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Histórias de Cinema

FILMES PERDIDOS DO CINEMA MUDO AMERICANO

May 12, 2017

A era do cinema mudo americano durou mais ou menos de 1912 a 1929. Durante esse tempo, os realizadores de filmes criaram a linguagem cinematográfica, os filmes que eles fizeram atingiram o auge da perfeição artística e, com seus astros e estrelas e altos valores de produção, espalharam a cultura americana através do mundo. Com o advento do som, os filmes silenciosos sumiram de vista, e muitos desapareceram para sempre.

Houve diversas causas para este desaparecimento:

  1. Era caro armazenar os filmes (se os estúdios quizessem fazer isto de maneira apropriada) e como muitos não tinham mais valor comercial, eles simplesmente os jogavam fora. Quando o longa-metragem se consolidou como formato preferido pelo público, não havia sentido para os produtores manter em estoque os velhos filmes de um ou dois rolos, pois não havia mais mercado para eles. E com o advento do som a partir de 1927, os filmes mudos tornaram-se um estorvo, ocupando espaço sem gerar nenhum lucro.
  2. Os filmes costumavam ser destruídos em incêndios, porque eram feitos de nitrocelulose, que tinha a mesma estrutura química do algodão-pólvora, usado em explosivos. Em consequência, o filme de nitrato era extremamente inflamável e tinha a tendência de sofrer combustão espontânea; uma vez inflamado, criava seu próprio oxigênio enquanto queimava, desprendendo fumaça tóxica. Apesar de regulamentações como o Cinematograph Act de 1909 que estipulava que um projetor devia ser conservado em uma cabine à prova-de-fogo, durante as primeiras seis décadas de vida do cinema, durante cada segundo de quase toda exibição de filme no mundo, uma substância altamente combustível estava passando a milímetros de distância de uma fonte de luz excepcionalmente quente, situada logo atrás de uma sala escura cheia de gente.
  3. Os filmes eram reciclados para o reaproveitamento de sua matéria-prima, dissolvendo-se as películas para a reobtenção da prata ou fornecimento de celulose para a fabricação de vassouras.
  4. Os filmes apodreciam. Mesmo se escapava de pegar fogo, ele ainda se decompunha até literalmente ser reduzido a pó. Muitos tesouros tiveram este triste destino. Por exemplo, a atriz Colleen Moore havia depositado seus filmes silenciosos no Museu de Arte Moderna de Nova York, e eles, sem o necessário cuidado na sua conservação, eventualmente se deterioraram.

Em 2013, em um estudo pioneiro “The Survival of American Silent Feature Films: 1912-1929”, comissionado pela National Film Preservation Board da Biblioteca do Congresso, o historiador e arquivista David Pierce (que entre outros méritos teve o de ser o fundador da Media History Digital Library, projeto que digitalizou e permitiu o acesso grátis a dezenas de revistas de cinema americanas) elaborou um relatório e formou um banco de dados, contendo informações valiosas sobre quase 11 mil títulos de filmes de longa-metragem americanos lançados entre 1912-1929.

Arquivo de Filmes da Biblioteca do Congresso

Não existe um único número para filmes mudos americanos existentes, porque as cópias sobreviventes variam de formato e de inteireza. A pesquisa mostrou que: 1) apenas quatorze por cento (1.575 títulos) dos filmes de longa metragem produzidos e distribuidos no âmbito doméstico de 1912 a 1929, ainda existem no seu formato original de 35 mm. 2) onze por cento (1.174 títulos) dos filmes que estão completos somente existem como versões estrangeiras ou em formatos de baixa-qualidade como 28 mm ou 16mm. 3) cinco por cento (562 títulos) estão incompletos, faltando alguma parte do filme ou existindo apenas como uma versão condensada. 4) dos 3.311 filmes que sobreviveram em qualquer formato, 886 foram encontrados no exterior (destes, vinte e três por cento (210 títulos) já foram repatriados para os Estados Unidos). Os remanescentes 70 por cento são considerados perdidos.

Havia uma área onde os estúdios de Hollywood frequentemente perdiam o contrôle do seu produto: a distribuição internacional. Os filmes americanos rapidamente se tornaram as atrações mais populares nos cinemas do mundo inteiro e os estúdios enviavam seus títulos para todo o mercado estrangeiro que ansiava por eles. O problema era trazer as cópias de volta, considerando que o transporte transoceânico era feito por navio e que a comunicação telefônica entre continentes era rara, dificultando o contato com os representantes estrangeiros que cuidavam do lançamento dos filmes de Holywood. Por causa disso, muitas cópias de filmes americanos permaneceram no exterior.

Entre os filmes mais importantes que sobreviveram fora do país após terem desaparecido no âmbito doméstico e muitos anos depois foram recuperados, estavam: Ridi, Pagliacci ! / Laugh, Clown, Laugh / 1928 de Herbert Brenon – encontrado no Reino Unido; A Torrente da Fama / Upstream / 1927 de John Ford – encontrado na Nova Zelândia; O Monstro do Circo / The Unknown / 1927 de Tod Browning – encontrado na França; Rosita / Rosita / 1923 de Ernst Lubitsch – encontrado na Russia; Oliver Twist / Oliver Twist / 1922 de Frank Lloyd – encontrado na Sérvia; Esposa Mártir / Beyond the Rocks / 1923 de Sam Wood – encontrado na Holanda.

A maior coleção de filmes americanos exportados veio do Národní Filmovy Archiv da República Theca, fundado em 1943. A sua primeira grande aquisição foi no final dos anos quarenta, uma coleção de cerca de 400 filmes mudos de curta e longa-metragem do Sr. Bouda, gerente de um cinema itinerante. Em 1966, o Národní Archiv respondeu um telefonema do Sr. Pisvejc, outro exibidor ambulante, que havia armazenado seus filmes em uma fazenda de criação de galinhas, entre eles 80 longas-metragens dos anos vinte, a maioria westerns estrelados por Tom Mix, Buck Jones, etc.

Nos Estados Unidos, a maioria dos filmes sobreviventes estão na posse de cinco grandes arquivos: The Packard Campus for Audio Visual Conservation, que faz parte da Biblioteca do Congresso; Museum of Modern Art; George Eastman House; UCLA Film & Television Archive; The Academy Film Archive, setor da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Uma arquivista mostra uma pequena porção do UCLA Film and Television Archive

UCLA Film and Television Archive

Alguns estúdios perceberam que seus filmes silenciosos tinham valor e tentaram preservá-los. A MGM possui mais dos seus filmes de longa-metragem mudos do que qualquer outro grande estúdio de Hollywood, porque nos anos sessenta decidiu preservar tudo o que ainda estava disponível.

Realizadores e artistas como, por exemplo, Douglas Fairbanks, Charles Chaplin, William S. Hart, D. W. Griffith, Mary Pickford, Cecil B. DeMille e Harold Lloyd preservaram seus filmes por conta própria (embora Lloyd tivesse perdido boa parte de sua obra em um incêndio no seu acervo no início dos anos quarenta).

John Hampton na sua cabine de projeção

A coleção de filmes em 16mm mais importante fora de um arquivo ou de um estúdio foi formada por John Hampton que, com sua esposa Dorothy, administraram o Silent Movie Theater de Los Angeles de 1942 a 1979. Ela faz parte agora da Stanford Theatre Collection no UCLA Film & Television Archive. Outra grande coleção é a de David Bradley – um fã que se tornou diretor de cinema -, hoje guardada na Lilly Library da Indiana University.

Por fim, convém lembrar La Giornata del Cinema Muto, um festival de cinema silencioso que, a partir de 1982, acontece todo ano no mês de outubro na cidade italiana de Pordenone, quando são exibidos pela primeira vez novos descobrimentos de cópias dadas como perdidas e que foram restauradas, provenientes de filmotecas inernacionais e colecionadores particulares.

 Selecionei os dez filmes perdidos que mais gostaria de ter visto:

1. ALTA TRAIÇÃO / THE PATRIOT/ 1928. Dir: Ernst Lubitsch.

Florence Vidor e Emil Jannings em Alta Traição

Emil Jannings e Ernst Lubitsch na filmagem de Alta Traição

Na Russia do século XVIII, o Czar Paulo (Emil Jannings) está cercado de intrigas homicidas e só confia no Conde Pahlen (Lewis Stone). Pahlen quer proteger seu amigo, o rei louco, mas por causa do horror dos atos praticados pelo monarca, ele sente que deve removê-lo do trono. Stefan (Harry Cording), açoitado pelo czar por não ter o número correto de botões nas suas polainas, junta-se ao conde na conspiracão. O príncipe coroado Alexandre (Neil Hamilton) fica aterrorizado ao saber dos planos deles e adverte o pai que, não sentindo amor pelo filho, manda prendê-lo por suas acusações tolas. Pahlen usa sua amante, a Condessa Ostermann (Florence Vidor), para atrair o czar ao seu quarto, onde ela lhe fala sobre a trama. O czar exige a presença de Pahlen, que o assegura de sua lealdade. Mais tarde naquela noite, o conde e Stefan entram no quarto do czar e logo ele está morto. Porém momentos depois Stefan aponta uma pistola para Pahlen. Enquanto o conde está morrendo caído no chão, a condessa aparece, abraça Pahlen, e ele diz: “Eu fui um mau amigo e amante – mas eu fui um Patriota”.

Obs. Sobrevivem oito minutos do filme, além do trailer, pertencentes à Cinemateca Portugesa. O fragmento de oito minutos, mostra os momentos de angústia do czar enlouquecido, mandando os guardas procurarem o conde Pahlen, que estaria traindo-o. Quando o conde entra na sala e inicia um diálogo com o czar, garantindo-lhe que não o está traindo, a imagem começa a ter falhas e, subitamente, o fragmento termina. O pedaço de filme, exibido pela única vez na Cinemateca Portuguesa em 2005, pertencia à coleção do cinéfilo e cineclubista do Porto, Henrique Alves Costa e foi entregue à Cinemateca em 2002 pela famíla dele. Trata-se provavelmente do que restou de uma cópia exibida em Portugal, onde The Patriot (como título de O Patriota) estreou no Cinema Tivoli em 4 de novembro de 1929.

2A ILHA DO TESOURO / TREASURE ISLAND / 1920. Dir: Maurice Tourneur.

Shirley Mason e Lon Chaney em A Ilha do Tesouro

Cena de A Ilha do Tesouro

O jovem Jim Hawkins (Shirley Mason) ajuda sua mãe viúva (Josie Melville) a administrar a Estalagem Admiral Benbow na costa oeste da Inglaterra. O capitão de navio, Billy Bones (Al Filson), chega na estalagem e pede a Jim que o avise se aparecer por ali um “marinheiro de uma perna só”. Certa manhã, um marujo violento chamado Black Dog (Wilton Taylor) entra na estalagem e exige que Bones lhe entregue a sua parte do tesouro do Capitão Flint. Bones rechaça o intruso e diz a Jim que, se por acaso for morto, ele pode ficar com tudo o que lhe pertence. Algum tempo depois, Pew (Lon Chaney), um pirata cego e medonho, obriga Jim a conduzí-lo até Bones, que mais tarde é encontrado assassinado. Jim encontra nas roupas de Bones um pacote e o entrega aos amigos de sua mãe, Dr. Livesey (Charles Hill Mailes) e Squire Trelawney (Sydney Deane). Dentro do pacote, eles descobrem o mapa com a localização do tesouro do Capitão Flint. O Squire compra um navio, “The Hispaniola,” e organiza uma expedição para achar o tesouro. Long John Silver (Charles Ogle), um marujo com uma perna-de-pau, é contratado como cozinheiro e Israel Hands (Joseph Singleton), George Merry (Lon Chaney) e Morgan (Bull Montana) estão entre a tripulação. Jim embarca clandestinamente e, em alto mar, ouve secretamente um plano de motim, arquitetado por Long John Silver. Ele informa ao Dr. Livesey, ao Squire e a Smollet (Harry Holden), o capitão do navio e, quando a terra é avistada, os amotinados são mantidos a distância até que os três chegam à ilha e se refugiam em um abrigo com Jim e os membros leais da tripulação. Trava-se uma batalha contra os piratas e o mapa cai nas mãos de Long John Silver; porém os piratas são eventualmente derrotados e Jim e os outros encontram o tesouro através de uma revelação por parte de Ben Gunn (não creditado), um pirata que havia sido abandonado por Flint na ilha.

 3. CASTELOS DE ILUSÕES / THE TOWER OF LIES / 1925. Dir: Victor Sjostrom.

Lon Chaney em Castelos de Ilusões

Cena de Castelos de Ilusões

O lavrador escandinavo Jan (Lon Chaney) trabalha pesado na terra durante longas horas, desconhecendo alegrias ou tristezas. Quando nasce sua filha, Goldie (Norma Shearer), a labuta penosa de sua vida transforma-se em felicidade. Ele e sua filha divertem-se com um jôgo favorito no qual ele é o imperador de um reino fictício. Anos depois, o dono da propriedade morre e seu filho Lars (Ian Keith) logo exige o pagamento imediato dos débitos de seus arrendatários, inclusive Jan. A fim de evitar o despejo de seu pai, Goldie vai para a cidade, prometendo-lhe que retornará dentro de poucos mêses. Quando ela compra a fazenda para seus pais, mas não volta como prometido, Jan perde sua sanidade, e retrocede ao passado, brincando com as crianças da vizinhança, vestido como o imperador imaginário. O tempo passa e Goldie finalmente retorna usando roupas extravagantes, o que deixa os vizinhos com a suspeita de que ela se tornou uma prostituta. Não suportando mais os rumores, Goldie volta para a cidade de barco, sem perceber que seu pai a está seguindo. No píer, Jan tropeça, e morre afogado. Um dia, Goldie retorna e se casa com seu namorado de infância, August (William Haines).

4. VAMPIROS DA MEIA-NOITE / LONDON AFTER MIDNIGHT / 1927. Dir: Tod Browning.

Lon Chaney em Vampiros da Meia-Noite

Cinco anos após a morte de Roger Balfour em sua residência em Londres, o Inspetor Burke da Scotland Yard (Lon Chaney) ainda está investigando o caso, recusando-se a acreditar que Balfour cometeu suicídio. Sir James Hamlin (Henry B. Walthall), o amigo mais íntimo de Balfour; Artur Hibbs (Conrad Nagel), sobrinho de Balfour; Lucille (Marceline Day), filha de Balfour; e o mordomo (Percy Williams) ainda são considerados suspeitos. O inspetor acredita que um criminoso sob hipnose vai recriar seu crime. Exímio hipnotizador, ele testa sua teoria magnetizando os principais suspeitos, colocando-os no cenário do crime e observando suas reações. Vampiros também figuram na solução do mistério e no final do relato, o vampiro vem a ser ninguém mais do que o próprio inspetor.

 5. O ROMANCE DE LENA / THE CASE OF LENA SMITH / 1929. Dir: Josef von Sternberg.

Cena de O Romance de Lena

Esther Ralston em O Romance de Lena

Em Viena, por volta de 1894, Lena (Esther Ralston), uma pobre campesina, casa-se secretamente com Franz (James Hall), um oficial do exército devasso e, depois do nascimento do filho, vai trabalhar na casa do marido como empregada, escondendo a verdade do sogro. Este tenta lhe tomar a criança e Franz, sem poder ajudá-la, comete suicídio. Quando a côrte recusa os apêlos de Lena, ela rouba o menino. Ele cresce e marcha para a guerra em 1914 de uma aldeia húngara.

Obs. Um fragmento de quatro minutos do primeiro rolo do filme foi encontrado em Dalian, China, e está agora guardado na Universidade Waseda, no Japão. Este fragmento foi exibido no 22º Festival do Filme Silenciso de Pordenone em 2003.

 6. THE LAST MOMENT / 1928. Dir: Paul Fejós.

Cena de The Lost Moment

Nos últimos momentos de sua vida, uma pessoa visualiza os instantes marcantes de sua existência. A primeira cena do filme mostra um homem (Otto Matteson) debatendo-se na água. Sua mão se ergue, indicando que está se afogando. Segue-se uma série de planos rápidos: duplas e triplas superposições da cabeça de um Pierrot, rostos de mulheres, faróis de automóveis piscando, rodas girando, um punhado de estrelas, uma explosão, um livro de criança. O rítmo do filme desacelera para resumir a vida do homem: tempos de colégio, mãe amorosa, pai severo, uma cerimônia de crisma, uma festa de aniversário, o circo, um romance adolescente com uma atriz do circo, discussão com seu pai, a partida do lar, passageiro clandestino em um navio, perambulando em uma taberna no porto, declamando para os beberrões, sendo atropelado por um carrro, uma operação e a convalescência em um hospital, tornando-se um ator, casando-se com a enfermeira que cuidou dele, uma briga, divórcio, a morte de sua mãe, o enterro, um caso amoroso com uma mulher casada, um duelo com o marido dela, a guerra e seu amigo morrendo em seus braços. Ele retorna à vida civil, retoma sua profissão de ator, apaixona-se pela parceira, se casam, ela morre. Vestido como Pierrot, ele caminha para casa, chega ao lago, olha para seu reflexo, e entra na água até que somente sua mão fica visível. A mão desaparece, e o filme termina com umas bolhas subindo à superfície.

 7. FRÍVOLO AMOR / TRIFLING WOMEN / 1922. Dir: Rex Ingram.

Ramon Novarro e Barbara La Marr em Frívolo Amor

Ramon Novarro e Barbara La Marr em Frívolo Amor

Barbara La Marr em Frívolo Amor

Para dar uma lição à sua filha Jacqueline (Barbara La Marr) sobre os perigos da infidelidade, depois que ela ridicularizou o jovem Henri (Ramon Novarro), porque este a ama loucamente, o romancista Léon de Séverac (Pomeroy Canon) lê para ela sua última história. A cartomante Zareda (Barbara La Marr), mulher formosa e hábil em dominar os homens, recebe em sua residência a alta sociedade de Paris, pedindo previsões do futuro. O jovem Ivan (Ramon Novarro) ama-a com todo o seu coração, mas há um obstáculo para que se una a ela pelo casamento: seu pai, o decrépito Barão François de Maupin (Edward Connelly) também está apaixonado pela cartomante. Esta tolera-o apenas por causa das jóias caras que lhe oferece e, zombeteiramente, as coloca no pescoço do seu macaco de estimação. Quando irrompe a guerra e a perspectiva de uma separação ameaça precipitar o casamento de Ivan e Zareda, o barão joga uma cartada de mestre: apresenta Zareda ao Marquês de Ferroni (Lewis Stone,) que vive em um castelo suntuoso. Depois que o regimento de Ivan parte para o campo de batalha, Zareda fica em Paris a palestrar com o marquês e a sonhar com seu castelo com colunas de mármore e no qual se bebia vinho em taças de ouro. O barão então, para ser o único candidato ao coração de Zareda, derrama veneno na taça destinada a Ferroni. Zareda porém percebe seu gesto traiçoeiro e troca as taças sem que o barão perceba. Durante os quatro anos que Ivan estivera na guerra não recebeu nenhuma notícia de Zareda. Depois do armistício, ele vai procurá-la e a encontra casada com Ferroni. Ela lhe diz que foi insensata, que o ama perdidamente, e que sabe como se libertar de seu esposo: ela lhe dirá que foi insultada por Ivan e o marquês desafiará para um duelo o maior esgrimista do país. No duelo, Ferroni é mortalmente ferido, mas sobrevive o tempo suficiente para matar Ivan e enterrar Zareda viva ao lado do corpo de seu amado morto. Jacqueline fica impressionada por esta história e aceita seu fiel pretendente, Henri.

8. OS QUATRO DIABOS / THE FOUR DEVILS / 1928. Dir: F. W. Murnau.

Cena de Os Quatro Diabos

Cena de Os Quatro Diabos

No circo Cecchi, um palhaço (J. Farrell MacDonald) cuida de duas meninas orfãs, Marion (quando adulta Janet Gaynor) e Louise (quando adulta Nancy Drextel), como se fossem suas filhas. Durante uma temporada, uma mulher entrega ao diretor do circo (Anders Randolf) os garotos Adolf (quando adulto Barry Norton) e Charles (quando adulto, Charles Morton), filhos dos famosos trapezistas Rossy, que haviam perdido a vida, executando um salto mortal. As quatro crianças crescem unidas por uma grande amizade. O tempo passa, e eles se tornam célebres como acrobatas do trapézio chamados de “Os Quatro Diabos”. Marion ama Charles, porém eis que surge uma mulher fatal (Mary Duncan), e Charles não resiste aos seus encantos. Marion, sentindo-se desprezada cai deliberadamente do trapézio. No entanto, ela sobrevive, confessa seu amor a Charles, e ele recupera o juízo diante da tragédia que, por pouco, não ocorreu.

Obs. O documentário em video Murnau’s 4 Devils: Traces of a Lost Film (2003), dirigido por Janet Bergstrom, que saiu como brinde do dvd de Sunrise, em 2003, reconstrói o filme a partir de fotos, desenho de produção e roteiro.

9. BEIJA-ME OUTRA VEZ / KISS ME AGAIN / 1925. Dir: Ernst Lubitsch.

Clara Bow em Beija-me Outra vez

Gaston Fleury (Monte Blue) concorda em se divorciar de sua esposa Loulou (Marie Prevost), que ele acredita estar apaixonada por um amigo dos dois, o professor de piano Maurice Ferriere (John Roche). Para justificar o pedido de divórcio, o advogado Dubois (Willard Louis) tenta encenar uma situação com sua secretária Grisette (Clara Bow) como testemunha, na qual Gaston agride sua mulher; porém Gaston não consegue aceitar a idéia. Em vez disso, ele finge para Loulou que existe alguém na sua vida. Durante algum tempo parece que este alguém é Grisette, um engano que Gaston encoraja, porque causa ciúme em Loulou. Cansada de Maurice, Loulou logo descobre a verdade do suposto romance de Gaston com Grisette, mas se preparando para sua reconciliação com Gaston, Loulou finge acreditar no relacionamento dele com Grisette, para que o seu ego masculino possa ser confortado.

