por Holly, sem olhar para ele, e sai do quadro, neste que é um dos finais mais melancólicos da História do Cinema.

Cena final de O Terceiro Homem

O sucesso de O Terceiro Homem impulsionou Reed para o pico de sua carreira, tornando-o um diretor de importância internacional e, entre vários compromissos possíveis, ele escolheu a adaptação do segundo romance de Joseph Conrad, “An Outcast of the Islands”, uma obra que Korda o estava pressionando para filmar.

No relato de O Pária das Ilhas / 1952, Peter Willems (Trevor Howard, depois de cogitado Stewart Granger) é um vagabundo que, graças à bondade do Capitão Lingard (Ralph Richardson), consegue atingir boa posição na firma Hudig em Singapura, mas um dia trai a confiança de seus patrões, rouba, é demitido, e volta à antiga condição de pária. Seu protetor resolve dar-lhe mais uma oportunidade, e o leva para Sambir, uma ilha remota onde tem um entreposto comercial, que opera sem concorrência, por ser o único a conhecer a rota marítima perigosa ao local. Sua presença desperta o receio de Almayer (Robert Morley) encarregado dos negócios do capitão, casado com a filha adotiva deste (Wendy Hiller), e espicaça o interesse de Babalatchi (George Colouris), líder dos nativos. Este induz Peter a revelar o caminho marítimo. Ele se recusa até o dia em que, para assegurar o amor de Aissa (Kerima), uma nativa por quem se apaixonara tremendamente, trai seu benfeitor, ensinando a um mercador amigo de Babalatchi o segredo da rota, que apenas ele e o capitão conheciam. Peter participa ainda da pilhagem das instalações de Lingard. Afinal, com a chegada do capitão, a ordem se restabelece. Lingard pensa em matar Peter, porém depois muda de idéia, e o deixa em exílio permanente na selva com Aissa.

Trevor Howard e Ralph Richardson em O Pária das Ilhas

Trebvor Howard em O Pária das Ilhas

Conservando a história básica de Conrad, Reed registra a degradação do protagonista, sem sentimentalizar a narrativa, mantendo-se fiel ao ceticismo do autor sobre a natureza humana. Desde a primeira visão de Willems da sensual e orgulhosa Aissa até a sua compreensão final de que ela é a sua perdição, a câmera segue o curso de sua crescente paixão com uma eloquência silenciosa, quase sem diálogo. Animada somente pela atração física, essa relação é vista como uma maldição, que vai destruir aquele homem degenerado moralmente, e também tudo que o cerca. Ele será condenado a errar no caos que provocou e, daí em diante, ser desprezado (por não ter tido a coragem de matar Lingard) por aquela que ele tanto perseguiu.

Cena de O Pária das Ilhas

Trevor Howard em O Päria das Ilhas

Trevor Howard e Kerima no clímax de O Pária das Ilhas

O virtuosismo pictórico do diretor é visível em todo o desenrolar da ação, ajudado pela arte fotográfica de John Wilcox e Edward Scaife, orientada para um preto-e-branco de alta qualidade. A sequência mais dramática do filme ocorre no final: chove torrencialmente, e quando Lingard, depois de um confronto físico com o traidor (O velho homem do mar esbofeteia Willems várias vêzes) e verbal (“… Você não é um ser humano para ser perdoado ou destruído … Você é minha vergonha”), se retira altivo, e Aissa, que entregara um revólver para Willems, a fim de que ele se vingasse da afronta, amarga desiludida a covardia do homem que ama.

Em junho de 1952, a nova Rainha da Inglaterra concedeu o título de Sir a Carol Reed, o primeiro diretor a receber tal honraria. A partir de 1953, Reed fez mais dez filmes: O Outro Homem / The Man Between / 1953, A Rua da Esperanca / A Kid for Two Farthings / 1955, Trapézio / Trapeze / 1956, A Chave / The Key / 1958, Nosso Homem em Havana / Our Man in Havana / 1959 e, depois de ter sido despedido da filmagem de O Grande Motim / Mutiny on the Bounty / 1960, A Sombra de uma Fraude / The Running Man / 1963, Agonia e Êxtase / The Agony and the Ecstasy / 1965, Oliver! / Oliver! / 1968, Fúria Audaciosa / The Last Warrior / 1970 e De Olho na Esposa / Follow Me / 1971. Nenhum deles atingiu o mesmo nível artístico das suas quatro últimas realizações, que marcaram o período áureo de sua carreira.

O mais aceitável desse grupo foi O Outro Homem, produzido pelo próprio Reed para a London Films. Quatro anos depois de O Terceiro Homem, que lhe valeu o Grand Prix do Festival de Cannes e um imenso sucesso mundial, ele retorna ao ambiente de uma cidade semi-destruída e ocupada, para contar a história de um personagem dilacerado entre (o “entre” do título original) as duas Zonas, ocidental (soviética) e oriental, em que está dividida Berlim.

Cena de O Outro Homem

Cena de O Outro Homem

A narrativa tem início quando Suzanne Mallison (Claire Bloom) chega de Londres para passar alguns dias com o irmão, Martin (Geoffrey Toone), médico militar da guarnição inglêsa e sua mulher alemã Bettina (Hildegarde Neff). Por ocasião de uma visita à Zona Russa, Suzanne conhece Ivo Kern (James Mason), antigo marido de Bettina, que está a serviço dos comunistas e procura valer-se de sua ex-esposa para sequestrar Kaster (Ernest Schroeder), agente aliado que estava ajudando refugiados a escaparem da Berlim Ocidental. Entretanto, a tentativa falha, devido ao alerta dado por Bettina, ela própria espiã. Os agentes soviéticos então planejam raptar Bettina mas, por engano, capturam Suzanne. A esta altura, Ivo já envolvido sentimentalmente com Suzanne, ajuda-a a fugir e, durante a fuga, lhe revela que, sendo um antigo advogado brutalmente colhido pelos acontecimentos da guerra e do pós-guerra, se vê obrigado a trabalhar para a polícia popular da zona russa, ajudando-a a fazer contrabando humano de um setor para outro, porque esta possui documentos comprometedores de suas negociatas no mercado negro na zona ocidental. Na fronteira entre as duas zonas, quando Ivo é surpreendido pelos guardas no fundo de uma camionete, ele se lança em uma desabalada carreira, é abatido, e rola sob a neve sob o olhar angustiado de Suzanne dentro do carro.

Cena de O Outro Homem

Cena de O Outro Homem

Hildegarde Neff e James Mason em O Outro Homem

James mason e Claire Bloom em O Outro Homem

O filme tem pontos de contato com Condenado (a longa sequência de fuga e o desenlace na neve, especialmente quando um cachorro corre em direção ao corpo de Ivo), O Ídolo Caído (o garoto na bicicleta que percorre doidamente o filme de um extremo a outro, espionando por conta de Ivo e assistindo impotente à dramática execução do amigo) e O Terceiro Homem (o personagem de James Mason, Ivo Kern, reminiscente do Harry Lime de Orson Welles), mas esta repetição não significa um sinal de exaustão, e sim de inspiração para a uma nova obra que, apesar de não ter o mesmo brilho das suas realizações precedentes citadas, é narrada com o vigor comum do diretor e permanece como um interessante exercício de suspense. A melhor sequência do filme, é a do rapto de Suzanne em um automóvel inteiramente coberto de neve, tal como uma fera aterrorizante que se aproxima silenciosamente da caça, e finalmente a engole.

Cena de A Rua da Esperança

Em Rua da Esperança, fábula excêntrica e poética com um revestimento de folclore judaico, um menino, filho de pai ausente, sob a influência de um alfaiate filósofo, imagina que sua cabra é um unicórnio, que pode satisfazer qualquer desejo.

Burt Lancaster, Gina Lollobrigida e Tony Curtis em Trapézio

Em Trapézio, desenvolve-se um drama envolvendo um trîangulo amoroso e acrobático, composto por um astro do trapézio aleijado por uma queda, seu aluno talentoso, e uma bela italiana arrivista e arrogante.

Sophia Loren e William Holden em A Chave

Em A Chave, filme de guerra e ao mesmo tempo drama de amor de caráter psicológico, uma mulher traumatizada com a morte do noivo, comandante de rebocador na Segunda Guerra Mundial, passa a vê-lo em todos os seus colegas que se sucedem na posse da chave de seu apartamento.

Alec Guiness e Maureen O’hara em Nosso Homem em Havana

Em Nosso Homem em Havana, sátira do serviço de espionagem britânico, um vendedor de aspirador de pó é convocado para ser espião em Havana – missão para a qual não possui o menor perfil – e então ele inventa informações para servir aos seus superiores.

Lee Remick e Alan Bates em A Sombra de uma Fraude

Em A Sombra de uma Fraude, um homem, com a colaboração forçada de sua esposa, costuma fraudar algumas seguradoras, assinando apólices sob nome falso e forjando sua própria morte, até que a intervenção do investigador de uma das companhias seguradoras, provoca uma tragédia.

Em Agonia e Êxtase, biografia histórica, expõem-se os conflitos artísticos entre o pintor Miguelangelo e o Papa Júlio II durante a construção da Capela Sistina.

Carol Reed e seu Oscar

Em Oliver! repetem-se os dissabores do Oliver Twist de Charles Dickens em chave de musical.

Anthony Quinn em Fúria Audaciosa

Em Fúria Audaciosa, comédia dramática sobre um índio beberrão e rebelde inconformado com a opressão social de seu povo na reserva onde foram confinados, acaba se tornando um mártir.

Mia Farrow, Michael Jayston e Topol em De Olho na Esposa

Em De Olho na Esposa, um banqueiro inglês pudico contrata detetive particular para seguir sua esposa independente, que ele suspeita de o estar traindo, mas o investigador verifica que ela simplesmente necessita de mais afeto e diversão na sua vida.

Com exceção de A Sombra de uma Fraude e Oliver!, que tinham certas sequências sôltas no conjunto, onde se espelhava a fina concepção cinematográfica de Reed (Oliver! lhe ensejou até o Oscar de Melhor Direção), os filmes restantes evidenciaram uma perda de rendimento do rigor artístico do cineasta, tornando-se em consequência espetáculos entediantes.

CAROL REED I

May 26, 2017

Ele foi, juntamente com Alfred Hitchock, David Lean e Michael Powell, um dos mais renomados diretores britânicos do cinema clássico e, tal como seus colegas citados, atingiu fama internacional. Sua imaginação visual muito fértil foi testada em vários gêneros e, como um mestre na arte de contar histórias, expressou-se sempre por meio de uma excelência técnica e uma linguagem eminentemente cinematográfica.

Carol Reed

Carol Reed (1906 -1976) nasceu no distrito de Putney Hill, Londres. Era filho ilegítimo do ator Sir Herbert Beerbohm Tree (1853-1917) e de sua amante Beatrice May Pinney, com a qual manteve uma vida conjugal doméstica convencional, que nunca conseguiu ter com sua legítima esposa, a atriz e sua parceira no palco, Helen Maud Holt (obs. ela pode ser vista na tela como a enfermeira do rei em Os Amores de Henrique VIII / The Private Life of Henry VIII / 1933, sob o nome artístico de Lady Tree). Além de Carol, Sir Beerbohm teve com Beatrice mais quatro filhos (Claude, Robin, Guy, Peter) e uma filha (Juliet). No início dos anos 1890, Beatrice mudou seu nome para Reed e explicou anos depois: “Because I was but a broken Reed at the foot of the mighty Tree”.

Sir Herbert Beerbohm Tree

Reed estudou na King’s School em Canterbury, um das mais antigos internatos da Inglaterra e decidiu que queria ser ator. Preocupada com sua pretensão artística (Claude, seu filho mais velho, já havia tomado a mesma decisão e acabou sendo vítima de alcoolismo), a mãe mandou-o para os Estados Unidos em 1922, onde seu irmão Guy trabalhava em uma fazenda. Durante algum tempo, Reed tornou-se um cuidador de galinheiros, porém, em menos de um ano, voltou para a Inglaterra, e sua progenitora, desistiu de fazer com que ele não seguisse a profissão que escolhera.

Reed estreou no palco em 1924, aos dezoito anos de idade, na peça “Heraclius” de Lord Howard de Walden. Pouco depois, a companhia de Sybil Throndyke encontrou um lugar para ele na peça “St. Joan” de Bernard Shaw, estrelada pela própria Sybil. Após participar de outros espetáculos, ele foi aceito em uma trupe liderada por Edgar Wallace, o autor de romances de mistério, que estava tentando transferir sua enorme popularidade das livrarias para a ribalta. Reed desempenhou o papel de um detetive na peça de Wallace “The Terror” e depois passou a atuar também nos bastidores como diretor de cena até ser escolhido para supervisionar as adaptações cinematográficas das obras do escritor, realizadas pela British Lion Film Corporation.

Após a morte de Wallace em 1932, Reed transferiu-se para a Associated Talking Pictures (A.T.P.) fundada por Basil Dean, cujo estúdio era em Ealing. Primeiramente, trabalhou como diretor de diálogos em Nine Till Six /1932 e foi logo promovido a assistente de direção, funcionando nessa capacidade em Autumn Crocus; The Constant Nymph; Sing As We Go; Sign of Four; Three Men in a Boat, Loyalties, Love, Life and Laughter, Looking on the Bright Side, Lorna Doone, todos de 1934, salvo o último, que é de 1935.

John Loder em It Happened in Paris

No ano seguinte, ele co-dirigiu com Robert Wyler (irmão de William Wyler) It Happened in Paris, adaptação da peça “L’Arpete” de Yves Mirande feita por John Huston. Nesta comédia romântica, um milionário americano Paul (John Loder) descontente com a vida que leva, vai a Paris para estudar pintura, fingindo ser pobre. Ele conhece uma jovem, Jacqueline (Nancy Burne), que vem a ser sua vizinha, e os dois se apaixonam. A moça é uma desenhista de moda que, a pedido de seu chefe, desfila para uma cliente e chama a atenção de um velho americano rico (Edward H. Robins), que fica entusiasmado por ela. No decorrer dos acontecimentos, Jacqueline descobre que ele é pai do seu namorado, surgindo outras complicações. Tal como os primeiros filmes de Reed, este ficou muito tempo desaparecido, mas hoje podem ser vistos em dvd da The Ealing Studios Rareties Collection. Trata-se de uma comédia bem divertida, agilmente encenada por Reed e Wyler desde a abertura com a anágua passando de mãos em mãos pelas ruas. Sucedem-se outros momentos cômicos irresistíveis (v. g. a “natureza morta” devorada pelos vizinhos esfomeados) e boas surpresas (v. g. quando Jacqueline descobre que o velho americano rico é pai de seu amado; quando Paul vai se casar com outra e verifica que quem está vestida de noiva é Jacqueline).

Cena de Midshipman Easy

No mesmo ano, Dean permitiu que Reed dirigisse sozinho Midshipman Easy, adaptação de uma história muito popular escrita pelo Capitão Frederick Marryat, lida por milhares de adolescentes. O romance trata da iniciação de um agitado e precoce aspirante da Marinha, mostrada em episódios, nos quais se alternam façanhas heróicas e situações cômicas.

Margaret Lockwood e Hughie Green em Midshipman Easy

Em 1850, Master Jack Easy (Hughie Green) embarca no HMS Harpy sob o olhar vigilante do capitão do navio (Roger Livesey), que é amigo de sua família. Sempre falando que “Igualdade e confiança são as bases da cooperação”, ele demonstra sua coragem no confronto com alguns companheiros de má índole, e depois em uma série de aventuras que envolvem: a captura de um navio espanhol carregado de ouro; o salvamento da tripulação durante uma tempestade; um flêrte idílico com Donna Agnes Ribiera (Margaret Lockwood), a filha núbil de uma família espanhola da Sicília; um duelo triplo; e a prisão de Don Silvio (Dennis Wyndham), perigoso bandido italiano. Easy é sempre protegido pelo cozinheiro negro Mesty (Robert Adams) que, no final, é promovido a marinheiro e luta contra Don Silvio, jogando-o do alto de um despenhadeiro. A classe e a bravura deste personagem em um filme britânico de 1935 contrasta com o tratamento estereotipado dos negros nos filmes americanos da época.

Cena de Midshipman Easy

Tecnicamente, o filme revela um jovem realizador dotado de intuição cinematográfica, que soube dar energia e movimentação constante à narrativa. Esta fluência evidencia-se principalmente no confronto entre o grupo de Easy e a horda fora-da-lei de Don Silvio na mansão de Don Ribiera (Arnold Lucy) e no resgate dos prisioneiros do navio que está afundando. Nesta última sequência, Reed cria uma excitação visual e até uma tensão moral e dramática, porque Easy e seus homens estão salvando seus inimigos, os quais poderão se virar contra eles depois.

O crítico de cinema contemporâneo mais eminente, Graham Greene, saudou a chegada do novo cineasta, atribuindo a ele “mais senso de cinema do que a maioria dos diretores britânicos veteranos”.

O segundo filme de Reed para a Associated Talking Pictures, Laburnum Grove / 1936, é uma adaptação da peça de J. B. Priestley sobre um cidadão da classe média alta, decente e respeitado (Edmund Gwenn), que deixa seu cunhado (Cedric Hardwicke) e sua cunhada (Ethel Coleridge), sua filha (Victoria Hopper) e o namorado mau caráter dela (Francis James) estupefactos e apavorados de serem responsabilizados como cúmplices, ao revelar casualmente durante o jantar que não é um fabricante de papel, como eles acreditam, mas sim um falsário, procurado pela Scotland Yard. Na verdade, ele pregou essa mentira para afastar de sua casa os cunhados parasitas e o detestável namorado da filha, mas depois que se livra deles, ficamos sabendo que ele de fato dedica-se à contrafação.

Cena de Laburnum Grove

Reed fez o melhor que pôde para fazer cinema em vez de teatro em conserva embora o filme permaneça centrado, como havia sido no palco, no texto espirituoso de Priestley (lembrando o humor de Bernard Shaw) e nas interpretações divertidas do elenco, onde se destacam Edmund Gwenn inflexivelmente jovial e com um olhar de sabido e Cedrid Hardwicke com seus tiques faciais e a mastigação constante de bananas.

Edmund Gwenn, Victoria Hopper e Carol Reed na filmagem de Laburnum Grove

Victoria Hopper e Edmund Gwenn em Laburnum Grove

Graham Greene manifestou-se mais uma vez sobre um trabalho de Reed, escrevendo: “Aqui finalmente está um filme inglês que se pode louvar sem reserva”. Ele disse que sentiu um prazer particular na habilidade de Reed para avivar a matéria teatral, transmitindo a história e a atmosfera através tanto de detalhes visuais como de palavras, sentimento com o qual compartilhei ao ver este e outros filmes do começo de carreira do diretor graças aos dvds da The Ealing Studios Rarities Collection.

Afastando-se da Associated Talking Pictures, Reed foi contratado pela companhia de Herbert Wilcox, British & Dominions para fazer Talk of the Devil / 1936 (anteriormente intitulado The Man with Your Voice), drama criminal baseado em uma história original do próprio Reed, construída na suposição de que um bom mímico pode personificar uma pessoa totalmente estranha, escutando-a falar por apenas alguns minutos. Stephen Rindlay (Basil Sidney) planeja roubar a firma de construção naval presidida por seu meio-irmão John Findlay (Randle Ayrton), incriminando-o falsamente. Para obter informações, o vilão contrata um mímico talentoso, Ray Allen (Ricardo Cortez), que começa a namorar Ann (Sally Eilers), a filha de Ayrton. Rindlay consegue seu objetivo e, em consequência, Ayrton se suicida, para salvar a companhia. Mais tarde, o vilão tenta matar o mímico, mas felizmente este sobrevive, denuncia o vilão à polícia, que é preso, e Ray prova ser merecedor do amor de Ann.

Por muito tempo o filme foi considerado perdido, mas o BFI National Archive tinha uma cópia e o exibiu em 2006 no centenário de Carol Reed. Em vez de reconstruir seu estúdio em Elstree, que havia se incendiado, a B&D preferiu erguer, em parceria com outras firmas, uma nova instalação em Pinewood, onde Talk of the Devil acabou de ser rodado.

Segundo Raquel Low (Film Making in 1930s Britain, 1985), apesar de ter sido concebido como uma produção modesta, o filme foi um melodrama ágil, tenso e muito bem dirigido por Carol Reed. Como não tive a sorte de estar presente na exibição do BFI, tenho que confiar no comentário da excelente historiadora.

Poster espanhol de Who’s Your Lady Friend

Poster da versão austríaca de Who’s Your Lady Friend?

Depois de Talk to the Devil, Reed dirigiu para a Dorian Films, Who’s Your Lady Friend? / 1937, refilmagem de uma comédia musical austríaca de sucesso, Herr ohne Wohnung (dirigido por E. W. Emo em 1934), no qual um médico especialista em cosméticos (Vic Oliver) que aguarda uma cliente francêsa muito importante, manda seu secretário (Romney Brent) recebê-la na estação ferroviária mas ele a confunde com uma artista de cabaré (Frances Day). Quando sua namorada (Margaret Lockwood) o vê com esta mulher, ela imediatamente suspeita de que ele a está traindo e quando a esposa do médico (Betty Stockfield) vê seu marido com ela, suspeita da mesma coisa, resultando as complicações de praxe.

Não encontrei cópia nem na magnífica BFI Mediatheque – South Bank. Vi apenas a versão austríaca, que não é má, porém, levando em conta as boas comédias que Reed fez nesta fase de sua carreira, suspeito que seu filme seja melhor, embora a filmagem tivesse sido abalada por vários acidentes: o chefe eletricista sofreu uma queda, ficando seriamente ferido; o diretor de fotografia Jan Stallich foi parar no hospital com uma crise de apendicite aguda; Margaret Lockwood teve problemas domésticos e isso afetou sua interpretação.

Ainda em 1937, Reed começou a filmar para a Gainsborough, Bank Holiday, grande sucesso popular que ajudou a firmar sua reputação como diretor. Passado durante um feriado bancário, o enredo acompanha um grupo de personagens de diferentes classes sociais, que embarca em um trem de Londres para o litoral fictício de Besborough. Entre eles estão uma balconista de loja candidata a um concurso de beleza, Doreen (Renee Ray) e sua melhor amiga Milly (Merle Tottenham); a candidata favorita da competição, “Miss Mayfair” (Jeanne Stuart); e uma família cockney chefiada por Arthur (Wally Patch) e May (Kathleen Harrison); porém a trama central gira em torno de uma relação triangular entre o récem enviuvado Stephen (John Lodge), a enfermeira Catherine (Margaret Lockwood) e seu namorado Geoffrey (Hugh Williams). Catherine estava de serviço na maternidade e presenciou a morte de uma jovem durante o parto. Seu marido, Stephen, profundamente afetado pelo trágico acontecimento, retorna para casa, apesar de Catherine ter desejado acompanhá-lo. Geoffrey aguarda-a ansioso para eles tomarem o trem para Besborough, onde ele planeja se hospedar com ela em um hotel luxuoso. Quando Catherine e Geoffrey chegam ao seu destino, não conseguem vaga em nenhum hotel e acabam passando a noite (junto com muitos outros) na praia. Durante sua estadia em Besborough, Catherine não consegue tirar a imagem de Stephen de sua cabeça e, subitamente, tem uma premonição de que ele está em perigo. Preocupada, deixa Geoffrey, reconhecendo que não o ama, e volta para Londres. Seu pressentimento estava certo e ela chega com a polícia a tempo de salvar Stephen de uma tentativa de suicídio.

John Lodge e Margaret Lockwood em Bank Holiday

Cena de Bank Holiday

Hugh Williams e Margaret Lockwood em Bank Holiday

Trata-se ao mesmo tempo de um filme de observação realista (através de vinhetas alegres dos diferentes frequentadores do balneário) e de um melodrama (marcado pela situação lúgubre que liga os personagens da enfermeira e do viúvo). A ação é um pouco mais do que uma sucessão de episódios e incidentes desconexos, mas Reed liga os fios com habilidade e consegue traduzir sua larga compreensão da condicão humana na tela de uma forma simpática. O domínio contínuo de Reed da linguagem fílmica é demonstrado por exemplo nas tomadas de abertura resumindo o aspecto de formigueiro humano do mundo trabalhador de Londres e depois na tempestade no balneário. O cineasta teve também algumas idéias criativas que ampliaria ou refinaria em filmes futuros como aquele gato preto na janela do apartamento de Stephen, quando ele vagueia pelos cômodos, lembrando-se de sua falecida esposa. O gato reapareceria em The Girl in the News / 1941 e em O Terceiro Homem / The Third Man / 1949.

Mais ou menos na mesma época Reed escreveu uma história sobre um vagabundo que, por engano, é contratado como chofer para a fuga de ladrões de jóias, mas depois realiza finalmente seu sonho de ser atendente em um estacionamento. Seu argumento foi aproveitado no filme No Parking, dirigido por Jack Raymond, com Gordon Hacker no papel do vagabundo.

Retornando à A.T.P., Reed dirigiu Penny Paradise / 1938, comédia cuja ação transcorrre em Liverpool, onde o capitão de um rebocador, Joe Higgins (Edmund Gwenn), acreditando ter ganho uma fortuna na loteria esportiva, pede demissão do seu cargo e dá uma festa em uma taverna local, onde sua família e seus amigos – alguns dos quais estão de ôlho no seu dinheiro – se reunem para celebrar a sua boa sorte. Higgins corteja a viúva Clegg (Maire O’Neill) enquanto sua filha Betty (Betty Driver) é assediada por Bert (Jack Livesey), um oportunista, que fareja dinheiro. A festa é interrompida com a chegada de Pat (Jimmy O’Dea), o primeiro imediato irlandês de Higgins no rebocador (e pretendente de Betty), que é obrigado a admitir que esqueceu de postar o bilhete vencedor. Agora parece que não há mais motivo para a comemoração, mas Higgins fica em paz, quando seu ex-patrão lhe oferece o comando do melhor rebocador do Rio Mersey, posição que ele tanto almejara.

Edmund Gwenn em Penny Paradise

Os incidentes da trama são entremeados por vários números musicais interpretados por Betty Driver (uma Gracie Fields menor) e um, para efeito cômico, por Jimmy O’Dea. O humor é em geral complacente, mas sem se tornar grosseiro, com exceção de alguns momentos de puro pastelão. Exemplo de uma sequência cômica eficiente: logo no início, Pat tem que guiar o rebocador na direção de um navio mas é distraído por duas lindas jovens – para as quais acena – e o rebocador bate na embarcação maior. A solidariedade entre Pat e Higgins é mostrada através deste incidente, pois Higgins defende a negligência de Pat. Estamos diante de uma produção modesta, porém Reed, como sempre, consegue criar uma atmosfera realista, dar credibilidade aos personagens e vida ao espetáculo.

Jessie Mathews e Michael Redgrave em Climbing High

Cena de Climbing High

Alastair Sim em Climbing High

As origens de Climbing High / 1938, que Reed realizou para a Gaumont-British, são obscuras, mas alguém deve ter tido a idéia de que Jessie Matthews, uma das estrelas de primeira grandeza do musical na Inglaterra, agradaria ao público mesmo sem as canções e as danças, além de já ser conhecida pelas platéias americanas. Aliás, o que os roteiristas fizeram foi simplesmente copiar o modelo das screwball comedies de Hollywood. Nick Brooke (Michael Redgrave) é um rapaz rico que, para conquistar uma modesta modelo de uma empresa de publicidade, Diana Castle (Jesse Matthews) e escapar de uma noiva (Margaret Vyner) e da mãe dela (Mary Clare), somente interessadas na sua fortuna, finge ser pobre. A partir daí, sucedem-se inúmeras situações cômicas envolvendo um comunista (Alastair Sim), um irmão ciumento e genioso (Torin Thatcher) e um lunático (Francis L. Sullivan), fugitivo de um asilo e metido a entoar árias de óperas, ocorrendo o final da intriga com os personagens principais escalando os Alpes. Entre as cenas mais engraçadas está a de uma máquina descontrolada de fazer vento no estúdio fotográfico, colocando todos os objetos em movimento e derrubando as pessoas inclusive, entre outras coisas, com tortas no rosto, uma sequência-pastelão muito bem encenada por Reed, que soube também manter o espetáculo em um ritmo trepidante. Jessie e ele viveram um romance, que só durou o tempo da filmagem.

O próximo filme de Reed, Garotas Apimentadas / A Girl Must Live / 1939, realizado para a Gainsborough, foi outra tentativa de copiar Hollywood, desta vez o gênero backstage musical, usando como modelo, por exemplo, filmes como Rua 42 / 42nd Street / 1933 ou a série Gold Diggers. Uma jovem de boa família (Margaret Lockwood), foge de um internato para moças na Suiça, porque sua mãe viúva não pode mais pagar a mensalidade. Antes de escapar pela janela do dormitório, uma de suas colegas sugere que ela adote o nome artístico de “Leslie James”, pois sua progenitora com este nome fôra uma estrela famosa do music hall e ele ajudará Margaret a “se fazer” como dançarina. “Leslie” hospeda-se em Londres na pensão de Mrs Wallis (Mary Clare), frequentada na sua maioria por pessoas do meio teatral, entre elas duas coristas “cavadoras de ouro”, Renee Houston (Gloria Lind) e Clytie Devine (Lilli Palmer), que competem entre si na sua busca por maridos milionários ou velhotes ricos – uma briga entre as duas vislumbrada em parte através de uma fechadura foi muito bem encenada, com as meninas convertendo todo objeto concebível em uma arma. Com a ajuda de um chantagista, Hugo Smythe Parkinson (Nauton Wayne), “Leslie”, Gloria e Clytie se alternam, tentando conquistar o Lorde Pangborough (Hugh Sinclair); e é “Leslie” quem acaba nos braços dele.

Margaret Lockwood,  Lili Palmer e Renee Houston em Garotas apimentadas

Cena de Garotas Apimentadas

Cen de Garotas Apimentadas

As coristas e Hugh Sinclair em Garotas Apimentadas

A revista musical na qual as três coristas aparecem, é dirigida por um ensaiador americano muito exigente, Joe Gold (David Burns) parecido com aquele interpretado por Warner Baxter em Rua 42; porém os números de dança são medíocres, principalmente se comparados com os de Busby Berkeley nos filmes do mesmo gênero do cinema americano. Com esta deficiência, um assunto já rançoso em 1939, excesso de diálogos e cenas românticas muito mornas entre o Lorde e “Leslie”, Reed (talvez cansado de dirigir comédias frívolas) não conseguiu impedir que o espetáculo se tornasse cansativo a partir de certo ponto da narrativa.

