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PRIMÓRDIOS DO CINEMA SUECO

Em 1912, a Suécia subitamente começou a produzir uma série de filmes inovadores e marcantes. A maioria deles foi realizada por apenas três diretores: Georg af Klercker, Mauritz Stiller e Victor Sjöström. Além disso, o cinema Sueco inicialmente causou pouco impacto no exterior, e assim seus realizadores estavam trabalhando sem os orçamentos vultosos possibilitados pela exportação.

A Suécia foi um dos primeiros países a criar um cinema importante aproveitando os traços particulares de sua cultura nacional. Os filmes suecos eram caracterizados por sua dependência das paisagens do norte pelo seu uso da literatura, trajes, costumes, e coisas do gênero. Após o final da guerra, suas qualidades especificamente suecas tornaram estes filmes novos e populares em outros países.

Charles Magnusson

O sucesso da Nordisk na Dinamarca havia sido uma inspiração para a formação de uma pequena firma Sueca, a Svenska Biografteatern, em 1917. Localizada na cidade de Kristianstad, a firma foi inicialmente uma rede de teatros. Em 1909, Charles Magnusson assumiu sua gestão e a transformou na principal companhia de produção do país. Em 1910, o cinegrafista Julius Jaenzon ingressou na firma. Ele iria fotografar a maioria dos filmes de Stiller e Sjöström na década de dez. Sob a direção de Magnusson e Jaenzon, a firma produziu filmes numa pequena escala em um estúdio minúsculo acima do seu cinema principal em Kristianstad.

George af Klercker

Em 1912, a Svenska mudou-se para um estúdio mais perto de Estocolmo. O primeiro diretor contratado foi Georg af Klercker (Ernst George af Klercker, 1877-1951), que se tornou chefe de produção. Neste mesmo ano, os atores Mauritz Stiller (Moshe Stiller, 1889-1928) e Victor Sjöström (1879-1960) foram contratados para aumentar a produção da Svenska. Todos os três dirigiam, escreviam roteiros, e atuavam. Eles fizeram muitos filmes curtos com orçamentos modestos nos próximos anos.

Até recentemente, o trabalho de Klercker foi amplamente ofuscado pelas contribuições de Stiller e Sjoström. Entretanto, em meados dos anos oitenta, vários de seus filmes foram restaurados e mostrados em retrospectivas. Eles revelaram um diretor habilidoso e versátil com um forte senso de beleza pictórica. Klercker não se deu bem com Magnusson e deixou a empresa em 1913, passando a trabalhar em firmas produtoras menores como a Hasselbladfilm, fundada em 1915. A Hasselblad passou por várias fusões que a tornaram parte da Svenska Bio, que então se tornou Svensk FIlmindustri, e a esta altura Klercker desistiu de fazer filmes.

Mauritz Stiller

Os colegas mais famosos de Klercker, Stiller e Sjöström, ambos permaneceram na Svenska e foram extremamente prolíficos, até que ambos foram para Hollywood, Sjöström em 1923, Stiller em 1925. Infelizmente, entretanto, a maioria dos negativos dos filmes feitos na Svenska foram destruídos por um incêndio em 1941.Tantos dos primeiros filmes de Mauritz Stiller foram perdidos que é impossível apreciar sua carreira antes de meados dos anos dez. Ele é mais lembrado pelos filmes que fez entre 1916 e 1920, assim como por suas adaptações das obras da vencedora do prêmio Nobel a novelista sueca Selma Lagerlöf.

Cena de Thomas Graal’s bästa film

Cena de Herr Arnes pengar

Seu humor está bem exposto na comédia Thomas Graal’s bästa film / 1917 no qual um roteirista-ator excêntrico (interpretado por Victor Sjöström) vislumbra e se apaixona por uma jovem, Bessie, e se recusa a terminar de escrever seu enredo a menos que ela seja encontrada e persuadida a estrelar o filme baseado nele. Esta produção obteve tanto sucesso que uma sequência foi feita, Thomas Graal’s bästa barn / 1918, na qual os dois se casam e têm um filho. Porém o filme mais famoso de Stiller foi a antítese destas comédias. Uma tragédia passada na Suécia do período renascentista, O Tesouro de Arne / Herr Arnes pengar / 1919, adaptada de uma história de Lagerlöf.

Cena de Erotikon

Greta Garbo em Gösta Berling Saga

Stiller continuou fazendo comédias e dramas. Em 1920, ele dirigiu Erotikon, frequentemente reconhecido como a primeira comédia sensual sofisticada que pode ter influenciado o diretor alemão Ernest Lubitsch, que se tornaria famoso por suas insinuações sexuais inteligentes nos seus filmes em Hollwood nos anos vinte. Stiller adaptou também outro romance de Lagerlöf no seu Gösta Berling saga / 1924, a história de um pastor destituído do seu cargo dividido entre uma vida dissoluta e o amor de uma condessa casada infeliz, interpretada por uma jovem Greta Garbo. Ela foi descoberta por Stiller, e eles logo partiriam para Hollywood, onde a carreira dela foi mais bem sucedida do que a dele.

Victor Sjötröm

Victor Sjöström foi um dos diretores mais importantes de todo o cinema mudo. Seu estilo era austero e naturalista. Sua primeira obra-prima foi Ingeborg Holm / 1913, que tem início no âmbito de uma família de classe média feliz; o pai de repente fica doente e morre, e o enredo acompanha o declínio da esposa na pobreza e na loucura enquanto ela luta em vão para manter seus filhos.

Cena de O Lobo do Mar

Cena  O Fora-da-lei e sua Mulher

O Lobo do Mar / Terje Vigen / 1916, baseado num poema de Henrik Ibsen, demonstra seu domínio da paisagem como um elemento expressivo na ação. Durante o tempo de guerra, Terje Vigen, um marinheiro, tenta buscar comida no seu barco a remo, mas é capturado pelo inimigo. Durante seu longo aprisionamento, sua esposa e filho morrem de fome. Anos depois, o amargurado protagonista ganha poder sobre a família do homem que o capturou e deve decidir se deve exercer sua vingança matando-os. Sjöstrom aumenta o efeito de sua narrativa usando o mar como um cenário proeminente durante a maior parte da ação, parecendo refletir o ódio do herói. Paisagens também são importantes em O Fora-da-Lei e sua Mulher / Berg-Ejvind och hans hustru / 1918 que conta também uma ação desesperada: o roubo de uma ovelha pelo herói, para alimentar sua família, afeta toda a sua vida. Fugindo da prisão, Berg-Ejvind encontra uma segurança temporária trabalhando na fazenda de uma viúva rica, Halla. Eles se apaixonam, mas ele é novamente perseguido pelas autoridades. Abandonando sua propriedade, Halla segue com Berg-Ejvind para as montanhas, onde eles vivem juntos por muitos anos antes de morrerem um nos braços do outro durante uma tempestade de neve. A guerra havia restringido a exportações dos filmes sueco, e O Fora-da-Lei e sua Mulher foi o primeiro a irromper na cena internacional.