10. O HOMEM MIRACULOSO / THE MIRACLE MAN / 1919. Dir: George Loane Tucker

Lon Chaney em O Homem Miraculoso

Cena de O Homem Miraculoso

Uma quadrilha composta por Frog (Lon Chaney), um contorcionista; Dope (J. M. Dumont), viciado em drogas; Rose (Betty Compson), que finge ser uma prostituta brutalizada por Dope; e o líder, Tom Burke (Thomas Meighan), exploram a compaixão e recebem as contribuições dos otários na Chinatown de Nova York. Ao ler no jornal sobre um surdo, mudo e quase cego, chamado O Patriarca (J. M. Dumont), que seria capaz de curar pela fé, Tom planeja usá-lo, a fim de obter maior vantagem da credulidade das pessoas, e parte com seus cúmplices para a pequena cidade de Fairhope, onde mora o taumaturgo. Quando a população se reune para ver o Patriarca curar os doentes, Frog está ali, fingindo-se de aleijado. Enquanto se arrasta para perto do homem miraculoso, seus membros se endireitam e ele está supostamente curado. Inesperadamente, um menino aleijado de verdade, inspirado ao ver a “cura” de Frog, larga suas maletas e corre em direção ao Patriarca. A história se espalha pelo país e as pessoas afluem de todos os lugares para consultar o milagreiro, fazendo doações para a “construção de uma igreja”. Um milionário, Richard King (Lawson Butt) traz sua irmã Claire (Elinor Fair) e entrega 50 mil dólares para Burke. Durante sua visita, King conhece Rose e os dois se apaixonam. Entrementes, Burke vê seus cúmplices, influenciados pelo Patriarca, se regenerando. Dope livra-se de seu vício; Frog abandona sua vida de crimes e passa a tomar conta de uma viúva; Rose lamenta a partida de King, deixando Burke com ciúmes. Porém, quando King retorna e pede Rose em casamento, ela percebe que ama Burke. O Patriarca morre e Burke se casa com Rose.

Obs. Dois fragmentos do filme sobrevivem: 1. Burke lendo uma notícia de jornal sobre o Patriarca; 2. Frog se arrastando até o Patriarca e depois o menino aleijado ocorrendo a sua cura. Eles aparecem em um short promocional feito pela Paramount para festejar o 20º aniversário de sua fundação, intitulado The House That Shadows Buit (1931) e em um dos segmentos da série Movie Milestones da Paramount, intitulado Movie Memories #2 (1934), mostrando as grandes realizações do estúdio. Nos anos setenta, a Blackhawk Films lançou o documentário Movie Milestones com os fragmentos sobreviventes em formato de 8mm. Estes mesmos fragmentos foram mostrados também no documentário Lon Chaney: Behind the Mask, produzido pela Kino International e incluido na versão em dvd de 2012 do filme The Penalty / 1920.

CHARLIE CHAN NO CINEMA AMERICANO

April 28, 2017

O detetive chinês da polícia de Honolulu, criado por Earl Der Biggers (1884-1933) em seis romances (The House Without a Key, The Chinese Parrot, Behind That Curtain, The Black Camel, Charlie Chan Carries On, The Keeper of the Keys), surgidos entre 1926 e 1932, chegou ao Cinema no seriado A Casa sem Chave / The House Without a Key / 1926 (Dir: Spencer Gordon Bennett), encarnado pelo ator japonês George Kuwa. Depois, Chan apareceu sob os traços de outro intérprete nipônico, Kamiyama Sojin em O Papagaio Chinês / The Chinese Parrot / 1927 (Dir: Paul Leni) e de um britânico, E. L. Park, em O Romance de Eva / Behind That Curtain / 1929 (Dir: Irving Cummings).

George Kuwa recebe sua maquilagem

Sojin, visto entre as duas velas, como Charlie Chan em O Papagaio Chinês

E.L. Park como Charlie Chan em O Romance de Eva

Em todos esses casos suas intervenções foram minimizadas (em O Romance de Eva, por exemplo, foi reduzido a uma espécie de detetive-ex-machina, aparecendo no final do filme para solucionar o mistério) até surgir a famosa série da 20thCentury-Fox, inaugurada com os 16 filmes do sueco Warner Oland (Johan Verner Öland), geralmente considerados os melhores, misturando a solução dos crimes com comédia, sempre entremeados com os sábios aforismos de Charlie.

O primeiro compromisso “oficial” de Oland na tela foi como um gangster italiano em um melodrama de Theda Bara intitulado O Anjo de Marfim do Purgatório / Sin em 1915. Ele já trabalhava no teatro, tendo sido “descoberto” pela atriz Alla Nazimova durante uma tournée em uma companhia shakespereana. Nazimova integrou-o na sua trupe para o seu famoso repertório de 1906 composto por peças de Henrik Ibsen. Eventualmente, traduziu peças de August Strindberg. Seu primeiro flêrte com o cinema ocorrera em 1910, porém o filme resultante – uma versão de um rolo de “Pilgrim’s Progress” – e tudo a respeito de sua filmagem se perdeu.

No seriado Patria / Patria / 1917, estrelado por Irene Castle, Oland interpretou o exótico, Baron Huroki, porém não foi imediatamente estereotipado como um vilão oriental, embora papéis como Wu Fang em O Vampiro Relâmpago / The Lightning Raider / 1918, Li Hsun em O Ouro do Mandarim / Mandarin Gold / 1919, Okada em Viver é Lutar / The Pride of Palomar / 1922, Fu Shing em O Renegado / The Fighting American / 1924, Shanghai Dan (Dany, o “Olho de Boi”) em Madeixas de Ouro / Curly Top / 1924 e o chefe dos bandidos chinêses em Os Fuzileiros / Tell it to the Marines / 1926 fizeram muito para colocá-lo na mente do público como tal.

Warner Oland em O Cantor de Jazz

Warner Oland como Como Cesare Borgia

Além desses personagens, Oland fez inúmeros outros (v. g. Cesare Borgia em Don Juan / Don Juan / 1926), tentando fugir da estereotipagem inclusive em O Cantor de Jazz / The Jazz Singer / 1927 no qual, como Cantor Rabinowitz, o pai de Jakie (Al Jolson), ele teve a oportunidade de marcar a sua estréia no “primeiro” filme falado, gritando “Pare!”, quando o filho cantava uma versão de “Blue Skies” em ritmo de jazz. Mas foi a única palavra que pronunciou; durante o resto do filme seus diálogos só aparecem nos intertítulos.

Warner Oland como Fu Manchu

Foram os dois filmes de Fu Manchu de Rowland V. Lee para a Paramount, O Misterioso Dr. Fu Manchu / The Mysterious Dr. Fu Manchu / 1929 e O Ressuscitado / The Return of Dr. Fu Manchu / 1930 que o puzeram de volta como um especialista de tipos orientais. Imediatamente após o segundo veio A Astúcia de Chan / Charlie Chan Carries On / 1931. Em 1932, Oland atuou ao lado de Marlene Dietrich,  como Mr. Henry Chang, em O Expresso de Shanghai /  Shanghai Express de Josef von Sternberg.

Marlene Dietrich e Warner Oland em O Expresso de Shanghai

FILMES DE WARNER OLAND

Warner Oland

1931- A Astúcia de Chan / Charlie Chan Carries on. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Foi filmada uma versão em espanhol, Eram Treze / Eran Trece (Dir: David Howard) com Manuel Arbó no papel de Charlie Chan e os brasileiros Raul Roulien e Lia Torá respectivamente nos papéis de Max Minchin e Sybil Conway, interpretados na versão original por Warren Hymer e Betty Francisco. Aforismo: “Advice after mistake is like medicine after dead man’s funeral”

Manuel Arbó como Charlie Chan em Eram Treze

1931 – O Camelo Preto / The Black Camel. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Dorothy Revier, Bela Lugosi e Warner Oland em O Camelo Preto

Aparece Kashimo (Otto Yamaoka), o assistente japonês ultrazeloso e estabanado de Charlie Chan. Vemos pela única vez em toda a série o lar de Chan e seus filhos americanizados. Presença de Bela Lugosi como o vidente Tarneverro the Great. Aforismo: “Always harder to keep murder secret than for egg to bounce on sidewalk”.

1932 – A Vez de Chan / Charlie Chan’s Chance. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “Behind That Curtain” de Earl Derr Biggers. Dir: John Blystone.

Diálogos escritos pelo próprio Der Biggers. Aforismo: “It is difficult to pick up needle with boxing gloves”.

1933 – O Maior Caso de Chan / Charlie Chan’s Greatest Case. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “The House Without a Clue de Earl Derr Biggers. Dir: Hamilton MacFadden.

Aforismo: “Facts and motives lead to murderer”.

1934 – O Mistério das Pérolas / Charlie Chan’s Courage. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no romance “The Chinese Parrot” de Earl Derr Biggers. Dir: George Hadden e Eugene Forde.

Aforismo: “Blind man feels ahead with cane before proceeding”.

1934 – Charlie Chan em Londres / Charlie Chan in London. Cia. Prod: Fox film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Warner Oland, Raymond Milland e Mona Barrie em Charlie Chan em Londres

Primeiro filme de Charlie Chan original para o cinema. Ray (Raymond) Milland, principiante, no elenco. Aforismos: “If you want wild bird to sing do not put him in cage” (Charlie referindo-se a não prender um suspeito). “Silence is golden except in police station”.

1935 – Charlie Chan in Paris. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Lewis Seiler.

Keye Luke e Warner Oand

Introdução de Keye Luke como Lee Chan, o filho número um de Charlie Chan. Luke era um artista plástico nascido na China e naturalizado americano em 1944, que trabalhava no departamento de publicidade da Fox, tendo preparado anteriormente o release de King Kong / King Kong / 1933 e Voando para o Rio / Flying Down to Rio / 1933 para a RKO Radio. Ele fazia desenhos e ilustrações para livros e pintou o mural do cassino de “Mother” Gin Sling (Ona Munson) em Tensão em Shanghai / The Shanghai Gesture / 1941 de Josef von Sternberg. Aforismos: “Joy in heart more desirable than bullet”. “Perfect case, like perfect doughnut, has hole”. “Silence big sister to wisdom”. “Man cannot drink from glass without touching”.

Keye Luke artista

1935 – Charlie Chan no Egito / Charlie Chan in Egypt. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Louis King.

Cena de Charlie Chan no Egito . Rita Cansino está ao lado de Warner Oland.

A presença de Stepin Fetchit como Snowshoes prefigura a inclusão posterior na série de Mantan Moreland. Entre os suspeitos, vislumbra-se a jovem Rita Cansino, que depois seria Hayworth. Aforismos: “Hasty conclusion like hole in water – easy to make”.”Theory like mist in eyeglasses – obscures facts”.

1935 – Charlie Chan em Shanghai / Charlie Chan in Shanghai. Cia. Prod: Fox Film. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Dir: James Tinling.

Segundo filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. Charles Locher (que depois se tornaria Jon Hall) entre os atores coadjuvantes. Aforismo: Dreams, like good liars, distort facts”.

1936 – O Segredo de Charlie Chan / Charlie Chan’s Secret. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Gordon Wiles.

Primeiro filme da série feito pela Twentieth Century-Fox, companhia oriunda da fusão da Fox Film com a Twentieth Century de Darryl F. Zanuck. Ausência de Keye Luke no papel de Lee Chan. Aforismo: “Necessity mother of invention, but sometimes step-mother of deception”.

1936 – Charlie Chan no Circo / Charlie Chan at the Circus. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Charlie e sua família no circo

Terceiro filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. Lee se apaixona por Su Toy (Shia Jung), uma contorcionista chinêsa e no circo aparece a família de Chan (Mrs. Chan e doze filhos), que faz amizade com um casal de anões dançarinos, Colonel Tim e Lady Tiny (os irmãos Olive and George Brasno).  Aforismos: “Mind the parachute – only function when open”. “Frightened bird very difficult to catch “. “Very wise know way out before going in”. “Much evil can enter through very small space”.

1936 – Charlie Chan no Prado / Charlie Chan in the Race Track. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Quarto filme da série com Keye Luke no papel de Lee Chan. O personagem do cavalariço “Streamline” Jones (John H. Allen) lembra o Snowshoes de Charlie Chan no Egito. Estréia do diretor Bruce “Lucky” Humberstone na série. Keye Luke relembrou: “Eu diria que “Lucky” foi o diretor número um dos Chan”. Aforismo: ”Hasty conclusion like toy balloon: easy blow up, easy pop”.

1936 – Charlie Chan na Ópera / Charlie Chan at the Opera. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Boris Karloff e Charlie Chan em um intervalo da filmagem de Charlie Chan na Ópera

Quinto filme com Keye Luke no papel de Lee Chan. Presença de Boris Karloff como o grande astro da ópera, Gravelle (os anúncios de publicidade do filme estampavam esta frase: “Warner Oland vs. Boris Karloff in Charlie Chan at the Opera”; Karloff foi o único ator na série que teve seu nome nos créditos acima do nome de Warner Oland. Oscar Levant compôs a música “Carnival” para as cenas de ópera. Karloff foi dublado pelo barítono Tudor Williams. Aforismo: “Small things sometimes tell very large stories”.

1937 – Charlie Chan nas Olimpíadas / Charlie Chan at the Olympics. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Layne Tom Jr. , Warner Oland e Keye Luke em um intervalo da filmagem de Charlie Chan nas Olimpíadas

Sexto filme da série com Keye Luke como Lee Chan e primeiro filme de Layne Tom Jr., que seria Tommy Chan, na série; porém, nesta oportunidade seu personagem chama-se Charlie Chan Jr. Foram utilizadas tomadas de arquivo das Olímpiadas de 1936, incluindo a corrida de 400 metros vencida pelo negro americano Jesse Owens. Aforismo: “Would be greatest blessing if all war fought with machinery instead of human beings”.

1937 – Charlie Chan na Broadway / Charlie Chan on Broadway. Cia Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Sétimo filme da série com Keye Luke como Lee Chan. Aforismos: “Murder case like revolving door – when one side close, other side open”. “Police in New York and Honolulu have one thing in common – both live on very small island”. “Triangle very ancient motive for murder”. “No poison more deadly than ink”. 

1937 – Charlie Chan em Monte Carlo / Charlie Chan at Monte Carlo. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Eugene Forde.

Último filme de Warner Oland e Keye Luke na série. Sem Oland e Luke a série nunca mais seria a mesma. Inquestionavelmente, nenhum descendente de Chan subsequente (Jimmy Chan, Tommy Chan etc.) conseguiu se igualar a Keye L.uke. Ele explicou seu personagem em uma entrevista: “Eu era inteligente, apenas escolhia as pistas erradas”. Aforismos: “Present case like too many cocktails – make very bad headache”. “Tongue often hang man quicker than rope”.

FILMES DE SIDNEY TOLER

Sidney Toler

Após a morte de Oland, em 1938, depois de testados Leo Carillo e Noah Beery, o americano nascido no Missouri, Sidney Toler (Hooper G. Toler Jr.) assumiu o papel de Charlie Chan e fez 22 filmes que, a partir de 1944, passaram a ser realizados pela Monogram. Antes disso, Toler atuou no teatro, como ator e autor de várias peças, e em muitos filmes como coadjuvante (v .g. A Vênus Loura / Blonde Venus / 1932 de Josef von Sternberg como Detetive Wilson; O Falso Presidente / The Phantom President / 1932, com George M. Cohan, como Professor Aikenhead; Mulher Sublime / The Gorgeous Hussy /1936 como Daniel Webster; Sossega Leão / In Our Relations, comédia de Stan Laurel e Oliver Hardy, como Capitão do SS. Periwinkle; O Grito da Selva / Call of the Wild como Joe Groggins; Três Padrinhos / Three Godfathers como Professor Snope; Se Eu Fôra Rei / If I Were King / 1938 como Robin Turgis). Sem ter o mesmo charme de Warner Oland, Sidney Toler trouxe uma nova interpretação do personagem. Seu Charlie Chan era mais irascível e menos humilde do que o de Oland.

1938 – Charlie Chan em Honolulu / Charlie Chan in Honolulu. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Bruce Humberstone.

Sen Young e Sidney Toler

Charlie Chan e sua família

Introdução de um novo Charlie Chan e do filho número dois, Jimmy Chan, interpretado pelo ator Sen Yung. Em uma cena, Jimmy diz para Charlie: “Agora que meu irmão Lee está em Nova York na escola de arte (uma evidente in joke devida ao fato de que o ator Keye Luke era artista plástico), eu posso ocupar seu lugar”, mostrando orgulhosamente o seu cartão de visita – James Chan, associado com Charlie Chan, Detetive Particular. Especialista em criminologia e balística. A família de Charlie, incluindo Tommy Chan (Layne Tom, Jr.), aparece no filme, bem como o genro dele, Wing Foo (Philip Ahn), anunciando que sua esposa foi para a maternidade e, posteriormente, o nascimento do neto número um de seu famoso sogro. A certa altura, Charlie caracteriza o comportamento de Jimmy desta forma: “Young man suffer from overdeveloped impulses and underdeveloped control”. Aforismo: “Opinion like tea leaf in hot water – both need time for brewing”. “When money talk few are deaf”.

 1939 – Charlie Chan no Reno / Charlie Chan in Reno. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela segunda vez como Charlie Chan e seu filho Jimmy Chan. Aforismo: “Man yet to born who can tell woman will or will not do”.

1939 – Charlie Chan na Ilha do Tesouro / Charlie Chan in Treasure Island. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Cena de Charlie Chan na Ilha do Tesouro. Cesar Romero, o último à direitas

Sidney Toler e Sen Young juntos pela terceira vez. Presença de Cesar Romero como o mágico Fred Rhadini. Aforismos: “To destroy false prophet must first unmark him before eyes of believers”. “Favorite pastime of man is fooling himself”.

1939 – Charlie Chan na Cidade das Trevas / Charlie Chan in the City of Darkness. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Herbert I. Leeds.

Ausência de Sen Young (Jimmy Chan). Único filme da série com Sidney Toler passado na Europa, colocando Charlie Chan em Paris no início do blecaute na véspera da Segunda Guerra Mundial. Aforismo: “Confucius has said, ‘A wiseman question himself, a fool, others’”.

 1940 – Charlie Chan no Panama / Charlie Chan in Panama. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Norman Foster.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela quarta vez. Com a guerra na Europa e no horizonte para os Estados Unidos, era natural que Charlie Chan fosse convocado para colocar seus talentos particulares a serviço da contraespionagem. A destruição potencial do Canal de Panamá estava mais na ordem do dia que um assassinato qualquer. Aforismo: “Bad alibi like dead fish – cannot stand test of time”; “Absence of proof open cell door”.

1940 – Charlie Chan e o Estrangulador / Charlie Chan’s Murder Cruise. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no romance de Earl Derr Biggers “Charlie Chan Carries On”. Dir: Eugene Forde.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela quinta vez. Além de Sen Young como Jimmy Chan aparece Layne Tom Jr., mas seu personagem não se chama Tommy Chan, e sim Willie Chan. Aforismo: “Truth like oil, will in time rise to surface”. “To speak without thinking is to shoot without aiming”.

1940 – Charlie Chan no Museu de Cera/ Charlie Chan at the Wax Museum. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Lynn Shores.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela sexta vez. Aforismo: “Old solution sometimes like ancient egg”.

1940 – Um Tiro Misterioso / Murder Over New York. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela sétima vez. Aforismo: “Faces may alter but fingerprints never lie”. “”British tenacity with Chinese patience like royal flush in poker game – unbeatable”.

1941 – Mortos Que Falam / Dead Men Tell. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela oitava vez. Aforismo: “Trouble, like first love, teach many lessons”.

1941 – Charlie Chan no Rio / Charlie Chan in Rio. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Sidney Toler e Sen Young juntos pela nona vez. Aforismos: “Interesting problem in chemistry – sweet wine often turn nice woman sour”. “Long experience teach, until murderer found, suspect everybody”.

1942 – Castelo no Deserto / Castle in the Desert. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Harry Lachman.

Último filme da série produzido pela Twentieth Century-Fox. Sidney Toler e Sen Young juntos pela décima vez. Aforismo: “Sharp wit sometimes much better than deadly weapon”.

1944 – Charlie Chan no Serviço Secreto / Charlie Chan in the Secret Service. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Primeiro filme de Charlie Chan produzido pela Monogram. Uma vez que Sidney Toler já estava firmemente fixado na mente do público como o personagem (além dele ter obtido o direito de usá-lo) era lógico que fôsse convidado para interpretá-lo. Mesmo sabendo que esta mudança de uma grande companhia para uma de menor porte significava um decréscimo no orçamento de cada filme (de 200 mil dólares para 75 mil dólares) e no tempo de produção (oito semanas na Fox; apenas três semanas na Monogram, ele aceitou. Assim, a série prosseguiu com mais onze filmes, sendo que o personagem de Tommy Chan, o filho número três de Charlie Chan, foi entregue a Benson Fong. Aparece Iris Chan, filha de Charlie Chan (Marianne Quon). Introdução da figura do chofer negro de olhos esbugalhados, Birmingham Brown, interpretado por Mantan Moreland. Aforismo: “Detective without curiosity is like glass eye at keyhole – no good”.

