Arquivo mensais:outubro 2020

BILLY WILDER I

Samuel Wilder (1906-2002) nasceu em Sucha Beskidzka, pequena cidade da província de Galicia, que fazia parte do Império Austro-Húngaro e hoje faz parte da Polônia. Ele era filho de Eugenia Dittler e Max Wilder, maitre em um restaurante de Kraków, capital da Galícia, que depois se tornou dono de uma cadeia de pequenos cafés em estações ferroviárias. Mais tarde, Max abriu um hotel e restaurante de quatro andares em com o nome inglês de Hotel City, para dar uma impressão de classe ao seu estabelecimento. Quando a Galícia foi invadida na Primeira Guerra Mundial, a família mudou-se para Viena, onde enfrentou dias difíceis. A mãe de Billy – apelidado de “Billie” por sua mãe, ele passou a se chamar “Billy”, depois que chegou na América e seu irmão mais velho, Wilhem, apelidado de “ Willie”, também se tornou roteirista, produtor e diretor em Hoillywood e passou a se chamar William Lee Wilder – queria que ele se formasse em Direito, mas o rapaz optou pela profissão de repórter.

Billy Wilder

Wilder gostava de contar que a sua grande façanha como jornalista foi entrevistar no mesmo dia Richard Strauss, Arthur Schnitzler, Alfred Adler e Sigmund Freud.  Freud estava almoçando, quando ele chegou. Wilder mostrou seu cartão para a criada e conseguiu ver, através de uma porta aberta, a sala de consultas e o famoso sofá. O Dr. Freud surgiu com um guardanapo no queixo e perguntou a Wilder se ele era um repórter do jornal Die Stunde. Ao receber resposta afirmativa, Freud apontou para a porta de entrada e disse: “Raus” (Rua). Em 1990 Wilder finalmente admitiu que essas quatro entrevistas não ocorreram no mesmo dia, porém continuou insistindo que falou com os quatro homens embora em diferentes ocasiões.

Wilder era apaixonado pelo jazz americano e fã de Paul Whiteman. Quando o famoso chefe de orquestra visitou Viena em 1926, Wilder fez amizade com ele, servindo-lhe depois como guia em Berlim … apesar de nunca ter ido lá. Quando Whiteman voltou para a América, Billy ficou em Berlim em situação de penúria até que, como era um excelente dançarino, arranjou emprego no Hotel Eden na função de Eintänzer (dançarino-gigolô). Wilder trabalhou ali por algum tempo e depois  retomou suas atividades como articulista, publicando sua experiência como Eintänzer no jornal B.Z am Mittag. O artigo fez grande sucesso e lhe proporcionou mais trabalho em outras publicações, mas o seu sonho era escrever para o cinema.

Wilder conseguiu vender seu primeiro script graças a uma situação escabrosa: atendendo ao pedido desesperado de sua vizinha Lulu, filha de sua locadora, ele escondeu no seu quarto o amante dela, Maxim Galitzenstein, presidente da Maxim Film, ajudando-o a escapar da fúria do namorado da moça. Wilder ofereceu-lhe um script e Galitzenstein o comprou por quinhentos marcos. Wilder agradeceu sua vizinha dizendo: “Obrigado por ter me mandado Galitzenstein. Mas ele é um pequeno produtor. Da próxima vez, por favor … Erich Pommer!”. Parece que Galitzenstein nunca produziu o script de Wilder pois segundo todas as filmografias do cineasta, seu primeiroscript  (sobre um repórter que vendeu a alma ao Diabo)  foi Der Teufelsreporter: Im Nebel Der Grosstadt / 1929, dirigido por Ernest Laemmle (sobrinho de Carl Laemmle) e estrelado por Eddie Polo e Gritta Ley.

Cena deMennschen am Sontag

Após servir como ghost writer para alguns roteiristas, Wilder escreveu seu segundo script (que era na verdade um tratamento) para o filme Mennschen am Sontag / 1929, dirigido pelo então montador Robert Siodmak com base em uma história de seu irmão Kurt, sobre dois rapazes e duas moças e o que eles faziam em um domingo. Filmado nas ruas e em um parque de Berlim sem atores profissionais e uma câmera na mão, o filme foi um trampolim para várias carreiras. O cameraman era Eugene Shuftan (inventor do famoso processo), seu assistente chamava-se Fred Zinnemann, e o assistente de direção respondia pelo nome de Edgar G. Ulmer.

Depois de ter feito na UFA Der Kampf mit Dem Drachen / 1930, fantasia surrealista de 12 minutos (com roteiro de Wilder e Kurt ou de um ou de outro conforme cada historiador), contando como um inquilino (Felix Bressart), acusado de matar seu  “dragão”, ou seja, sua feroz senhoria (Hedwig Wangel), é depois absolvido por um júri composto de inquilinos igualmente maltratados por seus senhorios, Robert Siodmak ganhou sua própria unidade de produção no grande estúdio alemão  administrado por Erich Pommer e levou Wilder consigo.

Durante quatro anos Wilder escreveu, sozinho ou em colaboração (alguns com Kurt Siodmak), roteiros para filmes nos mais variados gêneros: 1931 – De Falsche Ehemann (Dir: Johannes Guter com Johannes Riemann e Maria Paudler); Terrível Armada / Emil und die Detektive (Dir: Gerhard Lamprecht); Ihre Hoheit Befiehlt (Dir: Hans Schwarz com Kathe von Nagy e Willy Fritsch); Seitensprünge (Dir: Stefan Székely com Oskar Sima e Gerda Maurus); Der Mann der Seinen Mörder Sucht (Dir: Robert Siodmak com Heinz Rühmann e Lien Deyers). 1932 – Cinco Minutos de Amor / Das Blaue vom Himmel (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Ein Blonder Traum(Dir: Paul Martin com Lilian Harvey, Willy Fristch, Willi Forst); Es War Einmal ein Walzer (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Scampolo, ein Kind der Strasse (Dir: Hans Steinhoff com Dolly Haas). 1933 – Madame Wünscht Keine Kinder (Dir: Hans Steinhoff com Georg Alexander e Liane Haid); O Que Sonham as Mulheres / Was FrauenTraümen (Geza von Bolvary com Nora Gregor, Gustav Frölich, Peter Lorre). O último script de Wilder para Pommer foi  “Der Frack mit der Chrisantheme”, escrito de parceria com Walter Reisch, porém não chegou a ser produzido.

Cena de Terrível Armada

O melhor filme desse período de Wilder na UFA foi Terrível Armada, adaptação muito divertida e movimentada de um clássico da liteatura infanto-juvenil de autoria de Eric Kästner sobre as aventuras de um menino de doze anos, Emil Tischbein (Rolf Wenkhaus), encarregado por sua mãe de levar uma certa quantia de dinheiro para a avó, que vive em Berlim. No trajeto de trem, o dinheiro é roubado por um homem sinistro de chapéu côco.  Emil persegue o ladrão (Fritz Rasp) através de Berlim. Outros meninos – “os detetives” – ajudam-no a surpreender o gatuno e Emil recebe uma recompensa, porque o malfeitor tinha também roubado vários bancos. O famoso parceiro de Michael Powell, Emeric Pressburger, colaborou com Wilder na adaptação para a tela do best seller de Kästner. O BFI (British Film Institute) produziu um excelente dvd do filme.

Danielle Darrieux e Pierre Mingand em Horas do Diabo

Em 27 de fevereiro de 1934 ocorreu o incêndio do Reichstag e, no dia seguinte, Wilder pegou o trem noturno para Paris, onde passou a viver como refugiado. Sem ter um visto de trabalho, escreveu algumas histórias usando o nome de outras pessoas. Entre estas histórias havia uma sobre um bando de jovens ladrões de carros, que foi levada à tela como Horas do Diabo / Mauvaise Graine, graças ao patrocínio de Edouard Corniglion-Molinier, dono de um estúdio em Nice e amigo de Alexander Esway, novo parceiro de Wilder. O filme foi dirigido conjuntamente por Wilder e Esway e tinha como atriz principal uma jovem de dezessete anos chamada Danielle Darrieux. Como Jeanette, irmã do chefe do grupo de delinquentes desocupados, ela se apaixona pelo jovem Henri (Pierre Mingand), rapaz honesto que, por fraqueza, se envolvera como os marginais. A função de Jeanette é seduzir os proprietários de veículos luxuosos, a fim de que o bando tenha tempo para roubá-los. Franz Waxman, então conhecido como Franz Wachsmann, compôs um score jazzístico. Como Corniglion-Molinier tinha certo prestígio or ter sido herói da Primeira Guerra Mundial, Wilder pôde sair do anonimato.