Cena de A Carruagem Fantasma

Ainda mais bem sucedido foi A Carruagem Fantasma / Körkalen / 1921, novamente uma adaptação de uma obra de Lagerlöf. Ele conta a história de um bêbado que quase morre em um cemitério à meia-noite na véspera do Ano Novo. Ele tem a chance de andar numa carruagem fantasmagórica conduzida pela Morte e refletir sobre sua vida egoísta e desgastada.

A reputação crescente de Stiller e Sjöstrom levou as firmas de Hollywood a atraí-los para longe da Svensk FIlindustri. Além disso, outros países estavam entrando no mercado internacional, com os quais o pequeno cinema Sueco não poderia competir. Após 1921, a produção de filmes na Suécia caiu precipitadamente.

OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

Por intermédio de um antigo represente da Pathé que eles haviam conhecido em Moscou um grupo de cineastas refugiados tomou posse de um velho estúdio abandonado em Montreuil-sous-Bois, generosamente colocado à sua disposição por Charles Pathé. Foi lá que, sob a marca Albatros, a pequena colônia russa criou numerosas obras cinematográficas que podemos classificar entre as melhores de seu tempo.

Estes homens, foram chamados os Russos Brancos, pois a maior parte acabava de escapar do novo regime soviético. Eles foram então se refugiar através da Europa, na Alemanha e na França, sobretudo nos anos vinte. Seus nomes: Alexis Granowski, Anatole Litvak, Léonide Moguy, Fédor Ozep, Vladimir Strijewski, Victor Tourjansky, Victor Trivas, Alexandre Volkoff e Ivan Mosjoukine.

Na sua maior parte, os filmes dos Russos Brancos continham intrigas adaptadas dos grandes autores da literatura russa: Tolstoi, Pushkin, Gogol, Dostoievsky ou quando não era o caso simplesmente de Joseph Kessel, romancista argentino que viveu os primeiros dias de sua infância na Rússia e depois se tornou um romancista francês.

Esta corrente, uma das mais insólitas do cinema francês, não proporcionou obras-primas duradouras. Eram na sua maioria histórias românticas desgrenhadas e melodramáticas, mas que tinham um certo encanto. Atores com uma bela presença – Pierre Richard-Willm, Victor Francen, Pierre Blanchar – se consagraram com este tipo de filme. O sucesso destas realizações influenciou outros cineastas: Marcel L’Herbier (Noites de São Petersburgo / Nuits de Feu / 1937; Rasputin – A Tragédia Imperial / Tragédie Imperiale / 1938; Jean Dréville (Troïka sur la piste blanche / 1937 e Sonata de Kreutzer / Les Nuits blanches de Saint-Petersbourg / 1938, Pierre Billon (Ao Serviço do Tsar / Au Service du Tsar / 1936.

Alexis Granowski

Assim como outros de seus compatriotas, Alexis Granowski (Abraham Azarkh, (1899-1937) trabalhou primeiro na Alemanha antes de chegar na França. Deve-se a ele lá, por exemplo, Die Koffer des Herrn O.F. /1931. Já na França, ele fez:  a comédia Les Aventures du Roi Pausole / 1933 com Edwige Feuillère no elenco; a adaptação cinematográfica do romance de Pierre Benoît Noites Moscovitas / Les Nuits Moscovites / 1934, com Harry Baur e o par Annabella e Pierre Richard-Willm; Taras Bulba / Tarass Boulba / 1936, outra adaptação literária de Pierre Benoît com Harry Baur (no papel do cossaco gargantuesco), Jean-Pierre Aumont e Roger Duchesne como seus filhos André e Ostap e Danielle Darrieux como Marina, a nobre polaca que seduz André e o faz trair seu pai.

Anatole Litvak

Ator muito popular na União Soviética, Anatole Litvak (Anatoly Mikhailovich Litvak, (1902-1974) torna-se diretor com seu primeiro longa metragem intitulado Tatiana / 1925. Ele está em Berlim no começo do cinema falado depois em Paris onde realiza Coeur de Lilas / 1932, seu primeiro filme francês e depois: Ave de Rapina / Cette Vieille Canaille / 1933 com Harry Baur Pierre Blanchar e Alice Field; Tripulantes do Céu / L’Equipage / 1935 com o quarteto Annnabella, Jean-Pierre Aumont, Charles Vanel e Jean Murat; Mayerling / Mayerling / 1936 com o casal Charles Boyer e Danielle Darrieux encarnando os amores trágicos de Marie Vetsera e o Arquiduque Rodolphe. Este filme marca uma reviravolta importante na filmografia do cineasta porque foi o seu último longa-metragem francês antes de sua ida para os Estados Unidos.

Léonide Moguy

Léonide Moguy (Leonid Mohylevskyi, 1899-1976) começou sua carreira no cinema como técnico, codirigindo Baccara / 1935 com Yves Mirande e depois assumiu sozinho a responsabilidade de Le Mioche / 1936. Em seguide ele fez: Mulheres sem Homens / Prison sans Barreaux / 1937; Conflito / Conflict / 1938; A Caminho do Front / J’Attendrai / 1939 com ação situada na Primeira Grande Guerra. Em 1940, após ter feito L’ Empreinte du Dieu / 1940, Moguy partiu para os Estados Unidos.

Fédor Ozep

A carreira cinematográfica de Fédor Ozep (Fyodor Otsep, 1895-1949) começou na Rússia. Ele foi um dos autores do roteiro com inspiração fantástica de Aelita (Dir: Yakov Protazanov / 1924). Depois ele filmou na Alemanha Zhivoy trup / Cadáver Vivo / 1929 baseado numa peça de Tolstoi. No curso dos anos trinta estava na França, onde realizou em duas versões, francesa e alemã, Les Frères Karamazov / 1931, adaptação renomada do grande romance de Dostoievsky com Anna Sten como Gruschenka e o argumento de Victor Trivas e a fotografia de Fritz Rasp, acentuando o clima de fascinação que o filme exerceu sobre o público.

