Arquivo diários:outubro 28, 2020

BILLY WILDER I

Samuel Wilder (1906-2002) nasceu em Sucha Beskidzka, pequena cidade da província de Galicia, que fazia parte do Império Austro-Húngaro e hoje faz parte da Polônia. Ele era filho de Eugenia Dittler e Max Wilder, maitre em um restaurante de Kraków, capital da Galícia, que depois se tornou dono de uma cadeia de pequenos cafés em estações ferroviárias. Mais tarde, Max abriu um hotel e restaurante de quatro andares em com o nome inglês de Hotel City, para dar uma impressão de classe ao seu estabelecimento. Quando a Galícia foi invadida na Primeira Guerra Mundial, a família mudou-se para Viena, onde enfrentou dias difíceis. A mãe de Billy – apelidado de “Billie” por sua mãe, ele passou a se chamar “Billy”, depois que chegou na América e seu irmão mais velho, Wilhem, apelidado de “ Willie”, também se tornou roteirista, produtor e diretor em Hoillywood e passou a se chamar William Lee Wilder – queria que ele se formasse em Direito, mas o rapaz optou pela profissão de repórter.

Billy Wilder

Wilder gostava de contar que a sua grande façanha como jornalista foi entrevistar no mesmo dia Richard Strauss, Arthur Schnitzler, Alfred Adler e Sigmund Freud.  Freud estava almoçando, quando ele chegou. Wilder mostrou seu cartão para a criada e conseguiu ver, através de uma porta aberta, a sala de consultas e o famoso sofá. O Dr. Freud surgiu com um guardanapo no queixo e perguntou a Wilder se ele era um repórter do jornal Die Stunde. Ao receber resposta afirmativa, Freud apontou para a porta de entrada e disse: “Raus” (Rua). Em 1990 Wilder finalmente admitiu que essas quatro entrevistas não ocorreram no mesmo dia, porém continuou insistindo que falou com os quatro homens embora em diferentes ocasiões.

Wilder era apaixonado pelo jazz americano e fã de Paul Whiteman. Quando o famoso chefe de orquestra visitou Viena em 1926, Wilder fez amizade com ele, servindo-lhe depois como guia em Berlim … apesar de nunca ter ido lá. Quando Whiteman voltou para a América, Billy ficou em Berlim em situação de penúria até que, como era um excelente dançarino, arranjou emprego no Hotel Eden na função de Eintänzer (dançarino-gigolô). Wilder trabalhou ali por algum tempo e depois  retomou suas atividades como articulista, publicando sua experiência como Eintänzer no jornal B.Z am Mittag. O artigo fez grande sucesso e lhe proporcionou mais trabalho em outras publicações, mas o seu sonho era escrever para o cinema.

Wilder conseguiu vender seu primeiro script graças a uma situação escabrosa: atendendo ao pedido desesperado de sua vizinha Lulu, filha de sua locadora, ele escondeu no seu quarto o amante dela, Maxim Galitzenstein, presidente da Maxim Film, ajudando-o a escapar da fúria do namorado da moça. Wilder ofereceu-lhe um script e Galitzenstein o comprou por quinhentos marcos. Wilder agradeceu sua vizinha dizendo: “Obrigado por ter me mandado Galitzenstein. Mas ele é um pequeno produtor. Da próxima vez, por favor … Erich Pommer!”. Parece que Galitzenstein nunca produziu o script de Wilder pois segundo todas as filmografias do cineasta, seu primeiroscript  (sobre um repórter que vendeu a alma ao Diabo)  foi Der Teufelsreporter: Im Nebel Der Grosstadt / 1929, dirigido por Ernest Laemmle (sobrinho de Carl Laemmle) e estrelado por Eddie Polo e Gritta Ley.

Cena deMennschen am Sontag

Após servir como ghost writer para alguns roteiristas, Wilder escreveu seu segundo script (que era na verdade um tratamento) para o filme Mennschen am Sontag / 1929, dirigido pelo então montador Robert Siodmak com base em uma história de seu irmão Kurt, sobre dois rapazes e duas moças e o que eles faziam em um domingo. Filmado nas ruas e em um parque de Berlim sem atores profissionais e uma câmera na mão, o filme foi um trampolim para várias carreiras. O cameraman era Eugene Shuftan (inventor do famoso processo), seu assistente chamava-se Fred Zinnemann, e o assistente de direção respondia pelo nome de Edgar G. Ulmer.