Seu filme seguinte, Sob a Luz das Estrelas / The Stars Look Down / 1940, produzido por uma companhia modesta, Grafton Films, distribuido na Inglaterra pela efêmera Grand National Studios e baseado em um romance de A. J. Cronin, é um drama sobre mineiros que arriscam sua vida em proveito de interesses particulares.

Michael Redgrave e Margaret Lockwood em Sob a Luz das Estrelas

No centro da ação está a família Fenwick de Sleescale, pequena cidade do Norte da Inglaterra. Robert Fenwick (Edward Rigby) lidera os mineiros da Neptune Colliery (Mina de Carvão Neptune) em uma greve por causa da preocupação com a segurança dos trabalhos sob o mar de Scupper Flats. O Sindicato manifesta-se contra a greve, porém os mineiros persistem e passam fome. A violência irrompe com o saque de comida e Robert Fenwick tentando impedí-los e “Slogger” Gowlan (George Carney) encorajando-os, são presos. A greve fracassa e os mineiros voltam ao trabalho. As reações a esta situação são cristalizadas em dois personagens, cada qual seguindo seu próprio caminho, para escapar da sua condição social. O filho de Robert, David (Michael Redgrave) estuda na universidade em Tynecastle e tenciona usar esta educação para transformar a sociedade através do ativismo politico. Entretanto, o filho de “Slogger”, Joe (Emlyn Williams), amigo de infância de David, inteligente mas inescrupuloso, escolhe um rumo diferente. Ele rouba uma loja durante os distúrbios, instala-se como bookmaker em Tynecastle, e se torna comprador de carvão. A vida dos dois homens se entrelaçam quando David se casa com a namorada rejeitada de Joe, a vulgar e volúvel Jenny Sunley (Margaret Lockwood), que o faz esquecer seus grandes projetos e se conformar em ser apenas um professor em Sleescale. Um dia, Joe retorna, e David percebe que ele quer convencer o dono da mina, Richard Barras (Allan Jeayes), a reativar Scupper Flats, apesar da ameaça de inundação. Ele surpreende Joe com sua esposa e lhe dá uma surra. Quando David solicita aos dirigentes do Sindicato que impeçam a perigosa exploração, eles acham que ele está querendo apenas se vingar de Joe. Mas em breve a mina desaba, invadida pelas águas e, apesar de seus esforços, David não consegue salvar seu pai e seu irmão mais novo, Hughie (Desmond Tester). Como consequência da tragédia, os mineiros pedem a David que os represente no inquérito e há a insinuação de que poderão surgir mudanças.

Michael Redgrave, Margaret Lockwood e Emlyn Williams em Sob a Luz das Estrelas

Reed descreve com realismo quase documental os efeitos devastadores de uma greve de mineiros e as consequências trágicas de um desastre em uma mina, mostrando a ganância dos proprietários, a covardia do Sindicato e o heroismo dos trabalhadores e suas familias. A filmagem começou em Cumberland e depois o diretor levou uma equipe reduzida para Ashby-de-la-Zouch em Leicestershire, para ver realmente como era o subterrâneo de uma mina de carvão, a fim de que depois ela pudesse ser recriada no estúdio de Twickenham, sendo que as cenas na superfície foram rodadas em Shepperton.

Edward Rigby e Michael Redgrave em Sob a Luz das estrelas

Cena de Sob a Luz das Estrelas

A sequência inicial mostrando a saída dos mineiros do seu local de trabalho com os rostos sujos da poeira do carvão; as ruas residenciais com suas casas minúsculas, cinzentas, todas parecidas umas com as outras; o confronto dos operários com o patrão e o representante do Sindicato; a greve, a fome e a pilhagem do açougue; a cena comovente da partida de David para a universidade em Tynecastle sob o olhar empedernido da mãe (que demonstra apenas levemente sua perturbação quando o chama de volta e lhe dá alguma comida que ela havia preparado), são passagens magníficas de autenticidade cinematográfica, somente igualadas pelo longo trecho final da catástrofe no interior da mina, onde os homens buscam frenéticamente a segurança, tentativas desesperadas de resgate são realizadas, e onde a moral daqueles seres condenados à morte vai caindo pouco a pouco até que as águas avassaladoras invadem o local, enquanto do lado de fora desse inferno esposas e crianças ansiosas aguardam silenciosamente por notícias.

A filmagem de Sob a Luz das Estrelas terminou exatamente em 29 de setembro de 1939, dia em que as tropas de Hitler chegaram a Varsóvia e a Inglaterra declarou guerra à Alemanha. Um mês antes, Reed havia sido contratado para dirigir um filme repleto de nazistas e heróis da resistência, intitulado Report on a Fugitive; porém, no momento em que a guerra estourou, todas as filmagens cesssaram, porque os estúdios foram requisitados pelo govêrno para outros usos. O estúdio em Islington, (usado pela companhia produtora 20thCentury-Fox), onde Report on a Fugitive deveria ser rodado, foi simplesmente fechado. Quando a produção de filmes veio a ser retomada, Reed continuou debruçado sobre a realização de Report on a Fugitive (agora nos estúdios de Lime Grove, porque o Islington permanecia interditado), imediatamente reintitulado Gestapo, tornando-se parte integral do esforço de guerra. Por ocasião do lançamento em 1940, o título mudou para Night Train to Munich, mas no Brasil, continuou sendo Gestapo

A história começa quando a Alemanha está invadindo a Checoslováquia. Axel Bomasch (James Harcourt), cientista checo importante, consegue fugir de avião para a Inglaterra, mas sua filha Anna (Margaret Lockwood), que ia se juntar a ele, é capturada a caminho do aeroporto e internada em um campo de concentração. Ela escapa com a ajuda de um oficial nazista, Karl Marsen (Paul von Henreid), que se faz passar por prisioneiro, e a leva para Londres, com a finalidade de trazer Anna e seu pai de volta para o Reich. O agente britânico Gus Bennett (Rex Harrison), especializado em assumir identidades falsas, salta de paraquedas na Alemannha, disfarça-se em oficial nazista do alto escalão e se vincula ao caso Bomasch, fingindo ser amante de Anna, acompanhando o pai e a filha em uma viagem de trem noturno para o quartel general da Gestapo em Munich. Durante o trajeto, dois passageiros ingleses, Charters (Basil Radford) e Caldicott (Nauton Wayne), deduzem que Bennett é um espião e o avisam de que ele está para ser preso. Com a ajuda destes dois aliados, Bennett improvisa um plano desesperado para fazer com que Anna e seu pai cruzem a fronteira com a neutra Suiça.

Margaret Lockwood e Paul von Henreid em Gestapo

O espetáculo lembra muito A Dama Oculta / The Lady Vanishes / 1938 de Alfred Hitchcock, pois ambos têm um tema parecido, idênticos roteiristas (Frank Launder e Sidney Gilliatt), atriz principal (Margaret Lockwood) e dois personagens secundários (os inglêses fleumáticos amantes do críquete, Charters e Caldicott, interpretados pelos mesmos Basil Redford e Nauton Wayne), transcorrem em boa parte em um trem e oferecem os mesmos prazeres: um thriller de espionagem, dosando habilmente ação, humor, suspense e típicas implausibilidades hitchcockianas como, por exemplo, aquele salto de Bennett de um veículo teleférico para outro no clímax alpino.

Rex Harrison e Margaret Lockwood em Gestapo

Rex Harrison, Basil Radford e Nauton Wayne em Gestapo

Rex Harrison em Gestapo

Depois de Gestapo, Reed fez, novamente para a 20thCentury-Fox, um drama criminal, Ré Inocente / The Girl in the News / 1941, sobre uma enfermeira, Anne Graham (Margaret Lockwood), controvertidamente absolvida da acusação de assassinato de uma paciente idosa, que faleceu em circunstâncias suspeitas. Mudando seu nome, ela consegue um emprego para cuidar de Edward Bentley (Wyndham Goldie), um senhor que vive preso a uma cadeira de rodas, sem desconfiar de que sua esposa, Judith (Margaretta Scott ) e o mordomo Tracy (Emlyn Williams) são amantes, e estão tramando culpar Anne, depois que Bentley for encontrado morto, envenenado por eles, fazendo com que o crime pareça uma repetição daquele no qual a enfermeira fôra injustamente acusada. O policial Bill Mather (Roger Livesey), amigo do advogado de Anne, Stephen Farringdon (Barry K. Barnes), prende Anne, mas Stephen, somente agora convencido plenamente da inocência de sua cliente no caso anterior, defende-a no tribunal e desmaracara os verdadeiros culpados. Judith se suicida diante da Côrte, seu cúmplice Tracy é condenado, e tudo indica que já nasceu um romance entre Anne e Stephen

Margaret Lockwood em Ré Inocente

Margaret Lockwood e Barry K. Barnes em Ré Inocente

Reed proporcionou um entretenimento todo certinho sobre acusações falsas com duas sequências de tribunal, na ;ultima das quais a tensão aumenta significativamente, graças à interpretação de Emlyn Williams , quando seu personagem depões diante dos jurados e assiste horrorizado Judith ir ao encontro da morte. Sob o aspecto estilístico, vale notar que o cineasta usou novamente de maneira simbólica a imagem de um gato (tal como fizera em Bank Holiday e repetiria em O Terceiro Homem), quando a paciente inválida se aproxima cambaleante do armário , onde estão as pílulas que causarão sua morte, e o felino a segue,agarrando-se na barra rasgada  de sua camisola.

MIchael Redgrave em Kipps

Reed realizou ainda para a 20thCentury-Fox, Kipps / 1941 adaptação de um livro de H. G. Wells, o sétimo filme do diretor com origem em uma obra literária ou teatral e pode ser visto como um exemplo de sua preferência por histórias que alguém já havia contado em um romance ou uma peça. Apesar do refúgio constante da equipe sob os abrigos para escapar dos bombardeios alemães, a filmagem terminou dentro do prazo previsto. Apenas uma idéia falhou: não foi possível convencer H. G. Wells a aparecer em uma introducão filmada do espetáculo.

O protagonista do filme, Arthur Kipps (Michael Redgrave), é um jovem aprendiz na loja de tecidos de Mr. Shalford (Lloyd Pearson) em Folkestone, Kent. Através de sua iniciativa – frequentando os cursos de Chester Coote (Max Adrian) em um Instituto Cultural – e a ajuda da herança inesperada de um avô que nunca conhecera, ele monta uma loja de tecidos e se vê envolvido com sua ex-professora no curso, uma dama da sociedade, Helen Walsingham (Diana Wyniard). Kipps sofre com as tentativas de Helen para transformá-lo em um homem aceitável em sua classe social e acaba se casando com a namorada de infância, Ann Pornick (Phyllis Calvert), que estava trabalhando como copeira em um salão de festas. Porém o irmão de Helen, Ronnie (Michael Wilding), investiu mal o capital de Kipps, e sua fortuna desaparece. É nessa hora de aflição que Chitterlow (Arthur Riscoe), um autor teatral pitoresco com o qual fizera amizade, chega magicamente à sua casa de noite e lhe entrega metade do numerário obtido com o sucesso estrondoso da peça, que persuadira Kipps a financiar. O dinheiro é o suficiente para que ele abra uma livraria e viva confortavelmente com Ann e o filhinho de ambos.

Diana Wyniard e Michael Redgrave em Kipps

Michael Redgrave em Kipps

Reed esteve sempre à vontade ao tratar de filmes que tivessem alguma relação com temas sociais e Kipps lhe permitiu examinar o sistema de castas na Grã Bretanha na virada do século dezenove para o século vinte, fazendo comentários ligeiros sobre o mesmo. Com esta predisposição, ele recria com abundância e precisão de detalhes a vida da classe trabalhadora ao recapitular a história dos anos de servidão de Kipps como aprendiz em Folkestone, seu legado inesperado, sua iniciação penosa nas “altas rodas” nas mãos da sôfrega Helen Walshingham, sua reunião com Ann, sua bancarrota e sua salvação por meio de outro milagre financeiro, produzindo despretenciosamente uma comédia de costumes inteligente e agradável.

Embora estivessem em uma ligação amorosa, Reed e Diana Wyniard mantiveram este relacionamento na maior discreção. Diana foi a primeira mulher com quem Reed pensou em se casar, desde que ele “levou o fora” de Daphne du Maurier, a autora de “Rebecca” e de outros romances ou contos que viraram filmes; porém o matrimônio não durou muito tempo.

O último filme de Reed para a subsidiária britânica da Twentieth Century-Fox, O Jovem Mr. Pitt / The Young Mr. Pitt / 1941, foi uma cinebiografia sobre a vida de William Pitt, o Jovem e, particularmente, sua luta com a França revolucionária e Napoleão, feito em regime de grande produção, com o objetivo de instigar os americanos a se juntarem à Inglaterra, para defender sua herança comum contra um ditador fascista. Como os preparativos para o filme levariam vinte e três semanas enquanto os cenários de Cecil Beaton estavam sendo construídos em Lime Grove e o vestuário confecionado por Beaton e Elizabeth Haffender, Reed teve tempo para dirigir um short de 17 minutos, A Letter from Home, realizado sob os auspícios do British Ministry of Information, mostrando um dia na vida de uma mulher – interpretada pela atriz de teatro Celia Johnson no seu primeiro papel no cinema – cujas filhas haviam sido enviadas para os Estados Unidos para maior segurança. Durante a filmagem, ele conheceu uma jovem artista, Penelope Dudley Ward, sua futura esposa.

Robert Donat como Pitt

Robert Donat e Phyllis Calvert em O Jovem Mr. Pitt

Cena de O Jovem Mr. Pitt

O Jovem Mr. Pitt é uma alegoria nacionalista na qual a luta da Inglaterra contra os francêses durante as guerras napoleônicas é implícitamente comparada à sua defesa heróica e solitária contra os nazistas antes da entrada da América no Segundo Conflito Mundial. Pitt é apresentado como um modelo de virtude para que sua imagem possa servir à necessidade de mobilizar o sentimento público diante da ameaça hitlerista. Para attender a este objetivo, o diretor buscou um efeito documentário tanto no uso da voz over identificando, comentando ou julgando os acontecimentos como nas cenas de montagem, dramatizando a nova face industrial e financeira da Grã Bretanha, que possibilitou o triunfo da nação na guerra napoleônica.

John Mills e Robert Donat em O Jovem Mr. Pitt

O enredo se concentra primeiramente nos esforços de Pitt para fazer uma reforma doméstica e depois na sua política externa. Seu maior opositor é Charles James Fox (Robert Morley), politico ambicioso pelo poder, que se recusa a ajudar Pitt na sua proposta reformista, e seu melhor amigo, William Wilbeforce (John Mills), cuja lealdade é indiscutível. Os outros antagonistas do Primeiro Ministro, Napoleão (Herbert Lom) e seu diplomata Talleyrand (Albert Lieven com um leve sotaque alemão), assemelham-se nas suas falas à pregação nazista – a certa altura, este último oferece a Inglaterra a oportunidade de compartilhar o domínio mundial com a França.

Enquanto Pitt adverte seus pares da ambição territorial da Franca, Fox minimiza o perigo francês. Com a vitória do Almirante Horatio Nelson (Stephen Haggard), destruindo a frota francêsa no Egito, Pitt conquista a confiança do povo; mas quando os britânicos são derrotados em terra, ele perde sua popularidade. Pitt se retira da vida política e aqueles politicos a favor da paz com a França assumem o poder. Entretanto, ele retorna ao Parlamento, quando fica claro que o país necessita de uma liderança mais militante. Na sua dedicação total ao seu país, Pitt sacrifica sua vida pessoal com Eleanor Eden (Phyllis Calvert), suas finanças pessoais e finalmente sua saúde.

Quando o filme ficou pronto, o ataque japonês a Pearl Harbor deu a Roosevelt o apoio do Congresso que ele necessitava tanto para se unir aos aliados na Segunda Guerra Mundial. O filme foi entendido na época como uma homenagem à força de liderança de Winston Churchill na adversidade. Tão logo o filme acabou de ser montado com a aprovação de Reed, Churchill foi convidado para assistí-lo e, previsivelmente, o aprovou.

FILMES PERDIDOS DO CINEMA MUDO AMERICANO

May 12, 2017

A era do cinema mudo americano durou mais ou menos de 1912 a 1929. Durante esse tempo, os realizadores de filmes criaram a linguagem cinematográfica, os filmes que eles fizeram atingiram o auge da perfeição artística e, com seus astros e estrelas e altos valores de produção, espalharam a cultura americana através do mundo. Com o advento do som, os filmes silenciosos sumiram de vista, e muitos desapareceram para sempre.

Houve diversas causas para este desaparecimento:

  1. Era caro armazenar os filmes (se os estúdios quizessem fazer isto de maneira apropriada) e como muitos não tinham mais valor comercial, eles simplesmente os jogavam fora. Quando o longa-metragem se consolidou como formato preferido pelo público, não havia sentido para os produtores manter em estoque os velhos filmes de um ou dois rolos, pois não havia mais mercado para eles. E com o advento do som a partir de 1927, os filmes mudos tornaram-se um estorvo, ocupando espaço sem gerar nenhum lucro.
  2. Os filmes costumavam ser destruídos em incêndios, porque eram feitos de nitrocelulose, que tinha a mesma estrutura química do algodão-pólvora, usado em explosivos. Em consequência, o filme de nitrato era extremamente inflamável e tinha a tendência de sofrer combustão espontânea; uma vez inflamado, criava seu próprio oxigênio enquanto queimava, desprendendo fumaça tóxica. Apesar de regulamentações como o Cinematograph Act de 1909 que estipulava que um projetor devia ser conservado em uma cabine à prova-de-fogo, durante as primeiras seis décadas de vida do cinema, durante cada segundo de quase toda exibição de filme no mundo, uma substância altamente combustível estava passando a milímetros de distância de uma fonte de luz excepcionalmente quente, situada logo atrás de uma sala escura cheia de gente.
  3. Os filmes eram reciclados para o reaproveitamento de sua matéria-prima, dissolvendo-se as películas para a reobtenção da prata ou fornecimento de celulose para a fabricação de vassouras.
  4. Os filmes apodreciam. Mesmo se escapava de pegar fogo, ele ainda se decompunha até literalmente ser reduzido a pó. Muitos tesouros tiveram este triste destino. Por exemplo, a atriz Colleen Moore havia depositado seus filmes silenciosos no Museu de Arte Moderna de Nova York, e eles, sem o necessário cuidado na sua conservação, eventualmente se deterioraram.

Em 2013, em um estudo pioneiro “The Survival of American Silent Feature Films: 1912-1929”, comissionado pela National Film Preservation Board da Biblioteca do Congresso, o historiador e arquivista David Pierce (que entre outros méritos teve o de ser o fundador da Media History Digital Library, projeto que digitalizou e permitiu o acesso grátis a dezenas de revistas de cinema americanas) elaborou um relatório e formou um banco de dados, contendo informações valiosas sobre quase 11 mil títulos de filmes de longa-metragem americanos lançados entre 1912-1929.

Arquivo de Filmes da Biblioteca do Congresso

Não existe um único número para filmes mudos americanos existentes, porque as cópias sobreviventes variam de formato e de inteireza. A pesquisa mostrou que: 1) apenas quatorze por cento (1.575 títulos) dos filmes de longa metragem produzidos e distribuidos no âmbito doméstico de 1912 a 1929, ainda existem no seu formato original de 35 mm. 2) onze por cento (1.174 títulos) dos filmes que estão completos somente existem como versões estrangeiras ou em formatos de baixa-qualidade como 28 mm ou 16mm. 3) cinco por cento (562 títulos) estão incompletos, faltando alguma parte do filme ou existindo apenas como uma versão condensada. 4) dos 3.311 filmes que sobreviveram em qualquer formato, 886 foram encontrados no exterior (destes, vinte e três por cento (210 títulos) já foram repatriados para os Estados Unidos). Os remanescentes 70 por cento são considerados perdidos.

Havia uma área onde os estúdios de Hollywood frequentemente perdiam o contrôle do seu produto: a distribuição internacional. Os filmes americanos rapidamente se tornaram as atrações mais populares nos cinemas do mundo inteiro e os estúdios enviavam seus títulos para todo o mercado estrangeiro que ansiava por eles. O problema era trazer as cópias de volta, considerando que o transporte transoceânico era feito por navio e que a comunicação telefônica entre continentes era rara, dificultando o contato com os representantes estrangeiros que cuidavam do lançamento dos filmes de Holywood. Por causa disso, muitas cópias de filmes americanos permaneceram no exterior.

Entre os filmes mais importantes que sobreviveram fora do país após terem desaparecido no âmbito doméstico e muitos anos depois foram recuperados, estavam: Ridi, Pagliacci ! / Laugh, Clown, Laugh / 1928 de Herbert Brenon – encontrado no Reino Unido; A Torrente da Fama / Upstream / 1927 de John Ford – encontrado na Nova Zelândia; O Monstro do Circo / The Unknown / 1927 de Tod Browning – encontrado na França; Rosita / Rosita / 1923 de Ernst Lubitsch – encontrado na Russia; Oliver Twist / Oliver Twist / 1922 de Frank Lloyd – encontrado na Sérvia; Esposa Mártir / Beyond the Rocks / 1923 de Sam Wood – encontrado na Holanda.

A maior coleção de filmes americanos exportados veio do Národní Filmovy Archiv da República Theca, fundado em 1943. A sua primeira grande aquisição foi no final dos anos quarenta, uma coleção de cerca de 400 filmes mudos de curta e longa-metragem do Sr. Bouda, gerente de um cinema itinerante. Em 1966, o Národní Archiv respondeu um telefonema do Sr. Pisvejc, outro exibidor ambulante, que havia armazenado seus filmes em uma fazenda de criação de galinhas, entre eles 80 longas-metragens dos anos vinte, a maioria westerns estrelados por Tom Mix, Buck Jones, etc.

Nos Estados Unidos, a maioria dos filmes sobreviventes estão na posse de cinco grandes arquivos: The Packard Campus for Audio Visual Conservation, que faz parte da Biblioteca do Congresso; Museum of Modern Art; George Eastman House; UCLA Film & Television Archive; The Academy Film Archive, setor da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Uma arquivista mostra uma pequena porção do UCLA Film and Television Archive

UCLA Film and Television Archive

Alguns estúdios perceberam que seus filmes silenciosos tinham valor e tentaram preservá-los. A MGM possui mais dos seus filmes de longa-metragem mudos do que qualquer outro grande estúdio de Hollywood, porque nos anos sessenta decidiu preservar tudo o que ainda estava disponível.

Realizadores e artistas como, por exemplo, Douglas Fairbanks, Charles Chaplin, William S. Hart, D. W. Griffith, Mary Pickford, Cecil B. DeMille e Harold Lloyd preservaram seus filmes por conta própria (embora Lloyd tivesse perdido boa parte de sua obra em um incêndio no seu acervo no início dos anos quarenta).

John Hampton na sua cabine de projeção

A coleção de filmes em 16mm mais importante fora de um arquivo ou de um estúdio foi formada por John Hampton que, com sua esposa Dorothy, administraram o Silent Movie Theater de Los Angeles de 1942 a 1979. Ela faz parte agora da Stanford Theatre Collection no UCLA Film & Television Archive. Outra grande coleção é a de David Bradley – um fã que se tornou diretor de cinema -, hoje guardada na Lilly Library da Indiana University.

Por fim, convém lembrar La Giornata del Cinema Muto, um festival de cinema silencioso que, a partir de 1982, acontece todo ano no mês de outubro na cidade italiana de Pordenone, quando são exibidos pela primeira vez novos descobrimentos de cópias dadas como perdidas e que foram restauradas, provenientes de filmotecas inernacionais e colecionadores particulares.

 Selecionei os dez filmes perdidos que mais gostaria de ter visto:

1. ALTA TRAIÇÃO / THE PATRIOT/ 1928. Dir: Ernst Lubitsch.

Florence Vidor e Emil Jannings em Alta Traição

Emil Jannings e Ernst Lubitsch na filmagem de Alta Traição

Na Russia do século XVIII, o Czar Paulo (Emil Jannings) está cercado de intrigas homicidas e só confia no Conde Pahlen (Lewis Stone). Pahlen quer proteger seu amigo, o rei louco, mas por causa do horror dos atos praticados pelo monarca, ele sente que deve removê-lo do trono. Stefan (Harry Cording), açoitado pelo czar por não ter o número correto de botões nas suas polainas, junta-se ao conde na conspiracão. O príncipe coroado Alexandre (Neil Hamilton) fica aterrorizado ao saber dos planos deles e adverte o pai que, não sentindo amor pelo filho, manda prendê-lo por suas acusações tolas. Pahlen usa sua amante, a Condessa Ostermann (Florence Vidor), para atrair o czar ao seu quarto, onde ela lhe fala sobre a trama. O czar exige a presença de Pahlen, que o assegura de sua lealdade. Mais tarde naquela noite, o conde e Stefan entram no quarto do czar e logo ele está morto. Porém momentos depois Stefan aponta uma pistola para Pahlen. Enquanto o conde está morrendo caído no chão, a condessa aparece, abraça Pahlen, e ele diz: “Eu fui um mau amigo e amante – mas eu fui um Patriota”.

Obs. Sobrevivem oito minutos do filme, além do trailer, pertencentes à Cinemateca Portugesa. O fragmento de oito minutos, mostra os momentos de angústia do czar enlouquecido, mandando os guardas procurarem o conde Pahlen, que estaria traindo-o. Quando o conde entra na sala e inicia um diálogo com o czar, garantindo-lhe que não o está traindo, a imagem começa a ter falhas e, subitamente, o fragmento termina. O pedaço de filme, exibido pela única vez na Cinemateca Portuguesa em 2005, pertencia à coleção do cinéfilo e cineclubista do Porto, Henrique Alves Costa e foi entregue à Cinemateca em 2002 pela famíla dele. Trata-se provavelmente do que restou de uma cópia exibida em Portugal, onde The Patriot (como título de O Patriota) estreou no Cinema Tivoli em 4 de novembro de 1929.

2A ILHA DO TESOURO / TREASURE ISLAND / 1920. Dir: Maurice Tourneur.

Shirley Mason e Lon Chaney em A Ilha do Tesouro

Cena de A Ilha do Tesouro

O jovem Jim Hawkins (Shirley Mason) ajuda sua mãe viúva (Josie Melville) a administrar a Estalagem Admiral Benbow na costa oeste da Inglaterra. O capitão de navio, Billy Bones (Al Filson), chega na estalagem e pede a Jim que o avise se aparecer por ali um “marinheiro de uma perna só”. Certa manhã, um marujo violento chamado Black Dog (Wilton Taylor) entra na estalagem e exige que Bones lhe entregue a sua parte do tesouro do Capitão Flint. Bones rechaça o intruso e diz a Jim que, se por acaso for morto, ele pode ficar com tudo o que lhe pertence. Algum tempo depois, Pew (Lon Chaney), um pirata cego e medonho, obriga Jim a conduzí-lo até Bones, que mais tarde é encontrado assassinado. Jim encontra nas roupas de Bones um pacote e o entrega aos amigos de sua mãe, Dr. Livesey (Charles Hill Mailes) e Squire Trelawney (Sydney Deane). Dentro do pacote, eles descobrem o mapa com a localização do tesouro do Capitão Flint. O Squire compra um navio, “The Hispaniola,” e organiza uma expedição para achar o tesouro. Long John Silver (Charles Ogle), um marujo com uma perna-de-pau, é contratado como cozinheiro e Israel Hands (Joseph Singleton), George Merry (Lon Chaney) e Morgan (Bull Montana) estão entre a tripulação. Jim embarca clandestinamente e, em alto mar, ouve secretamente um plano de motim, arquitetado por Long John Silver. Ele informa ao Dr. Livesey, ao Squire e a Smollet (Harry Holden), o capitão do navio e, quando a terra é avistada, os amotinados são mantidos a distância até que os três chegam à ilha e se refugiam em um abrigo com Jim e os membros leais da tripulação. Trava-se uma batalha contra os piratas e o mapa cai nas mãos de Long John Silver; porém os piratas são eventualmente derrotados e Jim e os outros encontram o tesouro através de uma revelação por parte de Ben Gunn (não creditado), um pirata que havia sido abandonado por Flint na ilha.

 3. CASTELOS DE ILUSÕES / THE TOWER OF LIES / 1925. Dir: Victor Sjostrom.

Lon Chaney em Castelos de Ilusões

Cena de Castelos de Ilusões

O lavrador escandinavo Jan (Lon Chaney) trabalha pesado na terra durante longas horas, desconhecendo alegrias ou tristezas. Quando nasce sua filha, Goldie (Norma Shearer), a labuta penosa de sua vida transforma-se em felicidade. Ele e sua filha divertem-se com um jôgo favorito no qual ele é o imperador de um reino fictício. Anos depois, o dono da propriedade morre e seu filho Lars (Ian Keith) logo exige o pagamento imediato dos débitos de seus arrendatários, inclusive Jan. A fim de evitar o despejo de seu pai, Goldie vai para a cidade, prometendo-lhe que retornará dentro de poucos mêses. Quando ela compra a fazenda para seus pais, mas não volta como prometido, Jan perde sua sanidade, e retrocede ao passado, brincando com as crianças da vizinhança, vestido como o imperador imaginário. O tempo passa e Goldie finalmente retorna usando roupas extravagantes, o que deixa os vizinhos com a suspeita de que ela se tornou uma prostituta. Não suportando mais os rumores, Goldie volta para a cidade de barco, sem perceber que seu pai a está seguindo. No píer, Jan tropeça, e morre afogado. Um dia, Goldie retorna e se casa com seu namorado de infância, August (William Haines).

