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Histórias de Cinema

GRANDES PERSONAGENS DO ROMANCE POLICIAL NO CINEMA E NA TV – II

December 9, 2016

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MONSIEUR LECOQ. Detetive criado por Émile Gaboriau (1832-1873). 1914 – Monsieur Lecoq com Harry Baur. 1915 L’ Affaire d ‘Orcival com Henri Roussel. The Family Stain com Frank Evans. Monsieur Lecoq com William Morris. 1933 – File 113 com Lew Cody. 1962 – L’Epingle du Jeu (ep. da Série de TV Les Cinq Dernières Minutes) com Roger Dumas. 1971 Nina Gypsy com Henri Lambert. 1975 – Monsieur Lecoq (ep. da Série de TV Les Grands Detectives) com Gilles Ségal.

Karen Morley, John Barrymore e Lionel Barrymore em Arsène Lupin

Karen Morley, John Barrymore e Lionel Barrymore em Arsène Lupin

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Jules Berry em Arsène Lupin, Detective

Jules Berry em Arsène Lupin, Detective

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Robert Lamoureux em Signé Arsène Lupin

Robert Lamoureux em Signé Arsène Lupin

Georges Descrières como Arsène Lupin na Série de TV

Georges Descrières como Arsène Lupin na Série de TV

ARSÈNE LUPIN – Ladrão cavalheiro criado por Maurice Leblanc (1864-1941). Filmes: 1908 – The Gentleman Burglar. 1909 – Arsène Lupin e 1914 – Arsène Lupin contre Ganimard, ambos com Georges Tréville. 1910 – Den blaa Diamant (Arsène Lupin contra Sherlock Holmes), Série alemã com Paul Otto e Viggo Larsen.- 1916 – Arsene Lupin com Gerald Ames. 1917 – Arsene Lupin com Earle Williams. 1919 – Dentes de Tigre ou Os Dentes do Tigre / The Teeth of the Tiger com David Powell. 1920 – 813 ou Arsenio Lupin / 813 com Wedgwood Nowell. 1921 – Arsène Lupin, Utolso Kalandja, Série húngara com Gustav Partos. 1932 – Arsène Lupin / Arsène Lupin com John Barrymore. 1937- Arsène Lupin Détective com Jules Berry. 1938 – A Volta de Arsène Lupin / Arsène Lupin Returns com Melvyn Douglas. 1944 – Arsène Lupin / Enter Arsene Lupin com Charles Korvin. 1947 – Arsenio Lupin com Ramon Pereda. 1956 – Les Aventures d’Arsène Lupin e 1959 – Signé Arsène Lupin, ambos com Robert Lamoureux. 1971 – Arsène Lupin, Série de TV com Georges Descrières.

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Cena de Dr. Mabuse, o Jogador

Cena de Dr. Mabuse, o Jogador

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vavaMABUSE. Gênio do crime criado por Norbert Jacques (1880-1954). Filmes: 1922 – Dr. Mabuse, o Jogador / Dr. Mabuse, der Spieler. 1933 – O Testamento do Dr. Mabuse / Das Testament des Dr. Mabus, ambos com Rudolf Klein-Rogge. 1960 – Os 1000 Olhos do Dr. Babuse / Die Tausend Augen des Dr. Mabuse. 1961 – Nas Garras do Dr. Mabuse / Im Stahinetz des Dr. Mabuse. 1962 – O Invisível Dr. Mabuse / Die unsichtbaren Krallen des Dr. Mabuse. O Testamento do Dr. Mabuse / Das Testament des Dr. Mabuse. 1963 -Scotland Yard jagt Dr. Mabuse. 1965 – Die Todesstrahlen des Dr. Mabuse, todos com Wolfgang Preiss. 1970 – La Venganza del Dr. Dr. Mabuse com Jack Taylor.

Pierre Renoir em La Nuit du Carrefour

Pierre Renoir em La Nuit du Carrefour

Harry Baur como Maigret

Harry Baur como Maigret

Charles Laughton como Maigret

Charles Laughton como Maigret

Gino Cervi como Maigret

Gino Cervi como Maigret

Georges Simenon e Jean Gabin

Georges Simenon e Jean Gabin

JULES MAIGRET. Comissário de polícia criado por Georges Simenon (1903-1989). Filmes: 1932 – La Nuit du Carrefour com Pierre Renoir. Le Chien Jaune com Abel Tarride. 1933 – La Tête d’un Homme com Harry Baur. 1944 – Cécile est Morte. 1945 – Les Caves du Majestic, ambos com Albert Préjean. 1949 – Fugitivo da Guilhotina / The Man on The Eiffel Tower com Charles Laughton. 1956 – Maigret dirige l’enquête com Maurice Manson. 1958 – Assassino de Mulheres / Maigret tend un piège. 1959 – O Castelo do Mêdo / Maigret et l’affaire Saint Fiacre, ambos com Jean Gabin. Maigret, Série de TV britânica com Rupert Davies. 1960 – Liberty Bar, telefime com Louis Arbessier.1963 – Inspetor Maigret Acerta / Maigret Voit Rouge com Jean Gabin. 1964 – Le Inchiesta del Comissario Maigret. Série de TV com Gino Cervi. Afera Saint Fiacre, telefime iugoslavo com Ljuba Tadic. Maigret. Série de TV belga com Jan Teulings. Maigret: De kruideniers, filme holandês com Kees Brusse. 1965 – Maigret, and the Lost Life (BBC Sunday Night Theatre) com Basil Sidney. Maigret at Bay (BBC Play of the Month) com Rupert Davies. 1966 – Maigret em Pigalle / Maigret a Pigalle com Gino Cervi. Maigret und sein grosster com Heinz Rühman. 1967 – Les Enquêtes du Commissaire Maigret. Série de TV com Jean Richard. 1974 – Megre I staraya dama. Filme russo com Boris Tenin.

Pat O'Brien, George Murphy e Carole Landis em Um Crime Maravilhoso

Pat O’Brien, George Murphy e Carole Landis em Um Crime Maravilhoso

Brian Donlevy em Deusa do Mal

Brian Donlevy em Deusa do Mal

James Whitmore e Marjorie Main em Trem de Surpresas

James Whitmore e Marjorie Main em Trem de Surpresas

JOHN J. MALONE. Advogado detective criado por Georgiana Ann Randolph Craig (1908-1957) sob o pseudônimo de Craig Rice. Filmes: 1945 – Um Crime Maravilhoso / Having a Wonderful Crime com Pat O’Brien. 1949 – Deusa do Mal / The Lucky Stiff com Brian Donlevy. 1950 – Trem de Surpresas / Mrs. O’ Malley and Mr. Malone com James Whitmore. 1951 – The Amazing Mr. Malone, telefilme com Gene Raymond. 1951 – The Amazing Mr. Malone, Série de TV com Lee Tracy.

Warner Oland como Fu Manchu

Warner Oland como Fu Manchu

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Boris Karloff em A Máscara de Fu Manchu

Boris Karloff em A Máscara de Fu Manchu

Henry Brandon no seriado Os Tambores de Fu Manchu

Henry Brandon no seriado Os Tambores de Fu Manchu

Christopher Lee como Fu Manchu

Christopher Lee como Fu Manchu

FU MANCHU / SIR NEYLAND SMITH. Super vilão chinês e inspetor da Scotland Yard criados por Arthur Henry Sarsfield Ward (1883-1959) sob o pseudônimo de Sax Rohmer. Filmes: 1923 – The Mysteries of Dr. Fu Manchu, Série com H. Agar Lyons e Fred Paul. 1929 – O Misterioso Dr. Fu Manchu / The Mysterious Dr. Fu Manchu e 1930 – O Ressucitado ou A Volta de Fu Manchu / The Return of Fu Manchu, ambos com Warner Oland e O. P. Heggie. 1932 – A Máscara de Fu Manchu / The Mask of Fu Manchu com Boris Karloff e Lewis Stone. 1940 – Os Tambores de Fu Manchu / Drums of Fu Manchu, seriado com Henry Brandon e William Royle. 1956 – The Adventures of Dr. Fu Manchu, Série de TV com Glenn Gordon e Lester Matthews. 1965 – A Face de Fu Manchu / The Face of Fu Manch, com Christopher Lee e Nigel Green. 1966 – As 13 Noivas de Fu Manchu / The Brides of Fu Manchu e 1967 – A Filha Diabólica de Fu Manchu / The Vengeance of Fu Manchu, ambos com Christopher Lee e Douglas Wilmer. 1968 – The Blood of Fu Manchu. 1969 e The Castle of Fu Manchu, ambos com Christopher Lee e Richard Greene.

Humphrey Bogart e Lauren Bacall em À Beira do Abismo

Humphrey Bogart e Lauren Bacall em À Beira do Abismo

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, Querida

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, Querida

George Montgomery e Nancy Guild em A Moeda Trágica

George Montgomery e Nancy Guild em A Moeda Trágica

Robert Montgomery em A Dama do Lago

Robert Montgomery em A Dama do Lago

James Garner em Detetive Marlowe em Ação

James Garner em Detetive Marlowe em Ação

Elliott Gould em Um Perigoso Adeus

Elliott Gould e Nina Van Pallandt em Um Perigoso Adeus

Robert Mitchum e Charlotte Rampling em O Último dos Valentões

Robert Mitchum e Charlotte Rampling em O Último dos Valentões

PHILIP MARLOWE. Detetive particular criado por Raymond (Thorton) Chandler (1888-1959). Filmes: 1945 – Até a Vista, Querida / Murder my Sweet com Dick Powell. 1946 – À Beira do Abismo / The Big Sleep com Humphrey Bogart. A Dama do Lago / Lady in the Lake com Robert Montgomery. 1947 – A Moeda Trágica / The Brasher Doubloon com George Montgomery. 1969 – Detetive Marlowe em Ação / Marlowe com James Garner. 1973 – Um Perigoso Adeus / The Long Goodbye com Elliott Gould. 1975 – O Último dos Valentões / Farewell My Lovely. 1978 – A Arte de Matar / The Big Sleep.

Margaret Rutherford, Miss Marple

Margaret Rutherford, Miss Marple

MISS JANE MARPLE. Detetive particular do sexo feminino criado por Agatha Christie (1890-1976). Filmes: 1961 – Quem Viu, Quem Matou / Murder, She Said. 1963 – Sherlock de Saias / Murder at the Gallop. 1964 – Crime sobre Crime / Must Most Foul. 1969 – Crime a Bordo / Murder Ahoy, todos com Margaret Rutherford.

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Raymond Burr e Barbara Hale na Série de TV Perry Mason

Raymond Burr e Barbara Hale na Série de TV Perry Mason

PERRY MASON. Advogado-detetive criado por Erle Stanley Gardner (1889-1970). 1934 – O Caso do Cão Uivador / The Case of the Howling Dog. 1935 – A Noiva Curiosa / The Case of the Curious Bride. O Caso das Pernas Bonitas / The Case of the Lucky Legs. 1936 – Garras de Veludo / The Case of the Velvet Claws, todos com Warren William. O Mistério do Gato Preto / The Case of the Black Cat com Ricardo Cortez. 1937 – O Mistério da Doca / The Case of the Stuttering Bishop com Donald Woods. 1957 – Perry Mason, Série de TV com Raymond Burr 1957. 1973 The New Perry Mason, Série de TV com com Monte Markham.

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Paul Meurisse como Comandante Théobald Dromard, Le Monocle Noir

Paul Meurisse como Comandante Théobald Dromard, Le Monocle Noir

LE MONOCLE NOIR. Agente secreto Comandante Théobald Dromard, criado por Gilbert-Léon Renault (1904-1984) sob o pseudônimo de Rémy. 1961 – Le Monocle Noir. 1962 – Monocle, O Agente Secreto / L’Oeil du Monocle. 1964 – Le Monocle rit jaune, todos com Paul Meurisse.

Peter Lorre como Mr. Moto

Peter Lorre como Mr. Moto

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MOTO. Detetive japonês criado por John P. (Phillips) Marquand (1893-1960). Filmes: 1937 – O Misterioso Mr. Moto / Think Fast, Mr. Moto. Obrigado, Mr. Moto / Thank You, Mr. Moto. 1938 – O Palpite de Mr. Moto / Mr. Moto’s Gamble. Mr. Moto se Aventura / Mr. Moto Takes a Chance. 1939 – A Fuga de Mr. Moto / Mysterious Mr. Moto. Mr. Moto Chega a Tempo / Mr. Moto’s Last Warning. Mr. Moto na Ilha do Terror / Mr. Moto in Danger Island. Mr. Moto em Férias / Mr. Moto Takes a Vacation, todos com Peter Lorre. 1965 – The Return of Mr. Moto com Henry Silva.

Aline MacMahon em Enquanto o Doente Dormia

Aline MacMahon em Enquanto o Doente Dormia

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Ann Sheridan em A Dama do Quarto Número 18

Ann Sheridan em A Dama do Quarto
Número 18

NURSE KEATE. Enfermeira detetive amadora Sarah Keate (às vêzes chamada de Sally Keating) criada por Mignon G. (Good) Eberhart (1899-1996). Filmes: 1935 – Enquanto o Doente Dormia / While The Patient Slept com Aline MacMahon. 1936 – A Morte do Dr. Harrigan / The Murder of Dr. Harrigan com Kay Linaker. Murder by an Aristocrat com Marguerite Churchil. 1938 – A Dama do Quarto Número 18 / Patient in Room 18. A Chave do Mistério / Mystery House, ambos com Ann Sheridan.

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Ivan Desny como OSS 117

Ivan Desny como OSS 117

OSS 117. Agente secreto Hubert Bonisseur de La Bath criado por Jean Brochet (1921-1963) sob o pseudônimo de Jean Bruce. Filmes: 1956 – OSS 117 n’est pas mort com Ivan Desny. 1962 – O Agente OSS 117 / Furia à Bahia pour OSS 117 com Fredrick Stafford. 1963 – Pânico em Bangkok / Banco à Bangkok pour OSS 117. OSS 117 / OSS 117 se déchaine, ambos com Kerwin Mathews. 1966 – Código 117, Sabotagem Atômica / Atout coeur à Tokyo com Fredrick Stafford. 1968 – Assassinos de Aluguel / Niente rose per OSS 117 com John Gavin. 1970 – Verão de Fogo / OSS 117 prend des vacances com Luc Merenda.

Michael Caine em Arquivo Confidencial

Michael Caine em Arquivo Confidencial

HENRY PALMER (Harry Palmer no cinema). Agente secreto criado por Leonard Cyril Deighton sob o pseudônimo de Len Deighton (1929 –  ). Filmes: 1965 – Ipcress: Arquivo Confidencial / The Ipcress File. 1966 – Funeral em Berlim / Funeral in Berlin. 1967 – O Cérebro de um Bilhão de Dólares / Billion Dollar Brain, todos com Michael Caine.

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PALMUN. Comissário finlandês Frans J. Palmu criado por Mika Waltari (1908-1979). Filmes: 1960 – Komisario Palmun Erehdys. 1961 – Kaasua Komisario Palmun! 1962 – Tähdet kertovak, Komisario Palmun, todos com Joel Rinne.

Albert Finney como Poirot

Albert Finney como Poirot

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HERCULE POIROT. Detetive criado por Agatha Christie. 1965 – Os crimes do Alfabeto / The Alphabeet Murders com Tony Randall. 1962 – Hercule Poirot, ep. da Série de TV General Electric Theater com Martin Gabel. 1974 – Assassinato no Expresso Oriente / Murder on the Orient Express com Albert Finney.

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CONTINENTAL EXPRESS (aka THE SILENT BATTLE), John Loder, Valerie Hobson, Rex Harrison, 1939

CONTINENTAL EXPRESS (aka THE SILENT BATTLE), John Loder, Valerie Hobson, Rex Harrison.

LE POISSON CHINOIS. Agente secreto Capitão Jacques Sauvin criado por Jean Bommart (1894-1979). Filmes: 1937 – A Batalha em Segredo / La Bataille Silencieuse com Michel Simon. 1939 – The Silent Battle  ou The Continental Express com Rex Harrison.

 

PERSONAGENS DO ROMANCE POLICIAL NO CINEMA E NA TV – I

November 25, 2016

O romance policial nasceu com Edgar Allan Poe, embora alguns historiadores do gênero apontem o Édipo de Sófocles e o Zadig de Voltaire. O Auguste Dupin de Poe ensejou o nascimento do M. Lecoq de Émile Gaboriau que, por sua vez, inspirou o Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. Oriundo do folhetim, o gênio do crime, no estilo de Rocambole e depois de Fantômas ou Fu Manchu, cedeu lugar para o ladrão cavalheiro personificado por Raffles e Arsène Lupin, e continuado pelo Lobo Solitário ou pelo Santo. Nos anos trinta, surgiu o detetive amador dândi como Lord Peter, o filho de um comissário de polícia como Ellery Queen, um advogado como Perry Mason, um jornalista como Rouletabille, um cultivador de orquídeas como Nero Wolf, um detetive chinês como Charlie Chan ou de descendência eslava como M. Wens. O Hercule Poirot de Agatha Christie levou ao apogeu o tipo de romance baseado em um enigma e S. S. Van Dine, autor de Philo Vance, estabeleceu as regras do gênero, que Georges Simenon desrespeitou, criando Maigret, comissário de polícia profundamente humano. No decorrer desses mesmos anos trinta desenvolveu-se nos Estados Unidos, notadamente nos pulp magazines como a revista Black Mask, um novo estilo, o hard boiled, cujos representantes mais famosos foram o detetive Sam Spade de Dashiell Hammett, o Philip Marlowe de Raymond Chandler, e depois o Mike Hammer de Mickey Spillane. Surgiram ainda os agentes secretos como Mr. Moto, Bulldog Drummond e o James Bond de Ian Fleming bem como inúmeros outros personagens da literatura policial, cujas filmografias procuro organizar em ordem alfabética, mas só até 1975, excluindo aqueles oriundos dos programas de rádio, dos quadrinhos ou diretamente do cinema os quais poderão ser encontrados no meu artigo de 26 de novembro de 2010: As Grandes Séries Policiais Americanas dos Anos 30 / 40.

                                                                                        FILMOGRAFIAS

LEW ARCHER. Detetive particular criado por Kenneth Millar (1915-1983) sob o pseudônimo de Ross MacDonald. Filmes: 1966 – Caçador de Aventuras / Harper. 1975 – A Piscina Mortal / The Drowning Pool, ambos com Paul Newman com o nome de Lew Harper.

Paul Newman como Lew Harper

Paul Newman como Lew Harper

 MARTIN BECK. Inspetor de polícia sueco criado por Per Wahlöö (1935 – ) e Maj Sjöwall (1926-1975). Filmes: 1973 – Matança em San Francisco / The Laughing Policeman com Walter Matthau (com o nome de Jake Martin). 1976 – Mannen Pa Taket com Carl-Gustaf Lindstadt.

Walter Matthau em The Laughing Policeman

Walter Matthau em The Laughing Policeman

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Carl- em Mannen pa tapete

Carl-Gustaf LIndstadt em Mannen pa taket

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FRÉDÉRICK BELOT. Inspector de polícia criado por Eugène Avtzin (1901- 1992) sob o pseudônimo de Claude Aveline. Filmes: 1964 – L’Abonné de la ligne U, Série de TV com Jacques Dacqmine.

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BOSTON BLACKIE. Ex-ladrão que se tornou detetive criado por Jack Boyle (1881-1928). Filmes: 1918 – A Centelha do Bem / Boston Blackie’s Little Pal com Bert Lytell. 1919 – Minha Adoração / The Poppy Girl’s Husband com Walter Long. Ladrão de Luva de Pelica / The Silk Lined Burglar com Sam De Grasse. Redenção / Blackie’s Redemption com Bert Lytell. 1922 Digna do Meu Amor / Missing Millions com David Powell. Volúpia e Ouro / The Face in the Fog com Lionel Barrymore. 1923 – O Suplício da Água /Boston Blackie com William Russell. 1923 – Caminho Tortuoso / Crooked Alley com Thomas Carrigan. 1924 – Os Três Apaches / Through the Dark com Forrest Stanley. 1927 – A Vitória do Bem / The Return of Boston Blackie com Bob Custer sob o nome de Raymond Glenn. 1941 – Rastro nas Trevas / Meet Boston Blackie. O Segrêdo da Estátua / Confessions of Boston Blackie. 1942 – Vingança Frustrada / Alias Boston Blackie. Aventura em Hollywood / Boston Blackie Goes Hollywood. 1943 – Aventura à Meia-Noite / After Midnight With Boston Blackie. Sendas Tortuosas / The Chance of a Lifetime. 1944 – O Caso do Diamante Azul / One Mysterious Night. 1945 – Suspeita Injusta / Boston Blackie Booked on Suspicion. 1945 – A Chantagista / A Close Call for Boston Blackie. O Segredo de Ann Duncan / The Phantom Thief. Noite de Surpresas / Boston Blackie’s Rendezvous. 1946 – Mágico Amador / Boston Blackie and the Law. 1948 – O Triunfo de Boston Blackie / Trapped by Boston Blackie. 1949 – Boston Blackie no Bairro Chinês. Boston Blackie’s Chinese Venture, todos com Chester Morris. 1951 – Boston Blackie. Série de TV com Kent Taylor.

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Chester Morris como Boston Blackie

Chester Morris como Boston Blackie

SEXTON BLAKE. Detetive criado por Harry Blyth (1852-1898) sob o pseudônimo de Hal Meredith. Filmes: 1909 – Sexton Blake. Sexton Blake versus Baron Kettler. Britain’s Secret Treaty, todos com Charles Douglas Carlyle. 1914 – The Mystery of the Diamond Belt, com Philip Kay. 1915 – The Thornton Jewel Mystery. The Great Cheque Fraud. The Counterfeiters. The Stolen Heirloom. todos com Harry Lorraine. 1920 – The Further Exploits of Sexton Blake: The Mystery of the S.S. Olympic e 1922 – Doddington Diamonds, ambos com Douglas Payne. 1928 – The Clue of the Second Goblet. Blake the Lawbreaker. Sexton Blake Gambler. Silken Threads. The Great Office Mystery. The Mystery of the Silent Death, todos com Langhorne Burton. 1935 – Sexton Blake and the Bearded Doctor. Sexton Blake and the Mademoiselle. 1938 – Sexton Blake and the Hooded Terror, todos com G. Curzon. 1944 – Meet Sexton Blake e 1945 – The Echo Murders, ambos com D. Farrar. 1959 – Murder at the Site Three, com Geoffrey Toone. 1967-1971 – Série de TV com Lawrence Payne.

George Curzon como Sexton Blake

George Curzon como Sexton Blake

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JAMES BOND. Agente secreto criado por Ian Fleming (1908-1964). Filmes: com Sean Connery: 1962 – O Satânico Dr. No / Dr. No. 1963 – Moscou Contra 0007 / From Russia with Love. 1964 – 007 Contra Goldfinger / Goldfinger. 1965 – 007 Contra a Chantagem Atômica / Thunderball. 1966 – Com 007 Só Se Vive Duas Vêzes / You Only Live Twice. 1971 – 007 – Os Diamantes São Eternos / Diamonds are Forever. 1983 – 007 – Nunca Mais Outra Vez / Never Say Never Again; com Roger Moore: 1973 – Com 007 Viva e Deixe Viver / Live and Let Die. 1974 – 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro / The Man with the Golden Arm.

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 SLIM CALLAGHAN. Detetive particular criado por Reginald Evelyn Peter Southouse Cheyney (1896-1951) sob o pseudônimo de Peter Cheyney. 1948 – Uneasy Terms com Michael Rennie. 1952 – Meet Mr. Callaghan, telefilme britânico com Terence de Marney. 1954 – Meet Mr. Callaghan com Derrick de Marney. 1955 – A Toi de jouer Callaghan. Plus de Whisky pour Callaghan. 1961 – Callaghan remet ça, todos com Tony Wright.

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STEVE CARELLA. Detetive criado por Salvatore A. Lombino (1926-2005) sob o pseudônimo de Ed McBain e/ ou Evan Hunter. FILMES: 1958 – Cercados pela Polícia / Cop Hater. 1961 – 87th Precinct, Série de TV com Robert Lansing. 1970 – Aliados contra o Crime / Fuzz com Burt Reynolds. 1971 – Sem Motivo Aparente / Sans Mobile Apparent com Jean Louis Tritignant (com o nome de Stéphane Carelli). 1978 – Laços de Sangue / Les Liens de Sang com Donald Sutherland.

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Walter Pidgeon como Nick Carter

Walter Pidgeon como Nick Carter

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NICK CARTER. Detetive criado por John Russel Coryell (1848 – 1924). Filmes: 1908 – Série Nick Carter com Pierre Bressol (Nick Carter / Nick Carter, Le Roi des Detectives / 1908 e Novos Expedientes ou Novas Façanhas de Nick Carter / Les Nouveaux Exploits de Nick Carter / 1909). 1920 – Série Nick Carter com Thomas Carrigan. 1922 – Série Nick Carter com Edmund Lowe. 1939 – Nick Carter, Super-Detetive / Nick Carter, Master Detective. 1940 – Nick Carter nos Trópicos / Phantom Raiders e Nick Carter nas Nuvens /Sky Murder, todos com Walter Pidgeon. 1963 – Nick Carter va tout casser e 1965 – Carter et le trèfle rouge, ambos com Eddie Constantine. Por curiosidade, lembro a série Nick Winter de filmes “cômicos policiais” parodiando Nick Carter, exibida com sucesso no Brasil.

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Eddie Constantine e Anna Karina em Alphaville

Eddie Constantine e Anna Karina em Alphaville

LEMMY CAUTION. Agente do FBI criado por Reginald Evelyn Peter Southouse Cheyney (1896-1951) sob o pseudônimo de Peter Cheyney. 1953 – Brotinho Venenoso / La Môme Vert-de-Gris. Cet Homme est Dangereux, ambos com Eddie Constantine. 1954 – Les Femmes s’en balancent com Eddie Constantine. 1955 – Vous pigez? 1960 – Ça va être ta fête. Comment qu’elle est. 1962 – Um Crime na Riviera / Lemmy pour les dames. 1963 – À Toi de faire mignonne, 1965 – Alphaville / Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution, todos com Eddie Constantine.