Depois desta primeira experiência como diretor Wilder escreveu outra história,  “Pam-Pam” – musical sobre uma jovem fugitiva que se refugia em um teatro abandonado da Broadway e se envolve com falsários, que a ajudam a montar um espetáculo – e enviou o argumento para seu amigo dos tempos da Ufa, o diretor Joe May, que emigrara para os Estados Unidos e se tornara produtor na Columbia Pictures. Sam Briskin, um dos principais assessores do presidente da Columbia, Harry Cohn, gostou da história, pagou a passagem de Wilder para a América e o contratou para escrever o roteiro. Seis semanas depois ele apresentou seu primeiro esboço, mas não impressionou ninguém e o projeto  não prosperou.

Para renovar seu visto de permanência nos Estados Unidos, Wilder teve que sair do país e, da cidade mexicana Mexicali, tentar retornar para a cidade americana fronteiriça de Calexico. Quando Wilder aceitou o Thalberg Award na cerimônia da Academia em 1988, aproveitou para agradecer ao anônimo burocrata, que aprovou o seu reingresso nos Estados Unidos, apesar de não dispor dos documentos requeridos. Quando soube que o jovem imigrante ia escrever roteiros para filmes em Hollywood, o burocrata disse, “Escreva alguns bons”, e carimbou o passaporte imediatamente.

 

Entre 1934 e 1941 Wilder trabalhou como roteirista, sozinho ou com outros colaboradores ou forneceu história original para os seguintes filmes: 1934 – roteiro com Howard I. Young, Robert Liebmann para Música no Ar / Music in the Air (Fox. Dir: Joe May. Gloria Swanson, John Boles). 1935 – roteiro com Franz Schulz, Hans Schwartz para Sorteio Amoroso / Lottery Lover  (Fox. Dir: William Thiele. Lew Ayres, Pat Patterson, Peggy Fears). 1938 – roteiro com Charles Brackett para A Oitava Esposa do Barba Azul / Bluebeard´s Eighth Wife (Paramount. Dir: Ernst Lubistch. Claudette Colbert, Gary Cooper). 1939 – roteiro com Charles Brackett para Meia- Noite / Midnight (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); roteiro com Charles Brackett, Walter Reisch  para Ninotchka / Ninotchka (MGM. Dir: Ernst Lubitsch. Greta Garbo, Melvyn Douglas); roteiro com Charles Brackett para A Vida Começa aos 14 / What a Life (Paramount. Dir: Jay Theodore Reed. Jackie Cooper, Betty Field) 1940 – roteiro com Charles Brackett para Levanta-te Meu Amor / Arise my Love (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); história original com Jacques Théry para Melodia Roubada / Rhythm on the River (Paramount. Dir: Victor Schertzinger. Bing Crosby, Mary Martin). 1941 – roteiro com Charles Brackett para A Porta de Ouro / Hold Back the Dawn (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Charles Boyer, Olivia de Havilland, Paulette Goddard); roteiro com Charles Brackett em Bola de Fogo / Ball of Fire (Goldwyn. Dir: Howard Hawks. Gary Cooper, Barbara Stanwyck).

Greta Garbo e Melvyn Douglas em Ninotchka

John Barrymore, Don Ameche e Claudette Colbert em Meia-Noite

Meia-Noite e Ninotchka foram duas das comédias mais brihantes dos anos trinta. A primeira é uma comédia sofisticada construída por meio de mal entendidos e mentiras bem articulados com um elenco que se desincumbe soberbamente de suas funções notadamente Claudete Colbert e John Barrymore, este muito divertido nas expressões fisionômicas e frases maliciosas (e ainda mais engraçdado imitando voz de criancça). O segundo é uma comédia romântica e sátira política, tendo como alvo o bolchevismo, através do contraste entre os valores russos e franceses manifestados por frases sarcásticas ditas por Garbo (perfeita no papel da agente soviética sisuda e exigente) e Melvyn Douglas (impecável no nobre capitalista elegante e bon vivant). Wilder, Brackett e Reisch foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro.

Charles Brackett e Billy Wilder

O acontecimento mais importante nesta fase da carreira de Wilder foi a formação de sua parceria com Charles Brackett e sua colaboração com Ernst Lubitsch, o grande cineasta que ele admirava e no qual sempre se inspirou. Brackett e Wilder estavam social e temperamentalmente em polos opostos. Brackett era calmo e bem educado, proveniente de uma família rica da classe alta e com diploma de curso superior enquanto Wilder – quatorze anos mais jovem do que ele –  era agitado, rude e indelicado, de origem mais humilde e sem currículo acadêmico. Wilder gostava de esportes; Brackett odiava. Além da paixão por jogos de cartas (cribbage e bridge) e palavras, Billy e Bracket tinham poucas afinidades … mas constituiram uma das melhores duplas de roteiristas de Hollywod.

No outono de 1941 a Paramount Pictures e Billy Wilder finalmente concordaram que o próprio Wilder seria o diretor do próximo roteiro da dupla, A Incrível Suzana / The Major and the Minor. Para dar apoio moral e aconselhamento técnico ao novo diretor, Lubitsch arregimentou todos os diretores alemães em Hollywood. Eles visitaram o palco de filmagem em massa: E. A. Dupont, William Wyler, Wiliam Dieterle, Henry Koster e Michael Curtiz. Preston Sturges também veio para dar uma força, mas quem o ajudou de fato foi Doane Harrison, o montador que iniciara sua carreira nas comédias de Mack Sennett. Doane conhecia a técnica do filme e se  tornou o braço direito de Wilder, até falecer em 1967.

Ray Milland e Ginger Rogers em A Incrível Suzana

No enredo dessa comédia alegre e movimentada a jovem Susan Applegate (Ginger Rogers), após ter tido muitas desilusões em Nova York, resolve voltar ao lar materno em Iowa. Não tendo dinheiro suficiente para comprar uma passagem de adulto, ela se veste de criança e adquire apenas um tíquete pela metade do preço. No trem, ao ser descoberto o seu truque pelos bilheteiros, Susan se esconde na cabine do Major Kirby (Ray Milland). Este resolve tomá-la a seus cuidados, surgindo a partir daí situações cômicas e sentimentais, principalmente quando Susan é levada para a Academia Militar cheia de novos cadetes e entra em cena Pamela (Rita Johnson), a noiva do major. Graças a uma narrativa muito bem construída, o filme prende a atenção do espectador do começo ao fim, divertindo-o com a excelente caracterização de Ginger como uma menina de doze anos e com os diálogos muito espirituosos, contendo inclusive algumas citações, como naquela cena em que Susan diz a célebre frase de Garbo: “I want to be alone” ou quando no baile aparecem todas as mulheres com o cabelo igual ao de Veronica Lake.

O próximo filme de Wilder contou com a participação de seu segundo ídolo depois de Lubitsch: Erich von Stroheim (“Meu ideal, se esta mistura é possível, seria Lubitsch mais Stroheim”). No dia em que eles se encontraram, Wilder disse para Stroheim que ele estava dez anos adiante de seu tempo. Stroheim corrigiu-o: “VInte, Mr. Wilder, vinte”. Noutra ocasião Wilder declarou: “ Em matéria de perversões sexuais, Mr. von Stroheim não estava somente vinte anos adiante de seu tempo – ele estava cinquenta anos adiante de seu tempo” (em On Sunset Boulevard – The Life and Times of Billy Wilder de Ed Sikov, Hyperion, 1998).

