Arquivo diários:dezembro 3, 2025

ASTROS E ESTRELAS NA ERA DOS GRANDES ESTÚDIOS

Houve um tempo em que não havia astros e estrelas de cinema. Nos primeiros filmes não havia sequer créditos de abertura. Nos primeiros dias do cinema mudo os chefões dos estúdios não anunciavam os nomes dos atores, percebendo que a fama traria pressão por salários mais altos. Durante o primeiro ano ou dois Mary Pickford era conhecida simplesmente como “The Girl With the Golden Curls” (A Garota Com Cachos Dourados). Finalmente o público exigiu saber o nome dela, e a primeira superestrela do cinema nasceu. Mas o poder dos astros e estrelas cresceu rapidamente. O marido de Pickford, Douglas Fairbanks, mandava em seus filmes, chegando a dizer aos diretores o que fazer.

 

Mary Pickford e seus cachos

Os astros e estrelas tornaram-se parte integral da magia do cinema logo no início, e ninguém deu uma contribuição maior do que Lillian Gish, que aprimorou a maioria dos clássicos de David Wark Griffith. O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation / 191, Horizonte Sombrio / Way Down East / 1920, e Vento e Areia / The Wind / 1928 consagraram Lillian como uma atriz do cinema mudo sem igual.

Lillian Gish

Greta Garbo em Laranjais em Flor

Porém foi Greta Garbo quem mais mobilizou o público e a indústria com sua presença e glamour fazendo a transição para o som com sucesso. Nascida com o nome de Greta Gustafsson na Suécia, Garbo chegou em Hollywood como protegida do diretor Mauritz Stiller. Ela se tornou uma sensação no seu primeiro filme norte-americano Laranjais em flor / Torrent / 1926, produzido pela MGM.

Em 1926 o som começou a penetrar na indústria, e em 1928 era essencial, quer os cineastas gostassem ou não. O som produziu uma reviravolta com muitas personalidades da tela não sendo mais aceitáveis, como foi o caso, por exemplo, de John Gilbert e Corinne Griffith.

Paul Muni

Para preencher o vazio, os estúdios de cinema começaram a invadir os palcos da Broadway. Atores oficialmente reconhecidos como Fredric March, Paul Muni, James Cagney, Spencer Tracy, e Pat O’ Brien decidiram tentar a sorte em Hollywood. Assim que fizeram sucesso em uma peça, os estúdios ficaram ansiosos para testá-los. Qualquer pessoa com treinamento de palco era muito requisitada, inclusive estudantes de arte dramática, e jovens com experiência teatral – Bette Davis, Joan Bennett, Katharine Hepburn – de repente se viram em uma posição vantajosa.
No início dos anos trinta, a Warner Bros. anunciou o aclamado ator de teatro Paul Muni como “Mr. Paul Muni”. Muni dependia de sua esposa, Bella, e muitos sentiam que ela o dominava. Bella ficava atrás da câmera, e se não gostasse do resultado de uma cena, ela balançava a cabeça negativamente. Muni exigiria que a cena fosse refilmada.

Spencer Tracy

Spencer Tracy emergiu como ator supremo da tela, aperfeiçoando a arte de reagir. Tracy estava sempre preparado e não só tinha uma maneira de se expressar que tornava o diálogo natural, como também fazia com que até o menor gesto parecesse espontâneo.

Gary Cooper

Ronald Colman

Alguns atores nunca entenderam a técnica da câmera; eles nunca perceberam que a câmera capta tudo. Cenas íntimas em particular exigem grande concentração. Somente um ator de cinema, Gary Cooper, aperfeiçoou sua técnica para que soubesse como reagir diante da câmera. “Ele aprendeu a usar seus olhos de forma tão sutil e tão bem” explicou a atriz Barbara Rush. Ronald Colman veio do teatro e possuía uma voz magnífica, mas tal como Cooper, entrou para o cinema durante a era do cinema mudo. “Você achava que Ronnie não estava fazendo absolutamente nada”, disse a atriz Jane Wyatt, que trabalhou com Colman em Horizonte Perdido / Lost Horizon / 1937. “Tudo acontecia nos olhos dele”.