CHARLIE CHAN. Detetive de origem chinêsa criado por Earl Derr Bigger (1884 -1933). Filmes: Charlie Chan será objeto de um artigo especial.

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CHANTECOQ. Detetive criado por Arthur Bernède (1871-1937). Filmes: 1926 – O Fantasma do Louvre / Belphégor con René NavarreL 1965 – Belphégor, Minissérie de TV com René Dary (mas o nome do personagem foi mudado para Comissário Ménardier).

Myrna Loy e William Powell como Nora e Nick Charles

Myrna Loy e William Powell como Nora e Nick Charles

detetives-nick-and-nora-posterNICK e NORA CHARLES. Dupla de detetives amadores criados por Dashiell Hammett (1894-1961). Filmes: 1934 – A Ceia dos Acusados / The Thin Man. 1936 – A Comédia dos Acusados / After the Thin Man. 1939 – O Hotel dos Acusados / Another Thin. 1941 – A Sombra dos Acusados / Shadow of the Thin Man. 1944 – The Thin Man Goes Home / O Regresso Daquele Homem. 1947 – A Canção dos Acusados / Song of the Thin Man, todos com William Powell e Myrna Loy. 1957 – Série de TV com Peter Lawford e Phyllis Kirk.

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COCKRILL. Inspetor de polícia criado por Mary Christianna Lewis (1907-1988) sob o pseudônimo de Christianna Brand. Filmes: 1947 – Verde Passional / Green for Danger com Alastair Sim.

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Cena de Big Circus Queen

Cena de Big Circus Queen

THATCHER COLT. Comissário de polícia criado por Charles Foulton Oursler (1893-1952) sob o pseudônimo de Anthony Abbott. Filmes: 1932 – A Dama do Cabaré / Night Club Lady. 1933 – The Circus Queen Murder, ambos com Adolphe Menjou.

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COPLAN – Agente secreto Francis Coplan criado por Jean Libert (1913-1981) e Gaston Van den Panhuyse (1913-1981) sob o pseudônimo de Paul Kenny. Filmes: 1957 – Mulheres e Espiões / Action Immédiate com Henri Vidal. 1964 – Coplan prend des risques com Dominique Paturel. O Agente Secreto FX-18 Ataca / Coplan Agent Secret F. X.18 com Ken Clark. 1965 – 0777-Missão Summergame / Coplan F.X.18 casse tout com Richard Wyler. 1966 – O777 ataca no México / Coplan ouvre le feu à Mexico com Lang Jeffries. 1968 – O Assassino tem as horas Contadas / Coplan sauve sa peau com Claudio Brook.

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JERRY COTTON. Agente do FBI criado por Hans Werner Hoeber (1931-1996)   Filmes: 1965 – Jerry Cotton, o Agente Secreto / Schüsse aus dem Geigenkasten. Mordnacht in Manhattan. 1966 – Die Rechnung – eiskalt serviert. Um Null Uhr schnappt di falle zu. 1967 – Der Mörderclub von Brooklyn. 1968 – Der Tod im Toten Jaguar. Dynamit in grüner Seide. 1969 – Todesschüsse am Broadway, todos com George Nader.

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BILL CRANE. Detetive criado por Jonathan Latimer (1906-1983). Filmes: 1937 – Aventura Cavalheiresca / The Lady in the Morgue. 1938 – O Caso Westland / The Westland Case e O Último Aviso / The Last Warning, todos com Preston Foster e fazendo parte da Crime Club series.

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NANCY DREW. Detetive amadora juvenil criada pelo editor Edward Stratemeyer, sendo que os livros foram escritos por vários ghost writers e publicados sob o pseudônimo coletivo Carolyn Keene. Filmes: 1938 – Nancy Drew, a Detetive. 1939 – Nancy Drew, a Reporter / Nancy Drew Reporter. Nancy Drew Desvenda um Crime / Nancy Drew Troubleshooter. Nancy Drew e a Escada Secreta / Nancy Drew and the Hidden Staircase, todos com Bonita Granville. 1977 – The Hardy Boys / Nancy Drew Mysteries. Série de TV com Pamela Sue Martin e depois Janet Louise Johnson.

Ronald Colman como Bulldog Drummond

Ronald Colman como Bulldog Drummond

Ray Milland como Bulldog Drummond

Ray Milland como Bulldog Drummond

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BULLDOG DRUMMOND. Agente secreto Capitão Hugh Drummond, criado por Herman Cyril McNeile (1888-1937) sob o pseudônimo de Sapper. Filmes: 1923 – Bulldog Drummond com Carlyle Blackwell. 1925 – Bulldog’s Drummond Third Round com Jack Buchanan. 1929 – Amante de Emoções / Bulldog Drummond com Ronald Colman. 1930 – Temple Tower com Kenneth MacKenna. 1934 – The Return of Bulldog Drummond com Ralph Richardson. 1937 – A Volta de Bulldog Drummond / Bullddog Drummond Strikes Back com Ronald Colman. 1937 – Evasão de Bulldog Drummond / Bulldog Drummond Escapes com Ray Milland. Bulldog Drummond Reaparece / Bulldog Drummond Comes Back. A Vingança de Bulldog Drummond / Bulldog’s Drummond Revenge. 1938 – Bulldog Drummond em Perigo / Bulldog’s Drummond Peril. Bulldog Drummond na África / Bulldog Drummond in Africa. Rende-te Drummond! / Arrest Bulldog Drummond. 1939 – O Tesouro de Bulldog Drummond / Bulldog’s Secret Police. O Casamento de Bulldog Drummond / Bulldog’s Drummond Bride, todos com John Howard. 1947 – Bulldog Drummond Detetive / Bulldog Drummond at Bay. Bulldog Drummond Ataca / Bulldog Drummond Strikes Back, ambos com Ron Randell. 1948 – O Desafio / The Challenge. 13 Soldadinhos de Chumbo / 13 Lead Soldiers, ambos com Tom Conway. 1951 – Londres a Meia-Noite / Calling Bulldog Drummond com Walter Pidgeon. 1952 – Bulldog Drummond com Robert Beatty. 1967 – Bonecas que Matam / Deadlier Than the Male. 1969 – Some Girls Do, ambos com Richard Johnson.

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PETER e IRIS DULUTH. Detetives amadores criados por Richard Wilson Webb (1902-1965) sob o pseudônimo de Patrick Quentin. Filmes: 1948 – Crime Perfeito / Homicide for Three com Warren Douglas e Audrey Lang. 1954 – A Viúva Negra / The Black Widow com Van Heflin e Gene Tierney (com os nomes de Peter e iris Denver).

Cena de Os Assassinatos da Rua Morgue

Cena de Os Assassinatos da Rua Morgue

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AUGUSTE DUPIN – Detetive criado por Edgar Allan Poe (1809-1849). Filmes: Os Assassinatos da Rua Morgue / Murders in the Rue Morgue, com Leon Ames com o nome de Pierre Dupin. 1942 – O Mistério de Marie Roget / The Mystery of Marie Roget com Patrick Knowles. 1954 – O Fantasma da Rua Morgue / Phantom of the Rue Morgue, com Steve Forrest. 1973 – Le Double Assassinat de la Rue Morgue com Daniel Gélin.

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Tom Conway e George Sanders

Tom Conway e George Sanders

ave-falcon-bestTHE FALCON. Detetive particular Gay Laurence criado por Dirkan Koyoumdjian (1895-1956) sob o pseudônimo de Michael Arlen. Filmes: 1941 – O Falcão Alegre / The Gay Falcon. Um Encontro com o Falcão / A Date With the Falcon. 1942 – Nas Garras do Falcão / The Falcon Takes Over, todos com George Sanders. O Irmão do Falcão / The Falcon’s Brother. 1943 – O Falcão Contra-Ataca / The Falcon Strikes Back. O Falcão em Perigo / The Falcon in Danger. O Falcão e as Estudantes / The Falcon and the Co-Eds. 1944 – O Anel da Morte / The Falcon Goes West. O Mistério do Morto / The Falcon in Mexico. O Falcão em Hollywood/ The Falcon in Hollywood. 1945 – O Falcão em San Francisco. 1946 – O Álibi do Falcão / The Falcon’s Alibi. A Aventura do Falcão / The Falcon’s Adventure, todos com Tom Conway. 1948 – Carga Sinistra / The Devil’s Cargo. Encontro com a Morte / Appointment With Murder. 1949 – Search for Danger, ambos com John Calvert. 1954 – Adventures of the Falcon, Série de TV com Charles McGraw.

Fantomas / 1913-14

Fantomas / 1913-14

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Jean Marais como Fantomas

Jean Marais como Fantomas

FANTÔMAS / JUVE – Gênio do crime e comissário do polícia criados por Pierre Souvestre (1874-1914) e Marcel Allain (1885-1969). 1913-1914 – Fantomas / Fantômas, seriado com René Navarre e Edmond Bréon. 1920 – Fantomas / Fantomas, seriado com Edward Roseman e 1932 – Fantômas, com Jean Galland e Thomy Bourdelle. 1945 – Fantomas / Fantômas com Marcel Herrand e Alexandre Rignault. 1949 – Fantômas Contre Fantômas com Maurice Teynac e Alexandre Rignault. 1964 – Fantomas / Fantômas. 1965 – A Volta de Fantomas / Fantômas se Dechaine. 1967 – Fantomas contra a Scotland Yard / Fantômas contre Scotland Yard, todos com Jean Marais e Louis des Funès.

Hugh Sinclair, Francis L. Sullivan, griffith jones, frank lawton em the Four Just Men

Hugh Sinclair, Francis L. Sullivan, Griffith Jones, Frank Lawton em the Four Just Men

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Richard Conte, Dan Dailey, Jack Hawkins e Vittorio de Sica em The Four Just Men (Série de TV)

Richard Conte, Dan Dailey, Jack Hawkins e Vittorio de Sica em The Four Just Men (Série de TV)

THE FOUR JUST MEN. Quatro justiceiros (Jeff Ryder, Tim Collier, Ben Manfred, Ricco Poccari) criados por Edgar Wallace (1875 – 1932). Filmes: 1921 – The Four Just Men com Cecil Humphreys, Teddy Arundell, C. H. Croker-King, Owen Roughwood. 1939 – The Four Just Men com Hugh Sinclair, Griffith Jones, Francis L. Sullivan, Frank Lawton. 1959 – The Four Just Men. Série de TV com Richard Conte, Dan Dailey, Jack Hawkins, Vittorio de Sica.

Jack Hawkins como Inspetor Gideon

Jack Hawkins como Inspetor Gideon

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GEORGE GIDEON – Inspetor da Scotland Yard criado por John Creasey (1908-1973)   sob o pseudônimo de J. J. Marric. Filmes: 1958 – Um Crime por Dia / Gideon’s Day. 1964. 1966 – Gideon’s Way, Série de TV com John Gregson.

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LE GORILLE (Géo Paquet). Agente secreto criado por Dominique Ponchardier (1917-1986), sob o pseudônimo de Antoine L. Dominique. Filmes: 1957 – Gorila Le Gorille Vous Salue Bien com Lino Ventura. 1959 – Ninho de Espiões / La Valse du Gorille. 1962 e Le Gorille a Mordu L’Archevêque, com Roger Hanin.

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MIKE HAMMER. Detetive particular criado por Frank Morrison (1918 – 2006) sob o pseudônimo de Mickey Spillane. Filmes: 1953 – Eu, o Júri / I, The Jury com Biff Elliott. 1954 – Mickey Spillane’s Mike Hammer, telefilme com Brian Keith. 1955 – A Morte num Beijo / Kiss Me Deadly com Ralph Meeker. 1957 – Meu Revólver Nunca Falha / My Gun is Quick com Robert Bray. 1958-1959 – Mike Spillane’s Mike Hammer, Série de TV com Darren McGavin, 1963 – Caçadores de Mulheres / The Girl Hunters com Mickey Spillane. 1970.

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HANAUD. Inspetor de Polícia criado por Alfred Edward Woodley Mason (A.E.W. Mason). Filmes: 1920 – At the Villa Rose com Teddy Arundell. 1930 – La Maison de la Flèche com Léon Mathot (com o nome de Langeac em vez de Hanaud). At the Villa Rose com Austin Trevor. The House of the Arrow com Dennis Neilson-Terry. 1940 – At the Villa Rose com Kenneth Kent. 1948 – At the Villa Rose, telefilme com Anthony Holles. 1953 – The House of the Arrow com Oskar Homolka.

SHERLOCK HOLMES. Detetive particular criado por Arthur Conan Doyle (1859-1930). Filmes: Sherlock Holmes será objeto de um artigo especial.

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Cena de Judex / 1916

Cena de Judex / 1916

judex-iiJUDEX (Jacques de Tremeuse). Justiceiro criado por Arthur Bernède (1871-1937). Seriados 1916 – Judex / Judex e 1917 – A Nova Missão de Judex / La Nouvelle Mission de Judex, ambos com René Cresté. 1933 – Judex 34 com René Ferté. 1963 com Channing Pollock.

MUTT E JEFF NO CINEMA

November 11, 2016

A série de quadrinhos cômicos criada pelo cartunista Harry Conway (Bud) Fisher em 15 de novembro de 1907, começou a ser publicada em tiras diárias na página de esportes do jornal San Francisco Chronicle com o título de “Mr. A. Mutt Starts In To Play the Races”. O conceito das tiras diárias já havia sido estabelecido em A. Piker Clerk (1903) de Clare Briggs, mas foi com o sucesso de Mutt e Jeff que o formato se consolidaria.

Jeff e Mutt

Jeff e Mutt

Inicialmente, as anedotas foram criadas em torno de Mr. A. (Augustus) Mutt, um sujeito alto, magro e narigudo, fanático por corridas de cavalos, e este seu vício; porém este tema recorrente mudou quando, a partir de 27 de março de 1908, Fisher, já trabalhando para o San Francisco Examiner de William Randolph Hearst, incluiu a figura de Jeff (Edgar Horace Jeffries), um louco baixinho e careca, que se imaginava como o campeão de boxe James Jeffries. Mutt o conheceu em um hospício, para onde foi levado por suspeita de sua vontade de apostar em cavalos ter origem em algum distúrbio mental.

Mutt e seu criador Bud Fisher

Mutt e seu criador Bud Fisher

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O novo personagem retornaria cada vez com mais frequência até passar a dividir o estrelato com o protagonista original. Além do contraste no que diz respeito ao aspecto físico, Mutt e Jeff se diferenciam pelo caráter: Mutt é um oportunista que passa a vida engendrando esquemas para enriquecer rapidamente; Jeff é o inocente estabanado, que faz soçobrar os planos do amigo. Ao final de cada plano fracassado, Jeff transforma-se em alvo da cólera de Mutt, recebendo socos, pontapés, e objetos jogados na sua cara. Juntos, eles se tornaram um arquétipo universal: o par que não combina bem.

 

Bud Fisher

Bud Fisher

O último episódio de A. Mutt desenhado por Fisher para o Chronicle é datado de 10 de dezembro de 1907; no dia seguinte, apareceu seu primeiro episódio para o Examiner. O Chronicle então contratou outro cartunista, Russel Westover, para continuar a série. Entretanto, antes de se transferir para o Examiner, Fisher teve o cuidado de registrar a tira em seu próprio nome, o que impediu o Chronicle de usar outro artista, sendo obrigado a cessar a publicação da série desenhada por Westover em 7 de junho de 1908.

Mutt e Jeff no San Francisco Chronicle

Mutt e Jeff no San Francisco Chronicle

A primeira designação formal “Mutt and Jeff” apareceu na coletânea pioneira da tira de Fisher, The Mutt and Jeff Cartoons, mas o título só foi usado regularmente quando Fisher deixou o jornal de Hearst e seu poderoso distribuidor Kings Feature Syndicate, e aderiu ao Wheeler Syndicate em 15 de setembro de 1915. Esta mudança ocasionou uma disputa judicial, que culminou na Suprema Côrte dos Estados Unidos, perante a qual Fisher obteve a confirmação do direito exclusivo de reproduzir seus personagens e a proteção legal contra imitações por parte de seus competidores. O primeiro Mutt and Jeff colorido na edição dos domingos surgiu depois que o Wheeler Syndicate o distribuiu de costa a costa a partir de 11 de agosto de 1918.

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Desde então, Fisher afastou-se da elaboração diária das tiras, contentando-se em supervisionar o trabalho de seus auxiliaries, entre os quais se destacaram Ed Mack e Al Smith. A tira continuou com a assinatura de Fisher até o seu falecimento em 7 de dezembro de 1954. Daí em diante Al Smith passou a assinar. Ele continuou com o desenho de Mutt e Jeff até 1980, dois anos antes do encerramento da publicação da tira. George Breisacher foi o artista encarregado de desenhar os dois personagens nos dois  últimos anos de sua longa carreira na imprensa. Distribuidos depois pelo Bell Syndicate e em seguida pelo Bell-McClure Syndicate (até a sua fusão com o United Feature Syndicate), os quadrinhos de Mutt e Jeff foram perdendo aos poucos sua vitalidade imaginativa e sua popularidade a partir dos anos quarenta.

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Além das tiras, Mutt e Jeff também foram publicados em coletâneas de reedições, inclusive duas em capa dura (v. g. Mutt and Jeff Big Book / 1926; Mutt and Jeff Big Book 2 / 1929) e em revistas em quadrinhos:  eles apareceram primeiramente na capa das revistas Famous Funnies, a Carnival of Comics / 1933 e Famous Funnies #1 / 1934, e foram vistos sucessivamente na All-American Comics, DC Comics, Popular Comics (da Dell Comics) e Harvey Comics (Mutt and Jeff Jones). Em 2007, a NBM publicou um volume com reedições, Forever Nuts: The Early Years of Mutt and Jeff.

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mutt-jeff-jokes-harveySurgiram também shows e musicais no teatro (v. g. Mutt and Jeff: A Musical Comedy Song Book / 1912; Mutt and Jeff Divorced / 1920) e até um balé e uma canção intitulada The Funny Paper Blues, que foi um sucesso em 1921.

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Mutt e Jeff no teatro de revista americano

Mutt e Jeff  no teatro musicado americano

No Brasil, Mutt e Jeff apareceram através dos tempos nas revistas Tico-Tico, Suplemento Juvenil e O Juquinha, e em vários jornais até os anos oitenta (v. g.  Estado de São Paulo, Diário Carioca, Diário da Noite, Correio da Manhã, Última Hora) e, entre 1938 e 1943, em uma coleção (intitulada Biblioteca Mirim) de livros no formato 9×11,5 (também chamados de “tijolinhos”), inspirados nos Big Little Books americanos, e publicados pelo Grande Consórcio de Suplementos Nacionais de Adolfo Aizen. Nos anos setenta, Mutt e Jeff saíram também em livros / revistas da editora Saber e Artenova.

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Mutt e Jeff no Correio da Manhã

Mutt e Jeff no Correio da Manhã

Coleção Mirim

Coleção Mirim

Um fato curioso que marcou a “nacionalização” de personagens estrangeiros n’O Tico-Tico foi a liberdade  em se incluir personagens  de uma série em outra de um autor diferente. Isso ocorreu com Mutt e Jeff, colocados ao lado do Chiquinho em aventuras desenhadas por artistas brasileiros.

Cena de filme curto ao vivo de Mutt e Jeff

Cenas de filme curto ao vivo de Mutt e Jeff

Cena de filme curto ao vivo de Mutt e Jeff

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Em julho de 1911, durante a época do cinema mudo, Al Christie realizou, para  a Nestor Film Company  de David Horsley, filmes curtos de um rolo com ação ao vivo baseados nos quadrinhos de Mutt e Jeff. Os primeiros atores que interpretaram os dois famosos personagens foram Sam D. Drane (Mutt) e Gus Alexander (Jeff). Quando Alexander deixou a série, Christie contratou um outro ator baixinho, Bud Duncan, que assumiu os traços de Jeff em dois episódios antes do final da série.

Sam Drane e Gus Alexander

Sam Drane e Gus Alexander

O habitual no cinema mudo era introduzir entre os planos os diálogos escritos dos personagens, mas rompendo com esta norma, Horsley decidiu colocar os textos em uma faixa preta situada na parte inferior da tela, produzindo assim as primeiras legendas do cinema.

Entre 1913 e 1926, a Budd Fisher Film Corporation realizou ao todo 329 desenhos animados de Mutt e Jeff  (os primeiros com a Pathé Frères, distribuidos pela General Film Corporation) e os demais sozinha, com o estúdio Barré-Bower e / ou a Jefferson Corporation, que foram distribuídos sucessivamente pela Celebrated Players, Fox Film Corporation e Short Film Syndicate. Em 1916, Fisher uniu-se com o estúdio dos animadores  Raoul Barré e Charles Bowers. Barré saiu da Budd Fisher Corporation em 1918 e Bowers foi despedido em 1921.  A série continuou sob a marca da Jefferson Corporation, dirigida pelo animador Dick Friel. Alguns cartoons foram refilmados em 1930 no processo Kromocolor e relançados com efeitos sonoros e trilha musical, distribuidos pela Modern Film Sales Corporation.

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Ao folhear jornais antigos, fiquei impressionado com a popularidade dos desenhos de Mutt e Jeff em nosso país. O público adorava os seus cartoons, que eram anunciados como “caricaturas animadas”, e o nome Mutt e Jeff foi dado a uma loja de brinquedos (Casa / Bazar Mutt e Jeff na rua do Ouvidor 162); serviu de pseudônimo dos autores das revuettes (revistinhas apresentadas nos espetáculos mistos de palco e tela) “Sacca-Rolhas”, “O Circo U-Ó-Chin-Ton e “Teia de Aranha”, todas com Alda Garrido, dos atores Alfredo Silva e Asdrubal Miranda (que, como compères, imitaram os personagens de Budd Fisher em “Esta Nêga Qué Me Dá”, uma revista dos Irmãos Quintiliano), e de dois cantores da Radio Sociedade Fluminense; suas figuras foram usadas na promoção dos brinquedos do Bazar Francês na Rua da Carioca 16, em palestra (Goulart de Andrade, reproduzindo um diálogo em que Mutt e Jeff discutem costumes cariocas e a psicologia das duas curiosas espécies humanas: a melindrosa e a almofadinha) e como  título de um livro de crônicas de Benjamin Costallat.

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captura-de-tela-2016-11-01-as-22-56-38Entre os desenhos animados de Mutt e Jeff, trazidos ao Brasil pela Fox, encontrei  estes  títulos: De Volta dos Balcãs – Caçadores de Feras – O Tesouro Enterrado – A História de um Porco – O Canhão 150 – O Salva Vidas – O Ocultismo – Barbeiro e Cabelereiro – Aquele Piano –  Os Vigilantes – Os Patinadores –  Investigação Frustrada – Com os Tanks ou Os Tanques – Restaurant à la Minute – O Dentista do Kaiser -Alarme de Ladrões – Caça aos Submarinos – Az e Valete – Salvando-se – Descobrindo um Espião – Eficiência – No Front – El Gran Mazzantini, Olé, Olé! – Aventuras Alpinas – Viagens – Dominando os Bolchevikis – Domando Leões – Rendez-vous com Theda Bara –

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O Novo Campeão – Negócio  e Acrobacia – Junta de Recrutamento – Sempre a Má-Sorte – Uma Viagem à Volta do Mundo em 9 dias – Salvando Fifi – Domesticando Cães – Panificação, Massas e Biscoitos – Amestrando Cachorros – Ondas e Mulheres Enfurecidas – Fenômenos de Barba – 80.000 Quilômetros com uma Lata de Gasolina – Caranguejo Canalha – Substituindo Tom Mix – A Idade da Pedra – Visões – Entre as Vacas ou Metidos com Vacas – Apanhando uma Herdeira – Assuntos de Teatro – O Seu a Seu Dono – Café Cantante – Salchicheiros – Figuras de Cera – Coice Bem Calculado – Pestes e Prediletos – Ria-se Menino – Luta de Sôcos – Advogado Admirável – Promessa da Professora – No Gélido Norte – Oeste e Leste – Canta o Teu Dó – Na Espanha – O Honesto Vendedor de Livros – Nem Tudo que Reluz é Ouro – Leões e Mais Leões – Santo de Casa não faz Milagres – Uma Rosa com outro Nome – Para Evitar Escândalos – Uma Viagem Confortável – O Crime de Mutt e seu Castigo – Cultivador de Rosquilhas – Por bem ou Por Mal – Fostes Injusto com a Nossa Nell – No País do Gelo ou A Terra do Gelo – Fabricante de Brinquedos – Os Lutadores – Em Greve – Detetive Particular – Pra Evitar Escândalos – Pescando ou Os Pescadores – Os Emprestadores – Espião de Hortelã – Chumbeiros – Na Suiça – Forradores – No Planeta Marte – Casa Mal Assombrada – Ingrediente Perigoso – Uma Tragédia Telefônica – Violino Desafinado – Concurso de Tango – Dança das Tremuras –

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Caipiras e Caiporas – As Regatas – Solfa Musical – Elas, Sempre Elas – O Dentista Dengoso – Almas do Outro Mundo – O Preço de um Bom Copeiro – Eles Sempre Eles – Jogo da Bola – Uma Luta de Jeff – Lar, Meu Doce Lar – Água Maravilhosa – Corrida de Bicicleta – Jóquei Honesto – Contra Bandidos – Novas da Semana – Belo Modelo – Instrutores Musicais – Café Bohemio – Reino d’Angola – Jeff, o Terrível – Cantorias – Napoleão – Deixando de Tolices – Esfomeados – A Loja de Alfaiate – Vaqueiros – Bolos Desfolhados – Carestia de Vida – Tônico para Cabelo – Fazendeiro Eficiente – Salvação Épica – Cleopatra – Comércio Bolchevista – Licor Endiabrado – Os Políticos – Desenhistas – Pinta Identificadora – Véspera de Natal – Touradas – O Pequeno Índio – Scherlok Marokian – Fábrica de Cola-Tudo – Lição Severa – Chá Frio – Idéia de Loucos ou Idéia de Doido – Caçadores de Leões – Descanço Obrigatório – Pássaro Raro – Ventríloquos – Hipnotizadores – Norte Longínquo – Colheira de Côcos – Viajantes Originais – Leiteiros – Naturalistas – Bomba Infernal – Embriagando Elefantes – Limpador Mecânico – Casco de Tartaruga – Manancial – Socorro! Um Urso – Uma Idéia Chocante – Urubús Espantalhos – Nos Sertões Africanos – Funcionários Postais – Passeio de Auto – As Ninfas – Pintores Desastrados – Os Forçados – No Celeste Império – Corrida dos Diabos – Grande Mistério – Jogo de Boxe – Mastodonte -Antropófagos – Uma Boneca Roubada – Descontentes – Vinho de Maçãs – O Trem dos Demônios – Noite de Natal – Aparador de Cabelos – Casório – Fotógrafos – Viva o Rei – Dedo Colossal – Atoleiro – Um Caso Evidente – O Caixa – Bolsas de Kangurús – A Vingança de Jeff – O Concerto de Jeff – Águas Encantadas – Na Escócia – Alguma Água, Hoje? – Pescarias – Salsicheiros – Salto Mortal – Os Archeiros – Martírios de um Perú – O Pato Mágico – Fazendo Goma – Pelas Alturas – Ginásticos – O Algodoal – Má Situação.

