OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

Por intermédio de um antigo represente da Pathé que eles haviam conhecido em Moscou um grupo de cineastas refugiados tomou posse de um velho estúdio abandonado em Montreuil-sous-Bois, generosamente colocado à sua disposição por Charles Pathé. Foi lá que, sob a marca Albatros, a pequena colônia russa criou numerosas obras cinematográficas que podemos classificar entre as melhores de seu tempo.

Estes homens, foram chamados os Russos Brancos, pois a maior parte acabava de escapar do novo regime soviético. Eles foram então se refugiar através da Europa, na Alemanha e na França, sobretudo nos anos vinte. Seus nomes: Alexis Granowski, Anatole Litvak, Léonide Moguy, Fédor Ozep, Vladimir Strijewski, Victor Tourjansky, Victor Trivas, Alexandre Volkoff e Ivan Mosjoukine.

Na sua maior parte, os filmes dos Russos Brancos continham intrigas adaptadas dos grandes autores da literatura russa: Tolstoi, Pushkin, Gogol, Dostoievsky ou quando não era o caso simplesmente de Joseph Kessel, romancista argentino que viveu os primeiros dias de sua infância na Rússia e depois se tornou um romancista francês.

Esta corrente, uma das mais insólitas do cinema francês, não proporcionou obras-primas duradouras. Eram na sua maioria histórias românticas desgrenhadas e melodramáticas, mas que tinham um certo encanto. Atores com uma bela presença – Pierre Richard-Willm, Victor Francen, Pierre Blanchar – se consagraram com este tipo de filme. O sucesso destas realizações influenciou outros cineastas: Marcel L’Herbier (Noites de São Petersburgo / Nuits de Feu / 1937; Rasputin – A Tragédia Imperial / Tragédie Imperiale / 1938; Jean Dréville (Troïka sur la piste blanche / 1937 e Sonata de Kreutzer / Les Nuits blanches de Saint-Petersbourg / 1938, Pierre Billon (Ao Serviço do Tsar / Au Service du Tsar / 1936.

Alexis Granowski

Assim como outros de seus compatriotas, Alexis Granowski (Abraham Azarkh, (1899-1937) trabalhou primeiro na Alemanha antes de chegar na França. Deve-se a ele lá, por exemplo, Die Koffer des Herrn O.F. /1931. Já na França, ele fez:  a comédia Les Aventures du Roi Pausole / 1933 com Edwige Feuillère no elenco; a adaptação cinematográfica do romance de Pierre Benoît Noites Moscovitas / Les Nuits Moscovites / 1934, com Harry Baur e o par Annabella e Pierre Richard-Willm; Taras Bulba / Tarass Boulba / 1936, outra adaptação literária de Pierre Benoît com Harry Baur (no papel do cossaco gargantuesco), Jean-Pierre Aumont e Roger Duchesne como seus filhos André e Ostap e Danielle Darrieux como Marina, a nobre polaca que seduz André e o faz trair seu pai.

Anatole Litvak

Ator muito popular na União Soviética, Anatole Litvak (Anatoly Mikhailovich Litvak, (1902-1974) torna-se diretor com seu primeiro longa metragem intitulado Tatiana / 1925. Ele está em Berlim no começo do cinema falado depois em Paris onde realiza Coeur de Lilas / 1932, seu primeiro filme francês e depois: Ave de Rapina / Cette Vieille Canaille / 1933 com Harry Baur Pierre Blanchar e Alice Field; Tripulantes do Céu / L’Equipage / 1935 com o quarteto Annnabella, Jean-Pierre Aumont, Charles Vanel e Jean Murat; Mayerling / Mayerling / 1936 com o casal Charles Boyer e Danielle Darrieux encarnando os amores trágicos de Marie Vetsera e o Arquiduque Rodolphe. Este filme marca uma reviravolta importante na filmografia do cineasta porque foi o seu último longa-metragem francês antes de sua ida para os Estados Unidos.