4. VAMPIROS DA MEIA-NOITE / LONDON AFTER MIDNIGHT / 1927. Dir: Tod Browning.

Lon Chaney em Vampiros da Meia-Noite

Cinco anos após a morte de Roger Balfour em sua residência em Londres, o Inspetor Burke da Scotland Yard (Lon Chaney) ainda está investigando o caso, recusando-se a acreditar que Balfour cometeu suicídio. Sir James Hamlin (Henry B. Walthall), o amigo mais íntimo de Balfour; Artur Hibbs (Conrad Nagel), sobrinho de Balfour; Lucille (Marceline Day), filha de Balfour; e o mordomo (Percy Williams) ainda são considerados suspeitos. O inspetor acredita que um criminoso sob hipnose vai recriar seu crime. Exímio hipnotizador, ele testa sua teoria magnetizando os principais suspeitos, colocando-os no cenário do crime e observando suas reações. Vampiros também figuram na solução do mistério e no final do relato, o vampiro vem a ser ninguém mais do que o próprio inspetor.

 5. O ROMANCE DE LENA / THE CASE OF LENA SMITH / 1929. Dir: Josef von Sternberg.

Cena de O Romance de Lena

Esther Ralston em O Romance de Lena

Em Viena, por volta de 1894, Lena (Esther Ralston), uma pobre campesina, casa-se secretamente com Franz (James Hall), um oficial do exército devasso e, depois do nascimento do filho, vai trabalhar na casa do marido como empregada, escondendo a verdade do sogro. Este tenta lhe tomar a criança e Franz, sem poder ajudá-la, comete suicídio. Quando a côrte recusa os apêlos de Lena, ela rouba o menino. Ele cresce e marcha para a guerra em 1914 de uma aldeia húngara.

Obs. Um fragmento de quatro minutos do primeiro rolo do filme foi encontrado em Dalian, China, e está agora guardado na Universidade Waseda, no Japão. Este fragmento foi exibido no 22º Festival do Filme Silenciso de Pordenone em 2003.

 6. THE LAST MOMENT / 1928. Dir: Paul Fejós.

Cena de The Lost Moment

Nos últimos momentos de sua vida, uma pessoa visualiza os instantes marcantes de sua existência. A primeira cena do filme mostra um homem (Otto Matteson) debatendo-se na água. Sua mão se ergue, indicando que está se afogando. Segue-se uma série de planos rápidos: duplas e triplas superposições da cabeça de um Pierrot, rostos de mulheres, faróis de automóveis piscando, rodas girando, um punhado de estrelas, uma explosão, um livro de criança. O rítmo do filme desacelera para resumir a vida do homem: tempos de colégio, mãe amorosa, pai severo, uma cerimônia de crisma, uma festa de aniversário, o circo, um romance adolescente com uma atriz do circo, discussão com seu pai, a partida do lar, passageiro clandestino em um navio, perambulando em uma taberna no porto, declamando para os beberrões, sendo atropelado por um carrro, uma operação e a convalescência em um hospital, tornando-se um ator, casando-se com a enfermeira que cuidou dele, uma briga, divórcio, a morte de sua mãe, o enterro, um caso amoroso com uma mulher casada, um duelo com o marido dela, a guerra e seu amigo morrendo em seus braços. Ele retorna à vida civil, retoma sua profissão de ator, apaixona-se pela parceira, se casam, ela morre. Vestido como Pierrot, ele caminha para casa, chega ao lago, olha para seu reflexo, e entra na água até que somente sua mão fica visível. A mão desaparece, e o filme termina com umas bolhas subindo à superfície.

 7. FRÍVOLO AMOR / TRIFLING WOMEN / 1922. Dir: Rex Ingram.

Ramon Novarro e Barbara La Marr em Frívolo Amor

Ramon Novarro e Barbara La Marr em Frívolo Amor

Barbara La Marr em Frívolo Amor

Para dar uma lição à sua filha Jacqueline (Barbara La Marr) sobre os perigos da infidelidade, depois que ela ridicularizou o jovem Henri (Ramon Novarro), porque este a ama loucamente, o romancista Léon de Séverac (Pomeroy Canon) lê para ela sua última história. A cartomante Zareda (Barbara La Marr), mulher formosa e hábil em dominar os homens, recebe em sua residência a alta sociedade de Paris, pedindo previsões do futuro. O jovem Ivan (Ramon Novarro) ama-a com todo o seu coração, mas há um obstáculo para que se una a ela pelo casamento: seu pai, o decrépito Barão François de Maupin (Edward Connelly) também está apaixonado pela cartomante. Esta tolera-o apenas por causa das jóias caras que lhe oferece e, zombeteiramente, as coloca no pescoço do seu macaco de estimação. Quando irrompe a guerra e a perspectiva de uma separação ameaça precipitar o casamento de Ivan e Zareda, o barão joga uma cartada de mestre: apresenta Zareda ao Marquês de Ferroni (Lewis Stone,) que vive em um castelo suntuoso. Depois que o regimento de Ivan parte para o campo de batalha, Zareda fica em Paris a palestrar com o marquês e a sonhar com seu castelo com colunas de mármore e no qual se bebia vinho em taças de ouro. O barão então, para ser o único candidato ao coração de Zareda, derrama veneno na taça destinada a Ferroni. Zareda porém percebe seu gesto traiçoeiro e troca as taças sem que o barão perceba. Durante os quatro anos que Ivan estivera na guerra não recebeu nenhuma notícia de Zareda. Depois do armistício, ele vai procurá-la e a encontra casada com Ferroni. Ela lhe diz que foi insensata, que o ama perdidamente, e que sabe como se libertar de seu esposo: ela lhe dirá que foi insultada por Ivan e o marquês desafiará para um duelo o maior esgrimista do país. No duelo, Ferroni é mortalmente ferido, mas sobrevive o tempo suficiente para matar Ivan e enterrar Zareda viva ao lado do corpo de seu amado morto. Jacqueline fica impressionada por esta história e aceita seu fiel pretendente, Henri.

8. OS QUATRO DIABOS / THE FOUR DEVILS / 1928. Dir: F. W. Murnau.

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

No circo Cecchi, um palhaço (J. Farrell MacDonald) cuida de duas meninas orfãs, Marion (quando adulta Janet Gaynor) e Louise (quando adulta Nancy Drextel), como se fossem suas filhas. Durante uma temporada, uma mulher entrega ao diretor do circo (Anders Randolf) os garotos Adolf (quando adulto Barry Norton) e Charles (quando adulto, Charles Morton), filhos dos famosos trapezistas Rossy, que haviam perdido a vida, executando um salto mortal. As quatro crianças crescem unidas por uma grande amizade. O tempo passa, e eles se tornam célebres como acrobatas do trapézio chamados de “Os Quatro Diabos”. Marion ama Charles, porém eis que surge uma mulher fatal (Mary Duncan), e Charles não resiste aos seus encantos. Marion, sentindo-se desprezada cai deliberadamente do trapézio. No entanto, ela sobrevive, confessa seu amor a Charles, e ele recupera o juízo diante da tragédia que, por pouco, não ocorreu.

Obs. O documentário em video Murnau’s 4 Devils: Traces of a Lost Film (2003), dirigido por Janet Bergstrom, que saiu como brinde do dvd de Sunrise, em 2003, reconstrói o filme a partir de fotos, desenho de produção e roteiro.

9. BEIJA-ME OUTRA VEZ / KISS ME AGAIN / 1925. Dir: Ernst Lubitsch.

Clara Bow em Beija-me Outra vez

Gaston Fleury (Monte Blue) concorda em se divorciar de sua esposa Loulou (Marie Prevost), que ele acredita estar apaixonada por um amigo dos dois, o professor de piano Maurice Ferriere (John Roche). Para justificar o pedido de divórcio, o advogado Dubois (Willard Louis) tenta encenar uma situação com sua secretária Grisette (Clara Bow) como testemunha, na qual Gaston agride sua mulher; porém Gaston não consegue aceitar a idéia. Em vez disso, ele finge para Loulou que existe alguém na sua vida. Durante algum tempo parece que este alguém é Grisette, um engano que Gaston encoraja, porque causa ciúme em Loulou. Cansada de Maurice, Loulou logo descobre a verdade do suposto romance de Gaston com Grisette, mas se preparando para sua reconciliação com Gaston, Loulou finge acreditar no relacionamento dele com Grisette, para que o seu ego masculino possa ser confortado.

10. O HOMEM MIRACULOSO / THE MIRACLE MAN / 1919. Dir: George Loane Tucker

Lon Chaney em O Homem Miraculoso

Cena de O Homem Miraculoso

Uma quadrilha composta por Frog (Lon Chaney), um contorcionista; Dope (J. M. Dumont), viciado em drogas; Rose (Betty Compson), que finge ser uma prostituta brutalizada por Dope; e o líder, Tom Burke (Thomas Meighan), exploram a compaixão e recebem as contribuições dos otários na Chinatown de Nova York. Ao ler no jornal sobre um surdo, mudo e quase cego, chamado O Patriarca (J. M. Dumont), que seria capaz de curar pela fé, Tom planeja usá-lo, a fim de obter maior vantagem da credulidade das pessoas, e parte com seus cúmplices para a pequena cidade de Fairhope, onde mora o taumaturgo. Quando a população se reune para ver o Patriarca curar os doentes, Frog está ali, fingindo-se de aleijado. Enquanto se arrasta para perto do homem miraculoso, seus membros se endireitam e ele está supostamente curado. Inesperadamente, um menino aleijado de verdade, inspirado ao ver a “cura” de Frog, larga suas maletas e corre em direção ao Patriarca. A história se espalha pelo país e as pessoas afluem de todos os lugares para consultar o milagreiro, fazendo doações para a “construção de uma igreja”. Um milionário, Richard King (Lawson Butt) traz sua irmã Claire (Elinor Fair) e entrega 50 mil dólares para Burke. Durante sua visita, King conhece Rose e os dois se apaixonam. Entrementes, Burke vê seus cúmplices, influenciados pelo Patriarca, se regenerando. Dope livra-se de seu vício; Frog abandona sua vida de crimes e passa a tomar conta de uma viúva; Rose lamenta a partida de King, deixando Burke com ciúmes. Porém, quando King retorna e pede Rose em casamento, ela percebe que ama Burke. O Patriarca morre e Burke se casa com Rose.

Obs. Dois fragmentos do filme sobrevivem: 1. Burke lendo uma notícia de jornal sobre o Patriarca; 2. Frog se arrastando até o Patriarca e depois o menino aleijado ocorrendo a sua cura. Eles aparecem em um short promocional feito pela Paramount para festejar o 20º aniversário de sua fundação, intitulado The House That Shadows Buit (1931) e em um dos segmentos da série Movie Milestones da Paramount, intitulado Movie Memories #2 (1934), mostrando as grandes realizações do estúdio. Nos anos setenta, a Blackhawk Films lançou o documentário Movie Milestones com os fragmentos sobreviventes em formato de 8mm. Estes mesmos fragmentos foram mostrados também no documentário Lon Chaney: Behind the Mask, produzido pela Kino International e incluido na versão em dvd de 2012 do filme The Penalty / 1920.

CHARLIE CHAN NO CINEMA AMERICANO

April 28, 2017

O detetive chinês da polícia de Honolulu, criado por Earl Der Biggers (1884-1933) em seis romances (The House Without a Key, The Chinese Parrot, Behind That Curtain, The Black Camel, Charlie Chan Carries On, The Keeper of the Keys), surgidos entre 1926 e 1932, chegou ao Cinema no seriado A Casa sem Chave / The House Without a Key / 1926 (Dir: Spencer Gordon Bennett), encarnado pelo ator japonês George Kuwa. Depois, Chan apareceu sob os traços de outro intérprete nipônico, Kamiyama Sojin em O Papagaio Chinês / The Chinese Parrot / 1927 (Dir: Paul Leni) e de um britânico, E. L. Park, em O Romance de Eva / Behind That Curtain / 1929 (Dir: Irving Cummings).

George Kuwa recebe sua maquilagem

Sojin, visto entre as duas velas, como Charlie Chan em O Papagaio Chinês

E.L. Park como Charlie Chan em O Romance de Eva

Em todos esses casos suas intervenções foram minimizadas (em O Romance de Eva, por exemplo, foi reduzido a uma espécie de detetive-ex-machina, aparecendo no final do filme para solucionar o mistério) até surgir a famosa série da 20thCentury-Fox, inaugurada com os 16 filmes do sueco Warner Oland (Johan Verner Öland), geralmente considerados os melhores, misturando a solução dos crimes com comédia, sempre entremeados com os sábios aforismos de Charlie.

O primeiro compromisso “oficial” de Oland na tela foi como um gangster italiano em um melodrama de Theda Bara intitulado O Anjo de Marfim do Purgatório / Sin em 1915. Ele já trabalhava no teatro, tendo sido “descoberto” pela atriz Alla Nazimova durante uma tournée em uma companhia shakespereana. Nazimova integrou-o na sua trupe para o seu famoso repertório de 1906 composto por peças de Henrik Ibsen. Eventualmente, traduziu peças de August Strindberg. Seu primeiro flêrte com o cinema ocorrera em 1910, porém o filme resultante – uma versão de um rolo de “Pilgrim’s Progress” – e tudo a respeito de sua filmagem se perdeu.

No seriado Patria / Patria / 1917, estrelado por Irene Castle, Oland interpretou o exótico, Baron Huroki, porém não foi imediatamente estereotipado como um vilão oriental, embora papéis como Wu Fang em O Vampiro Relâmpago / The Lightning Raider / 1918, Li Hsun em O Ouro do Mandarim / Mandarin Gold / 1919, Okada em Viver é Lutar / The Pride of Palomar / 1922, Fu Shing em O Renegado / The Fighting American / 1924, Shanghai Dan (Dany, o “Olho de Boi”) em Madeixas de Ouro / Curly Top / 1924 e o chefe dos bandidos chinêses em Os Fuzileiros / Tell it to the Marines / 1926 fizeram muito para colocá-lo na mente do público como tal.

Warner Oland em O Cantor de Jazz

Warner Oland como Como Cesare Borgia

Além desses personagens, Oland fez inúmeros outros (v. g. Cesare Borgia em Don Juan / Don Juan / 1926), tentando fugir da estereotipagem inclusive em O Cantor de Jazz / The Jazz Singer / 1927 no qual, como Cantor Rabinowitz, o pai de Jakie (Al Jolson), ele teve a oportunidade de marcar a sua estréia no “primeiro” filme falado, gritando “Pare!”, quando o filho cantava uma versão de “Blue Skies” em ritmo de jazz. Mas foi a única palavra que pronunciou; durante o resto do filme seus diálogos só aparecem nos intertítulos.

Warner Oland como Fu Manchu

Foram os dois filmes de Fu Manchu de Rowland V. Lee para a Paramount, O Misterioso Dr. Fu Manchu / The Mysterious Dr. Fu Manchu / 1929 e O Ressuscitado / The Return of Dr. Fu Manchu / 1930 que o puzeram de volta como um especialista de tipos orientais. Imediatamente após o segundo veio A Astúcia de Chan / Charlie Chan Carries On / 1931. Em 1932, Oland atuou ao lado de Marlene Dietrich,  como Mr. Henry Chang, em O Expresso de Shanghai /  Shanghai Express de Josef von Sternberg.

Marlene Dietrich e Warner Oland em O Expresso de Shanghai

FILMES DE WARNER OLAND

Warner Oland

1931- A Astúcia de Chan / Charlie Chan Carries on. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Foi filmada uma versão em espanhol, Eram Treze / Eran Trece (Dir: David Howard) com Manuel Arbó no papel de Charlie Chan e os brasileiros Raul Roulien e Lia Torá respectivamente nos papéis de Max Minchin e Sybil Conway, interpretados na versão original por Warren Hymer e Betty Francisco. Aforismo: “Advice after mistake is like medicine after dead man’s funeral”

Manuel Arbó como Charlie Chan em Eram Treze

1931 – O Camelo Preto / The Black Camel. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Dorothy Revier, Bela Lugosi e Warner Oland em O Camelo Preto

Aparece Kashimo (Otto Yamaoka), o assistente japonês ultrazeloso e estabanado de Charlie Chan. Vemos pela única vez em toda a série o lar de Chan e seus filhos americanizados. Presença de Bela Lugosi como o vidente Tarneverro the Great. Aforismo: “Always harder to keep murder secret than for egg to bounce on sidewalk”.

1932 – A Vez de Chan / Charlie Chan’s Chance. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “Behind That Curtain” de Earl Derr Biggers. Dir: John Blystone.

Diálogos escritos pelo próprio Der Biggers. Aforismo: “It is difficult to pick up needle with boxing gloves”.

1933 – O Maior Caso de Chan / Charlie Chan’s Greatest Case. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “The House Without a Clue de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Aforismo: “Facts and motives lead to murderer”.

1934 – O Mistério das Pérolas / Charlie Chan’s Courage. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “The Chinese Parrot” de Earl Derr Biggers. Dir: George Hadden e Eugene Forde.

Aforismo: “Blind man feels ahead with cane before proceeding”.

1934 – Charlie Chan em Londres / Charlie Chan in London. Cia. Prod: Fox film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Warner Oland, Raymond Milland e Mona Barrie em Charlie Chan em Londres

Primeiro filme de Charlie Chan original para o cinema. Ray (Raymond) Milland, principiante, no elenco. Aforismos: “If you want wild bird to sing do not put him in cage” (Charlie referindo-se a não prender um suspeito). “Silence is golden except in police station”.

1935 – Charlie Chan in Paris. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Lewis Seiler.

Keye Luke e Warner Oand

Introdução de Keye Luke como Lee Chan, o filho número um de Charlie Chan. Luke era um artista plástico nascido na China e naturalizado americano em 1944, que trabalhava no departamento de publicidade da Fox, tendo preparado anteriormente o release de King Kong / King Kong / 1933 e Voando para o Rio / Flying Down to Rio / 1933 para a RKO Radio. Ele fazia desenhos e ilustrações para livros e pintou o mural do cassino de “Mother” Gin Sling (Ona Munson) em Tensão em Shanghai / The Shanghai Gesture / 1941 de Josef von Sternberg. Aforismos: “Joy in heart more desirable than bullet”. “Perfect case, like perfect doughnut, has hole”. “Silence big sister to wisdom”. “Man cannot drink from glass without touching”.

Keye Luke artista

1935 – Charlie Chan no Egito / Charlie Chan in Egypt. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Louis King.

Cena de Charlie Chan no Egito . Rita Cansino está ao lado de Warner Oland.

A presença de Stepin Fetchit como Snowshoes prefigura a inclusão posterior na série de Mantan Moreland. Entre os suspeitos, vislumbra-se a jovem Rita Cansino, que depois seria Hayworth. Aforismos: “Hasty conclusion like hole in water – easy to make”.”Theory like mist in eyeglasses – obscures facts”.

1935 – Charlie Chan em Shanghai / Charlie Chan in Shanghai. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Dir: James Tinling.

Segundo filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. Charles Locher (que depois se tornaria Jon Hall) entre os atores coadjuvantes. Aforismo: Dreams, like good liars, distort facts”.

1936 – O Segredo de Charlie Chan / Charlie Chan’s Secret. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Gordon Wiles.

Primeiro filme da série feito pela Twentieth Century-Fox, companhia oriunda da fusão da Fox Film com a Twentieth Century de Darryl F. Zanuck. Ausência de Keye Luke no papel de Lee Chan. Aforismo: “Necessity mother of invention, but sometimes step-mother of deception”.

1936 – Charlie Chan no Circo / Charlie Chan at the Circus. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Charlie e sua família no circo

Terceiro filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. Lee se apaixona por Su Toy (Shia Jung), uma contorcionista chinêsa e no circo aparece a família de Chan (Mrs. Chan e doze filhos), que faz amizade com um casal de anões dançarinos, Colonel Tim e Lady Tiny (os irmãos Olive and George Brasno).  Aforismos: “Mind the parachute – only function when open”. “Frightened bird very difficult to catch “. “Very wise know way out before going in”. “Much evil can enter through very small space”.

1936 – Charlie Chan no Prado / Charlie Chan in the Race Track. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Quarto filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. O personagem do cavalariço “Streamline” Jones (John H. Allen) lembra o Snowshoes de Charlie Chan no Egito. Estréia do diretor Bruce “Lucky” Humberstone na série. Keye Luke relembrou: “Eu diria que “Lucky” foi o diretor número um dos Chan”. Aforismo: ”Hasty conclusion like toy balloon: easy blow up, easy pop”.

1936 – Charlie Chan na Ópera / Charlie Chan at the Opera. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Boris Karloff e Charlie Chan em um intervalo da filmagem de Charlie Chan na Ópera

Quinto filme com Keye Luke no papel de Lee Chan. Presença de Boris Karloff como o grande astro da ópera, Gravelle (os anúncios de publicidade do filme estampavam esta frase: “Warner Oland vs. Boris Karloff in Charlie Chan at the Opera”; Karloff foi o único ator na série que teve seu nome nos créditos acima do nome de Warner Oland. Oscar Levant compôs a música “Carnival” para as cenas de ópera. Karloff foi dublado pelo barítono Tudor Williams. Aforismo: “Small things sometimes tell very large stories”.

1937 – Charlie Chan nas Olimpíadas / Charlie Chan at the Olympics. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Layne Tom Jr. , Warner Oland e Keye Luke em um intervalo da filmagem de Charlie Chan nas Olimpíadas

Sexto filme da série com Keye Luke como Lee Chan e primeiro filme de Layne Tom Jr., que seria Tommy Chan, na série; porém, nesta oportunidade seu personagem chama-se Charlie Chan Jr. Foram utilizadas tomadas de arquivo das Olímpiadas de 1936, incluindo a corrida de 400 metros vencida pelo negro americano Jesse Owens. Aforismo: “Would be greatest blessing if all war fought with machinery instead of human beings”.

1937 – Charlie Chan na Broadway / Charlie Chan on Broadway. Cia Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Sétimo filme da série com Keye Luke como Lee Chan. Aforismos: “Murder case like revolving door – when one side close, other side open”. “Police in New York and Honolulu have one thing in common – both live on very small island”. “Triangle very ancient motive for murder”. “No poison more deadly than ink”. 

1937 – Charlie Chan em Monte Carlo / Charlie Chan at Monte Carlo. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Último filme de Warner Oland e Keye Luke na série. Sem Oland e Luke a série nunca mais seria a mesma. Inquestionavelmente, nenhum descendente de Chan subsequente (Jimmy Chan, Tommy Chan etc.) conseguiu se igualar a Keye L.uke. Ele explicou seu personagem em uma entrevista: “Eu era inteligente, apenas escolhia as pistas erradas”. Aforismos: “Present case like too many cocktails – make very bad headache”. “Tongue often hang man quicker than rope”.

FILMES DE SIDNEY TOLER

Sidney Toler

Após a morte de Oland, em 1938, depois de testados Leo Carillo e Noah Beery, o americano nascido no Missouri, Sidney Toler (Hooper G. Toler Jr.) assumiu o papel de Charlie Chan e fez 22 filmes que, a partir de 1944, passaram a ser realizados pela Monogram. Antes disso, Toler atuou no teatro, como ator e autor de várias peças, e em muitos filmes como coadjuvante (v .g. A Vênus Loura / Blonde Venus / 1932 de Josef von Sternberg como Detetive Wilson; O Falso Presidente / The Phantom President / 1932, com George M. Cohan, como Professor Aikenhead; Mulher Sublime / The Gorgeous Hussy /1936 como Daniel Webster; Sossega Leão / In Our Relations, comédia de Stan Laurel e Oliver Hardy, como Capitão do SS. Periwinkle; O Grito da Selva / Call of the Wild como Joe Groggins; Três Padrinhos / Three Godfathers como Professor Snope; Se Eu Fôra Rei / If I Were King / 1938 como Robin Turgis). Sem ter o mesmo charme de Warner Oland, Sidney Toler trouxe uma nova interpretação do personagem. Seu Charlie Chan era mais irascível e menos humilde do que o de Oland.

1938 – Charlie Chan em Honolulu / Charlie Chan in Honolulu. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Sen Young e Sidney Toler

Charlie Chan e sua família

Introdução de um novo Charlie Chan e do filho número dois, Jimmy Chan, interpretado pelo ator Sen Yung. Em uma cena, Jimmy diz para Charlie: “Agora que meu irmão Lee está em Nova York na escola de arte (uma evidente in joke devida ao fato de que o ator Keye Luke era artista plástico), eu posso ocupar seu lugar”, mostrando orgulhosamente o seu cartão de visita – James Chan, associado com Charlie Chan, Detetive Particular. Especialista em criminologia e balística. A família de Charlie, incluindo Tommy Chan (Layne Tom, Jr.), aparece no filme, bem como o genro dele, Wing Foo (Philip Ahn), anunciando que sua esposa foi para a maternidade e, posteriormente, o nascimento do neto número um de seu famoso sogro. A certa altura, Charlie caracteriza o comportamento de Jimmy desta forma: “Young man suffer from overdeveloped impulses and underdeveloped control”. Aforismo: “Opinion like tea leaf in hot water – both need time for brewing”. “When money talk few are deaf”.

 1939 – Charlie Chan no Reno / Charlie Chan in Reno. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela segunda vez como Charlie Chan e seu filho Jimmy Chan. Aforismo: “Man yet to born who can tell woman will or will not do”.

1939 – Charlie Chan na Ilha do Tesouro / Charlie Chan in Treasure Island. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Cena de Charlie Chan na Ilha do Tesouro. Cesar Romero, o último à direitas

Sidney Toler e Sen Young juntos pela terceira vez. Presença de Cesar Romero como o mágico Fred Rhadini. Aforismos: “To destroy false prophet must first unmark him before eyes of believers”. “Favorite pastime of man is fooling himself”.

1939 – Charlie Chan na Cidade das Trevas / Charlie Chan in the City of Darkness. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Herbert I. Leeds.

Ausência de Sen Young (Jimmy Chan). Único filme da série com Sidney Toler passado na Europa, colocando Charlie Chan em Paris no início do blecaute na véspera da Segunda Guerra Mundial. Aforismo: “Confucius has said, ‘A wiseman question himself, a fool, others’”.

 1940 – Charlie Chan no Panama / Charlie Chan in Panama. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela quarta vez. Com a guerra na Europa e no horizonte para os Estados Unidos, era natural que Charlie Chan fosse convocado para colocar seus talentos particulares a serviço da contraespionagem. A destruição potencial do Canal de Panamá estava mais na ordem do dia que um assassinato qualquer. Aforismo: “Bad alibi like dead fish – cannot stand test of time”; “Absence of proof open cell door”.

1940 – Charlie Chan e o Estrangulador / Charlie Chan’s Murder Cruise. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no romance de Earl Derr Biggers “Charlie Chan Carries On”. Dir: Eugene Forde.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela quinta vez. Além de Sen Young como Jimmy Chan aparece Layne Tom Jr., mas seu personagem não se chama Tommy Chan, e sim Willie Chan. Aforismo: “Truth like oil, will in time rise to surface”. “To speak without thinking is to shoot without aiming”.

1940 – Charlie Chan no Museu de Cera/ Charlie Chan at the Wax Museum. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Lynn Shores.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela sexta vez. Aforismo: “Old solution sometimes like ancient egg”.

1940 – Um Tiro Misterioso / Murder Over New York. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela sétima vez. Aforismo: “Faces may alter but fingerprints never lie”. “”British tenacity with Chinese patience like royal flush in poker game – unbeatable”.

1941 – Mortos Que Falam / Dead Men Tell. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela oitava vez. Aforismo: “Trouble, like first love, teach many lessons”.

1941 – Charlie Chan no Rio / Charlie Chan in Rio. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela nona vez. Aforismos: “Interesting problem in chemistry – sweet wine often turn nice woman sour”. “Long experience teach, until murderer found, suspect everybody”.

1942 – Castelo no Deserto / Castle in the Desert. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Último filme da série produzido pela Twentieth Century-Fox. Sidney Toler e Sen Young juntos pela décima vez. Aforismo: “Sharp wit sometimes much better than deadly weapon”.

1944 – Charlie Chan no Serviço Secreto / Charlie Chan in the Secret Service. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Primeiro filme de Charlie Chan produzido pela Monogram. Uma vez que Sidney Toler já estava firmemente fixado na mente do público como o personagem (além dele ter obtido o direito de usá-lo) era lógico que fôsse convidado para interpretá-lo. Mesmo sabendo que esta mudança de uma grande companhia para uma de menor porte significava um decréscimo no orçamento de cada filme (de 200 mil dólares para 75 mil dólares) e no tempo de produção (oito semanas na Fox; apenas três semanas na Monogram, ele aceitou. Assim, a série prosseguiu com mais onze filmes, sendo que o personagem de Tommy Chan, o filho número três de Charlie Chan, foi entregue a Benson Fong. Aparece Iris Chan, filha de Charlie Chan (Marianne Quon). Introdução da figura do chofer negro de olhos esbugalhados, Birmingham Brown, interpretado por Mantan Moreland. Aforismo: “Detective without curiosity is like glass eye at keyhole – no good”.

Benson Fong, Marianne Quon, Sidney Toler e Mantan Moreland

1944 – Charlie Chan em “O Gato Chinês” / The Chinese Cat. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Segundo filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “Expert is merely man who make quick decision – and is sometimes right”.

1944 – Charlie Chan na Macumba / Charlie Chan in Black Magic. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Ausência de Benson Fong (Tommy Chan) e presença de uma filha de Charlie Chan, Frances Chan (Frances Chan). Aforismo: “Shady business do not make for sunny life”.

1945 – A Máscara Verde / The Jade Mask. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Sidney Toler, Edwin Luke e Mantan Moreland em A Máscara verde

Ausência de Benson Fong (Tommy Chan). Presença de Edwin Luke, irmão de Keye Luke como Eddie Chan, o filho número quatro de Charlie Chan, Aforismo: “My boy, if silence is golden, you are bankrupt”.

1945 – O Mistério do Rádio / The Scarlet Clue. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen. Retôrno de Benson Fong (Tommy Chan).

Terceiro filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “So many fish in fish market, even flower smell same”.

1945 – A Cobra de Shanghai / The Shanghai Cobra. Cia.Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Karlson.

Quarto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “Cannot sell bearskin before shooting bear”.

1945 – Charlie Chan no México / The Red Dragon. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Benson Fong e Willie best em harlie Chan no México

Quinto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Ausência de Mantan Moreland (Birmingham Brown). substituído por Willie Best como Chattanooga Brown. Aforismo: “Confucius could give answer to that. Unfortunately, Confucius not here at moment”.

1946 – As Luvas Justiceiras / Dark Alibi. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Karlson.