 

 

 

 

 

 

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FILMES BRASILEIROS DA DÉCADA DE QUARENTA

October 27, 2016

Nenhum periodo do cinema sonoro brasileiro tem o seu estudo mais dificultado do que a década de quarenta, porque a maioria dos filmes nacionais produzidos entre 1940-1949 desapareceu, por fôrça de incêndios em estúdios (v. g. Brasil Vita Filmes  em 1944 e 1957; Sonofilms em 1940) ou cinematecas (v. g. Cinemateca Brasileira – São Paulo em 1957); perdas irreparáveis por deterioração; porque os detentores das cópias que sobreviveram não têm interesse de exibí-las ou de permitir a sua transposição em dvs.

Este artigo rememora os filmes nacionais exibidos entre 1940 e 1949 como uma homenagem aos cineastas que os realizaram e a fim de que essas realizações não sejam esquecidas.

1940

Janeiro:

LARANJA DA CHINA

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Fevereiro:

O HOMEM QUE NASCEU DUAS VÊZES

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CISNE BRANCO

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Abril:

PEGA LADRÃO

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Junho:

O DIREITO DE PECAR

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Julho:

O SIMPÁTICO JEREMIAS

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Outubro:

PUREZA

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Dezembro:

E O CIRCO CHEGOU

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1941

Fevereiro:

CÉU AZUL

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VAMOS CANTAR

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Março:

ETERNA ESPERANÇA

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Setembro

24 HORAS DE SONHO

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Outubro:

SEDUÇÃO DO GARIMPO

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Novembro:

O DIA É NOSSO

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1942

FOOTBALL EM FAMÍLIA

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Maio:

ARGILA

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1943

Janeiro:

ASTROS EM REVISTA

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Fevereiro:

SAMBA EM BERLIM

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ENTRA NA FARRA

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Agosto:

CAMINHO DO CÉU

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Setembro:

MOLEQUE TIÃO

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1944

Janeiro:

É PROIBIDO SONHAR

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Fevereiro:

BERLIM NA BATUCADA

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O BRASILEIRO JOÃO DE SOUZA

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TRISTEZAS NÃO PAGAM DÍVIDAS

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Outubro:

ROMANCE DE UM MORDEDOR

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Novembro:

GENTE HONESTA

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CORAÇÕES SEM PILOTO

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Dezembro:

ROMANCE PROIBIDO

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1945

Janeiro:

NÃO ADIANTA CHORARcaptura-de-tela-2016-10-17-as-15-28-18

Fevereiro:

PIF PAFcaptura-de-tela-2016-10-17-as-15-33-32

Julho:

O CORTIÇO

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Setembro:

VIDAS SOLIDÁRIAScaptura-de-tela-2016-10-27-as-16-31-51

1946

Fefvereiro:

SEGURA ESTA MULHER

captura-de-tela-2016-10-27-as-16-34-53Abril:

CAÍDOS DO CÉUcaptura-de-tela-2016-10-27-as-16-37-31captura-de-tela-2016-10-27-as-16-37-42

JARDIM DO PECADOcaptura-de-tela-2016-10-27-as-16-39-08

Maio:

SOB A LUZ DO MEU BAIRRO

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CEM GAROTAS E UM CAPOTE

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Agosto:

O ÉBRIO

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Setembro:

FANTASMA POR ACASO

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Dezembro:

NO TRAMPOLIM DA VIDA

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1947

Fevereiro:

ESTE MUNDO É UM PANDEIRO

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Maio:

UMA AVENTURA AOS 40

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Agosto:

QUERIDA SUZANA

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Setembro:

LUZ DOS MEUS OLHOS

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Novembro:

O MALANDRO  E A GRANFINA

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Dezembro:

O HOMEM QUE CHUTOU A CONSCIÊNCIA

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1948

Fevereiro:

É COM ESTE QUE EU VOU

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ESTA É FINAcaptura-de-tela-2016-10-27-as-17-50-11

Abril:

ASAS DO BRASIL

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INCONFIDÊNCIA MINEIRA

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Setembro:

OBRIGADO DOUTOR!captura-de-tela-2016-10-27-as-17-53-57

Outubro:

MÃE

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O CAVALO 13

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Novembro:

FALTA ALGUÉM NO MANICÔMIO

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Dezembro:

POEIRA DE ESTRELAS

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O CAÇULA DO BARULHO

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1949

Janeiro:

ORA LÁ DE BOA

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Fevereiro:

E O MUNDO SE DIVERTE

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Maio:

TERRA VIOLENTA

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Junho:

EU QUERO É MOVIMENTO

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Agosto:

INOCÊNCIA

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Setembro:

TAMBÉM SOMOS IRMÃOS

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LUAR DO SERTÃO

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Outubro:

UM PINGUINHO DE GENTEcaptura-de-tela-2016-10-27-as-20-01-29

UMA LUZ NA ESTRADA

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Novembro:

NÃO ME DIGA ADEUS

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IRACEMA, A VIRGEM DOS LÁBIOS DE MEL

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O HOMEM QUE PASSA

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Dezembro:

VENDAVAL MARAVILHOSO (CO-PRODUÇÃO BRASILPORTUGAL)

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CAMINHOS DO SUL

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ESCRAVA ISAURA

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A OBRA DE F. W. MURNAU III

October 14, 2016

 

Quando Murnau chegou na América em julho de 1926, para trabalhar na Fox Corporation (depois de recusar convites feitos pelas firmas concorrentes Famous Players e Metro-Goldwyn), ele era conhecido quase que exclusivamente como diretor de A Última Gargalhada, o único dos seus dezessete filmes feitos até então, que havia sido distribuído nos Estados Unidos (Fausto, que acabara de ser completado, estreou em Nova York em dezembro de 1926; Tartufo, realizado entre os dois filmes citados, foi lançado em julho de 1927;  O Lobisomem, de 1921, somente chegou  ao público em junho de 1929). A Última Gargalhada, e depois Fausto, conferiram uma grande reputação artística ao diretor germânico e ao ator Emil Jannings, que também seria acolhido por Hollywood.

F. W. Murnau

F. W. Murnau

Em um encontro com Winfield R. Sheehan, gerente geral da Fox, ocorrido em Berlim, ficou ajustado que o primeiro filme de Murnau na companhia seria baseado em uma novela curta de Hermann Sudermann, “Die Reise nach Tilsit” (Viagem a Tilsit), incluída no volume “Litauische Geschichten”(Histórias Lituanas). Murnau obteve o controle criativo completo da produção bem como permissão para trazer Carl Mayer como roteirista, Rochus Gliese como diretor de arte, e Herman Bing (que no futuro seria o engraçadíssimo Zizipoff de A Viúva Alegre / The Merry Widow / 1934 de Ernst Lubitsch) como assistente de direção.

Carl Mayer preferiu voltar para o seu país, enviando depois um roteiro em alemão, traduzido por Hermann Bing para o inglês com o título de The Song of Two Humans, que acabou se convertendo no subtítulo do filme, porque Murnau preferiu dar à sua obra o título de Sunrise, e fazer alterações na história original (v. g. no livro o marido morria afogado na volta para a casa e a esposa sobrevivia, para dar à luz ao filho concebido durante a reconciliação).

Carl Mayer e Murnau

Carl Mayer e Murnau

A decisão de William Fox de contratar Murnau, dando-lhe carta branca para a realização de Aurora / Sunrise / 1927, fazia parte de um plano cuidadosamente armado para elevar o status de seu estúdio no meio da indústria de cinema, pois os filmes  dos diretores alemães eram encarados como expressões de uma visão artística em vez de meros produtos industriais. Aurora foi um dos raros filmes planejados matematicamente para ser uma produção de prestígio e de arte, e resultou em  uma obra de grande calor humano e espontaneidade, um estudo pungente da alma humana.

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Murnau quís dar ao seu relato um valor universal, como ele anuncia no começo do filme: “Esta é a história de dois seres humanos. Este canto de um homem e uma mulher é de nenhuma parte e de toda a parte, podemos ouví-lo em todas as épocas e em todo lugar”.  A ação se inicia durante as férias de verão.  Os turistas chegam a um vilarejo bucólico situado às margens de um lago. Uma mulher da cidade, decide estender sua permanência no local, para seduzir um fazendeiro casado. Ela passa diante de sua janela e faz sinal para se encontrarem. O fazendeiro, impaciente e com a consciência pesada, sai de casa furtivamente, deixando sua esposa honesta e leal com seu bebê. Ele caminha através do pântano, a fim de se reunir com a mulher da cidade e, enquanto os dois trocam beijos sob o luar, a esposa, chorando, consola seu bebê. A sedutora urbana pede que o fazendeiro venda sua propriedade  e vá com ela para a cidade. Quando sugere que ele afogue sua esposa, o fazendeiro fica injuriado, e tenta estrangulá-la. Sua fúria termina em um abraço lascivo, após o qual a mulher fatal o instiga com imagens deslumbrantes da cidade.  Eles então tramam matar a esposa dele, simulando um acidente. Na manhã seguinte o fazendeiro convida sua esposa para um passeio de barco. Durante a travessia, ele para de remar, e parte ameaçadoramente em direção a ela. Percebendo a intenção de seu marido, a esposa cruza suas mãos para rezar. Ele então desiste de matá-la, e rema até a margem. Em terra, a esposa foge, e entra em um bonde, seguida pelo marido. Chegam à cidade e, depois de irem a um restaurante,  entram em uma igreja, onde está sendo celebrada uma cerimônia de casamento. As palavras do padre parecem dirigidas a eles, o que os leva à reconciliação. Eles saem para passear. Primeiro, chegam a um salão de beleza, depois tiram uma fotografia e, por fim, entram em um parque de diversões. Vivem uma espécie de segunda lua-de-mel. Na viagem de volta para casa de barco, cai uma tempestade, e agita as águas do lago. Quando o barco começa a balançar, o marido amarra no corpo de sua esposa dois feixes de bambús para que, no caso dela ser lançada na água, possa usá-los como bóia. A tempestade aumenta, e o barco vira. Ao cessar a chuva, o marido consegue atingir a terra firme, mas não encontra a esposa. Todos no vilarejo saem em seus barcos com lanternas, para auxiliar o fazendeiro desesperado na busca pela esposa; porém tudo o que encontram são os bambús espalhados, boiando sozinhos na superfície do lago. A mulher da cidade vem procurar o fazendeiro, e este começa a estrangulá-la; mas é interrompido pelos gritos de uma empregada que lhe avisa que sua esposa fôra encontrada viva, boiando agarrada a um dos feixes de bambús. Na aurora do dia seguinte, a mulher da cidade vai embora, o marido assiste o despertar de sua esposa, e os dois se abraçam apaixonadamente.

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Apesar de seu virtuosismo visual (a cargo de dois excelentes fotógrafos, Charles Rosher e Karl Struss), Aurora é essencialmente um filme simples. O roteiro é lírico e poético, mas descomplicado. A estrutura do filme é baseada em oposições muito claras: campo e cidade, dia e noite, consciência humana e forças da natureza. E há uma variedade de tons: temos aquela pintura cômica da felicidade reconquistada do casal naquele paraíso irreal, lúdico e exótico da cidade (os dois no cabelereiro, no fotógrafo, o parque de diversões, a dansa campesina etc.) e o tom triste das cenas do campo. Em ambos os contextos o expressionismo é bem visível. O vento, a tempestade, a serenidade da água ou do céu fazem parte do drama assim como os pensamentos e os atos dos personagens.

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cena de Aurora

As transições são muito cuidadas: a mais célebre é a viagem de bonde das margens do lago até a cidade (construída por meio de uma combinação complexa entre locações naturais e trucagens) em um movimento ininterrupto, que une o campo e a cidade e providencia tanto uma pausa como uma ponte entre a paixão destrutiva da primeira metade do filme e a reconciliação construtiva que se seguirá. Outros pontos importantes do espetáculo são a mobilidade da câmera (v. g.  o fazendeiro indo se encontrar com sua amante no pântano, sendo seguido por uma câmera alucinante, que depois se torna subjetiva, e nos faz descobrir a mulher vestida de preto sob o brilho da lua cheia); o uso dos letreiros como elemento dramático (quando a mulher da cidade insinua o assassinato dizendo “Ela não poderia ser afogada?”- a palavra “afogada” vai escorrendo devagar para a parte mais baixa da tela, como se ela própria estivesse se afogando); o emprego da superposição, do desfoque ou da dissolvência (v. g. a visão das delícias da cidade e a mulher dançando frenéticamente na margem do pântano); o paralelismo (o fazendeiro e a mulher da cidade se beijando e a esposa beijando seu filhinho); o cuidado extraordinário com o jogo de luzes e dos reflexos que tem para Murnau uma significação quase mística.

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Cena de Aurora

Cena de Aurora

Cenas de Aurora

A humanidade de algumas sequências é comovente (v. g. o marido tentando acalmar os temores da esposa e reconquistar sua confiança, levando-a a um restaurante e pedindo um bolo, que nenhum dos dois quer ou consegue comer; os dois testemunhando uma cerimônia de casamento, na qual o marido se vê repetindo ou talvez compreendendo pela primeira vez os votos do matrimônio, para cair nos braços da esposa, e ser confortado por ela). O título mesmo do filme, tem um significado muito simbólico e resume em si mesmo a sua história: representa ao mesmo tempo o nascimento de um novo dia e de um amor quase-perdido pelo adultério.

Cena de Aurora

Cena de Aurora

A própria ausência de diálogos dá ao filme a universalidade proposta, que seria impossível em um filme sonoro porque, se houvesse diálogo, este estaria automaticamente ligado a uma época  e a um país, e a universalidade desapareceria. Embora seja baseado em uma história européia, o filme é ambíguo quanto ao seu ambiente. Certos aspectos sugerem a Europa, mas ele bem que poderia se passar no Canadá ou nos Estados Unidos. Até a época é controvertida. O vestuário certamente não é dos meados dos anos vinte (1927, data da realização do filme) e se os automóveis são, os cenários da cidade estilizada (construídos em falsa perspectiva e com miniaturas) e o parque de diversões futurista ajudam a complicar as coisas. O filme cria a universalidade não apenas visualmente, mas porque suas emoções são intemporais (de fato elas são eternas) e não se limitam por fronteiras geográficas.

Murnau na filmagem de Aurora

Murnau na filmagem de Aurora

0 score musical de Hugo Riesenfeld é totalmente sincronizado com a ação na tela graças ao sistema de som ótico Fox Movietone, e perdura durante todo o filme assim como os efeitos sonoros adicionais  (v. g. os sinos da igreja), ambos em uma  combinação perfeita  com as imagens notavelmente fotografadas por Charles Rosher e Karl Struss.

Janet Gaynor e seu Oscar

Janet Gaynor e seu Oscar

Entre as promessas que a Fox fez a Murnau, estava a de lhe dar total liberdade na escolha do elenco do filme, mas curiosamente ele selecionou aqueles que a companhia estava querendo promover: o trio de protagonistas, George O’Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingston já havia coincindido em A Águia Azul / The Blue Eagle / 1926 de John Ford. George O’Brien se destacara particularmente em Três Homens Maus / 3 Badmen / 1926, também dirigido por Ford. Em Aurora, o ator usa seu corpo de uma maneira tipicamente expressionista, encurvado, como se o seu personagem estivesse literalmente carregando o peso do mundo sobre os ombros, como de fato estava, até fazer as pazes com a esposa (puzeram-lhe sapatos carregados de chumbo para a cena da intenção de afogamento). Janet Gaynor foi elevada à posição de grande artista, graças à feliz coincidência de ter atuado em mais dois filmes importantes,  Sétimo Céu / 7th Heaven / 1927 e O Anjo das Ruas / Street Angel / 1928, além de sua interpretação sensível e delicada em Aurora. Pelo seu trabalho nesses três filmes, ela conquistou o primeiro Oscar concedido pela Academia a uma atriz. Charles Rosher e Karl Struss arrebataram o Oscar de Melhor Fotografia e o estúdio da Fox uma estatueta pela alta qualidade de sua produção. Rochus Gliese foi indicado, mas perdeu para William Cameron Menzies.

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Murnau viajou de férias para a Europa em 25 de março de 1927 e, no seu retorno, celebrou um contrato de cincos com a Fox, pois o estúdio havia cumprido sua promessa de não interferir no seu trabalho, e ele acreditava que isso seria para sempre. Quase dois anos mais tarde, Murnau e a Fox dariam fim a esse contrato em virtude de desavenças motivadas principalmente porque a Fox introduziu modificações nos dois filmes seguintes do cineasta, Four Devils e Our Daily Bread. O primeiro filme, exibido no Brasil como Os Quatro Diabos, acabou desaparecendo dos arquivos da Fox, e hoje é considerado um filme perdido. O segundo filme, acabou se convertendo, depois das mudanças, em City Girl (mas quando passou em nosso país, o distribuidor colocou como título em português, a tradução ao pé da letra do título originariamente previsto, O Pão Nosso de Cada Dia).

Murnau e seus artistas infantís de Os Quatro Diabos

Murnau e seus artistas infantís de Os Quatro Diabos

Os Quatro Diabos, baseado no romance “De Fire Djaevle” de Herman Bang, adaptado por Carl Meyer, Marion Orth e Berthold Viertel (embora apenas este último tivesse sido creditado), com fotografia de Ernest Palmer (indicado para o Oscar), direção de arte de William S. Darling (após esboços de Robert Herlth), tinha o seguinte enredo. No circo Cecchi, um palhaço (J. Farrell MacDonald) cuida de duas meninas orfãs, Marion (quando adulta, Janet Gaynor) e Louise (quando adulta, Nancy Drextel), como se fossem suas filhas. Durante uma temporada, uma mulher entrega ao diretor do circo (Anders Randolf) os garotos Adolf (quando adulto, Barry Norton) e Charles (quando adulto, Charles Morton), filhos dos famosos trapezistas Rossy, que haviam perdido a vida executando um salto mortal. As quatro crianças crescem unidas por uma grande amizade, ao mesmo tempo em que sofrem sob a severa disciplina exercida por Cecchi. Um dia, o palhaço abandona o circo com os quatro gurís, depois de uma briga com Cecchi que, embriagado, os havia ameaçado. O palhaço consegue emprego em outros circos, o tempo passa, e os meninos e as meninas crescem. Já muito velho, o palhaço sente-se mal durante uma apresentação, deixa de atuar, mas continua a treinar o quarteto. Eles se tornam célebres como acrobatas do trapézio chamados “Os Quatro Diabos”, que aparecem em seus números montados, cada um em dois cavalos brancos. Marion ama Charles há muito tempo, porém eis que surge uma mulher fatal, e Charles não resiste aos seus encantos. Uma dama (Mary Duncan) passa a comparecer em todas as apresentações dos Quatro Diabos e sempre lança uma rosa para Charles, que na verdade é um bilhete convidando-o a se encontrar com ela. Antes de um desses encontros, Adolf tenta impedí-lo de sair, dizendo que ele iria destruir o grupo. Charles passa a ficar dispersivo nos ensaios e, em um deles, cai do trapézio durante um salto mortal, sendo todavia salvo pela rede de segurança. Ele continua frequentando a casa da amante, o que é motivo de preocupação para Marion, Alfred e o palhaço, que o alertam para o salto mortal que será executado na noite seguinte sem qualquer proteção. Após uma discussão, Charles sai para encontrar-se com a dama, pedindo que o deixem em paz.

Os Quatros Diabos

Os Quatros Diabos (Janet Gaynor, Nancy Drextel, Charles Morton, Barry Norton)

Marion o segue e, depois de esperá- lo durante toda uma noite gélida, chegam a se falar. Charles abraça-a e pede seu perdão. Abandonada, a dama não se conforma e, no dia seguinte, vai ao circo, e convida Charles a ir até sua casa após o ensaio. A dama pede que ele não lhe negue uma última taça de vinho e um último beijo. Charles bebe um pouco demais e não percebe que ela atrasou o relógio em uma hora e meia. Só se dá conta da hora ao verificar o relógio da cidade, olhando pela janela. Charles corre até o circo, e consegue chegar no último instante da apresentação do trapézio perigoso.

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

A partir daí, em uma primeira versão, Marion lança o trapézio para Charles e este, embriagado, não consegue agarrar a barra, e cai; mas consegue sobreviver milagrosamente. Em outro final, preferido por Murnau, Marion crê que ela e Charles devem morrer. Na conclusão do salto mortal, Charles deveria receber o trapézio, que lhe é lançado por Marion. Ela entretanto, salta junto com o trapézio, e Charles, sem ter onde se agarrar senão ao corpo de Marion, acaba abraçando-a e assim, os dois vão ao solo. Mais tarde, os dois diabos sobreviventes se casam e levam o palhaço consigo. Este final encantou a muitos espectadores das pré-estréias que se fizeram em Fresno e San José na Califórnia em julho de 1928, por ser mais lógico que o final feliz forçado da primeira versão. Entretanto, a companhia produtora não pensou assim, e ordenou outro desenlace (que Murnau filmou com relutância) no qual Marion, sentindo-se desprezada, cai deliberadamente do trapézio. É dada como morta, mas sobrevive, e confessa seu amor a Charles. Esta versão foi apresentada na estréia que ocorreu em 3 de outubro de 1928 em Nova York.  Mais uma versão, esta fora do alcance de Murnau, reestreou em Los Angeles em 10 de junho de 1929 com som e diálogos incorporados, e novos créditos, nos quais apareciam John Hunter Booth como autor dos diálogos, L. W. Connell como fotógrafo, A. H. Van Buren e A. F. Erickson como encenadores. Nesta derradeira versão, não foi modificado o final, mas as cenas que o antecediam. Charles rompe definitivamente com a amante, e chega a tempo no circo para fazer o número do salto mortal, não após ter se embriagado na companhia dela, mas depois de ter ficado horas inconsciente por ter sido atropelado.

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O Pão Nosso de cada Dia, baseado na peça teatral “The Mud Turtle” de Elliott Lester, adaptada por Berthold Viertel e Marion Orth, com fotografia de Ernest Palmer, direção de arte de Harry Oliver, contava a seguinte história. Em  1929, Lem Tustine (Charles Farrell), vai a Chicago, a pedido do pai, para vender a última colheita de trigo de sua fazenda no Minnesota. Em uma lanchonete, ele conhece Kate (Mary Duncan), jovem garçonete que não se sente feliz no seu trabalho e na sua cidade. Eles se casam, e Lem a leva para viver na propriedade de sua família. Se a mãe (Edith Yorke) a acolhe calorosamente, o mesmo não acontece com o pai ríspido e autoritário (David Torrence), que implica imediatamente com a moça, culpando-a pela má venda efetuada pelo seu filho (quando na verdade esta foi causada pela crise financeira) e desconfiando de suas intenções ao se casar com Lem. Ele chega mesmo a bater em Kate quando ela o enfrenta e, como Lem não ousa se opor ao seu pai e reprovar sua atitude, ela lhe fecha a porta de seu quarto. Não obstante, no dia seguinte, Kate vai ajudar na nova colheita do trigo, preparando as refeições dos empregados da fazenda. Ela logo verifica que eles não são menos vulgares e dissolutos do que os citadinos que ela costumava servir na lanchonete. Uma tempestade de granizo se aproxima, ameaçando destruir toda a colheita, e o velho Tustine oferece pagamento em dobro aos seus empregados, para eles trabalharem de noite. O capataz, Mac (Richard Alexander), que já vinha se aproximando de Kate, chega com a mão cortada por uma debulhadeira e, enquanto ela o ajuda a enfaixá-la, ele aproveita a oportunidade para tentar convencê-la a fugir com ele. Kate se recusa, porém o velho Tustine surge nesse momento e anuncia que vai procurar Lem, e lhe dizer que espécie de esposa ele tem. Furioso, ao saber da notícia, Lem vence Mac em uma briga, e depois quase é atingido pela arma de seu pai quando este atira contra empregados desertores. Percebendo que quase matou seu filho, confundindo-o com um dos fugitivos, o velho arrepende-se, e Lem traz de volta sua esposa, apresentando-a novamente para um pai mais submisso e tolerante.