Em 1932 o jovem diretor se instalou na França, onde realizou Miragens de Paris / Mirages de Paris em 1932; o esplêndido Amok /Amok / 1934, baseado num conto de Stefan Zweig, com Jean Yonnel como o médico fracassado que busca o esquecimento na selva malasiana e acaba por encontrar uma razão de viver no amor sublimado de uma mulher arrogante (Marcelle Chantal); A Dama de Espadas / La Dame de Pique / 1937  inspirado na novela com elementos sobrenaturais de Alexandre Pushkin, tendo nos papéis principais Marguerite Moreno como a Condessa Tomski, a Dama de Espadas e Pierre Blanchar como o Capitão Hermann, que quer lhe arrancar o segredo para ganhar no jogo de cartas; A Princesa Tarakanowa / Tarakanowa / 1938, nova versão de um filme mudo de Raymond Bernard com Suzy Prim como Catarina, a Grande, Annie Vernay como a princesa Elisabeth Tarakanowa e Pierre Richard-Willm como o Conde Alexis Orloff, favorito da imperatriz, encarregado de seduzir Elisabeth, pretendente do trono, a fim de trazê-la para a Russia, a fim de que Catarina possa mais facilmente livrar-se dela. A história atinge seu ponto culminante com a morte trágica dos dois amantes. marcados pelo destino.

Triunfo comercial, Gibralta / Gibraltar / 1938, com Viviane Romance, Roger Duchesne e Erich von Stroheim, foi o último longa-metragem francês do cineasta antes de sua partida para o Novo Mundo.

Wladimir Strijewsky

Ator em 1916 dos filmes de Yegeni Bauer, Wladimir Strijewsky realizou dois filmes na França: Les Bateliers de la Volga / 1936, drama de espionagem baseado num romance de Joseph Kessel com Véra Korène como mulher fatal capaz de todas as perfídias e dois atores de classe, Pierre Blanchar e Charles Vanel e Nuits de Princes / 1937, também adaptado de um romance de Kessel passado no meio de imigrantes russos com a atriz alemã Käthe von Nagy e Jean Murat.

Victor Tourjansky

Pioneiro do cinema tsarista, Victor Tourjansky (1891-1976) era um ator célebre na Rússia. Após a Revolução de1917 ele emigrou para a Europa e, a partir de 1920, se encontrava na França, onde realizou uma primeira versão de L’ Ordonnance / 1921, baseada num romance de Guy de Maupassant.

Uma carreira internacional se abriu para ele, primeiro em Hollywood em 1928, depois na Alemanha em 1935, e mais tarde na Itália nos anos cinquenta. Desta maneira ele experimentou todas as tendências da 7ª Arte, do brilho de Hollywood aos esplendores do cinema nazista, passando pelo peplum italiano. Foi logo depois sua partida da Alemanha – uma partida momentânea – e um Manolesco / Manolesco – Der Konig des Hochstapler / 1929 famoso com Ivan Mosjoukine, Brigitte Helm, Dita Parlo e Heinrich George que Tourjansky realiza seu primeiro filme francês, L’Aiglon / 1931, baseado na peça de Edmond Rostand sobre Napoleão II com Jean Weber como o filho de Napoleão e Victor Francen como o seu fiel Flambeau. Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937

Seus filmes seguintes na França foram: Le Chanteur Inconnu / 1931 com o tenor da Ópera de Paris Lucien Muratore; Hôtel des Étudiants / 1932; nova versão falada de L’Ordonnance /1933 com Marcelle Chantal, Georges Rigaud, Jean Worms, Alexandre Rignault e … Fernandel paquerando Paulette Dubost; Volga em Chamas / Volga em Flammes / 1934, superprodução filmada na Tchecoslováquia com o quarteto Albert Préjean, Danielle Darrieux, Raymond Rouleau e Valéry Inkijinoff; Olhos Negros / Les Yeux Noirs / 1935 com Harry Baur e Simone Simon e Jean-Pierre Aumont formando um par charmoso; Vertigem de uma Noite / Vertige d’un Soir / 1936 (também conhecido como La Peur)  com Gaby Morlay, Georges Rigaud, Charles Vanel e Suzy Prim; A Sublime Mentira de Nina Petrovna /  Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937, melodrama de estilo barroco cm Fernand Gravey, Aimé Clariond e Isa Miranda.

Na Alemanha Tourjanksy filmou uma comédia com Zarah Leander e Willy Birgel, A Raposa Azul / Der Blaufuchs / 1938 e dois melodramas com Brigitte Horney, um de propaganda nazista, Der Gouveurneur / 1939 e o outro, romântico, Illusion / 1941.

Victor Trivas

O russo Victor Trivas se estabeleceu na Alemanha antes ir trabalhar na França em 1933. Cenógrafo do cineasta Georg W. Pabst, ele logo se junta à colônia de seus compatriotas russos, reunidos durante algum tempo nos estúdios berlinenses.

Em 1931, ele havia dirigido seu primeiro filme, o drama de guerra Niemansland, um vibrante apelo à paz, passado na Primeira Guerra Mundial Os nazistas julgaram seu conteúdo muito subversivo e destruíram todas as cópias que encontraram, pouco tempo depois de sua exibição nos cinemas.

Trivas só realizou um longa-metragem na França, Dans les Rues / 1933, drama criminal sobre delinquência juvenil com Jean-Pierre Aumont, Madeleine Ozeray e Vladimir Sokoloff e participou como co-diretor (não creditado) de uma comédia de boulevar, Tovaritch, comédia de boulevard que retrata precisamente as desventuras de um casal de Russos Brancos exilados na França, e de alta linhagem real, obrigado a trabalhar como empregados domésticos para sobreviver. Em 1937, já nos Estados Unidos, Anatole Litvak faria uma refilmagem, intitulada no Brasil Nobres sem Fortuna com Claudette Colbert, Charles Boyer e Basil Rathbone. Curiosamente, Trivas se tornou então um roteirista do sistema hollywoodiano.