Sexto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Derradeiro filme de Benson Fong na série. Retôrno de Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Ugliest trade sometime have moment of joy. Even gravedigger know some people for whom he would do his work with extreme pleasure”. 

1946 – Charlie Chan no Bairro Chinês / Shadows Over Chinatown. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Terry Morse.

Retorno de Sen Young na série; porém agora com o nome de Victor Sen Young e interpretando o personagem de Jimmy Chan. Aforismo: “What Confucious say to this too terrible for even Charlie Chan to repeat!”

1946 – Dinheiro Sinistro / Dangerous Money. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Terry Morse.

Segundo filme da série com Sidney Toler e Victor Sen Young. Segunda substituição de Mantan Moreland (Birmingham Brown) por Willie Best como Chattanooga Brown. Aforismo: “mere routine line of duty”.

1947 – O Segredo da Caixa / The Trap. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Howard Bretherton.

Sidney Toler, Mantan Moreland e Victor Sen Young novamente juntos como Charlie Chan, Birmingham Brown e Jimmy Chan. Aforismo: “Leisurely hunter have time to stalk prey, but hunter in haste must set rap”.

FILMES DE ROLAND WINTERS

Quando Toler faleceu em 1947, foi substituido por Roland Winters (Roland Winternitz), nascido em Boston, Massachussetts, nas seis produções derradeiras. Antes de seu primeiro filme como Charlie Chan, Winters apareceu na tela, não creditado, como um dos jornalistas no Trenton Hall em Cidadão Kane / Citizen Kane / 1941 e depois, também incognito nos letreiros de apresentação, como Van Duyval em Rua Madeleine 13 / 13 Rue Madeleine / 1946. Entre os outros filmes dos quais participou fora da série Charlie Chan incluem-se: Uma Vida Marcada / Cry of the City (como Ledbetter), Frente a Frente com Assassinos / Abbott and Costello Meet the Killer, Boris Karloff (como T. Hanley Brooks). Malaia / Malaya (como Bruno Gruber), Missão de Vingança / Captain Carey U.S.A. (como Manfredo Acuto), Delírio de Loucura / Bigger Than Life (como Dr. Ruric), Estradas do Inferno / Jet Pilot (como Col. Sokolov), Feitiço Havaiano / Blue Hawaii (como o pai de Elvis Presley no filme).

 1947 – O Anel Chinês / The Chinese Ring. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Introdução de Roland Winters na série. Transformação de Victor Sen Young de Jimmy para Tommy Chan, mas mantendo o seu status de filho número dois. Permanência de Mantan Moreland como Birminghan Brown. Aforismo: “Strange events permit themselves the luxury of occurring in strange places”.

1948 – O Rádio da Morte / Docks of New Orleans. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Derwin Abrahams. Permanência de Victor Sen Yung (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birminghan Brown). Aforismo: “Looks sometimes are frightful liar”.

1948 – Crime por Alfabeto / Shanghai Chest. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Permanência de Victor Sen Young (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Surprised detective might just as well clutch iron ball and dive in lake”.

1948 – O Olho de Ouro / The Golden Eyes. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine. Permanência de Victor Sen Young (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “People who listen at keyholes rarely hear good of themselves”.

1948 – Charlie Chan e o Tesouro Azteca / The Feathered Serpent. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Permanência de Mantan Moreland (Birmingham Brown) e retorno de Keye Luke, desta vez como Tommy Chan e Lee Chan. Aforismo: “Man who improve house before building solid foundation apt to run into very much trouble”.

1949 – O Vôo da Morte / The Sky Dragon. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Lesley Selander.

Permanência de Keye Luke, desta vez somente como Lee Chan e de Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Innocent act without thinking, guilty always make plans”.

Adendo:

No rádio americano, Charlie Chan começou em 1952 com a voz de Walter Connolly (1932-1938) e continuou com a de Ed Begley 1944-1945) e Santos Ortega (1947-1948).

Na televisão americana J. Carroll Naish personificou o famoso detective na série The New Adventures of Charlie Chan (1957-1958), tendo como filho número um Barry Chan, interpretado por James Hong. Em 1971 foi realizada uma série com Ross Martin no papel de Charlie Chan com o título de The Return of Charlie Chan ou Happiness is a Warm Clue, mas ela só foi ao ar em 1973 na Inglaterra e em 1979 nos Estados Unidos

No cinema, houve duas paródias: 1. Assassinato por Morte / Murder by Death / 1976 (Dir: Robert Moore), na qual detetives famosos são convidados para uma mansão estranha, a fim de desvendar um mistério ainda mais estranho. Peter Sellers é Sidney Wang, que comparece com seu filho japonês adotivo, Willie Wang (Richard Narita); 2. Charlie Chan e a Rainha Dragão / Charlie Chan and the Dragon Queen / 1981 (Dir: Clive Donner), na qual detetives famosos aposentados são chamados para ajudar um detective de San Francisco a solucionar uma série de assassinatos misteriosos. Peter Ustinov é Charlie Chan, que comparece com seu neto número um, o desajeitado Lee Chan Jr (Richard Hatch) e encontra uma velha inimiga, a Rainha Dragão (Angie Dickinson).

SHERLOCK HOLMES: ADAPTAÇÕES, PASTICHES E PARÓDIAS

April 14, 2017

Ele foi o detetive mais célebre de todos os tempos, herói de 56 contos e quatro romances escritos por Arthur Conan Doyle (Edinburgh, Escócia 1859 -Crowborough, Inglaterra, 1930). O personagem apareceu pela primeira vez em “A Study in Scarlet” (Um Estudo em Vermelho), publicado em 1887. Residente no nº221 B da Baker Street, Holmes divide sua habitação com o Dr. John Watson, seu confidente e assistente, que conta suas aventuras. Em um ou outro filme são entrevistos o irmão de Holmes, Mycroft Holmes, e o seu arqui-inimigo, Professor Moriarty.

1900 – Sherlock Holmes Baffled. Paródia. Cia. Prod: American Mutoscope and Biograph. A história de Sherlock Holmes no Cinema tem início com este filmezinho de aproximadamente 30 segundos, rodado no terraço do prédio 841 Broadway, Nova York. Ele foi destinado para ser visto pelo Mutoscópio, aparelho rival do Cinetoscópio de Thomas Edison. Ator desconhecido.

Cena de Sherlock Holmes Baffled

1905 – The Adventures of Sherlock Holmes or, Held from ransom. Pastiche. Cia. Prod: Vitagraph. Dir: J. Stuart Blackton.Prmeiro filme narrativo sobre Sherlock Holmes. Muitas fontes apontam Maurice Costello (1877-1950), famoso galã do início do cinema mudo; porém é impossível confirmar tal indicação. Tudo o que resta do filme é uma paper print (tira de papel com fotogramas impressos), de 30 e poucas imagens, depositada na Biblioteca do Congresso para fins de direitos de propriedade comercial, em 6 de setembro de 1905. Alan Barnes, no seu magnífico “Sherlock Holmes on Screen”, Titan Books, 2011, do qual extraímos muita informação, lembra que Costello nunca se referiu à sua participação nesse filme em qualquer entrevista posterior e nem ele consta em nenhuma de suas filmografias. Barnes acrescenta que, segundo “The Big V: The History of the Vitagraph Company” de Anthony Slide e Alan Gevinson, Costello só teria ingressado na Vitagraph em 1907. Por outro lado, Howard Ostrom, estudioso da história de Sherlock Holmes através da mídia e colecionador de fotos autografadas dos atores que encarnaram Sherlock Holmes e o Dr. Watson (The Howard Ostrom Holmes & Watson Collection), no seu artigo “The Case of the Vitagraph Holmes or Cowboy in a Deerstalker” (2013), acha mais provável que Gilbert M. “Bronco Billy” Anderson tivesse interpretado Sherlock Holmes, tendo chegado a esta conclusão depois de ter eliminado outros possíveis atores da Vitagraph como Barney Sherry, William Shea, H. Kyrle Bellew, Paul Panzer e William V. Ranous.

 1908 – Sherlock Holmes and the Great Murder Mystery. Adaptação de The Murders in the Rue Morgue de Edgar Allan Poe. Cia. Prod: Crescent. Sherlock Holmes: não identificado.

Viggo Larsen como Sherlock Holmes em Sherlock Holmes i Livsfare

1908 – Sherlock Holmes i Livsfare (A Vida de Sherlock Holmes em Perigo). Pastiche. Cia. Produtora: Nordisk. Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Raffles: Holger Madsen. Professor Moriarty: Gustav Lund. Neste filme, Sherlock Holmes não somente tem como adversário o Professor Moriarty, mas também Raffles, o “ladrão cavalheiro” criado na literatura por E. W. Hornung. Na trama, Holmes mora na companhia do Dr. Watson e de um office boy, chamado Billy, porém nenhuma fonte fornece o nome dos atores que os interpretam. No elenco incluem-se os nomes de Otto Detlefsen e Aage Brandt. Seriam eles os intérpretes de Watson e Billy? Encontrei no Correio da Manhã e Jornal do Brasil de 7 de novembro de 1909, referência a um filme, Sherlock Holmes, “de confecção dinamarquêsa”. Seria Sherlock Holmes I Livsfare? Como os anúncios nos jornais naquela época não mencionavam o título original e muitas vêzes nem os nomes dos atores, fica difícil identificar.

1908 – Raffles Flufgt Fra Faengslet (Raffles Escapa da Prisão). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Raffles: Holger Madsen.

 1908 – Det Hemmelige Dokument (O Documento Secreto). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni. Dir: Viggo Lrsen. Sherlock Holmes: Einar Zangenberg. Einar Zangenberg substituiu Viggo Larsen que voltaria no quarto filme da Nordisk.

 1909 – Sangerindens Diamanter (Os Diamantes do Cantor). Pastiche. Cia. Nordisk. Dir / Rot: VIggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

 1909 – Droske Nr. 519 (Taxi Número 519). Cia. Prod: Nordisk. Pastiche. Dir/ Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

1909 – Den Gra Dame (A Dama Cinzenta). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni.Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

Otto Lagoni como Sherlock Holmes

1910 – Den Forklaedte Guvernante (A Falsa Governante) ou Den Forklaedte Barnepige (A Falsa Enfermeira). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1910 – Sherlock Holmes i Bondefangerkloer (Sherlock Holmes nas Mãos dos Vigaristas) ou Den Stjaalne Tegnebog (A Carteira Roubada). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1910 – Arsène Lupin contra Sherlock Holmes (Arsène Lupin contra Sherlock Holmes). Série de cinco filmes: Der Alte Sekretär (A Velha Secretária); Der Blaue Diamant (O Diamante Azul); Die Falschen Rembrandts (Os Rembrandts Falsos); Die Flucht (A Fuga); Arsène Lupins Ende (O Fim de Arsène Lupin) ou Arsène Lupins Tod (A Morte de Arsène Lupin). Pastiche. Cia. Prod: Vitascope GmbH (Alemanha). Dir: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Arsène Lupin: Paul Otto. O diretor, roteirista e ator Viggo Larsen mudou-se para Berlim, contratado por Jules Greenbaum, para esta nova série de aventuras de Sherlock Holmes.

1911 – Sherlock Holmes contra Professor Moryarty (Sherlock Holmes versus Professor Moryarty) ou Der Erbe von Bloomrod (O Herdeiro/ Herança de Bloomrod). Pastiche. Cia. Prod: Vitascope GmbH (Alemanha) Dir: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Professor Moryarty: Paul Otto.

 1911 – Den Sorte Haand (A Mão Negra) ou Mordet I Baker Street (Assassinato em Baker Street). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir: Holger Rasmussen. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1911 – Milliontestamentet (O Testamento de um Milhão / de corôas) ou Millionobligationen (A Herança de um Milhão / de corôas) ou Den Stjälne Millionobligation (A Herança Roubada de um Milhão / de corôas). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Alwin Neuss. Dr. Mors (Notório criminoso): Einar Zangenberg.

Einar Zangenberg como Sherlock Holmes

1911 – Hotelrotterne (Os Ratos do Hotel) ou Hotelmysterierne (O Mistério do Hotel). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Einar Zangenberg.

Lauritz Olsen como Sherlock Holmes

1911 – Den Sorte Haette (O Capuz Negro). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir: William Augustinus. Sherlock Holmes: Lauritz Olsen.

Georges Tréville como Sherlock Holmes

1912 – Les Aventures de Sherlock Holmes / … From de Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações de contos de The Adventures of Sherlock Holmes. Série de 8 filmes: As Faias Púrpuras /Le Ruban moucheté / The Speckled Band; Flamme d’argent / Silver Blaze; O Diadema de Berilo / Le Diadème de Beryls / The Beryl Coronet; Le Rituel des Musgrave / The Musgrave Ritual; Os Proprietários de ReigateLes Propriétaires de Reigate / The Reygate Squires; Os Documentos Roubados / Le Traité Naval / The Stolen Papers (adapt. de The Naval Treaty); O Mistério do Vale de Boscombe / Le Mystère du Val Boscombe / The Mystery of Boscombe Valley (Adapt. de The Boscombe Valley Mystery); Les Hûtres Rouges / The Copper Beeches. Cia. Prod: Franco-British Film-Éclair. Dir: Georges Tréville, Adrien Caillard. Sherlock Holmes: Georges Tréville. Algumas fontes dão um tal de Mr. Moyse como Dr. Watson; porém, segundo Alan Barnes, esta informação deve ser aceita com cautela. Embora a Éclair tivesse seu estúdio em Paris, esses oito filmes curtos de Holmes foram rodados na Inglaterra.

William Gillette como Sherlock Holmes

1913 – O Pacto dos Quatro / Sherlock Solves ‘The Sign of Four’. Adaptação. Cia. Prod: Thanhauser. Sherlock Holmes: Harry Benham.

 1914 – Nova Proeza de Sherlock Holmes ou O Crime do Dr. Moss / Sherlock Holmes Contra Dr. Mors. Pastiche. Cia. Prod: Union-Vitascope GmbH (Alemanha.). Sherlock Holmes: Ferdinand Bonn. Dr. Mors: Friedric Kühne. No Brasil, no anúncio em jornal, saiu Moss em vez de Mors.

 1914 – Sherlock Bonehead. Paródia. Cia. Prod: Kalem. Dir: Marshal Neilan. Sherlock Bonehead: Lloyd Hamilton.

Alwyn Neuss como Sherlock Holmes

 1914 – 1920 – Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Cia. Prod: Union-Vitascope GmbH (Alemanha). Série de 7 filmes: O Cão dos Baskervilles ou A Lenda do Cão Fantasma/ Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Adaptação. Dir: Rudolf Meinert. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; A Casa Solitária ou O Mistério do Lago / Das Einsame Haus (A Casa Isolada). Pastiche. Dir: Rudolf Meinert. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Das Unheimliche Zimmer (O Quarto Misterioso). Pastiche. Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Die Sage vom Hund vom Baskerville (A Saga do Cão dos Baskervilles) ou Wie entstand der Hund von Baskerville (Como o Cão dos Baskervilles apareceu). Adaptação. Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Das Dunkle Schloss (O Castelo Negro). Pastiche. Dir: Willy Zeyn. Detektiv Braun: Eugen Berg; Das Sanatorium Macdonald ou Doktor Macdonalds Sanatorium (O Sanatório MacDonald). Pastiche. Dir: Dir: Willy Zeyn. Sherlock Holmes: Erich Kaiser-Titz; Das Haus Ohne Fenster (A Casa sem Janelas). Pastiche. Dir: Max Greenbaum Jr. Sherlock Holmes: Willy Kaiser-Heyl (sem confirmação).

James Braginton como Sherlock Holmes

 1914 – A Study in Scarlet. Adaptação. Cia. Prod: Samuelson (Grã Bretanha). Dir: George Pearson. Sherlock Holmes: James Bragington. Primeiro filme britânico sobre Sherlock Holmes. Por curiosidade, James Bragington, funcionário do escritório do produtor G. B. Samuelson, foi escolhido para ser Sherlock Holmes puramente pela sua semelhança física com a ilustração tradicional de Sidney Paget na revista Strand.

Francis Ford como Sherlock Holmes

 1914 – A Study in Scarlet. Adaptação. Cia. Prod: Universal. Dir: Grace Cunard, Francis Ford. Rot: Grace Cunard. Sherlock Holmes: Francis Ford. De maneira intrigante, um ator chamado “Jack Francis” costuma ser apontado como o intérprete do Dr. Watson. Nenhum “Jack Francis” apareceu em quaisquer outros filmes da época – porém quem prestou serviço para Grace Cunard e Francis Ford (por exemplo em um de seus seriados A Moeda Quebrada / The Broken Coin / 1915) foi o irmão de Francis Ford, um jovem chamado Sean Aloysius O’ Fearna, empregado como aderecista e stuntman, então usando o nome de Jack Ford, o que pode explicar a confusão. Entretanto, o mistério permanece: o futuro grande diretor de westerns teria sido também um dos primeiros John Watsons da tela?

1915 – A Study in Skarlit. Paródia. Cia. Prod: Combine-Sunny South (Grã Bretanha). Dir: Fred Evans, Will Evans. Sherlokz Homz: Fred Evans. Professor Moratorium: Will Evans.

 1915 – Sherlock Boob, Detective. Paródia. Cia. Prod: Crown City. Dir: Bruce Mitchell. The Boob: Frank Moore.

 1916 – The Valley of Fear. Adaptação. Cia. Prod: Samuelson (Grã Bretanha). Dir: Alexander Butler. Sherlock Holmes: H. A. Saintsbury. Dr. Watson: Arthur M. Cullin. Professor Moriarty: Booth Conway.

Douglas Fairbanks como Coke Ennyday

 1916 – Sherlock Douglas / The Mystery of the Leaping Fish. Paródia. Cia. Prod: Triangle. Coke Ennyday, “detetive científico dependente de cocaina: Douglas Fairbanks.

William Gillette como Sherlock Holmes

1916 – Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Essanay. Dir: Arthur Berthelot. Rot: H.S. Sheldon baseado na peça “Sherlock Holmes” de William Gillette. Sherlock Holmes: William Gillette. Dr. Watson: Edward Fielding. Professor Moriarty: Ernest Maupain.

Eille Norwwood como Sherlock Holmes

Eille Norwood e Arthur Conan Doyle

Eille Norwood

1921 – The Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã Bretanha). Série de 15 filmes: The Dying Detective; The Devil’s Foot; A Case of Identity; The Yellow Face; The Red-Headed League; The Resident Patient; A Scandal in Bohemia; The Man With the Twisted Lip; The Beryl Coronet; The Noble Bachelor; The Copper Beeches; The Empty House; The Tiger of San Pedro; The Priory School; The Solitary Cyclist. Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willies.

1921 – O Cão Fantasma / The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Stoll Grã-Bretanha). Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.

1922 – The Further Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Série de 15 filmes: Charles Augustus Milverton; The Abbey Grange; The Norwood Builder; The Reigate Squires; The Naval Treaty; The Second Stain; The Red Circle; The Six Napoleons; Black Peter; The Bruce-Partington Plans; The Stockbroker’s Clerk; The Boscombe Valley Mystery; The Musgrave Ritual; The Golden Pince-Nez; The Greek Interpreter. Dir: George Ridgwell. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.  Lewis Gilbert foi o primeiro ator a interpretar o papel do irmão de Sherlock Holmes na tela, Mycroft Holmes, no filme The Bruce-Partington Plans.

John Barrymore e Gustav von Seiffertitz em Sherlock Holmes

John Barrymore como Sherlock Holmes

1922 – Sherlock Holmes / Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Goldwyn. Dir: Albert Parker. Sherlock Holmes: John Barrymore. Dr. Watson: Roland Young. Professor Moriarty: Gustav von Seyffertitz.

 1923 – The Last Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Série de 15 filmes: Silver Blaze; The Speckled Band; The Gloria Scott; The Blue Carbunckle; The Engineer’s Thumb; His Last Bow; The Cardboard Box; The Disappearance of Lady Frances Carfax; The Three Students, The Missing Three-Quarter; The Mystery of Thor Bridge; The Mazarin Stone; The Dancing Man; The Crooked Man; The Final Problem. Dir: George Ridgwell. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.

1923 – The Sign of Four ou The Sign of the Four. Adaptação. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Arthur Cullin.

Carlyle Blackwell como Sherlock Holmes

1929 – O Cão de Baskeville / Der Hund von Baskerville. Adaptação. Cia. Prod: Erda-Film-Produktions-GmbH (Alemanha). Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Carlyle Blackwell. Dr. Watson: Georges Seroff.

1929 – A Volta de Sherlock Holmes / The Return of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Paramount-Famous Players-Lasky. Dir: Basil Dean. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Watson: H. Reeves Smith. Professor Moriarty: Harry T. Morey. Holmes, Primeiro filme falado sobre Sherlock Holmes.

Clive Brook (Sherlock Holmes) e William Powell (Philo Vance) em Paramount em Grande gala

 1930Paramount em Grande Gala / Paramount on Parade. Paródia. Cia. Prod:   Paramount. Dir: Onze diretores, entre eles, Rowland V. Lee e Frank Tuttle que dirigiram filmes com o Dr. Fu Manchu e Philo Vance. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Fu Manchu. Warner Oland. Philo Vance: William Powell. Em uma sequência cômica em preto-e-branco intitulada “Murder Will Out” aparecem juntos três astros, Clive Brook, Warner Oland e William Powell, que interpretaram respectivamente os papéis de Sherlock Holmes, Dr. Fu Manchu e Philo Vance em filmes da Paramount.

Raymond Massey como Sherlock Holmes

1931 – A Tira Salpicada / The Speckled Band. Adaptação. Cia. Prod: British and Dominions (Grã-Bretanha). Prod: Herbert Wilcox. Dir: Jack Raymond. Sherlock Holmes: Raymond Massey. Dr. Watson: Athole Stewart.

Arthur Wontner como Sherlock Holmes

1931 – The Sleeping Cardinal. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Norman McKinnel.

1931 – The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Gainsborough (Grã-Bretanha). Prod: Michael Balcon. Dir: V. Gareth Gundrey. Rot: Edgar Wallace, V. Gareth Gundrey. Sherlock Holmes: Robert Rendel. Dr. Watson: Frederick Lloyd.

1932 – The Missing Rembrandt. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming.

 1932: The Sign of Four: Sherlock Holmes Greatest Case. Adaptação. Prod: Associated Radio Pictures (Grã-Bretanha). Dir: Graham Cutts. Production Supervisor: Rowland V. Lee. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Hunter.

Clive Brook como Sherlock Holmes

Clive Brook e Ernest Torrence em  Sherlock Holmes

1932: Sherlock Holmes / Conan Doyle’s Master Detective Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Fox. Prod / Dir: William K. Howard. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Watson: Reginald Owen. Professor Moriarty: Ernest Torrence.

Reginald Owen como Sherlock Holmes

1933 – Um Estudo em Vermelho / A Study in Scarlet. Pastiche (Nada tem a ver com “A Study in Scarlet”). Cia. Prod: KBS / World Wide. Dir: Edwin L. Marin. Sherlock Holmes: Reginald Owen. Dr. Watson: Warburton Gamble.

1935: The Triumph of Sherlock Holmes. Adaptação. Cia. Prod: Real Art (Grã- Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Lyn Harding.

 1937 – Silver Blaze. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Thomas Bentley. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Lyn Harding.

Poster de Der Hund von Baskerville

 1937 – Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Adaptação. Cia. Prod: Ondra-Lamac-Film-GmbH (Alemanha). Dir: Carl Lamac. Sherlock Holmes. Bruno Güttner. Dr. Watson: Fritz Odemar.

Hermann Speelmans como “Jimmy Ward” (Sherlock Holmes) em Die grau Dame

 1937 – Die graue Dame (A Dama Cinza). Pastiche. Cia. Prod: Neue Film KG (Alemanha) Dir: Erich Engels.” Jimmy Ward” (Sherlock Holmes): Herman Speelmans. Na trama, Jimmy Ward infiltra-se em um bando de criminosos e no último momento revela que é ninguém mais do que Sherlock Holmes.

NIgel Bruce e Basil Rathbone em O Cão dos Baskervilles

1939 – O Cão dos Baskervilles / The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Sidney Lanfield. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. No elenco: Richard Greene.

Basil Rathbone, Ida Lupino e Nigel Bruce em As Aventuras de Sherlock Holmes

Nigel Bruce, Basil Rathbone e Ida Lupino em As Aventuras de Sherlock Holmes

1939 – Sherlock Holmes / The Adventures of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Alfred Werker. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Professor Moriarty: George Zucco. No elenco: Ida Lupino.

Nigel Bruce e Basil Rathbone em S.H. e A Voz nas Trevas

Nigel Bruce, Basil Rathbone e Evelyn Ankers em um intervalo da filmagem de S.H. e A Voz nas Trevas

1942 – Sherlock Holmes e a Voz nas Trevas/ Sherlock Holmes and the Voice of Terror. Adaptação de His Last Bow. Cia. Prod: Universal. Dir: John Rawlins. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em S.H. e a Arma Secreta

1942 – Sherlock Holmes e a Arma Secreta / Sherlock Holmes and the Secret Weapon. Adaptação de The Dancing Man. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Moriarty: Lionel Atwill.

Cena de Sherlock Holmes em Washington

1943 – Sherlock Holmes em Washington / Sherlock Holmes in Washington. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Nigel Bruce, Hillary Brooke e Basil Rathbone em S.H. enfrenta a Morte

1943 – Sherlock Holmes enfrenta a Morte / Sherlock Holmes Faces Death. Adaptação de The Musgrave Ritual. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em S.H. e a Mulher Aranha

Gale Sondergaad e Basil Rathbone em S.H. e a Mulher Aranha

1944 – Sherlock Holmes e a Mulher Aranha / The Spider Woman. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em A Garra Escarlate

1944 – A Garra Escarlate / The Scarlet Claw. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Denis Hoey, Basil Rathbone e Nigel Bruce em  Pérola Negra

1944 – Pérola Negra / The Pearl of Death. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em A Casa do Medo

1945 – A Casa do Medo / The House of Fear. Adaptação de Five Orange Pips. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Hillary Brooke, Nigel Bruce e Basil Rathbone em A Mulher de Verde

1945 – A Mulher de Verde / The Woman in Green. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Moriarty (sic): Henry Daniell.

Cena de Desforra em Argel

1945 – Desforra em Argel / Pursuit to Algiers. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Basil Rathbone e Renee Godfrey em Noite Tenebrosa

1946 – Noite Tenebrosa / Terror by Night. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill: Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Partricia Morison, Basil Rathbone e Nigel Bruce em um intervalo da filmagem de Melodia Fatal

Cena deMelodia Fatal

1946 – Melodia Fatal / Dressed to Kill. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

1951 – The Man Who Disappeared. Adaptação de The Man With The Twisted Lip. Cia. Prod: Vandyke / Dryer & Weenolsenm (Grã Bretanha/USA). Dir: Richard M. Grey. Sherlock Holmes: John Logden. Dr. Watson: Campbell Singer.

Peter Cushing como Sherlock Holmes

1959 – The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Hammer. Dir: Terence Fisher. Sherlock Holmes: Peter Cushing. Dr. Watson: André Morell.

Christopher Lee como Sherlock Holmes

1962 – Sherlock Holmes und das Halsband des Todes ou Sherlock Holmes La Valle del Terrore ou Sherlock Holmes et le Collier de la Mort. Pastiche. Cia. Prod: Filmkunst GmbH/ INCEI/ Critérion (Alemanha, Itália, França). Dir: Terence Fisher. Rot: Curt Siodmak. Sherlock Holmes: Christopher Lee. Dr. Watson: Thorley Walters. Professor Moriarty: Hans Söhnker.

John Neville como Sherlock Holmes

 1965 – Névoas do Terror / A Study in Terror. Pastiche. Cia. Prod: Compton-Tekli / Sir Nigel Films(Grã Bretanha). Dir: James Hill. Sherlock Holmes: John Neville. Dr. Watson: Donald Houston. Mycroft Holmes: Robert Morley.

Robert Stephen e Colin Blakely em A VIda Íntima de Sherlock Holmes

Colin Blakely e Robert Stephens em A Vida Íntima de Sherlock Holmes

1970 – A Vida Íntima de Sherlock Holmes / The Private Life of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Phalanx / Mirisch / Sir Nigel Films. Dir: Billy Wilder. Sherlock Holmes: Robert Stephens. Dr. Watson: Colin Blakely. Mycroft Holmes: Christopher Lee.

George C. Scott e Joanne Woodward em Esse Louco me Fascina

1971 – Esse Louco me Fascina / They Might Be Giants. Paródia. Cia. Prod: Universal / Newman-Foreman. Dir: Anthony Harvey. Justin Playfair (um lunático que pensa ser Sherlock Holmes): George C. Scott. Dr. Watson (sua psiquiatra): Joanne Woodward.

Radovan Lukavski como Sherlock Holmes

1972 – Touha Sherlocka Holmese (O Desejo de Sherlock Holmes). Paródia. Cia. Prod: Studio Barrandov (Thecoslováquia). Dir: Stepán Skalsky. Sherlock Holmes: Radovan Lukavsky. Dr. Watson: Václav Voska. O filme tem início com uma cena na qual o próprio Conan Doyle revela que Sherlock Holmes tem a ambição secreta de cometer o crime perfeito; mas no final seu desígnio é frustrado pelo Dr. Watson.

 1975 – O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes / The Adventures of Sherlock      Holme’s Smarter Brother. Paródia. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Gene Wilder. Sigerson Holmes: Gene Wilder. Moriarty: Leo McKern. Sherlock Holmes: Douglas Wilmer. Dr. Watson: Thorley Walters. Para não alertar os criminosos de toda a Inglaterra acerca de sua investigação, Sherlock e Watson resolvem “desaparecer”, mas não antes de Sherlock deixar um ou dois de seus casos menos urgentes’ a cargo de seu loucamente ciumento irmão mais moço.

Robert Duvall, Alan Arkin e Nicol Williamson em Visões de Sherlock Holmes

1976 – Visões de Sherlock Holmes / The Seven -Per- Cent Solution. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Herbert Ross. Sherlock Holmes: Nicol Williamson. Dr. Watson: Robert Duvall. Professor Moriarty: Laurence Olivier. Mycroft Holmes: Jeremy Kemp. Holmes vai a Viena para se tratar com o Dr. Freud (Alan Arkin) e, ao acompanhá-lo em visita a uma de suas pacientes, se envolve em mais um caso.