Benson Fong, Marianne Quon, Sidney Toler e Mantan Moreland

1944 – Charlie Chan em “O Gato Chinês” / The Chinese Cat. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Segundo filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “Expert is merely man who make quick decision – and is sometimes right”.

1944 – Charlie Chan na Macumba / Charlie Chan in Black Magic. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Ausência de Benson Fong (Tommy Chan) e presença de uma filha de Charlie Chan, Frances Chan (Frances Chan). Aforismo: “Shady business do not make for sunny life”.

1945 – A Máscara Verde / The Jade Mask. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Sidney Toler, Edwin Luke e Mantan Moreland em A Máscara verde

Ausência de Benson Fong (Tommy Chan). Presença de Edwin Luke, irmão de Keye Luke como Eddie Chan, o filho número quatro de Charlie Chan, Aforismo: “My boy, if silence is golden, you are bankrupt”.

1945 – O Mistério do Rádio / The Scarlet Clue. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen. Retôrno de Benson Fong (Tommy Chan).

Terceiro filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “So many fish in fish market, even flower smell same”.

1945 – A Cobra de Shanghai / The Shanghai Cobra. Cia.Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Karlson.

Quarto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Aforismo: “Cannot sell bearskin before shooting bear”.

1945 – Charlie Chan no México / The Red Dragon. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Rosen.

Benson Fong e Willie best em harlie Chan no México

Quinto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Ausência de Mantan Moreland (Birmingham Brown). substituído por Willie Best como Chattanooga Brown. Aforismo: “Confucius could give answer to that. Unfortunately, Confucius not here at moment”.

1946 – As Luvas Justiceiras / Dark Alibi. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Phil Karlson.

Sexto filme de Sidney Toler junto com Benson Fong. Derradeiro filme de Benson Fong na série. Retôrno de Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Ugliest trade sometime have moment of joy. Even gravedigger know some people for whom he would do his work with extreme pleasure”. 

1946 – Charlie Chan no Bairro Chinês / Shadows Over Chinatown. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Terry Morse.

Retorno de Sen Young na série; porém agora com o nome de Victor Sen Young e interpretando o personagem de Jimmy Chan. Aforismo: “What Confucious say to this too terrible for even Charlie Chan to repeat!”

1946 – Dinheiro Sinistro / Dangerous Money. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Terry Morse.

Segundo filme da série com Sidney Toler e Victor Sen Young. Segunda substituição de Mantan Moreland (Birmingham Brown) por Willie Best como Chattanooga Brown. Aforismo: “mere routine line of duty”.

1947 – O Segredo da Caixa / The Trap. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Howard Bretherton.

Sidney Toler, Mantan Moreland e Victor Sen Young novamente juntos como Charlie Chan, Birmingham Brown e Jimmy Chan. Aforismo: “Leisurely hunter have time to stalk prey, but hunter in haste must set rap”.

FILMES DE ROLAND WINTERS

Quando Toler faleceu em 1947, foi substituido por Roland Winters (Roland Winternitz), nascido em Boston, Massachussetts, nas seis produções derradeiras. Antes de seu primeiro filme como Charlie Chan, Winters apareceu na tela, não creditado, como um dos jornalistas no Trenton Hall em Cidadão Kane / Citizen Kane / 1941 e depois, também incognito nos letreiros de apresentação, como Van Duyval em Rua Madeleine 13 / 13 Rue Madeleine / 1946. Entre os outros filmes dos quais participou fora da série Charlie Chan incluem-se: Uma Vida Marcada / Cry of the City (como Ledbetter), Frente a Frente com Assassinos / Abbott and Costello Meet the Killer, Boris Karloff (como T. Hanley Brooks). Malaia / Malaya (como Bruno Gruber), Missão de Vingança / Captain Carey U.S.A. (como Manfredo Acuto), Delírio de Loucura / Bigger Than Life (como Dr. Ruric), Estradas do Inferno / Jet Pilot (como Col. Sokolov), Feitiço Havaiano / Blue Hawaii (como o pai de Elvis Presley no filme).

 1947 – O Anel Chinês / The Chinese Ring. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Introdução de Roland Winters na série. Transformação de Victor Sen Young de Jimmy para Tommy Chan, mas mantendo o seu status de filho número dois. Permanência de Mantan Moreland como Birminghan Brown. Aforismo: “Strange events permit themselves the luxury of occurring in strange places”.

1948 – O Rádio da Morte / Docks of New Orleans. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Derwin Abrahams. Permanência de Victor Sen Yung (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birminghan Brown). Aforismo: “Looks sometimes are frightful liar”.

1948 – Crime por Alfabeto / Shanghai Chest. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Permanência de Victor Sen Young (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Surprised detective might just as well clutch iron ball and dive in lake”.

1948 – O Olho de Ouro / The Golden Eyes. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine. Permanência de Victor Sen Young (Tommy Chan) e Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “People who listen at keyholes rarely hear good of themselves”.

1948 – Charlie Chan e o Tesouro Azteca / The Feathered Serpent. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: William Beaudine.

Permanência de Mantan Moreland (Birmingham Brown) e retorno de Keye Luke, desta vez como Tommy Chan e Lee Chan. Aforismo: “Man who improve house before building solid foundation apt to run into very much trouble”.

1949 – O Vôo da Morte / The Sky Dragon. Cia. Prod: Monogram. Baseado no personagem de Earl Derr Biggers. Dir: Lesley Selander.

Permanência de Keye Luke, desta vez somente como Lee Chan e de Mantan Moreland (Birmingham Brown). Aforismo: “Innocent act without thinking, guilty always make plans”.

Adendo:

No rádio americano, Charlie Chan começou em 1952 com a voz de Walter Connolly (1932-1938) e continuou com a de Ed Begley 1944-1945) e Santos Ortega (1947-1948).

Na televisão americana J. Carroll Naish personificou o famoso detective na série The New Adventures of Charlie Chan (1957-1958), tendo como filho número um Barry Chan, interpretado por James Hong. Em 1971 foi realizada uma série com Ross Martin no papel de Charlie Chan com o título de The Return of Charlie Chan ou Happiness is a Warm Clue, mas ela só foi ao ar em 1973 na Inglaterra e em 1979 nos Estados Unidos

No cinema, houve duas paródias: 1. Assassinato por Morte / Murder by Death / 1976 (Dir: Robert Moore), na qual detetives famosos são convidados para uma mansão estranha, a fim de desvendar um mistério ainda mais estranho. Peter Sellers é Sidney Wang, que comparece com seu filho japonês adotivo, Willie Wang (Richard Narita); 2. Charlie Chan e a Rainha Dragão / Charlie Chan and the Dragon Queen / 1981 (Dir: Clive Donner), na qual detetives famosos aposentados são chamados para ajudar um detective de San Francisco a solucionar uma série de assassinatos misteriosos. Peter Ustinov é Charlie Chan, que comparece com seu neto número um, o desajeitado Lee Chan Jr (Richard Hatch) e encontra uma velha inimiga, a Rainha Dragão (Angie Dickinson).

SHERLOCK HOLMES: ADAPTAÇÕES, PASTICHES E PARÓDIAS

April 14, 2017

Ele foi o detetive mais célebre de todos os tempos, herói de 56 contos e quatro romances escritos por Arthur Conan Doyle (Edinburgh, Escócia 1859 -Crowborough, Inglaterra, 1930). O personagem apareceu pela primeira vez em “A Study in Scarlet” (Um Estudo em Vermelho), publicado em 1887. Residente no nº221 B da Baker Street, Holmes divide sua habitação com o Dr. John Watson, seu confidente e assistente, que conta suas aventuras. Em um ou outro filme são entrevistos o irmão de Holmes, Mycroft Holmes, e o seu arqui-inimigo, Professor Moriarty.

1900 – Sherlock Holmes Baffled. Paródia. Cia. Prod: American Mutoscope and Biograph. A história de Sherlock Holmes no Cinema tem início com este filmezinho de aproximadamente 30 segundos, rodado no terraço do prédio 841 Broadway, Nova York. Ele foi destinado para ser visto pelo Mutoscópio, aparelho rival do Cinetoscópio de Thomas Edison. Ator desconhecido.

Cena de Sherlock Holmes Baffled

1905 – The Adventures of Sherlock Holmes or, Held from ransom. Pastiche. Cia. Prod: Vitagraph. Dir: J. Stuart Blackton.Prmeiro filme narrativo sobre Sherlock Holmes. Muitas fontes apontam Maurice Costello (1877-1950), famoso galã do início do cinema mudo; porém é impossível confirmar tal indicação. Tudo o que resta do filme é uma paper print (tira de papel com fotogramas impressos), de 30 e poucas imagens, depositada na Biblioteca do Congresso para fins de direitos de propriedade comercial, em 6 de setembro de 1905. Alan Barnes, no seu magnífico “Sherlock Holmes on Screen”, Titan Books, 2011, do qual extraímos muita informação, lembra que Costello nunca se referiu à sua participação nesse filme em qualquer entrevista posterior e nem ele consta em nenhuma de suas filmografias. Barnes acrescenta que, segundo “The Big V: The History of the Vitagraph Company” de Anthony Slide e Alan Gevinson, Costello só teria ingressado na Vitagraph em 1907. Por outro lado, Howard Ostrom, estudioso da história de Sherlock Holmes através da mídia e colecionador de fotos autografadas dos atores que encarnaram Sherlock Holmes e o Dr. Watson (The Howard Ostrom Holmes & Watson Collection), no seu artigo “The Case of the Vitagraph Holmes or Cowboy in a Deerstalker” (2013), acha mais provável que Gilbert M. “Bronco Billy” Anderson tivesse interpretado Sherlock Holmes, tendo chegado a esta conclusão depois de ter eliminado outros possíveis atores da Vitagraph como Barney Sherry, William Shea, H. Kyrle Bellew, Paul Panzer e William V. Ranous.

 1908 – Sherlock Holmes and the Great Murder Mystery. Adaptação de The Murders in the Rue Morgue de Edgar Allan Poe. Cia. Prod: Crescent. Sherlock Holmes: não identificado.

Viggo Larsen como Sherlock Holmes em Sherlock Holmes i Livsfare

1908 – Sherlock Holmes i Livsfare (A Vida de Sherlock Holmes em Perigo). Pastiche. Cia. Produtora: Nordisk. Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Raffles: Holger Madsen. Professor Moriarty: Gustav Lund. Neste filme, Sherlock Holmes não somente tem como adversário o Professor Moriarty, mas também Raffles, o “ladrão cavalheiro” criado na literatura por E. W. Hornung. Na trama, Holmes mora na companhia do Dr. Watson e de um office boy, chamado Billy, porém nenhuma fonte fornece o nome dos atores que os interpretam. No elenco incluem-se os nomes de Otto Detlefsen e Aage Brandt. Seriam eles os intérpretes de Watson e Billy? Encontrei no Correio da Manhã e Jornal do Brasil de 7 de novembro de 1909, referência a um filme, Sherlock Holmes, “de confecção dinamarquêsa”. Seria Sherlock Holmes I Livsfare? Como os anúncios nos jornais naquela época não mencionavam o título original e muitas vêzes nem os nomes dos atores, fica difícil identificar.

1908 – Raffles Flufgt Fra Faengslet (Raffles Escapa da Prisão). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Raffles: Holger Madsen.

 1908 – Det Hemmelige Dokument (O Documento Secreto). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni. Dir: Viggo Lrsen. Sherlock Holmes: Einar Zangenberg. Einar Zangenberg substituiu Viggo Larsen que voltaria no quarto filme da Nordisk.

 1909 – Sangerindens Diamanter (Os Diamantes do Cantor). Pastiche. Cia. Nordisk. Dir / Rot: VIggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

 1909 – Droske Nr. 519 (Taxi Número 519). Cia. Prod: Nordisk. Pastiche. Dir/ Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

1909 – Den Gra Dame (A Dama Cinzenta). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni.Dir / Rot: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen.

Otto Lagoni como Sherlock Holmes

1910 – Den Forklaedte Guvernante (A Falsa Governante) ou Den Forklaedte Barnepige (A Falsa Enfermeira). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1910 – Sherlock Holmes i Bondefangerkloer (Sherlock Holmes nas Mãos dos Vigaristas) ou Den Stjaalne Tegnebog (A Carteira Roubada). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk Films Kompagni. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1910 – Arsène Lupin contra Sherlock Holmes (Arsène Lupin contra Sherlock Holmes). Série de cinco filmes: Der Alte Sekretär (A Velha Secretária); Der Blaue Diamant (O Diamante Azul); Die Falschen Rembrandts (Os Rembrandts Falsos); Die Flucht (A Fuga); Arsène Lupins Ende (O Fim de Arsène Lupin) ou Arsène Lupins Tod (A Morte de Arsène Lupin). Pastiche. Cia. Prod: Vitascope GmbH (Alemanha). Dir: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Arsène Lupin: Paul Otto. O diretor, roteirista e ator Viggo Larsen mudou-se para Berlim, contratado por Jules Greenbaum, para esta nova série de aventuras de Sherlock Holmes.

1911 – Sherlock Holmes contra Professor Moryarty (Sherlock Holmes versus Professor Moryarty) ou Der Erbe von Bloomrod (O Herdeiro/ Herança de Bloomrod). Pastiche. Cia. Prod: Vitascope GmbH (Alemanha) Dir: Viggo Larsen. Sherlock Holmes: Viggo Larsen. Professor Moryarty: Paul Otto.

 1911 – Den Sorte Haand (A Mão Negra) ou Mordet I Baker Street (Assassinato em Baker Street). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir: Holger Rasmussen. Sherlock Holmes: Otto Lagoni.

1911 – Milliontestamentet (O Testamento de um Milhão / de corôas) ou Millionobligationen (A Herança de um Milhão / de corôas) ou Den Stjälne Millionobligation (A Herança Roubada de um Milhão / de corôas). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Alwin Neuss. Dr. Mors (Notório criminoso): Einar Zangenberg.

Einar Zangenberg como Sherlock Holmes

1911 – Hotelrotterne (Os Ratos do Hotel) ou Hotelmysterierne (O Mistério do Hotel). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Sherlock Holmes: Einar Zangenberg.

Lauritz Olsen como Sherlock Holmes

1911 – Den Sorte Haette (O Capuz Negro). Pastiche. Cia. Prod: Nordisk. Dir: William Augustinus. Sherlock Holmes: Lauritz Olsen.

Georges Tréville como Sherlock Holmes

1912 – Les Aventures de Sherlock Holmes / … From de Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações de contos de The Adventures of Sherlock Holmes. Série de 8 filmes: Le Ruban moucheté / The Speckled Band; Flamme d’argent / Silver Blaze; Le Diadème de beryls / The Beryl Coronet; Le Rituel des Musgrave / The Musgrave Ritual; Les Propriétaires de Reigate / The Reygate Squires; Le Traité Naval / The Stolen Papers (adapt. de The Naval Treaty); Le Mystère du Val Boscombe / The Mystery of Boscombe Valley (Adapt. de The Boscombe Valley Mystery); Les Hûtres Rouges / The Copper Beeches. Cia. Prod: Franco-British Film-Éclair. Dir: Georges Tréville, Adrien Caillard. Sherlock Holmes: Georges Tréville. Algumas fontes dão um tal de Mr. Moyse como Dr. Watson; porém, segundo Alan Barnes, esta informação deve ser aceita com cautela. Embora a Éclair tivesse seu estúdio em Paris, esses oito filmes curtos de Holmes foram rodados na Inglaterra.

William Gillette como Sherlock Holmes

1913 – Sherlock Solves ‘The Sign of Four’. Adaptação. Cia. Prod: Thanhauser. Sherlock Holmes: Harry Benham.

 1914 – Nova Proeza de Sherlock Holmes ou O Crime do Dr. Moss / Sherlock Holmes Contra Dr. Mors. Pastiche. Cia. Prod: Union-Vitascope GmbH (Alemanha.). Sherlock Holmes: Ferdinand Bonn. Dr. Mors: Friedric Kühne. No Brasil, no anúncio em jornal, saiu Moss em vez de Mors.

 1914 – Sherlock Bonehead. Paródia. Cia. Prod: Kalem. Dir: Marshal Neilan. Sherlock Bonehead: Lloyd Hamilton.

Alwyn Neuss como Sherlock Holmes

 1914 – 1920 – Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Cia. Prod: Union-Vitascope GmbH (Alemanha). Série de 7 filmes: O Cão dos Baskervilles ou A Lenda do Cão Fantasma/ Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Adaptação. Dir: Rudolf Meinert. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; A Casa Solitária ou O Mistério do Lago / Das Einsame Haus (A Casa Isolada). Pastiche. Dir: Rudolf Meinert. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Das Unheimliche Zimmer (O Quarto Misterioso). Pastiche. Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Die Sage vom Hund vom Baskerville (A Saga do Cão dos Baskervilles) ou Wie entstand der Hund von Baskerville (Como o Cão dos Baskervilles apareceu). Adaptação. Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Alwin Neuss; Das Dunkle Schloss (O Castelo Negro). Pastiche. Dir: Willy Zeyn. Detektiv Braun: Eugen Berg; Das Sanatorium Macdonald ou Doktor Macdonalds Sanatorium (O Sanatório MacDonald). Pastiche. Dir: Dir: Willy Zeyn. Sherlock Holmes: Erich Kaiser-Titz; Das Haus Ohne Fenster (A Casa sem Janelas). Pastiche. Dir: Max Greenbaum Jr. Sherlock Holmes: Willy Kaiser-Heyl (sem confirmação).

James Braginton como Sherlock Holmes

 1914 – A Study in Scarlet. Adaptação. Cia. Prod: Samuelson (Grã Bretanha). Dir: George Pearson. Sherlock Holmes: James Bragington. Primeiro filme britânico sobre Sherlock Holmes. Por curiosidade, James Bragington, funcionário do escritório do produtor G. B. Samuelson, foi escolhido para ser Sherlock Holmes puramente pela sua semelhança física com a ilustração tradicional de Sidney Paget na revista Strand.

Francis Ford como Sherlock Holmes

 1914 – A Study in Scarlet. Adaptação. Cia. Prod: Universal. Dir: Grace Cunard, Francis Ford. Rot: Grace Cunard. Sherlock Holmes: Francis Ford. De maneira intrigante, um ator chamado “Jack Francis” costuma ser apontado como o intérprete do Dr. Watson. Nenhum “Jack Francis” apareceu em quaisquer outros filmes da época – porém quem prestou serviço para Grace Cunard e Francis Ford (por exemplo em um de seus seriados A Moeda Quebrada / The Broken Coin / 1915) foi o irmão de Francis Ford, um jovem chamado Sean Aloysius O’ Fearna, empregado como aderecista e stuntman, então usando o nome de Jack Ford, o que pode explicar a confusão. Entretanto, o mistério permanece: o futuro grande diretor de westerns teria sido também um dos primeiros John Watsons da tela?

1915 – A Study in Skarlit. Paródia. Cia. Prod: Combine-Sunny South (Grã Bretanha). Dir: Fred Evans, Will Evans. Sherlokz Homz: Fred Evans. Professor Moratorium: Will Evans.

 1915 – Sherlock Boob, Detective. Paródia. Cia. Prod: Crown City. Dir: Bruce Mitchell. The Boob: Frank Moore.

 1916 – The Valley of Fear. Adaptação. Cia. Prod: Samuelson (Grã Bretanha). Dir: Alexander Butler. Sherlock Holmes: H. A. Saintsbury. Dr. Watson: Arthur M. Cullin. Professor Moriarty: Booth Conway.

Douglas Fairbanks como Coke Ennyday

 1916 – Sherlock Douglas / The Mystery of the Leaping Fish. Paródia. Cia. Prod: Triangle. Coke Ennyday, “detetive científico dependente de cocaina: Douglas Fairbanks.

William Gillette como Sherlock Holmes

1916 – Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Essanay. Dir: Arthur Berthelot. Rot: H.S. Sheldon baseado na peça “Sherlock Holmes” de William Gillette. Sherlock Holmes: William Gillette. Dr. Watson: Edward Fielding. Professor Moriarty: Ernest Maupain.

Eille Norwwood como Sherlock Holmes

Eille Norwood e Arthur Conan Doyle

Eille Norwood

1921 – The Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã Bretanha). Série de 15 filmes: The Dying Detective; The Devil’s Foot; A Case of Identity; The Yellow Face; The Red-Headed League; The Resident Patient; A Scandal in Bohemia; The Man With the Twisted Lip; The Beryl Coronet; The Noble Bachelor; The Copper Beeches; The Empty House; The Tiger of San Pedro; The Priory School; The Solitary Cyclist. Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willies.

1921 – O Cão Fantasma / The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Stoll Grã-Bretanha). Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.

1922 – The Further Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Série de 15 filmes: Charles Augustus Milverton; The Abbey Grange; The Norwood Builder; The Reigate Squires; The Naval Treaty; The Second Stain; The Red Circle; The Six Napoleons; Black Peter; The Bruce-Partington Plans; The Stockbroker’s Clerk; The Boscombe Valley Mystery; The Musgrave Ritual; The Golden Pince-Nez; The Greek Interpreter. Dir: George Ridgwell. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.  Lewis Gilbert foi o primeiro ator a interpretar o papel do irmão de Sherlock Holmes na tela, Mycroft Holmes, no filme The Bruce-Partington Plans.

John Barrymore e Gustav von Seiffertitz em Sherlock Holmes

John Barrymore como Sherlock Holmes

1922 – Sherlock Holmes / Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Goldwyn. Dir: Albert Parker. Sherlock Holmes: John Barrymore. Dr. Watson: Roland Young. Professor Moriarty: Gustav von Seyffertitz.