Alexandre Volkoff

Alexandre Volkoff foi ator e depois um realizador brilhante da Rússia tzarista. Otets Sergiy, baseado num conto de Tolstoi, que ele dirigiu em 1917 de parceria com Yakov Protazanov e tendo Ivan Mosjoukine e Nathalie Lissenko no elenco, coroa o primeiro período de sua carreira. Após a Revolução, acompanhado do ator e amigo Mosjoukine, Volkoff se instala na França. Eles ofereceram vários filmes de sucesso mas sua obra-prima incontestável foi Kean ou Desórdre et Génie / 1924, adaptação da peça de Alexande Dumas sobre o grande ator shakespereano britânico Edmund Kean, interpretado por Mosjoukine.

Ivan Mosjoukine

Após a morte de Rudolph Valentino, Casanova / 1927, fez de Mosjoukine o único “amante perfeito” do cinema internacional aos olhos do gênero feminino. Entretanto, o cinema falado veio para estragar tudo. Por causa de seu sotaque Mosjoukine de repente perdeu seu público. La Mille et Deuxième Nuit / 1933 é representativo deste desastre: o público mal entendia as falas do ator. Mesmo destino cruel teve L’ Enfant du Carnaval / 1934.

Alexandre Volkoff realizou um filme na Itália e desapareceu ele também pouco tempo depois.

A PARADA DA VIDA DE JOHN NESBITT

A PARADA VIDA DE JOHN NESBITT (REPRISE DE NOSSSO POST DE 20.01.2021(Com Acréscimos).

Ele foi um grande contador de histórias, primeiro no Rádio e depois no Cinema. Nascido no Canadá, John Booth Nesbitt (1910-1960) supostamente começou a contar histórias quando seu pai, em vários momentos um pastor e um oficial da Inteligência Britânica, lhe deixou um baú com recortes de jornais acumulados durante uma vida inteira de viagens.

John Nesbitt

Quando o jovem Nesbitt foi trabalhar no rádio nos anos trinta (começando a fazer adaptações de Shakespeare para a emissora HXL em San Francisco), ele desenvolveu um programa próprio intitulado Headlines of the Past (Manchetes do Passado), que gradualmente evoluiu para Passing Parade (Parada da Vida). Foi o sucesso deste programa que levou Nesbitt para a MGM, inicialmente para narrar uma nova série de shorts (curtas-metragens), Mistério Histórico / Historical Mysteries, começando com O Navio Que Morreu / The Ship That Died, The Face Behind the Mask, Providência Esquecida / Forgotten Step, Salvando a Vida das Mães / That Mothers May Live, Joaquin Murieta, e um “special” chamado A Vida lhes Sorri de Novo / They Live Again. Em 1942 ele narrou outro “special” de tempo de guerra, A Yardstick for Rumors.
Em pouco tempo a popularidade de Nesbitt ditou que ele recebesse uma série própria, e após um ano narrando e escrevendo vários shorts semidocumentários, nasceu A Parada da Vida de John Nesbitt, primeiramente incluindo vários tópicos em um rolo de filme e depois focando em um único assunto por filme. Estes curtas-metragens faziam uso abundante de tomadas de arquivo não somente da filmoteca da MGM, mas também dos primeiros filmes da série. Neles figuram diretores que depois se tornaram famosos como, por exemplo, Fred Zinneman, George Sidney e Jacques Tourneur.
A Parada da Vida, introduzida com a impressionante arte do título e um tema musical da Quinta Sinfonia de Tchaikowsky, continuou até 1949, quando por razões desconhecidas, foi descontinuada. Em 1956 a série foi reativada, desta vez na televisão realizada no estúdio de Hal Roach.

1939:

1.Singularidades / Passing Parade #1. Dir: Basil Wrangell. Composto de três episódios: The Marriage Industry, história do casamento por correspondência; Unclaimed Millions, mostrando o dinheiro que é deixado no banco indefinitivamente; Autbiography of a Car, da fábrica para a pilha de sucata.

2. Novos Caminhos / New Roadways. Dir: Basil Wrangell. Sobre o novo desenvolvimento da indústria; um olhar sobre a cirurgia plástica; a maravilha da pesquisa científica.

3. A História de Alfredo Nobel / The Story of Alfred Nobel. Dir: Joseph M. Newman. Sobre o inventor da dinamite.

4. A História do Dr. Jenner / The Story of Dr. Jenner. Dir: Henry K. Dunn. Sobre o homem que descobriu a vacinação.

5. Anjo de Caridade / Angel of Mercy. Dir: Edward L. Cahn. A história de Clara Barton, fundadora da Cruz Vermelha.

6. O Espírito de um Povo / Yankee Doodle Goes to Town. Dir: Jacques Tourneur. Ao longo da História Americana deve ter existido rabugentos como Nathaniel Curdleface, que só vê o pior.

O Gigante da Noruega

7. O Gigante da Noruega / The Giant of Norway. Dir: Edward L. Cahn. A história de Fridtjot Nansen que devotou sua vida para ajudar refugiados da Primeira Guerra Mundial.

8. A história que não pode ser contada / The Story That Couldn’t Be Printed. Dir: Joseph M. Newman. A história do jornalista e impressor alemão John Peter Zenger, que em 1784, testou a cobiçada liberdade de imprensa na América do Norte.

Um Contra o Mundo

9. Um Contra o Mundo / One Against the World. Dir: Fred Zinnemann. A história de Ephraim McDowell, o primeiro homem que tentou fazer uma operação cirúrgica em uma mulher, Jane Crawford, que tinha um grande tumor.

10. Sentinelas Invisíveis / Unseen Guardians. Dir: Basil Wrangell. Focalizando o Postal Inspection Bureau, a Children’s Home Societies e a Underwriters’ Laboratories.

11. Vitória Esquecida / Forgotten Victory. Dir: Fred Zinneman. Um tributo ao homem responsável pelo próprio pão que nós comemos.

1940:

Cena de XXXMedico

12. XXXMédico / XXXMedico. Dir: Basil Wrangell. Um novo sistema miraculoso que permite médicos a operar à longa distância.

13. A Força Oculta / The Hidden Mystery. Dir: Sammy Lee. Exemplos históricos de como a sorte pode ser importante na vida de uma pessoa.

14. Um Caminho nas Selvas / A Way in the Wilderness. Dir: Fred Zinneman. A história de um imigrante chamado Joseph Goldberger que foi para os EUA e descobriu a cura para uma doença mortal chamada pelagra.