 1977 – The Hound of the Baskervilles. Paródia. Cia. Prod: Michael White (Grã- Bretanha). Dir: Paul Morrissey. Sherlock Holmes: Peter Cook. Dr. Watson: Dudley Moore. Segundo a maioria dos críticos, a única piada que funciona neste filme é a presença de um amável cão irlandês como o mastim fatal dos Baskerville.

James Mason e Christopher Plummer em Assassinato por Decreto

1979 – Assassinato por Decreto / Murder by Decree. Pastiche. Cia. Prod: Saucy Jack (Canadá). Dir: Bob Clark. Sherlock Holmes: Christopher Plummer. Dr. Watson: James Mason.

Cena de O Jovem Sherlock Holmes

 1985 – O Enigma da Pirâmide / Young Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Paramount / Amblin. Dir: Barry Levinson. Sherlock Holmes: Nicholas Rowe. John Watson: Alan Cox.

 1987 – The Loss of a Personal Friend. Pastiche. Cia. Prod: Dir: N.G. Bristow (Grã-Bretanha). Dr. John Watson: Ian Price. Livreiro (Sherlock Holmes): Peter Harding.

Ben Kingsley e Michael Caine em Sherlock e Eu

 1988 – Sherlock e Eu / Without a Clue. Paródia. Cia. Prod: ITC (Grã Bretanha / EUA). Dir: Thom Eberhardt. Reginald Kincaid (Sherlock Holmes): Michael Caine. Dr. Watson: Ben Kingsley. Um ator alcoólatra e fracassado é pago pelo Dr. Watson, para se fazer passar por Sherlock Holmes.

 1992 – Sherlock Holmes en Caracas. Paródia. Cia. Prod: Big Ben / Tiuna / Foncine (Venezuela). Dir: Juan E. Fresan. Sherlock Holmes: Jean Manuel Montesinos. Dr. Watson: Gilbert Dacournan. Sherlock e Watson rumam para Caracas quando um velho amigo de Holmes, lhe pede ajuda, porque acha que seus filhos correm perigo, pois teme que esposa, uma ex-Miss Venezuela, seja uma vampira.

 1994 – Fuermasi yu Zhongguo Nuxia. Pastiche. Cia. Prod: Beijing (China). Dir: Liu Yun-Zhou, Wang Chi. Sherlock Holmes: Fan Ai Li (também conhecido por Alex Vanderpor). Watson: Xu Zhongquan.

Joaquim de Almeida em O Xangô de Baker Street

1999 – O Xangô de Baker Street. Pastiche (baseado em romance de Jô Soares). Cia. Prod: MGN / Sky Light Cinema Foto e Art (Portugual / Brasil). Dir: Miguel Faria Jr. Sherlock Holmes: Joaquim de Almeida. Dr. Watson: Anthony O’Donnell.

Robert Downey Jr. e Judd law em Sherlock Holmes

2009 – Sherlock Holmes / Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Internationale Filmproduktion Blackbird Dritte GmbH & Co. KG / Warner Bros / Village Roadshow / Silver Pictures / Wigram Productions (Alemanha / Estados Unidos. Pastiche. Dir: Guy Ritchie. Sherlock Holmes: Robert Downey Jr. Dr. John Watson: Jude Law.

Adendo:

Muitos outros Sherlocks apareceram na televisão anglo-americana: Louis Hector; Alan Napier; Andrew Osborn; Alan Wheatley; Basil Rathbone; Ronald Howard; Douglas Wilmer; Peter Cushing; Stewart Granger; John Cleese; Larry Hagman; Roger Moore; Christopher Plummer; Geoffrey Whitehead; Keith McConnell; Tom Baker; Guy Henry; Roger Ostime; Ian Richardson; Jeremy Brett (o melhor Sherlock na TV); Michael Pennington; Brian Bedford; Edward Woodward; Charlton Heston; Christopher Lee, Patrick Macnee; Anthony Higgins; Jason Gray Stanford; Matt Frewer, James D’Arcy; Richard Roxburgh; Rupert Everett; Jonathan Pryce e, mais recentemente, Benedict Cumberbatch e Johnny Lee Miller.

Jeremy Brett

No rádio americano, emprestaram a voz para Holmes: William Gillette; Clive Brook; Richard Gordon; Louis Hector; Basil Rathbone; Tom Conway; John Stanley, Ben Wright e finalmente uma trinca ilustre – John Gieguld (Sherlock Holmes), Ralph Richardson (Dr. Watson) e Orson Welles (Professor Moriarty) – surgiu em uma série da BBC, que foi ao ar em 1954, e depois retransmitida pela NBC e ABC americanas. Na BBC Radio também atuaram como Sherlock Holmes, Clive Merrison e Roy Hudd.

No Brasil, o jornalista Alziro Zarur, muito conhecido como presidente da Legião da Boa Vontade, manteve em 1942 um programa de radioteatro, “Radiatro Sherlock”, na Rádio Mayrink Veiga, para o qual escrevia “As Aventuras de Sherlock Holmes”, série na qual interpretava também o papel do famoso detetive enquanto o Dr. Watson era vocalizado por Souza Filho.

A morte de Conan Doyle não pôs um fim nas aventuras de Sherlock Holmes. Jamais o detetive esteve tão presente na literatura policial. Quando Maurice Leblanc quís opor ao seu personagem Arsène Lupin um adversário digno dele, foi Sherlock Holmes que ele escolheu; porém, diante da oposição de C. Doyle, Sherlock Holmes tornou-se Herlock Sholmes. Em outros romances, Sherlock encontrou Freud, Jack, o Estripador, Vidocq, Oscar Wilde, Einstein, o Fantasma da Ópera, os marcianos de H. G. Wells, o Dr. Jeckyll, Drácula, Fu Manchu, Sarah Bernhardt e Edgar Allan Poe. Holmes conseguiu inocentar Dreyfus e salvar Karl Marx de assassinos a soldo de Thiers e de Bismarck. Encontramos ainda o famoso investigador como criança, descobrindo o segrêdo de uma pirâmide e como apicultor aposentado. Ele foi eclipsado por seu irmão mais velho Mycroft e mesmo por outro irmão mais novo, desconhecido de Conan Doyle: Clewlow. Seu fiel Watson o suplantou no coração daquela que se tornou Mrs. Watson e sua locadora, Mrs. Hudson, revelou dons superiores aos seus. E esses são somente alguns exemplos.

TRIBUTO A ROBERT BRESSON

March 31, 2017

Robert Bresson (Bromont-Lamothe, 1907- Paris, 1999) situou-se em uma posição excepcional no cinema francês e mundial tanto por suas obras como por sua personalidade. Era um caso particular, um cineasta fechado em si mesmo, que nunca fez a menor concessão na busca do seu ideal estilístico, de fazer um cinema despojado e austero, uma forma de antiespetáculo cinematográfico, para exprimir plasticamente o seu universo trágico.

Robert Bresson

Bresson estudou no Lycée Lakanal de Sceaux e foi fotógrafo e pintor, antes de trabalhar no cinema. Aos 32 anos atuou como dialoguista de C’était un Musician, 1933 (Dir: Fred Zelnick, Maurice Gleize). Em 1934, dirigiu Les Affaires Publiques, média-metragem burlesco-surrealista envolvendo o chefe de governo de um país fictício, interpretado pelo palhaço Béby. Foi co-roteirista de Les Jumeaux de Brighton / 1936 (Dir: Claude Heymann) e Courrier Sud / 1937 (Dir: Pierre Billon), e assistente de Henri Diamant-Berger em La Vierge Folle / 1938, e de René Clair em um filme inacabado (Air Pur / 1939). Em 1943, realizou seu primeiro longa-metragem, Anjos das Ruas / Les Anges du Peché, e, logo em seguida, As Damas do Bois de Boulogne (na TV) / Les Dames du Bois de Boulogne / 1945, filmes que ainda foram feitos dentro do “cinema de qualidade” da época, porém já demonstrando o rigor e a sobriedade de sua escritura.

Suas próximas obras evidenciaram, mais do que nunca, o seu gosto pela perfeição levado à extrema minúcia e a sua preocupação em captar a beleza de uma aventura humana interior. Era um cineasta exigente, altivo, interessado em encontrar uma forma libertada dos códigos narrativos, forjados no começo do sonoro. “O que eu busco”, disse ele, “não é tanto a expressão por gestos, a palavra, a mímica, mas, sim, a expressão pelo rítmo e pela combinação das imagens”.

Neste artigo prestamos uma homenagem ao grande cineasta, relembrando alguns de seus melhores filmes:

 ANJOS DAS RUAS / LES ANGES DU PÉCHÉ.

Para se tornar uma religiosa, Anne-Marie (Renée Faure) escolhe o convento das Irmãs de Béthanie, consagrado à reabilitação de detentas. Thérése (Jany Holt), uma ex-detenta, mata o amante por vingança e se refugia no convento. Anne-Marie acolhe-a com alegria. Pouco depois, Anne-Marie se recusa a fazer uma penitência, que considera injusta, e é expulsa da ordem. As irmãs a descobrem inanimada sobre a tumba do fundador do convento, onde vinha rezar todas as noites. Anne-Marie não tem forças para pronunciar os seus votos definitivos. Thérèse os pronuncia em seu nome e depois se entrega à polícia.

Cena de Anjos das Ruas

Cena de Anjos das Ruas

Cena de Anjos das Ruas

Recusando-se a proporcionar ao público um espetáculo, Bresson consagrou seu filme inteiramente ao drama interior de Anne-Marie e de Thérèse. Há também um aspecto documentário – os detalhes da vida conventual espalhados ao longo da narrativa, como a tomada de hábito, sorteio das sentenças, capítulo das culpas, recreação no claustro ou no jardim, conselho do convento, trabalho das religiosas etc. -, mas ele é sempre secundário. Serve apenas como pano de fundo de um conflito espiritual. A conversão de Thérese por Anne-Marie é o verdadeiro tema do filme. O diretor descarta tudo o que não se relaciona com esse confronto com um rigor pouco visto no cinema.

DAMAS DO BOIS DE BOULOGNE, AS (TV) / LES DAMES DU BOIS DE BOULOGNE.

Hélène (Maria Casarès), uma jovem viúva, fica sabendo que seu amante, Jean (Paul Bernard), não a ama mais. Eles se separam amigavelmente, mas Hélène só pensa em se vingar. Ela faz com que Jean encontre por acaso no Bois de Boulogne uma dançarina, Agnès (Elina Labourdette), filha de Madame D (Lucienne Bogaert), uma de suas antigas relações mundanas, que agora está na pobreza. Para sobreviver e sustentar a mãe, Agnès se prostitui. Hélène procura tornar esses encontros de Agnès com outros homens mais frequentes. Agnès e Jean se casam. No final da cerimônia, Hélène revela a verdade para Jean: o anjo de pureza é uma mulher perdida.

Maria Casarès em As Damas do Bois de Boulogne

Cena de As Damas do Bois de Boulogne

Maria Casarès em As Damas do Bois de Boulogne

Paul Bernard e Maria Casarès em As Damas do Bois de Boologne

Bresson transpôs para os anos 40 uma anedota contada por Diderot no século XVIII em seu romance filosófico Jacques le Fataliste. De uma aventura licenciosa apresentada como um estudo de costumes, ele quís fazer uma tragédia moderna, descartando toda ressonância social. O cineasta se interessou mais pelas maquinações de uma mulher despeitada. O tema do filme é o triunfo do amor sobre o ódio. A vingança de Hélène é insuficiente para abafar o amor que surge entre Jean e Agnès. Na encenação, persiste o estilo jansenista do diretor: as paredes brancas e nuas, a iluminação bem contrastada, as portas, as janelas, as vidraças que encerram Hélène como uma prisão – a prisão do seu orgulho, de sua paixão, de sua vingança.

 LE JOURNAL D ‘UN CURÉ DE CAMPAGNE.

O vigário da aldeia de Ambricourt (Claude Laydu) chega à sua primeira paróquia com um imenso fervor sacerdotal. Seus esforços para conhecer os paroquianos são mal acolhidos por eles, aos quais não inspira confiança e não consegue se impor. Doente, ele encontra na pessoa do vigário (Armand Guibert) de Torcy, uma aldeia vizinha, o conforto moral de que necessita para a sua solidão. Seu zelo, sua fé lhe permitem salvar a alma da condessa de Ambricourt (Marie-Monique Arkell), porém desperta o ódio do conde (Jean Riveyre) e de sua filha, Chantal (Nicole Ladmiral), que o caluniam.

Claude Landu em Le Journal d ‘un Curé de Campagne

Cena de Le Journal d ‘un Curé de Campagne

Claude Laydu em Le Journal d ‘un Curé de Campagne

A ação se desenrola graças às introspecções que o padre coloca no seu diário. Cada uma das frases é recitada por ele ao mesmo tempo que a imagem mostra os fatos e transmite o seu estado d’alma. Fazendo-nos ouvir a sua voz como um refrão, Bresson intensifica a sua intimidade e a sua solidão e nos faz sentir com maior emoção o seu drama interior. A mensagem essencial do filme é a aventura espiritual do jovem pároco, isolado no meio dos homens e diante de Deus. Seu “solilóquio angustiado” e as diversas etapas do seu calvário são transmitidos com a precisão de um mecanismo de relógio por um cineasta empenhado em ampliar os limites da criação artística.

UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU / UN CONDAMNÉ À MORT SE’ST ECHAPPÉ.

Em 1943, preso pelos alemães por atos de resistência, o tenente Fontaine (François Leterrier) é conduzido para o forte de Montluc em Lyon. Ele é encarcerado e, obstinadamente, prepara uma fuga. Convocado para a sede da Gestapo, as autoridades lhe informam sobre sua condenação à morte. Ao retornar à prisão, Fontaine verifica que colocaram um outro prisioneiro na sua cela: Jost (Charles Le Clainche)e, um jovem Waffen-SS preso por deserção. Após certa hesitação, ele confia em Jost e os dois conseguem escapar, transpondo o muro. Fontaine e Jost, livres, desaparecem na noite.

Cena de Um Condenado à Morte Escapou

François Leterrier e CharlesLe Clainche em Um Condenado à Morte Escapou

Bresson dá instruções para Leterrier e Le Clainche em Um Condenado à Morte Escapou

Fontaine está inteiramente concentrado na realização de seu destino bem determinado, que é a sua fuga. Esse homem de coragem, mas também orgulhoso, parece mais preocupado em provar a si mesmo o poder de sua vontade, que ele pode conseguir o que todos não conseguiram, do que com a perspectiva de sua execução. Bresson nos mostra a sua evasão, longamente amadurecida entre as paredes de uma cela, pacientemente preparada, não somente pelas mãos, mas também pelo controle emocional do prisioneiro. O suspense não consiste na expectativa do que vai se passar, mas no desejo de saber como o herói vai se conduzir. É um filme “sem ornamentos”, sem gritos, sem cenas patéticas, feito de gestos e ruídos, de silêncios e sussurros.

PICKPOCKET / PICKPOCKET.

No hipódromo de Longchamp. Michel (Martin Lassalle) é preso por furto e depois solto por falta de provas. Pouco depois, em um café, ele sustenta para o comissário de polícia sua teoria segundo a qual certos seres superiores deveriam ter o direito de infringir as leis. Michel se torna um exímio batedor de carteiras. Quando seus cúmplices são presos, ele revela sua vida de ladrão para Jeanne (Marika Green), uma jovem que cuidava de sua mãe, e parte para o exterior. Ao retornar, encontra Jeanne com um filho de seu amigo Jacques (Pierre Leymarie), que a abandonara. Para ajudá-la, Michel começa a trabalhar, mas um dia não resiste e volta a furtar.

Cena de Pickpocket

Cena de Pickpocket

Martin Lassalle e Marika Green em Pickpocket

A aventura exterior é a aventura das mãos do punguista. Ela o arrasta para a aventura interior. Por caminhos estranhos as proezas manuais do batedor de carteiras reunirão duas almas que nunca teriam se conhecido. Quando Jeanne vai visitá-lo na penitenciária, Michel abraça-a através da grade do parlatório e lhe diz: “Oh, Jeanne, para finalmente estar com você, que caminho estranho tive que tomar”. Esse caminho, que levou a um resultado espiritual, passa pelos furtos, e Bresson mostra, com uma minúcia maníaca, os atos dos delito praticados pelo ladrão. Todo o filme é um balé de mãos comentado por uma voz, que é a voz de um jovem cujo orgulho foi vencido pelo amor. A influência de Crime e Castigo de Dostoiweski é bem nítida.

A GRANDE TESTEMUNHA / AU HAZARD BALTHAZAR.

Três meninos parisenses em férias e uma menina do país basco brincam com um filhote de asno, que batizam de Balthazar. A menina chama-se Marie e um, dos meninos, Jacques. Uma das irmãs de Jacques está doente. Quando as férias terminam, Jacques e sua família deixam a aldeia. Os anos passam, a irmã de Jacques morre. O pai de Marie, um ex-professor, é encarregado de administrar a fazenda que pertence ao pai de Jacques. Marie (Anne Wiazemsky) fica com Balthazar. Já adulta, ela conhece Gérard (François Lafarge), um jovem delinquente e seu bando. Acusado injustamente de malversações, o pai de Marie (Philipe Asselin) se vê obrigado a prestar contas ao proprietário da fazenda. Jacques (Walter Green) volta à aldeia para desfazer o mal entendido ocorrido entre seu pai e o pai de Marie. Porém o orgulho ferido deste último faz com que sua missão fracasse. Maria sofre com a partida de Jacques. Ela abandona Balthazar. Vendido para o padeiro (François Sullerot), pai de Gérard, o asno é utilizado para transportar o pão, que seu filho entrega. Este maltrata Balthazar, o burro derruba a carroça e foge. Gérard seduz Marie. A mãe de Gérard (Marie-Claire Fremont) o protege, mas quer que ele deixe de ver Marie. Gérard deve se apresentar à polícia a propósito de um assassinato. Um vagabundo, alcoólatra, Arnold (Jean-Claude Guilbert), também é convocado pelo mesmo motivo. Arnold é espancado por Gérard e seu bando, que o acusam de ser o verdadeiro assassino. Arnold cuida de Balthazar que, doente, deve ser abatido. Balthazar fica curado e transporta turistas que Arnold guia através dos caminhos escarpados. Mais uma vez maltratado pelo seu dono, Balthazar foge e vai parar em um circo, onde se torna uma atração: “o asno sábio”. Arnold recebe uma herança, oferece bebida para todos em um bistrô da aldeia e depois morre, ao cair de seu cavalo. Marie foge de Gérard, pede asilo a um comerciante de grãos (Pierre Klossowski). Desgostosa com a ganância e o egoismo deste homem, ela retorna para a casa de seus pais que, entrementes, recuperaram Balthazar. Jacques volta a procurar Marie e os dois jovens decidem se casar. Marie vai à procura de Gérard para romper definitivamente com ele. Insultada por todo o bando, ela é abandonada, nua, em um imóvel vazio. Marie desaparece para sempre. Seu pai morre. No curso de uma procissão, Balthazar é encarregado de conduzir as relíquias. Gérard usa Balthazar para fazer contrabando, mas é surpreendido à noite pelo guardas aduaneiros. Balthazar recebe uma bala perdida e vai morrer tranquilamente em um prado no meio de um rebanho de ovelhas.

Cena de A Grande Testemunha

Anne Wiazemsky em A Grande Testemunha

Cena de A Grande Testemunha

Balthazar

Balthazar, um asno belo e doce, transforma-se em vítima expiatória dos vícios e da estupidez dos humanos, com os quais se vê envolvido pelo acaso. Passando de um dono para outro, sendo bem ou mal tratado por um malfeitor perverso, como animal inteligente em um circo, como companheiro de um vagabundo, e como bêsta de carga de um velho avarento que o deixa sem alimento, o asno é sempre uma testemunha silenciosa da vida dos personagens que o cercam. O destino da pequena Marie é comparável ao de Balthazar. Ela é o seu duplo, uma criatura frágil cuja existência oscila entre o carinho e o sofrimento, e que sofre a violência dos outros, a incompreensão da mãe, o orgulho e o masoquismo do pai, a maldade do amante, a cupidez, o cinismo do comerciante de grãos. Neste seu filme mais simples e puro, no qual a sobriedade nas imagens corresponde a uma exemplificação extrema das situações, Bresson usa a elipse, os ruídos e uma sonata de Schubert ao narrar o percurso do sofrimento do burro e da adolescente e, quando se encerra o percurso, sentimos uma profunda tristeza.

MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA / MOUCHETTE.

Mouchette (Nadine Nortier) de 14 anos, leva uma vida de pobreza, cuidando de sua mãe tuberculosa (Marie Cardinal), de seu irmão bebê, em uma casa de um único cômodo, onde ainda mora seu pai (Paul Hebert), um contrabandista alcoólatra e brutal, e um outro irmão adolescente. Na aldeia, ela é repudiada por suas colegas, maltratada pela professora, zombada pelos rapazes na rua. Uma noite, durante um temporal, Mouchette se perde na floresta onde o caçador furtivo Arsène (Jean-Claude Guilbert), tendo provavelmente assassinado um guarda florestal chamado de Père Mathieu(Jean Vimenet), a obriga a lhe servir de álibi, antes de levá-la para a sua cabana e, depois de um ataque de epilepsia e sob efeito do álcool, violentá-la. Voltando para casa, Mouchette tenta contar tudo para a mãe, que morre antes de ouví-la. Logo depois, descobre que Arsène mentira, apenas brigara com o guarda por uma mulher que ambos desejavam. Solitária, infeliz e abandonada por todos, repelida pela mulher do guarda, pela dona do armazém, pela zeladora dos mortos, ela descobre que a morte é um sinônimo de libertação e vai ao seu encontro, enrolada em um vestido de mousseline branca, parecendo um véu de noiva. Como se estivesse brincando, ela se deixa rolar pela ribanceira, uma, duas vêzes. Na terceira, seu corpo desaparece nas águas de um lago. E quando a superficie do lago se acalma, ouve-se o Magnificat de Claudio Monteverdi.

Bresson carrega nos braços sua atriz na filmagem de Mouchette, a Virgem Possuída

Nadine Nortier em Mouchette, A Virgem Possuída

Cena de Mouchette, a Virgem Possuída

Dezesseis anos após Le Journal d ‘un Curé de Campagne, Bresson leva novamente à tela um romance de George Bernanos (La Nouvelle Histoire de Mouchette), situando-o na época contemporânea. Com o estilo sóbrio e sêco de seus filmes precedentes, o cineasta retrata, através de uma trama sombria e sórdida, a trajetória para a morte de uma adolescente que, tal como o asno Bathazar (de A Grande Testemunha), descobre a crueldade do mundo. Ambos são vítimas dos vícios humanos, mas Mouchette reage, ela não se resigna e se revolta. Notamos isso, por exemplo, quando ela joga torrões de terra nas suas colegas de classe, pela maneira com que rejeita o “croissant de piedade” da dona do armazém, quando esfrega seus tamancos sujos no tapete da zeladora dos mortos ou quando diz “Merde” para seu pai, ao sair de casa. Mouchette só tem um breve momento de felicidade, quando, no brinquedo de auto pista no parque de diversões, esbarra o seu carro contra o carro dos outros e aí simpatiza com um rapaz que dirige um deles – alegria bruscamente interrompida, ao ser esbofeteada e arrastada dalí à fôrça pelo pai. Condenada à solidão e à miséria, Mouchette sente necessidade de amar, o que explica a ternura quase maternal com que cuida de Arsène, quando ele fica doente e talvez amor, quando ele a estupra.

O DINHEIRO / L’ARGENT.

Quando seu pai se recusa a aumentar sua mesada, Norbert (Marc Ernest Fourneau), recebe de seu amigo Martial (Bruno Lapeyre), uma nota falsa. Para conseguirem dinheiro de verdade, eles passam a nota em uma loja de artigos fotográficos. O dono da loja (Didier Bussy), verificando que o dinheiro era falso, desembaraça-se dele, transferindo-o para Yvon (Christian Patey), um jovem entregador de combustível. A partir daí, Yvon vai ser levado por uma série de acontecimentos, dos quais ele perde o contrôle: tendo entregado a nota falsa em um restaurante, ele é preso. Yvon retorna com dois policiais até à loja do comerciante, onde tudo começou mas, com a cumplicidade de seu jovem empregado Lucien, o dono da loja nega ter visto Yvon. Este é julgado, mas o tribunal lhe impõe uma pena mínima, deixando-o em liberdade. Yvon perde o emprêgo e se deixa levar por amigos a um assalto a um pequeno banco. A polícia o surpreende, ele é preso, e condenado. Sua mulher, Elise (Caroline Lang) vem lhe visitar e o faz saber depois, através de uma carta que o filho deles morreu e que ela não virá mais visitá-lo, porque espera “mudar de vida”. Yvon fica transtornado e resolve se suicidar, porém é socorrido a tempo. Ao sair da prisão, ele assassina um casal de hoteleiros, para roubar seu dinheiro. Depois, encontra uma senhora idosa (Sylvie Van den Elsen), que acabara de receber sua pensão. Ele a segue; ela lhe dá comida e o acolhe em sua casa. Finalmente, Yvon mata a mulher e toda a sua família com um machado e se entrega à polícia.

Marc Ernest Fourneau em O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Inspirando-se em um conto de Tolstoi, mas aproximando mais os personagens do Dostoievski de “Crime e Castigo”, Bresson traduz no seu estilo minimalista “o caminho trágico do mal em uma alma atormentada”. O percurso de Yvon assemelha-se ao de Raskolnikov e Yvon parece o Michel de Pickpocket. Ambos transgridem as leis, mas enquanto Michel é autor desta transgressão, Yvon é envolvido em uma espiral que o leva ao Mal. Em um mundo corrompido pelo dinheiro, pelos falsos valores, vítima de várias desonestidades, após uma série de reações em cadeia costuradas pelo acaso, Yvon se torna um assassino. Neste drama retratado com muita ferocidade, o som tem um papel primordial, os ruídos são alucinantes: o barulho dos carros na rua e das grades da prisão, a escumadeira jogada no chão que bate contra uma parede, o chão de pedra da cela constantemente arranhado por Yvon, o copo de vinho perto do piano que cai e se espatifa …

                                                                                                                FILMOGRAFIA

Anjos das Ruas / Les Anges du Peché / 1943

As Damas do Bois de Boulogne (TV) / Les Dames du Bois de Boulogne / 1945

Le Journal d’un Curé de Campagne / 1951

Um Condenado à Morte Escapou / Un Condamné à Mort s’est Échappé / 1956

Pickpocket / Pickpocket / 1959

Procès de Jeanne D’Arc / 1962

A Grande Testemunha / Au Hasard Balthazar / 1966

Mouchette, a Virgem Possuída / Mouchette / 1967

Une Femme Douce / 1969

Quatre Nuits d ‘un Rêveur /1971

Lancelot du Lac / 1974

Le Diable Probablement / 1977

O Dinheiro / L ‘Argent / 1983

FRED NIBLO

March 17, 2017

Ele era um técnico experiente, modelo de professional consciencioso, seguindo esteticamente a linha pictorialista desenvolvida por Rex Ingram, Maurice Tourneur, Herbert Brennon e Clarence Borwn e dirigiu uma série de grandes produções com os maiores astros e estrelas da década de vinte como Douglas Fairbanks (A Marca do Zorro / The Mark of Zorro / 1920, Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers / 1921), Rudolph Valentino (Sangue e Areia / Blood and Sand / 1922), Ramon Novarro (Teu Nome é Mulher / Thy Name is a Woman / 1924, Fogo, Cinzas, Nada …/ The Red Lily / 1924 e principalmente no superespetáculo Ben-Hur / Ben-Hur, a Tale of the Christ / 1925), Greta Garbo (Terra de Todos / The Temptress / 1926, A Dama Misteriosa / The Mysterious Lady / 1928), Norma Talmadge (A Dama das Camélias / Camille / 1926), Lillian Gish (Ódio / The Enemy / 1927), Ronald Colman-Vilma Banky (Dois Amantes / Two Lovers / 1928), John Gilbert e Rene Adoree (Redenção / Redemption / 1930) e William Haines (Cowboy a Muque / Way Out West / 1930), estes dois últimos filmes já sonorizados.

Fred Niblo

Fred Niblo nasceu em York, Nebraska em 1874 com o nome de Fred Liedtke, filho do prussiano Frederick Liedtke, que serviu como capitão na Guerra Civil americana e da francêsa Annette Dubergere. Nos seus primeiros anos de vida, depois que seus pais se separaram, Fred e sua mãe foram para Nova York, onde ele começou a trabalhar em um teatro-café chamado Niblo Gardens de propriedade de um homem de descendência irlandêsa chamado William Niblo. O jovem Fred adotou o nome artístico de Niblo e começou sua carreira no show business, atuando no vaudeville, destacando-se primeiramente como ator em monólogos humorísticos.

Em 2 de junho de 1901, Niblo casou-se com Josephine Cohan, irmã de George M. Cohan, o legendário “pai” da comédia musical americana, tornando-se gerente da trupe de Cohan, “The Four Cohans”. Porém seus admiradores exigiram sua volta ao palco e, começando com a temporada de 1904-1905, ele retomou sua carreira de ator, aparecendo por um curto tempo como Walter Lee Leonard em “The Rogers Brothers in Paris” e depois no vaudeville, onde permaneceu por longo tempo. Em 1916, após quinze anos de casamento, Josephina Cohan Niblo faleceu.

Fred Niblo e Enid Bennett

No ano seguinte, Fred foi para a Austrália, onde conheceu Enid Bennett (1893-1969) com quem se casou em 1918. Enid era atriz de teatro no seu país natal e começou no cinema americano na empresa de Thomas H. Ince, na qual NIblo também se iniciou na tela. Ela foi muito popular entre os anos de 1917 a 1924, inclusive no Brasil. Niblo dirigiu-a em 18 filmes, mas seus maiores êxitos como intérprete foram como Maid Marian em Robin Hood / Robin Hood / 1922 (Dir: Allan Dwan, ao lado Douglas Fairbanks) e como Lady Rosamund em O Gavião do Mar / 1924 (Dir: Frank Lloyd ao lado de Milton Sills), dois filmes mudos de aventuras famosos.