Franchot Tone, Anne Baxter e Erich Von Stroheim em Cinco Covas no Egito

Billy Wilder e Erich von Stroheim

Cinco Covas no Egito / Five Graves to Cairo / 1943 é um drama de guerra e espionagem de atmosfera angustiante, baseado na peça “Hotel Imperial” de Lajos Biró, que já havia sido filmada duas vezes pela Paramount. Wilder e Brackett tranferiram a intriga para o norte da África. Durante a retirada do exército britânico após uma vitória dos alemães o único soldado sobrevivente da tripulação de um tanque, John Bramble (Franchot Tone), se esconde em um hotel administrado por Farid (Akim Tamiroff) e Mouche (Anne Baxter), que se torna o quartel general do Marechal de Campo Rommel (Erich von Stroheim). Bramble se faz passar por um garçom falecido, que era agente germânico, e fica sabendo dos preparativos para um próximo ataque do general. O código para sua estratégia é “cinco covas”, porque indica em um mapa os cinco locais onde Rommel enterrara suprimentos e munição nas areias do deserto. Após uma sequência de abertura mórbida com o tanque fantasma movimentando-se sobre as dunas, a narrativa se desenrola sob uma tensão permanente com a ajuda do score de Miklos Rosza, irrompendo no final as imagens patrióticas requeridas para o esforço de guerra. A fotografia (preto-e-branco) de John F. Seitz, a montagem de Doane Harrison e a direção de arte (preto-e-branco) de Hans Dreier, Ernst Fegt (decoração de Bertram Granger) foram indicadas para o Oscar. Os dois filmes seguintes de Wilder foram suas duas primeiras obras-primas: Pacto de Sangue e Farrapo Humano.

Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue

Em Pacto de Sangue Wilder não contou com a colaboração de seu parceiro Charles Brackett, porque este considerava a história de James M. Cain muito sórdida e se recusou a fazer parte do projeto de filmagem. Wilder queria trabalhar com Cain, mas este não estava disponível e quem substituiu Brackett foi Raymond Chandler, outro grande escritor de romances policiais.  Walter Neff (Fred MacMurray), corretor de seguros é quem conta a trama do filme em retrospecto. Seduzido por Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), mulher de um segurado (Tom Powers), os dois armam um plano para assassinarem o marido dela e receberem a indenização dupla da apólice. Entretanto, depois que o crime é cometido, as coisas se complicam. Barton Keyes (Edward G. Robinson), o astuto investigador de sinistros, amigo de Neff, suspeita de que não houve acidente. Desde a apresentação dos letreiros, com a figura de um homem de muletas em contra luz aproximando-se cada vez mais da objetiva até o último instante do entrecho, os espectadores ficam em permanente suspense, participando intensamente do planejamento e da execução do crime, dos sobressaltos do casal de amantes malditos e de seu fim trágico.

Edward G. Robinson e Fred Mac Murray em Pacto de Sangue

No decorrer do relato, às cenas sensuais da aparição de Phyllis no segundo andar da casa enrolada na toalha e depois descendo as escadas com a chamativa corrente de ouro no tornozerlo, de seu flerte com Neff usando frases de duplo sentido e da sedução no apartamento de Neff, sucedem os momentos de tensão – a assinatura do contrato de seguro sem que o marido saiba do que se trata; a presença incômoda do passageiro quando Neff se prepara para saltar do trem; o carro que não quer pegar durante a fuga; o comparecimento da viúva no escritórtio da companhia de seguros após o assassinato mentindo deseperadamente e trocando olhares quase imperceptíveis com o amante; os encontros dos criminosos no supermercado, ela implacável e ele nervoso, discutindo entre sussuros atrás das prateleiras; o interrogatório da testemunha diante do criminoso angustiado; a visita inesperada de Keyes pouco antes da chegada de Phyllis – construídos com precisão absoluta.

Billy Wilder dá instruções para Barbara Stanwyck e |Fred macMurray na filmagem de Pactov de Sangue

Bastante inspirado, o fotógrafo John F. Seitz elaborou formidáveis constrastes de breto e branco, que atingem o ápice plástico naquelas formas dispersas de luz e sombra, produzidas pela venezianas fechadas da casa de Phyllis, onde se dá o climax do drama. Outra colaboração importante foi a do compositor Miklos Rósza, cuja música essencialmente trágica se adaptou ao cinema noir, contribuindo muito para reforçar os efeitos dramáticos do filme. Chandler e Wilder foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro, John F. Seitz para o de Melhor Fotgrafia (preto-e- branco), MIklos Rosza para o de Melhor Música de filme não musical e o filme também esteve entre os candidatos ao prêmio da Academia.

Philip Terry, Jane Wyman e Ray Milland em Farrapo Humano

Wilder berrando Ray Milland e Doris Dowling na filmagem de Farrapo Humano

Wilder voltou a formar dupla com Charles Brackett em Farrapo Humano drama  realista e angustiante sobre alcoolismo, descrevendo  a descida ao inferno de um romancista frustrado, Don Birnam (Ray MIlland), que se entregou à bebida. O irmão de Don, Wick (Philip Terry) e a noiva, Helen (Jane Wyman) esforçam-se em vão para fazê-lo abandonar seu vício, mas ele consegue escapar da vigilância deles e vai piorando, a ponto de furtar a bolsa de um mulher em um restaurante e empenhar a própria máquina de escrever, seu instrumento de trabalho. Para obter uma bebida, implora ao garçom de um bar e pede dinheiro emprestado a uma amiga. Embriagado, ele cai em uma escada e vai parar em um hospital psiquiátrico, onde tem uma crise de delirium tremens.

Ray Milland em Farrapo Humano

Respeitando a unidade de tempo (tudo se desenrola no espaço de um fim-de-semana), de lugar (Nova York abafada pelo calor do verão) e de ação (a procura do álcool que recomeça sem cessar) e utilizando com eficácia os exteriores (boa parte das filmagens ocorreu na Terceira Avenida de Nova York com as câmeras escondidas para não atraírem a curiosidade dos passantes e no Hospital Bellevue); beneficiando-se de uma fotografia e montagem apuradas, de um score original  (com o uso do theremin, instrumento perfeito para sugerir o delírio do protagonista) e principalmente da estupenda interpretação de Ray Milland, Wilder realizou um filme perfeito em todos os domínios técnicos e artísticos, apesar do final feliz  forçado. São impressionantes a sequência do delirium tremens, quando o dipsomaníaco imagina um morcego atacando um rato em um buraco da parede e a sequência na ópera, reveladora da aflição e do problema de Birnam, quando vemos suas alucinações em plena representação. Filme, roteiro adaptado, diretor e ator foram vencedores do Oscar e houve indicação para Música de Filme Não Musical (Miklos Rosza), Fotografia (preto-e-branco) (John F. Seitz) e Montagem (Doane Harrison).

Os dois últimos filmes de Wilder nos anos 40 foram A Valsa do Imperador / The Emperor Waltz e A Mundana / A Foreign Affair, ambos de 1948.

Joan Fontaine e Bing Crosby em A Valsa do Imperador

A Valsa do Imperador é uma comédia romântica semimusical, luxuosa e technicolorida, cuja ação transcorre na Viena do Imperador Francisco José, contando os amores de uma condessa austríaca, Johanna Franziska von Stoltzenberg-Stoltzenberg (Joan Fontaine) com um caixeiro viajante americano vendedor de gramofones, Virgil Smith (Bing Crosby), em paralelo malicioso com o amor canino entre a cadela de raça de Johanna e o viralata de Virgil. Alguns personagens caricatos  – o imperador sob constante perigo de vida (Richard Haydn), o barão mulherengo e falido (Roland Culver) e o veterinário-psiquiatra da côrte (Sig Ruman) – e algumas boas piadas  divertem; os figurinos, os interiores e a paisagem montanhesa do Tyrol (na verdade o Jasper National Park em Alberta, Canadá) encantam; porém faltou vivacidade no ritmo e nas interpretações dos dois artistas principais. Edith Head e Gile Steele foram indicadas para o Oscar de Melhor Figurino (cores) e Victor Young para o de Melhor Música (de musical).