15. Pequenos Nadas Que São Tudo / Triffles of Importance. Dir: Basil Wrangel. Os menores incidentes podem mudar vidas inteiras, como provam três exemplos na História.

16. O Barão e a Rosa / The Baron and the Rose. Dir: Basil Wrangell. A história de Henry Seigel, um ferreiro da Pennsylvania que ganhou e perdeu uma fortuna como vidreiro.

17. A Morte da Utopia / Utopia of Death. Dir: Nenhum diretor creditado. Os índios Seri do México vivem em preparação para a maior de todas as existências, morte.

18. Sonhos / Dreams. Dir: Feix E. Feist. O que se passa na nossa mente quando sonhamos e como isto pode afetar nossas vidas.

19. American Spoken Here. Dir: Basil Wrangells. A história da gíria é realmente a história dos EUA.

20. Boatos / Whispers. Dir: Basil Wrangell. Como alguns homens astutos transformaram a fofoca de uma cidade pequena em um empreendimento lucrativo.

1941:

21. Outras Bagatelas de Importância / More Triffles of Importance. Dir: Basil Wrangell. Uma xícara de chá e uma pequena flor provam novamente como itens menores podem desempenhar papéis importantes na vida.

22. Chama entre Cinzas / Out of Darkness. Dir: Sammy Lee. História de um corajoso jornal clandestino na Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial.

23. Willie and the Mouse. Dir: George Sidney. Ratos têm cérebros e este estudo mostra que, assim como acontece com os humanos, existem membros inteligentes e burros da espécie.

A Rua da Amargura

24. A Rua da Amargura / This is the Bowery. Dir: Gunther V. Fritsch. Visão realista de uma das ruas mais incomuns da América do Norte e algumas das figuras trágicas que vivem lá.

25. O Último Ato / Your Last Act. Dir: Fred Zinneman. Uma olhada em alguns dos testamentos mais estranhos de todos os tempos, inclusive o de Charles Lounsberry.

26. Cães e Charadas / Of Pups and Puzzles. Dir: George Sidney. Vencedor do Oscar.
Experimentos com vários animais permitem que homens sejam colocados em trabalhos adequados.

27. Manias / Hobbies. Dir: George Labrouse. Um olhar para os hobbies mais interessantes do mundo mundo, inclusive a construção de ferrovias modelo e colocar navios em garrafas.

1942:

28. Strange Testament. Dir: Sammy Lee. A história de Julian Poydras, cujo encontro com uma moça no Mardi Gras produziu um efeito profundo em sua vida posterior.

29. Qual a Razão? / We Do It Because. Dir: Basil Wrangell. A origem de costumes como apertar as mãos, beijar, tirar o chapéu para as damas, etc.

30. Bandeira de Misericórdia / Flag of Mercy. Dir: Edward L. Cahn. Uma reedição de Anjo de Caridade / Angel of Mercy com uma nova estrutura de filmagem, relacionando-a com o envolvimento da América do Norte na Segunda Guerras Mundial.

Enclausurada pelo Medo

31. Enclausurada pelo Medo / The Woman in the House. Dir: Sammy Lee. A história de uma mulher que ficou reclusa durante quarenta anos, temendo que as pessoas a culpassem pela morte de seu amante anos atrás.

32. O Desconhecido Misterioso / The Incredible Stranger. Dir: Jacques Tourneur. Um homem se recusa a aceitar o fato de que sua esposa e filho estão mortos, e continua a agir como se eles estivessem vivos.

33. Vendetta / Vendetta. Dir: Joseph M. Newman. A história de Carlo Pozzo di Borgo, amigo de infância de Napoleão que mais tarde jura vingança.

Cena de O Alfabeto Mágico

34. O Alfabeto Mágico / The Magic Alphabet. Dir: Jacques Tourneur. A história do Dr. Christiaan Eijkman que descobriu o segredo das vitaminas e sua importância.

35. Enganos Famosos / Famous Boners. Dir: Douglas Foster. Gafes famosas na História: como o manuscrito de Thomas Carlyle sobre a Revolução Francesa foi queimado, como um espião frustrou um plano de sabotagem, etc.

36. O Filme Perdido / The Film That Was Lost. Dir: Sammy Lee. A história do departamento do filme do Museu de Arte Moderna de Nova York e exemplos de filmes raros que foram salvos.

Francisco Madero, Herói Mexicano

37. Francisco Madero, Herói Mexicano / Madero of Mexico. Dir: Edward L. Cahn. A história do homem que desencadeou a Revolução Mexicana e sacrificou sua vida para a liberdade de seu país.

1943:

38. Quem Não é Supersticioso? / Who’s Supersticious? Dir: Sammy Lee. Olhando superstições famosas, e rastreando suas origens, inclusive o “Flying Dutchman” (Holandês Voador) dos marinheiros.

39. Foi Por Isso Que Te Deixei / That’s Why I Left You. Dir: Edward L. Cahn. Um jovem escreve para sua esposa que está indo embora porque não consegue suportar a corrida de ratos em que vivem.

40. Bagatelas que contribuem para a Vitória / Triffles That Win Wars. Dir: Harold Daniels. Tais itens como uma garrafa vazia, uma aranha, e pesquisa química sobre bolas de bilhar ditaram o destino de muitas guerras.

41. Nem Toda A História é Verdade / Don’t You Believe It. Dir: Edward L. Cahn. Falsidades são expostas em lendas como a vaca de Mrs. O’Leary’s e o violino de Nero.

42. Como Nascem as Cantigas de Ninar / Nursery Rhime. Dir: Edward L. Cahn. Origens de algumas das cantigas de ninar mais populares – e da própria Mamãe Ganso.

43. Tesouro Esquecido / Forgotten Treasure. Dir: Sammy Lee. Mais trechos de filmes da filmoteca do Museu de Arte Moderna, inclusive tomadas de cinejornais das consequências do terremoto de San Francisco, comparadas com as imagens do filme San Francisco, a Cidade Pecado / San Francisco / 1936 da MGM.

44. Tormenta / Storm. Dir: Paul Burnford. Como o homem enfrentou as forças da natureza ao longo dos anos.

45. A Meu Filho Por Vir / To My Unborn Son. Dir: Leslie Kardos. Um pai checoslovaco escreve para o filho que ele nunca verá, para explicar sua resistência à invasão nazista.