Léonide Moguy

Léonide Moguy (Leonid Mohylevskyi, 1899-1976) começou sua carreira no cinema como técnico, codirigindo Baccara / 1935 com Yves Mirande e depois assumiu sozinho a responsabilidade de Le Mioche / 1936. Em seguide ele fez: Mulheres sem Homens / Prison sans Barreaux / 1937; Conflito / Conflict / 1938; A Caminho do Front / J’Attendrai / 1939 com ação situada na Primeira Grande Guerra. Em 1940, após ter feito L’ Empreinte du Dieu / 1940, Moguy partiu para os Estados Unidos.

Fédor Ozep

A carreira cinematográfica de Fédor Ozep (Fyodor Otsep, 1895-1949) começou na Rússia. Ele foi um dos autores do roteiro com inspiração fantástica de Aelita (Dir: Yakov Protazanov / 1924). Depois ele filmou na Alemanha Zhivoy trup / Cadáver Vivo / 1929 baseado numa peça de Tolstoi. No curso dos anos trinta estava na França, onde realizou em duas versões, francesa e alemã, Les Frères Karamazov / 1931, adaptação renomada do grande romance de Dostoievsky com Anna Sten como Gruschenka e o argumento de Victor Trivas e a fotografia de Fritz Rasp, acentuando o clima de fascinação que o filme exerceu sobre o público.

Em 1932 o jovem diretor se instalou na França, onde realizou Miragens de Paris / Mirages de Paris em 1932; o esplêndido Amok /Amok / 1934, baseado num conto de Stefan Zweig, com Jean Yonnel como o médico fracassado que busca o esquecimento na selva malasiana e acaba por encontrar uma razão de viver no amor sublimado de uma mulher arrogante (Marcelle Chantal); A Dama de Espadas / La Dame de Pique / 1937  inspirado na novela com elementos sobrenaturais de Alexandre Pushkin, tendo nos papéis principais Marguerite Moreno como a Condessa Tomski, a Dama de Espadas e Pierre Blanchar como o Capitão Hermann, que quer lhe arrancar o segredo para ganhar no jogo de cartas; A Princesa Tarakanowa / Tarakanowa / 1938, nova versão de um filme mudo de Raymond Bernard com Suzy Prim como Catarina, a Grande, Annie Vernay como a princesa Elisabeth Tarakanowa e Pierre Richard-Willm como o Conde Alexis Orloff, favorito da imperatriz, encarregado de seduzir Elisabeth, pretendente do trono, a fim de trazê-la para a Russia, a fim de que Catarina possa mais facilmente livrar-se dela. A história atinge seu ponto culminante com a morte trágica dos dois amantes. marcados pelo destino.

Triunfo comercial, Gibralta / Gibraltar / 1938, com Viviane Romance, Roger Duchesne e Erich von Stroheim, foi o último longa-metragem francês do cineasta antes de sua partida para o Novo Mundo.

Wladimir Strijewsky

Ator em 1916 dos filmes de Yegeni Bauer, Wladimir Strijewsky realizou dois filmes na França: Les Bateliers de la Volga / 1936, drama de espionagem baseado num romance de Joseph Kessel com Véra Korène como mulher fatal capaz de todas as perfídias e dois atores de classe, Pierre Blanchar e Charles Vanel e Nuits de Princes / 1937, também adaptado de um romance de Kessel passado no meio de imigrantes russos com a atriz alemã Käthe von Nagy e Jean Murat.

Victor Tourjansky

Pioneiro do cinema tsarista, Victor Tourjansky (1891-1976) era um ator célebre na Rússia. Após a Revolução de1917 ele emigrou para a Europa e, a partir de 1920, se encontrava na França, onde realizou uma primeira versão de L’ Ordonnance / 1921, baseada num romance de Guy de Maupassant.

Uma carreira internacional se abriu para ele, primeiro em Hollywood em 1928, depois na Alemanha em 1935, e mais tarde na Itália nos anos cinquenta. Desta maneira ele experimentou todas as tendências da 7ª Arte, do brilho de Hollywood aos esplendores do cinema nazista, passando pelo peplum italiano. Foi logo depois sua partida da Alemanha – uma partida momentânea – e um Manolesco / Manolesco – Der Konig des Hochstapler / 1929 famoso com Ivan Mosjoukine, Brigitte Helm, Dita Parlo e Heinrich George que Tourjansky realiza seu primeiro filme francês, L’Aiglon / 1931, baseado na peça de Edmond Rostand sobre Napoleão II com Jean Weber como o filho de Napoleão e Victor Francen como o seu fiel Flambeau. Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937