Charles Farrell e Mary Duncan em O Pão Nosso de Cada Dia

Charles Farrell e Mary Duncan em O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan em O Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan em O Pão Nosso de Cada Dia

A interferência do estúdio que já havia afetado Os Quatro Diabos, causou impacto ainda maior sobre o filme seguinte de Murnau, um projeto sugerido por ele, chamado Our Daily Bread, que foi abreviado, remontado e parcialmente refilmado pela Fox, antes de ser lançado com o novo título de City Girl. Felizmente, a versão restaurada que podemos ver hoje, é a silenciosa, que Murnau pretendeu fazer; mas o público de 1930 viu uma versão bastarda parcialmente falada com mudança de ênfase e/ou extirpação de determinadas cenas (com diálogos de Elliott Lexter, e encenada por A. H. Van Buren e A. D. Erickson, pois o cineasta se recusou a fazer quaisquer mudanças na sua criação muda), e ainda inserção de cenas de alívio cômico.

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de City Girl

Cena d O Pão Nosso de cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Cena de O Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan e David Torrence em Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan e David Torrence em Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan e Richard Alexander em O Pão Nosso de Cada Dia

Mary Duncan e Richard Alexander em O Pão Nosso de Cada Dia

O filme tem como tema a falsidade do mítico retorno ao campo dominado pela mesma lógica do lucro e intolerância que vigora no ambiente citadino, e apresenta uma espécie de inversão dos valores e das situações apresentados em Aurora. Diferentemente do que ocorre na primeira realização de Murnau nos Estados Unidos, a desavença entre o jovem casal não resulta de uma tentação externa, mas da fraqueza moral do rapaz e sua total subordinação ao pai autocrático, que ameaça sua pequena filha de punição, por se atrever a brincar com talos de milho. Outrossim, enquanto que em Aurora  é a mulher que parece ser a pessoa mais frágil do casal, não ousando fazer nada, quando ela percebe que seu esposo está prestes a afogá-la, em O Pão Nosso de Cada Dia, ao contrario, é ela que representa a modernidade e a força de caráter, aquela que enfrenta os conflitos para salvaguardar sua felicidade. Quanto a Lem, em oposição ao homem de Aurora, ele é um ser ingênuo, sempre sob a tutela de seus pais, oprimido pelas tradições e pelos resquícios de uma educação rígida lembro o riso das garçonetes quando, na lanchonete, elas vêm o rapaz fazer sua oração antes de comer o sanduíche.

Ernest Palmer e Murnau

Ernest Palmer e Murnau

Sob o ponto de vista visual, também surgem divergências entre os dois filmes. Aurora parecia mais um filme alemão e se aproximava do expressionismo; O Pão Nosso de Cada Dia, assemelha-se mais a um filme americano naturalista, embora se encontrem vestígios da primeira escola estética do cineasta. No último filme citado, sua mise-en-scène apurada e seu sopro lírico manifestam-se notadamente na chegada de Kate e Lem na granja, no instante em que correm felizes acompanhados por um traveling através do trigal, abraçando-se e se beijando, até se depararem diante da morada inquietante dos Tustine. Pouco antes, eles param diante de uma cerca, Lem mostra a imensidão da plantação para Kate, e ela diz: “Oh, Lam, é maravilhoso ter um lar … e uma mãe e um pai … e um homem forte e vigoroso para cuidar de mim!”, mal sabendo ela o que a esperava. A cumplicidade entre os dois atores, a suntuosidade da fotografia, a perfeição dos enquadramentos, e a utilização da luz constroem uma sequência admirável e tocante.

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Durante a filmagem de Os Quatro Diabos, Murnau conheceu o documentarista Robert J. Flaherty, que se tornara famoso através de dois filmes Nanook do Norte / Nanook of the North / 1922 e Moana / Moana / 1926. Seu desapontamento mútuo sobre as condições de trabalho em Hollywood aproximou-os. Juntos, eles desenvolveram um plano para realizar um filme nos Mares do Sul, baseado inteiramente em suas próprias concepções. Há algum tempo, Murnau havia pensado em partir para Bali, onde seu amigo, o pintor Walter Spies, vivia. Flaherty conhecia os Mares do Sul desde a produção de Moana e do filme Deus Branco / White Shadows of the South Seas / 1928, rodado no Tahiti, no qual ele esteve inicialmente envolvido.

 Robert Flaherty na filmagem de Tabu (em baixo , à direita)

Robert Flaherty na filmagem de Tabu (em baixo , à direita, de camisa branca)

Floyd Crosby (à esq.) e Murnau (à direita) em um intervalo da filmagem de Tabu

Floyd Crosby (à esq.) e Murnau (à direita) em um intervalo da filmagem de Tabu

Em março de 1928 eles formaram a Murnau-Flaherty Productions que, logo depois, se associou a Colorart Productions Ltd., uma produtora disposta a financiar o projeto dos dois cineastas, comprometendo-se a mandar material para uma filmagem em cores e com som, técnicos de apoio, e dinheiro para cobrir todos os gastos. O título provisório do filme planejado em Technicolor era Turia e seu enredo baseado em uma idéia de Flaherty.

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Em maio de 1928, Murnau visitou o Taiti, e se reuniu com Flaherty um mês depois para escolher locações na ilha de Bora-Bora. Em agosto, chegaram cinco mil dólares, quantidade muito pequena em relação ao que haviam combinado, e então Murnau, depois de um ultimato para que a Colorart cumprisse o prometido, resolveu rescindir o contrato, e assumir ele mesmo as despesas. Para cortar os custos do empreendimento, mandou os componentes da equipe de Hollywood de volta, e treinou os nativos para trabalhar no lugar deles. Murnau optou para filmar em preto e branco. O roteiro foi reescrito e o título modificado para Tabu / Tabu, a Story of the South Seas, a fim de evitar questões legais com a Colorart.

Reri (Anne Chevalier)

Reri (Anne Chevalier)

A produção começou em janeiro de 1930 com Flaherty dirigindo a cena de abertura. Foi a única que ele dirigiu. Como agora era Murnau quem financiava a produção, ele se tornou o único diretor, deixando Flaherty encarregado apenas da fotografia e do trabalho em laboratório. Flaherty começou a ter problemas técnicos com a sua câmera e chamou o fotógrafo Floyd Crosby para ajudá-lo. O grande documentarista americano não tardou a ser afastado da fotografia, encarregando-se do trabalho de laboratório, recebendo um salário muito inferior ao de outros colaboradores, especialmente em relação a Crosby (que acabou ganhando  o Oscar de Melhor Fotografia).

A produção terminou em outubro de 1930. Flaherty, que vinha se sustentando com apenas 40 dólares mensais, ficou em péssima situação financeira antes da filmagem terminar. Ele vendeu sua participação acionária no filme para Murnau por 25 mil dólares. Retornando a Los Angeles, Murnau montou o filme, e gastou o resto de sua verba, para contratar Hugo Riesenfeld, autor do score musical. Os direitos de distribuição foram vendidos para a Paramount por cinco anos por 75 mil dólares, que serviram para Murnau pagar Flaherty. O filme estreou em 18 de marco de 1931, e foi quando Floyd Crosby ganhou o Oscar de Melhor Fotografia.

Cena de Tabu

Cena de Tabu

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Tabu é dividido em dois capítulos. No primeiro, intitulado “Paraiso”, Matahi e Reri (Anne Chevalier) são dois jovens nativos de Bora-Bora apaixonados, mas suas vidas são destruídas quando o chefe da ilha recebe uma mensagem do velho Hitu, emissário do chefe da ilha vizinha de Fanuma, senhor de todas as ilhas. Ele anuncia que a virgem consagrada aos deuses de Fanuma morreu e Reri foi escolhida para substituí-la. A partir desse momento, nenhum homem poderá tocá-la, pois ela é tabu. Hitu recebeu a missão de conduzí-la à presença do chefe de Fanuma e de proteger a sua castidade. Matahi fica inconsolável porém, durante a festa em homenagem à visita de Hitu, os dois amantes se entregam a uma dança agitada, que o velho interrompe brutalmente. Na segunda parte, intitulada “Paraíso Perdido”, Matahi e Reri fogem em uma pequena embarcação e procuram uma ilha, onde reina o homem branco e os deuses antigos são esquecidos. Eles encontram essa ilha, onde Matahi se revela um excelente mergulhador, e consegue achar uma pérola. Pouco familiarizado com o conceito de dinheiro, ele não compreende as contas que assina pelas bebidas oferecidas para todos durante uma festa, a qual é interrompida pela chegada de um veleiro, que traz uma comunicação do governo francês, oferecendo  recompensa pela sua prisão. Matahi suborna o policial. Pouco depois, um rapaz, tendo mergulhado em um lugar considerado perigoso pelos nativos supersticiosos, é devorado por um tubarão. O policial então manda colocar um cartaz nesse local com a inscrição: tabu, proibindo o mergulho. Reri recebe uma mensagem de Hitu: se ela não voltar dentro de três dias, Matahi vai morrer. A moça vai a uma agência de viagens, para saber o preço de dois bilhetes para Papeete. Matahi quer comprar as passagens, porém sob o pretexto de que ele tem dívidas assumidas com a festa que bancou, os credores recolhem seu dinheiro. De noite, ele sonha que pagou suas dívidas com uma pérola. Hitu, armado com uma lança quer matá-lo enquanto está dormindo. Reri se joga aos seus pés e jura obedecê-lo. Enquanto Mitahi partiu para mergulhar no lugar proibido, Reri lhe escreve uma palavra de adeus. Ao chegar à sua cabana, depois de escapar de um tubarão e de encontrar uma pérola negra valiosísima, Mitahi lê o bilhete, e corre para tentar alcançar o barco de Hitu, que leva Reri. Ele nada velozmente, e até consegue se aproximar da embarcação, todavia, a corda que o levaria a bordo, é cortada por Hitu. Enquanto o barco segue viagem, Matahi continua nadando em sua direção até que a exaustão o faz desaparecer no mar.

Cena de Tabu

Cena de Tabu

Cena de Tabu

Cena de Tabu

Cenas de Tabu

O filme se afasta do olhar documentarista de Flaherty, interessado em captar a autenticidade da vida dos pescadores de pérolas, aproximando-se da visão  idealizada e mais atraente de Murnau, que se concentrou no tema do tabu, fornecendo um entrecho dramático – o itinerário sem esperança  de um casal perseguido pelas regras da tradição e traído pelas esperanças que a civilização prometia – , no qual se manifesta o seu pessimismo e o seu romantismo.

Cena de Tabu

Cena de Tabu

Cena de Tabu

 

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Cena de Tabu

A realização se divide em dois capítulos intitulados respectivamente Paraiso” e “Paraiso Perdido”. O primeiro  tem um ar jovial, com o par de jovens enamorados, conhecendo-se e se divertindo nas cascatas e na festa de Bora-Bora. O segundo capítulo tem um tom mais sombrio, mostrando a fuga dos dois amantes e sua perseguição até ocorrer a tragédia. Todo o primeiro capítulo é plástica e ritmicamente admirável. Em um movimento incessante, vemos Matahi e seus companheiros pescando com o arpão e deslizando por uma cascata, a grinalda de flores levada pelas águas correntes, as jovens banhando-se ali perto, a aparição de Reri por entre uma folhagem exuberante, Matahi separando a briga entre Reri e outra jovem e colocando uma grinalda em sua cabeça, um nativo subindo pelo tronco de uma palmeira e avistando uma embarcação que se aproxima, a população correndo em suas canoas em direção ao veleiro e depois empoleirando-se alegremente no cordame.

Muran e os nativos que apareceram em Tabu

Murnau e os nativos que apareceram em Tabu

Tabu é a obra que mais do que qualquer outra acentua o caráter autobiográfico e intimista do cineasta, aquela que, de certo modo, amplifica a componente homo-erótica contida em muitos de seus filmes. Murnau parece se deliciar com os corpos atléticos e esbeltos dos rapazes com uma espécie de ardor encantado que em Hollywood estivera reservado para a figura feminina.

Murnau entre Reri e Hatahi

Murnau entre Reri e Hatahi

No segundo capítulo, o ambiente natural idílico e puro cede lugar para o meio explorado e corrompido pelo homem branco europeu, não há mais alegria, só tristeza, tensão, terror. O amor inocente de Matahi e Reri está condenado desde o príncipio, eles estão encurralados entre dois mundos.

A estréia de Tabu ocorreu no dia 18 de marco de 1931, uma semana após a morte de Murnau em um acidente automobilístico em uma estrada de Santa Barbara, Califórnia.

Viajando em um Packard, dirigido por um chofer de 26 anos chamado John Freeland, Murnau, atendendo ao pedido de seu mordomo filipino, Eliazar Garcia Stevenson, permitiu que ele assumisse a direção do volante. O cineasta viajava no banco de trás ao lado de seu cão pastor alemão, Pal. Um caminhão surgiu na contra-mão e Stevenson se desviou para evitar um colisão; mas o carro bateu em um aterro e virou, jogando todos os passageiros para fora do veículo. Stevenson escapou com ferimentos leves, Freeland sofreu cortes no rosto, e Murnau foi lançado em uma vala. Ele faleceu no dia seguinte em virtude de uma fratura no crânio e outras lesões de natureza interna no Santa Barbara Cottage Hospital.

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A OBRA DE F. W. MURNAU II

September 30, 2016

Ainda em 1922, Murnau dirigiu Phantom, produção de Erich Pommer com roteiro de Thea von Harbou e Hans Heinrich von Twardowski (não creditado), baseado no romance de Gerhart Hauptmann, cenografia de Hermann Warm e fotografia de Axei Graatkjaer e Theophan Ouchakoff. A história é narrada em retrospecto, quando o protagonista recorda seu passado doloroso.

F. W. Murnau

F. W. Murnau

Em Breslau, Alemanha, Lubota (Alfred Abel) relata seu passado. Ele é um humilde funcionário público, que mora na companhia de sua mãe (Frieda Richard), sua irmã Melanie (Aud Egede Nissen), seu irmão Hugo (Hans Heinrich von Twardowski), e costuma escrever poemas. Ao mostrar seus escritos ao encadernador Starke (Karl Etlinger), este lhe assegura que terá uma carreira literária brilhante, e se dispõe a levar sua obra para exame de um editor. Andando pelas ruas, Lubota é atropelado por uma carruagem conduzida por Veronika Harlan (Lya de Putti), uma linda jovem da alta sociedade, e se apaixona por esta mulher (quase um fantasma), que ele nunca verá outra vez. Ele se recupera do choque rapidamente e corre atrás da carruagem até a residência de Veronika, mas é impedido de entrar por um serviçal. Para melhorar sua aparência, ele pede dinheiro emprestado à sua tia agiota, Sra. Schwabe (Grete Berger), dando como garantia seu futuro promissor. Mais tarde, alarmado ao saber que o pai de Veronika pretende casá-la com um homem rico, ele vai procurar os progenitores da moça, Sr. e Sra. Harlan (Adolf Klein, Olga Engl), pedindo-lhes permissão para cortejar sua filha. Animado pelo que ele entendeu ser um encorajamento por parte do Sr. Harlan, Lubota é levado por um vigarista (Anton Edthofer), “amigo” da Sra. Swabe, a um restaurante onde conhece Melitta (Lya de Putti) e sua mãe (Ilka Grüning), uma dupla de “caçadoras de fortuna”. Ele fica impressionado com a semelhança física entre Melitta e Veronika, mente sob sua verdadeira situação (a esta altura fôra demitido de sua função pública e o editor não aceitou publicar suas poesias), e inicia um romance com Melitta. Pressionado pela tia e a fim de cobrir os gastos extravagantes de Melitta, Lubota, acaba por se tornar cúmplice do vigarista (que se tornara amante de Melanie), no roubo do dinheiro restante da sua parente. A chegada inoportuna de um carteiro, que desperta a Sra. Schwabe, conduz ao assassinato dela e à prisão para o sobrinho. Após cumprir sua pena, Lubota é redimido pelo amor devotado de Marie (Lil Dagover), a filha de Starke, que sempre o amara.

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Phantom é um drama realista psicológico, no qual encontramos certos temas diretamente originados do romantismo alemão literário, do qual Murnau é herdeiro (v. g. descida aos infernos, amor impossível, mistura de sonho e realidade) e alguns toques expressionistas (v. g. distorção e inclinação dos prédios, carruagem fantasmagórica, ciclista percorrendo uma pista em espiral no restaurante, e depois Lubota e Melitta cercados de motivos circulares ao descerem uma escada em forma de caracol). Profundidade de campo (a saída de Lubota da penitenciária) e montagem paralela (v. g. Melanie bêbada dançando frenéticamente em cima da mesa do cabaré, enquanto sua mãe está para morrer de miséria e depressão nervosa) bem utilizadas, completam o quadro estético.

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Cena de Phantom

Em fevereiro de 1923, Murnau e sua equipe (Karl Freund na fotografia e Rochus Gliese e Erich Czerwonski na direção de arte), iniciaram mais um filme. Die Austreibung (A Expulsão) com roteiro escrito por Thea von Harbou, baseado em uma peça teatral de Carl Hauptmann. É um drama intimista cuja trama gira em torno da chegada de uma estranha a um lar feliz, para alterá-lo, provocando uma tragédia. O ambiente de uma fazenda isolada onde o ancião Stayer (Carl Goetz), vive na companhia de sua esposa (Ilka Grüning), seu filho viúvo (Eugen Klöpfer) e a filha deste, Anne (Lucie Mannheim), é perturbado pela chegada de Ludmilla (Aud Egede-Nissen). Esta se casa com o filho de Stayer, a fim de escapar da pobreza, mas faz todo o possível para ficar na companhia do caçador Lauer (Wilhelm Dieterle). Entre seus planos está convencer seu marido a vender a fazenda e se mudar para a aldeia. Entretanto, uma tempestade de neve obriga Ludmilla a se refugiar na cabana de Lauer, quem o velho pensava que estava interessado em Anne. Stayer os surpreende, e mata Lauer. A família acaba abandonando a fazenda. O argumento guarda certa semelhança com o de Der brennende Acker, no que concerne à ambição de um personagem para se separar do lugar modesto onde vive, com consequências trágicas, e ao ambiente rústico e nevado onde transcorre a ação.

Entre maio e agosto de 1923, Murnau abordou um projeto radicalmente diferente em sua filmografia, dirigindo uma comédia de equívocos, escrita por Thea von Harbou, com base em um romance do escritor sueco Frank Heller, apresentada nos créditos como um “conto de aventura”.

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Die Finanzen des Grossherzogs (As Finanças do Grão Duque), é ambientado em um ducado imaginário, Abacco, uma pequena ilha talvez do Mediterrâneo, altamente endividado. Nela, o Grão Duque Ramon XXII (Harry Liedtke) e seu Ministro das Finanças, Don Esteban Paqueno (Adolphe Engers), sofrem a pressão do usurário Marcowitz (Guido Herzfeld), que exige o pagamento da dívida; do negociante Bekker (Herman Vallentin), que lhe oferece uma alta quantia para poder explorar uma mina de enxofre; e ainda ameaças de revolução, nas quais estão implicados uns contrabandistas, instigados por Bekker (Georg August Koch, Max Schreck, Hans Hermann, Walter Rilla). A este entremeado de personagens se somam a Princesa Coroada da Rússia, Olga (Mady Christians), e Philipp Collin (Alfred Abel), um aventureiro (que é ao mesmo tempo detetive e ladrão como Arsène Lupin) no momento conhecido como Professor Pelotard. A princesa pretende se casar com o Grão Duque, e o faz saber disto por uma carta, na qual diz não se importar com a situação difícil de seu país e que lhe trará muito dinheiro. Collin descobre por acaso a carta da Princesa e pretende extrair algum proveito da situação econômica de Abacco, especulando com suas ações. Segue-se muita confusão e reviravoltas até o final, quando o Grão Duque se casa com Olga e Collin fica muito satisfeito com a subida dos títulos de Abacco na Bôlsa de Valores.

Alfred Abel em Die Finanzen des Grossherzogs

Alfred Abel em Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

Cena de Die Finanzen des Grossherzogs

O roteiro rocambolesco desenrola-se em um mundo de opereta (no qual o bufo é Pelotard), onde não há preocupação com a coerência dramática e a verossimilhança. O humor de Murnau não tem a mesma leveza do humor de Lubitsch, mas ele consegue movimentar bem a trama (que se acelera perto do final), notando-se belos cenários naturais e de interiores proporcionados respectivamente por Karl Freund e Franz Planer (filmando na costa Adriática) e Rochus Gliese e Erich Czerwonski (filmando nos estúdios da UFA). Para produzir efeitos de comicidade, em alguns momentos o diretor usa piadas nos letreiros (v. g. quando o letreiro diz que está chegando uma senhorita, que no momento não quer ser reconhecida, porque a persegue um descendente de Ivan, o Terrível – na realidade o irmão de Olga (Robert Scholz), que quer enforcar o Grão Duque porque acha que ele desrespeitou sua irmã e, em outros instantes, interage a palavra com a imagem (v.g. quando o Ministro das Finanças diz para o Grão Duque: “Não vejo outra solução, a menos que caia do céu” e na continuação se vê um avião que joga a carta enviada por Olga).

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Tão importante quanto O Lobishomem no currículo cinematográfico de Murnau, A Última Gargalhada / Der letzte Mann / 1924 firmou seu prestígio como diretor e motivou a sua chamada para Hollywood, onde o filme causou um grande impacto. Em Berlim, o corpulento porteiro do luxuoso Hotel Atlantic (Emil Jannings) orgulha-se de seu uniforme, uma sobrecasaca guarnecida de galões e de botões dourados, que ele usa com satisfação, alisando seus espressos bigodes. Porém sua idade torna cada vez mais difícil o cumprimento de suas funções. Muitas vêzes ele tem que se sentar, para repousar, e esta pausa não escapa aos olhos do gerente do estabelecimento (Hans Unterkircher). Quando o porteiro chega nas proximidades de sua casa, todo mundo o saúda com respeito. Na manhã seguinte, sua sobrinha (Maly Delschaft)) prepara os bolos para a sua festa de casamento e sacode sua casaca. Retornando ao trabalho, o porteiro fica estupefato de ver um outro homem mais jovem na porta do hotel, vestindo o mesmo traje que ele, e realizando suas tarefas. O gerente lhe comunica que o substituiu, e lhe confia agora o serviço de assistente de limpeza no lavatório do hotel no subsolo, vestindo apenas um jaleco branco. É com desespêro que o ex-porteiro entrega seu precioso uniforme. De noite, como um ladrão, ele rouba seu uniforme do armário do qual havia guardado a chave, e o veste para voltar para casa. Ele participa do jantar de núpcias da sobrinha e esquece sua desgraça, embriagando-se. No dia seguinte ele vai para o hotel vestido com sua casaca que ele deixa durante o dia em um depósito na estação de trem. Na hora do almoço, faz sua refeição sozinho, sentado em um canto. A tia do noivo (Emilie Kurtz) decidiu lhe fazer uma surpresa, e leva um prato de comida. Quando ela descobre suas novas atribuições, foge horrorizada e, ao chegar em casa, conta para a família o que viu. Uma vizinha escuta através da porta, e espalha a notícia por todo o imóvel. Ao ver a reação de vergonha de seus parentes, seu único refúgio agora é o banheiro do hotel, onde ele deve passar a noite, e onde o vigia noturno (Georg John) o reconfortará, colocando-lhe um capote sobre os ombros.

Emil Jannings em A Última Gargalhada

Emil Jannings em A Última Gargalhada

Neste ponto da narrativa um letreiro aparece: “É aquí que o filme devia terminar. Na vida real, o velho infeliz não tinha mais nada a esperar senão a morte. Porém o autor teve piedade dele e imaginou um epílogo quase inacreditável.” O porteiro recebe uma herança fabulosa de um milionário americano, que havia falecido nos seus braços no lavatório do hotel. O ex-porteiro faz uma refeição pantagruélica no Hotel Atlantic e convida o vigia noturno a compartilhar de sua ceia. Mais tarde, ele faz um mendigo (Neumann-Schüler) subir no seu carro e se afasta triunfalmente do hotel, fazendo um sinal de adeus.

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

O filme combina o realismo do tema, dos personagens e das situações com o expressionismo da forma, providenciado pelo virtuosismo cinematográfico do diretor. O argumento de Carl Mayer descreve o imenso sofrimento do personagem principal, a sua humilhação e perda de auto-estima, e faz uma crítica aos valores burguêses baseados na aparência e na admiração ritualística da autoridade, encarnada não por uma pessoa mas por um uniforme: quando a verdadeira posição social do porteiro, escondida pela farda imponente que veste, vem à tona com o seu rebaixamento de função, as vizinhas que antes o admiravam, zombam dele. Elas que se comungavam com o mundo das classes mais altas através do uniforme, agora se sentem abandonadas socialmente.

Filmagem de A Última Gargalhada

Filmagem de A Última Gargalhada

Durante todo o filme só aparece um intertítulo no final: o anúncio de que o autor teve piedade do velho porteiro. O recurso à palavra escrita existe, mas esta é incorporada à ficção, como a inscrição no bolo feita pela sobrinha, a carta que rebaixa o porteiro de posição ou a notícia no jornal sobre o falecimento do milionário.

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

Todos os tipos de enquadramento e uma série ilimitada de movimentos de uma entfesselte Kamera (câmera desencadeada), orientada por Karl Freund ( gosto muito de uma panorâmica rápida na qual a câmera desliza pelas sacadas dos prédios diretamente da boca de uma vizinha para a orelha da outra),

Cena de A Última Gargalhada - as vizinhas

Cena de A Última Gargalhada – as vizinhas

planos subjetivos e oníricos (o sonho do porteiro quando ele se vê segurando um báu com uma das mãos), efeitos de montagem (paralelismo, metáfora etc.), dissolvências e superposições, cenografia (Robert Herlth, Walter Röhrig) acentuando as diferenças sociais por meio dos contrapontos entre o hotel luxuoso e a moradia modesta do porteiro, o saguão muito bem iluminado no térreo e o banheiro escuro no andar inferior, uso do simbolismo, realçando-se o significado “metafísico de um objeto (o botão arrancado do libré do porteiro equivalente a uma degradação militar), são postos a serviço de um assunto de caráter íntimo e universal: a decadência de um homem vista ao mesmo tempo do exterior e do interior de si mesmo.

