Ele foi um grande astro da MGM, capaz de interpretar tanto protagonistas elegantes ao lado de estrelas como Norma Shearer, Greta Garbo, Joan Crawford, como personagens mais complexos, desequilibrados e inquietantes (o gângster de O Conde de Chicago / The Earl of Chicago / 1940, o boxeador de Que Espere o Céu / Here Comes Mr. Jordan / 1941ou os psicopatas de Fúria no Céu / Rage in Heaven / 1941 e A Noite Tudo Encobre / Night Must Fall / 1937).
Montgomery foi indicado para o Oscar por sua atuação em Que Espere o Céu e A Noite Tudo Encobre e estreou atrás das câmeras substituindo John Ford quando este teve problemas de saúde durante a filmagem de Fomos os Sacrificados / They Were Expendable / 1945.O ator dirigiu mais cinco filmes, entre eles, a comédia Nascida para Amar / Once More My Darling / 1949, o drama policial A Testemunha Oculta / Eye Witness / 1950 (rodado na Inglaterra), um episódio da vida do Almirante Halsey (vivido por James Cagney) durante a Segunda Guerra Mundial, O Amanhecer da Glória / Gallant Hours / 1960 e, principalmente, os dois filmes noirs que abordamos neste artigo.
A DAMA DO LAGO / LADY IN THE LAKE / 1946.
Baseado num romance de Raymond Chandler, A Dama do Lago foi uma tentativa interessante do ator-diretor de criar uma narrativa inteiramente na primeira pessoa. A tela só mostra o que é visto através dos olhos do protagonista. A objetiva é identificada como o herói. Ouvimos sua voz, mas raramente o vemos, somente quando aparece no prólogo, diante de espelhos ou interrompendo o relato para resumir o andamento do caso e condensar a história.
Enfim, há um emprego sistemático do ponto de vista. A câmera – substituindo o detetive particular Philip Marlowe (Robert Montgomery), personagem principal da trama – vira-se para a acompanhar os passos de uma linda garota, recebe um beijo do par de lábios que se aproxima em primeiro plano, leva um soco de um punho cerrado, etc. enquanto os outros personagens olham diretamente para a lente, sob pretexto de estarem falando com ele.
A ação tem início quando Marlowe vai ao escritório de uma editora de romances policiais sensacionalistas, falar com Adrienne Fromsett (Audrey Totter), principal colaboradora do Presidente da empresa, Derace Kingsby (Leon Ames), pensando que ela estava interessada em uma história de sua autoria. Entretanto, Adrienne quer contratá-lo para procurar Crystal, a esposa desaparecida de KIngsby, a fim de que o processo de divórcio do patrão possa ser instaurado. Marlowe aceita o caso e ,a partir daí, acontecem os vários incidentes até o fim da longa e complicada história.
A câmera subjetiva mostra toda a sua virtuosidade cinematográfica em uma sequência brilhante, na qual Marlowe é seguido pelo Tenente de Polícia De Garmot (Lloyd Nolan).Vemos seu reflexo no para-brisa do carro e a estrada que se abre à sua frente. Depois, ele vê pelo espelho retrovisor um carro que o persegue. Vira-se para olhar pela janela traseira. O ritmo da sequência vai se acelerando até que o carro perseguidor emparelha-se com o seu abalroando-o. O carro de Marlowe derrapa e cai em uma vala. Estonteado, ele vê que DeGarmot lhe derrama uísque no rosto, golpeando-o depois na testa com um fundo de garrafa. Mais tarde, quando volta a si, ouvindo uma sirene de polícia, arrasta-se para fora do carro e fica de espreita enquanto a polícia investiga o acidente. Depois, rasteja até uma cabine de telefone e disca um número pedindo auxílio. Tudo isso é feito como se a câmera fosse os olhos do detetive.
DO LODO BROTOU UMA FLOR / RIDE THE PINK HORSE / 1947.
O ex-pracinha Lucky Gagin (Robert Montgomery) chega a San Pablo, no México. Gagin tem em seu poder um cheque, com o qual pretende chantagear um gângster chamado Frank Hugo (Fred Clark)., responsável pelo assassinato de seu amigo Shorty. Ele faz amizade com Pila (Wanda Hendrix), uma jovem mexicana, e Pancho (Thomas Gomez) dono de um carrossel. Após um encontro inicial com Hugo, Gagin leva uma surra dos capangas do gângster. Pila e Pancho cuidam dos ferimentos de Gagin, mas não conseguem dissuadí-lo de procurar Hugo novamente. Hugo tenta convencer Gagin a lhe dar o cheque, porém este o entrega a Retz ( Art Smith), um agente d o FBI, que leva o bando preso.
Quando o gordo proprietário do carrossel pergunta a Gagin, “Você não é amigo de Pancho?”, ele responde: “Não sou amigo de ninguém”. Esta condição de alienado e a de veterano de guerra com o sentimento de vingança e amargura na alma (parece que a mulher o traiu) colocam-no entre os heróis noir, provavelmente o mais destituído de identidade, pois não sabemos seu prenome, nem de onde vem. A certa altura Pancho, meio bêbado, diz: “Você é o tipo do homem que eu gosto. O homem de lugar nenhum”.
Entretanto, como a ação se passa fora do ambiente urbano americano, o filme não pode ser considerado noir puro. É um drama criminal de mistério com um aspecto inusitado: a adolescente dotada de poderes de clarividência, espécie de anjo guardião que segue obstinadamente aquele indivíduo com a morte estampada no rosto.
Montgomery mantém a história sempre intrigante – também graças à sua própria interpretação taciturna e introspectiva – e extrai alguns bons efeitos fotográficos expressionistas como, por exemplo, na cena em que o carrossel em movimento, com as crianças montadas nos cavalos de madeira, deixa sua sombra no muro, diante do qual Pancho é espancado por dois bandidos.
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