Depois de ter feito na UFA Der Kampf mit Dem Drachen / 1930, fantasia surrealista de 12 minutos (com roteiro de Wilder e Kurt ou de um ou de outro conforme cada historiador), contando como um inquilino (Felix Bressart), acusado de matar seu  “dragão”, ou seja, sua feroz senhoria (Hedwig Wangel), é depois absolvido por um júri composto de inquilinos igualmente maltratados por seus senhorios, Robert Siodmak ganhou sua própria unidade de produção no grande estúdio alemão  administrado por Erich Pommer e levou Wilder consigo.

Durante quatro anos Wilder escreveu, sozinho ou em colaboração (alguns com Kurt Siodmak), roteiros para filmes nos mais variados gêneros: 1931 – De Falsche Ehemann (Dir: Johannes Guter com Johannes Riemann e Maria Paudler); Terrível Armada / Emil und die Detektive (Dir: Gerhard Lamprecht); Ihre Hoheit Befiehlt (Dir: Hans Schwarz com Kathe von Nagy e Willy Fritsch); Seitensprünge (Dir: Stefan Székely com Oskar Sima e Gerda Maurus); Der Mann der Seinen Mörder Sucht (Dir: Robert Siodmak com Heinz Rühmann e Lien Deyers). 1932 – Cinco Minutos de Amor / Das Blaue vom Himmel (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Ein Blonder Traum(Dir: Paul Martin com Lilian Harvey, Willy Fristch, Willi Forst); Es War Einmal ein Walzer (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Scampolo, ein Kind der Strasse (Dir: Hans Steinhoff com Dolly Haas). 1933 – Madame Wünscht Keine Kinder (Dir: Hans Steinhoff com Georg Alexander e Liane Haid); O Que Sonham as Mulheres / Was FrauenTraümen (Geza von Bolvary com Nora Gregor, Gustav Frölich, Peter Lorre). O último script de Wilder para Pommer foi  “Der Frack mit der Chrisantheme”, escrito de parceria com Walter Reisch, porém não chegou a ser produzido.

Cena de Terrível Armada

O melhor filme desse período de Wilder na UFA foi Terrível Armada, adaptação muito divertida e movimentada de um clássico da liteatura infanto-juvenil de autoria de Eric Kästner sobre as aventuras de um menino de doze anos, Emil Tischbein (Rolf Wenkhaus), encarregado por sua mãe de levar uma certa quantia de dinheiro para a avó, que vive em Berlim. No trajeto de trem, o dinheiro é roubado por um homem sinistro de chapéu côco.  Emil persegue o ladrão (Fritz Rasp) através de Berlim. Outros meninos – “os detetives” – ajudam-no a surpreender o gatuno e Emil recebe uma recompensa, porque o malfeitor tinha também roubado vários bancos. O famoso parceiro de Michael Powell, Emeric Pressburger, colaborou com Wilder na adaptação para a tela do best seller de Kästner. O BFI (British Film Institute) produziu um excelente dvd do filme.

Danielle Darrieux e Pierre Mingand em Horas do Diabo

Em 27 de fevereiro de 1934 ocorreu o incêndio do Reichstag e, no dia seguinte, Wilder pegou o trem noturno para Paris, onde passou a viver como refugiado. Sem ter um visto de trabalho, escreveu algumas histórias usando o nome de outras pessoas. Entre estas histórias havia uma sobre um bando de jovens ladrões de carros, que foi levada à tela como Horas do Diabo / Mauvaise Graine, graças ao patrocínio de Edouard Corniglion-Molinier, dono de um estúdio em Nice e amigo de Alexander Esway, novo parceiro de Wilder. O filme foi dirigido conjuntamente por Wilder e Esway e tinha como atriz principal uma jovem de dezessete anos chamada Danielle Darrieux. Como Jeanette, irmã do chefe do grupo de delinquentes desocupados, ela se apaixona pelo jovem Henri (Pierre Mingand), rapaz honesto que, por fraqueza, se envolvera como os marginais. A função de Jeanette é seduzir os proprietários de veículos luxuosos, a fim de que o bando tenha tempo para roubá-los. Franz Waxman, então conhecido como Franz Wachsmann, compôs um score jazzístico. Como Corniglion-Molinier tinha certo prestígio or ter sido herói da Primeira Guerra Mundial, Wilder pôde sair do anonimato.