Emil Jannings em A Última Gargalhada

Emil Jannings em A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

A audácia formal de Murnau evidencia-se desde a primeira sequência do filme, na qual a câmera, como se fôsse um dos hóspedes do hotel, desce de elevador, e se encaminha para a porta giratória do hotel, pela qual o porteiro conduz de guarda-chuva as pessoas que chegam e que saem e focaliza a chuva torrencial na rua e os automóveis que passam. Outras sequências marcantes de ordem técnica ocorrem quando o porteiro lê a carta comunicando-lhe o rebaixamento de sua função e a câmera se aproxima para ler, curiosa, o que está escrito no documento ou quando, após a bebedeira, a câmera oscila reproduzindo a sensação natural de tontura provocada pelo abuso do álcool.

Cena de A Última Gargalhada

Cena de A Última Gargalhada

O uso expressionista da luz está em evidência durante todo o filme (no pesadêlo do porteiro; quando ele rouba seu uniforme e tenta evitar ser descoberto pela luz da lanterna do vigia noturno; quando ele volta para casa após seu subterfúgio ter sido descoberto e sua sombra o precede, maior do que ele próprio; quando ele entrega seu uniforme ao vigia e se torna “o último homem” do título original do filme – durante esta sequência, o vigia usa sua lanterna para iluminar o que está acontecendo e esta luz mostra a degradação, a humilhação total do porteiro, e revela a escuridão, na qual ele se encontra, tanto literalmente quanto figurativamente).

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Antes de partir para os Estados Unidos, Murnau fez mais dois filmes: Tartuffo (no Brasil o título saiu assim nos jornais, com dois efes)/ Herr Tartüff / 1925, e Fausto / Faust / 1925. Na realização de Tartuffo, Murnau se uniu novamente a Carl Meyer, Karl Freund, Walter Röhrig e Robert Herlt e utilizou de modo original parte da comédia de Molière, encerrando-a em uma intriga contemporânea, a fim de reforçar a atualidade do assunto do século XVII: uma denunciação da hipocrisia moral (na história moderna) e da hipocrisia religiosa (na história clássica).

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Essa releitura inventiva da obra do grande dramaturgo começa por uma introdução, na qual uma criada cruel (Rosa Valetti) está enganando e envenenando um ancião (Herman Picha), para se tornar herdeira de sua fortuna em detrimento do neto dele, um jovem ator (André Mattoni). A fim de abrir os olhos do avô para a realidade, o rapaz se disfarça de projecionista itinerante, e consegue exibir para a criada e o ancião um filme contando a história de Tartuffe, o falso devoto, que se aproveita do burguês Orgon, no qual despertou uma afeição cega. Aquí termina o prólogo e começa a trama do “Tartuffe” com figurinos de época. Tal como a cena da peça encenada no castelo em “Hamlet”, este filme dentro do filme tem um propósito esclarecedor: no epílogo, a megera vem a ser expulsa pelo velho e vaiada pela criançada, que se aglomerara do lado de fora da casa, sendo chamada de Tartuffe.

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

A intriga de Molière é simplificada, e se encontram apenas quatro personagens (Orgon / Werner Krauss, Elmire / Lil Dagover, Dorine / Lucie Höflich e Tartuffe / Emil Jannings) nessa adaptação da comédia de Molière. Elmire, profundamente apaixonada por Orgon, aguarda impaciente seu retorno de uma viagem, e se surpreende ao vê-lo bastante transformado pelo encontro de seu amigo, Tartuffe. A admiração de Orgon pela moralidade e religiosidade de Tartuffe é tanta que, para agradá-lo, manda tirar todos os objetos luxuosos e apagar todas as luzes de seu palacete “porque Tartuffe odeia o desperdício” e despede toda a criadagem “porque Tartuffe não quer tantos criados” – ele só conserva Dorine … para cuidar de Tartuffe. Este enfim aparece, todo vestido de preto e caminhando sempre lentamente, com o breviário quase colado ao rosto; porém o farsante não engana Elmire e sua serviçal Dorine. Para fazer o marido recobrar a razão, Elmire tenta uma primeira vez seduzir Tartuffe em sua presença, escondido atrás das cortinas; mas Tartuffe vê a imagem do marido refletida em um bule de chá, e se contém a tempo, abrindo logo o seu breviário. O crédulo Orgon então exulta, dizendo para a esposa: “Agora você tem que acreditar nele”. Desesperada, Elmira faz uma nova tentativa, desta vez, convidando Tartuffe para um encontro no seu enquanto Dorine vai chamar Orgon, que está ocupado, redigindo seu testamento em favor de seu novo amigo. Quando Tartuffe começa a abraçar Elmire, Orgon espia pelo buraco da fechadura, descobre a verdadeira natureza do impostor e, sem perder tempo, o pune com suas próprias mãos. Após o epílogo, surge um letreiro dizendo: “Os hipócritas estão em toda parte, e você mesmo, será que sabe realmente ao lado de quem está sentado?”

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

A inventividade e a precisão fílmicas habituais do diretor transformam teatro em cinema, driblando com felicidade a unidade de lugar, e tirando partido de maneira admirável da cenografia, iluminação e interpretação dos atores, para providenciar um espetáculo conciso e divertido.

Uma cena que mostra sua criatividade e exatidão fílmicas é aquela na qual nos revela o plano de detalhe dos sapatos abandonados do ancião – nos quais a criada dá um pontapé -, como símbolo dos maltratos que ele sofre da sua governanta infame e depois, quando o jovem ator junta os mesmos sapatos, como símbolo do amor e do cuidado que o neto tem com as coisas do seu avô.

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Os ambientes despojados (v.g. o castiçal enorme colocado diante de uma parede clara e lisa tornando-se o contraponto da grande silhueta negra de Tartuffe, que vai e vem de um lado para outro); as figuras de Dorina ou de Tartuffe iluminadas por uma única vela, que descem as escadas vertiginosas do palacete e se entrecruzam em determinado momento; o uso das portas, que abrem e fecham deixando o espectador inquieto porque não sabe o que está acontecendo (v.g. quando Elmira pede a Orgon que lhe dê um beijo de boas vindas, este lhe responde que beijar é pecado, como lhe ensinou Tartuffe, e sai sem dar crédito às suas palavras. Elmira corre atrás de seu marido e entra no mesmo cômodo. A câmera mantém-se durante um tempo do lado de fora até que a porta volta a se abrir, e Elmira sai com um gesto de desencanto, indo buscar consôlo nos braços de sua aia.

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Cena de Tartuffo

Murnau se contentou não apenas com a força das imagens, extraindo ainda um desempenho brilhante de seus quatro atores e usando frequentemente o close-up, para refletir os sentimentos íntimos dos personagens. A interpretação de Emil Jannings – como sempre exagerada – é supreendente: basta um simples olhar para transmitir todo o mal que se esconde atrás de sua impostura.

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No seu derradeiro filme alemão, Fausto, Murnau adaptou – com ajuda de Hans Kyser na elaboração do roteiro (revisado por Thea von Harbou) e de Gerhart Hauptmann na redação dos intertítulos – de modo sucinto e a sua maneira – a lenda popular germânica da Idade Média que, através dos tempos, serviu de base para várias obras de arte na literatura (v. g. além de Goethe, Marlowe, Thomas Mann), na pintura (v. g. Delacroix) e na música (v. g. Wagner, Berlioz, Gounod), aproveitando ao máximo os poderes da técnica cinematográfica, para produzir notáveis efeitos plásticos e dinâmicos.

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Murnau cuidando de Jannings

Murnau cuidando de Jannings

No enredo, o Arcanjo (Werner Fuetterer), emanação divina, elogia a liberdade do homem de poder escolher entre o Bem e o Mal e acusa o Demônio de atormentar a humanidade com a guerra, a peste e a fome. “Esta Terra é minha”, proclama Mefisto (Emil Jannings). O Arcanjo então evoca o nome de Fausto (Gösta Ekman), velho alquimista, um homem íntegro cuja vida inteira é a prova de que a Terra não está totalmente submissa ao Mal. “Um patife tal como todos os outros”- responde o representante do inferno – “Ele prega o Bem e faz o Mal. Quer transformar o metal de pouco valor em ouro”. Mefisto e o Arcanjo apostam sobre a possibilidade de desviar de Deus a alma de Fausto. “Então a terra será tua”, promete o Arcanjo. Em consequência, Mefisto espalha uma epidemia de peste sobre a cidade, onde Fausto vive. Sentindo-se impotente para estancar a grande mortandade, o velho sábio encontra um livro, onde se fala em um pacto com o Diabo e, em desespêro, invoca-o. Este aparece e concede a Fausto em vinte e quatro horas (o tempo em que a ampulheta se esvazia), o poder de curar seus concidadãos. Fausto cuida das pessoas, mas logo os aldeãos percebem que ele não pode tocar em um crucifixo e começam a apedrejá-lo. Fausto refugia-se no seu gabinete de trabalho e quer se suicidar, mas Mefisto lhe oferece a juventude em troca de sua alma. Ele aceita, e viaja pelos ares, sobre o manto do demônio, aterrisando no meio da cerimônia nupcial da Duquesa de Parma (Hanna Ralph), que Fausto conquista, enquanto as vinte e quatro horas se esgotam e ele entrega sua alma ao diabo para sempre. Fausto pede para regressar à sua terra natal, onde está se celebrando a Páscoa. Ele se enamora da jovem pura e inocente Gretchen (Camilla Horn) e, por obra de Mefisto, é correspondido. Porém Mefisto denuncia o romance ao irmão de Gretchen, Valentin (Wilhelm Dieterle), e este desafia Fausto para um duelo. Mefisto mata Valentin, espalha a notícia do crime por toda a parte, e a culpa recai sobre Fausto. Gretchen é rejeitada pela população, e depois acorrentada ao pelourinho. A multidão zomba da jovem, e depois ela é libertada. Gretchen dá à luz um filho de Fausto e, não encontrando refúgio em parte alguma, vê-se obrigada a viver nas ruas cobertas de neve. Em um momento de alucinação, ela tenta aquecer o bebê, colocando-o em um berço imaginário, e a criança morre. Os soldados acusam-na de ter matado seu filho e a levam presa. Fausto chega a tempo de ver Gretchen na fogueira. Ao ouvir Fausto amaldiçoando sua juventude e desejando nunca ter feito o pacto, Mefisto faz com que ele volte a ser um idoso. Fausto se atira nas chamas no meio das quais está sua amada. Ela o reconhece, abraça-o, e ele se torna jovem na morte. O Arcanjo barra a passagem de Mefisto e lhe diz que apenas uma palavra anulou seu pacto com Fausto.”Que palavra é esta?, pergunta Mefisto. “Amor”, responde o Arcanjo.

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Para simbolizar o combate entre o Bem e o Mal, Murnau controlou minuciosamente o filme, utilizando todos os recursos do claro-escuro (fotografia de Carl Hoffmann), para produzir uma sucessão de visões mágicas (v. g. a aparição angélica em contraponto à figura negra do Diabo, a cena em que Fausto tenta curar uma mulher); enquadramentos refinados (v. g. as árvores entrelaçadas emoldurando o brilho da lua), inspirados pela arte pictórica mundial (influência de quadros de Rembrandt, Vermeer, De La Tour, Mantegna, Böcklin, Kaulbach etc.); cenários (Robert Herlth, Walter Röhrig) dotados de magnificência visual (v. g. o desfile dos elefantes na festa de casamento da Duquesa de Parma; ocupação integral de cada espaço no filme (v.g. o monge agitando a cruz diante da multidão delirante que vai implorar a ajuda de Fausto; a cena final da fogueira); trucagens espetaculares (v. g. a sombra de Satã estendendo suas enormes asas negras sobre a aldeia; a viagem aérea que Mefisto empreende com o Fausto rejuvenescido; Fausto levantando o livro e os círculos de fogo e de luz); o movimento constante das imagens (v. g. os foliões na quermesse rindo da cambalhotas dos saltimbancos ou vendo espetáculos com sombras chinesas).

Murnau,Yvette Guilbert, Gösta Eckmann e Francesco von Mendelsohn na filmagem de Fausto

Murnau,Yvette Guilbert, Gösta Eckmann, Francesco von Mendelsohn e Jannings na filmagem de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

A interpretação de Emil Jannings, não prima pela sobriedade como sempre, mas é eficaz, compondo um Mefisto lúbrico e lúdico – como vemos no epísódio cômico no qual o enviado do diabo entretém a tia Marthe / Yvette Guilbert, enquanto Fausto corteja Gretchen. O contraste entre os dois pares alcança sua maior comicidade quando Mefisto começa a tirar as pétalas de um girassol, dizendo “Mal-me -quer e Bem-me-quer “, logo depois que Gretchen havia feito o mesmo com uma margarida.

Cena de Fausto (Camilla Horn e Gösta Eckman)

Cena de Fausto (Camilla Horn e Gösta Eckman)

Camilla Horn em Fausto

Camilla Horn em Fausto

Cena de Fausto

Cena de Fausto

Após esses breves momentos de humor, reiniciam-se os acontecimentos trágicos como a morte da mãe (Frida Richard) e do irmão de Gretchen, e a via crucis dela caminhando que nem um espectro sob o frio intenso da época do Natal com o filho nos braços. Esta sequência, permite que Murnau faça um paralelismo pungente entre Gretchen e a Virgem Maria, outra bela imagem entre tantas belas imagens que o filme nos oferece.

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A OBRA DE F. W. MURNAU I

September 15, 2016

Ele exerceu um papel fundamental sobre a evolução da arte cinematográfica e foi um dos diretores mais influentes do cinema mudo, contando-se entre seus discípulos nada mais nada menos do que Alfred Hitchcock, John Ford e Frank Borzage.

F. W. Murnau

F. W. Murnau

Friedrich Wilhelm Plumpe nasceu em 28 de dezembro de 1888 na cidade alemã de Bielefeld, Província da Westafia, filho do dono de uma fábrica de tecidos, Heinrich Plumpe. Heinrich tivera duas filhas de seu primeiro matrimônio (Ida e Anna) enquanto que os três filhos varões (Robert, Friedrich Wilhelm e Bernhard) nasceram de sua segunda esposa, Ottilie Volbracht. Em 1892, a familia mudou-se para os arredores de Kassel, perto do castelo de Wilhelmshoehe.

A família Plumpe

A família Plumpe

No extenso jardim familiar dos Plumpe, Friedrich Wilhelm e seus irmãos representavam peças de teatro ao ar livre, para as quais eram convidadas as famílias vizinhas. Friedrich Wilhelm dirigiu esse teatrinho até que a família teve que se transferir para a cidade, indo morar em uma casa alugada. O prazer do teatro continuou no ambiente dos Plumpe graças a um presente de natal que deram para Friedrich Wilhelm: um teatro de marionetes. Logo este teatrinho ficou pequeno para os espetáculos que ele tinha em mente. Seus irmãos o ajudaram a construir um teatro na medida de seus sonhos e se colocaram às suas ordens para encenar as representações familiares de cada domingo. Por este teatro de marionetes desfilaram contos clássicos de Andersen e dos irmãos Grimm, mas também adaptações que Friedrich Wilhelm fazia das obras em cartaz que ele mesmo admirava naqueles dias.

Murnau

Murnau

Sua outra paixão, a leitura, foi propiciada pelo acesso à biblioteca de sua irmã por parte de pai, Anna. Leitor voraz, aos onze anos já havia lido dramaturgos como Shakespeare e Ibsen ou pensadores como Schopenhauer e Nietzsche. Ele tinha grande interesse tanto pelo texto como pelas ilustrações dos clássicos literários que caíram em suas mãos. Sempre foi um aficionado pelas gravuras e, em boa parte, seus filmes baseados em obras literárias se apoiaram na recordação dessas imagens que figuravam nos livros que leu na sua infância e juventude.

Todas essas paixões culturais chocaram-se com seu pai, cuja mentalidade de homem de negócios via em tais atividades muita frivolidade e pouco benefício. Ele teria preferido que seu filho, em vez do teatro, se tivesse dedicado ao magistério, porém foram em vão suas intenções de encaminhá-lo para esta profissão. O mau relacionamento entre pai e filho piorou, quando o futuro cineasta se afastou do ambiente familiar durante seu período de estudante de filologia em Berlim e de história da arte em Heildelberg.

Max Reinhardt

Max Reinhardt

Apesar do apoio de sua mãe, seus primeiros anos como ator transcorreram na clandestinidade e motivaram a adoção de vários pseudônimos. Um deles, Murnau, adotado por volta de 1910, ficou para sempre. Era o nome de uma localidade alpina, na qual Friedrich Wilhelm havia passado momentos agradáveis junto a seus amigos, a maior parte deles vinculados de um modo ou de outro com a arte de vanguarda (e com o expressionismo). Convidado por Max Reinhardt para ingressar na sua escola de teatro, formou-se como ator, mas se destacou mais como assistente de direção de algumas montagens do Deutsche Theater, interessando-se também pela pintura e pela fotografia.  

Murnau participou da Primeira Guerra Mundial, primeiro na infantaria e depois na aviação; como piloto, foi feito prisioneiro em 1918, desorientado pela neblina, segundo a versão difundida por sua mãe através de seu diário, embora pudesse tratar-se de uma deserção. Ele passou o final do conflito confinado em Andermatt, Suiça, onde escreveu um roteiro para o cinema, Teufelsmädel, que não chegaria a dirigir.

Hans Ehrenbaum-Degele

Hans Ehrenbaum-Degele

No seu regresso para a Alemanha, Murnau foi acolhido na casa do banqueiro e colecionador de arte Friedric Ehrenbaum e sua esposa Emilie Degele, progenitores de Hans Ehrenbaum-Degele, seu colega de universidade em Berlim e companheiro de longo tempo, que havia sido morto na frente russa. O casal ajudou-o financeiramente a fundar um estúdio com Conrad Veidt (Murnau Veidt Filmgesellschaft), e a realizar seu primeiro filme, Der Knabe in blau / 1919 (O Menino Azul), que tinha como motivo de suas intrigas o quadro The Blue Boy do pintor Thomas Gainsborough.

Cena de Der Knabe in blau

Cena de Der Knabe in blau

No enredo, o nobre Thomas van Weerth (Ernst Hoffman) vive isolado em um castelo, que lhe coube de herança, tendo apenas a companhia de um servente (Karl Platen). Segundo uma lenda familiar, neste castelo está escondida uma esmeralda, representada no retrato de um menino vestido de azul. Durante um sonho, o menino azul sai do quadro e o conduz até a jóia. Ao mostrar a pedra preciosa a seu servente, este lembra-lhe da maldição que tal objeto trouxe a várias gerações da família van Weerth, e pede a Thomas que se desfaça da pedra; mas ele se nega a fazer isso. Um dia, chega ao castelo um grupo de ciganos, que se apresentam como músicos ambulantes, entre eles uma linda cigana (Blandine Ebinger), por quem o nobre se apaixona. A cigana aproveita-se da ingenuidade de seu anfitrião, para furtar-lhe a jóia enquanto os outros que a acompanhavam roubam vários pertences do fidalgo, incendeiam o castelo e destroem a pintura do garoto vestido de azul. Após a partida dos ciganos, Thomas percebe a gravidade de todo o ocorrido, e cai doente. Entrementes, aparece no castelo uma jovem atriz (Margit Barnay) que, com sua devoção, devolve ao rapaz a alegria de viver e a esperança de um futuro melhor.

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Na equipe técnica destacava-se o nome do fotógrafo Carl Hoffmann (muitos anos antes de se ocupar com os claros-escuros do Fausto / Faust de Murnau), porém seu trabalho não pode ser apreciado hoje, porque o filme se perdeu, existindo apenas 27 fotografias.

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Do segundo filme de Murnau, Satanás / Satanas / 1919, com roteiro de Robert Wiene e fotografia de Karl Freund, só restou um breve fragmento. O tema proposto era a presença do diabo através dos tempos, que constava de três episódios de ambientação histórica, um prólogo e um epílogo. Em cada um dos episódios, Conrad Veidt se tranformava em um personagem chave para conduzir os protagonistas para a desgraça.

Cena de O Tirano / Satanas

Cena de O Tirano / Satanás

No primeiro episódio, intitulado Der Tyrann / O Tirano, Satanás era um ermitão que desencadeava a tragédia nas relações amorosas entre o faraó Amenhotep (Fritz Kortner) e sua amante, a arpista Nouri (Sadjah Gezza), um serviçal chamado Jorab (Ernst Hoffman), e Phahi (Margit Barnay), a esposa do faraó. Amenhotep está apaixonado por Nouri. Esta usa de sua influência para empregar Jorab, seu verdadeiro amor como serviçal do faraó. Entretanto, Jorab ama na realidade Phahi, uma das esposas do faraó, a qual impediu no passado, que a mãe de Nouri fosse morta por apedrejamento. O faraó acaba por descobrir o adultério e condena Phahi à morte, desposando Nouri em seu lugar.

Cena de O Príncipe / Satanas

Cena de O Príncipe / Satanás

No segundo episódio, Der Fürst / O Príncipe (baseado na peça “Lucrèce Borgia” de Victor Hugo), Satanás, sob os traços de Gubetta, propagava um rumor relacionado com a moral de Lucrécia Borgia (Else Berna), que levaria a um fim trágico seu amor pelo jovem Gennaro (Kurt Ehrle), que na realidade era seu filho.

Cena de O Ditador / Satanas

Cena de O Ditador / Satanás

No terceiro episódio, Der Diktator / O Ditador, ambientado em 1917, Satanás encarnava-se no revolucionario russo Grodski que influenciava Hans Conrad (Martin Wolgang), estudante de direito em Zurique, na Suiça, que lidera jovens extremistas de ideologia esquerdista em uma revolução na sua cidade natal e vai ficando fascinado com o poder, a ponto de ordenar a execução de sua namorada Irene (Marija Leiko), após ela ter sido detida atentando contra Grodski.

Estreado em janeiro de 1920, a crítica do seu tempo praticamente ignorou Murnau e teceu elogios a “um filme de Robert Wiene” que, quase um mês depois veria estreado o seu O Gabinete do Dr. Caligari / Das Cabinet des Dr. Caligari. O trecho diminuto que se conserva de Satanas é um momento de amor apaixonado do episódio egípcio entre o faraó e sua amante.

Cena de Sehnsucht

Cena de Sehnsucht

Do terceiro filme de Murnau (iniciado em 1919 e lançado em 1920), Sehnsucht (Nostalgia), conserva-se apenas uma fotografia. Trata-se de um drama (fotografado por Carl Hoffmann) envolvendo Ivan (Conrad Veidt), violinista russo sem recursos na Suiça. Um dia ele recebe um convite de uma parente distante, a Princesa Wirsky (Gussy Holl) para ser hóspede na Russia. A fim de financiar a viagem Ivan aceita cumprir uma missão que lhe foi dada por revolucionários que estão planejando uma conspiracão contra o Grão Príncipe. Ele leva uma mensagem para um homem em Moscou e imediatamente se apaixona pela filha deste, Marja (Margarete Schlegel); porém, o pai de Marja ama a Princesa Wirsky, e quer trair os revolucionários. Entrementes, a princesa  se apaixona por Ivan e, enciumada, ordena a remoção de Marja para a Sibéria. Ivan então estrangula a princesa e passa o resto de sua vida procurando por Marja. Quando um dia fica sabendo da morte de Marja, Ivan comete suicídio.

Cena de Der Bucklige und die Tänzerin

Cena de Der Bucklige und die Tänzerin

Der Bucklige und die Tänzerin

Der Bucklige und die Tänzerin

O primeiro filme que Murnau rodou em 1920 foi Der Bucklige und die Tänzerin (O Corcunda e a Dançarina), fotografado por Karl Freund, que marcou a primeira colaboração do diretor com Carl Mayer, responsável pelo argumento e pelo roteiro, autor crucial na trajetória do cineasta e de todo o cinema mudo alemão. É mais outro filme perdido do diretor.

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No entrecho, James Wilton (John Gottowt), um corcunda sempre rejeitado pelas mulheres, retorna de Java rico, após ter descoberto uma mina de diamantes. O corcunda corteja a dançarina Gina (Sasha Gura) – que está se recuperando de um trauma causado pelo rompimento com seu amante, -, encantando-a com os óleos e unguentos, cujos segredos de preparação ele aprendera com os javaneses. Gina por sua vez usa Wilton para causar ciúme no antigo amante, porém depois se reconcilia com este, e para de ver Wilton. O corcunda então cria um veneno para misturar com seus óleos e unguentos, que matará todo homem que a beijar, mas prepara também um antídoto para ela. O amante de Gina morre e outro é afetado pelos sintomas. Gina procura Wilton para saber a verdade, e obter o antídoto. Ele tenta dominá-la, beija-a, e morre quando ela arrebata o antídoto das mãos dele, e corre para aplicá-lo no seu amigo afetado.

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Cena de Pavor – Conrad Veidt

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Cena de Der Janus-Kopf

Cena de Pavor

Dos filmes perdidos de Murnau realizados em 1920, o mais atraente é PavorDer Janus-Kopf, fotografado por Karl Freund, versão não autorizada do romance de Robert Louis Stevenson, “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (1886). A fim de evitar o pagamento de direitos pelo uso da obra original, os nomes do personagem duplo e certos detalhes foram mudado. O Dr. Warren (Conrad Veidt) não inventa uma poção capaz de separar o lado mal do lado bom da humanidade, mas age através dos poderes sobrenaturais de uma estatueta amaldiçoada de Janus (o deus romano de duas faces que olham em direção oposta, que ele comprara para dar de presente à sua noiva, Jane Lanyon (Margarete Schlegel). Quando Jane, horrorizada, não aceita o presente, o Dr. Warren tenta vender a peça em um leilão, mas o poder que ela exerce sobre ele, obriga-o a comprá-la de volta. A esta altura, o Dr. Warren transforma-se pela primeira vez em Mr. O’Connor (Conrad Veidt), homem repulsivo, capaz de praticar os atos mais horríveis. Este aluga um quarto em Whitechapel, um distrito de Londres, e comete  todo tipo de crime, inclusive espancando um idoso até a morte e estuprando Grace (Margarete Schlegel). Com a ajuda de um antídoto é possível Mr. O’ Connor voltar a ser o Dr. Warren, porém ele descobre que a transformação começa a se dar incontroladamente. Quando o antídoto acaba, ele não consegue fabricar mais doses e só poderá usar a figura de Dr. Warren uma última vez. O Dr. Warren então se tranca no seu laboratório, revela tudo para seus amigos em uma carta, e põe fim à sua vida.