 

Mary Pickford e Douglas Fairbanks

Embora os astros e estrelas às vezes se sentissem como fantoches nas mãos dos produtores e diretores, eles se tornaram deuses e deusas para o público ao redor do mundo. No seu auge Douglas Fairbanks e Mary Pickford eram provavelmente o casal mais famoso do mundo devido à ampla distribuição de filmes mudos. John Gilbert e Rudolph Valentino eram admirados por milhões.
Na década de trinta as mulheres faziam fila para ver o que Joan Crawford estava vestindo em seu filme atual, e os estilistas levavam em consideração o desejo do público. No início dos anos quarenta salões de beleza por toda a América do Norte anunciavam o estilo de cabelo “peekaboo” de Veronica Lake, e meninas em todo país cortavam o cabelo para ficarem parecidas com June Allyson.

Veronica Lake

Depois que Anne Frank havia morrido num campo de concentração, o mundo descobriu que entre os pertences que esta filha do Holocausto tanto estimava durante os últimos dias de sua família estava uma fotografia do ator de Hollywood Robert Stack.
Ainda na década de trinta agentes poderosos apareceram em Hollywood – Myron Selznick, Minna Wallis, Leland Hayward – que negociaram cláusulas vantajosas para seus principais clientes, às vezes dividindo seu contrato de trabalho entre estúdios, garantindo a aprovação de direção e elenco para eles, e que eles tivessem camarins e acomodações compatíveis com seus salários.

Veronica Lake e Alan Ladd

Escritórios de seleção de elenco (casting offices) tentavam posicionar atores e atrizes da forma mais estratégica possível, formando uma dupla para que a “química” entre eles capturasse a atenção do público. Assim que Alan Ladd e Veronika Lake fizeram sucesso em Alma Torturada / This Gun For Hire / 1942 a Paramount os emparelhou novamente em Capitulou Sorrindo / The Glass Key / 1942.
Embora os estúdios insistissem na lealdade de seus artistas contratados, em troca, cuidavam de quase tudo para eles, tanto pessoalmente quando profissionalmente. “Se você não gostasse do cozinheiro que você tinha”, Rock Hudson disse, “você dizia ao estúdio, e outra pessoa era contratada. A casa onde morava, as compras, o jardineiro, suas refeições, tudo era gerenciado para que a única coisa com que precisasse se preocupar fosse o seu desempenho”.
Se os artistas quisessem uma passagem de avião, ligavam para o departamento de viagens do estúdio, e eles eram recebidos no lugar de destino por alguém para cuidar dos detalhes. Se precisassem de uma carteira de motorista, algum inspetor do departamento de veículos motorizados vinha ao estúdio. Se tivessem dor de cabeça três médicos viriam ao estúdio com três comprimidos e três injeções.
Os artistas reclamavam quando o estúdio os emprestava para outras empresas para obter lucro. Por outro lado as estrelas e os astros ficavam frequentemente irritados quando seus estúdios se recusavam a emprestá-los para um papel que desejavam. Rock Hudson recebeu uma oferta para fazer Ben-Hur / Ben-Hur / 1959 na Metro, mas a Universal não permitiu a não ser que ele acrescentasse mais anos no seu contrato, o que ele se recusou a fazer.
Os grandes estúdios podiam ser rancorosos colocando na lista negra os atores ou atrizes que incorressem na sua ira. Se estes ficassem inquietos ou ameaçassem pedir demissão, nenhum outro grande estúdio os contataria sem a permissão de seus estúdios de origem.

