Arquivo diários:setembro 3, 2025

OS FILMES NOIRS DE RICHARD FLEISCHER

Richard O. Fleischer (1916-2006), filho de Max Fleischer, criador de desenhos animados famosos como Betty Boop e Popeye, começou no cinema a partir de 1940 dirigindo documentários, tendo sido um deles, Design for Death, vencedor do Oscar em 1947.

Richard Fleischer

Na sua carreira cinematográfica, além dos quatro filmes noirs abordados neste artigo, encontram-se inúmeros longas-metragens de apreciável valor artístico, distinguindo-se entre eles: 20.000 Léguas Submarinas / 20.000 Leagues Under the Sea / 1954, Um Sábado Violento / Violent Saturday / 1955, Vikings, os Conquistadores / The Vikings / 1958, Fama a Qualquer Preço / These Thousand Hills / 1959, Estranha Compulsão / Compulsion / 1959,Tragédia num Espelho / Crack in the Mirror / 1960, Barrabás / Barabbas / 1961, Tora! Tora! Tora! / Tora!, Tora!, Tora! / 1970.

A partir de 1949 Fleischer começou a fazer seus filmes noirs.

ALMAS EM SOMBRAS / THE CLAY PIGEON  (RKO,1949).

O marujo Jim Fletcher (Bill Williams)  acorda desmemoriado em um hospital da Marinha e fica espantado ao tomar conhecimento de que vai ser submetido a uma corte marcial por traição e assassinato. Foge e vai procurar seu companheiro de farda, Mark Gregory, mas fica sabendo que este foi justamente a vítima dos crimes pelos quais está sendo acusado. Com a ajuda da viúva, Martha (Barbara Hale) , consegue descobrir quem matou o amigo.

O único elemento noir do filme, salvo uma ou outra cena com iluminação escura, é o tema do veterano que retorna da guerra sem relembrar  de nada e se dispõe a reconstituir seu passado, sofrendo várias atribulações.

Martha resume bem sua situação de desespero: “Você está lutando contra um inimigo que não conhece”.

Fleischer conduz a curta narrativa  em um ritmo ágil, conseguindo alguns bons efeitos dramáticos, como na sequência  em que Jim é perseguido  por três bandidos pelas ruas de Chinatown e se refugia na casa de uma nipo-americana. O chefe deles pergunta se tem alguém no quarto onde ele se esconde e a jovem responde  que ali só está o seu bebê. Quando o homem se dirige para lá, Jim quebra um brinquedo  e o choro da criança desvia a atenção do facínora.

A cena de abertura também é interessante: vemos o herói dormindo no leito do hospital e as mãos que se aproximam do seu rosto, apalpando-o e depois tentando estrangulá-lo, revelando-se logo em seguida que se trata de um paciente cego, indignado com o suposto traidor (“O doutor disseque nunca mais poderei enxergar. Não me importaria tanto, se ao menos pudesse vê-lo enforcado, um cara como esse”).

O ESTRANGULADOR MISTERIOSO / FOLLOW ME QUIETLY (RKO, 1949).

O detetive Harry Grant (Wiliam Lundigan) e seu colega Collins (Jeff Corey) procuram um assassino, conhecido como “o Juiz”, que estrangula as pessoas nos dias de chuva e deixa bilhetes desafiadores para a polícia. Na sua mente perturbada, ele se vê como um justiceiro que há de livrar o mundo de toda a escória. Grant pensa em abandonar o caso, mas finalmente encontra uma pista que leva ao reconhecimento do “Juiz”, na realidade um indivíduo desequilibrado, chamado Charlie Roy (Edwin Max).

Apesar de certas inverossimilhanças, o espetáculo  consegue manter o espectador sempre preso ao desenrolar da trama.

Nesta aparecem certos toques noir entre os quais a figura grotesca do psicopata moralista (“O salário do pecado foi pago”) e provocador (“Eu sou o Juiz . Eu sou a Lei. Vocês  não viverão o suficiente para me prender”) e o expressionismo de certas cenas.

A notável é aquela em que o boneco, colocado numa cadeirada delegacia, se revela à platéia como “o Juiz”, enquanto a chuva escorre pela vidraça.