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O filme foi distribuido pela Decla-Bioscop, companhia comandada por Eric Pommer, que voltou a distribuir outro trabalho de Murnau no mesmo ano, Abend – Nach – Morgen (Tarde-Noite-Manhã) drama policial (fotografado por Eugen Hamm) cuja intriga girava em torno do roubo de um colar de pérolas. Maud (Gertrude Welcker), mora na companhia de seu amante Chester (Bruno Ziener) um milionário. Brilburn (Conrad Veidt), é um inútil, que vive às custas de Maud, sua irmã. Prince (Carl von Balla), amigo de Chester, é um jogador sem sorte, que necessita de dinheiro.  Ele penetra na casa para roubar o colar de pérolas e, ao fazer isto, ataca e acha que matou Chester. Pouco depois, Brilburn tenta cometer o mesmo ato criminoso, mas encontra o corpo de Chester desfalecido e foge horrorizado do local, deixando porém provas que o identificam. A polícia procura ambos os homens. Chester reaparece vivo e a verdade vem à tona.

Murnau

Murnau

Cena de Der Gang in die Nacht

Cena de Regresso às Trevas

O primeiro filme de Murnau que sobreviveu completo foi Regresso às TrevasDer Gang in die Nacht / 1921, adaptação por Carl Mayer de um argumento da escritora e roteirista dinamarquesa Harriet Bloch. Olaf Fönss, que  interpreta o personagem principal, era um ator reputado, que havia obtido um grande êxito na sua Dinamarca natal e na Alemanha,  onde foi o Homúnculus da célebre série de filmes dedicada ao personagem, dirigidas por Otto Ripper em 1916.

Cena de Der Gang in die Nacht

Cena de Regresso às Trevas

Para festejar o aniversário de sua noiva Helene (Erna Morena), o reputado oftalmologista, Dr. Eigil Borne (Olaf Fönns), assiste com ela a um espetáculo de cabaré. A bailarina principal, Lily (Gudrum Bruun) sente-se atraída pelo Dr. Eigil, e simula um acidente, para que ele a atenda em seu camarim. O oftalmologista enamora-se dela, e rompe com sua prometida. Em uma viagem para um lugar perto do mar, os dois amantes encontram-se com um pintor cego, Der Maler (Conrad Veidt), que o Dr. Eigil cura milagrosamente. Mas eis que Lily e Der Maler se apaixonam para desespêro do Dr. Eigil, que ainda recebe a notícia da morte de Helene, ficando definitivamente sem noiva e sem amante. Embora amargurado, ele continua a clinicar, e um dia Lily aparece no seu consultório, implorando-lhe que cuide de Maler, pois este perdeu novamente a visão. A resposta do Dr. Eigil é: “Não! Eu te matarei! Então vou curá-lo!”. Mais tarde, ele se arrepende, vai até a casa de Lily, e percebe que ela se suicidou. No dia seguinte, lê uma carta de Maler: “Não o acuso. Nenhum de nós é culpado. As leis estão acima de nós. Não precisa me curar de novo. Por um breve tempo você me deu luz e eu pude vê-la. Volto para a minha noite”. Maler é o único sobrevivente do drama pois em dois planos curtos e estáticos vemos o último suspiro de Helene, consumida pela melancolia e do Dr. Egil, que teve seu derradeiro momento de vida sentado na  cadeira  de seu consultório.

Cena de Der Gnag in die Nacht

Cena de Der Gnag in die Nacht

Depois que a ação se transfere para o lugar perto do mar, nota-se a influência do cinema sueco no uso da paisagem com a missão descritiva dos sentimentos dos personagens (por exemplo, a cena em que Lily e o Dr. Eigil contemplam o oceano do alto de uma colina, assemelha-se com uma cena vista no filme de Victor Sjöstrom, Berg-Ejvind och hans hustru / 1918, exibido nos EUA como The Outlaw and his Wife). Em outra cena, aparece a silhueta de um desconhecido chegando pelo mar em pé sobre um barco, que o espectador percebe logo como uma ameaça, imagem que lembra o quadro “A Ilha dos Mortos” do pintor suiço Arnold Böcklin. A silhueta é a do cego que vai atrair a atenção de Lily, e depois do próprio Dr. Eigil, ao ver o pintor sentado diante de seu cavalete, sem poder pintar.  Uma sequência admirável ocorre quando, em uma noite de tempestade, Lily desperta assustada pelo vento que irrompe em sua casa através das janelas e cortinas. Ela tenta se acalmar, vestindo sua roupa de bailarina e dando alguns passos de dança. Todos esses momentos (proporcionados pela fotografia de Max Lutze e pela direção de arte de Heinrich Richter) são intercalados por tomadas do mar enraivecido, o vento nos campos, e um relógio que vai marcando a hora em diferentes momentos da noite.

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Cena de Marizza

Cena de Marizza

Heinrich Richter foi o cenógrafo de Marizza, gennant Schmugglermadonna (Marizza, dita Senhora dos Contrabandistas), mais um filme de Murnau  do qual não se conservou nenhuma cópia, apenas um trecho de 13 minutos. O que se sabe hoje da trama “Carmeniana” é o seguinte: a cigana Marizza (Tzwetta Tzatscheva) está cansada de cumprir as ordens de sua patroa, a velha Yelina (Maria Forescu), para flertar com os guardas alfandegários, a fim de que seus homens possam exercer tranquilamente o contrabando. Ela vai embora e se emprega na fazenda de uma aristocrata empobrecida, Sra. Avricolos (Adele Sanrock) e de seus dois filhos, Christo (Harry Frank) e Antonino (Hans Heinrich von Twardowski). Marizza é descoberta no quarto de Christo por sua mãe e esta expulsa a jovem, que foge com Antonino. A Sra. Avricolos põe os contrabandistas no seu encalço e eles são encontrados, pobres e famintos. Marizza adula os guardas, especialmente Haslinger (Toni Zimmerer), a fim de conseguir dinheiro; porém Antonino fica com ciúmes e ataca Haslinger. Marizza mata este último e salva Antonino, que assume o crime. No final do filme ocorre o resgate de Marizza e seu bebê de uma cabana em chamas. Os comentaristas da época louvaram o uso expressivo da paisagem, do claro-escuro e da profundidade de campo.

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O filme seguinte de Murnau, Schloss Vogelöd / 1921 (O Castelo Assombrado), com o subtítulo A Descoberta de um Segredo (Die Enthüllung  eines), é em substância, um drama criminal. Um grupo de amigos encontra-se para uma caçada no castelo da família Vogelöd, sendo recepcionados pelo castelão Lord von Vogelschrey (Arnold Korff), porém uma chuva incessante interrompe seus planos, e eles passam seu tempo dentro da residência senhorial. A chegada de Johann Oetsch (Lothar Mehnert), sem ter sido convidado, causa surpresa entre os presentes e um incômodo para o anfitrião, porque estão sendo esperados o Barão (Paul Bildt) e a Baronesa Safferstätt (Olga Tschekowa), e o conde fôra acusado do assassinato de seu próprio irmão, Peter (Paul Hartmann), primeiro marido da Baronesa. Esta deseja ir embora mas, avisada de que o Padre Faramund, está para chegar, ela resolve ficar. Quando o padre chega, a Baronesa se confessa com ele, revelando que, há quatro anos Peter partiu, e quando voltou, estava diferente: só queria saber de livros e de levar uma vida espiritual, e ela então conheceu o Barão.

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

A Baronesa conta ainda para o padre que seu marido queria doar os bens da família o que o levou a brigar com seu irmão Johann. Na noite seguinte Peter foi morto. Pouco depois, o Padre Faramund desaparece, e o juiz suspeita do conde. Amendrontados, alguns hóspedes vão embora e, na hora do almoço, os que ficaram ouvem o conde perguntar ao Barão:”Você já cometeu um crime?” Todos se espantam mas o conde explica que foi só uma brincadeira; porem o Barão deixa o salão angustiado. Mais tarde, a Baronesa conta para todos o que revelara para o padre e,apontando para o conde,  reafirma: “Ele matou meu marido após uma discussão!”. O conde olha firmemente para ela e sai. De repente surge de novo o padre e a Baronesa resolve lhe contar a verdade, lembrando-lhe de que ele deverá manter o silêncio. Certo dia, ela disse para o Barão que detestava a santidade e que gostaria de ver algo de mal, como um crime. Entretanto, o Barão não entendeu suas palavras e matou seu marido. “Dois dias depois ele confessou sua culpa para mim. Eu reconhecí  minha culpa também, o conde não foi condenado, e eu e o Barão nos casamos. Este é o nosso casamento!”  Depois de ouvir a confissão, o Padre entra na sala onde está o Barão, tira seu disfarce, mostra que é o conde. E diz para ele: Agora conduza-se como um homem!”. O conde apresenta-se a todos sem o disfarce. Ouve-se um tiro. A Baronesa exclama: Ele está morto!”.

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

Cena de Schloss Vogelöd

O roteiro de Carl Mayer e Berthold Viertel, extraído de um romance de Rudolf Stratz, publicado em folhetim no Berliner Illustrieten Zeitung, desenvolve um enigma de caráter policial, resultando na identificação de um assassino escondido entre as pessoas reunidas no castelo. A ação é confinada em interiores luxuosamente decorados e focalizados em planos gerais e enquadramentos elegantes, sendo eliminada a movimentação de câmera extravagante (que seria inovada em A Última Gargalhada / Der Letzte Mann / 1924) e reforçada a profundidade de campo. A unidade de lugar só é rompida por duas cenas breves (quando os convidados saem para caçar; uma recordação da baronesa) e duas cenas de sonho, que fazem surgir o medo ou o desejo reprimido (v.g. a mão gigante que entra pela janela de um dos hóspedes; o menino que se vinga do chefe de cozinha que o repreendera se fartando de doce). Auxiliado por técnicos de elite (fotógrafos László Schäffer e Fritz Arno Wagner; diretor de arte Hermann Warm) e intérpretes muito controlados (quase estáticos), Murnau cria um suspense permanente, um sentimento de que uma tragédia iminente está para acontecer.

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O Lobisomem / Nosferatu /1922, com o subtítulo de Eine Symphonie des Grauens (Uma Sinfonia do Horror), sancionou a maturidade artística e poética de Murnau. O roteiro, assinado por Henrik Galeen, adaptou o romance “Dracula” de Bram Stoker, tomando a liberdade de mudar o nome dos personagens e de muitas situações, mas também a de não pagar direitos ao autor, o que provocou, pouco depois da estréia do filme em março de 1922, uma disputa legal com a viúva de Stoker, Florence, que se prolongou até 1925. Florence Stoker conseguiu finalmente que os negativos de Nosferatu fossem destruídos e empeendeu uma cruzada pessoal contra todas as cópias alemãs e as que foram aparecendo no exterior nos anos seguintes, luta que continuou até sua morte em 1937, através de uma rede de agentes que iam localizando e destruindo essas cópias. Entretanto, algumas cópias se salvaram, uma das quais foi manipulada na sua montagem e acrescida  de uma sequência (a Missa dos Mortos), rodada por um tal Dr. Waldemar Roger, e exibida em 1930 sob o título de Die zwölfte Stunde (A Duodécima Hora). Outras cópias geraram restaurações feitas por Enno Patalas e, mais recentemente, Luciano Berriatúa aceitou uma proposta da Fundação F. W. Murnau para providenciar uma nova restauração, finalmente apresentada em 2006, que preenchia as carências das anteriores.

Cena de Nosfearatu

Cena de Nosferatu

Nosferatu

Nosferatu

Nosferatu

Nosferatu

Cena de Nosferatu

Nosferatu

Em 1838, no porto sueco de Wisborg, o corretor de imóveis Knock (Alexander Granach) recebe de um tal de Conde Orlock (Max Schreck), a missão de lhe encontrar uma casa naquela cidade. Ele envia seu empregado Thomas Hutter (Gustav von Wangenheim) para os Montes Cárpatos, a fim de levar o contrato de compra e venda para o conde assinar. Porém a casa a ser vendida, situada em frente da residência  de Hutter, está em um estado lamentável. Ellen (Greta Shoreder), sua jovem esposa, desconfia, e fica muito preocupada com os planos de viagem de seu marido. Hutter confia Ellen aos cuidados de seus amigos, o armador Harding (George H. Schnell) e sua irmã Annie (Ruth Landshoff), e parte. Antes de chegar ao castelo do Conde, para em uma hospedaria. Os habitantes locais temem Orlock, e alertam o jovem quanto ao perigo de seguir em frente. No seu quarto, Hutter encontra o “Livro dos Vampiros’, que ele folheia, mas não se intimida com seu conteúdo. Na manhã seguinte, segue viagem, mas o cocheiro entra em pânico ao chegar perto do castelo, e o abandona. Logo depois, a carruagem do conde chega inesperadamente, e conduz  Hutter ao seu destino. O conde lhe oferece um jantar durante o qual, acidentalmente, Hutter corta o dedo com a faca, momento em que seu anfitrião se lança com furor para sugar o sangue de sua ferida. Após uma noite de sono, Hutter acorda com duas marcas de mordida em seu pescoço. Quando o conde vê o retrato de Ellen em um medalhão, ele aceita imediatamente a proposta do corretor. Ao explorar o castelo, Hutter encontra o conde dormindo cadavericamente em um caixão. Ele foge do castelo, fica inconsciente, e é salvo, por alguns populares, que tratam de sua febre em um hospital. O conde parte para Wisborg a bordo de um veleiro, o Empusa, enquanto Hutter, já recuperado, se apressa para chegar em casa por terra.

Nosferatu

Nosferatu

Cena de Nosferatu

Cena de Nosferatu

A bordo do Empusa, os tripulantes vão morrendo um a um de uma doença misteriosa. Quando os marujos vasculham a embarcação e abrem o caixão, surge uma horda de ratos. Todos os marujos morrem, e o Empusa chega como um navio fantasma ao porto de Wisborg. Entrementes, Knock, internado em um manicômio, passa o tempo comendo moscas vivas, e se regozija com a chegada do “mestre”. As autoridades locais encontram no Empusa o diário de bordo, relatando sobre a doença mortal. Eles declaram estado de emergência, mas a peste se alastra em Wisborg, provocando inúmeras vítimas. Knock foge do manicômio, sendo perseguido por uma multidão, que o culpa pela epidemia. Hutter consegue chegar a Wisborg, trazendo consigo o “Livro dos Vampiros”. Ellen lê que somente uma mulher pura teria o poder de deter “o Vampiro”, oferecendo-lhe o próprio sangue, e lhe causando “o esquecimento do “Canto do Galo”. O conde se acomoda na sua nova morada, e consegue espiar o quarto de Ellen pela janela. Ele se infiltra nesse aposento, e se aproxima dela, para beber seu sangue.  Ellen se sacrifica , deixando-se vampirisar. O conde cai em si, e se apavora com o fato de que o amanhecer se aproxima. Ao primeiro canto do galo, assim como ao primeiro raio de sol, o vampiro se desfaz em cinzas. Capturado e amarrado dentro de sua cela, Knock, sabe que o “mestre” está morto. Hutter chega com o médico paracelsiano, Professor Bulwer (John Gottowt), e examina o braço de Ellen, mas já é tarde –  ela morre nos braços de seu marido. Porém, com o fim do vampiro, a peste é vencida.

Cena de Nosferatu

Cena de Nosferatu

Cena de Nosferatu

Cena de Nosferatu

O que há de mais original no filme está no campo formal: ele se afasta do caligarismo. Diferentemente da estética da época (cenários pintados, perspectivas quebradas, linhas oblíquas), Murnau filma em exteriores, movendo sua câmera para as ruas e paisagens verdadeiras, introduzindo as distorções próprias do expressionismo, não através da pré-estilização dos prédios e panoramas, mas pela maneira de fotografá-los (ângulos de visão inusitados, sombras, lentes especiais, telas, filtros, uso de negativos, ação acelerada etc.) ou pela maneira de montar o que foi fotografado.

Cena de Nosferatu

Cena de Nosferatu

Desse modo, com a ajuda do fotógrafo Fritz Arno Wagner e do diretor de arte Albin Grau,com o qual colaborou seu amigo Walter Spies, o cineasta faz os cenários reais tornarem-se aterrorizantes. A casa em ruínas na qual Nosferatu se instala, a rua por onde o funcionário público caminha, colocando marcas de giz nas portas atrás das quais a peste surgiu, a procissão de caixões cada qual conduzido por duas figuras vestidas de preto, suscitam tanto terror quanto as imagens sombrias da paisagem carpatiana e do castelo no topo da montanha. O clima sinistro e mórbido é complementado por símbolos (a hiena à espera de sua presa, os cavalos enlouquecidos, a aula do Professor Bülwer sobre a planta carnívora e sobre o pólipo translúcido, os ratos, a aranha que Knock contempla, a praia enigmática cheia de cruzes), evocando algo maléfico ou sobrenatural.

brennende-i

Der brennende Acker /1922 (Terra em Chamas) foi realizado no mesmo ano de Nosferatu, mas esteve perdido até 1978, quando se descobriu uma cópia quase completa do filme na posse de um padre italiano, que organizava sessões de cinema em hospitais psiquiátricos. Subintitulado Das Drama eines Ehrgeizigen (O Drama de um Ambicioso), trata-se de um melodrama, envolvendo conflitos de amor e de interesse por um pedaço de terra rico em petróleo. O “Campo do Diabo” é um lugar amaldiçoado, que assusta a população de uma pequena aldeia da Silesia, porque um ancestral da família Rudenburg faleceu vitimado por uma misteriosa explosão, quando cavava um poço em busca de um tesouro escondido. O Conde von Rudenburg (Eduard von Winterstein), detentor atual do título, passa o tempo inspecionando o local, agora transformado em uma capela. Ele mora em seu castelo com sua esposa, Helga (Stella Arbenina), e uma filha do seu primeiro casamento, a caprichosa Gerda (Lya De Putti). Na aldeia próxima, um velho agricultor, Rog (Werner Krauss), morre, deixando dois filhos, Peter (Eugen Klöpfer), muito apegado às terras da família, e o ambicioso Johannes (Vladimir Gajdarov), que não se conforma em levar uma vida de lavrador. Ele torna-se secretário particular do conde e chama a atenção de Gerda e Helga. Um dia, Peter escuta uma conversa de que o conde descobriu um campo de petróleo sob o solo do “Campo do Diabo”. Pouco depois, o conde, que está com uma doença terminal, dita-lhe seu testamento, de acordo com o qual Gerda herdará toda a sua fortuna, menos o usufruto do castelo e o “Campo do Diabo”, que ele deixará para Helga. Gerda e o conde ficam sabendo do relacionamento amoroso entre Johannes e Helga, mas o conde lhes diz que não se importa, porque está prestes a deixar este mundo. Após a morte do conde, Johannes se casa com Helga e, pouco depois, vai para cidade negociar com os donos de uma grande companhia de exploração de petróleo. Ele recusa a soma de 25 milhões de marcos pelo “Campo do Diabo”, e os convence a lhe emprestar o dinheiro, para que possa explorar o campo por conta própria. Entrementes, Helga, sentindo que o interesse de Johannes por aquela terra maldita afasta-o de seu amor, vende o “Campo do Diabo” para Peter por 12 mil marcos. Ao saber da venda, Johannes fica furioso revelando a Helga o imenso valor do local. Johannes procura Peter e quer que este anule a venda mas Helga já o fizera e, percebendo que Johannes nunca a amara, afoga-se em um rio gelado. Gerda que, por despeito, ficara noiva do Barão von Lellewel (Alfred Abel), rompe o noivado, e espera conquistar o amor de Johannes, mas ele lhe diz que nunca amou nenhuma das duas mulheres, e agiu somente por ambição. Para se vingar, Gerda incendeia o poço de petróleo, e morre na explosão que se segue. Finalmente, ciente dos infortúnios que causou, Johannes retorna para a fazenda, onde é recebido de braços por seu irmão e por Maria (Grete Diercks), a jovem criada que sempre foi apaixonada por ele.

Cena de Der brenneden Acker

Cena de Der brennende Acker

Murnau transforma o melodrama (escrito por Thea von Harbou, Willy Haas e Arthur Rosen) em um conto moral sobre a ambição e a felicidade, mostrando o contraste entre a vida simples e autêntica do ambiente rural, apegado às sua tradições e um mundo sofisticado de progresso, ligado à ganância e à busca do poder a qualquer custo.

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brenneden Acker

Cena de Der brennende Acker

Para sublinhar essa diferença, o cineasta faz com que predominem as composições acolhedoras (apesar de sua rudeza) no interior da morada dos Rog e destaca a frieza arquitetônica do castelo de Rudenbur. A decoração (a cargo de Rochus Gliese) é  muito variada, ajudada por uma decupagem que passa de um lugar para outro: a fazenda dos Rog, o “Campo do Diabo” e sua capela maldita, as margens desoladas e cobertas de neve de um rio gelado, o salão suntuoso da alta sociedade no qual Johannes aguarda um futuro prestigioso. A câmera (comandada por Karl Freund e Fritz Arno Wagner) está quase sempre estática, mas a montagem alterna vários tipos de planos e algumas tomadas em iris chamam a atenção para parte de uma cena, preservando-se afinal um bom ritmo.

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brennende Acker

Tal como Nosferatu, Johannes traz a morte (Maria – atingida por uma morte espiritual, o desprêzo  – , Helga, depois Gerda) por onde passa mas, ao contrário do que aconteceu com o vampiro, em vez de um raio de luz, é o fogo que vai acabar com tudo o que ele queria construir.

Cena de Der brennende Acker

Cena de Der brennende Acker

Murnau conclui o filme com o retorno do Johannes arrependido ao seu ambiente familiar, um final de ressonância bíblica, exposto em uma cena linda: quando Johannes chega amargurado ao seu antigo lar, Peter o abraça, dá a outra mão para Maria e conduzem para o seu quarto.  Johannes olha ao seu redor, percebe que continua tudo bem arrumado, e pergunta: “Vocês por acaso sabiam que eu viria para casa hoje?”. Maria responde: “Nós estivemos te esperando todos os dias. Seu quarto esteve sempre pronto para você”.

 

 

 

 

AS VOZES INVISÍVEIS DOS ASTROS DE HOLLYWOOD

September 1, 2016

Pouco tem sido escrito sobre o assunto misterioso da dublagem vocal no cinema. Em um trabalho memorável, que me ajudou muito na elaboração deste artigo, intitulado “I Dub Thee”: A Guide to the Great Voice Doubles (publicado em Classic Images nº 281, de novembro de 1998), Laura Wagner começa citando uma frase publicada na revista Photoplay (julho de 1929), em uma rara revelação (“The Truth About Voice Doubling”), dedicada a decobrir quem cantou para quem na tela: “Quando você ouve seu astro favorito cantar nos talkies, não tenha tanta certeza disso”.

Eileen Farrell

Eileen Farrell

Na maior parte das vêzes os produtores escondiam a dublagem do público para não destruir a ilusão dos espectadores, não prejudicar o poder de atração do filme nas bilheterias. A dublagem vocal sempre foi uma profissão raramente divulgada em Hollywood e muitos dubladores não faziam questão de ter seu nome nos créditos como, por exemplo, a cantora de ópera Eileen Farrell que cantou no lugar de Eleanor Powell em Melodia Interrompida / Interrupted Melody / 1955: “Prefiro ter um casaco de pele de marta do que meu nome nos créditos”, ela declarou para Laura Wagner em uma entrevista.

Marion Nixon em A Noviça Rebelde

Marion Nixon em A Noviça Rebelde

A soprano Marni Nixon foi um caso raro de alguém que ficou bastante famosa por seu trabalho vocal não creditado. Que outra cantora, no que diz respeito a esse assunto, poderia se gabar de ter emprestado a voz para Deborah Kerr em O Rei e Eu / The King and I / 1956; para Natalie Wood em Amor, Sublime Amor / West Side Story / 1961 e Em Busca de um Sonho / Gypsy / 1962; e para Audrey Hepburn em Minha Bela Dama / My Fair Lady / 1964 ? São dela também as vozes de anjos ouvidas por Ingrid Bergman em Joana D’Arc / Joan of Arc / 1948; a voz de Margaret O’Brien em A Mascote da Cidade / Big City / 1948 e O Jardim Encantado / The Secret Garden / 1949, a voz de Jeanne Crain em Papai Batuta / Cheaper by the Dozen / 1950. Marni dublou novamente a voz de Deborah Kerr em Tarde Demais para Esquecer / An Affair to Remember / 1957, além aparecer nas telas cantando em A Noviça Rebelde / The Sound of Music / 1965 no papel da irmã Sophia.

Peg La Centra

Peg La Centra

Outra cantora que levou sua dublagem a sério foi Peg LaCentra, ex-cantora de grandes orquestras (Artie Shaw, Victor Young, Johnny Green) e esposa do ator Paul Stewart, o mordomo de Cidadão Kane / Citizen Kane / 1941. Considerada uma das maiores vocalistas femininas de todos os tempos, La Centra cantou no lugar de Susan Hayward em Desespero / Smash Up: The Story of a Woman / 1947; no de Ida Lupino em dois filmes, Meu Único Amor / The Man I Love e Quero-te Junto a Mim / Escape Me Never; e se mostrou como ela mesma, cantando algumas canções em Acordes do Coração / Humoresque / 1946.