Olivia de Havilland em … E O Vento Levou

A Warner Bros. tornou-se notória por suas suspensões. A ameaça de suspensão era suficiente para fazer a maioria dos astros e estrelas se submeter. Entretanto vários atores e atrizes processaram seus estúdios: Bette Davis e James Cagney contra a Warner Bros, Carole Lombard contra a Paramount, Katharine Hepburn contra a RKO, Margaret Sullavan contra a Universal e Eddie Cantor contra Samuel Goldwyn. Quando a Warner Bros. lhe entregou uma série de scripts medíocres, após o seu triunfo em … E O Vento Levou / Gone with the Wind / 1939 para Selznick, Olivia de Havilland se rebelou. Suspensa, ela levou seu caso para Corte Superior da Califórnia. Furioso, Jack Warner colocou-a na lista negra de todos os estúdios de Hollywood. Até que em março de 1944, o tribunal proferiu a histórica decisão a favor da atriz.
Sempre houve gradações na capacidade de atuação, mas os astros e estrelas da Era de Ouro se enquadravam em duas categorias básicas – atores e personalidades. “Um tipo de habilidade de atuação realmente incorpora o personagem, e você nem sabe que ele é ator” explicou o diretor Henry Koster. “O outro é sempre um ator, mas é tão bom que não importa o que ele faça, você admira e acredita em cada fala que ele diz”.

Bette Davis

Até Spencer Tracy, embora se aprofundasse nos papéis que interpretava, era sempre Spencer Tracy, e Bette Davis permaneceu Bette Davis, embora sua técnica fosse aprimorada à perfeição. Ambos eram atores genuínos com personalidades marcantes em frente às câmeras.
Muitos artistas admitiram ser tímidos e a maioria era sensível e vulnerável. Alan Ladd também sofria de crises crônicas de alcoolismo. Simples e reservado, Ladd
interpretou papéis de durão muito diferentes da sua própria natureza. Na tela ele se tornou o pistoleiro machão apesar de ter menos de um metro e setenta de altura. Durante close-ups com atrizes mais altas do que Veronica Lake, ele subia em cima de uma caixa. Em outras tomadas andava por uma plataforma, ou sua protagonista trabalhava em uma trincheira. A imagem que ele projetava na tela e a realidade eram completamente diferentes e esta vergonha e este constrangimento o acompanharam ao longo de toda a sua carreira, intensificando inseguranças presentes desde a infância.

Marilyn Monroe

Marilyn Monroe tinha o temperamento der uma criança – ingênua, doce, longe de ser ignorante, mas aprendia devagar. Ficou difícil trabalhar com ela e sempre chegava atrasada no set de filmagem porque era tão insegura de si mesma, com medo do estrelato que havia lutado para conseguir. “Ela possuia um charme infantil aliado a uma grande atração sexual”, observou o diretor Joseph M. Newman. “Era um talento natural que possuía, mas acho que nunca se deu conta disso. E em vez de se contentar com seu talento nato estava tentando se tornar uma grande atriz dramática. No fundo era um garota legal”. Colegas do elenco achavam agonizante trabalhar com ela. Eles estariam no estúdio prontos para começar às nove da manhã, e Marilyn só apareceria às cinco da tarde, incapaz de reter mais do que algumas páginas do diálogo.
Um dos preços mais altos pagos pelos astros e estrelas era a perda do anonimato. Eles não podiam mais parar num supermercado, sair para um encontro, ou participar de quaisquer atividades públicas sem serem reconhecidos e assediados por uma multidão de fãs. Esta atenção frenética aumentava a confusão e a infelicidade de um ator inseguro.
Finalmente os astros e estrelas perceberam que poderiam ganhar mais dinheiro trabalhando como freelancers. Liberdade de um contrato com um estúdio trazia o direito de dizer não a papéis que um ator ou atriz julgassem inadequados. Mas liberdade também significava fazer julgamento sobre roteiros e decidir sobre inúmeros detalhes que os velhos estúdios cuidavam; em retrospectiva o sistema muitas vezes parecia mais atraente do que o trabalho freelancer.
Até mesmo Bette Davis que havia lutado vigorosamente contra a Warner Bros. quando estava sob contrato, percebeu que após dezenove anos era muito difícil deixar a segurança financeira que o estúdio lhe proporcionava.

Para elaboração deste artigo consultei o magnífico livro de Ronald L. Davis The Glamour Factory Inside Hollywood’s Big Studio System Southern Methodist University Press, Dallas, 1993