Cada um dos grandes estúdios mantinha um departamento de música que incluia uma equipe permanente de compositores, arranjadores, orquestradores, orquestra e coro, maestros, coreógrafos, e preparadores vocais.
Para fazer um musical era necessário aproximadamente o dobro do trabalho requerido por um filme dramático ou de comédia pura, necessitando semanas de ensaio e muitas reuniões para planejar os números de música e dança, decidir sobre os cenários, coordenar os figurinos, e determinar os orçamentos para cada sequência.
Os musicais da tela chegaram com o som. Al Jolson cantou mais do que falou em O Cantor de Jazz / The Jazz Singer / 1927, o talkie revolucionário da Warner Bros. Porém a era dos filmes musicais criativos realmente começou na Warner em 1933 com Rua 42 / 42nd Street, um marco cinematográfico criado pelo gênio do ex-diretor de dança da Broadway Busby Berkeley.
Ele descobriu por instinto que a câmera tinha de dançar mais que os próprios dançarinos e, com extraordinária imaginação e notável senso visual, elaborou um estilo inconfundível. Busby acompanhava os bailarinos em travelings velozes até chegar às tomadas de ângulo superior sobre os motivos geométricos de suas evoluções, que se compunham e se desmanchavam como num caleidoscópio. E usando também, com muita audácia, cenários gigantescos, luxo, sensualidade e estilização, forjou beleza e fantasia inimitáveis, constituindo-se um dos mais peculiares contribuidores da arte cinematográfica.
Como Busby era um perfeccionista, seus filmes eram dispendiosos, envolvendo frequentemente cem coristas no palco ao mesmo tempo. Seus filmes lançaram uma nova moda nos musicais da tela. Depois de Rua 42 vieram Cavadoras de Ouro / Gold Diggers of 1933, Belezas em Revista / Footlight Parade (também de 1933), e Mulheres e Música / Dames / 1934, todos com músicas de Harry Warren e Al Dubin.
A reputação de ambos foi firmada em 1935 quando “Lullaby of Broadway”, um número com música de Warren e letra de Dubin – cantada por Wini Shaw e Dick Powell e dançada por Ramon e Rosita em Mordedores de 1935 / Gold Diggers ot 1935 – filme que elevou o Diretor de Dança Busby à condição de Diretor – ganhou o Oscar de Melhor Canção.
Após o sucesso da Warner Bros. com Rua 42, a RKO rapidamente entrou em campo, criando uma sensação ao emparelhar os dançarinos Fred Astaire e Ginger Rogers em Voando para o Rio / Flying Down to Rio / 1933. A popularidade do filme não somente resgatou o estúdio que atravessava dificuldades financeiras, mas também consagrou Rogers e Astaire como talvez a dupla de dançarinos mais extraordinária na história de Hollywood.
A Universal encontrou a solução para a sua solvência financeira em Deanna Durbin, uma cantora adolescente com treinamento clássico, que o produtor Joseph Pasternak apresentou em uma série de musicais populares, começando com Três Pequenas do Barulho / Three Smart Girls / 1936. Charles Previn, o tio de André Previn, chefiava o departamento musical da Universal durante o início do reinado de Durbin.
A Metro-Goldwyn-Mayer produziu os musicais mais opulentos e inovadores. Na década de quarenta e três grandes produtores na Metro se especializaram em musicais – Arthur Freed, Joseph Pasternak, e Jack Cummings. Arthur Freed, ele próprio um compositor talentoso, compôs “Singin’ in the Rain”, entre outras incontáveis canções, e produziu os musicais mais sofisticados de Hollywood. Freed havia crescido no mundo do vaudeville, entendia música, e conhecia as figuras de destaque no campo da música popular. Ele transformou Judy Garland, Gene Kelly, e Cyd Charisse em atores; trouxe June Allyson, Van Johnson, Nancy Walker, e o coreógrafo Robert Alton da Broadway; deu ao diretor de arte Vicente Minnelli e ao coreógrafo Charles Walters a chance de dirigir; dotou sua equipe de brilhantismo – Lennie Hayton, Kay Thompson, Ralph Blane, Hugh Martin, John Green, e Roger Edens. Louis B. Mayer concedeu ao produtor autoridade total, de modo que a unidade Freed se tornou praticamente autônoma. Freed justificou a confiança de Mayer produzindo uma série de sucessos de bilheteria – Desfile de Páscoa / Easter Parade / 1948, Ciúme, Sinal de Amor / The Barkleys of Broadway / 1949, Sinfonia de Paris / An American in Paris / 1951.