Em 1932, Niblo realizou seus dois últimos filmes no Reino Unido (Two White Arms e Diamond Cut Diamond) e, tal como fizera no início de sua carreira no cinema, passou a atuar esporadicamente como ator, aparecendo em seis filmes durante a década de quarenta, entre eles, Linda Impostora / Ellery Queen, Master Detective / 1940, no papel de John Braun … um personagem que, a certa altura, é encontrado com a garganta cortada.

Fred Niblo foi uma personalidade importante nos primeiros anos de Hollwywood e um dos fundadores da Academy of Motion Pictures Arts and Sciences. Ele faleceu em 1948 em New Orleans, Lousiana. Escolhí seis filmes de Niblo, que ví em dvd, para homenagear esse diretor competente e sensível de filmes com grandes personalidades do cinema mudo:

 A MARCA DO ZORRO / THE MARK OF ZORRO. Prod: Douglas Fairbanks Pictures Corporation. Dist: United Artists. Rot: Eugene Mullin, Douglas Fairbanks, baseado história “ The Curse of Capistrano” de Johnston McCulley. Foto: William McGann, Harris Thorpe. Dir. Arte: Edward M. Langley. Coreografia das lutas: H. J. Uyttenhove, Richard Talmadge.

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em A Marca do Zorro

A opressão reina na Califórnia espanhola do comêço do século XIX. O Governador Alvarado (George Periolat) e o lascivo Capitão Juan Ramon (Robert McKim) abusam de seu poder e mantêm o povo sob uma vigilância implacável. Um vingador mascarado, Zorro (Douglas Fairbanks) surge como defensor dos oprimidos. O misterioso espadachim grava sua inicial com a ponta de sua espada na pele de sua vítimas: a marca do Zorro. Os soldados estão aterrorizados com as proezas do esperto fora-da-lei, menos o efeminado Don Diego Vega (Douglas Fairbanks), chegado recentemente da Espanha. O pai do rapaz, Don Alejandro (Sydney de Grey), quer vê-lo casado com Lolita (Marguerite de la Motte), filha de Don Carlos Pulido (Charles Hill Mailes), nobre arruinado pelo governador. Entretanto, Don Diego não está interessado em cortejar a bela Lolita, preferindo passar o tempo ociosamente, fazendo truques com um lenço, que traz sempre consigo. Seu comportamento é um estratagema: o afetado Don Diego é o Zorro disfarçado. Como Zorro ele ridiculariza o Sargento Gonzales (Noah Beery), enfrenta o Capitão Ramon, e flerta com Lolita. Sua dupla identidade é desconhecida por todos, menos por seu criado mudo Bernardo (Tote Du Crow). Quando o Capitão Ramon aprisiona a família Pulido e sequestra Lolita, Zorro revela sua verdadeira identidade e estimula os cavalheiros locais a entrarem em ação e livrar a Califórnia de suas autoridades corruptas. Após vencer o Capitão Ramon em uma luta de esgrima, marcando um Z na sua testa, e forçar o governador a abdicar, ele beija sua espada, arremessa-a para o alto, fincando-a no teto, e diz “Até quando eu precisar de você de novo!”.

Cena de A Marca do Zorro

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em A Marca do Zorro

A Marca do Zorro foi um marco, não somente na carreira de Douglas Fairbanks, mas também no desenvolvimento do gênero de aventura. Neste seu décimo terceiro trabalho no cinema, Fairbanks estava passando das comédias contemporâneas para as produções de época, pelas quais ele é mais lembrado. Com este filme, ele definiu e popularizou o gênero capa-e-espada (que os americanos chamam de swashbuckler). Todos os praticantes deste tipo de espetáculo depois dele (Errol Flynn, Tyrone Power, Gene Kelly, Burt Lancaster, etc) inspiraram-se na herança de Fairbanks e sua contribuição para a construção do herói espadachim com sua simpatia, humor e atletismo.

Cena de A Marca do Zorro

Cena de A Marca do Zorro

Cena de A Marca do Zorro

Salvo o momento em que Zorro, sentado de pernas cruzadas em uma mesa, duela alegremente com seu oponente, e a soberba sequência acrobática de perseguição quase no final do filme, a direção de Fred Niblo não foge ao modelo usual do começo dos anos vinte, com muitas cenas transcorrendo como se estivessem sob o arco de um proscênio teatral; porém ele consegue manter a fluência da narrativa e criar instantes dramáticos e de suspense como aquele início quando, dentro da taverna, em uma noite chuvosa, os frequentadores do local estão impressionados com a marca de um Z que o Zorro cravou no rosto de um dos soldados do Sargento Gonzalez. O arrogante e vaidoso Gonzalez gaba-se, dizendo que vai capturar o bandido mascarado. De repente, alguém bate na porta da taverna, e todos ficam paralizados pelo medo. A porta se abre lentamente e entra uma figura encoberta por um enorme guarda-chuva. Enquanto os presentes prendem a respiração, o guarda-chuva é levantado e a figura revela-se não ser o temível Zorro, mas o dândi Don Diego.

OS TRÊS MOSQUETEIROS / THE THREE MUSKETEERS. Prod: Douglas Fairbanks Pictures Corporation. Dist: United Artists. Adaptação de Edward Knoblock do romance “Les Trois Mousquetaires de Alexandre Dumas pai. Foto: Arthur Edeson. Dir. Arte: Edward M. Langley. Coreografia das lutas: H. J. Uyttenhove. Mont: Nellie Mason.

Cena de Os Três Mosqueteiros

Em 1625, O Cardeal Richelieu (Nigel de Brulier) conspira na côrte de Louis XIII (Adolphe Menjou), ameaçando a rainha Anna d’Austria (Mary Mclaren), que está apaixonada secretamente pelo Duque de Buckingham (Thomas Holding). Da Gasconha chega D’Artagnan (Douglas Fairbanks), a fim de se tornar um dos Mosqueteiros do Rei. Ele se apresenta a Tréville (Willis Robards), capitão dos mosqueteiros, mas este lhe diz que primeiro deve adquirir mais experiência em outro lugar. D’Artagnan imediatamente se envolve em duelos com os três melhores espadachins da França, Athos (Léon Bary), Porthos (George Siegmann) e Aramis (Eugene Palllette), com os quais acaba formando uma aliança eterna. Com igual rapidez, ele conquista o coração de Constance Bonacieux (Marguerite de la Motte), jovem costureira da rainha. Ela encarrega os três mosqueteiros – e mais um – de uma missão perigosa na Inglaterra, para recuperar um colar de diamantes, presente do rei que ela havia dado a Buckingham como prova de sua afeição. Ciente desse plano, Richelieu ordena que seus espiões, Rochefort (Boyd Irwin) e Milady de Winter (Barbara La Marr), frustrem a missão dos mosqueteiros. Um a um eles vão sendo vencidos, e é D’Artagnan sozinho (com a ajuda de seu criado Planchet / Charles Stevens), que consegue recuperar o colar e voltar a tempo de salvar a rainha da ira do monarca. Finalmente aceito na corporação dos mosqueteiros, D’Artagnan é apresentado a Louis XIII, diante de toda a côrte, acompanhado pelos seus três amigos leais, cujo lema será sempre: “Um por todos – todos por um”.

Douglas Fairbanks em Os Três Mosqueteiro

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em Os Três Mosqueteiros

O sucesso popular de A Marca do Zorro significou uma mudança, não somente dos filmes de Douglas Fairbanks, mas também do próprio Fairbanks. Como arquiteto de seus próprios filmes, ele há muito tempo desejava se afirmar, realizando grandes produções, o que aconteceu quando levou à tela o seu herói predileto, D’Artagnan, criado por Alexandre Dumas, em Os Três Mosqueteiros.

D’Artagnan foi um papel que Fairbanks nasceu para desempenhar e ele contou mais uma vez com Fred Niblo como diretor de seu novo espetáculo, que – ao contrário de A Marca do Zorro, produzido com valores de produção discretos – teve cenários luxuosos, um elenco maior e figurinos magníficos. Para a filmagem foram utilizados dois estúdios em Hollywood, o Douglas Fairbanks Studios para pequenos cenários e o adjacente Robert Brunton Studios para cenas de interiores mais elaboradas.

Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Fred Niblo durante a filmagem de Os Três Mosqueteiros

Cena de Os Três Mosqueteiros

Fruto do esforço colaborativo entre Fairbanks, Niblo e o coreógrafo de lutas H. J. Uyttenhove, destacam- se as tomadas de acrobacias brilhantemente encenadas nas sequências de luta contra os guardas do cardeal. A mais difícil foi inquestionavelmente aquela ocorrida quando D’Artagnan marca duelos com os três mosqueteiros atrás do Jardim de Luxemburgo. Ele começa a lutar com Athos, surgem os guardas, e os quatro os enfrentam; em um lance sensacional, Fairbanks dá um salto mortal com sua mão esquerda equilibrada em um pequeno punhal que cravara em um dos guardas. Foi a acrobacia mais difícil de toda a sua carreira.

Niblo consegue manter um ritmo trepidante do começo ao fim, arma algumas boas cenas cômicas como, por exemplo, o almoço na casa do padre e presta sempre atenção para o detalhe, como na cena em que a câmera focaliza as pernas de D’ Artagnan tremendo diante do rei ou quando o rei pede que a rainha use o colar no baile, e ela vê a sombra de Richelieu na porta. O diretor domina bem o suspense no final, alternando cenas de D’Artagnan duelando com Rochefort enquanto a rainha se desespera por não ter a posse do colar.

 SANGUE E AREIA / BLOOD AND SAND. Prod: Famous Players – Lasky. Dist: Paramount Pictures. Rot: June Mathis baseado romance “Sangre y Arena” de Vicente Blasco-Ibañez. Foto: Alvin Wycoff. Mont: Dorothy Arzner.

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Um jovem e impetuoso toureiro, Juan Gallardo (Rudolph Valentino), filho de uma viúva pobre de Sevilha (Rosa Rosanova), casa-se com Carmen (Lila Lee) sua namorada de infância, recém saída de um convento enquanto alcança a fama através da Espanha. Ele é feliz com Carmen mas, não obstante, sucumbe aos encantos ardentes de Doña Sol (Nita Naldi), uma víuva rica e glamourosa. Seu comportamento adulterino leva-o a ser humilhado diante de sua nobre esposa e a perder seu contrôle na arena. Distraído ao se defender de um touro, morre nos braços de Carmen, após lhe assegurar que ela sempre teve o seu amor.

Valentino e Nita Naldi em Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Rudolph Valentino e Nita nNldi em Sangue e Areia

Rudolph Valentino e Fred Niblo na filmagem de Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Cena de Sangue e Areia

Se bem que sua história pareça obsoleta, trata-se de um drama absorvente graças à habilidade do diretor para controlar a cadência do filme e à presença sensual de Rudolph Valentino, cujos momentos de paixão com a voluptuosa (mas um tanto além do peso) Nita Naldi são realmente tórridos (embora hoje pareçam ridículos, inclusive por causa de diálogos como “Serpente! em um minuto eu te amo – no próximo eu te odeio!”).

Valentino e Lila Lee em Cena de Sangue e Areia

O que me incomodou no filme foram as cenas de tourada muito fracas – consistindo em tomadas de arquivo desajeitadamente inseridas no curso da narrativa, quando deveriam ter sido uma das atrações do espetáculo – e os sermões pomposos e agourentos (v. g. “A multidão é uma besta de dez mil cabeças”) de um personagem filósofo, Don Joselito (Charles Belcher), que não consta na versão de Rouben Mamoulian, mas somente nesta transposição para a tela do romance de Ibañez, provavelmente porque no filme em questão houve a preocupação de transmitir a denúncia feroz das crueldades da tourada implícitas na obra literária enquanto que no filme de Tyrone Power o que interessava era o aspecto particular do jovem matador fascinado por uma mulher fatal. No entanto, até que não caiu mal o paralelismo entre a vida e o destino de Juan e o seu amigo bandido Plumitas (Walter Long), também inexistente na versão Mamoulian: “Juan mata touros enquanto Plumitas mata homens”; Plumitas morre no estádio alvejado pelos policiais ao mesmo tempo em que Juan é fulminado pelo touro.

TERRA DE TODOS / THE TEMPTRESS. Cosmopolitan Pictures. Dist. MGM. Direção adicional durante dez dias: Mauritz Stiller. Adaptação de Dorothy Farnum do romance de Vicente Blasco-Ibañez “La Tierra de Todos”. Foto: Gaetano (Tony) Gaudio. Dir. Arte: Cedric Gibbons. James Basevi. Mont: Lloyd Nosler.

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Manuel Robledo (Antonio Moreno), jovem engenheiro argentino de passagem por Paris, apaixona-se loucamente no decorrer de um baile de máscaras pela bela Elena (Greta Garbo). Ela jura que não poderá pertencer a outro homem senão a ele, mas quando Robledo faz uma visita a seu amigo, o Marquês de Torre Bianca (Armand Kaliz), descobre que Elena é sua esposa e amante, com o consentimento do marido, do banqueiro Fontenoy (Marc MacDermott), em troca do perdão de suas dívidas. Quando Fontenoy, em um banquete e na frente de seus convidados, acusa Elena de tê-lo arruinado, e se suicida, Robledo, magoado, retorna a seu país, onde supervisiona a construção de uma grande barragem. Pouco depois, Torre Bianca, humilhado pelo escândalo, resolve ir também para a Argentina, levando Elena consigo. Em uma região selvagem, ela fascina os homens principalmente o gaucho Conterac (Lionel Barrymore) e o bandoleiro “Manos Duras” (Roy D’Arcy). Conterac mata em uma briga um companheiro que também a disputava e “Manos Duras” troca insultos com Robledo, e os dois se enfrentam em um duelo de chicote. Humilhado pela derrota, “Manos Duras” dinamita a represa, que uma chuva torrencial acaba de destruir. Elena renuncia a seu amor, a fim de que Robledo possa se consagrar ao seu trabalho. Anos depois, Robledo vai a Paris, para receber uma condecoração, e encontra Elena por acaso em um café; mas ela está muito alcoolizada, e não o reconhece. Na sua embriaguês, identificando um mendigo barbudo como Jesus, Elena lhe dá seu único objeto de valor, um anel de rubís, dizendo: “Você compreende. Você morreu por amor”.

Fred Niblo dirige Garbo em Terra de Todos

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Segundo filme de Greta Garbo na América, Terra de Todos é um melodrama exótico, cheio de clichés, mas salvo do fracasso pela direção segura de Fred Niblo (às vêzes inspirada – o último banquete do banqueiro arruinado; a luta feroz de chicote e o erotismo sugerido quando Elena praticamente lambe o sangue no peito do seu amado; a heroína degradada acreditando ver a imagem do Cristo no rosto de um mendigo – e pela presença resplandescente de Garbo, magnificamente fotografada por Tony Gaudio.

Garbo

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Diante do epílogo sinistro, a MGM providenciou um final feliz: Robledo encontra Elena no meio da multidão durante a cerimônia e se reconcilia com ela. Foi dada a escolha aos exibidores. Como era de se esperar, o verdadeiro final foi usado em Nova York, na Califórnia e na Europa; o outro, mais raro, foi preferido na América profunda.

DAMA MISTERIOSA / THE MYSTERIOUS LADY. Prod: Harry Rapf. Dist: MGM. Adaptação de Bess Meredith do romance “Der Krieg im Dunkel” (Guerra às Escuras) de Ludwig Wolff. Foto: William Daniels. Dir. Arte: Cedric Gibbons. Mont: Margareth Booth.

Conrad Nagel e Greta Garbo em A Dama Misteriosa

Greta Garbo e Conrad Nagel em A Dama Misteriosa

Em Viena, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, o Capitão Karl von Raden (Conrad Nagel) e seu amigo, Capitão Max Heinrich (Albert Pollet), são informados na bilheteria de um teatro, de que os bilhetes para a ópera estão esgotados. De repente, um homem devolve seu ingresso, Karl compra, e divide o camarote com uma mulher deslumbrante. Findo o espetáculo, ao saber que ela está sem dinheiro, pois aguardava o primo, que acabou não chegando, Karl a acompanha até sua residência, e passam a noite juntos. Pouco antes de embarcar em um trem, encarregado de levar documentos secretos para Berlim, Karl é advertido por seu tio, Coronel Eric von Raden (Edward Connelly), chefe do serviço secreto austríaco, de que a mulher com a qual ele esteve na véspera, era uma notória espiã russa, Tania Fedorova (Greta Garbo). No trem, ele reencontra Tania. Ela confessa que está a serviço de seu país, mas que o ama de fato; entretanto mas Karl a rejeita, e depois percebe que os documentos secretos sumiram. Karl é levado à côrte marcial e à prisão; porém seu tio lhe dá uma chance de se redimir, encarregando-o de ir atrás de Tania, disfarçado de pianista, a fim de descobrir, por meio dela, a identidade de um traidor que está a serviço dos russos. Karl e Tania se encontram em Varsóvia e, por amor ao capitão, Tania lhe entrega documentos que revelam quem é o traidor, que estão de posse do seu superior e amante General Boris Alexandroff (Gustav von Seiffertitz). Depois de momentos de muita tensão, o general descobre o roubo. Tania o mata, e foge com Karl para a Austria.

Filmagem de A Dama Misteriosa

Greta Garbo e Gusav von Seiffertitz em A Dama Misteriosa

Cena de A Dama Misteriosa

Niblo na filmagem de A Dama Misteriosa

O assunto pode não ser original, mas deu ensejo para que Bess Meredith traçasse um roteiro excelente, cujas sequências Fred Niblo soube encadear muito bem (sempre uma característica do seu trabalho), preenchendo a tela com belas imagens (os primeiros planos de Greta Garbo, a cerimônia de degradação do capitão Karl, as festas nas quais se destacam o luxo dos interiores e a fotogenia dos uniformes dos oficiais). Graças à direção de Niblo o filme mantém o tempo todo o interesse do espectador pela história de amor e espionagem e, no final, transmite um suspense que nos deixa ofegantes.

BEN-HUR / BEN-HUR, A TALE OF THE CHRIST. Prod: Louis B. Mayer, Samuel Goldwyn, Irving Thalberg. Dist: MGM. Dir. cenas iniciais em Roma: Charles Brabin. Ass. Dir: Al Raboch, Christy Cabanne. Dir. 2a Unidade: B. Reeves Eason (com 62 assistentes entre eles Henry Hathaway e William Wyler. Dir. cenas da Natividade com Betty Bronson como Virgem Maria: Ferdinand Pinney Earle. Adapt: June Mathis baseada no romance “Ben-Hur, A Tale of the Christ” de Lew Wallace. Rot: Bess Meredith, Carey Wilson. Foto: René Guissart, Percy Hilburn, Karl Struss, Clyde De Vinna. Foto adicional: E. Burton Steene, George Meehan. Dir. Arte: Cedric Gibbons, Horace Jackson, A. Arnold Gillespie. Mont: Lloyd Nosler. Ass. Mont: Bill Holmes, Harry Reynolds, Ben Lewis.

May MacAvoy e Ramon Novarro em Ben-Hur

Ramon Novarro e Francis X. Bushman em Ben-Hur

Ramon Novarro e Claire MacDowell em Ben-Hur

Francis X. Bushman e Ramon Novarro em Ben-Hur

Em Jerusalem, cresce a opressão romana ao judeus, e é particularmente sentida no lar principesco dos Hur. Temerosa, a Princesa Miriam (Claire McDowlel), uma viúva, incumbe seu fiel escravo Simonides (Nigel de Brulier), de esconder seu dinheiro. O filho de Miriam, Judah Ben-Hur (Ramon Novarro), sente-se atraído pela filha de Simonides, Esther (May Mac Avoy), porém ela deve ir com seu pai para a Antióquia. No mesmo dia, Judah revê seu amigo de infância, Messala (Francis X. Bushman), centurião romano, que acabara de voltar a Jerusalem após uma longa ausência. Enquanto conversam, Judah percebe que Messala mudou, não é mais o amigo compreensivo, mas um opressor que deseja que ele esqueça de que é judeu. Compreendendo que sua amizade se tornou impossível, os dois homens rompem sua relação. Na tarde do mesmo dia, Judah, Miriam e a irmã de Judah, Tirzah (Kathleen Kay), assistem, do balcão de sua casa, a uma parada em homenagem ao novo comandante de Jerusalem, quando, acidentalmente, Judah desprende uma telha, que cai na cabeça do comandante, deixando-o inconsciente. Os soldados romanos, liderados por Messala, penetram na casa e prendem toda a família. Judah é condenado à prisão perpétua como escravo nas galés e não fica sabendo o destino de Miriam e Tirzah. Obrigado a caminhar com outros prisioneiros através do deserto até o mar, Judah encontra no caminho um jovem carpinteiro, que lhe dá água para beber e força espiritual para sobreviver. Em Jerusalem, Simonides é torturado, mas se recusa a revelar onde escondeu o dinheiro dos Hur. Dois anos mais tarde, durante um combate contra piratas, Judah salva o comandante da frota romana, Arrius, (Frank Currier) enquanto a embarcação afunda. Judah e Arrius ficam à deriva no mar durante dois dias até que um navio romano os resgata. Por gratidão, e também por admiração, Arrius dá seu anel para Judah comprar sua liberdade e depois o anuncia como seu filho adotivo. Passam-se alguns anos e Judah, agora conhecido com Arrius, o Mais Moço, é aclamado como um grande atleta em Roma por suas vitórias nas corridas de bigas

Ramon Novarro em Ben-Hur

Cena das galés em Ben-Hur

Ramon Novarro e Frank Currier em Ben-Hur

Ao ouvir falar que Simonides ainda estaria na Antióquia, Judah vai procurá-lo, porém ele se recusa a reconhecê-lo, dizendo que Judah, tal como sua mãe e irmã estão mortos. Entretanto, Esther reconhece Judah e lhe entrega um bracelete, que Miriam havia dado a ela. Pouco depois, o Sheik Ilderim (Mitchell Lewis), um árabe criador de cavalos, pede a Judah que participe de uma corrida de bigas, no Circo de Antióquia. Inicialmente desinteressado, mas quando Ilderim diz que Messala é o favorito para ganhar a corrida, Judah concorda em disputá-la, como um judeu desconhecido. Simonides revela a Esther que, apesar de ter reconhecido Judah, ficou com medo de admitir isso, porque, ela, como ele, seriam escravos de Judah. Quando a notícia da corrida se espalha, Messala pede à sua amante, a egípcia Iras (Carmel Myers), para solucionar o mistério do judeu desconhecido. Ela vai ao acampamento de Ilderim, a fim de seduzir Judah, porém ele não revela sua identidade. Mais tarde, Simonides e Esther admitem diante de Judah a sua servidão e Simonides o coloca a par da fortuna dos Hur, que ele multiplicara. No dia seguinte, o Circo está cheio de gente ansiosa por apostar contra o judeu desconhecido, mas é Judah quem ganha a corrida, na qual Messala, depois de várias tentativas para destruir sua biga, acaba perdendo a vida. Vitorioso e rico, Judah não pode regozijar-se, porque sua mãe e irmã estão mortas, e os judeus continuam escravizados por Roma. A esta altura, Miriam e Tirzah contraem lepra e são enviadas para o Vale dos Leprosos. Balthazar, amigo de Ilderim, revela que a criança de Belém, agora chamada de Nazareno, é o rei que libertará os judeus e Judah decide usar todos os seus recursos para ajudá-lo. Ele organiza um exército perto de Antióquia enquanto, em Jerusalem, o Nazareno prega o amor, o perdão e a paz, inspirando milhares de seguidores. Judah retorna a Jerusalem, e vai à sua antiga casa, agora deserta. Ele adormece do lado de fora e, logo depois, Miriam e Tirzah chegam. Judah murmura “Mãe” no seu sono, as mulheres o vêem, mas não o acordam, sabendo que são “impuras”. Judah desperta, chegam Simonides e Esther, e um velho criado anuncia que o Nazareno foi preso. Quando Judah parte a cavalo, Miriam, que estava escondida ali perto, solta um grito de desespêro, atraindo a atenção de Esther. Miriam implora a Esther que mantenha seu segrêdo mas, ao saber que o Nazareno pode curar os doentes, Esther vai ao Vale dos Leprosos e convence Tirzah e Miriam a voltar para Jerusalem. Durante a via crucis do Nazareno, Judas aproxima-se dele, para lhe dizer que tem duas legiões aguardando fora da cidade, porém Jesus lhe diz que seu reino não é deste mundo. Comovido, Judah deixa cair sua espada. O Nazareno continua seu percurso com a cruz e, no caminho, ressuscita uma criança e cura Miriam e Tirzah. Judah presencia o milagre e se reune com sua mãe e irmã. Depois da crucificação, Judah, Miriam, Tirzah, Esther e Simonides estão juntos, certos de que a mensagem do Nazareno subsistirá eternamente.

Niblo na filmagem de Ben-Hur

Fred Niblo e os figurantes de Ben-Hur

Filmagem de Ben-Hur

Filmagem da corrida de bigas em Ben-Hur
Production Still

Esta versão cinematográfica de Ben-Hur teve início quando os empresários teatrais Klaw e Erlanger compraram os direitos de filmagem de Henry Wallace, filho e herdeiro do autor do romance, Lew Wallace, em 1921 e os revenderam para Frank Godsol da Goldwyn Company em troca da promessa de receberem metade dos lucros do filme. A principal roteirista da Goldwyn, June Mathis, preparou um roteiro e escolheu George Walsh, Francis X. Bushman e Gertrude Olmstead, para interpretarem respectivamente os papéis de Judah Ben-Hur, Messala e Esther, e o inglês Charles Brabin como diretor. A produção teve início na Itália em 1923 com a batalha naval, que foi encenada no mar, perto da costa de Anzio. Entrementes, a Goldwyn foi absorvida na fusão que criou a Metro-Goldwyn-Mayer e o chefe do estúdio Louis B. Mayer ficou cada vez mais insatisfeito com as cenas que estavam sendo filmadas por Brabin. Ele e seus colegas executivos Irving Thalberg e Harry Rapf decidiram substituir Brabin por Fred Niblo, George Walsh e Gertrude Olmsgtead, pela ordem, por Ramon Novarro e May McAvoy, e encarregaram Bess Meredith e Carey Wilson de reecreverem o script de June Mathis. Todas as tomadas rodadas por Brabin foram descartadas e Niblo refilmou a batalha naval, com trirremes de tamanho natural, no mar próximo ao litoral de Livorno. Depois que o fogo destruiu o depósito de adereços em Roma, Thalberg ordenou que a produção voltasse para Hollywood, onde novos cenários foram construídos e a corrida de bigas conduzida pelo diretor de 2a Unidade B. Reeves Eason. Ele usou 12 bigas e 48 cavalos, e o resultado foi uma sequência eletrizante, que até hoje impressiona. A produção custou 4 milhões de dólares e lucrou 9 milhões, porém as despesas com distribuição e promoção foram tão grandes que, combinado com o acordo que dava a Klaw e Erlanger a metade dos ganhos, a MGM ficou com um prejuízo de um milhão de dólares – embora eventualmente a empresa tenha recuperado sua perda, quando uma versão condensada com score sincronizado e efeitos sonoros foi lançada em 1931.

Mitchell Lewis e Ramon Novarro em Ben-Hur

Francis X. Bushman e Ramon Novarro em Ben-Hur

Cena de Ben-Hur

Cena de Ben-Hur

Ramon Novarro em Ben-Hur

Ramon Novarro

O filme de 1925 é estruturado em torno do conflito de valores entre Cristandade e Roma Imperial. Ele intercala episódios da vida de Cristo (filmados em Technicolor) e a história de Ben-Hur e sua rivalidade com Messala (filmada em preto e branco, e depois tingida). As vidas de Jesus e Ben-Hur se justapõem, quando Jesus dá água para o sedento e brutalizado Ben-Hur e quando, na sua via crucis, prega a não-violência e o faz baixar sua espada, curando, logo em seguida, sua mãe e irmã leprosas.

Cena de Ben-Hur

O roteiro deu ênfase ao ângulo religioso (v. g. multiplicando as cenas da vida de Cristo; expondo com clareza a adesão de Judah ao Cristianismo) e ao subtexto político (v. g. mostrando a tirania dos romanos – quando, diante do portão de Joppa, os romanos humilham e maltratam os judeus -, o tratamento desumano dos remadores, o colapso do palácio de Pilatos, símbolo da queda do poder de Roma, a proposta de Judah para formar duas legiões e proclamar Jesus como Rei dos Judeus).

O mérito de Niblo foi ter levantado a moral de toda a equipe depois de tanta turbulência na filmagem; coordenado com muita segurança as atividades de inúmeros técnicos e artistas; extraído ternura e pungência das cenas mais íntimas; e, principalmente, conferido um esplendor visual ao espetáculo, que deveu muito também a Ramon Novarro que, além de agradar à vista por causa de sua bela presença física, fez uma caracterização perfeita do protagonista, expressando maravilhosamente seu ardor, sua cólera, sua dor, sua espiritualidade.

                                                                                                            FILMOGRAFIA

1916 – Get-Rich-Quick Wallingford; O Polícia 666 / Officer 666. 1918 – The Marriage Ring; Aventuras de uma Atriz / When Do We Eat? ; Vida Ilustre / Fuss and Feathers. 1919 – Exilados / Happy Though Married; Abandonada / Partners Three. Ciúmes Que Matam / The Law of Men; A Alcova do Fantasma / The Haunted Bedroom; Ladrão Virtuoso ou Ladrão por Gratidão / The Virtuous Thief; Stepping Out; O Que Toda Mulher Deve Saber / What Every Woman Learns; Dangerous Hours. 1920 – Pela Nossa Honra / The Woman in the Suitcase; Hoje Eu, Amanhã Tu! / Sex; Anabela / The False Road; Enfeites / Hairpins; Desdita / Her Husband’s Friend; A Marca do Zorro / The Mark of Zorro; Elegância / Silk Hosiery. 1921 – Diante do Cadafalso / Mother O’Mine; Mais Forte Que o Amor / Greater Than Love; Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers. 1922 – A Mulher e a Inspiração / The Woman He Married; A Rosa do Mar / Rose of the Sea; Sangue e Areia / Blood and Sand. 1923 – Mãe, Missão Suprema / The Famous Mrs. Fair; Uma Noite Fascinante / Strangers of the Night. 1924 – Teu Nome é Mulher / Thy Name Is a Woman; Fogo, Cinzas, Nada / The Red Lily. 1925 – Ben-Hur / Ben-Hur. 1926 – Terra de Todos / The Temptress; A Dama das Camélias / Camille. 1927 – A Bailarina Diabólica / The Devil Dancer; Ódio/ The Enemy. 1928 – Dois Amantes / Two Lovers; Dama Misteriosa / The Mysterious Lady; Sonho de Amor / Dream of Love. 1930 – Redenção / Redemption; Cowboy a Muque / Way Out West. 1931 – O Filho Adotivo / Young Donovan’s Kid; The Big Gamble. 1932 – Two White Arms; Diamond Cut Diamond.