 1923 – The Last Adventures of Sherlock Holmes. Adaptações. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Série de 15 filmes: Silver Blaze; The Speckled Band; The Gloria Scott; The Blue Carbunckle; The Engineer’s Thumb; His Last Bow; The Cardboard Box; The Disappearance of Lady Frances Carfax; The Three Students, The Missing Three-Quarter; The Mystery of Thor Bridge; The Mazarin Stone; The Dancing Man; The Crooked Man; The Final Problem. Dir: George Ridgwell. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Hubert Willis.

1923 – The Sign of Four ou The Sign of the Four. Adaptação. Cia. Prod: Stoll (Grã-Bretanha). Dir: Maurice Elvey. Sherlock Holmes: Eille Norwood. Dr. Watson: Arthur Cullin.

Carlyle Blackwell como Sherlock Holmes

1929 – O Cão de Baskeville / Der Hund von Baskerville. Adaptação. Cia. Prod: Erda-Film-Produktions-GmbH (Alemanha). Dir: Richard Oswald. Sherlock Holmes: Carlyle Blackwell. Dr. Watson: Georges Seroff.

1929 – A Volta de Sherlock Holmes / The Return of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Paramount-Famous Players-Lasky. Dir: Basil Dean. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Watson: H. Reeves Smith. Professor Moriarty: Harry T. Morey. Holmes, Primeiro filme falado sobre Sherlock Holmes.

Clive Brook (Sherlock Holmes) e William Powell (Philo Vance) em Paramount em Grande gala

 1930Paramount em Grande Gala / Paramount on Parade. Paródia. Cia. Prod:   Paramount. Dir: Onze diretores, entre eles, Rowland V. Lee e Frank Tuttle que dirigiram filmes com o Dr. Fu Manchu e Philo Vance. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Fu Manchu. Warner Oland. Philo Vance: William Powell. Em uma sequência cômica em preto-e-branco intitulada “Murder Will Out” aparecem juntos três astros, Clive Brook, Warner Oland e William Powell, que interpretaram respectivamente os papéis de Sherlock Holmes, Dr. Fu Manchu e Philo Vance em filmes da Paramount.

Raymond Massey como Sherlock Holmes

1931 – A Tira Salpicada / The Speckled Band. Adaptação. Cia. Prod: British and Dominions (Grã-Bretanha). Prod: Herbert Wilcox. Dir: Jack Raymond. Sherlock Holmes: Raymond Massey. Dr. Watson: Athole Stewart.

Arthur Wontner como Sherlock Holmes

1931 – The Sleeping Cardinal. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Norman McKinnel.

1931 – The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Gainsborough (Grã-Bretanha). Prod: Michael Balcon. Dir: V. Gareth Gundrey. Rot: Edgar Wallace, V. Gareth Gundrey. Sherlock Holmes: Robert Rendel. Dr. Watson: Frederick Lloyd.

1932 – The Missing Rembrandt. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming.

 1932: The Sign of Four: Sherlock Holmes Greatest Case. Adaptação. Prod: Associated Radio Pictures (Grã-Bretanha). Dir: Graham Cutts. Production Supervisor: Rowland V. Lee. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Hunter.

Clive Brook como Sherlock Holmes

Clive Brook e Ernest Torrence em  Sherlock Holmes

1932: Sherlock Holmes / Conan Doyle’s Master Detective Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Fox. Prod / Dir: William K. Howard. Sherlock Holmes: Clive Brook. Dr. Watson: Reginald Owen. Professor Moriarty: Ernest Torrence.

Reginald Owen como Sherlock Holmes

1933 – Um Estudo em Vermelho / A Study in Scarlet. Pastiche (Nada tem a ver com “A Study in Scarlet”). Cia. Prod: KBS / World Wide. Dir: Edwin L. Marin. Sherlock Holmes: Reginald Owen. Dr. Watson: Warburton Gamble.

1935: The Triumph of Sherlock Holmes. Adaptação. Cia. Prod: Real Art (Grã- Bretanha). Dir: Leslie Hiscott. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Lyn Harding.

 1937 – Silver Blaze. Adaptação. Cia. Prod: Twickenham (Grã-Bretanha). Dir: Thomas Bentley. Sherlock Holmes: Arthur Wontner. Dr. Watson: Ian Fleming. Professor Moriarty: Lyn Harding.

Poster de Der Hund von Baskerville

 1937 – Der Hund von Baskerville (O Cão dos Baskervilles). Adaptação. Cia. Prod: Ondra-Lamac-Film-GmbH (Alemanha). Dir: Carl Lamac. Sherlock Holmes. Bruno Güttner. Dr. Watson: Fritz Odemar.

Hermann Speelmans como “Jimmy Ward” (Sherlock Holmes) em Die grau Dame

 1937 – Die graue Dame (A Dama Cinza). Pastiche. Cia. Prod: Neue Film KG (Alemanha) Dir: Erich Engels.” Jimmy Ward” (Sherlock Holmes): Herman Speelmans. Na trama, Jimmy Ward infiltra-se em um bando de criminosos e no último momento revela que é ninguém mais do que Sherlock Holmes.

NIgel Bruce e Basil Rathbone em O Cão dos Baskervilles

1939 – O Cão dos Baskervilles / The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Sidney Lanfield. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. No elenco: Richard Greene.

Basil Rathbone, Ida Lupino e Nigel Bruce em As Aventuras de Sherlock Holmes

Nigel Bruce, Basil Rathbone e Ida Lupino em As Aventuras de Sherlock Holmes

1939 – Sherlock Holmes / The Adventures of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Alfred Werker. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Professor Moriarty: George Zucco. No elenco: Ida Lupino.

Nigel Bruce e Basil Rathbone em S.H. e A Voz nas Trevas

Nigel Bruce, Basil Rathbone e Evelyn Ankers em um intervalo da filmagem de S.H. e A Voz nas Trevas

1942 – Sherlock Holmes e a Voz nas Trevas/ Sherlock Holmes and the Voice of Terror. Adaptação de His Last Bow. Cia. Prod: Universal. Dir: John Rawlins. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em S.H. e a Arma Secreta

1942 – Sherlock Holmes e a Arma Secreta / Sherlock Holmes and the Secret Weapon. Adaptação de The Dancing Man. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Moriarty: Lionel Atwill.

Cena de Sherlock Holmes em Washington

1943 – Sherlock Holmes em Washington / Sherlock Holmes in Washington. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Nigel Bruce, Hillary Brooke e Basil Rathbone em S.H. enfrenta a Morte

1943 – Sherlock Holmes enfrenta a Morte / Sherlock Holmes Faces Death. Adaptação de The Musgrave Ritual. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em S.H. e a Mulher Aranha

Gale Sondergaad e Basil Rathbone em S.H. e a Mulher Aranha

1944 – Sherlock Holmes e a Mulher Aranha / The Spider Woman. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em A Garra Escarlate

1944 – A Garra Escarlate / The Scarlet Claw. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Denis Hoey, Basil Rathbone e Nigel Bruce em  Pérola Negra

1944 – Pérola Negra / The Pearl of Death. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Basil Rathbone e Nigel Bruce em A Casa do Medo

1945 – A Casa do Medo / The House of Fear. Adaptação de Five Orange Pips. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

Hillary Brooke, Nigel Bruce e Basil Rathbone em A Mulher de Verde

1945 – A Mulher de Verde / The Woman in Green. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce. Moriarty (sic): Henry Daniell.

Cena de Desforra em Argel

1945 – Desforra em Argel / Pursuit to Algiers. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Basil Rathbone e Renee Godfrey em Noite Tenebrosa

1946 – Noite Tenebrosa / Terror by Night. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill: Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce

Partricia Morison, Basil Rathbone e Nigel Bruce em um intervalo da filmagem de Melodia Fatal

Cena deMelodia Fatal

1946 – Melodia Fatal / Dressed to Kill. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Roy William Neill. Sherlock Holmes: Basil Rathbone. Dr. Watson: Nigel Bruce.

1951 – The Man Who Disappeared. Adaptação de The Man With The Twisted Lip. Cia. Prod: Vandyke / Dryer & Weenolsenm (Grã Bretanha/USA). Dir: Richard M. Grey. Sherlock Holmes: John Logden. Dr. Watson: Campbell Singer.

Peter Cushing como Sherlock Holmes

1959 – The Hound of the Baskervilles. Adaptação. Cia. Prod: Hammer. Dir: Terence Fisher. Sherlock Holmes: Peter Cushing. Dr. Watson: André Morell.

Christopher Lee como Sherlock Holmes

1962 – Sherlock Holmes und das Halsband des Todes ou Sherlock Holmes La Valle del Terrore ou Sherlock Holmes et le Collier de la Mort. Pastiche. Cia. Prod: Filmkunst GmbH/ INCEI/ Critérion (Alemanha, Itália, França). Dir: Terence Fisher. Rot: Curt Siodmak. Sherlock Holmes: Christopher Lee. Dr. Watson: Thorley Walters. Professor Moriarty: Hans Söhnker.

John Neville como Sherlock Holmes

 1965 – Névoas do Terror / A Study in Terror. Pastiche. Cia. Prod: Compton-Tekli / Sir Nigel Films(Grã Bretanha). Dir: James Hill. Sherlock Holmes: John Neville. Dr. Watson: Donald Houston. Mycroft Holmes: Robert Morley.

Robert Stephen e Colin Blakely em A VIda Íntima de Sherlock Holmes

Colin Blakely e Robert Stephens em A Vida Íntima de Sherlock Holmes

1970 – A Vida Íntima de Sherlock Holmes / The Private Life of Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Phalanx / Mirisch / Sir Nigel Films. Dir: Billy Wilder. Sherlock Holmes: Robert Stephens. Dr. Watson: Colin Blakely. Mycroft Holmes: Christopher Lee.

George C. Scott e Joanne Woodward em Esse Louco me Fascina

1971 – Esse Louco me Fascina / They Might Be Giants. Paródia. Cia. Prod: Universal / Newman-Foreman. Dir: Anthony Harvey. Justin Playfair (um lunático que pensa ser Sherlock Holmes): George C. Scott. Dr. Watson (sua psiquiatra): Joanne Woodward.

Radovan Lukavski como Sherlock Holmes

1972 – Touha Sherlocka Holmese (O Desejo de Sherlock Holmes). Paródia. Cia. Prod: Studio Barrandov (Thecoslováquia). Dir: Stepán Skalsky. Sherlock Holmes: Radovan Lukavsky. Dr. Watson: Václav Voska. O filme tem início com uma cena na qual o próprio Conan Doyle revela que Sherlock Holmes tem a ambição secreta de cometer o crime perfeito; mas no final seu desígnio é frustrado pelo Dr. Watson.

 1975 – O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes / The Adventures of Sherlock      Holme’s Smarter Brother. Paródia. Cia. Prod: Twentieth Century-Fox. Dir: Gene Wilder. Sigerson Holmes: Gene Wilder. Moriarty: Leo McKern. Sherlock Holmes: Douglas Wilmer. Dr. Watson: Thorley Walters. Para não alertar os criminosos de toda a Inglaterra acerca de sua investigação, Sherlock e Watson resolvem “desaparecer”, mas não antes de Sherlock deixar um ou dois de seus casos menos urgentes’ a cargo de seu loucamente ciumento irmão mais moço.

Robert Duvall, Alan Arkin e Nicol Williamson em Visões de Sherlock Holmes

1976 – Visões de Sherlock Holmes / The Seven -Per- Cent Solution. Pastiche. Cia. Prod: Universal. Dir: Herbert Ross. Sherlock Holmes: Nicol Williamson. Dr. Watson: Robert Duvall. Professor Moriarty: Laurence Olivier. Mycroft Holmes: Jeremy Kemp. Holmes vai a Viena para se tratar com o Dr. Freud (Alan Arkin) e, ao acompanhá-lo em visita a uma de suas pacientes, se envolve em mais um caso.

 1977 – The Hound of the Baskervilles. Paródia. Cia. Prod: Michael White (Grã- Bretanha). Dir: Paul Morrissey. Sherlock Holmes: Peter Cook. Dr. Watson: Dudley Moore. Segundo a maioria dos críticos, a única piada que funciona neste filme é a presença de um amável cão irlandês como o mastim fatal dos Baskerville.

James Mason e Christopher Plummer em Assassinato por Decreto

1979 – Assassinato por Decreto / Murder by Decree. Pastiche. Cia. Prod: Saucy Jack (Canadá). Dir: Bob Clark. Sherlock Holmes: Christopher Plummer. Dr. Watson: James Mason.

Cena de O Jovem Sherlock Holmes

 1985 – O Enigma da Pirâmide / Young Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Paramount / Amblin. Dir: Barry Levinson. Sherlock Holmes: Nicholas Rowe. John Watson: Alan Cox.

 1987 – The Loss of a Personal Friend. Pastiche. Cia. Prod: Dir: N.G. Bristow (Grã-Bretanha). Dr. John Watson: Ian Price. Livreiro (Sherlock Holmes): Peter Harding.

Ben Kingsley e Michael Caine em Sherlock e Eu

 1988 – Sherlock e Eu / Without a Clue. Paródia. Cia. Prod: ITC (Grã Bretanha / EUA). Dir: Thom Eberhardt. Reginald Kincaid (Sherlock Holmes): Michael Caine. Dr. Watson: Ben Kingsley. Um ator alcoólatra e fracassado é pago pelo Dr. Watson, para se fazer passar por Sherlock Holmes.

 1992 – Sherlock Holmes en Caracas. Paródia. Cia. Prod: Big Ben / Tiuna / Foncine (Venezuela). Dir: Juan E. Fresan. Sherlock Holmes: Jean Manuel Montesinos. Dr. Watson: Gilbert Dacournan. Sherlock e Watson rumam para Caracas quando um velho amigo de Holmes, lhe pede ajuda, porque acha que seus filhos correm perigo, pois teme que esposa, uma ex-Miss Venezuela, seja uma vampira.

 1994 – Fuermasi yu Zhongguo Nuxia. Pastiche. Cia. Prod: Beijing (China). Dir: Liu Yun-Zhou, Wang Chi. Sherlock Holmes: Fan Ai Li (também conhecido por Alex Vanderpor). Watson: Xu Zhongquan.

Joaquim de Almeida em O Xangô de Baker Street

1999 – O Xangô de Baker Street. Pastiche (baseado em romance de Jô Soares). Cia. Prod: MGN / Sky Light Cinema Foto e Art (Portugual / Brasil). Dir: Miguel Faria Jr. Sherlock Holmes: Joaquim de Almeida. Dr. Watson: Anthony O’Donnell.

Robert Downey Jr. e Judd law em Sherlock Holmes

2009 – Sherlock Holmes / Sherlock Holmes. Pastiche. Cia. Prod: Internationale Filmproduktion Blackbird Dritte GmbH & Co. KG / Warner Bros / Village Roadshow / Silver Pictures / Wigram Productions (Alemanha / Estados Unidos. Pastiche. Dir: Guy Ritchie. Sherlock Holmes: Robert Downey Jr. Dr. John Watson: Jude Law.

Adendo:

Muitos outros Sherlocks apareceram na televisão anglo-americana: Louis Hector; Alan Napier; Andrew Osborn; Alan Wheatley; Basil Rathbone; Ronald Howard; Douglas Wilmer; Peter Cushing; Stewart Granger; John Cleese; Larry Hagman; Roger Moore; Christopher Plummer; Geoffrey Whitehead; Keith McConnell; Tom Baker; Guy Henry; Roger Ostime; Ian Richardson; Jeremy Brett (o melhor Sherlock na TV); Michael Pennington; Brian Bedford; Edward Woodward; Charlton Heston; Christopher Lee, Patrick Macnee; Anthony Higgins; Jason Gray Stanford; Matt Frewer, James D’Arcy; Richard Roxburgh; Rupert Everett; Jonathan Pryce e, mais recentemente, Benedict Cumberbatch e Johnny Lee Miller.

Jeremy Brett

No rádio americano, emprestaram a voz para Holmes: William Gillette; Clive Brook; Richard Gordon; Louis Hector; Basil Rathbone; Tom Conway; John Stanley, Ben Wright e finalmente uma trinca ilustre – John Gieguld (Sherlock Holmes), Ralph Richardson (Dr. Watson) e Orson Welles (Professor Moriarty) – surgiu em uma série da BBC, que foi ao ar em 1954, e depois retransmitida pela NBC e ABC americanas. Na BBC Radio também atuaram como Sherlock Holmes, Clive Merrison e Roy Hudd.

No Brasil, o jornalista Alziro Zarur, muito conhecido como presidente da Legião da Boa Vontade, manteve em 1942 um programa de radioteatro, “Radiatro Sherlock”, na Rádio Mayrink Veiga, para o qual escrevia “As Aventuras de Sherlock Holmes”, série na qual interpretava também o papel do famoso detetive enquanto o Dr. Watson era vocalizado por Souza Filho.

A morte de Conan Doyle não pôs um fim nas aventuras de Sherlock Holmes. Jamais o detetive esteve tão presente na literatura policial. Quando Maurice Leblanc quís opor ao seu personagem Arsène Lupin um adversário digno dele, foi Sherlock Holmes que ele escolheu; porém, diante da oposição de C. Doyle, Sherlock Holmes tornou-se Herlock Sholmes. Em outros romances, Sherlock encontrou Freud, Jack, o Estripador, Vidocq, Oscar Wilde, Einstein, o Fantasma da Ópera, os marcianos de H. G. Wells, o Dr. Jeckyll, Drácula, Fu Manchu, Sarah Bernhardt e Edgar Allan Poe. Holmes conseguiu inocentar Dreyfus e salvar Karl Marx de assassinos a soldo de Thiers e de Bismarck. Encontramos ainda o famoso investigador como criança, descobrindo o segrêdo de uma pirâmide e como apicultor aposentado. Ele foi eclipsado por seu irmão mais velho Mycroft e mesmo por outro irmão mais novo, desconhecido de Conan Doyle: Clewlow. Seu fiel Watson o suplantou no coração daquela que se tornou Mrs. Watson e sua locadora, Mrs. Hudson, revelou dons superiores aos seus. E esses são somente alguns exemplos.

TRIBUTO A ROBERT BRESSON

March 31, 2017

Robert Bresson (Bromont-Lamothe, 1907- Paris, 1999) situou-se em uma posição excepcional no cinema francês e mundial tanto por suas obras como por sua personalidade. Era um caso particular, um cineasta fechado em si mesmo, que nunca fez a menor concessão na busca do seu ideal estilístico, de fazer um cinema despojado e austero, uma forma de antiespetáculo cinematográfico, para exprimir plasticamente o seu universo trágico.

Robert Bresson

Bresson estudou no Lycée Lakanal de Sceaux e foi fotógrafo e pintor, antes de trabalhar no cinema. Aos 32 anos atuou como dialoguista de C’était un Musician, 1933 (Dir: Fred Zelnick, Maurice Gleize). Em 1934, dirigiu Les Affaires Publiques, média-metragem burlesco-surrealista envolvendo o chefe de governo de um país fictício, interpretado pelo palhaço Béby. Foi co-roteirista de Les Jumeaux de Brighton / 1936 (Dir: Claude Heymann) e Courrier Sud / 1937 (Dir: Pierre Billon), e assistente de Henri Diamant-Berger em La Vierge Folle / 1938, e de René Clair em um filme inacabado (Air Pur / 1939). Em 1943, realizou seu primeiro longa-metragem, Anjos das Ruas / Les Anges du Peché, e, logo em seguida, As Damas do Bois de Boulogne (na TV) / Les Dames du Bois de Boulogne / 1945, filmes que ainda foram feitos dentro do “cinema de qualidade” da época, porém já demonstrando o rigor e a sobriedade de sua escritura.

Suas próximas obras evidenciaram, mais do que nunca, o seu gosto pela perfeição levado à extrema minúcia e a sua preocupação em captar a beleza de uma aventura humana interior. Era um cineasta exigente, altivo, interessado em encontrar uma forma libertada dos códigos narrativos, forjados no começo do sonoro. “O que eu busco”, disse ele, “não é tanto a expressão por gestos, a palavra, a mímica, mas, sim, a expressão pelo rítmo e pela combinação das imagens”.

Neste artigo prestamos uma homenagem ao grande cineasta, relembrando alguns de seus melhores filmes:

 ANJOS DAS RUAS / LES ANGES DU PÉCHÉ.

Para se tornar uma religiosa, Anne-Marie (Renée Faure) escolhe o convento das Irmãs de Béthanie, consagrado à reabilitação de detentas. Thérése (Jany Holt), uma ex-detenta, mata o amante por vingança e se refugia no convento. Anne-Marie acolhe-a com alegria. Pouco depois, Anne-Marie se recusa a fazer uma penitência, que considera injusta, e é expulsa da ordem. As irmãs a descobrem inanimada sobre a tumba do fundador do convento, onde vinha rezar todas as noites. Anne-Marie não tem forças para pronunciar os seus votos definitivos. Thérèse os pronuncia em seu nome e depois se entrega à polícia.

Cena de Anjos das Ruas

Cena de Anjos das Ruas

Cena de Anjos das Ruas

Recusando-se a proporcionar ao público um espetáculo, Bresson consagrou seu filme inteiramente ao drama interior de Anne-Marie e de Thérèse. Há também um aspecto documentário – os detalhes da vida conventual espalhados ao longo da narrativa, como a tomada de hábito, sorteio das sentenças, capítulo das culpas, recreação no claustro ou no jardim, conselho do convento, trabalho das religiosas etc. -, mas ele é sempre secundário. Serve apenas como pano de fundo de um conflito espiritual. A conversão de Thérese por Anne-Marie é o verdadeiro tema do filme. O diretor descarta tudo o que não se relaciona com esse confronto com um rigor pouco visto no cinema.