Outras cenas interessantes são as da apresentação do boneco às testemunhas, quando a câmera se aproxima dele e, subitamente, ele se vira de frentes sem suas feições; a chegada de Charlie Roy à sua casa, subindo as escadas com o rosto escondido pelo chapéu até que,  focalizado em primeiro plano, levanta a cabeça e vemos pela primeira vez o seu semblante, de óculos e com o cigarro na boca; a perseguição através do labirinto de canos e ferragens da fábrica, captados por sugestivos enquadramentos.

IMPÉRIO DO TERROR / ARMORED CAR ROBBBERY (RKO,1950).

Dave Purvis (William Tallman) e seu bando, do qual fazem parte Mapes (Steve Brodie), Foster (Gene Evans) e Benny (Douglas Fowley), assalta o carro forte que recolhe a arrecadação deum estádio . Após uma discussão sobre a partilha do dinheiro roubado, Purvis mata Benny. Os policiais, comandados pelo Tenente Cordell (Charles McGraw),  ceram os ladrões. Foster é morto, Mapes foge em uma lancha e Purvis escapa por outro caminho, levando a mala com o dinheiro. Cordell e seu auxiliar Ryan (Don McGuire)acabam prendendo Mapes. Cordell manda Ryan abordar Yvonne (Adele Jergens), a amante de Purvis. Assim, Cordell chega ao aeroporto onde está o criminoso que, ao fugir, é atropelado por um avião que acabara de descer.

Filme de assalto, rápido e despretensioso, o espetáculo possui o estilo visual noir,

sendo que, nas cenas passadas no esconderijo dos ladrões e nas do interrogatório de Mapes, a fotografia escura chama mais atenção.

A história é simples, mostrando o roubo  e o que acontece com os quatro ladrões. Tem aquele lance curioso do assassino  obcecado pelo anonimato, que tira as etiquetas de suas camisas e muda constantemente de endereço para não ser identificado e não tenta explicar psicologicamente o criminoso ou glorificar os agentes da lei.

Fleischer dá boa continuidade à ação e mantém o espectador sempre interessado na trama, cujos momentos mais criativos são o assalto  no meio da fumaça sob o som estridente dos torcedores no estádio; a prisão de Mapes no teatro durante o show de Yvonne; e o final no aeroporto, que lembra o de O Grande Golpe / The Killing / 1956 de Stanley Kubrick, mas não tem o mesmo suspense nem a mesma ironia.

TRILHOS SINISTROS / THE NARROW MARGIN (RKO, 1952).

O detetive Walter Brown (Charles McGraw) e seu colega Gus Forbes (Don Beddoe) são designados para escolar Mrs. Neil (Marie Windsor), a viúva deum gângster, para que ela possa depor contra o crime organizado. Forbes é logo morto pelos gângsteres, mas Brown  consegue fugir com Mrs. Neil. Durante a viagem de trem, Brown faz amizade com Ann Sinclair (Jacqueline White), que está viajando com o filho. Os gângsteres tentam subornar Brown sem êxito e finalmente conseguem matar Mrs. Neil, que era uma policial fingindo ser a testemunha. Quando Brown diz a Ann que é detetive esta lhe revela que é a verdadeira Mrs. Neil  e ele não foi informado de sua verdadeira identidade, porque seus superiores não tinham certeza de que resistiria a um suborno.

A maior parte da história tem por cenário um trem, onde as cenas se desenrolam nas cabines, no carro-restaurante, nos corredores, em minúsculos lavatórios etc.

Fleischer faz um uso cinematográfico engenhoso desses interiores restritos. As janelas do trem, espelhos, portas e armários que integram a ação a todo momento, são utilizadas com muita atenção para o detalhe. Por exemplo, na morte da falsa Mrs. Neil, quando vemos apenas as mãos da vítima segurando a porta do armário e a imagem do assassino refletida no espelho da cabine.

Os aposentos apertados causam uma sensação de claustrofobia – algo que faz parte da atmosfera noire.

Outro vestígio dark, além da fotografia escura, é a  situação em que se vê envolvido o protagonista. Brown estava totalmente “no escuro” sem saber exatamente quem era a testemunha pela qual deveria arriscar sua vida e ignorando a desconfiança dos seus superiores, cujas ordens, seja lá quais fossem, teria de acatar.