Marlene Dietrich, John Lund e Jean Arthur em A Mundana

 A Mundana é uma comédia romântica ridicularizando o moralismo americano puritano, que assume um aspecto realista ao mostrar em locação uma cidade devastada no pós-guerra, os problemas diários do exército de ocupação, as dificuldades de existência  em uma capital em ruínas, as maquinações engenhosas dos exploradores do mercado negro. Em 1948, uma delegação do Congresso Americano é enviada a Berlim para investigar sobre a moral das tropas ali estacionadas. Phoebe Frost (Jean Arthur), uma senadora representante republicana de Iwoa, fica escandalizada com a depravação moral reinante, notadamente a propósito de um oficial do exército que estaria protegendo uma cantora de cabaré, Erika von Schlütow (Marlene Dietrich), suspeita de estar escondendo seu amante nazista Hans Otto Birgel (Peter von Zerneck), ex-agente da Gestapo. Phoebe pede a ajuda do Capitão John Pringle (John Lund), sem saber que ele é justamente o oficial em questão. Para acalmá-la, Pringle começa a namorá-la, os dois se apaixonam, e ele finalmente esclarece as razões de sua “amizade” com Erika: descobrir o paradeiro de Birgel, que  finalmente morre em um confronto com a polícia militar. Erika é presa e o casal de namorados volta para a América. Wilder exercita seu talento sarcástico em vários diálogos e cria situações de apreciável comicidade como, por exemplo, quando o Coronel Plummer (Millard Mitchell), para evitar que seus homens cedam aos encantos de Erika, manda dois guardas escoltarem-na até a prisão e eles por sua vez são vigiados por outros dois ou quando Phoebe recita um poema de Longfellow “The Midnight Ride of Paul Revere”, para evitar os avanços de Pringle e ele, no final, faz o mesmo quando ela lhe pede um beijo. O primeiro passeio de Phoebe  pelo setor americano, monitorada por Plummer, é hilariante. O compositor Frederick Hollander compôs três canções “Lovely Illusions”, “Ruins of Berlim” e “Black Market”, que refletem o período de tempo no qual se passa a ação e são interpetadas por Marlene no seu estilo inimitável, acompanhada ao piano pelo próprio Hollander. Marlene, Jean Arthur e John Lund, compenetrados nos seus respectivos papéis, sustentam com brilho o espetáculo.

MYRNA LOY

Myrna Adele Williams (1905 – 1993) nasceu em Helena, Montana, filha de Della Mae Johnson e de David Franklin Williams, dono de um rancho em Crow Creek Valley. O avô paterno de Myrna, David Thomas Williams, era galês e emigrou de Liverpool, Inglaterra para os Estados Unidos em 1856. Ele se instalou no Território de Montana, onde se tornou um rancheiro. Os avós maternos de Myrna eram imigrantes escocêses e suecos. Aos vinte e três anos de idade, seu pai foi o homem mais jovem jamais eleito para servir na legislatura da cidade de Montana. Sua mãe havia estudado música no American Conservatory of Music em Chicago e chegou a pensar em se tornar uma artista de concerto, mas acabou se devotando à criação de seus filhos, Myrna e seu irmão mais novo, David.

Myrna Loy fotografada por George Hurrell

Myrna passou a infância em Radersburg, comunidade rural de mineração situada no sudeste de Helena. Após a morte de seu pai durante a epidemia de gripe de 1918, sua mãe mudou-se permanentemente com a família para a Califórnia, fixando residência em Culver City, fora de Los Angeles. Myrna estudou na Westlake School for Girls, escola particular de elite, mas quando revelou para duas diretoras que queria se tornar dançarina profissional, elas a castigaram, informando-lhe que, para uma jovem que havia recebido todas vantagens e uma educação para entrar na sociedade, uma futura carreira como dançarina era imprópria. Diante disso Myrna saiu da Westlake e foi estudar em uma escola pública, Venice Union Polytechnic High.

Enquanto estava fazendo o curso colegial, Myrna arranjou alguns empregos de meio expediente tais como ensinar dança para crianças ou substituindo uma amiga coladeira de filmes nos laboratórios do pioneiro do cinema David Horsley. Um trabalho que não foi pago em dinheiro, mas lhe trouxe beneficios de outra espécie, foi servir de modelo para o seu professor de escultura na Venice High School, Harry Fielding Winebrenner. Sua figura representava a “Inspiração” no grupo de escultura alegórica “Fountain of Education” que, completado em 1922, foi instalado em frente da piscina externa do campus em maio de 1923, onde ficou por décadas. Uma foto de sua figura esguia com o rosto erguido e um braço estendido em direção ao céu apresentando “uma visão de pureza, graça, vigor juvenil, e aspiração”, foi escolhida para ilustrar uma matéria dos Los Angeles Times juntamente com o nome da modelo – a primeira vez em que o nome de Myrna apareceu em um jornal.

Estátua de Myrna – Fountain of Education

Aos 18 anos de idade Myrna saiu da escola para ajudar nas finanças da família e conseguiu trabalho no Grauman´s Egyptian Theatre, como dançarina nos prólogos (números musicais apresentados ao vivo no palco dos cinemas com temas relacionados com os dos filmes que seriam exibidos em seguida). Toda a trupe de dançarinas dos prólogos do Grauman’s Egyptian apareceu em uma cena de orgia de um filme dirigido por Raoul Walsh, Babilônia ou O Filho Pródigo / The Wanderer / 1926, mas com ela era um membro anônimo de um grupo, Myrna não considerou esta como sua verdadeira estréia no cinema.

Após uma performance no Egyptian Theatre, um fotógrafo de retratos de Hollywood chamado Henry Waxman, aproximou-se de Myrna nos bastidores e se ofereceu para tirar umas fotos dela. Durante uma visita ao estúdio de Waxman, Rudolph Valentino viu a foto de Myrna, achou-a notavelmente fotogênica, mostrou-a para sua esposa Natasha Rambova, porque sabia que esta também ficaria impressionada com a jovem dançarina, e lhe ofereceu um teste para seu próximo filme Cobra / Cobra / 1925; porém ela não se saiu bem, perdendo o papel para Gertrude Olmstead. Desapontada, Myrna deixou seu emprego no Egyptian Theatre e procurou o departamento de elenco da MGM, conseguindo aparecer em duas produções do estúdio, porém apenas como figurante: Ben-Hur / Ben-Hur / 1925, como uma espectadora da corrida de bigas (cena cortada posteriormente) e A Mosca Negra / Pretty Ladies / 1925 como uma das coristas. Frustrada, Myrna recorreu a Natasha Rambova e esta lhe ofereceu um papel no filme O Preço da Beleza / What Price Beauty? (estrelado por Nita Naldi), que estava produzindo com a ajuda financeira de Valentino, embora os dois estivessem prestes a se divorciar. A certa altura da narrativa a heroína sonha que está em um salão de beleza, onde desfilam vários tipos de mulher, representados por diferentes modelos, vestindo roupas do figurinista Adrian. Myrna aparecia como uma “vamp intelectual”, com uma maquilagem e vestido exóticos e, embora esta sua participação fosse muito pequena, chamou a atenção da revistas de fãs. Em julho de 1925, um mês antes de seu vigésimo aniversário, Myrna Loy assinou um contrato com a Warner Bros. Nesta ocasião resolveu adotar o nome artístico de Myrna Loy, sugerido por um poeta de vanguarda, Peter Rarick, amigo de Henry Waxman.