46. Este é o Amanhã / This is Tomorrow. Dir: Nenhum diretor creditado. Um olhar sobre o futuro da América do Norte, com cidades e comunidades planejadas etc.

1944:

47. O Ferreiro Imortal / The Immortal Blacksmith. Dir: Sammy Lee. A história de Tom Davenport, um fazendeiro que inventou o motor elétrico.

48. Arte de Antanho / Grandpa Called It Art. Dir: Walter Hart. Uma pesquisa sobre a arte Norte-Americana de seus dias primitivos ao presente, com quadros de muitos mestres norte-americanos modernos.

Cena de Voltando do Nada

49. Voltando do Nada / Return from Nowhere. Dir: Paul Burnford. A história de um homem cujo subconsciente assume o controle de sua mente numa tarde, e ele não consegue se lembrar do que fez.

50. Ressurgimento do Normandie / A Lady Fights Back. Dir: Nenhum diretor creditado. A história do transatlântico de luxo francês Normandie que se recusa a ficar submerso.

1945:

51. Parece Que Vai Chover / It Looks Like Rain. Dir: Paul Burnford. A importância da previsão do tempo, especialmente para os fazendeiros, e o que eles podem fazer para se preparar.

The Seesaw and the Shoes

52. The Seesaw and the Shoes. Dir: Douglas Foster. Estes dois objetos (a gangorra e os sapatos) inspiraram a invenção do estetoscópio e a descoberta das propriedades da borracha.

53. The Great American Mug. Dir: Cyril Endfield. Um olhar nostálgico da barbearia nos anos 1890.

54. Caminho para a Luz / Stairway to Light. Dir: Sammy Lee. Vencedor do Oscar. A história do Dr. Philippe Pinel, o primeiro homem a tratar os loucos com compaixão em vez de crueldade.

55. People on Paper. Dir: Herbert Morgan. Uma história concisa das histórias em quadrinhos com clipes de filmes destes cartunistas e suas criações: H.H. Knerr (“Katzenjammer Kids”), Bud Fisher (“Mutt and Jeff”), Fred Lasswell Jr. (*Barney Google”), Frank King (“Gasoline Alley”), Chester Goud (“Dick Tracy”), Dick Calkins (“Buck Rogers”), Milton Caniff (“Terry and the Pirates”),Chic Young (“Blondie”), Raeburn Van Beuren (“Abbie and Slats”), Ham Fisher (“Joe Palooka”), Hal Foster (“Prince Valiant”),Harold Gray (“Little Orphan Annie”), Al Capp (“Lil’Abner”).

1946:

56. O Lampejo de Intuição / Golden Hunch. Dir: Nenhum diretor creditado. As histórias dos homens que tiveram palpites que levaram a grandes descobertas.

57. Magic on a Stick. Dir: Cyril Endfield. A história do químico britânico que descobriu o príncípio do fósforo de enxofre.

58. Our Old Car. Dir: Cyril Endfield. Nesbitt descreve a sua vida e a “história” de seu bairro através da sucessão de carros que seu pai possuía.

1947:

59. A Really Important Person. Dir: Basil Wrangell. Um menino é designado para escrever uma redação para a escola sobre uma pessoa muito importante, e ele percebe quão importante é seu próprio pai.

60. Tennis in Rhythm. Dir: Nenhum diretor creditado. A campeã de tênis Alice Marble mostra como um senso de ritmo pode ajudar em jogo de tênis.

61. O Extraordinário Mr. Nordell / The Amazing Mr. Nordell. Dir: Joseph M. Newman. A história de um dos falsificadores mais inteligentes de todos os tempos.

62. Milagre no Milharal / Miracle in a Cornfield. Dir: Nenhum diretor creditado. A história de um vulcão que entrou em erupção em um milharal em Paicutin, México.

1948:

63. Isto é Impossível! / It Can´t Be Done. Dir: Nenhum diretor creditado. Uma viagem através do Washington Hall of Fame (Salão da Fama de Washington) lembra homens cujas grandes idéias foram desprezadas em sua época.

64. Adeus, Querida Mestra / Goodbye, Miss Turlock. Dir: Edward L. Cahn. Vencedor do Oscar. Uma visita nostálgica a uma escola de uma sala e sua dedicada professora.

65. Minha Cidade Natal / My Old Town. Dir: Nenhum diretor creditado. A vida idílica em uma cidade pequena da América do Norte no início do século vinte.

66. Troféus Trágicos / Souvenirs of Death. Dir: Edward L. Cahn. A história de uma arma do campo de batalha germânico ao submundo Norte-Americano.

67. The Fabulous Fraud. Dir: Edward L. Cahn. A história de Franz Anton Mesmer, um charlatão que inadvertidamente descobriu o segredo do hipnotismo.

1949:

68. Annie era uma Maravilha / Annie Was a Wonder. Dir: Edward L. Cahn. Indicado ao Oscar. Uma garota sueca chega para trabalhar em uma família de fazendeiros norte-americanos no começo do século.

69. Pistas da Aventura / Clues to Adventure. Dir: Nenhum diretor creditado. Como três incidentes não relacionados afetaram o Bill of Rights (Declaração de Direitos).

70. Mr. Whitney teve uma idéia / Mr. Whitney Had a Notion. Dir: Gerald Mayer. A proposta ousada de Eli Whitney que introduziu a produção em massa na América do Norte.

71. Cidade das Crianças / City of Children. Nenhum diretor creditado. A história de Mooseheart, Illinois, um lar para crianças sem pais.

OS FILMES NOIRS DE EDWARD DMYTRYK

Ele era um diretor talentoso, o primeiro dos três principais montadores – Robert Wise e Mark Robson eram os outros – que passaram a ser diretores , todos criando carreiras substanciais na RKO.

Edward Dmytryk

Edward Dmytryk (1908–1999) nasceu no Canadá, filho de imigrantes ucranianos. Quando tinha seis anos de idade sua mãe faleceu e seu pai se mudou para San Francisco. Ele teve uma infância infeliz, e depois que fugiu de casa, o juizado de menores colocou-o com uma família em Hollywood. Aos quinze anos de idade começou como menino mensageiro na Paramount, trabalhando em vários departamentos do estúdio até 1930. O diretor Cyril Gardner utilizou-o como montador, função que ocupou por toda a década de trinta.Ele dirigiu seu primeiro filme, The Hawk, um western de orçamento barato, em 1935, mas sua carreira decolou quando a Paramount o contratou para dirigir vários filmes em 1939.