Depois desta primeira experiência como diretor Wilder escreveu outra história,  “Pam-Pam” – musical sobre uma jovem fugitiva que se refugia em um teatro abandonado da Broadway e se envolve com falsários, que a ajudam a montar um espetáculo – e enviou o argumento para seu amigo dos tempos da Ufa, o diretor Joe May, que emigrara para os Estados Unidos e se tornara produtor na Columbia Pictures. Sam Briskin, um dos principais assessores do presidente da Columbia, Harry Cohn, gostou da história, pagou a passagem de Wilder para a América e o contratou para escrever o roteiro. Seis semanas depois ele apresentou seu primeiro esboço, mas não impressionou ninguém e o projeto  não prosperou.

Para renovar seu visto de permanência nos Estados Unidos, Wilder teve que sair do país e, da cidade mexicana Mexicali, tentar retornar para a cidade americana fronteiriça de Calexico. Quando Wilder aceitou o Thalberg Award na cerimônia da Academia em 1988, aproveitou para agradecer ao anônimo burocrata, que aprovou o seu reingresso nos Estados Unidos, apesar de não dispor dos documentos requeridos. Quando soube que o jovem imigrante ia escrever roteiros para filmes em Hollywood, o burocrata disse, “Escreva alguns bons”, e carimbou o passaporte imediatamente.

 

Entre 1934 e 1941 Wilder trabalhou como roteirista, sozinho ou com outros colaboradores ou forneceu história original para os seguintes filmes: 1934 – roteiro com Howard I. Young, Robert Liebmann para Música no Ar / Music in the Air (Fox. Dir: Joe May. Gloria Swanson, John Boles). 1935 – roteiro com Franz Schulz, Hans Schwartz para Sorteio Amoroso / Lottery Lover  (Fox. Dir: William Thiele. Lew Ayres, Pat Patterson, Peggy Fears). 1938 – roteiro com Charles Brackett para A Oitava Esposa do Barba Azul / Bluebeard´s Eighth Wife (Paramount. Dir: Ernst Lubistch. Claudette Colbert, Gary Cooper). 1939 – roteiro com Charles Brackett para Meia- Noite / Midnight (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); roteiro com Charles Brackett, Walter Reisch  para Ninotchka / Ninotchka (MGM. Dir: Ernst Lubitsch. Greta Garbo, Melvyn Douglas); roteiro com Charles Brackett para A Vida Começa aos 14 / What a Life (Paramount. Dir: Jay Theodore Reed. Jackie Cooper, Betty Field) 1940 – roteiro com Charles Brackett para Levanta-te Meu Amor / Arise my Love (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); história original com Jacques Théry para Melodia Roubada / Rhythm on the River (Paramount. Dir: Victor Schertzinger. Bing Crosby, Mary Martin). 1941 – roteiro com Charles Brackett para A Porta de Ouro / Hold Back the Dawn (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Charles Boyer, Olivia de Havilland, Paulette Goddard); roteiro com Charles Brackett em Bola de Fogo / Ball of Fire (Goldwyn. Dir: Howard Hawks. Gary Cooper, Barbara Stanwyck).

Greta Garbo e Melvyn Douglas em Ninotchka

John Barrymore, Don Ameche e Claudette Colbert em Meia-Noite

Meia-Noite e Ninotchka foram duas das comédias mais brihantes dos anos trinta. A primeira é uma comédia sofisticada construída por meio de mal entendidos e mentiras bem articulados com um elenco que se desincumbe soberbamente de suas funções notadamente Claudete Colbert e John Barrymore, este muito divertido nas expressões fisionômicas e frases maliciosas (e ainda mais engraçdado imitando voz de criancça). O segundo é uma comédia romântica e sátira política, tendo como alvo o bolchevismo, através do contraste entre os valores russos e franceses manifestados por frases sarcásticas ditas por Garbo (perfeita no papel da agente soviética sisuda e exigente) e Melvyn Douglas (impecável no nobre capitalista elegante e bon vivant). Wilder, Brackett e Reisch foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro.

Charles Brackett e Billy Wilder

O acontecimento mais importante nesta fase da carreira de Wilder foi a formação de sua parceria com Charles Brackett e sua colaboração com Ernst Lubitsch, o grande cineasta que ele admirava e no qual sempre se inspirou. Brackett e Wilder estavam social e temperamentalmente em polos opostos. Brackett era calmo e bem educado, proveniente de uma família rica da classe alta e com diploma de curso superior enquanto Wilder – quatorze anos mais jovem do que ele –  era agitado, rude e indelicado, de origem mais humilde e sem currículo acadêmico. Wilder gostava de esportes; Brackett odiava. Além da paixão por jogos de cartas (cribbage e bridge) e palavras, Billy e Bracket tinham poucas afinidades … mas constituiram uma das melhores duplas de roteiristas de Hollywod.