Quem possibilitou esta contratação foi Minna Wallis, irmã do futuro produtor da Warner, Hal. B. Wallis, que era secretária particular de Jack Warner e se tornaria depois agente de vários artistas. Waxman mostrou-lhe as fotos de Myrna e pediu que ela conseguisse agendar um teste para a sua descoberta, porém Minna preferiu introduzir Myrna em uma cena de um filme intitulado O Demônio Elegante / Satan in Sables / 1925, sentada no colo do ator Lowell Sherman. O ardil funcionou. Depois de ver os rushes, Jack Warner perguntou “Quem está ao lado de Sherman?”. Suas próximas palavras foram, “Contrate-a”.

Conrad Nagel e Myrna Loy em The girlfrom Chicago

Myrna Loy em Através do Pacífico

Entre 1926 e 1929 ela participou de  36  filmes na Warner em pequenos papéis; sem ser creditada; como vamp ou personagens de origem asiática; em alguns papéis principais. 1926 – O Homem da Caverna / The Caveman; Entre Uma Noiva e Outra / The Love Toy; Quando Elas se Arrependem / Why Girls Go Back Home / A Felicidade  Dependerá do Dinheiro / The Gilded  Highway; O Rapaz e a Cigana ou Ele e a Cigana / Exquisite Sinner; Em Paris é Assim / So This is Paris; Don Juan / Don Juan (Mai, uma dama de companhia); Através do Pacífico / Across the Pacific (seu primeiro papel de asiática como uma nativa filipina); O Terceiro Degrau / The Third Degree. 1927 – Noite Infernal / Finger Prints; Quando o Homem Ama / When a Man Loves; A Vingança / Bitter Apples; Banida da Corte / The Climbers; A Doutrina do Bem / The Heart of Maryland; Nunca é Tarde Para o Amor / A Sailor´s Sweetheart; O Cantor de Jazz / The Jazz Singer (como uma corista); Uma Pequena de Fora  / The Girl from Chicago (primeiro papel principal ao lado de Conrad Nagel);

Conrad Nagel e Myrna Loy em Uma Pequena de Fora

Dois Turunas na Guerra / Ham and Eggs at the Front; Se Eu Fosse Solteiro / If I Were Single. 1928 – Cuidado com os Casados / Beware a Married Man; Uma Noiva em Cada Porto / A Girl in Every Port; Horas Que Voltam / Turn Back the Hours; Quando o Destino Castiga / The Crimson City (como a escrava chinesa Onoto);

Myrna Loy em Quando o Destino Castiga

Myrna Loy em Astúcia de Mulher

Myrna Loy em A Canção do|Deserto

Pague na Entrada / Pay As You Enter); Astúcia de Mulher / State Street Sadie; O Taxi da Meia-Noite / The Midnight Taxi; A Arca de Noé / Noah’s Ark (dançarina na sequência da Broadway; escrava na sequência bíblica); Menina da Fuzarca / Fancy Baggage. 1929 – Rosa Encantada / Hard Boiled Rose; A Canção do Deserto / The Desert Song (a mestiça Azuri); A Guarda Negra / The Black Watch (a indiana Yasmani); The Squall (a cigana Nubi); Amor Silvestre / The Great Divide (a mexicana Manuella); Evidência / Evidence (uma nativa birmanesa); A Parada das Maravilhas / Show of Shows (em dois números de dança:  “What Became of Floradora´s Boys” e “ Chinese Fantasy”). Em dezembro de 1929 Myrna foi dispensada da Warner sob a alegação de que os papéis de orientais estavam fora de moda e que portanto não precisavam mais do seu tipo.

Myrna Loy em Amor Nativo

Myrna Loy e Warner Baxter em Don Juan do México

Myrna Loy em A Noiva do Regimento

Myrna Loy e Warner Baxter em Renegados

Entre 1930 e 1933 Myrna fez filmes para a Fox, MGM, RKO e outras companhias, já se impondo em determinados papéis a partir de 1932: 1930 – Colhendo Amores / Cameo Kirby; Amor Nativo / Isle of Escape; Don Juan do México/ Under a Texas Moon; O Seguro do Amor / Cock O´ The Walk; A Noiva do Regimento / Bride of the Regiment; Na Ronda do Faroeste / The Last of the Duanes; A Princesa do Bairro / The Jazz Cinderella; O Homem Mau / The Bad Man; Renegados / Renegades; The Truth About Youth; Rogue of the Rio Grande; The Naughty Flirt; O Diabo Que Pague / The Devil to Pay. 1931 – Corpo e Alma / Body and Soul; Um Ianque na Corte do Rei Arthur / A Connecticut Yankee (como Fada Morgana, irmã do Rei Arthur);

Myrna Loy em Um Ianque na Corte do Rei Arthur

Myrna Loy e Ronald Colman em Médico e Amante

Myrna Loy, Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald em Ama-me Esta Noite

Myrna Loy e Boris Karloff em A Mâscara de Fu Manchu

Myrna Loy e John Barrymore em Topázio

Myrna Loy e Ramon Novarro em Uma Noite no Cairo

O Preço da Ventura / Hush Money; O Preço da Ventura / Hush Money; Rebound; Transatlântico / Transatlantic; A Babel de Ferro / Skyline; Casamento de Consolação / Consolation Marriage; Médico e Amante / Arrowsmith. 1932 – Emma / Emma; Vanity Fair (primeiro papel principal na Allied Artists como Becky Sharp); E O Mundo Marcha / The Wet Parade; A Mulher no Quarto 13 / The Woman in Room 13; New Morals for Old; Ama-me Esta Noite / Love Me Tonight (como a Condessa Valentine, sobrinha do Duque d’Artel (C. Aubrey Smith); Treze Mulheres / Thirteen Women; A Máscara de Fu Manchu / The Mask of Fu Manchu (inesquecível como Fah Lo See, a filha sádica e sensual de Fu Manchu); Pouco Amor Não é Amor / The Animal Kingdom. 1933 – Topázio / Topaze  (como Coco, a sedutora amante do barão de la Tour-La Tour, contracenando com John Barrymore no papel título), O Rio Escarlate / Scarlet River; Uma Noite no Cairo / The Barbarian (finalmente como leading lady na MGM ao lado de Ramon Novarro); A Rival da Esposa / When Ladies Meet); Pela Vida de um Homem/ Penthouse; Asas da Noite / Night Flight (como esposa do piloto brasileiro (William Gargan); O Pugilista e a Favorita / The Prizefighter and the Lady. Uma curiosidade: Myrna recusou o papel de Cleopatra, a trapezista que se casa com o anão interessada no seu dinheiro em Monstros / Freaks / 1932, personagem afinal interpretada por Olga Baclanova.