Depois de um breve período na Columbia, onde dirigiu sete filmes inclusive um thriller de horror com Boris Karloff, Os Mortos Falam / The Devil Commands / 1941, no qual experimentou pela primeira vez a iluminação expressionista, Dmytryk foi para a RKO, estúdio para o qual realizou filmes de propaganda de guerra como  os Filhos de Hitler / Hitler´s Children e Atrás do Sol Nascente / Behind the Rising Sun, ambos de 1943.

Nos próximos anos, seus filmes noirs mais conhecidos foram feitos para a RKO, até que, em 1947 , ele foi intimado para prestar depoimento diante da HUAC (House Unamerican Activities Committtee) presidida pelo anticomunista raivoso Senador Joseph McCarthy. Sua recusa em testemunhar (como um dos “Dez de Hollywood”) levou a um julgamento por desacato e, após um período de exílio na Inglaterra, onde fez três bons filmes (Aquele Dia Inesquecível / So Well Remembered / 1947, Mórbido Despeito / Obsession / 1949, O Preço de uma Vida / Give us the Day / 1949), foi condenado a um ano de prisão em 1951. Após cumprir a pena, ele se retratou e aceitou delatar alguns companheiros. Depois disso gradualmente restaurou sua carreira, realizando na sua maioria filmes não noir muito interessantes como Volúpia de Matar / The Sniper / 1952, A Lança Partida / Broken Lance / 1954, A Nave da Revolta / The Caine Mutiny / 1954, Os Deuses Vencidos / The Young Lions / 1958, Minha Vontade é Lei / Warlock / 1959 e Os Insaciáveis / The Carpetbaggers / 1964.

Neste artigo relembro seus três filmes noirs Até a Vista Querida / Murder my Sweet / 1944, Acossado / Cornered / 1945 e Rancor / Crossfire / 1947, que estão entre os melhores de sua filmografia.

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, querida

ATÉ A VISTA, QUERIDA

Em Até a Vista, querida , adaptação de “Farewell my Lovely”, de Raymond Chandler, o noir look aparece pela primeira vez completamente realizado. Na trama um tanto complicada, mas logicamente desenvolvida, o detetive particular Philip Marlowe (Dick Powell) , como todo detetive noir, é envolvido em uma investigação que põe em foco sua responsabilidade profissional e suas próprias inquietações.   A atmosfera de pesadelo, as sombras ameaçadoras e os fortes contrastes de iluminação dão a Até a Vista Querida uma qualidade visual que se tornou característica dos filmes noirs no período áureo. E não falta a presença da fêmea fatal, Velma Valento, que se tornou Mrs. Lewellyn Lockridge Grayle, interpretada por Claire Trevor. Casada, ela comete um crime para evitar uma chantagem relativa ao seu passado, que se pressente agitado.Depois, se joga resolutamente nos braços de Marlowe para fazê-lo seu cúmplice em um novo empreendimento homicida.

Walter Slezac e Dick Powell em Acossado

ACOSSADO

Após ser libertado de um campo de concentração, Laurence Gerard (Dick Powell), piloto canadense, segue o rastro de Marcel Jarnac (Luther Adler), alto funcionário do regime de Vichy, responsável pela morte de sua esposa.Apesar de ser basicamente uma aventura de guerra, o filme tem um clima noir , não só por causa do tema do ex-combatente que volta descontrolado pelo ódio como também pelas situações de mistério e pela fotografia escura. Funcionando com a mesma equipe de Até a Vista, querida, Dmyrtryk deu fluência e vigor à narrativa, na qual se destaca a cena final, quando Gerard se confronta com o criminoso. Jarnac está o tempo todo no escuro e só aparece diante da luz, para matar impiedosamente Melchior Incza  (Walter Slezac) o informante traiçoeiro.Desfere vários tiros contra este e explica para Gerard: “Aquele rosto vai ser difícil de ser reconhecido” – pois sua idéia é deixar que todos pensem que foi ele quem morreu. Ainda meio tonto da pancada que levou na cabeça, Gerard entra em luta corporal com Jarnac, esmurrando-o sem parar, até sair de foco.

Robert Ryan , Robert Mitchum e Robert Young em Rancor

RANCOR

Quatro soldados, Leroy (William Phipps), Montgomery (Robert Ryan),Floyd (Steve Brodie) e Mitchell (George Cooper), divertem-se no bar de um hotel. Leroy, sem querer, derruba uma bebida na namorada de Joseph Samuels (Sam Levene) , um judeu. O casal  percebe que Mitchell está deprimido e o convida para jantar. A jovem vai trocar de roupa e os dois homens aguardam-na no apartamento de Samuels. Montgomery e Floyd seguem-nos e aparecem lá bêbados. Mitchell sai para tomar um pouco de ar, porque não se sente bem. Montgomery , que é anti-semita, discute com Samuels e o espanca até à morte enquanto Floyd jaz estendido em uma cadeira, completamente embriagado.O Comissário Finlay (Robert Young), com a cooperação do sargento Keeley (Robert Mitchum), companheiro de quarto de Mitchel, e a de LeRoy, arma uma cilada para o assassino.

 O mesmo trio de Até a Vista, querida, Edward Dmytryk – John Paxton (roteirista) – Adrian Scott (produtor), usa o estilo e a atmosfera noir para denunciar o preconceito racial, em particular, o anti-semitismo, substituindo a vítima do crime, que no romance “The Brick Foxhole” de Richard Brooks no qual o filme se baseia, era um homossexual, por um judeu.

Dmytryk consegue manter a tensão e compor cenas excelentes: a luta dos dois homens visualizada pelas sombras projetadas na parede e o abajur que cai , deixando o ambiente completamente escuro; a primeira aparição da prostituta Ginny (Gloria Grahame, entrando em foco em um close-up; a intervenção do personagem sem nome e enigmático vivido por Paul Kelly, que dá três versões do seu relacionamento com a prostituta e finalmente demonstra sua consciência cívica; o suspense no diálogo de Leroy com Montgomery no lavatório, quando o “caipira bobo” tenta iludir o racista; a fuga do criminoso após cair na armadilha e sua queda na calçada, abatido como um animal pelos tiros do investigador.