Seus filmes seguintes na França foram: Le Chanteur Inconnu / 1931 com o tenor da Ópera de Paris Lucien Muratore; Hôtel des Étudiants / 1932; nova versão falada de L’Ordonnance /1933 com Marcelle Chantal, Georges Rigaud, Jean Worms, Alexandre Rignault e … Fernandel paquerando Paulette Dubost; Volga em Chamas / Volga em Flammes / 1934, superprodução filmada na Tchecoslováquia com o quarteto Albert Préjean, Danielle Darrieux, Raymond Rouleau e Valéry Inkijinoff; Olhos Negros / Les Yeux Noirs / 1935 com Harry Baur e Simone Simon e Jean-Pierre Aumont formando um par charmoso; Vertigem de uma Noite / Vertige d’un Soir / 1936 (também conhecido como La Peur)  com Gaby Morlay, Georges Rigaud, Charles Vanel e Suzy Prim; A Sublime Mentira de Nina Petrovna /  Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937, melodrama de estilo barroco cm Fernand Gravey, Aimé Clariond e Isa Miranda.

Na Alemanha Tourjanksy filmou uma comédia com Zarah Leander e Willy Birgel, A Raposa Azul / Der Blaufuchs / 1938 e dois melodramas com Brigitte Horney, um de propaganda nazista, Der Gouveurneur / 1939 e o outro, romântico, Illusion / 1941.

Victor Trivas

O russo Victor Trivas se estabeleceu na Alemanha antes ir trabalhar na França em 1933. Cenógrafo do cineasta Georg W. Pabst, ele logo se junta à colônia de seus compatriotas russos, reunidos durante algum tempo nos estúdios berlinenses.

Em 1931, ele havia dirigido seu primeiro filme, o drama de guerra Niemansland, um vibrante apelo à paz, passado na Primeira Guerra Mundial Os nazistas julgaram seu conteúdo muito subversivo e destruíram todas as cópias que encontraram, pouco tempo depois de sua exibição nos cinemas.

Trivas só realizou um longa-metragem na França, Dans les Rues / 1933, drama criminal sobre delinquência juvenil com Jean-Pierre Aumont, Madeleine Ozeray e Vladimir Sokoloff e participou como co-diretor (não creditado) de uma comédia de boulevar, Tovaritch, comédia de boulevard que retrata precisamente as desventuras de um casal de Russos Brancos exilados na França, e de alta linhagem real, obrigado a trabalhar como empregados domésticos para sobreviver. Em 1937, já nos Estados Unidos, Anatole Litvak faria uma refilmagem, intitulada no Brasil Nobres sem Fortuna com Claudette Colbert, Charles Boyer e Basil Rathbone. Curiosamente, Trivas se tornou então um roteirista do sistema hollywoodiano.

Alexandre Volkoff

Alexandre Volkoff foi ator e depois um realizador brilhante da Rússia tzarista. Otets Sergiy, baseado num conto de Tolstoi, que ele dirigiu em 1917 de parceria com Yakov Protazanov e tendo Ivan Mosjoukine e Nathalie Lissenko no elenco, coroa o primeiro período de sua carreira. Após a Revolução, acompanhado do ator e amigo Mosjoukine, Volkoff se instala na França. Eles ofereceram vários filmes de sucesso mas sua obra-prima incontestável foi Kean ou Desórdre et Génie / 1924, adaptação da peça de Alexande Dumas sobre o grande ator shakespereano britânico Edmund Kean, interpretado por Mosjoukine.

Ivan Mosjoukine

Após a morte de Rudolph Valentino, Casanova / 1927, fez de Mosjoukine o único “amante perfeito” do cinema internacional aos olhos do gênero feminino. Entretanto, o cinema falado veio para estragar tudo. Por causa de seu sotaque Mosjoukine de repente perdeu seu público. La Mille et Deuxième Nuit / 1933 é representativo deste desastre: o público mal entendia as falas do ator. Mesmo destino cruel teve L’ Enfant du Carnaval / 1934.

Alexandre Volkoff realizou um filme na Itália e desapareceu ele também pouco tempo depois.

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