ROBERT SIODMAK E SEUS FILMES NOIRS III

March 3, 2017

Existiram poucos filmes na filmografia de R. Siodmak que foram realizados com uma independência real, tanto sob o ponto de vista da elaboração do argumento como da filmagem. Baixeza / Criss Cross / 1948, beneficiou-se de uma concordância íntima do estilo, do assunto abordado e da personalidade do cineasta e foi a sua obra-prima, o filme noir mais trágico de todos.

Seu tema é o aviltamento de um homem fraco e apaixonado. Steve Thompson (Burt Lancaster) retorna a Los Angeles, após ter viajado por todo o país, para esquecer Anna (Yvonne De Carlo), sua ex-mulher. Ainda obcecado por ela, Steve vai à boate que costumavam frequentar. Fica surpreso ao vê-la na pista de dança e percebe seu relacionamento com Slim Dundee (Dan Duryea), um gângster. Encorajado por Anna, e apesar das advertências por parte de seus familiares e do amigo detetive, Peter Ramirez (Stephen MacNally), Steve começa a se aproximar de novo da ex-mulher.

Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Yvonne de Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Um dia, Anna não aparece. O garçom da boate informa Steve de que ela está em Yuma e se casou com Dundee. Seis meses mais tarde, Steve avista Anna na estação ferroviária, onde acabara de se despedir de Dundee. Anna diz que se casou com Dundee devido à hostilidade de sua família e porque Ramirez ameaçou prendê-la, se não saísse da cidade. Conta também que Dundee costuma bater nela, mostrando as marcas de ferimentos nas costas.

Burt Lancaster e Yvonne De Carlo em Baixeza

Dundee os surpreende na casa de Steve e este improvisa uma explicação: diz que tem planos para roubar a empresa de transporte de valores em que trabalha e pede o auxílio de Dundee. Combinam que o dinheiro roubado ficará com Anna, até que possam se encontrar para repartí-lo. Steve pretende pegar sua parte e fugir com Anna enquanto Dundee planeja matá-lo durante o roubo. No decorrer do assalto, o velho Pop (Griff Barnett), companheiro de Steve no carro-forte, é morto. Steve reage e, apesar de ferido, consegue recuperar metade do dinheiro, passando por herói.

Alan Napier, Yvonne De Carlo, Burt Lancaster e Dan Duryea em Baixeza

Dundee manda raptar Steve no hospital, pois quer saber do paradeiro de Anna. Steve consegue subornar seu raptor para que o leve até a cabana perto do mar em Palos verdes, onde Anna está escondida. Aterrorizada com a presença de Steve, pois sabe que Dundee virá atrás deles, a jovem se prepara para abandoná-lo, ferido e amargurado. Antes que possa partir, levando o dinheiro consigo, Dundee chega. Ele mata Steve e Anna. Ao sair da casa, ouve o som das sirenes dos carros de polícia que se aproximam.

Yvonne De Carlo e Burt Lancasrer em Baixeza

Cena final de Baixeza

O filme começa de uma maneira bastante original. A câmera sobrevoa o aeroporto todo iluminado de Los Sngeles, vai descendo como um pássaro, e depois segue em direção a Steve e Anna, que se abraçam entre dois carros na escuridão de um estacionamento. O espectador é introduzido repentinamente no curso da ação, tomando logo conhecimento do triângulo amoroso. (“Dei uma fugida, enquanto ele estava dançando”… “É melhor voltar, antes que ele comece a procurar por você”… “Depois que tudo acabar e nós estivermos seguros, seremos só eu e você. Do jeito que deveria ter sido desde o princípio”), que é a chave de todo o drama. No dia seguinte, Steve dirige o carro-forte para San Raphaelo, onde vai ocorrer o assalto e, durante o percurso de quarenta minutos, recorda o passado.

Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

O diretor R. Siodmak soube dominar um enredo de estrutura complexa e criar uma esplêndida atmosfera de amargura e fatalismo, complementando muitas vezes a narração na primeira pessoa com uma quantidade de planos subjetivos que acentuam alguns pontos temáticos muito importantes. Por exemplo, a solidão de Steve é expressa em uma tomada na qual surpreende o irmão beijando a noiva, na visão dele, sentado no sofá da sala de visita.

Robert Siodmak dirige Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Mais tarde, R. Siodmak usa inúmeros planos subjetivos para obrigar a platéia a participar da situação aflitiva e de suspense do protagonista, aguardando a vingança de Dundee. Imobilizado na cama do hospital, Steve percebe, pela porta entreaberta, a presença de um homem no corredor. A enfermeira diz que é um visitante, chamado Nelson. Steve manda chamá-lo. Nelson (Robert Osterloh) se apresenta como caixeiro-viajante e diz que sua mulher foi ferida em um acidente. Steve pede-lhe que passe a noite com ele. Nelson senta-se dentro do quarto e parece que vai adormecer. Assim que a enfermeira sai, ele se levanta e volta com uma cadeira de rodas. Aproximando-se do leito, acorda Steve e se identifica como mensageiro de Dundee. Corta as cordas do contrapeso que sustenta o braço engessado de Steve e a imagem sai de foco, sugerindo um desmaio.

Robert Osterloh e Burt Lancaster em Baixeza

No seu retorno a Los Angeles, Steve tenta enganar os próximos e a si mesmo, dizendo que já se libertou da ex-mulher, mas ali está ele, triste e desamparado, procurando por ela na boate, onde sabe que vai acabar encontrando-a. Até que o desejo se concretiza em uma sequência notável, na qual mostra toda a fascinação que Anna exerce sobre ele: Steve entra no Rondo Club. Vemos os pares dançando uma rumba executada pela orquestra de Esy Morales, Esy tocando sua flauta travessa, Anna rodopiando na pista, linda e sensual, outro plano de Esy, e finalmente Steve, em plano americano – e depois em primeiríssimo, durante um intercutting – , inteiramente subjugado.

Yvonne De Carlo e Tony Curtis dançam a rumba em Baixeza

Steve confunde sua própria passividade com as maquinações do destino. “Estava escrito nas cartas ou foi o destino, ou o azar, ou o que você quiser”, diz ele no começo do retrospecto. “Estava nas cartas, e não havia como impedí-lo”, conforma-se, quando recebe a notícia do casamento de Anna. É a convenção noir do homem vítima de um destino inexorável. Porém, na realidade, o destino não teve nada a ver com os problemas de Steve. Podem ter ocorrido certas coincidências, mas significaram muito pouco. Não foi o destino que fez Steve perder sua força de vontade, que está sempre se desintegrando na presença de Anna. Ele simplesmente não consegue se libertar de seu encanto.

Cena do Assalto em Baixeza

Cena do assalto em Baixeza

A sequência do assalto é estilizada, deliberadamente irrealista. Uma câmera diretamente do alto mostra o carro-forte dirigindo-se para o seu destino. Quando Steve e Pop saltam com as sacolas de dinheiro, as bombas de gás lacrimogêneo explodem. Uma nuvem sufocante invade toda a rua e Dundee e seus homens colocam suas máscaras. Soa o alarme, que não vai parar de tocar durante toda a sequência. Dundee surge do meio da fumaça e dispara vários tiros contra Pop. Steve vê Dundee matar seu amigo e muda de idéia. Ele alveja um bandido e tenta pôr as sacolas em segurança dentro do carro-forte. Dundee atira nele. Os dois entram em luta corporal. Steve fere Dundee na perna e depois recebe um tiro no ombro. Ouvem-se as sirenes dos carros de polícia. Os bandidos fogem. Toda essa movimentação, com os homens meio perdidos no nevoeiro de gás, alguns com as estranhas máscaras contra gases, parece um sonho febril, um estranho balé, encenado com muita noção de cinema.

Em 1949, Dore Schary, chefe de produção da MGM, acatou a idéia de um de seus produtores, Gottfried Reinhardt (um dos dois filhos de Max Reinhardt), de entregar a R. Siodmak a realização de O Grande Pecador / The Great Sinner, um “filme de prestígio” de orçamento vultoso, baseado em um grande clássico da literatura, “O Jogador”, de Fiodor Dostoievski.

Ava Gardner e Gregory Peck em O Grande Pecador

O filme é uma evocação hollywoodiana suntuosa do mundo do jogo e dos jogadores. Dirigindo-se a Paris, um escritor russo (Gregory Peck), encontra no trem uma mulher fascinante (Ava Gardner) e decide interromper sua viagem inicialmente prevista, a fim de não perdê-la de vista em Wiesbaden. Ali, ela reencontra seu pai, um general (Walter Huston), que uma paixão devoradora pelo jôgo o leva todas as noites ao cassino da cidade. O militar, quase arruinado, é por assim dizer obrigado a ceder a mão de sua filha para o diretor do cassino (Melvyn Douglas). Decidido a salvar a linda mulher dessa triste sina, o romancista tenta também sua chance no jôgo e fica rapidamente possuído por essa paixão infernal.

Gregory Peck, Ava Gardner e Melvyn Douglas em O Grande Pecador

Ava Gardner, Walter Huston, Ethel Barrymore e Gregory Peck em O Grande Pecador

Cena de O Grande Pecador

A adaptação não foi totalmente feliz – houve certa confusão durante a elaboração do roteiro, interferência por parte do produtor que ordenou cortes em sequências inteiras bem como a introdução de cenas suplementares feitas por outros diretores (provavelmente Jack Conway e / ou Mervyn LeRoy), e a imposição de um final feliz; porém, apesar dessas desvantagens, R. Siodmak conseguiu retratar muito bem a fauna de possuídos que assediam a roleta, destacando-se os momentos onde arriscam seus destinos nas apostas desesperadas. Sob este aspecto, a morte da velha senhora mãe do general (Ethel Barrymore), na mesa de jôgo, é um momento antológico.

Depois da MGM, R. Siodmak foi solicitado pela Paramount, onde o produtor Hal B. Wallis lhe ofereceu o projeto de A Confissão de Thelma / The File on Thelma Jordon / 1950, que seria o seu derradeiro filme noir.

Barbara Stanwick e Wendell Corey em A Confissão de Thelma

Thelma Jordon (Barbara Stanwick) entra na Delegacia de Polícia de Los Angeles, para dar parte de uma tentativa de furto. Cleve Marshall (Wendell Corey), assistente do promotor público (Barry Kelley) está ali diante do inspetor Scott (Paul Kelly) bebendo, para esquecer as mágoas conjugais. Depois que Scott sai, Cleve convida Thelma para um drinque e continuam saindo juntos às escondidas, enquanto sua esposa Pamela (Joan Tetzel) e o filho estão ausentes de férias em uma praia. Thelma diz a Cleve que vive separada do marido, Tony Laredo (Richard Rober) e mora com sua tia rica, Vera (Getrude Hoffman). Uma noite, Vera aparece morta. Thelma pede que Cleve venha imediatamente e o mordomo de Vera ouve por uma extensão a conversa entre os dois. Quando Cleve chega, Thelma revela que certa vez falou com Tony sobre um colar de esmeraldas caríssimo da tia, e receia que ele pode tê-la assassinado. Entretanto, as suspeitas recaem sobre ela, pois Tony tem um alibi indiscutível. Ao investigar o caso, Scott não consegue identificar o autor do misterioso telefonema, que foi apelidado de “Mr. X”, e que o mordomo viu deixando a cena do crime. Acreditando na inocência de Thelma, Cleve contrata anônimamente um advogado, Kingsley Willis (Stanley Ridges), e faz com que ele requeira a desqualificação do promotor público, para que ele, Cleve, possa assumir a tarefa de acusação. Cleve providencia um libelo propositadamente inepto, conseguindo absolver Thelma. Agora, herdeira de uma grande fortuna, ela volta a atrair o interesse de Tony, que nunca fôra seu marido, mas sim seu amante. Cleve faz uma visita final a Thelma durante a qual Tony obriga-a a admitir que eles enganaram Cleve e que ela matou a tia. Tony derruba Cleve e parte com Thelma. Ela se separa de Cleve, embora o ame e, desesperada, agride o amante enquanto este dirige o carro, que se precipita em uma ribanceira. No hospital, onde está agonizando, Thelma conta toda a verdade para Scott, porém se recusa a identificar “Mr. X”. Ela morre, e o promotor percebe que Cleve é “Mr. X”. Cleve se demite e pede a Scott, que ele informe Pamela de que ele a verá mais tarde.

Cena de A Confissão de Thelma

Cena de A Confissão de Thelma

O filme dispõe de todos os ingredientes para ser considerado um noir autêntico: mulher fatal destruindo a vida de um homem até então íntegro, corrupção, duplicidade de aparências, pessimismo, iluminação expressionista. Entretanto, Thelma é uma mulher fatal diferente. Ela subjuga o ingênuo Cleve, para assegurar o sucesso de um plano criminoso em proveito próprio e de um outro homem – mas se apaixona por sua vítima. Não é tão fria como Phyllis Dietrich, que a mesma Barbara Stanwyck interpretou em Pacto de Sangue / Double Indemnity / 1944. Age impulsivamente. Não é de todo má, “Passei a vida toda lutando entre o Bem e o Mal. Willis disse que eu era duas pessoas. Será que não podem deixar só uma parte de mim morrer? “, diz ela a Cleve no leito do hospital, pouco antes de expirar. O espetáculo sofre de alguma monotonia no trecho inicial, mas depois se desenvolve melhor, reconhecendo-se a força do estilo de R. Siodmak em algumas cenas, como por exemplo, o crime e depois o pânico da assassina e do seu protetor ante a aproximação do mordomo e o plano-sequência com a grua que segue Thelma da prisão ao tribunal através de uma multidão que a acompanha.

Os outros filmes americanos de R. Siodmak antes de retornar à Europa, foram: Deportado / Deported / 1950, O Direito de Viver / The Whistle at Eaton Falls / 1951 e O Pirata Sangrento / The Crimson Pirate / 1952.

Jeff Chandler e Marta Toren em Deportado

Rodado na Itália para Universal-International, Deportado, mostra como um gângster (Jeff Chandler) extraditado dos Estados Unidos para Nápoles, planeja uma maneira de trazer os cem mil dólares que roubara e nunca fôra recuperado pela polícia: ele manda a pessoa que está escondendo seu dinheiro, usá-lo para comprar alimentos e medicamentos e enviá-los para a aldeia onde fôra criado, a fim de que possa depois desviar a carga e revendê-la muito mais caro no mercado negro. Entrementes, ele se enamora de uma viúva aristocrática (Marta Toren) responsável pelo abastecimento local, que o apresenta como um benfeitor da cidade. Diante disso, muda de idéia e tem que enfrentar um ex-parceiro (Richard Rober), que quer a sua parte no roubo e os mafiosos locais.

Lloyd Bridges e Lenore Lonergan em O Direito de Viver

Dorothy Gish em O Direito de Viver

Rodado em New Hampshire para o produtor Louis de Rochemont (apoiado pela Columbia), O Direito de Viver, focaliza um conflito social entre operários e o patronato da costa leste. Um líder de sindicato (Lloyd Bridges) que a viúva de um industrial (Dorothy Gish) promoveu a presidente de uma pequena fábrica de plástico – única indústria em atividade em uma região duramente perturbada por greves – por força de um aumento dos custos de produção e das ferramentas arcaicas da firma, é obrigado a despedir operários temporariamente. Estes, excitados pelos sindicalistas à serviço da concorrência, ameaçam destruir as instalações da fábrica; porém após alguns confrontos entre trabalhadores leais à empresa e grevistas e a utilização de um processo de fabricação de plástico mais eficiente a paz social é reinstaurada.

Nick Cravat e Burt Lancaster em O Pirata Sangrento

Burt Lancaster e Eva Bartok em O Pirata  Sangrento

Rodada na sua maior parte em exteriores na Europa para a Hetch-Norma Pictures e distribuido pela Warner Bros., O Pirata Sangrento, conta as façanhas de um pirata do século XVIII (Burt Lancaster) no Mar das Caraíbas, que dá apoio a um revolucionário (Frederick Leicester), desafiando um tirano (Leslie Bradley) a serviço do Rei da Espanha, sempre acompanhado nessa aventura por um companheiro fiel (Nick Cravat); no decorrer dos acontecimentos, surgem um inventor bizarro (James Hayter) e a filha do chefe rebelde (Eva Bartok), por quem o intrépido pirata se apaixona.

Burt e Cravat em O Pirata Sangrento

Dos três filmes citados, apenas este último merece destaque pelo bom-humor, eloquência das situações absurdas (acompanhadas de invenções anacrônicas) e capacidade atlética e vitalidade dos dois artistas-acrobatas (Lancaster e Cravat), que conferem um sabor todo especial ao espetáculo.

O derradeiro período da carreira de R. Siodmak, compreende: A Grande Paixão / Le Grand Jeu / 1954, refilmagem do filme de Jacques Feyder; Quando o Amor é Pecado / Die Ratten / 1955; Mein Vater der Schauspieler / 1956; O Diabo Ataca à Noite / Nachts, wenn der Teufel kam / 1957; Dorothea Angermann / 1959; Retrato de uma Pecadora / The Rough and the Smooth (EUA) ou Portrait of a Sinner / 1959 (Inglaterra); Katia / Katia / 1959; Mein Schulfreund / 1960; O Advogado do Diabo / L’Affaire Nina B / 1961; Tunel 28 ou Escape from East Berlin / 1962; Der Schut / 1964; Der Schatz der Azteken Die Pyramide des Sonnengottes / 1964 – 1965; Os Bravos Não se Rendem / Custer of the West / 1967; O Último Romano / Kampf um Roma I – II (Der Verrat) / 1968 -1969.

Em A Grande Paixão / França – Itália, um jovem e brilhante advogado (Jean- Claude Pascal) que, por amor a uma amante indígna (Gina Lollobrigida) cometeu um desfalque, deixa a França, e aguarda em vão na Argélia, que ela se junte a ele. Desonrado e sem dinheiro, alista-se na Legião Estrangeira e encontra uma prostituta (Gina Lollobrigida), muito parecida com a sua amante na taberna de propriedade de uma cartomante (Arletty), que ele e mais dois companheiros frequentam. Lendo as cartas, a cartomante prevê a morte de seus dois companheiros, um (Raymond Pellegrin) morto por ele acidentalmente e o outro (Peter Van Eyck) durante uma patrulha. Desmobilizado, o rapaz decide voltar para a França na companhia da sósia de sua amante, que o ama sinceramente. Entretanto, depara-se com a antiga companheira, que o rejeita mais uma vez. Desesperado, ele deixa a sósia partir sozinha, e se reengaja. Antes de se unir à sua unidade, a cartomante faz uma “grande cartada”, na qual aparece o signo da morte. Ele parte voluntariamente em direção ao seu destino fatal.

Heildemarie Hatheyer e Maria Shell em Quando o Amor é Pecado

Em Quando o Amor é Pecado / República Federal Alemã, uma mulher estéril (Heildemarie Hatheyer), dona de uma lavanderia, com medo perder o marido, que deseja muito ter um filho, o faz acreditar que está grávida. O acaso vem em seu socorro na pessoa de uma jovem polonêsa (Maria Shell) sem dinheiro e sem visto de permanência no país, que está à procura de seu amante que sumira na República Federal da Alemanha e do qual espera um filho. A criança nasce e as duas mulheres concordam que a estéril manterá o recém-nascido como seu filho. Depois, a jovem se arrepende e, pensando que é o seu, rapta o filho doente de uma vizinha, que morre em seus braços. Apavorada pelo rumo dos acontecimentos, a “mãe estéril” intima seu irmão (Curd Jürgens) a dar um jeito para que a jovem “desapareça” de Berlim. O crápula tenta em vão convencer a moça a deixar a cidade e finalmente tenta estrangulá-la; porém durante a luta que se segue, ela consegue se desvencilhar dele e o mata, usando uma pedra como arma. A mãe solteira finalmente recupera seu filho e o marido da mulher estéril consola sua esposa.

Em Mein Vater, der Schauspieler (Meu Pai era Ator) / República Federal Alemã, uma atriz célebre (Hilde Krahl) casa-se com um novato e mais jovem que ela (O. W. Fischer): eles formam um par ideal, festejado pela imprensa, e dividem o cartaz durante alguns anos até o dia em que a atriz tem que ceder seus papéis para uma concorrente mais jovem. Amargurada e enciumada com o sucesso crescente do marido, ela abandona o domicílio conjugal e morre em um acidente na estrada. Inconsolável, seu esposo se entrega à bebida, arruina sua carreira, e acaba tentando o suicídio; mas é o seu jovem filho, até então sacrificado pela ambição dos pais, que salva sua vida, alertando os vizinhos.

Claus Holm e Hannes Messemer em O Diabo Ataca à Noite

Em O Diabo Ataca à Noite / República Federal Alemã, uma série de mortes sádicas permanecem inexplicáveis. Auxiliado por sua secretária (Annemarie Düringer), um comissário (Claus Holm) conduz a investigação. Ele não acredita na culpabilidade de um suspeito que todos os indícios acusam. Sua teoria é defendida pelo chefe da SS (Hannes Messemer) que, por ambição, quer uma solução espetacular, que permita reforçar a repressão. Por ordem de Hitler, as oitenta e duas mortes cometidas devem permanecer secretas. Desmascarado pelo comissário, o verdadeiro assassino (Mario Adorf) não vai a julgamento, porque é nazista e ariano puro. Apesar dos esforços do comissário, o inocente é condenado à morte (e depois libertado e abatido por “tentativa de fuga) e ele, como castigo, enviado para a frente russa enquanto o assassino é liquidado secretamente pela SS.

Ruth Leuwerik e Bert Sotlar em Dorohtea Angermann

Em Dorothea Angermann / Suiça, uma jovem (Ruth Leuwerik), filha de um pastor hipócrita e intolerante (Alfred Shieske), vagueia por uma discoteca, chama um guarda e se acusa da morte do marido. No tribunal, o pastor renega publicamente sua filha, apoiando-se em versículos bíblicos. Ela não reage, e descreve em retrospecto uma existência sem alegria, passada entre a cozinha e o presbitério. Obrigada a casar com sujeito brutal (Kurt Meisel), a jovem resiste, mas ele a estupra, e ela dá a luz uma criança natimorta. A moça então se entrega à bebida enquanto o marido, vilipendiando o dote do pastor, organiza orgias a domicílio. Quando decide ir para Hamburgo com seu antigo noivo – um engenheiro (Bert Sotlar), o marido, ferido no seu orgulho masculino, ameaça-a com uma faca. Ela atira um vaso no crânio dele, matando-o involuntariamente. No julgamento, uma testemunha inesperada inocenta a jovem mulher, que encontra o noivo na saída da côrte de justiça. Seu pai se aproxima dela e lhe pede perdão.

Em Retrato de uma Pecadora / Grã Bretanha, um jovem arqueólogo (Tony Britton) da alta sociedade londrina prestes a partir em expedição ao Oriente Próximo, rompe seu noivado com uma herdeira riquíssima, para seguir uma desconhecida loura e lasciva (Nadja Tiller), que encontrara na rua. Ele descobre que esta criatura é ao mesmo tempo relacionada com um rufião traficante de heroína e com seu antigo patrão (William Bendix), um dono da boate arruinado, que acaba por se suicidar. Todos os esforços do arqueólogo para tirá-la desse meio são inúteis. Desiludido, amadurecido e desprovido de suas economias, o rapaz volta aos braços puros da noiva, deixando seu “anjo perverso” sossobrar na prostituição.

Curd Jürgens e Romy Schneider em Katia

Em Katia / França , na Rússia de 1861 a 1881, ao visitar o Instituto Smolny, o Tzar Alexandre II (Curd Jürgens) conhece a jovem Katia, (Romy Schneider), loucamente apaixonada por ele. Quando o monarca percebe que a ama, julgando este amor impossível, ele a envia a Paris. Alguns anos mais tarde, em visita oficial na capital francêsa, o Tsar revê Katia. Não podendo mais viver sem ela, ele a faz retornar a São Petersburgo e decide esposá-la quando a Imperatriz more. Porém, ferido em um atentado, ele morre nos braços de sua bem-amada.

Em Mein Schulfreund (Meu Colega de Classe) / República Federal Alemã, um funcionário do Correio (Heinz Ruhmann) exerce escrupulosamente o seu trabalho, mas os horrores da guerra o incomodam, e ele resolve escrever uma carta para seu antigo colega de classe Herman Goering (que sempre colava dele nas provas), na qual implora que o poderoso Reichsmarschall use de toda a sua influência para fazer cessar a carnificina nazista. A missiva é interceptada pela Gestapo e o modesto funcionário torna-se um preso político, passível de sofrer a pena de morte. Avisado sobre o incidente, Goering poupa a vida de seu antigo condiscípulo, fazendo com que ele seja declarado um doente mental irresponsável. O problema é que, após o fim da guerra, o funcionário não pode ser reintegrado ao seu trabalho por causa de sua condição de demente. Aí começa sua odisséia tragicômica para contactar as pessoas que poderiam atestar sua sanidade – porém elas estão mortas, presas ou se recusam a testemunhar por medo de atrair a atenção da imprensa sobre seu pasado. Finalmente, seu advogado o aconselha a cometer um delito punível que levará a um novo exame psiquiátrico. A manobra é bem sucedida e o funcionário, condenado com sursis, recebe enfim a consideração e as indenizações a que tem direito.i

Em O Advogado do Diabo / França, Nina B (Nadja Tiller), no enterro do Senhor B (Pierre Brasseur), um ex-condenado, chofer (Walter Giller) e homem de confiança do falecido, introduz a narração através de um retrospecto. Ele relata o suicídio frustrado de Nina B (Nadja Tiller), esposa-objeto do defunto, um poderoso financista da Alemanha após-guerra. O Senhor B dispõe de documentos que comprovam a participação de seus rivais em crimes de guerra e pretende usá-los contra eles. Seus inimigos fazem com que ele seja preso sob pretexto de fraude fiscal e o chofer fica com a pasta contendo os documentos comprometedores sendo exposto aos ataques dos antigos nazistas. Nina torna-se amante do chofer e tenta manobrá-lo para seus próprios fins. Libertado por seu advogado, o Senhor B utiliza as provas em seu poder para obter a capitulação de seus concorrentes, mas seu próprio advogado o trai, e ele, às vésperas de ser novamente preso, tem um enfarte do miocárdio. Ou foi o efeito do veronal que sua esposa teria substituído aos remédios que o marido tomava contra ataques cardíacos? Ninguém saberá.

Christine Kauffman e Don Murray em Tunel 128

Em Tunel 28 / USA – República Federal Alemã, o motorista (Don Murray) de um major da Alemanha Ocidental vê um amigo ser morto, ao tentar atravessar o Muro de Berlim com seu caminhão. Ele é persuadido pela irmã (Christine Kauffman) do falecido, a planejar uma fuga para a Alemanha Ocidental. Com a ajuda de um grupo de pessoas, o rapaz cava um túnel por debaixo do Muro, por onde eles escaparão do jugo comunista. Seus esforços para evitar a suspeita dos guardas da Alemanha Oriental, seu medo de uma traição por parte de vizinhos e a exaustão são apenas algumas das dificuldades encaradas pelos fugitivos.

Lex Barker em Der Schut

Em Der Schut / República Federal Alemã – Itália – França – Iugoslávia, por volta de 1870, na Albânia, um bandido apelidado de “o diabo amarelo”, que se disfarça em um rico mercador de tapetes (Rik Battaglia), espolia os viajantes nas montanhas controladas teoricamente pela administração otomana. Acompanhado de um fiel servidor (Ralf Wolter) e de um aristocrata inglês (Dieter Borsche), o intrépido teutônico “Kara Ben Nemsi”(Lex Barker) parte em busca de um amigo francês sequestrado pelo bandido. Seguem-se cavalgadas, emboscadas, traições noturnas, aldeias incendiadas, orelhas cortadas, etc. até o momento em que a polícia turca, alertada por uma bela cativa (Marie Versini) cerca o refúgio do vilão, que acaba no fundo de um precipício.

Em Der Schatz der Azteken / República Federal Alemã – França – Itália – Iugoslávia, na época da Guerra Civil Americana, um médico alemão (Lex Barker), enviado secreto de Juarez (Fausto Tozzi) junto a Lincoln (Jeff Corey), a fim de obter apoio financeiro na sua luta contra Maximiliano, instalado como imperador do México pelo govêrno francês – no curso de várias aventuras que envolvem seu assistente, um cowboy americano (Kelo Henderson); um capitão traiçoeiro de Juarez (Rik Battaglia); um rico proprietário rural simpático à causa revolucionária (Friedrich von Ledebur) e seu filho pródigo (Gérard Barray); um fabricante de relógios (Ralf Wolter); e uma princesa Azteca (Theresa Lorca) – descobre, nas galerias de uma pirâmide, onde se refugiam os antigos descendentes dos aztecas, o tesouro legendário outrora cobiçado por Cortez.

Robert Shaw em Os Bravos Não se Rendem

Em Os Bravos Não se Rendem / Estados Unidos (rodado na Espanha), após uma brilhante carreira na Guerra Civil, o jovem General George Armstrong Custer (Robert Shaw) vai para o Oeste, acompanhado de sua esposa (Mary Ure), assumir o comando do 7º Regimento de Cavalaria. Ao reprimir os índios que estão se rebelando contra a política do govêrno de reservas territoriais, ele entra em conflito com dois oficiais (Jeffrey Hunter, Ty Hardin), que são simpatizantes da causa indígena, e aperta a disciplina entre seus homens. Mais tarde, Custer recebe uma visita surprêsa do General Sheridan (Lawrence Tierney), que lhe ordena um ataque a uma aldeia cheyenne, para acalmar os políticos de Washington. Custer cumpre a ordem, mas suas tropas massacram de uma maneira selvage mulheres e crianças. Embora ele se recuse a uma aproximação conciliatória com o Chefe Dull Knife (Kieron Moore), Custer conclui que a receptividade do govêrno a interesses privados deve ser controlada, a fim de que a paz seja garantida. Uma patrulha de Custer deserta depois que é descoberto ouro na reserva e ele é obrigado a executar o líder dos desertores (Robert Ryan). Em seguida a uma emboscada dos índios contra uma nova linha férrea que atravessa suas terras, Custer é chamado a Washington. Ele denuncia políticos da administração do presidente Grant, que foram subornados para atuar como porta-vozes da estrada de ferro e de mineradores e, em consequência, é dispensado do seu comando. Ele fica desolado ao saber que seus homens vão marchar contra os índios sem ele. Entretanto, através da diplomacia de sua esposa, Custer recebe permisão para retornar ao Dakota e liderar seus soldados na batalha. Em Little Big Horn suas tropas são dizimadas pelos índios e Custer é o último a morrer.