DIRK BOGARDE

Sir Dirk Bogarde (1921-1999), cujo nome verdadeiro é Derek Jules Gaspard Ulric Niven van der Bogaerd, nasceu em Hampstead, Londres, filho do editor de arte holandês do London Times e de uma mãe atriz-frustrada. Bogarde estudou cenografia e trabalhou como artista comercial, além de ter sido um estudante de teatro antes da guerra. Ele apareceu pela primeira vez no palco em 1939 e como figurante no filme Come on George! (estrelado pelo comediante muito popular George Formby) no mesmo ano.

Dirk Bogarde

Durante a Segunda Guerra Mundial serviu na Air Photographic Intelligence Unit. Em 1947 sobressaiu na peça criminal de Michael Clayton Hutton “Power Without Glory” e, graças a este sucesso, foi contratado pela Organização Rank, onde despontou como o jovem bandido carismático na produção do Ealing Studios A Lâmpada Azul / The Blue Lamp /1949.

Dirk em A Lâmpada Azul

Seguiram-se, entre outros, bons filmes como Angústia de uma Alma / So Long at the Fair / 1950, A Mulher Falada / The Woman in Question / 1950, Devoção de Assassino / Hunted /1952 e O Ódio era Mais Forte / The Gentle Gunman / 1952 e sua popularidade disparou quando estrelou, como o estudante de medicina Simon Sparrow, a série de comédias Doctor, iniciada com Rivais na Conquista / Doctor in the House / 1954. Ainda nos anos cinquenta Bogarde fez outros bons filmes como A Sombra do Pecado / Cast a Giant Shadow / 1955, O Jardineiro Espanhol / The Spanish Gardener / 1956, Perigo nas Sombras / Ill Met by Moonlight / 1957, À Beira do Cadafalso / A Tale of Two Cities / 1958, A Noite é Minha Inimiga / Libel / 1959.

Dirk em A Mulher Falada

Dirk em Devoção de Assassino

Dirk em  Rivais na Conquista

Seguiram-se entre outros, bons filmes como Angústia de uma Alma / So Long at the Fair / 1950,  A Mulher Falada / The Woman in Question / 1950, Devoção de Assassino / Hunted / 1952 e O Ódio Era Mais Forte / The Gentle Gunman / 1952 e sua popularidade disparou quando estrelou como o estudante de medicina Simon Sparrow, a série de comédias Doctor, iniciada com Rivais na Conquista / Doctor in the House / 1954. Ainda nos anos cinquenta Bogarde fez outros bons filmes como A Sombra do Pecado / Cast a Giant Shadow / 1955,  O Jardineiro Espanhol / The Spanish Gardener / 1956, Perigo nas Sombras / I’ll Met by Moonlight / 1957, À Beira do Cadafalso / A Tale of Two Cities / 1958, A Noite é Minha Inimiga / Libel / 1959.

Dirk em A Noite é Minha Inimiga

Sua experiência em Hollywood foi desastrosa. Em 1960 ele fez Sonho de Amor / Song Without End, cinebiografia do compositor Franz Liszt realizada por George Cukor, que foi um desastre comercial. Em1961 interpretou um advogado homossexual em Meu Passado Me Condena / Victim , provavelmente perdendo suas fãs adolescentes do tempo da série Doctor, mas ganhou acesso a papéis mais sérios que almejava.

Dirk em Sonho de Amor

Dirk em Meu Passado me Condena

O fato mais marcante na sua carreira nesta fase foi o início da sua associação com o diretor fugitivo da Lista Negra de Hollywood, Joseph Losey. Esta começou com um melodrama aprazível O Monstro de Londres / The Sleeping Tiger/ 1954, mas foi O Criado / The Servant / 1963 que marcou a emergência de um novo Bogarde. Ele fez mais três filmes com Losey: (O Rei e o Cidadão, também conhecido como Pelo Rei e Pela Pátria / King and Country /1964, Modesty Blaise / Modesty Blaise / 1966 e Estranho Acidente / Accident / 1967) e se tornou, nas suas próprias palavras, um ator europeu, associado a Luchino Visconti (A Morte em Veneza / Morte a Venezia / 1971), Liliana Cavani (O Porteiro da Noite / Il Portiere di Notte / 1974), Alain Resnais (Providence / 1977), Rainer Werner Fassbinder (Uma Viagem para a Luz / Despair / 1978 e Bertrand Tavernier (O Regresso / Daddy Nostalgie / 1990).

Dirk em O Criado

A filmografia de Dirk Bogarde é muito extensa (63 filmes), de modo que estou mencionando apenas seus filmes que julgo mais importantes. Nos anos sessenta Bogarde fez ainda Revolta em Alto-Mar / H.M. S. Defiant / 1962, Coragem é a Senha / The Password is Courage / 1962, Na Glória, a Amargura / I Could go on Singing / 1963, Darling, a que Amou Demais / Darling / 1965, Todas as Noites às Nove / Our Mother´s House / 1967, O Homem de Kiev / The Fixer / 1968, Oh! Que Beleza de Guerra / Oh! What a Lovely War / 1969, Os Deuses Malditos / La Caduta degli Dei / 1969 e, nos anos setenta, esteve em Uma Ponte Longe Demais / A Bridge Too Far / 1977.

Dirk em A Morte em Veneza

A meu ver sua melhor atuação ocorreu em A Morte em Veneza, interpretando Gustav von Aschenbach, um compositor envelhecido para quem a música era tudo, que chega a um hotel luxuoso de Veneza, onde tudo lhe teria sido indiferente se não tivesse sido impressionado pela beleza de um adolescente, Tadzio (Bjorn Andressen). Aschenbach o observa, o segue, não consegue se adaptar ao clima exaustivo da bela cidade. Um cabelereiro pinta seu cabelo, o rejuvenesce. Ele contempla Tadzio brincando na praia deserta e morre. Visconti tomou emprestado o tema a Thomas Mann, fotografou magnificamente uma Veneza admirável e apodrecida, aproveitou a música sublime de Mahler e se serviu da excelente interpretação de Bogarde para criar sua obra-prima. O ator, no auge de sua arte, transcreve muito bem a tristeza e a ambiguidade do seu personagem .

Em 1977 Bogarde iniciou uma segunda carreira como autor, escrevendo romances muito bem vendidos e sua autobiografia além de crônicas jornalísticas, ensaios e poesia. Foi ordenado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II em 1992 .