Myrna Loy e Clark Gabvle em Alma de Médico

William Powell, Asta e Myrna Loy em A Ceia dos Acusados

Jean Harlow, Spencer Tracy e Myrna Loy, astros de Ciúmes

Robert Montgomery e Myrna Loy em Tirano Irresistível

Myrna Loy e William Powell em Ziegfeld, o Criador de Estrelas

Clark Gable, Myrna Loy e Spencer Tracy, astros de Piloto de Provas

Myrna Loy e Clark Gable em Sob o Céu dos Trópicos

Tyrone Power e Myrna Loy em E As Chuvas Chegaram

A partir de 1934 Myrna tornou-se uma estrela, atuando como leading lady ou na companhia de outros astros e estrelas na MGM e também quando emprestada para outros estúdios. 1934 – Alma de Médico / Men in White (com Clark Gable); Vencido pela Lei / Manhattan Melodrama (com Clark Gable, William Powell); A Ceia do Acusados / The Thin Man (primeiro dos seis filmes da famosa série que mistura  admiravelmente comédia maluca com drama criminal de mistério, baseada  no romance de Dashiell Hammett, com Myrna e William Powell como Nora e Nick Charles um casal perfeitamente feliz e sofisticado, que se diverte bancando os detetives, ajudados por sua cadela de estimação Asta); Uma Noite em Istanbul / Stamboul Quest (com George Brent); Chantagem / Evelyn Prentice (com William Powell); A Vitória Será Tua / Broadway Bill (com Warner Baxter na Columbia). 1935 – Asas nas Trevas / Wings in the Dark (com Cary Grant na Paramount); Ladra Encantadora / Whipsaw (com Spencer Tracy). 1936 – Ciúmes / Wife vs. Secretary (com Clark Gable, Jean Harlow); Tirano Irresistível / Petticoat Fever (Robert Montgomery); Ziegfeld, o Criador de Estrelas / The Great Ziegfeld (com William Powell, Luise Rainer); Esposa e Amante / To Mary – with Love (com Warner Baxter na Twentieth Century-Fox); Casado com Minha Noiva / Libeled Lady (com William Powell, Jean Harlow, Spencer Tracy); A Comédia dos Acusados / After the Thin Man (com William Powell). 1937 – Parnell, O Rei sem Corôa / Parnell (com Clark Gable); Amor em Duplicata / Double Wedding (com William Powell). 1938 – Amor de Ida e Volta / Man-Proof (com Franchot Tone, Rosalind Russell); Piloto de Provas / Test Pilot (com Clark Gable, Spencer Tracy); Sob o Céu dos Trópicos / Too Hot to Handle (com Clark Gable, Walter Pidgeon). 1939 – Noite Feliz / Lucky Night (com  Robert Taylor); E As Chuvas Chegaram / The Rains Came com Tyrone Power na Twentieth Century-Fox); O Hotel dos Acusados / Another Thin Man (com William Powell).

Em 1941 Myrna fez Meu Querido Maluco / Love Crazy e A Sombra dos Acusados / Shadow of the Thin Man (ambos com William Powell) e, depois de alguns acontecimentos na sua vida particular (divórcio em 1942 do produtor Arthur Hornblow Jr., de quem fôra amante desde 1932  – quando ele ainda era casado – e com quem se casara em 1936; divórcio de John Hertz, Jr. com quem se casara em 1942 e se divorciara em 1944) e de ter abandonado sua carreira para colaborar com o esforço de guerra  e de trabalhar para a Cruz Vermelha, Myrna retornou em 1944 à MGM para atuar em, O Regresso Daquele Homem / The Thin Man Goes Home (com William Powell).

Myrna Loy e Fredric March em Os Melhores Anos de Nossas Vidas

Cary Grant e Myrna Loy em Lar … Meu Tormento

Myrna Loy e Robert Mitchum em O Vale da Ternura

A partir de 1946, Myrna trabalhou para vários estúdios: 1946 – Amor Tempestuoso /  So Goes My Love (com Don Ameche na Universal; Os Melhores Anos de Nossa Vida / The Best Years of Our Lives  (seu filme predileto como a compreensiva e suave Milly, esposa do banqueiro que retorna da guerra (Fredrich March) na Goldwyn). 1947 – Solteirão Cobiçado / The Bachelor and the Bobby-Soxer (Com Cary Grant, Shirley Temple na RKO); A Canção dos Acusados / Song of the Thin Man (com William Powell na MGM); Senador Indiscreto /The Senator Was Indiscreet(uma breve aparição sem ser creditada na Universal). 1948 – Lar … Meu Tormento / Mr. Blandings Builds His Dream House (com Cary Grant na RKO). 1949 – O Vale da Ternura / The Red Pony (com Robert Mitchum na Republic). The Dangerous Age / If This Be Sin nos EUA (com Roger Livesey na London Films, Inglaterra). Em 1946 Myrna casou-se com Gene Markey, de quem se divorciou em 1950 e no ano seguinte contraiu matrimônio com Howland H. Sargeant, divorciando-se deste seu último marido em 1960.  Em 1948 ela foi a primeira celebridade de Holllywood a trabalhar para a UNESCO.

Myrna Loy e Clifton Webb em Papai Batuta

Myrna Loy em Aeroporto 70

 

De 1950 até o final de sua carreira em 1980, Myrna fez: 1950 – Papai Batuta / Cheaper by the Dozen (com Clifton Webb na Twentieth Century-Fox). 1952 – A Família do Gênio / Belles on Their Toes (continuação de Papai Batuta com Jeanne Crain na Twentieth Century-Fox). 1956 – A Filha do Embaixador / The Ambassador’s Daughter (com Olivia de Havilland, John Forsythe para a Norman Krasna Prod. / UA). 1958 – Por um Pouco de Amor / Lonely Hearts (com Montgomery Clift, Robert Ryan para a Dore Schary Prod. / UA). 1960 – Paixões Desenfreadas / From the Terrace (com Paul Newman, Joanne Woodward para a Linebrook Prod. / T. C. Fox; A Teia de Renda Negra / Midnight Lace (com Doris Day, Rex Harrison para a Arwin Prod. / UI). 1969 – Um Dia em Duas Vidas / The April Fools (com Jack Lemmon, Catherine Deneuve, Charles Boyer para a Jalem Prod.). 1974 – Aeroporto 75 / Airport 1975 (com Charlton Heston e outros na Universal). 1978 – Se Não Me Mato, Morro / The End (com Burt Reynolds, Sally Fields para Reynolds Prod./UA). Diga-me o que Você Quer / Just Tell Me What you Want (com Alan King, Ali Mac Graw na Warner). Myrna trabalhou também no teatro  (1961-1978) e na televisão (1955-1982) mas neste artigo relembro apenas sua carreira cinematográfica.

Em 1990, aos 85 anos de idade, Myrna recebeu um Oscar Honorário da Academia “em reconhecimento às suas extraordinárias  qualidades, no Cinema e fora dele, com a admiração por uma vida de desempenhos inesquecíveis”. Sem ter mais forças para viajar, ela foi vista por satélite no seu apartamento em Nova York, dizendo simplesmente, “Vocês me fizeram muito feliz. Muito obrigado”. Myrna faleceu durante uma cirurgia no Lennox Hill Hospital em Manhattan aos 88 anos de idade.

Myrna “a única menina boazinha de Hollywood”

John Ford, que tinha uma certa atração por ela, costumava provocá-la chamando-a de “ The only good girl in Hollywood” (“A única menina boazinha de Hollywood”), sempre discreta, ao contrário de outras jovens atrizes sedutoras. Se levarmos em conta tudo o que Myrna realizou na tela e fora dela, demonstrando (como disse Emily W. Leider (na sua magnífica biografia publicada pela University of California em 2011, que foi muito útil para a minha pesquisa) uma preocupação permanente com os problemas mundiais e por outras pessoas, o rótulo de menina boazinha ressoa além do significado original de Ford.

 

ANTES DE HOLLYWOOD

Os primeiros grandes centros de produção de filmes nos Estados Unidos foram Nova York, Chicago e Filadélfia. Devido à constante demanda de filmes, as companhias tinham de produzí-los regularmente. Entretanto, os longos meses de inverno naquelas cidades traziam problemas, notadamente para as firmas que não possuíam um estúdio bem equipado e com luz artificial adequada. Para dar conta dos pedidos, os principais produtores enviavam equipes para filmagem em locações em todo o país ou fora dele, procurando cenários ideais e tempo ensolarado. Várias companhias experimentaram lugares como Fort Lee, New Jersey; Jacksonville, Flórida; San Antonio, Texas; Santa Fé, Novo México; e até Cuba – até que encontraram o local definitivo da indústria de cinema americana: o sul da Califórnia, mas especificamente o subúrbio de Los Angeles chamado Hollywood.

Recentemente, graças ao livro “Silent Films in St. Augustine” (University Press of Florida, 2017) de autoria de Thomas Graham, professor emérito de História do Flagler College de Saint Augustine na Flórida, fiquei sabendo da existência de mais um centro de produção importante na história do cinema americano. A região de St. Augustine foi descoberta em 1513 pelo explorador espanhol Juan Ponce de Leon. Em 1565 Pedro Menéndez de Avilés fundou um assentamento permanente em St. Augustine e nos séculos seguintes os espanhóis, índios, franceses e ingleses lutaram pela posse da terra, até que ela se tornou parte dos Estados Unidos em 1821.