Os filmes de Joe Pasternak tinham um charme antigo e uma doçura. Ele gostava da fábulas e contos de fadas e acreditava no que os trabalhadores do estúdio chamavam de “Pasternak Land”. No “País de Pasternak” havia regras, explicou o diretor George Sidney: “Nenhumas pessoas terríveis, e no final tudo acabava bem”. Pasternak preferia sopranos ingênuas capazes de cantar os clássicos familiares – Kathryn Grayson, Jane Powell, Ann Blyth – mas ainda assim gostou de José Iturbi tocando piano e da voz do poderosa e dramática do tenor Lauritz Melchior. Pasternak produziu os filmes de Mario Lanza inclusive o Grande Caruso / The Great Caruso / 1951.
Embora Jack Cummings gostasse de musicais e fosse musicalmente sensível, para conhecimento técnico ele contava com o seu produtor associado, Saul Chaplin, um músico versátil. O musical mais importante de Cummings foi Sete Noivas para Sete Irmãos / Seven Brides for Seven Brothers / 1957, que continha uma coreografia enérgica de Michael Kidd. Cummings também foi responsável por vários sucessos de Esther Williams, assim como tais releituras de êxitos da Broadway como O Amor Nasceu em Paris / Lovely to Look At / 1951 e Dá-me um Beijo / Kiss Me Kate / 1953.
Talentos notáveis foram reunidos no departamento de música da Metro. Herbert Stothart, que com Rudolf Friml havia escrito a opereta Rose Marie, inicialmente era o principal maestro do estúdio, posição assumida posteriormente por John Green, que chefiou o departamento de 1949 a 1958, levando-o ao seu auge. Além disso, havia os arranjadores Connie Salinger e André Previn, o orquestrador Adolph Deutsch, a diretora de danças austríaca Albertina Rasch, o preparador vocal Arthur Rosenstein, a quebra-galho do departamento Lela Simone, e uma longa lista de outros talentos que trabalhavam bem juntos. Em casos especiais coreógrafos de balé (entre eles Eugene Loring e David Lichine) eram contratados pelos produtores da Metro.
Se um ator ou atriz da MGM tivesse que dançar em um filme instrutores estariam no set de filmagem, para ensiná-los a polka, a mazurka, o que fosse necessário. A Metro mantinha 16 rapazes e16 moças sob contrato para conjuntos de danças, e os trajes para cada filme seriam feitos expressamente para eles.
O dançarino Gene Kelly foi responsável por muitos dos musicais mais inovadores da Metro. Grande parte da inovação de Kelly começou com Modelos / Cover Girl / 1944, um filme de Rita Hayworth que ele fez emprestado para a Columbia. O número mais notável em Modelos é “Alter Ego” no qual ele fala e dança com a sua própria imagem, um feito técnico realizado com a ajuda de seu assistente Stanley Donen e do diretor de fotografia Rudolph Maté.
De volta para a Metro, que era então o estúdio caseiro de Kelly, os produtores perceberam o que este dançarino talentoso podia fazer e lhe deram a liberdade de que necessitava. Em Marujos do Amor / Anchors Aweigh / 1945 ele dançou com Jerry, o ratinho do desenho animado da MGM, superando grandes problemas técnicos. Originalmente Kelly deveria dançar com Mickey Mouse, porém os planos tiveram que ser mudados quando Walt Disney se recusou a deixar Mickey aparecer num filme da MGM.
Um Dia em Nova York / On the Town / 1949 que Kelly co-dirigiu com Donen, abriu caminho ainda mais. Mais livre em forma e coreografado com uma explosão de energia, suas danças eram apresentadas em locais reais, conferido ao filme um aspecto realista. Sinfonia de Paris terminava com um balé de 17 minutos sob a música de George Gershwin, que custou ao estúdio meio milhão de dólares. Irene Sharaff desenhou aproximadamente 500 trajes só para aquela sequência.
Além dos compositores sob contrato, a Metro adquiriu os serviços dos melhores autores de canções e letristas da Broadway para criar material original para seus filmes – Cole Porter, Irving Berlin, Harold Arlen, Ira Gershwin, Alan Jay Lerner, Frederick Loewe.