DAMAS DO BOIS DE BOULOGNE, AS (TV) / LES DAMES DU BOIS DE BOULOGNE.

Hélène (Maria Casarès), uma jovem viúva, fica sabendo que seu amante, Jean (Paul Bernard), não a ama mais. Eles se separam amigavelmente, mas Hélène só pensa em se vingar. Ela faz com que Jean encontre por acaso no Bois de Boulogne uma dançarina, Agnès (Elina Labourdette), filha de Madame D (Lucienne Bogaert), uma de suas antigas relações mundanas, que agora está na pobreza. Para sobreviver e sustentar a mãe, Agnès se prostitui. Hélène procura tornar esses encontros de Agnès com outros homens mais frequentes. Agnès e Jean se casam. No final da cerimônia, Hélène revela a verdade para Jean: o anjo de pureza é uma mulher perdida.

Maria Casarès em As Damas do Bois de Boulogne

Cena de As Damas do Bois de Boulogne

Maria Casarès em As Damas do Bois de Boulogne

Paul Bernard e Maria Casarès em As Damas do Bois de Boologne

Bresson transpôs para os anos 40 uma anedota contada por Diderot no século XVIII em seu romance filosófico Jacques le Fataliste. De uma aventura licenciosa apresentada como um estudo de costumes, ele quís fazer uma tragédia moderna, descartando toda ressonância social. O cineasta se interessou mais pelas maquinações de uma mulher despeitada. O tema do filme é o triunfo do amor sobre o ódio. A vingança de Hélène é insuficiente para abafar o amor que surge entre Jean e Agnès. Na encenação, persiste o estilo jansenista do diretor: as paredes brancas e nuas, a iluminação bem contrastada, as portas, as janelas, as vidraças que encerram Hélène como uma prisão – a prisão do seu orgulho, de sua paixão, de sua vingança.

 LE JOURNAL D ‘UN CURÉ DE CAMPAGNE.

O vigário da aldeia de Ambricourt (Claude Laydu) chega à sua primeira paróquia com um imenso fervor sacerdotal. Seus esforços para conhecer os paroquianos são mal acolhidos por eles, aos quais não inspira confiança e não consegue se impor. Doente, ele encontra na pessoa do vigário (Armand Guibert) de Torcy, uma aldeia vizinha, o conforto moral de que necessita para a sua solidão. Seu zelo, sua fé lhe permitem salvar a alma da condessa de Ambricourt (Marie-Monique Arkell), porém desperta o ódio do conde (Jean Riveyre) e de sua filha, Chantal (Nicole Ladmiral), que o caluniam.

Claude Landu em Le Journal d ‘un Curé de Campagne

Cena de Le Journal d ‘un Curé de Campagne

Claude Laydu em Le Journal d ‘un Curé de Campagne

A ação se desenrola graças às introspecções que o padre coloca no seu diário. Cada uma das frases é recitada por ele ao mesmo tempo que a imagem mostra os fatos e transmite o seu estado d’alma. Fazendo-nos ouvir a sua voz como um refrão, Bresson intensifica a sua intimidade e a sua solidão e nos faz sentir com maior emoção o seu drama interior. A mensagem essencial do filme é a aventura espiritual do jovem pároco, isolado no meio dos homens e diante de Deus. Seu “solilóquio angustiado” e as diversas etapas do seu calvário são transmitidos com a precisão de um mecanismo de relógio por um cineasta empenhado em ampliar os limites da criação artística.

UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU / UN CONDAMNÉ À MORT SE’ST ECHAPPÉ.

Em 1943, preso pelos alemães por atos de resistência, o tenente Fontaine (François Leterrier) é conduzido para o forte de Montluc em Lyon. Ele é encarcerado e, obstinadamente, prepara uma fuga. Convocado para a sede da Gestapo, as autoridades lhe informam sobre sua condenação à morte. Ao retornar à prisão, Fontaine verifica que colocaram um outro prisioneiro na sua cela: Jost (Charles Le Clainche)e, um jovem Waffen-SS preso por deserção. Após certa hesitação, ele confia em Jost e os dois conseguem escapar, transpondo o muro. Fontaine e Jost, livres, desaparecem na noite.

Cena de Um Condenado à Morte Escapou

François Leterrier e CharlesLe Clainche em Um Condenado à Morte Escapou

Bresson dá instruções para Leterrier e Le Clainche em Um Condenado à Morte Escapou

Fontaine está inteiramente concentrado na realização de seu destino bem determinado, que é a sua fuga. Esse homem de coragem, mas também orgulhoso, parece mais preocupado em provar a si mesmo o poder de sua vontade, que ele pode conseguir o que todos não conseguiram, do que com a perspectiva de sua execução. Bresson nos mostra a sua evasão, longamente amadurecida entre as paredes de uma cela, pacientemente preparada, não somente pelas mãos, mas também pelo controle emocional do prisioneiro. O suspense não consiste na expectativa do que vai se passar, mas no desejo de saber como o herói vai se conduzir. É um filme “sem ornamentos”, sem gritos, sem cenas patéticas, feito de gestos e ruídos, de silêncios e sussurros.

PICKPOCKET / PICKPOCKET.

No hipódromo de Longchamp. Michel (Martin Lassalle) é preso por furto e depois solto por falta de provas. Pouco depois, em um café, ele sustenta para o comissário de polícia sua teoria segundo a qual certos seres superiores deveriam ter o direito de infringir as leis. Michel se torna um exímio batedor de carteiras. Quando seus cúmplices são presos, ele revela sua vida de ladrão para Jeanne (Marika Green), uma jovem que cuidava de sua mãe, e parte para o exterior. Ao retornar, encontra Jeanne com um filho de seu amigo Jacques (Pierre Leymarie), que a abandonara. Para ajudá-la, Michel começa a trabalhar, mas um dia não resiste e volta a furtar.

Cena de Pickpocket

Cena de Pickpocket

Martin Lassalle e Marika Green em Pickpocket

A aventura exterior é a aventura das mãos do punguista. Ela o arrasta para a aventura interior. Por caminhos estranhos as proezas manuais do batedor de carteiras reunirão duas almas que nunca teriam se conhecido. Quando Jeanne vai visitá-lo na penitenciária, Michel abraça-a através da grade do parlatório e lhe diz: “Oh, Jeanne, para finalmente estar com você, que caminho estranho tive que tomar”. Esse caminho, que levou a um resultado espiritual, passa pelos furtos, e Bresson mostra, com uma minúcia maníaca, os atos dos delito praticados pelo ladrão. Todo o filme é um balé de mãos comentado por uma voz, que é a voz de um jovem cujo orgulho foi vencido pelo amor. A influência de Crime e Castigo de Dostoiweski é bem nítida.

A GRANDE TESTEMUNHA / AU HAZARD BALTHAZAR.

Três meninos parisenses em férias e uma menina do país basco brincam com um filhote de asno, que batizam de Balthazar. A menina chama-se Marie e um, dos meninos, Jacques. Uma das irmãs de Jacques está doente. Quando as férias terminam, Jacques e sua família deixam a aldeia. Os anos passam, a irmã de Jacques morre. O pai de Marie, um ex-professor, é encarregado de administrar a fazenda que pertence ao pai de Jacques. Marie (Anne Wiazemsky) fica com Balthazar. Já adulta, ela conhece Gérard (François Lafarge), um jovem delinquente e seu bando. Acusado injustamente de malversações, o pai de Marie (Philipe Asselin) se vê obrigado a prestar contas ao proprietário da fazenda. Jacques (Walter Green) volta à aldeia para desfazer o mal entendido ocorrido entre seu pai e o pai de Marie. Porém o orgulho ferido deste último faz com que sua missão fracasse. Maria sofre com a partida de Jacques. Ela abandona Balthazar. Vendido para o padeiro (François Sullerot), pai de Gérard, o asno é utilizado para transportar o pão, que seu filho entrega. Este maltrata Balthazar, o burro derruba a carroça e foge. Gérard seduz Marie. A mãe de Gérard (Marie-Claire Fremont) o protege, mas quer que ele deixe de ver Marie. Gérard deve se apresentar à polícia a propósito de um assassinato. Um vagabundo, alcoólatra, Arnold (Jean-Claude Guilbert), também é convocado pelo mesmo motivo. Arnold é espancado por Gérard e seu bando, que o acusam de ser o verdadeiro assassino. Arnold cuida de Balthazar que, doente, deve ser abatido. Balthazar fica curado e transporta turistas que Arnold guia através dos caminhos escarpados. Mais uma vez maltratado pelo seu dono, Balthazar foge e vai parar em um circo, onde se torna uma atração: “o asno sábio”. Arnold recebe uma herança, oferece bebida para todos em um bistrô da aldeia e depois morre, ao cair de seu cavalo. Marie foge de Gérard, pede asilo a um comerciante de grãos (Pierre Klossowski). Desgostosa com a ganância e o egoismo deste homem, ela retorna para a casa de seus pais que, entrementes, recuperaram Balthazar. Jacques volta a procurar Marie e os dois jovens decidem se casar. Marie vai à procura de Gérard para romper definitivamente com ele. Insultada por todo o bando, ela é abandonada, nua, em um imóvel vazio. Marie desaparece para sempre. Seu pai morre. No curso de uma procissão, Balthazar é encarregado de conduzir as relíquias. Gérard usa Balthazar para fazer contrabando, mas é surpreendido à noite pelo guardas aduaneiros. Balthazar recebe uma bala perdida e vai morrer tranquilamente em um prado no meio de um rebanho de ovelhas.

Cena de A Grande Testemunha

Anne Wiazemsky em A Grande Testemunha

Cena de A Grande Testemunha

Balthazar

Balthazar, um asno belo e doce, transforma-se em vítima expiatória dos vícios e da estupidez dos humanos, com os quais se vê envolvido pelo acaso. Passando de um dono para outro, sendo bem ou mal tratado por um malfeitor perverso, como animal inteligente em um circo, como companheiro de um vagabundo, e como bêsta de carga de um velho avarento que o deixa sem alimento, o asno é sempre uma testemunha silenciosa da vida dos personagens que o cercam. O destino da pequena Marie é comparável ao de Balthazar. Ela é o seu duplo, uma criatura frágil cuja existência oscila entre o carinho e o sofrimento, e que sofre a violência dos outros, a incompreensão da mãe, o orgulho e o masoquismo do pai, a maldade do amante, a cupidez, o cinismo do comerciante de grãos. Neste seu filme mais simples e puro, no qual a sobriedade nas imagens corresponde a uma exemplificação extrema das situações, Bresson usa a elipse, os ruídos e uma sonata de Schubert ao narrar o percurso do sofrimento do burro e da adolescente e, quando se encerra o percurso, sentimos uma profunda tristeza.

MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA / MOUCHETTE.

Mouchette (Nadine Nortier) de 14 anos, leva uma vida de pobreza, cuidando de sua mãe tuberculosa (Marie Cardinal), de seu irmão bebê, em uma casa de um único cômodo, onde ainda mora seu pai (Paul Hebert), um contrabandista alcoólatra e brutal, e um outro irmão adolescente. Na aldeia, ela é repudiada por suas colegas, maltratada pela professora, zombada pelos rapazes na rua. Uma noite, durante um temporal, Mouchette se perde na floresta onde o caçador furtivo Arsène (Jean-Claude Guilbert), tendo provavelmente assassinado um guarda florestal chamado de Père Mathieu(Jean Vimenet), a obriga a lhe servir de álibi, antes de levá-la para a sua cabana e, depois de um ataque de epilepsia e sob efeito do álcool, violentá-la. Voltando para casa, Mouchette tenta contar tudo para a mãe, que morre antes de ouví-la. Logo depois, descobre que Arsène mentira, apenas brigara com o guarda por uma mulher que ambos desejavam. Solitária, infeliz e abandonada por todos, repelida pela mulher do guarda, pela dona do armazém, pela zeladora dos mortos, ela descobre que a morte é um sinônimo de libertação e vai ao seu encontro, enrolada em um vestido de mousseline branca, parecendo um véu de noiva. Como se estivesse brincando, ela se deixa rolar pela ribanceira, uma, duas vêzes. Na terceira, seu corpo desaparece nas águas de um lago. E quando a superficie do lago se acalma, ouve-se o Magnificat de Claudio Monteverdi.

Bresson carrega nos braços sua atriz na filmagem de Mouchette, a Virgem Possuída

Nadine Nortier em Mouchette, A Virgem Possuída

Cena de Mouchette, a Virgem Possuída

Dezesseis anos após Le Journal d ‘un Curé de Campagne, Bresson leva novamente à tela um romance de George Bernanos (La Nouvelle Histoire de Mouchette), situando-o na época contemporânea. Com o estilo sóbrio e sêco de seus filmes precedentes, o cineasta retrata, através de uma trama sombria e sórdida, a trajetória para a morte de uma adolescente que, tal como o asno Bathazar (de A Grande Testemunha), descobre a crueldade do mundo. Ambos são vítimas dos vícios humanos, mas Mouchette reage, ela não se resigna e se revolta. Notamos isso, por exemplo, quando ela joga torrões de terra nas suas colegas de classe, pela maneira com que rejeita o “croissant de piedade” da dona do armazém, quando esfrega seus tamancos sujos no tapete da zeladora dos mortos ou quando diz “Merde” para seu pai, ao sair de casa. Mouchette só tem um breve momento de felicidade, quando, no brinquedo de auto pista no parque de diversões, esbarra o seu carro contra o carro dos outros e aí simpatiza com um rapaz que dirige um deles – alegria bruscamente interrompida, ao ser esbofeteada e arrastada dalí à fôrça pelo pai. Condenada à solidão e à miséria, Mouchette sente necessidade de amar, o que explica a ternura quase maternal com que cuida de Arsène, quando ele fica doente e talvez amor, quando ele a estupra.

O DINHEIRO / L’ARGENT.

Quando seu pai se recusa a aumentar sua mesada, Norbert (Marc Ernest Fourneau), recebe de seu amigo Martial (Bruno Lapeyre), uma nota falsa. Para conseguirem dinheiro de verdade, eles passam a nota em uma loja de artigos fotográficos. O dono da loja (Didier Bussy), verificando que o dinheiro era falso, desembaraça-se dele, transferindo-o para Yvon (Christian Patey), um jovem entregador de combustível. A partir daí, Yvon vai ser levado por uma série de acontecimentos, dos quais ele perde o contrôle: tendo entregado a nota falsa em um restaurante, ele é preso. Yvon retorna com dois policiais até à loja do comerciante, onde tudo começou mas, com a cumplicidade de seu jovem empregado Lucien, o dono da loja nega ter visto Yvon. Este é julgado, mas o tribunal lhe impõe uma pena mínima, deixando-o em liberdade. Yvon perde o emprêgo e se deixa levar por amigos a um assalto a um pequeno banco. A polícia o surpreende, ele é preso, e condenado. Sua mulher, Elise (Caroline Lang) vem lhe visitar e o faz saber depois, através de uma carta que o filho deles morreu e que ela não virá mais visitá-lo, porque espera “mudar de vida”. Yvon fica transtornado e resolve se suicidar, porém é socorrido a tempo. Ao sair da prisão, ele assassina um casal de hoteleiros, para roubar seu dinheiro. Depois, encontra uma senhora idosa (Sylvie Van den Elsen), que acabara de receber sua pensão. Ele a segue; ela lhe dá comida e o acolhe em sua casa. Finalmente, Yvon mata a mulher e toda a sua família com um machado e se entrega à polícia.

Marc Ernest Fourneau em O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Cena de O Dinheiro

Inspirando-se em um conto de Tolstoi, mas aproximando mais os personagens do Dostoievski de “Crime e Castigo”, Bresson traduz no seu estilo minimalista “o caminho trágico do mal em uma alma atormentada”. O percurso de Yvon assemelha-se ao de Raskolnikov e Yvon parece o Michel de Pickpocket. Ambos transgridem as leis, mas enquanto Michel é autor desta transgressão, Yvon é envolvido em uma espiral que o leva ao Mal. Em um mundo corrompido pelo dinheiro, pelos falsos valores, vítima de várias desonestidades, após uma série de reações em cadeia costuradas pelo acaso, Yvon se torna um assassino. Neste drama retratado com muita ferocidade, o som tem um papel primordial, os ruídos são alucinantes: o barulho dos carros na rua e das grades da prisão, a escumadeira jogada no chão que bate contra uma parede, o chão de pedra da cela constantemente arranhado por Yvon, o copo de vinho perto do piano que cai e se espatifa …

                                                                                                                FILMOGRAFIA

Anjos das Ruas / Les Anges du Peché / 1943

As Damas do Bois de Boulogne (TV) / Les Dames du Bois de Boulogne / 1945

Le Journal d’un Curé de Campagne / 1951

Um Condenado à Morte Escapou / Un Condamné à Mort s’est Échappé / 1956

Pickpocket / Pickpocket / 1959

Procès de Jeanne D’Arc / 1962

A Grande Testemunha / Au Hasard Balthazar / 1966

Mouchette, a Virgem Possuída / Mouchette / 1967

Une Femme Douce / 1969

Quatre Nuits d ‘un Rêveur /1971

Lancelot du Lac / 1974

Le Diable Probablement / 1977

O Dinheiro / L ‘Argent / 1983

FRED NIBLO

March 17, 2017

Ele era um técnico experiente, modelo de professional consciencioso, seguindo esteticamente a linha pictorialista desenvolvida por Rex Ingram, Maurice Tourneur, Herbert Brennon e Clarence Borwn e dirigiu uma série de grandes produções com os maiores astros e estrelas da década de vinte como Douglas Fairbanks (A Marca do Zorro / The Mark of Zorro / 1920, Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers / 1921), Rudolph Valentino (Sangue e Areia / Blood and Sand / 1922), Ramon Novarro (Teu Nome é Mulher / Thy Name is a Woman / 1924, Fogo, Cinzas, Nada …/ The Red Lily / 1924 e principalmente no superespetáculo Ben-Hur / Ben-Hur, a Tale of the Christ / 1925), Greta Garbo (Terra de Todos / The Temptress / 1926, A Dama Misteriosa / The Mysterious Lady / 1928), Norma Talmadge (A Dama das Camélias / Camille / 1926), Lillian Gish (Ódio / The Enemy / 1927), Ronald Colman-Vilma Banky (Dois Amantes / Two Lovers / 1928), John Gilbert e Rene Adoree (Redenção / Redemption / 1930) e William Haines (Cowboy a Muque / Way Out West / 1930), estes dois últimos filmes já sonorizados.

Fred Niblo

Fred Niblo nasceu em York, Nebraska em 1874 com o nome de Fred Liedtke, filho do prussiano Frederick Liedtke, que serviu como capitão na Guerra Civil americana e da francêsa Annette Dubergere. Nos seus primeiros anos de vida, depois que seus pais se separaram, Fred e sua mãe foram para Nova York, onde ele começou a trabalhar em um teatro-café chamado Niblo Gardens de propriedade de um homem de descendência irlandêsa chamado William Niblo. O jovem Fred adotou o nome artístico de Niblo e começou sua carreira no show business, atuando no vaudeville, destacando-se primeiramente como ator em monólogos humorísticos.

Em 2 de junho de 1901, Niblo casou-se com Josephine Cohan, irmã de George M. Cohan, o legendário “pai” da comédia musical americana, tornando-se gerente da trupe de Cohan, “The Four Cohans”. Porém seus admiradores exigiram sua volta ao palco e, começando com a temporada de 1904-1905, ele retomou sua carreira de ator, aparecendo por um curto tempo como Walter Lee Leonard em “The Rogers Brothers in Paris” e depois no vaudeville, onde permaneceu por longo tempo. Em 1916, após quinze anos de casamento, Josephina Cohan Niblo faleceu.

Fred Niblo e Enid Bennett

No ano seguinte, Fred foi para a Austrália, onde conheceu Enid Bennett (1893-1969) com quem se casou em 1918. Enid era atriz de teatro no seu país natal e começou no cinema americano na empresa de Thomas H. Ince, na qual NIblo também se iniciou na tela. Ela foi muito popular entre os anos de 1917 a 1924, inclusive no Brasil. Niblo dirigiu-a em 18 filmes, mas seus maiores êxitos como intérprete foram como Maid Marian em Robin Hood / Robin Hood / 1922 (Dir: Allan Dwan, ao lado Douglas Fairbanks) e como Lady Rosamund em O Gavião do Mar / 1924 (Dir: Frank Lloyd ao lado de Milton Sills), dois filmes mudos de aventuras famosos.

Em 1932, Niblo realizou seus dois últimos filmes no Reino Unido (Two White Arms e Diamond Cut Diamond) e, tal como fizera no início de sua carreira no cinema, passou a atuar esporadicamente como ator, aparecendo em seis filmes durante a década de quarenta, entre eles, Linda Impostora / Ellery Queen, Master Detective / 1940, no papel de John Braun … um personagem que, a certa altura, é encontrado com a garganta cortada.

Fred Niblo foi uma personalidade importante nos primeiros anos de Hollwywood e um dos fundadores da Academy of Motion Pictures Arts and Sciences. Ele faleceu em 1948 em New Orleans, Lousiana. Escolhí seis filmes de Niblo, que ví em dvd, para homenagear esse diretor competente e sensível de filmes com grandes personalidades do cinema mudo:

 A MARCA DO ZORRO / THE MARK OF ZORRO. Prod: Douglas Fairbanks Pictures Corporation. Dist: United Artists. Rot: Eugene Mullin, Douglas Fairbanks, baseado história “ The Curse of Capistrano” de Johnston McCulley. Foto: William McGann, Harris Thorpe. Dir. Arte: Edward M. Langley. Coreografia das lutas: H. J. Uyttenhove, Richard Talmadge.