Orson Welles e Sylva Koscina em O Último Romano

Em O Último Romano / República Federal Alemã – Itália – Rumênia, na corte de Ravenna, capital do efêmero império ostrogodo, o pérfido Cethegus (Laurence Harvey), o “último dos romanos”, encorajado pelo imperador de Bizâncio Justiniano (Orson Welles) e sua esposa Theodora (Sylva Koscina), semeia a discórdia entre as duas filhas do falecido rei Teodorico (Honor Blackman, Harriet Anderson), esperando assim livrar a Itália dos bárbaros. Depois que a côrte de Ravenna foi dividida e enfraquecida pelas intrigas, a cidade de Roma é ocupada à força pelo exército bizantino e depois assediada sem sucesso pelos ostrogodos. A história termina com os protagonistas sendo assassinados, envenenados ou cortados em pedaços em uma das quatro grandes batalhas – quando não se suicidam simplesmente (como Cethegus). Os ostrogodos sobreviventes levam os corpos de seus chefes e se estabelecem, com a ajuda da frota viking, na ilha de Gotland no mar Báltico.

A mudança de ares infelizmente não favoreceu ao cineasta. Como se vê pelos resumos dessas suas quatorze últimas realizações, alguns argumentos eram até bem interessantes e poderiam ter ocasionado bons filmes, porém ele, por cansaço ou apatia, submeteu-os a uma direção pesada, resultando espetáculos monótonos e medíocres, sem nenhum vestígio da plenitude artística, atingida na fase americana de sua carreira. Siodmak nunca esteve no mesmo plano de criadores da sétima arte como Fritz Lang ou Alfred Hitchcock, pois era somente um artesão de muita competência, mas deixou obras marcantes na cinematografia além dos tão elogiados filmes noirs, causando espanto o final melancólico, para não dizer trágico, do seu percurso cinematográfico.

ROBERT SIODMAK E SEUS FILMES NOIRS II

February 17, 2017

Joan Harrison estudou em Oxford e na Sorbonne. Após um início de carreira no jornalismo, foi durante muito tempo secretária particular de Alfred Hitchcock e ascendeu finalmente à posição de roteirista na véspera da ida de “Hitch” para os Estados Unidos. Ela colaborou assim nos roteiros de Estalagem Maldita / Jamaica Inn / 1939, Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca / 1940, Correspondente Estrangeiro / Foreign Correspondent / 1940, Suspeita / Suspicion / 1941 e – nos estúdios da Universal em 1942 – em Sabotador / Saboteur. Em 1943, separou-se de Hitchcock, para se tornar produtora independente e, enquanto estava em negociação com a Universal para ser produtora associada ao estúdio, conheceu R. Siodmak, nascendo daí a primeira colaboração entre os dois. Joan acabara de adquirir os direitos de “Phantom Lady”, romance policial de Cornell Woolrich, o escritor que, juntamente com Dashiel Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain, inspirou alguns dos melhores filmes noirs do período clássico, e a história de Woolrich, caiu nas mãos do diretor.

Robert Siodmak, Joan Harrison, Ella Raines e Franchot Tone

A Dama Fantasma / Phantom Lady / 1943 começa por um primeiro plano de Ann Terry, a “dama fantasma” (Fay Helm), de costas para a objetiva, com um daqueles chapéus extravagantes que faziam furor nos anos 40. O cenário é um bar subterrâneo em Nova York. Entra Scott Henderson (Alan Curtis), um jovem engenheiro, que acabou de ter uma discussão com a esposa e convida a desconhecida para ir ao teatro de revista com ele, mostrando-lhe dois tíquetes. Ela aceita com uma condição: nada de nomes, nem endereços. Scott leva-a ao musical, cuja estrela é uma cantora latino-americana (Aurora Miranda) e depois a reconduz ao bar, para nunca mais vê-la. Quando Scott acende a luz ao chegar em casa, vê-se diante de três policiais; sua mulher foi estrangulada com uma gravata. Todas as supeitas recaem sobre ele: somente a desconhecida, seu único álibi, poderia inocentá-lo – mas como encontrá-la? Estranhamente as testemunhas negam a existência da tal mulher e Scott é condenado. Sua secretária, Carol “Kansas” Richman (Ella Raines), secretamente enamorada do patrão, procura descobrir o verdadeiro culpado com o auxílio do inspector Burgess (Thomaz Gomez), também convencido da inocência do engenheiro. Ao visitar Scott na prisão, Kansas conhece um de seus amigos, o artista plástico Jack Marlowe (Franchot Tone) que se oferece para ajudá-la a encontrar a “dama misteriosa”. Eles conseguem localizar Ann Terry; mas esta não poderá depor no tribunal, porque a morte súbita do noivo perturbou-lhe o juízo; todavia, o chapéu é uma prova suficiente para a defesa de Scott. Para festejar a vitória e esperar Burgess, vão para o apartamento de Marlowe, onde Kansas vê sua bolsa roubada e percebe que ele é o assassino. Marlowe confessa que matou a mulher de Scott, porque ela zombara dele. No momento em que vai estrangular Kansas, Burgess chega e o criminoso se atira pela janela.

Fay Helm e Alan Curtis em A Dama Fantasma

Aurora Miranda em A Dama Fantasma

Cena de A Dama Fantasma

O enredo contém elementos essenciais para um filme noir: o inocente enroscado pelas teias do destino; o ambiente noturno com os detalhes de sombras ameaçadoras; o criminoso paranóico; e, de certa forma, a presença de uma mulher fatal (que é ao mesmo tempo a investigadora), pelo menos durante algum tempo da ação. Na sua busca para salvar o patrão da cadeira elétrica, Kansas, usando seus encantos, persegue o garçom (Andrew Tombes, Jr.) e o baterista Cliff Milburn (Elisha Cook, Jr.), e causa a morte dos dois. Entretanto, nos derradeiros instantes da narrativa, volta a ser a fêmea indefesa, sujeita às forças patriarcais: Marlowe, o assassino, que a ameaça; Burgess, o policial que a protege paternalmente; e Scott, o patrão que vai se casar com ela, recolocando-a no papel passivo e convencional de secretária e esposa.

Cena de A Dama Fantasma

Cena de A Dama Fantasma

O engenheiro assassino “normal”do livro foi transformado em um personagem estereotipado: o artista louco, com mania de grandeza, dores de cabeça, tontura, tique nervoso no olho direito e atelier decorado com esculturas estranhas. Há um momento em que, sentado em uma cadeira, recita um monólogo sobre as mãos e depois se levanta para estrangular o baterista. Neste momento, o seu corpo encobre aos poucos o da vítima e toma conta de toda a tela.

Thomaz Gomes, Ella Raines e Franchot Tone em A Dama Fantasma

Franchot Tone e Ella Raines em A Dama Fantasma

Franhcot Tone em A Dama Fantasma

O filme é, sobretudo, um admirável exercício de estilo. Com seu especial temperamento germânico e ajuda do fotógrafo Ellwood “Woody” Bredell, R. Siodmak recriou o universo de Woolrich quase que inteiramente através de uma direção dinâmica e inventiva. Para se ter uma idéia da mise-en-scène, no momento em que a heroína segue o garçom suspeito pelas ruas escuras e molhadas pela chuva até a estação elevada do metrô, ouve-se somente o ruído dos saltos dos sapatos de ambos. Na plataforma deserta, ele se coloca atrás dela, dando a impressão de que vai empurrá-la para a linha férrea mas, subitamente, aparece uma mulher negra e irrompe o som do trem que está chegando. A perseguição continua silenciosa pelas ruas e quando finalmente Kansas se aproxima do homem para interrogá-lo, ele se volta contra ela raivoso. Alguns transeuntes oferecem-se para defendê-la, seguram o fugitivo, porém ele se esquiva e sai bruscamente de cena. Rangido de freios, gritos e um chapéu rola para o bueiro. Ou seja, os sentimentos de perigo e de tensão são transmitidos para a platéia exclusivamente através do som, luz, montagem e movimentos de câmera – puro cinema.

Ella Raines e Thomaz Gomes em A Dama Fantasma

Ella Raines e Elisha Cook Jr. em A Dama fantasm

Ella Raines em A Dama Fantasma

Elisha Cook Jr. em A Dama Fantasma

Entretanto, a sequência antolológica é a do encontro de Kansas com o baterista. Sentada na primeira fila do teatro, com um vestido de cetim preto e mascando chicletes, ela flerta com o músico. Depois, os dois vão a uma sessão de swing noturna. Para ilustrar a música ensurdecedora, a câmera mostra Kansas maquilando-se diante de um espelho que balança. O clima é de delírio, com os músicos tocando ao lado de muitas garrafas de cerveja. Diante de Kansas sensual e provocante, Cliff executa um solo de bateria frenético, arrebatado até o limite do orgasmo; nestas cenas a angulação, a montagem e a iluminação traduzem tudo visualmente.

Quando Joan Harrison se associou temporariamente à United Artists, R. Siodmak recebeu como encargo da Universal a direção de Férias de Natal / Christmas Holiday / 1944, melodrama reunindo dois astros comumente ligados ao filme musical, Deanna Durbin e Gene Kelly, escolhidos para papéis atípicos. No enredo, baseado em um romance de W. Somerset Maugham (bastante modificado pelo roteirista Herman Mankiewicz), um militar (Dean Harens) recebe carta de sua noiva, dizendo que se casou com outro. Na noite de Natal, seu avião pousa em New Orleans devido a uma tempestade, e o rapaz, muito deprimido, conhece um repórter (Richard Whorf), que o convida para o bordel clandestino de     Mme. Valerie (Gladys George), onde ele encontra uma cantora (Deanna Durbin). Depois de terminar seu número, ela convida o militar para acompanhá-la até uma igreja e alí, cai em prantos. Ele a leva para jantar e ouve sua história. Retrospectos revelam que a jovem foi feliz durante algum tempo do seu casamento até que descobriu que seu marido (Gene Kelly), um jogador inveterado, matara o seu bookmaker para roubá-lo, tendo sido condenado à prisão perpétua. Ela diz a seu ouvinte que se degradou voluntariamente. Por ciúme, o marido foge da prisão, com a intenção de matar sua esposa, que, mesmo sabendo disso, o aguarda ainda com uma devoção cega. Ele está prestes a cometer o ato criminoso, quando é abatido pela polícia

Deam Harens, Richard Whorf e Gladys George em Férias de Natal

Deanna Durbin em Férias de Natal

Gene Kelly e Deanna Durbin em Férias de Natal

Gale Sondegaard, Gene Kelly e Deanna Durbin em Férias de Natal

A filmagem de Férias de Natal foi caótica. Deanna Durbin, brigava violentamente com o produtor Felix Jackson, seu marido e com o diretor, que ela odiava. R. Siodmak procurou em vão ”desglamourizar” a atriz, porém Deanna se obstinou em permanecer ela mesma, recusou maquilagem e vestidos demasiadamente “aviltantes” e acabou por dirigir uma parte de suas próprias cenas sózinha. R. Siodmak só retomou o filme na fase de montagem, para salvar o que era possível salvar. Graças ao seu domínio completo da linguagem cinematográfica, ele tornou o filme razoavelmente atraente, deixando sua marca estilística no conjunto do espetáculo.

As quatro próximas realizações de R. Siodmak, as duas primeiras para a Universal (Dúvida / The Suspect / 1944; Caprichos do Destino / The Strange Affair of Uncle Harry / 1945); a terceira para a RKO (Silêncio nas Trevas / Spiral Staircase / 1945); e a quarta para a Universal-International (Espelho d’Alma / Dark Mirror / 1946) foram dramas de suspense e de mistério, com os quais R. Siodmak alcançou definitivamente uma posição de destaque entre os diretores de cinema de Hollywood.

Robert Siodmak, Charles Laughton e Ella Raines na filmagem de Dúvida

Ella Raines e Charles Laughton em Dúvida

Henry Daniell e Charles Laughton em Dúvida

Robert Siodmak dirige Ella Raines e Charles Laughton na filmagem de Dúvida

Em Dúvida, um homem íntegro (Charles Laughton), gerente sexagenário de uma tabacaria em um subúrbio de Londres no comêço do século, é levado ao assassinato de sua esposa rabugenta e vingativa (Rosalind Ivan), quando se apaixona por uma jovem datilógrafa (Ella Raines). Ele é assediado por um detetive da Scotland Yard (Stanley Ridges) e um vizinho chantagista (Henry Daniell), o qual acaba matando. O detetive arma um plano para fazer com que o gerente confesse seus crimes;

Robert Siodmak, Ella Raines e George Sanders

Ella Raines e George Sanders em Caprichos do Destino

Geraldine Fitzgerald e Ella Raines em Caprichos do Destino

Geraldine Fitzgerald, Robert Siodmak e George Sanders em Caprichos do Destino

em Caprichos dos Destino, um desenhista solteirão (George Sanders) de uma cidade provinciana de New Hampshire, vive na companhia de suas duas irmãs. Uma, (Moyna MacGill), é viúva e dominada pela outra (Geraldine Fitzgerald), mais jovem e bela, que tem uma paixão incestuosa pelo irmão, A vida deles é perturbada quando o irmão se apaixona por uma jovem (Ella Raines) que trabalha com ele em uma fábrica de tecidos. A irmã viúva acolhe a jovem com resignação, mas a outra, faz tudo para destruir a felicidade de seu irmão. Este finalmente tenta envenenar a irmã dominadora, mas o destino intervém, e o final do filme reserva uma surpresa para os espectadores;

Cena de Silêncio nas Trevas

Dorothy McGuire em Silêncio nas Trevas

Dorothy McGuire, George Brent, Rhonda Fleming e Gordon Oliver em Silêncio nas Trevas

Robert Siodmak e Dorothy McGuire na filmagem de Silêncio das Trevas

em Silêncio nas Trevas, na mansão habitada por uma velha senhora viúva e cardíaca, que vive presa ao leito (Ethel Barrymore), seu filho (Gordon Oliver), jovem cínico e volúvel, seu enteado (George Brent), um professor de química, a amante do primeiro e secretária do segundo (Rhonda Fleming), o jardineiro (Rhys Williams) e sua esposa alcoólatra (Elsa Lanchester), a jovem muda (Dorothy MacGuire), que cuida da idosa, é advertida por sua patroa de que deve deixar a casa o mais breve possível, pois um psicopata que mata jovens com alguma enfermidade está agindo nas imediações. A moça aguarda a chegada de um médico (Kent Smith) que, apaixonado por ela, se dispusera a levá-la embora dali. Enquanto ele não chega, ela é atacada pelo homicida, que vem a ser o enteado da velha senhora. Ele vai estrangular a jovem muda, perto de uma escada em espiral, quando sua madrasta o abate a tiros. O choque deste momento faz com que a moça recupere a fala;

Olivia de Havilland, Robert Siodmak e Lew Ayres em Espelho d’Alma

Olivia de Havilland em Espelho d’Alma

Cena de Espelho d’Alma

Lew Ayres, Olivia de Havilland e Robert Siodmak na filmagem de Espelho d’Alma

em Espelho d’Alma, uma mulher suspeita de matar um médico seu namorado, tem uma irmã gêmea idêntica. Quando ambas as gêmeas (Olivia de Havilland) oferecem um álibi para a noite do crime, um psiquiatra (Lew Ayres) é convocado para ajudar um policial (Thomas Mitchell) a solucionar o caso. Através de uma série de testes, o psiquiatra descobre, que uma delas é demente e, no decorrer de sua investigação, apaixona-se pela gêmea inocente. Graças a um estratagema muito bem calculado pelo psiquiatra e pelo policial, a verdadeira culpada se desmascara.

Em todos esses filmes, R. Siodmak demonstrou a sua capacidade de narrar uma história de maneira essencialmente cinematográfica, o seu gôsto pela criação de uma atmosfera inquietante ou sombria em espaços fechados e o seu domínio absoluto dos movimentos de câmera e da iluminação, pois ele era um dos raros diretores que conhecia também os aspectos técnicos de sua profissão a fundo. Sua aptidão fílmica consagrou-o internacionalmente, quando o cineasta realizou o seu segundo filme noir, Assassinos / The Killers / 1946, produzido por Mark Hellinger para a Universal.

Burt Lancaste,r o produtor Mark Hellinger e Robert Siodmak

O preceito de Assassinos é o de que a ambição pelo dinheiro leva à corrupção e à morte. Uma dupla de assassinos de aluguel, Max (William Conrad) e Al (Charles McGraw) chegam à pequena cidade de Brentwood, New Jersey, à procura de Ole Anderson. Conhecido como sueco (Burt Lancaster), ele trabalha em um posto de gasolina. Eles o encontram aguardando-os silenciosamente em um quarto escuro; e não oferece resistência. Ao saber das circunstâncias em que o crime foi cometido, Jim Riordan (Edmond O’Brien), investigador da companhia de seguros responsável pelo pagamento da indenização à beneficiária do falecido – a arrumadeira de um hotel onde o Sueco havia se escondido usando nome falso -, quer descobrir porque a vítima deixou-se matar mansamente pelos dois facínoras.

Edmond O’Brien e Sam Levene em Assassinos

Albert Dekker e Vince Barnett em Assassinos

Sua investigação leva-o ao encontro de várias pessoas que conhecem o passado do Sueco: o detetive Sam Lubinsky (Sam Levene), sua esposa Lilly (Virginia Gilmore) e Charleston (Vince Barnett), um ex-presidiário. Através desses depoimentos, fica sabendo que o Sueco foi obrigado a encerrar a carreira de pugilista por ter quebrado a mão em uma luta e, incitado por uma bela mulher, Kitty Collins (Ava Gardner), se uniu a um bando de ladrões liderados pelo amante dela, Big Jim Colfax (Albert Dekker). Riordan localiza os outros components da quadrilha, Blanky (Jeff Corey) e Dum Dum (Jack Lambert) e, finalmente, chega Colfax e Kitty, desvendando todo o mistério: como Kitty fez o Sueco passar por traidor do grupo após um assalto, enquanto ela e o amante fugiram com o dinheiro roubado, e como, anos depois, Kity e Colfax contrataram dois pistoleiros para matar o Sueco por medida de segurança.

Desenvolvendo o conto de Ernest Hemingway, o filme procura decifrar o enigma da resignação existencial do Sueco, como ele perdeu a vontade de viver. Por intermédio de onze retrospectos acronológicos e com uma obsessão pessoal que excede os interessses da companhia de seguros, Riordan vai descobrindo porque aquele homem abraçou a morte com indifrença. O testemunho das pessoas que o conheceram no passado se completam uns aos outros e o obstinado investigador vai reconstituindo , como um mosaico, o seu destino trágico.

Cena inicial de Assassinos

Charles McGraw e William Conrad em Assassinos

O prólogo – que corresponde exatamente ao conto – é conduzido com admirável precisão cinematográfica, em um clima sombrio e de violência fria criado pela interpretação seca dos atores que forma a dupla de assassinos, pelos diálogos curtos e diretos e pela iluminação claro-escuro (Elwood Bredell) combinada com a profundidade de campo, angulações em câmera alta e baixa e um fundo musical (Miklos Rosza) de alta tensão. Deitado na cama do quarto escuro, o condenado aguenta impassível a chegada dos assassinos. Até que ouve o barulho de passos na escada e percebe um raio de luz infiltrando-se por debaixo da porta. Após alguns segundos de silêncio, a porta se abre brutalmente iluminando o rosto angustiado do Sueco e os dois algozes descarregam suas armas sobre ele.

Burt Lancaster em Assassinos

No primeiro retrospecto, Nick conta a Riordan que, uma semana atrás, o Sueco reconheceu um cliente em um cadillac negro. Depois, disse que estava doente e não voltou mais ao trabalho. No segundo, Riordan procura a beneficiária do seguro, Mary Ellen Daugherty, em Atlantic City e ela lhe revela que, uma tarde, ouviu o Sueco gritando : “Ela foi embora! Ela foi embora!. Charleston tinha razão!”. Mary entrou no quarto onde ele, como um louco, estava quebrando os móveis e o impediu de se atirar pela janela. Em Filadéflia, o detetive Lubinsky explica para Riordan porque o sueco abandonou sua carreira promissora de boxeador – terceiro retrospecto – depois de levar uma surra do adversário por ter quebrado todos os ossos de sua mão direita.

Burt Lancaster e Robert Sidomak na filmagem

Cena de Assassinos

A esposa de Lubinsky, Lilly, antiga namorada do Sueco, revela, em um quarto retrospecto, o encontro fatal do ex-pugilista com Kitty em uma festa no luxuoso apartamento de seu amante. Quando o Sueco entra, Kitty está apoiada no piano com um copo na mão; o vestido longo de cetim preto, os ombros cobertos por sua cabeleira negra, as luvas pretas cobrindo seus antebraços, toda a sua aparência de um erotismo refinado, é a própria imagem da sedução. Enquanto ela canta “The More I Know of Love”, uma lâmpada em forma de vela (espécie de símbolo fálico inflamado), os separa, criando uma composição visual muito evocativa da paixão devastadora que arrastará o Sueco para a morte.

Em um quinto retrospecto, Lubinsky lembra um dos últimos encontros com o Sueco em um restaurante, quando ele se preparava para prender Kitty, suspeita de ter roubado uma jóia de grande valor. Aí aparece o Sueco, assume a culpa de Kitty e Lubinsky é obrigado a prendê-lo. No enterro do Sueco, comparece seu antigo companheiro de cela, Charleston, e vem o sexto retrospecto, um tanto lírico. Charleston dá uma lição de astronomia para o Sueco, mostrando as estrelas que ele observa através das grades enquanto seu companheiro, tendo a mão o lenço de Kitty com desenhos de harpas, recorda-se de sua amada. No decorrer do sétimo retrospecto, Charleston descreve a reunião para preparar o assalto. O Sueco concorda em participar. Charleston se retira e o aconselha a não “ouvir o som das harpas”.

Ava Gardner e Burt Lancaster em Assassinos

Virginia Gillmore, Burt Lancaster e Ava Gardner em Assssinosa

Jeff Corey,Burt Lancaster, Ava Gardner, Albert Dekker em Assassinos

Riordan prossegue sua investigação na biblioteca municipal, onde examina velhos jornais. Durante a leitura do material, aparecem – oitavo retrospecto – as peripécias do audacioso assalto a uma fábrica de chapéus de New Jersey. Para acentuar o caráter jornalístico desta sequência, Siodmak filmou-a sem cortes, em um só movimento de grua apanhando em câmera alta os mínimos detalhes do roubo.

O nono e o décimo restrospecto dizem respeito às lembranças de Blanky, que Riordan encontra moribundo em um hospital. No seu delirio, Blanky se reporta a uma desavença entre o Sueco e Colfax durante um jôgo de pôquer e à partilha do roubo, quando o Sueco rende todo o bando e foge com o dinheiro. Riordan compreende que Blanky foi morto por um outro membro da quadrilha, Dum Dum, e o surpreende no quarto do Sueco em Brentwood.

Edmond O’Brien em Assassinos

Jack Lambert em Assassinos

Graças às informações de Dum Dum, localiza Colfax, que se tornou um cidadão respeitável em Pittsburgh, e finalmente Kitty, que lhe revela, no décimo primeiro e último retrospecto, como persuadiu o Sueco a fugir com ela. Kitty está casada com Colfax: o Sueco foi apenas um instrumento para iludir o resto do bando; porém Dum Dum também descobriu o lôgro; Riordan chega na casa de Colfax, acompanhado por Lubinsky e outros policiais, no momento em que ocorre o tiroteiro entre Dum Dum e Colfax. Um traveling lateral para a direita do patamar da escada mostra, atrás de um balaustre iluminado na melhor tradição expressionista, o cadáver de Dum Dum e depois, estendido sobre alguns degraus, Colfax agonizando. Kitty agarra-se ao pescoço de Colfax e suplica histérica: “Diga para eles que eu não sabia de nada”, mas Colfax finge que não ouve e morre com um cigarro nos lábios contraídos pela dor.

Cena de Assassinos

Todo o filme é marcado por lances de violência e sadismo (a luta de boxe; o primeiro plano da mão deformada; as balas dos assassinos que “rasgaram o corpo do Sueco”; Blanky, um “morto que ainda respira”; o banho de sangue no confronto final entre Dum Dum e Colfax etc.) e pela tendência do herói para a autodestruição, em uma mistura de ingenuidade e masoquismo. E há também o caráter fetichista do amor do Sueco por Kitty, não só na sua idealização romântica dessa mulher, como na maneira pela qual ele acariciava o lenço de cetim que ela lhe deu – a única coisa que ainda possuía quando se entregou passivamente aos seus executores.

Siodmak não pôde resistir às pressões de J. Arthur Rank – que mantinha uma colaboração estreita com a Universal-International e desejava introduzir através da firma americana a nova estrela britânica Phyllis Calvert (a heroína de Amor nas Sombras / Fanny by Gaslight / 1944) no mercado americano. Mediante um contrato mirabolante com a U-I – salário triplicado durante dois anos, mais liberdade para os filmes seguintes etc. – o cineasta aceitou não somente dirigir, mas também atuar como produtor de um dramalhão baseado em um romance de Rachel Field.

Robert Hutton e Phyllis Calvert em Brumas do Passado

Brumas do Passado / Time Out of Mind / 1947, conta a história de um rapaz (Robert Hutton), filho de um armador rico do Maine (Leo G. Carroll), que quer seguir a carreira de músico, contrariando o desejo do pai de torná-lo um capitão de navio. Sua irmã (Ella Raines) lhe devota um amor excessive, mas é da filha da governanta (Phillys Calvert), educada junto com os dois irmãos, que ele recebe uma ajuda concreta. Ela lhe entrega suas economias, a fim de que ele possa sair do domicílio familiar e estudar no Conservatório de Paris. O pai não sobrevive a essa “deserção”. O rapaz retorna da Europa coberto de glória e casado com a filha (Helena Carter) de um banqueiro; porém depois perde a fé no seu talento, quando descobre que sua esposa organizava seus concertos às suas próprias custas, enchendo as salas com seus conhecidos. O rapaz começa a beber, a esposa o abandona, e é a filha da empregada que cuida de seu artista deprimido que, para coroar seu amor enfim assumido, compõe uma sinfonia, cujo triunfo é festejado em Nova York. O diretor verteu para a tela o argumento que lhe deram, assegurando somente a qualidade técnica do espetáculo

Richard Conte e Victor Mature em Uma Vida Marcada

Em 1948, Darry F. Zanuck contratou R. Siodmak para fazer um drama criminal no estilo neo-realista proposto por Louis de Rochemont na 20thCentury-Fox, Uma Vida Marcada / Cry of the City. No enredo, Martin Rome (Richard Conte), gravemente ferido, recebe a extrema-unção em um hospital de Nova York. O tenente Vittorio Candella (Victor Mature), seu amigo de infância, suspeita de que Martin esteja envolvido em um roubo de jóias. Martin consegue fugir da prisão e vai ao escritório de Niles (Berry Kroeger), um advogado inescrupuloso, em cujo cofre encontra as jóias. Niles revela o nome de sua cúmplice, uma massagista corpulenta chamada Rose Given (Hope Emerson). Martin procura Rose e lhe pede dinheiro e duas passagens para a América do Sul em troca das jóias que escondeu no armário de uma estação do metrô; mas Rose é presa. Candella descobre que Martin vai se encontrar com sua noiva Teena (Debra Paget) em uma igreja e perto dali os dois se confrontam.

Berry Kroeger e Richard Conte em Uma Vida Marcada

Richard Conte e Shelley Winters em Uma Vida Marcada

Cena de Uma Vida Marcada

Siodmak trabalhou com o tema muito usado do bom e do mau rapaz oriundos do mesmo meio social, cujos caminhos na vida divergem diametralmente. Rome tornou-se um gangster irrecuperável (seu último gesto empunhando o canivete aberto, parece ser um símbolo disso) e Candella, um incorruptível defensor da lei (“Só ganho 94 dólares e 43 centavos por semana, mas durmo bem”).

Dotado de um charme irresistível, o criminoso manipula os sentimentos daqueles com os quais entra em contato: a enfermeira solteirona que consente em esconder Teena, o condenado com bom comportamento que o ajuda a fugir, a ex-amante que lhe dá abrigo, o médico em situação ilegal que lhe faz os curativos clandestinamente. Cada qual vem a ser colhido pela lei na pessoa de Candella, e devidamente punido. Porém, ao mesmo tempo, o bandido tem que lidar com criaturas mais diabólicas do que ele, como o advogado escroque e a massagista de ameaçadora presença física, cuja especialidade é torturar senhoras ricas para se apoderar de suas jóias.

Richard Conte e Hope Emerson em Uma Vida Marcada

Hope Emerson e Richard Conte em Uma Vida Marcada

Cena de Uma Vida Marcada

Victor Mature em Uma Vida Marcada

Os personagens grotescos, a alienação e a predestinação do criminoso para um fim trágico (pressagiado desde a cena de abertura na sala austera e escura do hospital) e o expressionismo fotográfico – que o diretor consegue conciliar com o naturalismo de algumas tomadas em locação – dão um toque noir ao filme, que classifico -segundo a distinção que criei em “O Outro Lado da Noite: Filme Noir”, como um filme noir impuro, ou seja, com uma negritude mínima. Quem não teve oportunidade de ler o meu livro, que escreví há 15 anos e que se encontra esgotado, encontrará meu conceito de film noir, justificado com mais precisão, nos quatro artigos sobre filme noir que escreví recentemente neste blogue.