Henry M. Flagler

Nos anos 1880, Henry M. Flagler, co-fundador da Standard Oil Company com John D. Rockefeller, veio a St. Augustine e construiu hotéis de veraneio, que pareciam palácios da Renascença Espanhola. Ele construiu também uma ferrovia que ligava a Flórida aos estados do norte e eventualmente se estendeu para o sul até Key West. Foi durante a era Fagler que as companhias de cinema descobriram St. Augustine e por alguns anos usaram a Antiga Cidade como cenário para filmes que requeriam uma atmosfera tropical ou exótica. Eventualmente, mais de 120 filmes seriam feitos no todo ou em parte em St. Augustine.

Hotel Ponce de Leon em St. Augustin, um dos hotéis de Flagler

O primeiro filme conhecido feito em St. Augustine foi um travelogue de dez minutos intitulado A Trip to St. Augustine, lançado pela Selig Polyscope Company de Chicago em junho de 1906. Nos anos seguintes as estruturas da velha Espanha de St. Augustine, os hotéis magníficos de Fagler e o panorama tropical da área representariam Espanha, Itália, França, Brasil, Egito, Arábia, Africa do Sul, Hawai e até a Califórnia.

Em 1909 um grupo de atores da Kalem Company tomou o trem de Jacksonville para St. Augustine para filmar um cena no velho Fort Marion, que faria parte de um curta de 1 rolo, The Seminole´s Vengeance. Nesta época as companhias de cinema não davam crédito a nenhum dos principais envolvidos na realização dos filmes, mas é bastante provável que Sidney Olcott dirigiu e atuou no filme e que Gene Gauntier escreveu o roteiro e interpretou o principal papel feminino. Com o passar do tempo, quando o público começou a reconhecer o rosto de Gauntier, ela ficou conhecida como “The Kalem Girl” e iria se tornar uma das roteiristas mais prolíficas da era silenciosa.

Gene Gauntier

Em janeiro de 1910 uma equipe da Lubin Company hospedou-se no Florida House Hotel em St. Augustine durante dois dias, para filmar algumas cenas de A Honeymoon Through Snow to Sunshine. O diretor do filme era Arthur Hotaling, um dos realizadores mais produtivos da Lubin, que apresentaria Oliver Hardy ao público em 1914 no filme Outwitting Daddy, filmado em Jacksonville. Em 1911, os atores da Kalem retornaram a St. Augustine para filmar In Old Florida, história de amor convencional, passada no tempo da dominação espanhola. Olcott e Gauntier colaboraram neste filme. A maioria das cenas foram rodadas nos jardins paisagísticos de um dos hotéis de Fagler.

No mesmo ano, a Selig Polyscope voltou a St. Augustine para filmar The Rose of Old St. Augustine, outra história de amor cuja ação transcorria na Flórida Espanhola, desta vez entremeada com muita ação e aventura.  O ator mais conhecido no filme interpretava apenas um papel coadjuvante: Tom Mix aparecia como Black Hawk um guerreiro Seminole. Somente mais tarde Mix se tornaria o cowboy ator mais famoso da tela.

Em 1912 a arquitetura no estilo árabe de um hotel em St. Augustine atraiu o pessoal da Thanhouser Company que, durante seis semanas produziu 17 filmes no local, o primeiro dos quais chamava-se The Arab´s Bride, estrelado por Florence La Badie, James Cruze e William Russell. Cruze iria se tornar um dos diretores mais bem pagos em Hollywod.

Fort Matanzas en St. Augustine

Durante o inverno de 1913 George Nichols, que havia trabalhado como diretor para a Thanhouser em St. Augustine, voltou, desta vez a serviço da Lubin, e realizou filmes explorando a paisagem, o forte, as ruas e os grandes hotéis da cidade como, por exemplo, em Women of the Desert, no qual estes cenários davam a sugestão de realidade às cenas no deserto, à cidade Mourisca e ao palácio do Califa, onde o herói beduíno encontra e resgata a heroína, que havia sido vendida como escrava por sua irmã ciumenta.

Hotel Alcazar em St. Augustine

Ainda em 1913, quatorze membros da American Éclair Company registraram-se no Hotel Alcazar, para passar algum tempo filmando cenas de Sons of a Soldier, o filme mais ambicioso feito em St. Augustine até aquela data, acompanhando as façanhas da família Primrose desde a Guerra Revolucionária através da Guerra Civil a uma hipotética guerra futura contra o Japão.

A companhia francesa Pathé Frères, que mantinha um estúdio em Fort Lee, New Jersey, abriu um estúdio ao ar livre em St Augustine em um local chamado Neptune Park, onde mantinha uma coleção de animais selvagens, para serem usados nos seus filmes. Frederick E. Wright, um dos principais diretores da Pathé, chefiava a companhia em St. Augustine. Ele realizou Bungling Bink´s Bunco, empregando dois atores principais, Walter Seymour e Lillian Wiggins e vários animais como um leão e um tigre de Bengala.  Outro filme de Wright, Pearl of Punjab, abordava o tema do casamento interracial, envolvendo  um médico britânico na Índia (Walter Seymour), sua noiva (Lillian Wiggins) e a meia-irmã indiana desta (Nell Craig). Um terceiro filme de Wright, baseado no romance de Hal Caine “ The Christian”, foi lançado como When Rome Ruled, tendo como atores principais Nell Craig como Nydia, uma jovem cristã e Clifford Bruce como um nobre romano pagão chamado Caius, que se apaixona por Nydia.

Pearl White

Um outro grupo da Pathé, liderado pelos diretores Louis Gasnier e Donald McKenzie chegou em St. Augustine para realizar um projeto mais ambicioso: filmar cenas para um próximo seriado de 20 episódios intitulado As Aventuras de Elaine / The Perils of Pauline, que faria de Pearl White uma estrela.  Os dois episódios rodados em St. Augustine giravam em torno do desejo de Pauline de pilotar um avião. Os técnicos da Pathé ergueram cenários que parecessem hangares de avião no Lewis Park, o campo de beisebol de St. Augustine e todas as pessoas da cidade foram convidadas para atuarem como figurantes. Durante a filmagem de uma cena de desastre algumas mulheres, que não faziam parte da companhia Pathé, desmaiaram nas arquibancadas contribuindo inconscientemente para a vivacidade do espetáculo.

 

Old Vedder House

A Edison Company enviou um grande contingente de realizadores para a Flórida. Alguns ficaram em Jacksonville, mas outro grupo foi para St. Augustine Os diretores A. Jay Williams e Richard Ridgely comandavam o grupo. Seu objetivo era explorar ao máximo os cenários da velha Espanha da Cidade Antiga. Sua primeira produção, A Night at the Inn, foi rodada em um dos edifícios mais famosos, o velho Vedder House em frente da baía (que seria a estalagem no caso). O filme da Edison foi feito poucas semanas antes de um incêndio ter destruído o prédio antigo. A Edison usou St. Augustine para representar locais exóticos como América do Sul (The Lovely Señorita), América Central (The Silent Death) e Itália (The Message in the Rose). Outro filme da Edison, Rorke´s Drift / 1914, tornou-se uma grande produção envolvendo centenas de pessoas da comunidade. O filme foi baseado em um incidente na Guerra Anglo-Zulu na África do Sul, quando um bando de guerreiros africanos invadiram um pôsto avançado britânico chamado Rorke´s Drift. Os residentes de St. Augustine retratando soldados ingleses e guerreiros zulús (estes interpretados por cidadãos negros da área) travaram um combate na Anastasia Island, que passava pela África do Sul

É impressionante a quantidade de companhias que foram filmar em St. Augustine: além das já citadas, algumas das quais lá retornaram como Kalem, Lubin, Thanhouser, Thomas Graham aponta: Stellar Feature Photoplay Company, Aetna Film Company, Vitagraph, Fox Film Corporation, All Star Feature Films, Peerless Pictures, Dyreda Art Film Corporation, Famous Players, Ocean Film Company, Equitable, Metro Film Company, Gaumont Motion Picture Company, Mutual Film, Serial Film Company, Vim Comedy Film Company, B. S. Moss Photoplays, Popular Plays and Players, Ivan Film Company, Petrova Picture Company, American Cinema Company etc.