Embora a pequenina Columbia não pudesse competir com a Metro na maioria das áreas, ela disputou com uma oferta limitada de musicais, geralmente estrelados por Rita Hayworth. Dois filmes de Hayworth, Ao Compasso do Amor / You’ll Never Get Rich / 1941 e Bonita como Nunca / You Were Never Lovelier / 1942, uniu-a com Fred Astaire, que havia conhecido seu pai, Eduardo Cansino, no vaudeville.
A Twentieth Century-Fox também obteve sucesso com musicais – primeiro com Alice Faye e depois com Betty Grable. Faye era a melhor cantora das duas, estrelando em filmes como A Epopéia do Jazz / Alexander’s Ragtime Band / 1938, A Vida é uma Canção / Tin Pan Alley / 1940, Uma Noite no Rio / That Night In Rio / 1941, Aquilo, Sim, Era Vida / Hello Frisco, Hello / 1943 e Entre a Loura e a Morena / The Gang’s All Here/ 1943.
Grable era principalmente dançarina, conhecida por suas lindas pernas e entre seus filmes estavam Serenata Tropical / Down Argentine Way / 1940, Minha Secretária Brasileira / Springtime in the Rockies / 1942, Turbilhão / Coney Island / 1943, e Mulheres e Diamantes / Diamond Horseshoe / 1945, que contribuiram para que ela fosse selecionada como a ”pinup girl” numero um pelos militares durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde Grable trabalhou ao lado de Dan Dailey em … E os Anos Passaram / Mother Wore Tights / 1947, Quando Sorri o Amor / When My Baby Smiles at Me / 1948, A Cegonha Demora-se / My Blue Heaven / 1950 e Minha Cara Metade / Call Me Mister / 1951.
Além de Betty Grable e Alice Faye, a Fox tinha June Haver, Vivian Blaine, e a “brazilian bombshell” Carmen Miranda sob contrato para musicais; Dick Haymes, Tony Martin, e Perry Como eram os equivalentes da Fox de Bing Crosby. Seymour Felix, um diretor de dança antiquado fez muita coreografia da 20thCentury-Fox, enquanto Alfred Newman, era chefe do departamento de música e Ken Darby o principal preparador vocal do estúdio.
A Warner Bros, voltou a produzir musicais durante os anos quarenta com uma sucessão de filmes de orçamento modesto apresentando Doris Day, Gordon MacRae, Gene Nelson, Patrice Wymore, e ocasionalmente Virginia Mayo e o veterano James Cagney. Doris Day foi apresentada com Romance em Alto-Mar / Romance on the High Seas / 1948 e alcançou popularidade em No, No Nanette / Tea for Two / 1950, Meus Braços te Esperam / On Moonlight Bay / 1951, e Ardida como Pimenta / Calamity Jane / 1953. Ex-vocalista de banda com treinamento de dança, Doris tinha um estilo de canto único e trabalhava bem com Ray Heindorf, chefe do departamento de música da Warner Bros. “Ele sabia quando eu queria respirar, quando eu queria parar ou diminuir o ritmo”, ela disse. A maior parte da coreografia na Warner Bros. naquela época era supervisionada por LeRoy Prinz que, tal como Busby Berkeley, era bom com ângulos de câmera.
A Republic, que fazia mais westerns, não tinha um departamento de música quando Gene Autry chegou em 1935. O cowboy cantor selecionava suas próprias canções. Quando Dale Evans apareceu no estúdio em 1943, para dividir o estrelato com Roy Rogers, a Republic havia adicionado uma divisão musical sob as ordens de Martin Scott.
Em meados da década de cinquenta a era dos musicais originais para o cinema estava chegando ao fim. Os custos de produção dispararam, e um público mais sofisticado estava cansado de espetáculos de canto e dança simplistas. O Mundo da Fantasia / There’s No Business Like Show Business / 1954 foi o último musical original da 20th Century-Fox até A Estrela / The Star ! /1968, um desastre notório. Sete Noivas para Sete Irmãos / Seven Brides for Seven Brothers / 1956, Les Girls / Les Girls / 1957, e Gigi / Gigi / 1958 representaram os esforços gigantescos finais da Metro. O que restou foram principalmente adaptações para a tela de shows da Broadway v. g. Oklahoma! / Oklahoma! / 1955, Carrossel / Carousel / 1956, Vendedor de Ilusões / The Music Man / 1962, Minha Bela Dama / My Fair Lady / 1964.
Para a elaboração deste artigo consultei o magnífico livro de Ronald L. Davis The Glamour Factory Inside Hollywood´s Big Studio System . Southern Methodist University Press, Dallas, 1993























