O MOVIMENTO EXPRESSIONISTA ALEMÃO
No final de fevereiro de 1920, estreou um filme em Berlim que foi imediatamente reconhecido como algo novo no cinema: O Gabinete do Dr. Caligari / Das Kabinett des Doktor Caligari. Sua novidade atraiu a curiosidade do público e ele foi um grande sucesso. Escrito por Carl Mayer e Hans Janowitz, dirigido por Robert Wiene e fotografado por Willy Hameister, o filme utilizava cenários distorcidos e pintados em lonas como no teatro. Os atores não tentaram fazer uma interpretação realista; em vez disso exibiam movimentos bruscos ou dançantes. Os críticos anunciaram que o estilo Expressionista, já bem estabelecido na maioria das outras artes, abrira seu caminho no cinema.
O Expressionismo havia começado por volta de 1908 como um estilo em pintura e no teatro – surgindo em outros países Europeus, mas encontrando suas manifestações mais intensas na Alemanha. Na pintura, o Expressionismo foi promovido principalmente por dois grupos. Die Brücke, formado em 1906, tinha entre seus membros Ernest Ludwig Kirchner e Erich Heckel. Mais tarde, em 1911, Der Blaue Reiter, foi fundado: entre seus apoiadores estavam Franz Marc e Wassili Kandinsky. Embora estes e outros artistas expressionistas como Oskar Kokoscha e Lyonel Feininger tivessem estilos individuais distintos, eles compartilhavam algumas caraterísticas. Na pintura Expressionista figuras podem ser alongadas; os rostos são grotescas expressões angustiadas. Os edifícios podem ceder com o solo inclinado abruptamente desafiando a perspectiva tradicional. Tais distorções eram difíceis para filmes rodados em locação, mas Caligari mostrou como cenários construídos em estúdio poderiam se aproximar da estilização da pintura Expressionista.
No final da década de dez, o Expressionismo passou de ser uma experiência radical para ser um estilo amplamente aceito e até mesmo na moda. Assim quando O Gabinete do Dr. Caligari estreou, não foi um choque para os críticos e o público. Outros filmes expressionistas rapidamente se seguiram. A tendência estilística resultante durou até 1927.
O Expressionismo alemão distingue-se primeiramente pelo uso da cenografia. Em 1926, Hermann Warm, um dos cenógrafos do filme (conjuntamente com Walter Reimann e Walter Röhrig), declarou: “os filmes devem ser pinturas vivas”
De fato, os filmes expressionistas germânicos enfatizam a composição de tomadas individuais em um grau excepcional. Nos filmes clássicos, a figura humana é o elemento mais expressivo, e os cenários, figurinos e iluminação são geralmente secundários aos atores. Entretanto, nos filmes Expressionistas a expressividade associada com a figura humana estende-se a todos os aspectos da encenação. Durante os anos vinte, descrições dos filmes Expressionistas frequentemente se referiam aos cenários como “atuação” ou como uma mistura com os movimentos dos atores.
Talvez o traço mais óbvio e difundido do Expressionismo seja o uso de distorção e exagero. Nos filmes expressionistas, casas são frequentemente pontiagudas e torcidas, cadeiras são altas, escadas são tortas e irregulares. A atuação dos atores é deliberadamente exagerada para combinar com o estilo dos cenários. O décor tem a máxima importância. O ator trabalha em função do décor.
Conrad Veidt, que faz o papel de Cesare, o sonâmbulo sinistro, em Caligari, se mistura ao ambiente representado quando ele desliza na ponta dos pés ao longo de uma parede, sua mão estendida deslizando sobre sua superfície. O princípio do exagero também regia os close-ups dos atores. Em geral, os atores Expressionistas trabalhavam contra um efeito de comportamento natural, muitas vezes movendo-se bruscamente, parando, e então fazendo gestos repentinos.
Os realizadores de filmes Expressionistas eram atraídos por certos tipos de narrativas que se adequassem às características do estilo. O primeiro filme do movimento, O Gabinete do Dr.Caligari, usou a história de um louco para motivar as distorções Expressionistas com as quais o público de cinema não estava familiarizado. A história, em síntese, conta como um misterioso personagem, o Dr. Caligari (Werner Kauss), usa o sonâmbulo Cesare para cometer toda sorte de crimes. Desmascarados por um estudante, Franzis (Friedric Feher), o Dr. Caligari foge para um hospício. Franzis o alcança, mas reconhece no misterioso assassino o diretor do hospício. Quando a história termina ficamos sabendo que tudo saíra da imaginação de um louco – o próprio Franzis.
Entretanto, este não foi o caso na maioria dos filmes do movimento. Em vez disso, o Expressionismo foi frequentemente usado para narrativas que se passavam no passado ou em locais exóticos ou que envolviam elementos de fantasia ou horror -gêneros populares na Alemanha nos anos vinte.
O Tesouro / Der Schatz / 1923 (Dir: G.W.Pabst) acontece em algum ponto não especificado no passado e diz respeito a uma busca por um tesouro lendário. As duas partes de Os Nibelungos / Die Nibelungen / 1924 (Dir: Fritz Lang), A Morte de Siegfried / Siegfried e A Vingança de Kriemhild / Kriemhilds Rache, são baseadas no épico nacional germânico e inclui um dragão e outros elementos mágicos em um cenário medieval. Nosferatu / Nosferatu, eine Symphonie des Grauens / 1922 (Dir: F. W. Murnau) é uma história de vampiro passada no meado do século dezenove, e em O Golem / Der Golem, wie er in die Weit kam / 1920 (Dir: Paul Wegener – Carl Boese), o rabino do gueto medieval em Praga anima uma estátua de argila sobre-humana para defender a população judaica contra a perseguição. Numa variante desta ênfase no passado, o último grande filme Expressionista, Metrópolis / Metropolis / 1927 (Dir: Fritz Lang) se passa numa cidade futurística onde os operários trabalham em enormes fábricas subterrâneas e vivem em blocos de apartamentos tudo feito em estilo expressionista.
Mantendo esta ênfase em épocas remotas e acontecimentos fantásticos, muitos filmes Expressionistas têm histórias em camadas ou histórias independentes incorporadas dentro da estrutura narrativa mais ampla. Nosferatu é supostamente contado pelo historiador da cidade de Bremen, onde a maior parte da ação tem lugar. Dentro da narrativa, os personagens lêem livros: o Livro dos Vampiros explica as premissas básicas do comportamento dos vampiros, e entradas no diário de bordo do navio que transporta o Conde Orlak para Bremen relatam ação adicional. A história central de Sombras / Schatten -Eine nächtliche Halluzination / 1923 (Dir: Arthur Robinson) consiste em um teatro de sombras que um apresentador exibe durante um jantar, com as figuras das sombras ganhando vida e representando as paixões secretas dos convidados. Tartufo / Herr Tartüffe / 1925 (Dir: F.W. Murnau) começa e termina com uma história em camadas na qual um jovem tenta avisar seu pai idoso que a governanta quer se casar com ele por dinheiro; seu aviso toma a forma de um filme sobre a peça de Molière Tartuffe que constitui a história interna.
Alguns filmes expressionistas acontecem no presente. O Dr. Mabuse, o Jogador / Dr. Mabuse, der Spieler / 1922 de Fritz Lang, usa o estilo Expressionista para satirizar a decadência da sociedade germânica moderna: os personagens