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em A Marca do Zorro

A opressão reina na Califórnia espanhola do comêço do século XIX. O Governador Alvarado (George Periolat) e o lascivo Capitão Juan Ramon (Robert McKim) abusam de seu poder e mantêm o povo sob uma vigilância implacável. Um vingador mascarado, Zorro (Douglas Fairbanks) surge como defensor dos oprimidos. O misterioso espadachim grava sua inicial com a ponta de sua espada na pele de sua vítimas: a marca do Zorro. Os soldados estão aterrorizados com as proezas do esperto fora-da-lei, menos o efeminado Don Diego Vega (Douglas Fairbanks), chegado recentemente da Espanha. O pai do rapaz, Don Alejandro (Sydney de Grey), quer vê-lo casado com Lolita (Marguerite de la Motte), filha de Don Carlos Pulido (Charles Hill Mailes), nobre arruinado pelo governador. Entretanto, Don Diego não está interessado em cortejar a bela Lolita, preferindo passar o tempo ociosamente, fazendo truques com um lenço, que traz sempre consigo. Seu comportamento é um estratagema: o afetado Don Diego é o Zorro disfarçado. Como Zorro ele ridiculariza o Sargento Gonzales (Noah Beery), enfrenta o Capitão Ramon, e flerta com Lolita. Sua dupla identidade é desconhecida por todos, menos por seu criado mudo Bernardo (Tote Du Crow). Quando o Capitão Ramon aprisiona a família Pulido e sequestra Lolita, Zorro revela sua verdadeira identidade e estimula os cavalheiros locais a entrarem em ação e livrar a Califórnia de suas autoridades corruptas. Após vencer o Capitão Ramon em uma luta de esgrima, marcando um Z na sua testa, e forçar o governador a abdicar, ele beija sua espada, arremessa-a para o alto, fincando-a no teto, e diz “Até quando eu precisar de você de novo!”.

Cena de A Marca do Zorro

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em A Marca do Zorro

A Marca do Zorro foi um marco, não somente na carreira de Douglas Fairbanks, mas também no desenvolvimento do gênero de aventura. Neste seu décimo terceiro trabalho no cinema, Fairbanks estava passando das comédias contemporâneas para as produções de época, pelas quais ele é mais lembrado. Com este filme, ele definiu e popularizou o gênero capa-e-espada (que os americanos chamam de swashbuckler). Todos os praticantes deste tipo de espetáculo depois dele (Errol Flynn, Tyrone Power, Gene Kelly, Burt Lancaster, etc) inspiraram-se na herança de Fairbanks e sua contribuição para a construção do herói espadachim com sua simpatia, humor e atletismo.

Cena de A Marca do Zorro

Cena de A Marca do Zorro

Cena de A Marca do Zorro

Salvo o momento em que Zorro, sentado de pernas cruzadas em uma mesa, duela alegremente com seu oponente, e a soberba sequência acrobática de perseguição quase no final do filme, a direção de Fred Niblo não foge ao modelo usual do começo dos anos vinte, com muitas cenas transcorrendo como se estivessem sob o arco de um proscênio teatral; porém ele consegue manter a fluência da narrativa e criar instantes dramáticos e de suspense como aquele início quando, dentro da taverna, em uma noite chuvosa, os frequentadores do local estão impressionados com a marca de um Z que o Zorro cravou no rosto de um dos soldados do Sargento Gonzalez. O arrogante e vaidoso Gonzalez gaba-se, dizendo que vai capturar o bandido mascarado. De repente, alguém bate na porta da taverna, e todos ficam paralizados pelo medo. A porta se abre lentamente e entra uma figura encoberta por um enorme guarda-chuva. Enquanto os presentes prendem a respiração, o guarda-chuva é levantado e a figura revela-se não ser o temível Zorro, mas o dândi Don Diego.

OS TRÊS MOSQUETEIROS / THE THREE MUSKETEERS. Prod: Douglas Fairbanks Pictures Corporation. Dist: United Artists. Adaptação de Edward Knoblock do romance “Les Trois Mousquetaires de Alexandre Dumas pai. Foto: Arthur Edeson. Dir. Arte: Edward M. Langley. Coreografia das lutas: H. J. Uyttenhove. Mont: Nellie Mason.

Cena de Os Três Mosqueteiros

Em 1625, O Cardeal Richelieu (Nigel de Brulier) conspira na côrte de Louis XIII (Adolphe Menjou), ameaçando a rainha Anna d’Austria (Mary Mclaren), que está apaixonada secretamente pelo Duque de Buckingham (Thomas Holding). Da Gasconha chega D’Artagnan (Douglas Fairbanks), a fim de se tornar um dos Mosqueteiros do Rei. Ele se apresenta a Tréville (Willis Robards), capitão dos mosqueteiros, mas este lhe diz que primeiro deve adquirir mais experiência em outro lugar. D’Artagnan imediatamente se envolve em duelos com os três melhores espadachins da França, Athos (Léon Bary), Porthos (George Siegmann) e Aramis (Eugene Palllette), com os quais acaba formando uma aliança eterna. Com igual rapidez, ele conquista o coração de Constance Bonacieux (Marguerite de la Motte), jovem costureira da rainha. Ela encarrega os três mosqueteiros – e mais um – de uma missão perigosa na Inglaterra, para recuperar um colar de diamantes, presente do rei que ela havia dado a Buckingham como prova de sua afeição. Ciente desse plano, Richelieu ordena que seus espiões, Rochefort (Boyd Irwin) e Milady de Winter (Barbara La Marr), frustrem a missão dos mosqueteiros. Um a um eles vão sendo vencidos, e é D’Artagnan sozinho (com a ajuda de seu criado Planchet / Charles Stevens), que consegue recuperar o colar e voltar a tempo de salvar a rainha da ira do monarca. Finalmente aceito na corporação dos mosqueteiros, D’Artagnan é apresentado a Louis XIII, diante de toda a côrte, acompanhado pelos seus três amigos leais, cujo lema será sempre: “Um por todos – todos por um”.

Douglas Fairbanks em Os Três Mosqueteiro

Douglas Fairbanks e Marguerite de la Motte em Os Três Mosqueteiros

O sucesso popular de A Marca do Zorro significou uma mudança, não somente dos filmes de Douglas Fairbanks, mas também do próprio Fairbanks. Como arquiteto de seus próprios filmes, ele há muito tempo desejava se afirmar, realizando grandes produções, o que aconteceu quando levou à tela o seu herói predileto, D’Artagnan, criado por Alexandre Dumas, em Os Três Mosqueteiros.

D’Artagnan foi um papel que Fairbanks nasceu para desempenhar e ele contou mais uma vez com Fred Niblo como diretor de seu novo espetáculo, que – ao contrário de A Marca do Zorro, produzido com valores de produção discretos – teve cenários luxuosos, um elenco maior e figurinos magníficos. Para a filmagem foram utilizados dois estúdios em Hollywood, o Douglas Fairbanks Studios para pequenos cenários e o adjacente Robert Brunton Studios para cenas de interiores mais elaboradas.

Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Fred Niblo durante a filmagem de Os Três Mosqueteiros

Cena de Os Três Mosqueteiros

Fruto do esforço colaborativo entre Fairbanks, Niblo e o coreógrafo de lutas H. J. Uyttenhove, destacam- se as tomadas de acrobacias brilhantemente encenadas nas sequências de luta contra os guardas do cardeal. A mais difícil foi inquestionavelmente aquela ocorrida quando D’Artagnan marca duelos com os três mosqueteiros atrás do Jardim de Luxemburgo. Ele começa a lutar com Athos, surgem os guardas, e os quatro os enfrentam; em um lance sensacional, Fairbanks dá um salto mortal com sua mão esquerda equilibrada em um pequeno punhal que cravara em um dos guardas. Foi a acrobacia mais difícil de toda a sua carreira.

Niblo consegue manter um ritmo trepidante do começo ao fim, arma algumas boas cenas cômicas como, por exemplo, o almoço na casa do padre e presta sempre atenção para o detalhe, como na cena em que a câmera focaliza as pernas de D’ Artagnan tremendo diante do rei ou quando o rei pede que a rainha use o colar no baile, e ela vê a sombra de Richelieu na porta. O diretor domina bem o suspense no final, alternando cenas de D’Artagnan duelando com Rochefort enquanto a rainha se desespera por não ter a posse do colar.

 SANGUE E AREIA / BLOOD AND SAND. Prod: Famous Players – Lasky. Dist: Paramount Pictures. Rot: June Mathis baseado romance “Sangre y Arena” de Vicente Blasco-Ibañez. Foto: Alvin Wycoff. Mont: Dorothy Arzner.

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Um jovem e impetuoso toureiro, Juan Gallardo (Rudolph Valentino), filho de uma viúva pobre de Sevilha (Rosa Rosanova), casa-se com Carmen (Lila Lee) sua namorada de infância, recém saída de um convento enquanto alcança a fama através da Espanha. Ele é feliz com Carmen mas, não obstante, sucumbe aos encantos ardentes de Doña Sol (Nita Naldi), uma víuva rica e glamourosa. Seu comportamento adulterino leva-o a ser humilhado diante de sua nobre esposa e a perder seu contrôle na arena. Distraído ao se defender de um touro, morre nos braços de Carmen, após lhe assegurar que ela sempre teve o seu amor.

Valentino e Nita Naldi em Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Rudolph Valentino e Nita nNldi em Sangue e Areia

Rudolph Valentino e Fred Niblo na filmagem de Sangue e Areia

Rudolph Valentino em Sangue e Areia

Cena de Sangue e Areia

Se bem que sua história pareça obsoleta, trata-se de um drama absorvente graças à habilidade do diretor para controlar a cadência do filme e à presença sensual de Rudolph Valentino, cujos momentos de paixão com a voluptuosa (mas um tanto além do peso) Nita Naldi são realmente tórridos (embora hoje pareçam ridículos, inclusive por causa de diálogos como “Serpente! em um minuto eu te amo – no próximo eu te odeio!”).

Valentino e Lila Lee em Cena de Sangue e Areia

O que me incomodou no filme foram as cenas de tourada muito fracas – consistindo em tomadas de arquivo desajeitadamente inseridas no curso da narrativa, quando deveriam ter sido uma das atrações do espetáculo – e os sermões pomposos e agourentos (v. g. “A multidão é uma besta de dez mil cabeças”) de um personagem filósofo, Don Joselito (Charles Belcher), que não consta na versão de Rouben Mamoulian, mas somente nesta transposição para a tela do romance de Ibañez, provavelmente porque no filme em questão houve a preocupação de transmitir a denúncia feroz das crueldades da tourada implícitas na obra literária enquanto que no filme de Tyrone Power o que interessava era o aspecto particular do jovem matador fascinado por uma mulher fatal. No entanto, até que não caiu mal o paralelismo entre a vida e o destino de Juan e o seu amigo bandido Plumitas (Walter Long), também inexistente na versão Mamoulian: “Juan mata touros enquanto Plumitas mata homens”; Plumitas morre no estádio alvejado pelos policiais ao mesmo tempo em que Juan é fulminado pelo touro.

TERRA DE TODOS / THE TEMPTRESS. Cosmopolitan Pictures. Dist. MGM. Direção adicional durante dez dias: Mauritz Stiller. Adaptação de Dorothy Farnum do romance de Vicente Blasco-Ibañez “La Tierra de Todos”. Foto: Gaetano (Tony) Gaudio. Dir. Arte: Cedric Gibbons. James Basevi. Mont: Lloyd Nosler.

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Manuel Robledo (Antonio Moreno), jovem engenheiro argentino de passagem por Paris, apaixona-se loucamente no decorrer de um baile de máscaras pela bela Elena (Greta Garbo). Ela jura que não poderá pertencer a outro homem senão a ele, mas quando Robledo faz uma visita a seu amigo, o Marquês de Torre Bianca (Armand Kaliz), descobre que Elena é sua esposa e amante, com o consentimento do marido, do banqueiro Fontenoy (Marc MacDermott), em troca do perdão de suas dívidas. Quando Fontenoy, em um banquete e na frente de seus convidados, acusa Elena de tê-lo arruinado, e se suicida, Robledo, magoado, retorna a seu país, onde supervisiona a construção de uma grande barragem. Pouco depois, Torre Bianca, humilhado pelo escândalo, resolve ir também para a Argentina, levando Elena consigo. Em uma região selvagem, ela fascina os homens principalmente o gaucho Conterac (Lionel Barrymore) e o bandoleiro “Manos Duras” (Roy D’Arcy). Conterac mata em uma briga um companheiro que também a disputava e “Manos Duras” troca insultos com Robledo, e os dois se enfrentam em um duelo de chicote. Humilhado pela derrota, “Manos Duras” dinamita a represa, que uma chuva torrencial acaba de destruir. Elena renuncia a seu amor, a fim de que Robledo possa se consagrar ao seu trabalho. Anos depois, Robledo vai a Paris, para receber uma condecoração, e encontra Elena por acaso em um café; mas ela está muito alcoolizada, e não o reconhece. Na sua embriaguês, identificando um mendigo barbudo como Jesus, Elena lhe dá seu único objeto de valor, um anel de rubís, dizendo: “Você compreende. Você morreu por amor”.

Fred Niblo dirige Garbo em Terra de Todos

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Segundo filme de Greta Garbo na América, Terra de Todos é um melodrama exótico, cheio de clichés, mas salvo do fracasso pela direção segura de Fred Niblo (às vêzes inspirada – o último banquete do banqueiro arruinado; a luta feroz de chicote e o erotismo sugerido quando Elena praticamente lambe o sangue no peito do seu amado; a heroína degradada acreditando ver a imagem do Cristo no rosto de um mendigo – e pela presença resplandescente de Garbo, magnificamente fotografada por Tony Gaudio.

Garbo

Greta Garbo e Antonio Moreno em Terra de Todos

Diante do epílogo sinistro, a MGM providenciou um final feliz: Robledo encontra Elena no meio da multidão durante a cerimônia e se reconcilia com ela. Foi dada a escolha aos exibidores. Como era de se esperar, o verdadeiro final foi usado em Nova York, na Califórnia e na Europa; o outro, mais raro, foi preferido na América profunda.

DAMA MISTERIOSA / THE MYSTERIOUS LADY. Prod: Harry Rapf. Dist: MGM. Adaptação de Bess Meredith do romance “Der Krieg im Dunkel” (Guerra às Escuras) de Ludwig Wolff. Foto: William Daniels. Dir. Arte: Cedric Gibbons. Mont: Margareth Booth.

Conrad Nagel e Greta Garbo em A Dama Misteriosa

Greta Garbo e Conrad Nagel em A Dama Misteriosa

Em Viena, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, o Capitão Karl von Raden (Conrad Nagel) e seu amigo, Capitão Max Heinrich (Albert Pollet), são informados na bilheteria de um teatro, de que os bilhetes para a ópera estão esgotados. De repente, um homem devolve seu ingresso, Karl compra, e divide o camarote com uma mulher deslumbrante. Findo o espetáculo, ao saber que ela está sem dinheiro, pois aguardava o primo, que acabou não chegando, Karl a acompanha até sua residência, e passam a noite juntos. Pouco antes de embarcar em um trem, encarregado de levar documentos secretos para Berlim, Karl é advertido por seu tio, Coronel Eric von Raden (Edward Connelly), chefe do serviço secreto austríaco, de que a mulher com a qual ele esteve na véspera, era uma notória espiã russa, Tania Fedorova (Greta Garbo). No trem, ele reencontra Tania. Ela confessa que está a serviço de seu país, mas que o ama de fato; entretanto mas Karl a rejeita, e depois percebe que os documentos secretos sumiram. Karl é levado à côrte marcial e à prisão; porém seu tio lhe dá uma chance de se redimir, encarregando-o de ir atrás de Tania, disfarçado de pianista, a fim de descobrir, por meio dela, a identidade de um traidor que está a serviço dos russos. Karl e Tania se encontram em Varsóvia e, por amor ao capitão, Tania lhe entrega documentos que revelam quem é o traidor, que estão de posse do seu superior e amante General Boris Alexandroff (Gustav von Seiffertitz). Depois de momentos de muita tensão, o general descobre o roubo. Tania o mata, e foge com Karl para a Austria.

Filmagem de A Dama Misteriosa

Greta Garbo e Gusav von Seiffertitz em A Dama Misteriosa

Cena de A Dama Misteriosa

Niblo na filmagem de A Dama Misteriosa

O assunto pode não ser original, mas deu ensejo para que Bess Meredith traçasse um roteiro excelente, cujas sequências Fred Niblo soube encadear muito bem (sempre uma característica do seu trabalho), preenchendo a tela com belas imagens (os primeiros planos de Greta Garbo, a cerimônia de degradação do capitão Karl, as festas nas quais se destacam o luxo dos interiores e a fotogenia dos uniformes dos oficiais). Graças à direção de Niblo o filme mantém o tempo todo o interesse do espectador pela história de amor e espionagem e, no final, transmite um suspense que nos deixa ofegantes.

BEN-HUR / BEN-HUR, A TALE OF THE CHRIST. Prod: Louis B. Mayer, Samuel Goldwyn, Irving Thalberg. Dist: MGM. Dir. cenas iniciais em Roma: Charles Brabin. Ass. Dir: Al Raboch, Christy Cabanne. Dir. 2a Unidade: B. Reeves Eason (com 62 assistentes entre eles Henry Hathaway e William Wyler. Dir. cenas da Natividade com Betty Bronson como Virgem Maria: Ferdinand Pinney Earle. Adapt: June Mathis baseada no romance “Ben-Hur, A Tale of the Christ” de Lew Wallace. Rot: Bess Meredith, Carey Wilson. Foto: René Guissart, Percy Hilburn, Karl Struss, Clyde De Vinna. Foto adicional: E. Burton Steene, George Meehan. Dir. Arte: Cedric Gibbons, Horace Jackson, A. Arnold Gillespie. Mont: Lloyd Nosler. Ass. Mont: Bill Holmes, Harry Reynolds, Ben Lewis.

May MacAvoy e Ramon Novarro em Ben-Hur

Ramon Novarro e Francis X. Bushman em Ben-Hur

Ramon Novarro e Claire MacDowell em Ben-Hur

Francis X. Bushman e Ramon Novarro em Ben-Hur

Em Jerusalem, cresce a opressão romana ao judeus, e é particularmente sentida no lar principesco dos Hur. Temerosa, a Princesa Miriam (Claire McDowlel), uma viúva, incumbe seu fiel escravo Simonides (Nigel de Brulier), de esconder seu dinheiro. O filho de Miriam, Judah Ben-Hur (Ramon Novarro), sente-se atraído pela filha de Simonides, Esther (May Mac Avoy), porém ela deve ir com seu pai para a Antióquia. No mesmo dia, Judah revê seu amigo de infância, Messala (Francis X. Bushman), centurião romano, que acabara de voltar a Jerusalem após uma longa ausência. Enquanto conversam, Judah percebe que Messala mudou, não é mais o amigo compreensivo, mas um opressor que deseja que ele esqueça de que é judeu. Compreendendo que sua amizade se tornou impossível, os dois homens rompem sua relação. Na tarde do mesmo dia, Judah, Miriam e a irmã de Judah, Tirzah (Kathleen Kay), assistem, do balcão de sua casa, a uma parada em homenagem ao novo comandante de Jerusalem, quando, acidentalmente, Judah desprende uma telha, que cai na cabeça do comandante, deixando-o inconsciente. Os soldados romanos, liderados por Messala, penetram na casa e prendem toda a família. Judah é condenado à prisão perpétua como escravo nas galés e não fica sabendo o destino de Miriam e Tirzah. Obrigado a caminhar com outros prisioneiros através do deserto até o mar, Judah encontra no caminho um jovem carpinteiro, que lhe dá água para beber e força espiritual para sobreviver. Em Jerusalem, Simonides é torturado, mas se recusa a revelar onde escondeu o dinheiro dos Hur. Dois anos mais tarde, durante um combate contra piratas, Judah salva o comandante da frota romana, Arrius, (Frank Currier) enquanto a embarcação afunda. Judah e Arrius ficam à deriva no mar durante dois dias até que um navio romano os resgata. Por gratidão, e também por admiração, Arrius dá seu anel para Judah comprar sua liberdade e depois o anuncia como seu filho adotivo. Passam-se alguns anos e Judah, agora conhecido com Arrius, o Mais Moço, é aclamado como um grande atleta em Roma por suas vitórias nas corridas de bigas

Ramon Novarro em Ben-Hur

Cena das galés em Ben-Hur

Ramon Novarro e Frank Currier em Ben-Hur

Ao ouvir falar que Simonides ainda estaria na Antióquia, Judah vai procurá-lo, porém ele se recusa a reconhecê-lo, dizendo que Judah, tal como sua mãe e irmã estão mortos. Entretanto, Esther reconhece Judah e lhe entrega um bracelete, que Miriam havia dado a ela. Pouco depois, o Sheik Ilderim (Mitchell Lewis), um árabe criador de cavalos, pede a Judah que participe de uma corrida de bigas, no Circo de Antióquia. Inicialmente desinteressado, mas quando Ilderim diz que Messala é o favorito para ganhar a corrida, Judah concorda em disputá-la, como um judeu desconhecido. Simonides revela a Esther que, apesar de ter reconhecido Judah, ficou com medo de admitir isso, porque, ela, como ele, seriam escravos de Judah. Quando a notícia da corrida se espalha, Messala pede à sua amante, a egípcia Iras (Carmel Myers), para solucionar o mistério do judeu desconhecido. Ela vai ao acampamento de Ilderim, a fim de seduzir Judah, porém ele não revela sua identidade. Mais tarde, Simonides e Esther admitem diante de Judah a sua servidão e Simonides o coloca a par da fortuna dos Hur, que ele multiplicara. No dia seguinte, o Circo está cheio de gente ansiosa por apostar contra o judeu desconhecido, mas é Judah quem ganha a corrida, na qual Messala, depois de várias tentativas para destruir sua biga, acaba perdendo a vida. Vitorioso e rico, Judah não pode regozijar-se, porque sua mãe e irmã estão mortas, e os judeus continuam escravizados por Roma. A esta altura, Miriam e Tirzah contraem lepra e são enviadas para o Vale dos Leprosos. Balthazar, amigo de Ilderim, revela que a criança de Belém, agora chamada de Nazareno, é o rei que libertará os judeus e Judah decide usar todos os seus recursos para ajudá-lo. Ele organiza um exército perto de Antióquia enquanto, em Jerusalem, o Nazareno prega o amor, o perdão e a paz, inspirando milhares de seguidores. Judah retorna a Jerusalem, e vai à sua antiga casa, agora deserta. Ele adormece do lado de fora e, logo depois, Miriam e Tirzah chegam. Judah murmura “Mãe” no seu sono, as mulheres o vêem, mas não o acordam, sabendo que são “impuras”. Judah desperta, chegam Simonides e Esther, e um velho criado anuncia que o Nazareno foi preso. Quando Judah parte a cavalo, Miriam, que estava escondida ali perto, solta um grito de desespêro, atraindo a atenção de Esther. Miriam implora a Esther que mantenha seu segrêdo mas, ao saber que o Nazareno pode curar os doentes, Esther vai ao Vale dos Leprosos e convence Tirzah e Miriam a voltar para Jerusalem. Durante a via crucis do Nazareno, Judas aproxima-se dele, para lhe dizer que tem duas legiões aguardando fora da cidade, porém Jesus lhe diz que seu reino não é deste mundo. Comovido, Judah deixa cair sua espada. O Nazareno continua seu percurso com a cruz e, no caminho, ressuscita uma criança e cura Miriam e Tirzah. Judah presencia o milagre e se reune com sua mãe e irmã. Depois da crucificação, Judah, Miriam, Tirzah, Esther e Simonides estão juntos, certos de que a mensagem do Nazareno subsistirá eternamente.