No outono de 1941 a Paramount Pictures e Billy Wilder finalmente concordaram que o próprio Wilder seria o diretor do próximo roteiro da dupla, A Incrível Suzana / The Major and the Minor. Para dar apoio moral e aconselhamento técnico ao novo diretor, Lubitsch arregimentou todos os diretores alemães em Hollywood. Eles visitaram o palco de filmagem em massa: E. A. Dupont, William Wyler, Wiliam Dieterle, Henry Koster e Michael Curtiz. Preston Sturges também veio para dar uma força, mas quem o ajudou de fato foi Doane Harrison, o montador que iniciara sua carreira nas comédias de Mack Sennett. Doane conhecia a técnica do filme e se  tornou o braço direito de Wilder, até falecer em 1967.

Ray Milland e Ginger Rogers em A Incrível Suzana

No enredo dessa comédia alegre e movimentada a jovem Susan Applegate (Ginger Rogers), após ter tido muitas desilusões em Nova York, resolve voltar ao lar materno em Iowa. Não tendo dinheiro suficiente para comprar uma passagem de adulto, ela se veste de criança e adquire apenas um tíquete pela metade do preço. No trem, ao ser descoberto o seu truque pelos bilheteiros, Susan se esconde na cabine do Major Kirby (Ray Milland). Este resolve tomá-la a seus cuidados, surgindo a partir daí situações cômicas e sentimentais, principalmente quando Susan é levada para a Academia Militar cheia de novos cadetes e entra em cena Pamela (Rita Johnson), a noiva do major. Graças a uma narrativa muito bem construída, o filme prende a atenção do espectador do começo ao fim, divertindo-o com a excelente caracterização de Ginger como uma menina de doze anos e com os diálogos muito espirituosos, contendo inclusive algumas citações, como naquela cena em que Susan diz a célebre frase de Garbo: “I want to be alone” ou quando no baile aparecem todas as mulheres com o cabelo igual ao de Veronica Lake.

O próximo filme de Wilder contou com a participação de seu segundo ídolo depois de Lubitsch: Erich von Stroheim (“Meu ideal, se esta mistura é possível, seria Lubitsch mais Stroheim”). No dia em que eles se encontraram, Wilder disse para Stroheim que ele estava dez anos adiante de seu tempo. Stroheim corrigiu-o: “VInte, Mr. Wilder, vinte”. Noutra ocasião Wilder declarou: “ Em matéria de perversões sexuais, Mr. von Stroheim não estava somente vinte anos adiante de seu tempo – ele estava cinquenta anos adiante de seu tempo” (em On Sunset Boulevard – The Life and Times of Billy Wilder de Ed Sikov, Hyperion, 1998).

Franchot Tone, Anne Baxter e Erich Von Stroheim em Cinco Covas no Egito

Billy Wilder e Erich von Stroheim

Cinco Covas no Egito / Five Graves to Cairo / 1943 é um drama de guerra e espionagem de atmosfera angustiante, baseado na peça “Hotel Imperial” de Lajos Biró, que já havia sido filmada duas vezes pela Paramount. Wilder e Brackett tranferiram a intriga para o norte da África. Durante a retirada do exército britânico após uma vitória dos alemães o único soldado sobrevivente da tripulação de um tanque, John Bramble (Franchot Tone), se esconde em um hotel administrado por Farid (Akim Tamiroff) e Mouche (Anne Baxter), que se torna o quartel general do Marechal de Campo Rommel (Erich von Stroheim). Bramble se faz passar por um garçom falecido, que era agente germânico, e fica sabendo dos preparativos para um próximo ataque do general. O código para sua estratégia é “cinco covas”, porque indica em um mapa os cinco locais onde Rommel enterrara suprimentos e munição nas areias do deserto. Após uma sequência de abertura mórbida com o tanque fantasma movimentando-se sobre as dunas, a narrativa se desenrola sob uma tensão permanente com a ajuda do score de Miklos Rosza, irrompendo no final as imagens patrióticas requeridas para o esforço de guerra. A fotografia (preto-e-branco) de John F. Seitz, a montagem de Doane Harrison e a direção de arte (preto-e-branco) de Hans Dreier, Ernst Fegt (decoração de Bertram Granger) foram indicadas para o Oscar. Os dois filmes seguintes de Wilder foram suas duas primeiras obras-primas: Pacto de Sangue e Farrapo Humano.

Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue

Em Pacto de Sangue Wilder não contou com a colaboração de seu parceiro Charles Brackett, porque este considerava a história de James M. Cain muito sórdida e se recusou a fazer parte do projeto de filmagem. Wilder queria trabalhar com Cain, mas este não estava disponível e quem substituiu Brackett foi Raymond Chandler, outro grande escritor de romances policiais.  Walter Neff (Fred MacMurray), corretor de seguros é quem conta a trama do filme em retrospecto. Seduzido por Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), mulher de um segurado (Tom Powers), os dois armam um plano para assassinarem o marido dela e receberem a indenização dupla da apólice. Entretanto, depois que o crime é cometido, as coisas se complicam. Barton Keyes (Edward G. Robinson), o astuto investigador de sinistros, amigo de Neff, suspeita de que não houve acidente. Desde a apresentação dos letreiros, com a figura de um homem de muletas em contra luz aproximando-se cada vez mais da objetiva até o último instante do entrecho, os espectadores ficam em permanente suspense, participando intensamente do planejamento e da execução do crime, dos sobressaltos do casal de amantes malditos e de seu fim trágico.

Edward G. Robinson e Fred Mac Murray em Pacto de Sangue

No decorrer do relato, às cenas sensuais da aparição de Phyllis no segundo andar da casa enrolada na toalha e depois descendo as escadas com a chamativa corrente de ouro no tornozerlo, de seu flerte com Neff usando frases de duplo sentido e da sedução no apartamento de Neff, sucedem os momentos de tensão – a assinatura do contrato de seguro sem que o marido saiba do que se trata; a presença incômoda do passageiro quando Neff se prepara para saltar do trem; o carro que não quer pegar durante a fuga; o comparecimento da viúva no escritórtio da companhia de seguros após o assassinato mentindo deseperadamente e trocando olhares quase imperceptíveis com o amante; os encontros dos criminosos no supermercado, ela implacável e ele nervoso, discutindo entre sussuros atrás das prateleiras; o interrogatório da testemunha diante do criminoso angustiado; a visita inesperada de Keyes pouco antes da chegada de Phyllis – construídos com precisão absoluta.

Billy Wilder dá instruções para Barbara Stanwyck e |Fred macMurray na filmagem de Pactov de Sangue

Bastante inspirado, o fotógrafo John F. Seitz elaborou formidáveis constrastes de breto e branco, que atingem o ápice plástico naquelas formas dispersas de luz e sombra, produzidas pela venezianas fechadas da casa de Phyllis, onde se dá o climax do drama. Outra colaboração importante foi a do compositor Miklos Rósza, cuja música essencialmente trágica se adaptou ao cinema noir, contribuindo muito para reforçar os efeitos dramáticos do filme. Chandler e Wilder foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro, John F. Seitz para o de Melhor Fotgrafia (preto-e- branco), MIklos Rosza para o de Melhor Música de filme não musical e o filme também esteve entre os candidatos ao prêmio da Academia.

Philip Terry, Jane Wyman e Ray Milland em Farrapo Humano

Wilder berrando Ray Milland e Doris Dowling na filmagem de Farrapo Humano

Wilder voltou a formar dupla com Charles Brackett em Farrapo Humano drama  realista e angustiante sobre alcoolismo, descrevendo  a descida ao inferno de um romancista frustrado, Don Birnam (Ray MIlland), que se entregou à bebida. O irmão de Don, Wick (Philip Terry) e a noiva, Helen (Jane Wyman) esforçam-se em vão para fazê-lo abandonar seu vício, mas ele consegue escapar da vigilância deles e vai piorando, a ponto de furtar a bolsa de um mulher em um restaurante e empenhar a própria máquina de escrever, seu instrumento de trabalho. Para obter uma bebida, implora ao garçom de um bar e pede dinheiro emprestado a uma amiga. Embriagado, ele cai em uma escada e vai parar em um hospital psiquiátrico, onde tem uma crise de delirium tremens.