Uma produção da Vitagraph, A Florida Enchantment / 1914, é talvez o mais conhecido dos filmes silenciosos rodados na Flórida, em parte porque sobreviveu enquanto a grande maioria dos filmes de nitrato se perderam. Sidney Drew (tio de Lionel, John e Ethel Barrymore) atuou como diretor e ator ao lado de Edith Storey, atriz que trabalhou mais em westerns, porque sabia montar a cavalo muito bem.

A Peerless Pictures teve dois astros trabalhando em St. Augustine: Howard Eastabrook e Barbara Tennant. No filme deles, The Butterfly / 1915, Tennant é Butterfly, dançarina famosa acusada de assassinato e Eastabrook um de seus amantes que finalmente a resgata da polícia e do verdadeiro assassino. Os hotéis Alcazar e Ponce de Leon de Flagler serviram como locação para algumas cenas. O segundo filme da Peerless em St. Augustine, M´Liss / 1915, era uma adaptação do romance de Bret Harte, que havia sido também um sucesso no palco, com Howard Eastabrook e Barbara Tennant nos papéis  principais. Durante uma entrevista ao St. Augustine Record, o presidente da Peerless, J. E. Brulatour, comparando a Flórida com a Califórnia, observou que a Flórida estava apenas 32 horas distante de Nova York enquanto a viagem de trem para a Califórnia durava cinco dias. Ele reconheceu que na Flórida não havia as grandes montanhas do Oeste, mas acrescentou que St. Augustine tinha vegetação tropical, edifícios no estilo espanhol e o velho forte. Howard Eastabrook retornou a St. Augustine como protagonista de Four Feathers, filme produzido pela Dyreda Art Film Corporation. St. Augustine e as dunas  de areia de Anastasia Island faziam-se passar como o Sudão embora algumas cenas tivessem sido rodadas em Jacksonville e Nova York.

O célebre filme de Theda Bara, Escravo de uma Paixão / A Fool There Was  / 1915, produzido pela Fox Film Corporation foi rodado parcialmente em St. Augustine. No filme, Bara, a mulher fatal, escolhe como vítima, um negociante milionário (Edward Jose) como sua presa. Alguns momentos mais cedo da intriga uma das antigas vítimas da mulher vampiro implora para que ela o receba de volta e aponta um revólver em sua direção. Ela diz, “Kiss me my fool”, e ele vira a arma contra si mesmo, cometendo suicídio. Theda atuou em outros filmes com cenas rodadas em St. Augustine: Gioconda ou A Filha do Diabo / The Devil´s Daughter / 1915; Seu Grande Amor  / Her Greatest Love / 1917; Coração e Alma / Heart and Soul / 1917) sempre muito admirada e homenageada pela população local.

Pauline Frederick em Bella Donna

Quando a Famous Players decidiu produzir Bella Donna / 1915, filme que requeria cenários egípcios, aproveitou as dunas de Anastasia Island e a Villa Flora, residência particular de tijolo amarelo e pedra coquina muito usada em St. Augustine. Dirigido por Hugh Ford e Edwin S. Porter, o filme foi estrelado por Pauline Frederick no papel de uma mulher cruel e ambiciosa, que está envenando lentamente seu marido. A Famous Players anunciou-a como “sedutora e traidora … a Serpente do Nilo”. Em 1916 Pauline voltou a St. Augustine para filmar cenas de A Aranha / The Spider e em 1917, retornou mais uma vez para cenas de Madame Ciúme / Madame Jealousy e A Tosca / La Tosca.

Os esforços da câmara de comércio e do governo de St. Augustine para atrair companhias de cinema para a cidade deram bons resultados em 1917. Neste ano outras atrizes famosas da cena muda estiveram em St. Augustine para filmar algumas cenas de seus filmes: Norma Talmadge (The Law of Compensation), Evelyn Nesbitt (Redemption), Ethel Barrymore (The Call of Her People), Viola Dana (God´s Law and Man´s), Olga Petrova (The Law of the Land, Até a Morte / To The Death, Chama d´Alma / The Undying Flame, Exílio / Exile, Daughter of Destiny), Marie Doro (Heart´s Desire), Elsie Ferguson (A Canção do Deserto / Barbary Sheep), Alla Nazimova (Joguete do Destino / Toys of Fate).

Até o grande empresário teatral Florenz Ziegfeld foi parar em St. Augustine, na companhia de sua esposa e estrela Billie Burke, em busca de um convento católico e jardins exuberantes necessários para a filmagem de Divorciemo-nos / Let´s Get a Divorce, comédia baseada na peça “Divorçons” de Victorien Sardou e Émile de Najac. No filme, Billie interpreta o papel de uma jovem que cresceu vivendo uma vida protegida no claustro e anseia pela emoção de um romance. Após uma série de acontecimentos, ela cai na realidade.

Marguerite Namara e Rudolph Valentino em O Esplêndido Amante

Em 1918-1919 poucas filmagens foram feitas em St. Augustine, mas em 1920 um grupo de atores e técnicos da American Cinema Company chegou na cidade para rodar cenas de O Esplêndido Amante / Stolen Moments nos jardins e no pátio do Hotel Ponce de Leon e depois no Fort Marion e na Vila Zorayda. No enredo, Marguerite Namara é Vera Blaine, escritora que tem uma casa em Savannah na Geórgia. Vera se apaixona por Jose Dalmarez, romancista brasileiro interpretado por Rudolph Valentino (antes dele se tornar um grande astro). Dalmarez tenta convencê-la a ir com ele para o Brasil, mas admite que não pensa em casamento. Vera se recusa a acompanhá-lo e depois se casa com outro homem. Enquanto isso, Dalmarez retorna ao Brasil e tenta em vão seduzir Inez Salles (Aileen Pringle), filha de um alto funcionário do governo brasileiro (Alex Shannon). Após uma luta corporal com o irmão de Inez, Dalmarez volta para Savannah e procura chantagear Vera com uma carta de amor, que ela havia escrito para ele antes do seu casamento. Quando Dalmarez é subsequentemente assassinado, a suspeita recai sobre Vera, até que uma reviravolta na intriga revela o verdadeiro assassino. No seu lançamento em dezembro de 1920, Esplêndido Amante era um longa-metragem de seis rolos para promover Marguerite Namara, então uma cantora de ópera de sucesso. Em novembro de 1922 o filme foi remontado para três rolos, enfatizando o personagem de Valentino e relançado pela Select Film Corporation, para usufruir de seu estrelato, alcançado por sua performance em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse / The Four Horsemen of the Apocalypse / 1921.

Pouco mais de uma semana depois que o pessoal da American Company deixou St. Augustine, um grupo da velha Vitagraph Company chegou para filmar The Whisper Market / 1920, pois a história passaria em algum local da América do Sul e assim as costumeiras locações “espanholas” em torno da cidade foram usadas como cenários. Corinne Griffith estrelava o filme como a esposa de um consul americano em um país que seria presumidamente o Brasil.

Em 1924 Thomas Meigham chegou em St. Augustine para filmar apenas uma cena de Um Moderno Rocambole / The Confidence Man, no qual ele faz o papel de um vigarista, Don Corvan, que chega em uma pequena cidade, para aplicar mais um golpe. Entretanto a bondade dos habitantes daquele lugarejo toca o seu coração e ele se apaixona por uma jovem, interpretada por Virginia Valli. A única cena rodada em St. Augustine teve lugar no extremo oeste da Cincinnati Avenue na parte norte da cidade. Era uma cena de tempestade e o Corpo de Bombeiros Municipal providenciou a  chuvarada. As pessoas que assistiam à filmagem se amontoaram  tão próximo da filmagem, que acabaram ficando encharcadas junto com os atores.

Nos meados dos anos vinte St. Augustine já havia abandonado suas aspirações de se tornar um centro de produção cinematográfica. A produção de filmes na Costa Leste foi declinando e Hollywood já se tornara a capital mundial do cinema.