Niblo na filmagem de Ben-Hur

Fred Niblo e os figurantes de Ben-Hur

Filmagem de Ben-Hur

Filmagem da corrida de bigas em Ben-Hur
Production Still

Esta versão cinematográfica de Ben-Hur teve início quando os empresários teatrais Klaw e Erlanger compraram os direitos de filmagem de Henry Wallace, filho e herdeiro do autor do romance, Lew Wallace, em 1921 e os revenderam para Frank Godsol da Goldwyn Company em troca da promessa de receberem metade dos lucros do filme. A principal roteirista da Goldwyn, June Mathis, preparou um roteiro e escolheu George Walsh, Francis X. Bushman e Gertrude Olmstead, para interpretarem respectivamente os papéis de Judah Ben-Hur, Messala e Esther, e o inglês Charles Brabin como diretor. A produção teve início na Itália em 1923 com a batalha naval, que foi encenada no mar, perto da costa de Anzio. Entrementes, a Goldwyn foi absorvida na fusão que criou a Metro-Goldwyn-Mayer e o chefe do estúdio Louis B. Mayer ficou cada vez mais insatisfeito com as cenas que estavam sendo filmadas por Brabin. Ele e seus colegas executivos Irving Thalberg e Harry Rapf decidiram substituir Brabin por Fred Niblo, George Walsh e Gertrude Olmsgtead, pela ordem, por Ramon Novarro e May McAvoy, e encarregaram Bess Meredith e Carey Wilson de reecreverem o script de June Mathis. Todas as tomadas rodadas por Brabin foram descartadas e Niblo refilmou a batalha naval, com trirremes de tamanho natural, no mar próximo ao litoral de Livorno. Depois que o fogo destruiu o depósito de adereços em Roma, Thalberg ordenou que a produção voltasse para Hollywood, onde novos cenários foram construídos e a corrida de bigas conduzida pelo diretor de 2a Unidade B. Reeves Eason. Ele usou 12 bigas e 48 cavalos, e o resultado foi uma sequência eletrizante, que até hoje impressiona. A produção custou 4 milhões de dólares e lucrou 9 milhões, porém as despesas com distribuição e promoção foram tão grandes que, combinado com o acordo que dava a Klaw e Erlanger a metade dos ganhos, a MGM ficou com um prejuízo de um milhão de dólares – embora eventualmente a empresa tenha recuperado sua perda, quando uma versão condensada com score sincronizado e efeitos sonoros foi lançada em 1931.

Mitchell Lewis e Ramon Novarro em Ben-Hur

Francis X. Bushman e Ramon Novarro em Ben-Hur

Cena de Ben-Hur

Cena de Ben-Hur

Ramon Novarro em Ben-Hur

Ramon Novarro

O filme de 1925 é estruturado em torno do conflito de valores entre Cristandade e Roma Imperial. Ele intercala episódios da vida de Cristo (filmados em Technicolor) e a história de Ben-Hur e sua rivalidade com Messala (filmada em preto e branco, e depois tingida). As vidas de Jesus e Ben-Hur se justapõem, quando Jesus dá água para o sedento e brutalizado Ben-Hur e quando, na sua via crucis, prega a não-violência e o faz baixar sua espada, curando, logo em seguida, sua mãe e irmã leprosas.

Cena de Ben-Hur

O roteiro deu ênfase ao ângulo religioso (v. g. multiplicando as cenas da vida de Cristo; expondo com clareza a adesão de Judah ao Cristianismo) e ao subtexto político (v. g. mostrando a tirania dos romanos – quando, diante do portão de Joppa, os romanos humilham e maltratam os judeus -, o tratamento desumano dos remadores, o colapso do palácio de Pilatos, símbolo da queda do poder de Roma, a proposta de Judah para formar duas legiões e proclamar Jesus como Rei dos Judeus).

O mérito de Niblo foi ter levantado a moral de toda a equipe depois de tanta turbulência na filmagem; coordenado com muita segurança as atividades de inúmeros técnicos e artistas; extraído ternura e pungência das cenas mais íntimas; e, principalmente, conferido um esplendor visual ao espetáculo, que deveu muito também a Ramon Novarro que, além de agradar à vista por causa de sua bela presença física, fez uma caracterização perfeita do protagonista, expressando maravilhosamente seu ardor, sua cólera, sua dor, sua espiritualidade.

                                                                                                            FILMOGRAFIA

1916 – Get-Rich-Quick Wallingford; O Polícia 666 / Officer 666. 1918 – The Marriage Ring; Aventuras de uma Atriz / When Do We Eat? ; Vida Ilustre / Fuss and Feathers. 1919 – Exilados / Happy Though Married; Abandonada / Partners Three. Ciúmes Que Matam / The Law of Men; A Alcova do Fantasma / The Haunted Bedroom; Ladrão Virtuoso ou Ladrão por Gratidão / The Virtuous Thief; Stepping Out; O Que Toda Mulher Deve Saber / What Every Woman Learns; Dangerous Hours. 1920 – Pela Nossa Honra / The Woman in the Suitcase; Hoje Eu, Amanhã Tu! / Sex; Anabela / The False Road; Enfeites / Hairpins; Desdita / Her Husband’s Friend; A Marca do Zorro / The Mark of Zorro; Elegância / Silk Hosiery. 1921 – Diante do Cadafalso / Mother O’Mine; Mais Forte Que o Amor / Greater Than Love; Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers. 1922 – A Mulher e a Inspiração / The Woman He Married; A Rosa do Mar / Rose of the Sea; Sangue e Areia / Blood and Sand. 1923 – Mãe, Missão Suprema / The Famous Mrs. Fair; Uma Noite Fascinante / Strangers of the Night. 1924 – Teu Nome é Mulher / Thy Name Is a Woman; Fogo, Cinzas, Nada / The Red Lily. 1925 – Ben-Hur / Ben-Hur. 1926 – Terra de Todos / The Temptress; A Dama das Camélias / Camille. 1927 – A Bailarina Diabólica / The Devil Dancer; Ódio/ The Enemy. 1928 – Dois Amantes / Two Lovers; Dama Misteriosa / The Mysterious Lady; Sonho de Amor / Dream of Love. 1930 – Redenção / Redemption; Cowboy a Muque / Way Out West. 1931 – O Filho Adotivo / Young Donovan’s Kid; The Big Gamble. 1932 – Two White Arms; Diamond Cut Diamond.

ROBERT SIODMAK E SEUS FILMES NOIRS III

March 3, 2017

Existiram poucos filmes na filmografia de R. Siodmak que foram realizados com uma independência real, tanto sob o ponto de vista da elaboração do argumento como da filmagem. Baixeza / Criss Cross / 1948, beneficiou-se de uma concordância íntima do estilo, do assunto abordado e da personalidade do cineasta e foi a sua obra-prima, o filme noir mais trágico de todos.

Seu tema é o aviltamento de um homem fraco e apaixonado. Steve Thompson (Burt Lancaster) retorna a Los Angeles, após ter viajado por todo o país, para esquecer Anna (Yvonne De Carlo), sua ex-mulher. Ainda obcecado por ela, Steve vai à boate que costumavam frequentar. Fica surpreso ao vê-la na pista de dança e percebe seu relacionamento com Slim Dundee (Dan Duryea), um gângster. Encorajado por Anna, e apesar das advertências por parte de seus familiares e do amigo detetive, Peter Ramirez (Stephen MacNally), Steve começa a se aproximar de novo da ex-mulher.

Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Yvonne de Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Um dia, Anna não aparece. O garçom da boate informa Steve de que ela está em Yuma e se casou com Dundee. Seis meses mais tarde, Steve avista Anna na estação ferroviária, onde acabara de se despedir de Dundee. Anna diz que se casou com Dundee devido à hostilidade de sua família e porque Ramirez ameaçou prendê-la, se não saísse da cidade. Conta também que Dundee costuma bater nela, mostrando as marcas de ferimentos nas costas.

Burt Lancaster e Yvonne De Carlo em Baixeza

Dundee os surpreende na casa de Steve e este improvisa uma explicação: diz que tem planos para roubar a empresa de transporte de valores em que trabalha e pede o auxílio de Dundee. Combinam que o dinheiro roubado ficará com Anna, até que possam se encontrar para repartí-lo. Steve pretende pegar sua parte e fugir com Anna enquanto Dundee planeja matá-lo durante o roubo. No decorrer do assalto, o velho Pop (Griff Barnett), companheiro de Steve no carro-forte, é morto. Steve reage e, apesar de ferido, consegue recuperar metade do dinheiro, passando por herói.

Alan Napier, Yvonne De Carlo, Burt Lancaster e Dan Duryea em Baixeza

Dundee manda raptar Steve no hospital, pois quer saber do paradeiro de Anna. Steve consegue subornar seu raptor para que o leve até a cabana perto do mar em Palos verdes, onde Anna está escondida. Aterrorizada com a presença de Steve, pois sabe que Dundee virá atrás deles, a jovem se prepara para abandoná-lo, ferido e amargurado. Antes que possa partir, levando o dinheiro consigo, Dundee chega. Ele mata Steve e Anna. Ao sair da casa, ouve o som das sirenes dos carros de polícia que se aproximam.

Yvonne De Carlo e Burt Lancasrer em Baixeza

Cena final de Baixeza

O filme começa de uma maneira bastante original. A câmera sobrevoa o aeroporto todo iluminado de Los Sngeles, vai descendo como um pássaro, e depois segue em direção a Steve e Anna, que se abraçam entre dois carros na escuridão de um estacionamento. O espectador é introduzido repentinamente no curso da ação, tomando logo conhecimento do triângulo amoroso. (“Dei uma fugida, enquanto ele estava dançando”… “É melhor voltar, antes que ele comece a procurar por você”… “Depois que tudo acabar e nós estivermos seguros, seremos só eu e você. Do jeito que deveria ter sido desde o princípio”), que é a chave de todo o drama. No dia seguinte, Steve dirige o carro-forte para San Raphaelo, onde vai ocorrer o assalto e, durante o percurso de quarenta minutos, recorda o passado.

Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

O diretor R. Siodmak soube dominar um enredo de estrutura complexa e criar uma esplêndida atmosfera de amargura e fatalismo, complementando muitas vezes a narração na primeira pessoa com uma quantidade de planos subjetivos que acentuam alguns pontos temáticos muito importantes. Por exemplo, a solidão de Steve é expressa em uma tomada na qual surpreende o irmão beijando a noiva, na visão dele, sentado no sofá da sala de visita.

Robert Siodmak dirige Yvonne De Carlo e Burt Lancaster em Baixeza

Mais tarde, R. Siodmak usa inúmeros planos subjetivos para obrigar a platéia a participar da situação aflitiva e de suspense do protagonista, aguardando a vingança de Dundee. Imobilizado na cama do hospital, Steve percebe, pela porta entreaberta, a presença de um homem no corredor. A enfermeira diz que é um visitante, chamado Nelson. Steve manda chamá-lo. Nelson (Robert Osterloh) se apresenta como caixeiro-viajante e diz que sua mulher foi ferida em um acidente. Steve pede-lhe que passe a noite com ele. Nelson senta-se dentro do quarto e parece que vai adormecer. Assim que a enfermeira sai, ele se levanta e volta com uma cadeira de rodas. Aproximando-se do leito, acorda Steve e se identifica como mensageiro de Dundee. Corta as cordas do contrapeso que sustenta o braço engessado de Steve e a imagem sai de foco, sugerindo um desmaio.

Robert Osterloh e Burt Lancaster em Baixeza

No seu retorno a Los Angeles, Steve tenta enganar os próximos e a si mesmo, dizendo que já se libertou da ex-mulher, mas ali está ele, triste e desamparado, procurando por ela na boate, onde sabe que vai acabar encontrando-a. Até que o desejo se concretiza em uma sequência notável, na qual mostra toda a fascinação que Anna exerce sobre ele: Steve entra no Rondo Club. Vemos os pares dançando uma rumba executada pela orquestra de Esy Morales, Esy tocando sua flauta travessa, Anna rodopiando na pista, linda e sensual, outro plano de Esy, e finalmente Steve, em plano americano – e depois em primeiríssimo, durante um intercutting – , inteiramente subjugado.

Yvonne De Carlo e Tony Curtis dançam a rumba em Baixeza

Steve confunde sua própria passividade com as maquinações do destino. “Estava escrito nas cartas ou foi o destino, ou o azar, ou o que você quiser”, diz ele no começo do retrospecto. “Estava nas cartas, e não havia como impedí-lo”, conforma-se, quando recebe a notícia do casamento de Anna. É a convenção noir do homem vítima de um destino inexorável. Porém, na realidade, o destino não teve nada a ver com os problemas de Steve. Podem ter ocorrido certas coincidências, mas significaram muito pouco. Não foi o destino que fez Steve perder sua força de vontade, que está sempre se desintegrando na presença de Anna. Ele simplesmente não consegue se libertar de seu encanto.

Cena do Assalto em Baixeza

Cena do assalto em Baixeza

A sequência do assalto é estilizada, deliberadamente irrealista. Uma câmera diretamente do alto mostra o carro-forte dirigindo-se para o seu destino. Quando Steve e Pop saltam com as sacolas de dinheiro, as bombas de gás lacrimogêneo explodem. Uma nuvem sufocante invade toda a rua e Dundee e seus homens colocam suas máscaras. Soa o alarme, que não vai parar de tocar durante toda a sequência. Dundee surge do meio da fumaça e dispara vários tiros contra Pop. Steve vê Dundee matar seu amigo e muda de idéia. Ele alveja um bandido e tenta pôr as sacolas em segurança dentro do carro-forte. Dundee atira nele. Os dois entram em luta corporal. Steve fere Dundee na perna e depois recebe um tiro no ombro. Ouvem-se as sirenes dos carros de polícia. Os bandidos fogem. Toda essa movimentação, com os homens meio perdidos no nevoeiro de gás, alguns com as estranhas máscaras contra gases, parece um sonho febril, um estranho balé, encenado com muita noção de cinema.

Em 1949, Dore Schary, chefe de produção da MGM, acatou a idéia de um de seus produtores, Gottfried Reinhardt (um dos dois filhos de Max Reinhardt), de entregar a R. Siodmak a realização de O Grande Pecador / The Great Sinner, um “filme de prestígio” de orçamento vultoso, baseado em um grande clássico da literatura, “O Jogador”, de Fiodor Dostoievski.

Ava Gardner e Gregory Peck em O Grande Pecador

O filme é uma evocação hollywoodiana suntuosa do mundo do jogo e dos jogadores. Dirigindo-se a Paris, um escritor russo (Gregory Peck), encontra no trem uma mulher fascinante (Ava Gardner) e decide interromper sua viagem inicialmente prevista, a fim de não perdê-la de vista em Wiesbaden. Ali, ela reencontra seu pai, um general (Walter Huston), que uma paixão devoradora pelo jôgo o leva todas as noites ao cassino da cidade. O militar, quase arruinado, é por assim dizer obrigado a ceder a mão de sua filha para o diretor do cassino (Melvyn Douglas). Decidido a salvar a linda mulher dessa triste sina, o romancista tenta também sua chance no jôgo e fica rapidamente possuído por essa paixão infernal.

Gregory Peck, Ava Gardner e Melvyn Douglas em O Grande Pecador

Ava Gardner, Walter Huston, Ethel Barrymore e Gregory Peck em O Grande Pecador

Cena de O Grande Pecador

A adaptação não foi totalmente feliz – houve certa confusão durante a elaboração do roteiro, interferência por parte do produtor que ordenou cortes em sequências inteiras bem como a introdução de cenas suplementares feitas por outros diretores (provavelmente Jack Conway e / ou Mervyn LeRoy), e a imposição de um final feliz; porém, apesar dessas desvantagens, R. Siodmak conseguiu retratar muito bem a fauna de possuídos que assediam a roleta, destacando-se os momentos onde arriscam seus destinos nas apostas desesperadas. Sob este aspecto, a morte da velha senhora mãe do general (Ethel Barrymore), na mesa de jôgo, é um momento antológico.

Depois da MGM, R. Siodmak foi solicitado pela Paramount, onde o produtor Hal B. Wallis lhe ofereceu o projeto de A Confissão de Thelma / The File on Thelma Jordon / 1950, que seria o seu derradeiro filme noir.

Barbara Stanwick e Wendell Corey em A Confissão de Thelma

Thelma Jordon (Barbara Stanwick) entra na Delegacia de Polícia de Los Angeles, para dar parte de uma tentativa de furto. Cleve Marshall (Wendell Corey), assistente do promotor público (Barry Kelley) está ali diante do inspetor Scott (Paul Kelly) bebendo, para esquecer as mágoas conjugais. Depois que Scott sai, Cleve convida Thelma para um drinque e continuam saindo juntos às escondidas, enquanto sua esposa Pamela (Joan Tetzel) e o filho estão ausentes de férias em uma praia. Thelma diz a Cleve que vive separada do marido, Tony Laredo (Richard Rober) e mora com sua tia rica, Vera (Getrude Hoffman). Uma noite, Vera aparece morta. Thelma pede que Cleve venha imediatamente e o mordomo de Vera ouve por uma extensão a conversa entre os dois. Quando Cleve chega, Thelma revela que certa vez falou com Tony sobre um colar de esmeraldas caríssimo da tia, e receia que ele pode tê-la assassinado. Entretanto, as suspeitas recaem sobre ela, pois Tony tem um alibi indiscutível. Ao investigar o caso, Scott não consegue identificar o autor do misterioso telefonema, que foi apelidado de “Mr. X”, e que o mordomo viu deixando a cena do crime. Acreditando na inocência de Thelma, Cleve contrata anônimamente um advogado, Kingsley Willis (Stanley Ridges), e faz com que ele requeira a desqualificação do promotor público, para que ele, Cleve, possa assumir a tarefa de acusação. Cleve providencia um libelo propositadamente inepto, conseguindo absolver Thelma. Agora, herdeira de uma grande fortuna, ela volta a atrair o interesse de Tony, que nunca fôra seu marido, mas sim seu amante. Cleve faz uma visita final a Thelma durante a qual Tony obriga-a a admitir que eles enganaram Cleve e que ela matou a tia. Tony derruba Cleve e parte com Thelma. Ela se separa de Cleve, embora o ame e, desesperada, agride o amante enquanto este dirige o carro, que se precipita em uma ribanceira. No hospital, onde está agonizando, Thelma conta toda a verdade para Scott, porém se recusa a identificar “Mr. X”. Ela morre, e o promotor percebe que Cleve é “Mr. X”. Cleve se demite e pede a Scott, que ele informe Pamela de que ele a verá mais tarde.

Cena de A Confissão de Thelma

Cena de A Confissão de Thelma

O filme dispõe de todos os ingredientes para ser considerado um noir autêntico: mulher fatal destruindo a vida de um homem até então íntegro, corrupção, duplicidade de aparências, pessimismo, iluminação expressionista. Entretanto, Thelma é uma mulher fatal diferente. Ela subjuga o ingênuo Cleve, para assegurar o sucesso de um plano criminoso em proveito próprio e de um outro homem – mas se apaixona por sua vítima. Não é tão fria como Phyllis Dietrich, que a mesma Barbara Stanwyck interpretou em Pacto de Sangue / Double Indemnity / 1944. Age impulsivamente. Não é de todo má, “Passei a vida toda lutando entre o Bem e o Mal. Willis disse que eu era duas pessoas. Será que não podem deixar só uma parte de mim morrer? “, diz ela a Cleve no leito do hospital, pouco antes de expirar. O espetáculo sofre de alguma monotonia no trecho inicial, mas depois se desenvolve melhor, reconhecendo-se a força do estilo de R. Siodmak em algumas cenas, como por exemplo, o crime e depois o pânico da assassina e do seu protetor ante a aproximação do mordomo e o plano-sequência com a grua que segue Thelma da prisão ao tribunal através de uma multidão que a acompanha.

