Embora os críticos apontem Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta / 1945 como o primeiro filme verdadeiramente neo-realista, Obsessão / Ossessione / 1942 de Luchino Visconti foi realmente o precursor deste movimento. E de fato o roteirista do filme de Antonioni, Antonio Pietrangeli, cunhou o termo neo-realismo em 1943 quando falava sobre Obsessão. Os maiores expoentes deste movimento são Visconti, Rosselini e Vittorio De Sica.
No decorrer do governo fascista de Mussolini o tipo de cinema que estava sendo produzido estava divorciado da realidade e preocupado apenas em promover uma boa imagem da Itália. O governo havia decretado que crime e imoralidade não deveriam ser colocados na tela. Os filmes principalmente produzidos eram melodramas sofisticados da classe média, chamados depreciativamente (após o fascismo) “filmes de telefones brancos”.
Entretanto, durante o controle da indústria cinematográfica pelo governo fascista, algumas “coisas boas” aconteceram: os estúdios famosos de Cinecittà foram construídos e, talvez mais significativamente, alguns realizadores assumiram uma postura moral e estética contra o fascismo.
O neo-realismo, então, deve sua existência em parte ao descontentamento destes cineastas com as restrições impostas à sua liberdade de expressão. E é sob este aspecto que o filme de Visconti de 1942 pode ser visto como o prenúncio do neo-realismo. Mas ele também teve precedentes para seu estilo de filme. Durante os anos trinta Visconti trabalhou como assistente do diretor francês Jean Renoir: um aprendizado significativo, primeiro, por causa da associação de Renoir com o movimento do Realismo Poético Francês e, segundo, porque ele trabalhou com Renoir em um filme que os historiadores entendem como sendo um precursor do movimento neo-realista italiano, Toni / 1934. Indiscutivelmente o realismo social e pessimista do realismo poético se fertilizou no neo-realismo, mas o ponto a ser levantado sobre Toni é que foi um filme baseado na história verídica de um trabalhador imigrante italiano na França cuja paixão por uma mulher o levou a cometer um homicídio. Renoir usou atores não-profissionais, rodou o filme em locação e manteve a trilha sonora original.
Obsessão de Visconti, embora não fosse uma história verdadeira, foi baseado em um romance de ficção popular, “The Postman Always Rings Twice” de James M. Cain. O filme foi rodado em locação no norte da Itália e conta a história de um trabalhador sem emprego que se torna um vagabundo errante, fica obcecado por uma mulher e concorda com o seu plano de assassinar seu marido. Tendo realizado a ação, ela morre em um acidente de carro. Com esta narrativa de sórdidas obsessões e tomadas cheias de luxúria e sensualidade, Visconti estava desafiando deliberadamente os decretos do governo de pureza e decência na tela. O filme foi exibido, mas com um corte pesado da censura e Visconti não fez outro filme até 1948: A Terra Treme / La Terra Trema. Entretanto, as sementes do neo-realismo foram plantadas.
Em 1943 o regime fascista na Itália estava chegando ao fim e em 1944 a Itália foi ocupada pelos Aliados. A queda do fascismo permitiu que a verdade sobre as condições de pobreza das classes trabalhadoras e da vida urbana fosse contada. E isto foi exatamente o que fez um pequeno grupo de realizadores. Eles rejeitaram o velho cinema e seus códigos e convenções e foram à procura da dura realidade.
A fim de garantir esse realismo, diálogo e língua deviam ser naturais – até ao ponto de se manter os dialetos regionais. Neste sentido também, deviam ser usados preferencialmente atores não-profissionais. A filmagem em locação ao invés de estúdio devia prevalecer. E, finalmente, a filmagem devia ser em estilo documentário, com luz natural, uma câmera-na-mão e usando observação e análise. Estas exigências foram plenamente respeitadas apenas em Ladrões de Bicicletas / Ladri di Bicicletti / 1948 embora Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta / 1945 (que usou uma mistura de atores profissionais e não-profissionais, a estrela Anna Magnani e três pequenos sets de filmagem) chegasse perto disto.
Roma, Cidade Aberta foi baseado em eventos reais que os Romanos durante o período 1943-1944. Isto foi antes das Forças Aliadas terem chegado na cidade e os Alemães ainda estavam no controle. A narrativa é focada nos acontecimentos da Resistência Italiana durante um período de três dias. Dinheiro e película cinematográfica eram extremamente difíceis de conseguir; entretanto são as dificuldades da produção que dão autenticidade a este filme. Rosselini teve que usar película de cinejornal, que dá às imagens o visual granulado realista.
O neo-realismo não teve vida particularmente curta. Ele durou dez anos, até quatorze se levarmos em consideração que o último filme neo-realista foi O Teto / Il Tetto / 1956. Em certo sentido, o neo-realismo foi oficialmente extinto no início dos anos cinquenta pelo governo quando este nomeou Giulio Andreotti como Diretor de Artes Cênicas e lhe deu amplos poderes. Todos os filmes que davam uma má imagem da Itália tiveram os direitos de exibição negados na Itália e, porque ele controlava os empréstimos bancários, Andreotti poderia ir tão longe a ponto de negar dinheiro para filmes que ele considerava demasiadamente neo-realistas na sua motivação. O clima de Guerra Fria do início dos anos cinquenta também contribuiu para a antipatia governamental pelo realismo social inerente a esses filmes, que eles percebiam como politizados e de esquerda – mesmo que dos cineastas envolvidos somente Visconti fosse declaradamente marxista.
Apesar do seu fim, o neo-realismo teve um impacto enorme nas futuras práticas cinematográficas na Europa, Estados Unidos e Índia. A Nouvelle Vague Francesa reconheceu amplamente sua dívida para com esse movimento, e ressonâncias de seu estilo estão claramente em evidência na British New Wave. Uma geração mais jovem de cineastas italianos também foi muito influenciada pelo trabalho dos neo-realistas, em particular Ermano Olmi, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini. Na Índia os filmes de Satyajit Ray do final dos anos cinquenta, os do Cinema Novo Brasileiro, os do Novo Cinema Português foram fortemente marcados pelos princípios do neo-realismo e seu impacto pode ser visto também obras de diretores como Martin Scorsese ou David Lynch.