Jean Hagen e Debbie Reynolds em uma cena de Cantando na Chuva

Jean Hagen e Debbie Reynolds em uma cena de Cantando na Chuva

Se é difícil para o público saber quem cantou para quem, o que dizer sobre o estranho arranjo relacionado ao clássico musical da MGM, Cantando na Chuva / Singin’ in the Rain? / 1952? No filme, Kathy Selden (Debbie Reynolds) é contratada para redublar os diálogos e as canções que Lina Lamont (Jean Hagen) teria que interpretar em um silent movie transformado em um talkie. Entretanto, a voz que foi usada para substituir o som agudo de Lina Lamont não era a de Debbie Reynolds, mas sim a própria voz natural e graciosa de Jean Hagen – ou seja, Jean Hagen dublou Debbie Reynolds dublando Jean Hagen! Para confundir mais as coisas, a voz que ouvímos como se fosse de Jean Hagen quando ela mimificava “Would You?”, supostamente suprida por Debbie Reynolds, era ainda de uma terceira pessoa … Betty Royce. E Debbie foi novamente dublada por Betty Royce no seu dueto com Gene Kelly, “You are My Lucky Star”. Tal como Debbie Reynolds, outras atrizes ou atores que eram perfeitamente capazes de cantar suas próprias canções, foram dublados.

Allan Jones

Allan Jones

Se um estúdio possuía uma trilha musical, mas o vocalista que a gravara não pudesse filmar, eles arranjavam alguém para fazer uma sincronização labial na tela. Isto aconteceu com Dennis Morgan (na época usando ainda o nome artístico de Stanley Morner) quando ele cantou com a voz de Allan Jones em Ziegfeld, o Criador de Estrelas / The Great Ziegfeld / 1936.

vocal the student prince M. lanza

Desentendimento com o diretor Curtis Bernhardt impediu Mario Lanza de estrelar O Príncipe Estudante / The Student Prince / 1954, porém a MGM obteve a permissão de Lanza para usar sua voz (com o devido crédito na tela), colocando Edmund Purdom no papel do príncipe. A ironia foi que, quando o filme começou finalmente a ser feito, o diretor não era mais Bernhardt, mas Richard Thorpe, que trabalhara harmoniosamente com Lanza em O Grande Caruso / The Great Caruso / 1951.

Até o excelente cantor Tony Martin foi dublado em Pobre Menina Rica / Poor Little Rich Girl / 1936, interpretando “When I’m With You”. Seu dublador foi Dick Webster que era violinista e cantor na orquestra de Jimmie Grier nos anos 30.

Cogi Grant

Cogi Grant

Outra razão pela qual atores capazes de cantar não cantavam eles mesmos: os estúdios achavam que suas vozes não eram apropriadas para os papéis que deveriam interpretar. Embora Joan Leslie pudesse cantar e provou isso em Graças à Minha Boa Estrela / Thank Your Lucky Stars / 1943, ela foi dublada na tela várias vêzes. Já Ann Blyth foi cogitada para o papel principal de Com Lágrimas na Voz / The Helen Morgan Story / 1957 por causa de sua semelhança vocal com a legendária estrela, porém foi dublada pela cantora Gogi Grant, cuja voz não se parecia com a de Morgan.

Annette Warren

Annette Warren

Em muitos filmes Ava Gardner recebeu a voz de outras, embora pudesse cantar. Entretanto, quando ela foi dublada em O Barco das Ilusões / Show Boat / 1952 por Annette Warren, isto aconteceu apenas na tela. Quando o LP com a trilha sonora saiu, os ouvintes escutaram a verdadeira voz de Ava Gardner, porque a MGM não poderia colocar o nome de Ava no LP, se outra cantora estivesse cantando por ela. Quem ouviu Ava realmente cantando “How Am I to Know” em Pandora / Pandora and the Flying Dutchman / 1951, soube que ela era capaz de interpretar uma canção.

Martha Mears

Martha Mears

Então vem o caso estranho da dublagem de Rita Hayworth que, nos anos 40, estrelou diversos musicais dançando e …. cantando? Bem, realmente não. Embora Rita fosse uma artista importante em musicais, sua voz era sempre dublada … por uma boa quantidade de senhoritas: Martha Mears (Modelos / Cover Girl / 1944 e O Coração de uma Cidade / Tonight and Every Night / 1945);

Anita Ellis

Anita Ellis

Anita Ellis (Gilda / Gilda / 1946 , Quando os Deuses Amam / Down to Earth / 1947, A Dama de Shanghai / The Lady from Shanghai / 1947, Carmen / The Loves of Carmen / 1948); Jo Ann Greer (Uma Viúva em Trinidad / Affair in Trinidad / 1952, A Mulher de Satã / Miss Sadie Thompson / 1953, Meus Dois Carinhos / Pal Joey / 1957), e Nan Wynn (Minha Namorada Favorita / My Gal Sal / 1942 e Bonita Como / You Are Never Lovelier / 1942). É espantoso como os fãs de cinema não perceberam a mudança constante de vozes da “Deusa do Amor” nos seus numerosos números musicais.

Larry Parks e Al Jolson

Larry Parks e Al Jolson

Mas nem toda dublagem ficava escondida em Hollywood. Além do caso já mencionado de Mario Lanza vocalizando O Príncipe Estudante, a dublagem mais famosa foi a de Sonhos Dourados / The Jolson Story / 1946 com Al Jolson cantando para Larry Parks. Parece que ninguém se incomodou com o fato de que o verdadeiro Jolson não estivesse na tela porque Parks realizou um excelente trabalho imitando perfeitamente os maneirismos e as bravatas teatrais do biografado. O filme fez tanto sucesso que ensejou uma continuação, O Trovador Inovidável / Jolson Sings Again / 1949 com os mesmos resultados.

Keefe Brasselle como Eddie Cantor e Marilyn Erskine como Ida Cantor.

Keefe Brasselle como Eddie Cantor e Marilyn Erskine como Ida Cantor.

Menos popular foi Nas Asas da Fama / The Eddie Cantor Story / 1954, com o mal escolhido para o papel Keefe Brasselle, fingindo que cantava ao som das gravações de Eddie Cantor, sem ter aprendido nada da mímica e estilo maravilhosos de Larry Parks. Aconselhado não se sabe por quem, Brasselle gravou ele mesmo um album com as canções apresentadas no filme, e o resultado foi pior ainda.

Jane Froman e Susan Hayward

Jane Froman e Susan Hayward

Outro esforço famoso de dublagem foi feito por Susan Hayward em Meu Coração Canta / With a Song in My Heart / 1952, a história da cantora Jane Froman. Susan teve uma atuação tão convincente, que se esqueceu de que não estava realmente cantando. E a gente nem sentia que a voz era de Jane Froman.

Quando Hollywood necessitava de cantoras ou cantores para usá-los nos seus filmes como dubladores, as big bands, assim como o palco e o radio, eram fontes de talento excelentes. Alguns desses artistas qualificaram-se como “dubladores profissionais” em virtude da quantidade de “ghost singing “ que fizeram para outros.

Eileen Wilson

Eileen Wilson

Eileen Wilson, que cantou para Ava Gadner e Cyd Charisse entre outras era muito prolífica. Por três anos sucessivos ela foi a voz cantante de Ava em Mercador de Ilusões / The Hucksters / 1947, Vênus, a Deusa do Amor / One Touch of Venus / 1948 (ïncluindo a canção “Speak Low”, que se ouvia em todo o decorrer do filme) e Lábios que Escravizam / The Bribe / 1949. Em 1948, Eileen vocalizou para Cyd Charisse no filme Minha Vida é uma Canção / Words and Music e em 1949 cantou “Through a Long And Sleepless Night para Dorothy Patrick em Falam os Sinos / Come to the Stable. Nos últimos dias da era das grandes orquestras, Eileen teve a honra de ser escolhida como substituta de Doris Day na banda de Les Brown. Nos anos 50, emprestou a voz para Sherree North em O Encanto de Viver / The Best Things In Life Are Free / 1956 e As Noites de Mardi Gras / Mardi Gras / 1958; Dolores Michaels em Primavera do Amor / April Love / 1957; e Barbara Bel Geddes em A Lágrima Que Faltou / The Five Pennies / 1959.

Jo Ann Greer

Jo Ann Greer

Cantora de orquestra com Les Brown e Ray Anthony, Jo Ann Greer realizou um trabalho extenso de dublagem em Hollywood, sem ganhar crédito pelas suas “missões de resgate”. Além de dublar para Rita Hayworth (nos filmes mencionados linhas atrás), Jo serviu a Gloria Grahme em Fúria Assassina / Naked Alibi / 1954, Kim Novak em No Mau Caminho / 5 Against the House /1955, Esther Williams em A Favorita de Júpiter / Jupiter’s Darling / 1955, June Allyson em O Belo Sexo / The Opposite Sex / 1956, Susan Kohner em Imitação da Vida / Imitation of Life / 1959, Carole Mathews em Música e Romance / Meet Me at the Fair / 1953 e Charlotte Austin em Arco-Íris / Rainbow Round my Shoulder / 1952. Jo e Rita Hayworth desfrutaram de um bom relacionamento nos três filmes que fizeram juntas. Rita comparecia às sessões de gravação e dançava descalça para ela diante do microfone, a fim de que Jo pudesse acompanhar a sua respiração e movimentos enquanto cantava.

Virginia Verrill

Virginia Verrill

Nos anos 30, a principal dubladora entre as mulheres parece ter sido Virginia Verrill. Foi ela quem dublou Jean Harlow em Tentação dos Outros / Reckless / 1935 e Suzy / Suzy / 1936 e introduziu pessoalmente na tela, “That Old Feeling” no filme Vogas de New York / Vogues of 1938 / 1937, produzido por Walter Wanger, mas também apareceu em Amor que Regenera / Hideout / 1934 da MGM cantando “All I Do Is Dream Of You”. Virginia era principalmente uma cantora do rádio e começou sua carreira no vaudeville aos cinco anos de idade. Aos quatorze anos estava cantando off-screen a canção título do filme A Vida é uma Dança / Ten Cents a Dance / 1931. Ela fez parte da banda de Orville Knapp em 1934, porém não pôde excursionar com o grupo, porque sua mãe achou que sua filhinha era muito moça. Virginia foi originariamente escolhida para encabeçar o elenco de Goldwyn Follies / The Goldwyn Follies / 1938, sendo anunciada como “a segunda Myrna Loy”. Todavia, a Goldwyn Company decidiu que as semelhanças entre as duas artistas eram muito fortes e Miss Verrill foi subitamente substituida por Andrea Leeds. Ela concordou em dublar para Andrea desde que o estúdio nunca revelasse este fato, tendo sido tomadas precauções extraordinárias, para guardar o segredo. A orquestra gravou todas as canções sem a cantora e mais tarde, em um palco fechado, Miss Verrill gravou a sua trilha sonora por meio de play back. Não mais do que uma dúzia de pessoas estavam a par do que estava sendo feito e eles foram proibidos de falar. A dublagem foi perfeita. Não houve a menor falha na sincronização e, após a pré-estréia, três estúdios pediram a Samuel Goldwyn o empréstimo de Miss Leeds para musicais.

Nan Wynn

Nan Wynn

Nan Wynn possuia um estilo vocal maravilhoso, porém nunca teve uma grande chance de chegar ao estrelato. Ela obteve um papel de destaque na tela ao lado de William Lundigan em Um Tiro nas Trevas / A Shot in the Dark / 1941, mas frequentente era vista como cantora de boate em filmes como A Garota dos Milhões / Million Dollar Baby / 1941, Dois Caraduras de Sorte / Pardon my Sarong / 1942, Injúria / Good Luck, Mr. Yates / 1943, Sua Alteza Quer Casar / Princess O’Rourke / 1943, Sinfonia da Saudade / Is Everybody Happy? / 1943, Orgia Musical / Jam Session / 1944 e Nas Garras da Intriga / Intrigue / 1947. Como dubladora notabilizou-se – como já foi mencionado – por ter vocalizado para Rita Hayworth em Minha Namorada Favorita e Bonita Como Nunca.

Eta Moten

Eta Moten

Falando sobre seu filme de estréia na RKO, Namoradeira Profissional / Professional Sweetheart / 1933, Ginger Rogers comentou: “Minha única queixa foi ter sido dublada cantando “My Imaginary Sweetheart”. Eu vinha cantando profissionalmente no palco e na tela durante anos e achava que era ridículo ouvir a voz de outra cantora vindo de minha boca”. Aquela voz pertencia a atriz negra do teatro Etta Moten. O ano de 1933 foi um grande ano para Etta. Ela dublou Joan Blondell no número sobre a Depressão “Remember My Forgotten Men” em Cavadoras de Ouro / na Warner Bros. e introduziu pessoalmente a música “The Carioca” em Voando para o Rio / Flying Down to Rio, o número que impôs Fred Astaire e Ginger Rogers como uma dupla. Ainda na Warner, Etta cantou outro clássico, “St. Louis Blues” em Mulheres do Mundo / Ladies They Talk About. Nos anos seguintes Miss Moten participou, de A Espiã 13 / Operator 13 / 1934 (dublando a atriz negra Theresa Harris, que fazia o papel de uma escrava); Mais Próximo do Céu / The Green Pastures / 1936, como un anjo e Um Dia Nas Corridas / A Day at the Races / 1937 como uma cantora.

Gloria rafton

Gloria Grafton

Gloria Grafton cantou para Lucille Ball em A Rainha dos Corações / Best Foot Forward / 1943 e trabalhou como atriz em Aurora Sangrenta / Cry Havoc / 1943; O Anjo Perdido / Lost Angel / 1943; Dê-se com a Gente / Meet the People / 1944; A Felicidade Vem Depois / Marriage is a Private Affair / 1944; Por Fim Mulher / Up Goes Maisie / 1946; O Homem Sem Coração / The Private Affairs of Bel Ami / 1947 e Joan of Arc / Joana D’Arc / 1948.

Bonnie Lou Williams

Bonnie Lou Williams

Bonnie Lou Williams cantou para June Haver em Vocação Proibida / The Daughter of Rosie O’Grady / 1948, Bonequinha Linda / Oh, You Beautiful Doll / 1949 e Crepúsculo de uma Glória / Look for the Silver Linning / 1949; Virginia Mayo em O Mundo de um Palhaço / Always Leave Them Laughing / 1949, Conquistando West Point / The West Point Story / 1950, Garotas e Melodias / Painting the Clouds with Sunshine / 1951, O Professor e a Corista / She’s Working Her Way Through College / 1952, Vivendo sem Amor / She’s Back on Broadway / 1953; Lana Turner em Mares Violentos / The Sea Chase / 1955; Betsy Drake em A Comédia da Vida / Dancing in the Dark / 1949; Phyllis Kirk em Três Cadetes em Apuros / About Face / 1952; Joanne Dru em Horas Sombrias / Hell on Frisco Bay / 1955.

Louanne Hogan

Louanne Hogan

Louanne Hogan cantou para Jeanne Crain em Corações Enamorados / State Fair / 1945, Margie / Margie / 1946, Noites de Verão / Centennial Summer / 1946, Apartamento para Dois / Apartment for Peggy / 1948; Joan Leslie em Rapsódia Azul / Rhapsody in Blue / 1945 e Cinderella Jones / 1946; Virginia Mayo em A Princesa e o Pirata / The Princess and the Pirate / 1944.

Virginia Rees cantou para Evelyn Keyes em Sonhos Dourados / The Jolson Story / 1946, Lucille Ball em Quem Manda é o Amor / Easy to Wed/ 1946; Angela Lansbury em As Garçonetes de Harvey / The Harvey Girls / 1946; Adele Jergens em Mentira Salvadora / Ladies of the Chorus / 1949; Marie Windsor em Fogo no Inferno / Hellfire / 1949; Vera Ralston em Os Tiranos Também Morrem / Timberjack / 1955; Marlene Dietrich in A Mãe Solteira / The Lady is Willing / 1942.

Neste último filme, após uma das canções de Marlene Dietrich, Fred MacMurray, que contracenava com ela, disse algo como “Eu não sabia que você podia cantar”. Esta piada arrancou gargalhadas do público na pré-estréia, porque Marlene estava cantando ligeiramente mal. Virginia  estava no côro ao fundo no número em questão, e Morris Stoloff (o chefe do Departamento de Música da Columbia), que apreciava seu trabalho, pediu-lhe para dublar  a  inesquecível  estrela alemã.

India Adams

India Adams

A vocalografia é extensa: India Adams cantou para Cyd Charisse em A Roda da Fortuna / The Band Wagon / 1953 e Joan Crawford em Se Eu Soubesse Amar / Torch Song / 1953 e Johnny Guitar / Johnny Guitar / 1954; Adele Addison para Dorothy Dandridge em Porgy e Bess / Porgy and Bess / 1959;

Adele Addison

Adele Addison

Jim Bryant

Jim Bryant

Jimmy Bryant para Richard Baymer em Amor, Sublime Amor / West Side Story / 1961; Jud Conlin para Michael Kidd em Dançando nas Nuvens / It’s Always Fair Weather / 1955; Diana Coupland para Lana Turner em Atraiçoado / Betrayed / 1954; Beryl Davis para June Haver em A Noiva de Papai / The Girl Next Door / 1953;

Diana Coupland

Diana Coupland

Beryl Davis

Beryl Davis

Hal Derwin

Hal Derwin

Hal Derwin para Larry Parks em Quando os Deuses Amam / Down to Earth / 1947 e Lee Bowman em Desespero / Smash Up /1947 e Meus Sonhos Te Pertencem / My Dream is Yours / 1949 e Cliff Robertson em Uma Aventura em Balboa / 1958; Dorothy Ellers (também conhecida como Suzanne Ellers) para Virginia Mayo Um Tigre Domesticado / The Kid From Brooklyn / 1948; Trudy Erwin para Lucille Bremer em Yolanda e o Ladrão / Yolanda and the Thief / 1945, Quando as Nuvens Passam / Till the Clouds Roll By / 1946 e Lana Turner em É Probido Amar / Mr. Imperium / 1951 e A Viúva Alegre / The Merry Widow /1952 e, como ela mesma, cantando com a banda de Kay Kyser em Noivas de Tio Sam / Stage Door Canteen / 1943;

Trudy Erwin

Trudy Erwin

Marilyn Horne para Dorothy Dandridge em Carmen Jones / Carmen Jones / 1954; Helen Kane (que inspirou a criação da Betty Boop) para Debbie Reynolds em Três Palavrinhas / Three Little Words / 1950 (no número “I Wanna Be Loved by You”);

Helen Kane

Helen Kane

Bing Crosby para Eddie Bracken em Do Outro Mundo / Out of This World / 1945; Arthur Freed (produtor dos grandes musicais da MGM) para Leon Ames em Agora Seremos Felizes / Meet Me in St. Louis / 1944; Marjorie Lane (esposa de Brian Donlevy) para Eleanor Powell em Nascí para Dançar / Born to Dance / 1936, Melodia da Broadway de 1936 / The Broadway Melody of 1936 / 1935, Melodia da Broadway de 1938 / The Broadway Melody of 1938 / 1937, Rosalie / Rosalie / 1937; Paula Raymond para Hedy Lamar em Idílio Perigoso / Experiment Perilous / 1944; Francis Langford para Lucille Ball em Garotas em Penca / Too Many Girls / 1940;

Frances Langford

Frances Langford

Bill Lee para Ricardo Montalban em Numa Ilha com Você / On an Island with You / 1948 e Christopher Plummer em A Noviça Rebelde / The Sound of Music / 1965; Robert McFerrin para Sidney Poitier Porgy e Bess / Porgy and Bess / 1959;

Robert McFerrin

Robert McFerrin

Trudy Ewen para Kim Novak em Meus Dois Carinhos / Pal Joey / 1957; Lisa Kirk para Rosalind Russell em Em Busca de um Sonho / Gypsy / 1962;

Lisa Kirk

Lisa Kirk

Carol Richards

Carol Richards

Carol Richards para Vera Ellen em Sua Excelência, a Embaixatriz / Call Me Madam / 1953 e Cyd Charisse em A Lenda dos Beijos Perdidos / Brigadoon / 1954 e Meias de Seda / Silk Stockings / 1957; Kaye Lorraine para Gloria Grahme em A Vida Íntima de uma Mulher / A Woman’s Secret / 1949; Giorgio Tozzi para Rossano Brazzi em No Sul do Pacífico / South Pacific / 1958;

 Giorgio Tozzi

Giorgio Tozzi

Martha Tilton para Barbara Stanwyck em Bola de Fogo / Ball of Fire e Maria Montez em Ao Sul de Tahiti / South of Tahiti / 1941; Betty Wand para Leslie Caron em Gigi / Gigi / 1958 e Rita Moreno em Amor, Sublime Amor / West Side Story / 1961;

Marta Tilton

Marta Tilton

Betty Wand

Betty Wand

Ben Cage (segundo marido de Esther Williams) para George Montgomery em Turbilhão / Coney Island / 1943 e Precisa-se de Maridos / Three Little Girls in Blue e Victor Mature em Minha Namorada Favorita / My Gal Sal / 1942 e A Canção do Havaí / Song of the Islands / 1942, Bill Shirley para Jeremy Brett em Minha Bela Dama / 1964; Muriel Smith para Zsa Zsa Gabor em Moulin Rouge / Moulin Rouge / 1952; etc

Bill Shirley

Bill Shirley

Ben Cage e Esther Williams

Ben Cage e Esther Williams

Hoje as vozes invisíveis de Hollywood já foram identificadas, e seus donos merecem o reconhecimentp por parte dos estudiosos de cinema, pela contribuição que deram, quase sempre incógnitos, para o sucesso de muitos filmes.

DUZENTOS ARTIGOS SOBRE O CINEMA MUNDIAL CLÁSSICO

August 26, 2016

 

Em 13 de fevereiro de 2010 iniciei este meu blog com a finalidade de divulgar o cinema clássico mundial, abordando assuntos variados de minha predileção ou que nunca haviam sido tratados no Brasil. Acabo de completar meu ducentésimo artigo (contando com as duas, três, quatro ou cinco partes de alguns deles), e tive a satisfação de contar com leitores, que são verdadeiros fãs da sétima arte e muitas vêzes enriquecem os meus textos com seus comentários.

Dou meus parabéns a todos e relaciono em seguida os títulos dos artigos escritos até hoje, para facilitar sua busca por parte de possíveis futuros visitantes admiradores do cinema antigo.

UM CURIOSO MOMENTO NA HISTÓRIA DO CINEMA

JOHN GILBERT REDESCOBERTO

AS DUAS VERSÕES DE VÍTOR OU VITÓRIA

HOMENAGEM A KEVIN BROWNLOW

PARAMOUNT EM PARIS

ADEUS A JEAN SIMMONS

FRANÇOISE E MARTINE

A REFILMAGEM DE MAZURKA

ESPADACHINS DE HOLLYWOOD E SEUS TREINADORES

A ARCA DE NOÉ E DOLORES COSTELLO

ANATAHAN

ALBERTO CAVALCANTI –PERSONALIDADE DO CINEMA MUNDIAL

DOLORES DEL RIO

A ÉPOCA DE OURO DO CINEMA MEXICANO

OS WESTERNS DE ANTHONY MANN

ANITA PAGE

OS SERIADOS DE ANTIGAMENTE

WILLIAM S. HART

BUSTER KEATON

LIDA BAAROVA E JOSEPH GOEBBELS

LOUIS JOUVET

CURTAS METRAGENS NA HOLLYWOOD DOS ANOS 30/40

AS RAINHAS DAS SELVAS

GEORGE FORMBY

HAROLD LLOYD

A ÉPOCA DE OURO DAS REVISTAS DE FÃS AMERICANAS

… E O VENTO LEVOU: O FILME MAIS FAMOSO DE TODOS OS TEMPOS

OS FILMES DE HORROR DE VAL LEWTON

OS HERÓIS FANTASIADOS

OS WESTERNS DE BUDD BOETTTICHER-RANDOLPH SCOTT

NORMA TALMADGE

HARRY BAUR

RAIMU

MELODRAMAS DE ÉPOCA DA GAINSBOROUGH

BUCK JONES

BUSBY BERKELEY

LEMBRANDO GRANDES SERIADOS

A ÉPOCA CLÁSSICA DO DESENHO ANIMADO AMERICANO

AKIRA KUROSAWA

JOHNNY WEISSMULLER – O TARZAN MAIS QUERIDO DO CINEMA

AS SÉRIES POLICIAIS AMERICANAS DOS ANOS 30/40

UMA TRADIÇÃO DE QUALIDADE

MICHAEL POWELL

O GORDO E O MAGRO

MARIO SOLDATI

ERICH VON STROHEIM – GÊNIO MALDITO DO CINEMA

KEN MAYNARD

O CINEMA DE JOSEF VON STERNBERG

CHARLES CHAPLIN GÊNIO UNIVERSAL DO CINEMA

OS CINEJORNAIS AMERICANOS

FERNANDEL

PROCÓPIO FERREIRA NO CINEMA

TOTÓ

ALBERT LEWIN

REX INGRAM

A ÉPOCA DE OURO DO CINEMA PORTUGUÊS

HOOT GIBSON

TRAJETÓRIA DE WALT DISNEY NO DESENHO ANIMADO

O CINEMA DE DAVID LEAN

MESQUITINHA NO CINEMA

MARY PICKFORD

JEAN MARAIS

VICTOR SJÖSTROM NA AMÉRICA

PRIMEIROS ESTÚDIOS AMERICANOS

DOUGLAS FAIRBANKS

ERNST LUBITSCH I, II , III

WESTERN: FANTASIA OU HISTÓRIA?