Ray Milland em Farrapo Humano

Respeitando a unidade de tempo (tudo se desenrola no espaço de um fim-de-semana), de lugar (Nova York abafada pelo calor do verão) e de ação (a procura do álcool que recomeça sem cessar) e utilizando com eficácia os exteriores (boa parte das filmagens ocorreu na Terceira Avenida de Nova York com as câmeras escondidas para não atraírem a curiosidade dos passantes e no Hospital Bellevue); beneficiando-se de uma fotografia e montagem apuradas, de um score original  (com o uso do theremin, instrumento perfeito para sugerir o delírio do protagonista) e principalmente da estupenda interpretação de Ray Milland, Wilder realizou um filme perfeito em todos os domínios técnicos e artísticos, apesar do final feliz  forçado. São impressionantes a sequência do delirium tremens, quando o dipsomaníaco imagina um morcego atacando um rato em um buraco da parede e a sequência na ópera, reveladora da aflição e do problema de Birnam, quando vemos suas alucinações em plena representação. Filme, roteiro adaptado, diretor e ator foram vencedores do Oscar e houve indicação para Música de Filme Não Musical (Miklos Rosza), Fotografia (preto-e-branco) (John F. Seitz) e Montagem (Doane Harrison).

Os dois últimos filmes de Wilder nos anos 40 foram A Valsa do Imperador / The Emperor Waltz e A Mundana / A Foreign Affair, ambos de 1948.

Joan Fontaine e Bing Crosby em A Valsa do Imperador

A Valsa do Imperador é uma comédia romântica semimusical, luxuosa e technicolorida, cuja ação transcorre na Viena do Imperador Francisco José, contando os amores de uma condessa austríaca, Johanna Franziska von Stoltzenberg-Stoltzenberg (Joan Fontaine) com um caixeiro viajante americano vendedor de gramofones, Virgil Smith (Bing Crosby), em paralelo malicioso com o amor canino entre a cadela de raça de Johanna e o viralata de Virgil. Alguns personagens caricatos  – o imperador sob constante perigo de vida (Richard Haydn), o barão mulherengo e falido (Roland Culver) e o veterinário-psiquiatra da côrte (Sig Ruman) – e algumas boas piadas  divertem; os figurinos, os interiores e a paisagem montanhesa do Tyrol (na verdade o Jasper National Park em Alberta, Canadá) encantam; porém faltou vivacidade no ritmo e nas interpretações dos dois artistas principais. Edith Head e Gile Steele foram indicadas para o Oscar de Melhor Figurino (cores) e Victor Young para o de Melhor Música (de musical).

Marlene Dietrich, John Lund e Jean Arthur em A Mundana

 A Mundana é uma comédia romântica ridicularizando o moralismo americano puritano, que assume um aspecto realista ao mostrar em locação uma cidade devastada no pós-guerra, os problemas diários do exército de ocupação, as dificuldades de existência  em uma capital em ruínas, as maquinações engenhosas dos exploradores do mercado negro. Em 1948, uma delegação do Congresso Americano é enviada a Berlim para investigar sobre a moral das tropas ali estacionadas. Phoebe Frost (Jean Arthur), uma senadora representante republicana de Iwoa, fica escandalizada com a depravação moral reinante, notadamente a propósito de um oficial do exército que estaria protegendo uma cantora de cabaré, Erika von Schlütow (Marlene Dietrich), suspeita de estar escondendo seu amante nazista Hans Otto Birgel (Peter von Zerneck), ex-agente da Gestapo. Phoebe pede a ajuda do Capitão John Pringle (John Lund), sem saber que ele é justamente o oficial em questão. Para acalmá-la, Pringle começa a namorá-la, os dois se apaixonam, e ele finalmente esclarece as razões de sua “amizade” com Erika: descobrir o paradeiro de Birgel, que  finalmente morre em um confronto com a polícia militar. Erika é presa e o casal de namorados volta para a América. Wilder exercita seu talento sarcástico em vários diálogos e cria situações de apreciável comicidade como, por exemplo, quando o Coronel Plummer (Millard Mitchell), para evitar que seus homens cedam aos encantos de Erika, manda dois guardas escoltarem-na até a prisão e eles por sua vez são vigiados por outros dois ou quando Phoebe recita um poema de Longfellow “The Midnight Ride of Paul Revere”, para evitar os avanços de Pringle e ele, no final, faz o mesmo quando ela lhe pede um beijo. O primeiro passeio de Phoebe  pelo setor americano, monitorada por Plummer, é hilariante. O compositor Frederick Hollander compôs três canções “Lovely Illusions”, “Ruins of Berlim” e “Black Market”, que refletem o período de tempo no qual se passa a ação e são interpetadas por Marlene no seu estilo inimitável, acompanhada ao piano pelo próprio Hollander. Marlene, Jean Arthur e John Lund, compenetrados nos seus respectivos papéis, sustentam com brilho o espetáculo.