MICHEL SIMON

LOUISE BROOKS

DESENHOS ANIMADOS DE PROPAGANDA AMERICANOS DURANTE A 2a GUERRA MUNDIAL

OS FILMES MUDOS DE FRITZ LANG

O CICLO EDGAR ALLAN POE DE ROGER COMRAN

HERÓIS DOS QUADRINHOS NOS SERIADOS SONOROS AMERICANOS

MCIHAEL CURTIZ I, II

CONEXÃO VAUDEVILLE-CINEMA I, II, III

DIREÇÃO DE ARTE NO CINEMA CLÁSSICO DE HOLLYWOOD I, II, III

GRANDES COMPOSITORES DO CINEMA CLÁSSICO DE HOLLYWOOD

JEAN GRÉMILLON

PRIMÓRDIOS DO CINEMA BRITÂNICO

OS FILMES DE RAY HARRYHAUSEN

GENE AUTRY

ROY ROGERS

ARTISTAS AMERICANOS NO CINEMA MUDO BRITÂNICO

RAYMOND BERNARD I, II

JAMES CAGNEY I, II

GRANDES COMPOSITORES DE MÚSICA CLÁSSICA NO CINEMA (1930-1960)

OS WESTERNS DE DELMER DAVES

IDA LUPINO I, II

OS PRÓLOGOS NOS CINEMAS AMERICANOS E BRASILEIROS

SERIADOS MUDOS AMERICANOS E EUROPEUS NO BRASIL I, II

FILME DOCUMENTÁRIO AMERICANO 1920-1940

GRANDES DUBLÊS DO CINEMA AMERICANO DE OUTRORA

MOVIMENTO DO FILME DOCUMENTÁRIO BRITÂNICO 1929-1939

JACQUES FEYDER I. II

ESTRELAS DO CINEMA MUDO AMERICANO

OS GRANDES WESTERNS DE JOHN FORD I, II

A VIDA DOS SANTOS NO CINEMA

HAL ROACH

FILME NOIR I, II, II, IV, V

DIRETORES DE FOTOGRAFIA DO FILME NOIR

SESSÕES PASSATEMPO NO RIO DE JANEIRO NOS ANOS 40 / 50

ESCAPISMO EM GLORIOSO TECHNICOLOR

HENRI-GEORGES CLOUZOT

GILBERTO SOUTO ENTRE ASTROS E ESTRELAS

OS MELHORES WESTERNS DE JOHN STURGES

JAIME COSTA NO CINEMA

ESTRELAS DO CINEMA ALEMÃO DE WEIMAR AO TERCEIRO REICH

ESTÚDIOS BRITÂNICOS I, II, III, IV

PIERRE FRESNAY

LEOPOLDO FROÉS NO CINEMA

OS WESTERNS DE ANDRE DE TOTH

FILMES BÍBLICOS NO CINEMA MUDO AMERICANO

O CINEMA FRANCÊS DURANTE A OCUPAÇÃO I, II

CANTORAS DE ÓPERA NO CINEMA AMERICANO I, II

AS BIOGRAFIAS HISTÓRICAS DE GEORGE ARLISS

HOLLYWOOD NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL I, II, II, IV

BEATRIZ COSTA

OS WESTERNS DE RAOUL WALSH

RONALD COLMAN I, II

ANTONIO SILVA

JOSEFF, JOALHEIRO DE HOLLYWOOD

EMIL JANNINGS

TRIBUTO A JULIEN DUVIVIER

CONEXÃO TEATRO-CINEMA I, II

CEICL B. DEMILLE NO CINEMA MUDO

PAUL MUNI

O BOXE NO CINEMA AMERICANO 1930-1960

O FILME PARA A FAMÍLIA NO CINEMA AMERICANO 1930-1960

PAUL FEJOS: CINEASTA E CIENTISTA

PINTANDO COM A LUZ – JOHN ALTON

CINEMA MEXICANO NO BRASIL – PELMEX I, II, III

CLARENCE BROWN I, II

ANIMAIS NO CINEMA AMERICANO CLÁSSICO

POPEYE NO FLEISCHER STUDIO

AS BIG BANDS NO CINEMA DE HOLLYWOOD

TRIBUTO A MARCEL CARNÉ

CINEMA EM CASA

BETTE DAVIS I, II, III

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BETTE DAVIS III

August 19, 2016
Bette Davis

Bette Davis

Antes de fazer seu grande filme da década de cinquenta, A Malvada / All About Eve / 1950, Bette atuou em um drama sentimental, dirigido por Curtis Bernhardt com muita precisão e invenção técnica (usando a iluminação de uma maneira original nos retrospectos), chamado Depois da Tormenta / Payment on Demand (somente lançado em 1951), no qual ela fazia o papel de Joyce Ramsey, a mulher de um advogado bem sucedido, David Anderson Ramsey (Barry Sullivan) que, logo no início da trama, anuncia sua intenção de pedir o divórcio.

Joyce então recorda os momentos principais de sua vida conjugal e, através de uma série de vinhetas, nós vemos que ela própria contribuiu para a ruína do seu casamento por causa de sua ambição desmedida, sua busca de ascenção social a qualquer custo; estas vinhetas são originais porque, quando a ação se volta para o passado, o primeiro plano escurece e o fundo se ilumina, dando aos cenários uma impressão de transparência.

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Bette Davis e Barry Sullivan em Depois da Tormenta

Bette Davis e Barry Sullivan em Depois da Tormenta

Quando Depois da Tormenta foi exibido para os administradores do Cinema Roxy em Nova York, eles acharam que o final da história, no qual não havia esperança de que os Ramseys se reconciliariam, era muito deprimente, e pediram que fosse mudado. Bernhardt teve uma reunião com seu co-roteirista Bruce Manning e Howard Hughes, então dono da RKO-Radio, a distribuidora do filme, e eles resolveram deixar o final ambíguo, a fim de que o público decidisse se o casal voltaria a ficar juntobette all about eve poster

Celeste Holm, Hugh Marlowe, Bette e Anne Baxter em A Malvada

Celeste Holm, Hugh Marlowe, Bette e Anne Baxter em A Malvada

Em A Malvada, Eve Harrington (Anne Baxter), está prestes a receber o prêmio Sarah Siddons, outorgado à melhor atriz de teatro do ano. Todas as celebridades do palco estão presentes. O presidente da entidade (Walter Hampden) pronuncia um discurso interminável, durante o qual uma das convidadas, Karen Richards (Celeste Holm) recorda como, há pouco tempo, Eve era apenas uma admiradora da brilhante Margo Channing (Bette Davis, substituindo Claudette Colbert) estrela na melhor tradição. Um dia, impressionada com a persistência da jovem fã, Karen – cujo marido, Lloyd Richards (Hugh Marlowe) é o autor das peças que Margo interpreta -, apresenta Eve ao pequeno grupo que eles formam com o diretor, namorado de Margo, Bill Sampson (Gary Merrill), e a camareira Birdie (Thelma Ritter). Comovida ao ouvir o relato que Eve fez de sua triste existência, Margo a contrata como sua secretária particular. Aos poucos, a astuciosa Eve vai abrindo seu caminho para a fama, utilizando todos os meios para conseguir seu objetivo. Para obter o papel de Margo em uma peça, ela perturba a vida de Karen, Lloyd, Bill e do crítico teatral Addison DeWitt (George Sanders), que acaba descobrindo sua verdadeira identidade e seu passado pouco recomendável. Enquanto Eve trama para conquistar a glória, Margo percebendo que, interpretar o papel de jovens aos quarenta anos, é muito difícil, depõe suas armas, e se casa com Bill. Eve triunfa, recebe seu troféu mas, ao entrar em casa depois da festa, depara-se com uma moça chamada Phoebe (Barbara Bates), que veio lhe transmitir sua admiração, e começa a fazer com Eve, o que ela fizera com Margo. Logo Eve será substituida por Phoebe… a eterna Eve, que se reflete no infinito de um espelho.

Gregory Ratoff, Anne Baxter, Gary Merrill, George Sanders, Celeste Holm e Marilyn Monroe em A Malvada

Gregory Ratoff, Anne Baxter, Gary Merrill, George Sanders, Celeste Holm e Marilyn Monroe em A Malvada

Baseado no conto “The Wisdom of Eve” de Marry Orr, inspirado em um episódio verídico ocorrido com a atriz austríaca Elisabeth Bergner, o filme é uma sátira do mundo teatral novaiorquino (incluindo comentários sarcásticos sôbre Hollywood e a Televisão) e uma crítica à sociedade americana, na qual o arrivismo é uma das caraterísticas essenciais. Trata-se de uma obra essencialmente falada, o cinema intervindo somente por um retrospecto inteligentemente bem colocado e um comentário em voz-off (dito por dois personagens, Addison DeWitt e Karen Richards), que nos põe ao par do drama. Os planos são geralmente muito longos porque os diálogos (irônicos e sofisticados) têm um lugar importante no espetáculo, sendo sempre lembrado aquele aviso clássico de Margo ao subir a escada: “Fasten your seatbelts – it’s going to be a bumpy night”.

Gary Merrill, Anne Baxter e Bette Davis em A Malvada

Gary Merrill, Anne Baxter e Bette Davis em A Malvada

Anne Baxter e Celeste Holm emc A Malvada

Anne Baxter e Celeste Holm emc A Malvada

Bette Davis, Gary Merrill, Anne Baxter e George Sanders em A Malvada

Bette Davis, Gary Merrill, Anne Baxter e George Sanders em A Malvada

Joseph L. Mankiewicz nos mostra, sob aspectos diferentes, vários personagens femininos (Margo, Eve, Karen, Birdie e Phoebe), destacando-se a atriz célebre envelhecida, que a certa altura compreende com angústia o que vai ser sua vida tanto no plano sentimental como no professional, e a jovem principiante na arte cênica ambiciosa, calculadora e hipócrita com ânsia de sucesso, respectivamente interpretadas magnificamente por Bette Davis e Anne Baxter. Porém as composições de Celeste Holm e Thelma Ritter também são excelentes, daí todas as quatro terem sido indicadas para o Oscar.

Gary Merrill, Bette, Celeste Holm, Hugh Marlowe em A Malvada

Gary Merrill, Bette, Celeste Holm, Hugh Marlowe em A Malvada

No seu conjunto, o filme recebeu quatorze indicações para o prêmio da Academia, ganhando seis: Melhor Diretor, Filme, Melhor Ator Coadjuvante (George Sanders), Melhor Figurino em preto e branco (Edith Head e Charles Lemaire), Melhor Roteiro (J. L. Mankiewicz) e Melhor Som (Departamento de Som da 20thCentury-Fox, diretor Thomas T. Moulton).

Divorciada de William Grant Sherry em 3 de julho de 1950, assim que a filmagem de A Malvada terminou, Bette casou-se com Gary Merrill em 28 de julho do mesmo ano na cidade de Juárez no México. Eles se divorciariam em 6 de julho de 1960.

Até conseguir outro grande sucesso com O Que Aconteceu com Baby Jane? / Whatever Happened to Baby Jane? / 1962, Bette fez mais nove filmes, uns um pouco melhores do que os outros, porém nenhum deles com notável qualidade artística: Mulher Maldita / Another Man’s Poison / 1951

Garry Merrill e Bette Davis em Mulher Maldita

Garry Merrill e Bette Davis em Mulher Maldita

(Dir: Irving Rapper, como Janet Frobisher, escritora de romances policiais que matara seu marido e depois envenena o amigo dele / Gary Merrill, companheiro do falecido no assalto a um banco); Telefonema de um Estranho / Phone Call from a Stranger / 1952

Jean Negulesco dirige Bette em Telefonema para um Estranho

Jean Negulesco dirige Bette  e Gary Merrill em Telefonema para um Estranho

(Dir: Jean Negulesco, como Marie Hoke, a viúva paralítica de uma das vítimas de um desastre de avião, que recebe a visita – assim como duas outras – de um dos sobreviventes do acidente / Gary Merrill); Lágrimas Amargas / The Star / 1952

Sterling Hayden e Bette Davis em Lágrimas Amargas

Sterling Hayden e Bette Davis em Lágrimas Amargas

(Dir: Stuart Heisler, como Margaret Elliott, atriz premiada com o Oscar, tentando lidar com o fato de que sua carreira se encerrou, que precisa de dinheiro e de encontrar um meio de recompor sua vida); A Rainha Tirana / The Virgin Queen / 1955

Bette Davis e Joan Collins em A Rainha Virgem

Bette Davis e Joan Collins em A Rainha Virgem

(Dir: Henry Koster, como a Rainha Elizabeth I da Inglaterra, envolvida com jovem Walter Raleigh / Richard Todd); A Festa de Casamento / The Cattered Affair / 1956

Bette Davis e Debbie Reynolds em A Festa do Casamento

Bette Davis e Debbie Reynolds em A Festa do Casamento

(Dir: Richard Brooks, como Mrs. Agnes Hurley, a matriarca de uma famíla modesta às voltas com uma festa de casamento); Ao Despertar da Tormenta / Storm Center / 1956

Bette Davis em Ao Despertar da Tormenta

Bette Davis em Ao Despertar da Tormenta

(Dir: Daniel Taradash, como Alicia Hall, diretora da biblioteca de uma pequena cidade dos Estados Unidos, afastada do seu pôsto, porque se recusara a retirar um livro de tendência marxista do catálogo); Ainda Não Comecei a Lutar / John Paul Jones / 1959

Robert Stack e Bette Davis em Ainda não Comecei a Lutar

Robert Stack e Bette Davis em Ainda não Comecei a Lutar

(Dir: John Farrow, como Catarina II, Imperatriz da Rússia, que chamou o herói militar americano do século XVII / Robert Stack, para ser o comandante naval de sua Marinha; O Estranho Caso do Conde / The Scapegoat / 1959 (Dir: Robert Hamer, como a mãe viciada em morfina do castelão / Alec Guiness, cujo irmão gêmeo / Alec Guinees assumiu sua identidade; Dama por um Dia / A Pocketful of Miracles / 1961

Frank Capra dirigie Glenn Ford, Bette Davis e Edward Everett Horton em Dama por Dia

Frank Capra dirigie Glenn Ford, Bette Davis e Edward Everett Horton em Dama por Dia

(Dir: Frank Capra, como Apple Annie, a mendiga vendedora de maçãs que um gângster / Glenn Ford ajuda a transformar  em uma dama da sociedade.

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A história de Que Terá Acontecido a Baby Jane? é a seguinte. Nos anos vinte, Baby Jane Hudson (Bette Davis) é uma criança prodígio do music-hall, que canta e dansa, e sustenta sua família. Porém nos anos trinta, os papéis se invertem. Sua irmã Blanche (Joan Crawford) torna-se uma estrela de Hollywood, e Jane é esquecida. No auge de sua carreira, Blanche é vítima de um acidente de automóvel provocado involuntariamente por Jane, que se tornara uma alcoólatra. Inválida das duas pernas, Blanche torna-se dependente de Jane,submetendo-se aos maus tratos de sua irmã. Jane martiriza Blanche sequestrando-a, privando-a de alimentação, e imitando sua assinatura em cheques que ela endossa ao mesmo tempo em que canta, acompanhada por um pianista, seu antigo sucesso de criança, na esperança de voltar à cena. Quando Jane surpreende uma conversa telefônica entre Blanche e um médico, ao qual pedira ajuda, Jane agride selvagemente sua irmã, arrasta-a para o seu quarto, e a amarra à sua cama. Depois, Jane mata a criada, que ela havia despedido e que, preocupada com a situação de Blanche, entrara na casa escondida para vê-la. O pianista, vendo Blanche amarrada e amordaçada, foge horrorizado. Compreendendo que ele vai avisar a polícia, Jane conduz sua irmã moribunda para uma praia. Nos últimos segundos que lhe resta de vida, Blanche revela a Jane que ela não fôra a responsável pelo acidente como a fizera crer por tanto tempo, mas foi ela mesma, Blanche, que desejando aniquilar Jane, jogara o carro contra um muro. Esta revelação faz com que Jane mergulhe definitivamente na loucura. Um pouco mais tarde, a policia encontra-a dançando perto do cadáver de sua irmã.

Bette Davis em O Que Aconteceu a Baby jane?

Bette Davis em Que Terá Acontecido a Baby Jane?

Joan Crawford e Bette Davis em O Que Aconteceu a baby Jane?

Joan Crawford e Bette Davis em  Que Terá Acontecido a Baby Jane?

Jane e Blanche são dois monstros: Jane como um carrasco colérico, cruel e demente; Blanche como uma vítima, mas também cruel na sua hipocrisia, na sua violência interior, na sua mentira. Ambas refletem a visão do mundo pessimista de Robert Aldrich e sua predileção por cenas truculentas. Este filme é um grand-guignol doentio, uma “farsa macabra” digna do diretor. Ele fabrica um pesadêlo e começa por encerrar o espectador em um ambiente sufocante, onde convivem duas estrelas envelhecidas, ultrajantemente maquiladas, invejosas uma da outra, rivais, rancorosas. A esta dupla perversa, – a louca e a paralítica – Aldrich acrescentou um gigante obeso (o pianista), interpretado de maneira impressionante por Victor Buono, que completa a sensação de mal-estar. O filme, como “horror psicológico”, é, muito bom, e Bette cantando “I’ve Written a Letter to Daddy”, um espetáculo a parte!

Robert Aldrich dirige Bette em O Que Aconteceu a Baby Jane?

Robert Aldrich dirige Bette em  Que Terá Aconteceu a Baby Jane?

Apenas nove dias depois de ter terminado  Que Terá Aconteccido a Baby Jane? , Bette colocou um anúncio nos jornais intitulado “Empregos Procurados, Mulheres “, que dizia: Mãe de três filhos – com 10, 11 e 15 anos – , divorciada, americana, trinta anos de experiência como atriz no cinema. Ainda se movimenta e é mais amável do que dizem os boatos. Deseja emprego fixo em Hollywood (esteve na Broadway). Bette Davis aos cuidados de Martin Baum, agente. Referências a pedido. Betty comentou depois: “O anúncio era metade brincalhão, metade sério”.

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No início de 1963, a Academia indicou-a como Melhor Atriz por Baby Jane, mas ela perdeu para Anne Bancroft, pondo a culpa em Joan Crawford que, segundo ela, teria feito tudo para impedí-la de ganhar a estatueta; Joan inclusive convenceu Anne Bancroft a aceitar que ela, Joan, recebesse o prêmio em seu nome, caso vencesse. “Quando o nome de Anne Bancroft foi anunciado, fiquei branca”, Bette escreveu. “Momentos depois, Joan passou pelo camarim do mestre de cerimônia, Frank Sinatra, onde eu estava com Olivia de Havilland. O olhar de Joan dizia claramente, “Você não ganhou e eu estou muito feliz” (cf. Ed Sikov).

Depois do êxito do filme de Robert Aldrich, Bette começou – com algumas exceções – uma segunda carreira como especialista no gênero de horror, sendo que nenhum dos seus 15 filmes derradeiros – Vidas Vazias / La Noia / 1963 (Dir: Damiano Damiani); Alguém Morreu em Meu Lugar / Dead Ringer / 1964 (Dir: Paul Henreid);  Escândalo na Sociedade / Where Love Has Gone / 1964 (Dir: Edward Dmytryk); Com a Maldade na Alma / Hush…Hush Sweet Charlotte / 1965 (Dir: Robert Aldrich); Nas Garras do Ódio / The Nanny / 1965 (Dir: Seth Holt); O Aniversário / The Anniversary / 1968 (Dir: Roy Ward Baker); Quartos Conjugados / Connecting Rooms / 1970 (Dir: Franklin Gollins); Bunny O’Hare / Bunny O’Hare / 1971 (Dir: Gerd Oswald); Semeando a Ilusão / Lo Scopone Scientifico / 1972 (Dir: Luigi Comencini); A Mansão Macabra / Burnt Offerings / 1976 (Dir: Dan Curtis); O Perigo da Montanha Encantada / Return from Witch Mountain / 1978 (Dir: John Hough);

Bette Davis em Nas Garras do Ódio

Bette Davis em Nas Garras do Ódio

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bette whalesMorte sobre o Nilo / Death on the Nile / 1978 (Dir: John Guillermin); Mistério no Bosque / The Watcher in the Woods / 1980 (Dir: John Hough); Baleias de Agosto / The Whales of August / 1987 (Dir: Lindsay Anderson); A Madrasta / Wicked Stepmother / 1989 (Dir: Larry Cohen) – chegaram perto dos melhores filmes que ela havia atuado até então. Merece destaque apenas Com a Maldade na Alma, pela comparação que tem sido feita com O Que Aconteceu com Baby Jane?

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Na trama de Com a Maldade na Alma, quando a Louisiana Highway Commission resolve construir uma estrada através de sua propriedade, Charlotte Hollis (Bette Davis) ameaça os operários com uma espingarda. Trinta e sete anos antes, o amante casado de Charlotte, John Mayhew (Bruce Dern), havia sido assassinado; e embora o assassino nunca tivesse sido descoberto, a população local está convencida da culpa de Charlotte. Acreditando que foi seu pai que matou Mayhew, ela se torna uma reclusa na sua velha mansão, vivendo na companhia de sua governanta, Velma (Agnes Moorehead). Agora, para enfrentar a Highway Commission, Charlotte pede a ajuda de Miriam (Olivia de Havilland), sua prima pobre que morou com a família quando criança. No seu retôrno, Miriam renova seu relacionamento como Drew Bayliss (Joseph Cotten), o médico local que cuida de Charlotte.

Bette Davis e Agnes Moorehead em Com a Maldade na Alma

Bette Davis e Agnes Moorehead em Com a Maldade na Alma

O diretor Robert Aldrich ladeado por Agnes Moorehead e Bette Davis

O diretor Robert Aldrich ladeado por Agnes Moorehead e Bette Davis

Olivia de Havilland e Bette Davis em Com a Maldade na Alma

Olivia de Havilland e Bette Davis em Com a Maldade na Alma

Com a chegada de Miriam, a excêntrica Charlotte torna-se progressivamente mais perturbada – suas noites assombradas pelo som de um piano tocando a canção que Mayhew escrevera para ela e pela aparição da mão e da cabeça desincorporadas do seu falecido marido. Percebendo que Miriam e Drew estão tentando fazer com que Charlotte fique completamente louca, a fim de se apossarem de sua fortuna, Velma procura auxílio com o Mr. Willis (Cecil Kellaway), um investigador da Companhia de Seguros Lloyd’s of London, que ainda está interessado no caso Mayhew, e que visitara a víuva dele, Jewel (Mary Astor); mas Miriam mata Velma quando esta tenta remover Charlotte da mansão por motivo de segurança. Em seguida, Miriam e Drew armam um truque para Charlotte matar Drew com uma arma descarregada, e Miriam ajuda Charlotte a jogar o corpo dele em um pântano. O reaparecimento de Drew converte Charlotte em uma demente choramingona. Pensando que Charlotte está inteiramente louca, e trancada no seu quarto, Miriam e Drew vão para o jardim e comentam o que haviam feito. Quando Miriam abraça Drew, ela vê Charlotte que os havia escutado. Furiosa, ela empurra um pedra enorme do balcão, que cai sobre eles, matando-os. Mais tarde, Charlotte é levada pelas autoridades. Mr. Willis entrega-lhe um envelope da agora falecida Jewel Mayhew, contendo a confissão de Jewell do assassinato de seu marido.

Olivia de Havilland e Bette davis conversam na filmagem de Com a Maldade na Alma

Olivia de Havilland e Bette davis conversam na filmagem de Com a Maldade na Alma

O elenco originário de Com a Maldade na Alma: (joseph Cotten, Bette, Joan Crawford e o diretor Robert Aldrich).

O elenco originário de Com a Maldade na Alma: (Joseph Cotten, Bette, Joan Crawford e o diretor Robert Aldrich).

A filmagem de Com a Maldade na Alma – baseado como O Que Aconteceu com Baby Jane, em um romance de Henry Farrell – começou em 1 de junho de 1964, mas foi interrompida pela doença falsa de Joan Crawford (que se internou no Cedars of Lebanon Hospital e se recusou a sair com medo de competir com Bette, particularmente depois de ter provocado a ira de sua colega naquele incidente da entrega do Oscar no ano anterior) e também porque Bette foi obrigada pela justiça a filmar cenas adicionais para Escândalo na Sociedade. Crawford atuou no filme apenas quatro dias, sendo substituída por Olivia de Havilland.

Alguns críticos e o próprio diretor, Robert Aldrich, acharam que a interpretação de Bette em Com a Maldade na Alma foi melhor do que em O Que Aconteceu com Babe Jane. A razão de Aldrich foi simplesmente técnica: o seu uso de múltiplas câmeras sobre Charlotte, permitindo captar todas as reações da atriz. Bette gostou de trabalhar com Aldrich novamente, porém não apreciou certos aspectos da sua segunda colaboração: “Ele tinha algumas faltas de gôsto estranhas. Acho que a cena em que a cabeça salta pela escada abaixo foi demais. Baby Jane tinha algumas cenas chocantes, e era altamente dramático, mas nenhuma cabeça pulando pela escada”.

Gena Rowlands e Bette Davis

Gena Rowlands e Bette Davis

Considerada uma das maiores atrizes da América, Bette Davis ficou inicialmente hesitante em aderir à televisão mas, apesar de suas restrições, eventualmente aderiu à telinha e, por mais de meio século, aceitou papéis grandes e pequenos, estrelou ou coadjuvou outros atores, participou de teleteatros, telefilmes, seriados e minisséries, espetáculos de variedades, game shows, cerimônias de gala e de homenagem, e programas de entrevistas. Ela foi quatro vêzes indicada para o Emmy, tendo conquistado o prêmio em 1979 por sua atuação no telefilme Difícil ReencontroStrangers: The Story of a Mother and Daughter, ao lado e Gena Rowlands.

Bette Davis no AFI

Bette Davis no AFI

Em 1977, Bette foi a primeira atriz a ser honrada com o Lifetime Achievement Award, anteriormente concedido somente a John Ford, James Cagney, Orson Welles e William Wyler. Ela continuou trabalhando até a sua morte no dia 6 de outubro de 1989 em Neuilly-sur-Seine na França. Seu epitáfio: “She did it the hard way”.