Os outros filmes americanos de R. Siodmak antes de retornar à Europa, foram: Deportado / Deported / 1950, O Direito de Viver / The Whistle at Eaton Falls / 1951 e O Pirata Sangrento / The Crimson Pirate / 1952.

Jeff Chandler e Marta Toren em Deportado

Rodado na Itália para Universal-International, Deportado, mostra como um gângster (Jeff Chandler) extraditado dos Estados Unidos para Nápoles, planeja uma maneira de trazer os cem mil dólares que roubara e nunca fôra recuperado pela polícia: ele manda a pessoa que está escondendo seu dinheiro, usá-lo para comprar alimentos e medicamentos e enviá-los para a aldeia onde fôra criado, a fim de que possa depois desviar a carga e revendê-la muito mais caro no mercado negro. Entrementes, ele se enamora de uma viúva aristocrática (Marta Toren) responsável pelo abastecimento local, que o apresenta como um benfeitor da cidade. Diante disso, muda de idéia e tem que enfrentar um ex-parceiro (Richard Rober), que quer a sua parte no roubo e os mafiosos locais.

Lloyd Bridges e Lenore Lonergan em O Direito de Viver

Dorothy Gish em O Direito de Viver

Rodado em New Hampshire para o produtor Louis de Rochemont (apoiado pela Columbia), O Direito de Viver, focaliza um conflito social entre operários e o patronato da costa leste. Um líder de sindicato (Lloyd Bridges) que a viúva de um industrial (Dorothy Gish) promoveu a presidente de uma pequena fábrica de plástico – única indústria em atividade em uma região duramente perturbada por greves – por força de um aumento dos custos de produção e das ferramentas arcaicas da firma, é obrigado a despedir operários temporariamente. Estes, excitados pelos sindicalistas à serviço da concorrência, ameaçam destruir as instalações da fábrica; porém após alguns confrontos entre trabalhadores leais à empresa e grevistas e a utilização de um processo de fabricação de plástico mais eficiente a paz social é reinstaurada.

Nick Cravat e Burt Lancaster em O Pirata Sangrento

Burt Lancaster e Eva Bartok em O Pirata  Sangrento

Rodada na sua maior parte em exteriores na Europa para a Hetch-Norma Pictures e distribuido pela Warner Bros., O Pirata Sangrento, conta as façanhas de um pirata do século XVIII (Burt Lancaster) no Mar das Caraíbas, que dá apoio a um revolucionário (Frederick Leicester), desafiando um tirano (Leslie Bradley) a serviço do Rei da Espanha, sempre acompanhado nessa aventura por um companheiro fiel (Nick Cravat); no decorrer dos acontecimentos, surgem um inventor bizarro (James Hayter) e a filha do chefe rebelde (Eva Bartok), por quem o intrépido pirata se apaixona.

Burt e Cravat em O Pirata Sangrento

Dos três filmes citados, apenas este último merece destaque pelo bom-humor, eloquência das situações absurdas (acompanhadas de invenções anacrônicas) e capacidade atlética e vitalidade dos dois artistas-acrobatas (Lancaster e Cravat), que conferem um sabor todo especial ao espetáculo.

O derradeiro período da carreira de R. Siodmak, compreende: A Grande Paixão / Le Grand Jeu / 1954, refilmagem do filme de Jacques Feyder; Quando o Amor é Pecado / Die Ratten / 1955; Mein Vater der Schauspieler / 1956; O Diabo Ataca à Noite / Nachts, wenn der Teufel kam / 1957; Dorothea Angermann / 1959; Retrato de uma Pecadora / The Rough and the Smooth (EUA) ou Portrait of a Sinner / 1959 (Inglaterra); Katia / Katia / 1959; Mein Schulfreund / 1960; O Advogado do Diabo / L’Affaire Nina B / 1961; Tunel 28 ou Escape from East Berlin / 1962; Der Schut / 1964; Der Schatz der Azteken Die Pyramide des Sonnengottes / 1964 – 1965; Os Bravos Não se Rendem / Custer of the West / 1967; O Último Romano / Kampf um Roma I – II (Der Verrat) / 1968 -1969.

Em A Grande Paixão / França – Itália, um jovem e brilhante advogado (Jean- Claude Pascal) que, por amor a uma amante indígna (Gina Lollobrigida) cometeu um desfalque, deixa a França, e aguarda em vão na Argélia, que ela se junte a ele. Desonrado e sem dinheiro, alista-se na Legião Estrangeira e encontra uma prostituta (Gina Lollobrigida), muito parecida com a sua amante na taberna de propriedade de uma cartomante (Arletty), que ele e mais dois companheiros frequentam. Lendo as cartas, a cartomante prevê a morte de seus dois companheiros, um (Raymond Pellegrin) morto por ele acidentalmente e o outro (Peter Van Eyck) durante uma patrulha. Desmobilizado, o rapaz decide voltar para a França na companhia da sósia de sua amante, que o ama sinceramente. Entretanto, depara-se com a antiga companheira, que o rejeita mais uma vez. Desesperado, ele deixa a sósia partir sozinha, e se reengaja. Antes de se unir à sua unidade, a cartomante faz uma “grande cartada”, na qual aparece o signo da morte. Ele parte voluntariamente em direção ao seu destino fatal.

Heildemarie Hatheyer e Maria Shell em Quando o Amor é Pecado

Em Quando o Amor é Pecado / República Federal Alemã, uma mulher estéril (Heildemarie Hatheyer), dona de uma lavanderia, com medo perder o marido, que deseja muito ter um filho, o faz acreditar que está grávida. O acaso vem em seu socorro na pessoa de uma jovem polonêsa (Maria Shell) sem dinheiro e sem visto de permanência no país, que está à procura de seu amante que sumira na República Federal da Alemanha e do qual espera um filho. A criança nasce e as duas mulheres concordam que a estéril manterá o recém-nascido como seu filho. Depois, a jovem se arrepende e, pensando que é o seu, rapta o filho doente de uma vizinha, que morre em seus braços. Apavorada pelo rumo dos acontecimentos, a “mãe estéril” intima seu irmão (Curd Jürgens) a dar um jeito para que a jovem “desapareça” de Berlim. O crápula tenta em vão convencer a moça a deixar a cidade e finalmente tenta estrangulá-la; porém durante a luta que se segue, ela consegue se desvencilhar dele e o mata, usando uma pedra como arma. A mãe solteira finalmente recupera seu filho e o marido da mulher estéril consola sua esposa.

Em Mein Vater, der Schauspieler (Meu Pai era Ator) / República Federal Alemã, uma atriz célebre (Hilde Krahl) casa-se com um novato e mais jovem que ela (O. W. Fischer): eles formam um par ideal, festejado pela imprensa, e dividem o cartaz durante alguns anos até o dia em que a atriz tem que ceder seus papéis para uma concorrente mais jovem. Amargurada e enciumada com o sucesso crescente do marido, ela abandona o domicílio conjugal e morre em um acidente na estrada. Inconsolável, seu esposo se entrega à bebida, arruina sua carreira, e acaba tentando o suicídio; mas é o seu jovem filho, até então sacrificado pela ambição dos pais, que salva sua vida, alertando os vizinhos.

Claus Holm e Hannes Messemer em O Diabo Ataca à Noite

Em O Diabo Ataca à Noite / República Federal Alemã, uma série de mortes sádicas permanecem inexplicáveis. Auxiliado por sua secretária (Annemarie Düringer), um comissário (Claus Holm) conduz a investigação. Ele não acredita na culpabilidade de um suspeito que todos os indícios acusam. Sua teoria é defendida pelo chefe da SS (Hannes Messemer) que, por ambição, quer uma solução espetacular, que permita reforçar a repressão. Por ordem de Hitler, as oitenta e duas mortes cometidas devem permanecer secretas. Desmascarado pelo comissário, o verdadeiro assassino (Mario Adorf) não vai a julgamento, porque é nazista e ariano puro. Apesar dos esforços do comissário, o inocente é condenado à morte (e depois libertado e abatido por “tentativa de fuga) e ele, como castigo, enviado para a frente russa enquanto o assassino é liquidado secretamente pela SS.

Ruth Leuwerik e Bert Sotlar em Dorohtea Angermann

Em Dorothea Angermann / Suiça, uma jovem (Ruth Leuwerik), filha de um pastor hipócrita e intolerante (Alfred Shieske), vagueia por uma discoteca, chama um guarda e se acusa da morte do marido. No tribunal, o pastor renega publicamente sua filha, apoiando-se em versículos bíblicos. Ela não reage, e descreve em retrospecto uma existência sem alegria, passada entre a cozinha e o presbitério. Obrigada a casar com sujeito brutal (Kurt Meisel), a jovem resiste, mas ele a estupra, e ela dá a luz uma criança natimorta. A moça então se entrega à bebida enquanto o marido, vilipendiando o dote do pastor, organiza orgias a domicílio. Quando decide ir para Hamburgo com seu antigo noivo – um engenheiro (Bert Sotlar), o marido, ferido no seu orgulho masculino, ameaça-a com uma faca. Ela atira um vaso no crânio dele, matando-o involuntariamente. No julgamento, uma testemunha inesperada inocenta a jovem mulher, que encontra o noivo na saída da côrte de justiça. Seu pai se aproxima dela e lhe pede perdão.

Em Retrato de uma Pecadora / Grã Bretanha, um jovem arqueólogo (Tony Britton) da alta sociedade londrina prestes a partir em expedição ao Oriente Próximo, rompe seu noivado com uma herdeira riquíssima, para seguir uma desconhecida loura e lasciva (Nadja Tiller), que encontrara na rua. Ele descobre que esta criatura é ao mesmo tempo relacionada com um rufião traficante de heroína e com seu antigo patrão (William Bendix), um dono da boate arruinado, que acaba por se suicidar. Todos os esforços do arqueólogo para tirá-la desse meio são inúteis. Desiludido, amadurecido e desprovido de suas economias, o rapaz volta aos braços puros da noiva, deixando seu “anjo perverso” sossobrar na prostituição.

Curd Jürgens e Romy Schneider em Katia

Em Katia / França , na Rússia de 1861 a 1881, ao visitar o Instituto Smolny, o Tzar Alexandre II (Curd Jürgens) conhece a jovem Katia, (Romy Schneider), loucamente apaixonada por ele. Quando o monarca percebe que a ama, julgando este amor impossível, ele a envia a Paris. Alguns anos mais tarde, em visita oficial na capital francêsa, o Tsar revê Katia. Não podendo mais viver sem ela, ele a faz retornar a São Petersburgo e decide esposá-la quando a Imperatriz more. Porém, ferido em um atentado, ele morre nos braços de sua bem-amada.

Em Mein Schulfreund (Meu Colega de Classe) / República Federal Alemã, um funcionário do Correio (Heinz Ruhmann) exerce escrupulosamente o seu trabalho, mas os horrores da guerra o incomodam, e ele resolve escrever uma carta para seu antigo colega de classe Herman Goering (que sempre colava dele nas provas), na qual implora que o poderoso Reichsmarschall use de toda a sua influência para fazer cessar a carnificina nazista. A missiva é interceptada pela Gestapo e o modesto funcionário torna-se um preso político, passível de sofrer a pena de morte. Avisado sobre o incidente, Goering poupa a vida de seu antigo condiscípulo, fazendo com que ele seja declarado um doente mental irresponsável. O problema é que, após o fim da guerra, o funcionário não pode ser reintegrado ao seu trabalho por causa de sua condição de demente. Aí começa sua odisséia tragicômica para contactar as pessoas que poderiam atestar sua sanidade – porém elas estão mortas, presas ou se recusam a testemunhar por medo de atrair a atenção da imprensa sobre seu pasado. Finalmente, seu advogado o aconselha a cometer um delito punível que levará a um novo exame psiquiátrico. A manobra é bem sucedida e o funcionário, condenado com sursis, recebe enfim a consideração e as indenizações a que tem direito.i

Em O Advogado do Diabo / França, Nina B (Nadja Tiller), no enterro do Senhor B (Pierre Brasseur), um ex-condenado, chofer (Walter Giller) e homem de confiança do falecido, introduz a narração através de um retrospecto. Ele relata o suicídio frustrado de Nina B (Nadja Tiller), esposa-objeto do defunto, um poderoso financista da Alemanha após-guerra. O Senhor B dispõe de documentos que comprovam a participação de seus rivais em crimes de guerra e pretende usá-los contra eles. Seus inimigos fazem com que ele seja preso sob pretexto de fraude fiscal e o chofer fica com a pasta contendo os documentos comprometedores sendo exposto aos ataques dos antigos nazistas. Nina torna-se amante do chofer e tenta manobrá-lo para seus próprios fins. Libertado por seu advogado, o Senhor B utiliza as provas em seu poder para obter a capitulação de seus concorrentes, mas seu próprio advogado o trai, e ele, às vésperas de ser novamente preso, tem um enfarte do miocárdio. Ou foi o efeito do veronal que sua esposa teria substituído aos remédios que o marido tomava contra ataques cardíacos? Ninguém saberá.

Christine Kauffman e Don Murray em Tunel 128

Em Tunel 28 / USA – República Federal Alemã, o motorista (Don Murray) de um major da Alemanha Ocidental vê um amigo ser morto, ao tentar atravessar o Muro de Berlim com seu caminhão. Ele é persuadido pela irmã (Christine Kauffman) do falecido, a planejar uma fuga para a Alemanha Ocidental. Com a ajuda de um grupo de pessoas, o rapaz cava um túnel por debaixo do Muro, por onde eles escaparão do jugo comunista. Seus esforços para evitar a suspeita dos guardas da Alemanha Oriental, seu medo de uma traição por parte de vizinhos e a exaustão são apenas algumas das dificuldades encaradas pelos fugitivos.

Lex Barker em Der Schut

Em Der Schut / República Federal Alemã – Itália – França – Iugoslávia, por volta de 1870, na Albânia, um bandido apelidado de “o diabo amarelo”, que se disfarça em um rico mercador de tapetes (Rik Battaglia), espolia os viajantes nas montanhas controladas teoricamente pela administração otomana. Acompanhado de um fiel servidor (Ralf Wolter) e de um aristocrata inglês (Dieter Borsche), o intrépido teutônico “Kara Ben Nemsi”(Lex Barker) parte em busca de um amigo francês sequestrado pelo bandido. Seguem-se cavalgadas, emboscadas, traições noturnas, aldeias incendiadas, orelhas cortadas, etc. até o momento em que a polícia turca, alertada por uma bela cativa (Marie Versini) cerca o refúgio do vilão, que acaba no fundo de um precipício.

Em Der Schatz der Azteken / República Federal Alemã – França – Itália – Iugoslávia, na época da Guerra Civil Americana, um médico alemão (Lex Barker), enviado secreto de Juarez (Fausto Tozzi) junto a Lincoln (Jeff Corey), a fim de obter apoio financeiro na sua luta contra Maximiliano, instalado como imperador do México pelo govêrno francês – no curso de várias aventuras que envolvem seu assistente, um cowboy americano (Kelo Henderson); um capitão traiçoeiro de Juarez (Rik Battaglia); um rico proprietário rural simpático à causa revolucionária (Friedrich von Ledebur) e seu filho pródigo (Gérard Barray); um fabricante de relógios (Ralf Wolter); e uma princesa Azteca (Theresa Lorca) – descobre, nas galerias de uma pirâmide, onde se refugiam os antigos descendentes dos aztecas, o tesouro legendário outrora cobiçado por Cortez.

Robert Shaw em Os Bravos Não se Rendem

Em Os Bravos Não se Rendem / Estados Unidos (rodado na Espanha), após uma brilhante carreira na Guerra Civil, o jovem General George Armstrong Custer (Robert Shaw) vai para o Oeste, acompanhado de sua esposa (Mary Ure), assumir o comando do 7º Regimento de Cavalaria. Ao reprimir os índios que estão se rebelando contra a política do govêrno de reservas territoriais, ele entra em conflito com dois oficiais (Jeffrey Hunter, Ty Hardin), que são simpatizantes da causa indígena, e aperta a disciplina entre seus homens. Mais tarde, Custer recebe uma visita surprêsa do General Sheridan (Lawrence Tierney), que lhe ordena um ataque a uma aldeia cheyenne, para acalmar os políticos de Washington. Custer cumpre a ordem, mas suas tropas massacram de uma maneira selvage mulheres e crianças. Embora ele se recuse a uma aproximação conciliatória com o Chefe Dull Knife (Kieron Moore), Custer conclui que a receptividade do govêrno a interesses privados deve ser controlada, a fim de que a paz seja garantida. Uma patrulha de Custer deserta depois que é descoberto ouro na reserva e ele é obrigado a executar o líder dos desertores (Robert Ryan). Em seguida a uma emboscada dos índios contra uma nova linha férrea que atravessa suas terras, Custer é chamado a Washington. Ele denuncia políticos da administração do presidente Grant, que foram subornados para atuar como porta-vozes da estrada de ferro e de mineradores e, em consequência, é dispensado do seu comando. Ele fica desolado ao saber que seus homens vão marchar contra os índios sem ele. Entretanto, através da diplomacia de sua esposa, Custer recebe permisão para retornar ao Dakota e liderar seus soldados na batalha. Em Little Big Horn suas tropas são dizimadas pelos índios e Custer é o último a morrer.

Orson Welles e Sylva Koscina em O Último Romano

Em O Último Romano / República Federal Alemã – Itália – Rumênia, na corte de Ravenna, capital do efêmero império ostrogodo, o pérfido Cethegus (Laurence Harvey), o “último dos romanos”, encorajado pelo imperador de Bizâncio Justiniano (Orson Welles) e sua esposa Theodora (Sylva Koscina), semeia a discórdia entre as duas filhas do falecido rei Teodorico (Honor Blackman, Harriet Anderson), esperando assim livrar a Itália dos bárbaros. Depois que a côrte de Ravenna foi dividida e enfraquecida pelas intrigas, a cidade de Roma é ocupada à força pelo exército bizantino e depois assediada sem sucesso pelos ostrogodos. A história termina com os protagonistas sendo assassinados, envenenados ou cortados em pedaços em uma das quatro grandes batalhas – quando não se suicidam simplesmente (como Cethegus). Os ostrogodos sobreviventes levam os corpos de seus chefes e se estabelecem, com a ajuda da frota viking, na ilha de Gotland no mar Báltico.

A mudança de ares infelizmente não favoreceu ao cineasta. Como se vê pelos resumos dessas suas quatorze últimas realizações, alguns argumentos eram até bem interessantes e poderiam ter ocasionado bons filmes, porém ele, por cansaço ou apatia, submeteu-os a uma direção pesada, resultando espetáculos monótonos e medíocres, sem nenhum vestígio da plenitude artística, atingida na fase americana de sua carreira. Siodmak nunca esteve no mesmo plano de criadores da sétima arte como Fritz Lang ou Alfred Hitchcock, pois era somente um artesão de muita competência, mas deixou obras marcantes na cinematografia além dos tão elogiados filmes noirs, causando espanto o final melancólico, para não dizer trágico, do seu percurso cinematográfico.

ROBERT SIODMAK E SEUS FILMES NOIRS II

February 17, 2017

Joan Harrison estudou em Oxford e na Sorbonne. Após um início de carreira no jornalismo, foi durante muito tempo secretária particular de Alfred Hitchcock e ascendeu finalmente à posição de roteirista na véspera da ida de “Hitch” para os Estados Unidos. Ela colaborou assim nos roteiros de Estalagem Maldita / Jamaica Inn / 1939, Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca / 1940, Correspondente Estrangeiro / Foreign Correspondent / 1940, Suspeita / Suspicion / 1941 e – nos estúdios da Universal em 1942 – em Sabotador / Saboteur. Em 1943, separou-se de Hitchcock, para se tornar produtora independente e, enquanto estava em negociação com a Universal para ser produtora associada ao estúdio, conheceu R. Siodmak, nascendo daí a primeira colaboração entre os dois. Joan acabara de adquirir os direitos de “Phantom Lady”, romance policial de Cornell Woolrich, o escritor que, juntamente com Dashiel Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain, inspirou alguns dos melhores filmes noirs do período clássico, e a história de Woolrich, caiu nas mãos do diretor.

Robert Siodmak, Joan Harrison, Ella Raines e Franchot Tone

A Dama Fantasma / Phantom Lady / 1943 começa por um primeiro plano de Ann Terry, a “dama fantasma” (Fay Helm), de costas para a objetiva, com um daqueles chapéus extravagantes que faziam furor nos anos 40. O cenário é um bar subterrâneo em Nova York. Entra Scott Henderson (Alan Curtis), um jovem engenheiro, que acabou de ter uma discussão com a esposa e convida a desconhecida para ir ao teatro de revista com ele, mostrando-lhe dois tíquetes. Ela aceita com uma condição: nada de nomes, nem endereços. Scott leva-a ao musical, cuja estrela é uma cantora latino-americana (Aurora Miranda) e depois a reconduz ao bar, para nunca mais vê-la. Quando Scott acende a luz ao chegar em casa, vê-se diante de três policiais; sua mulher foi estrangulada com uma gravata. Todas as supeitas recaem sobre ele: somente a desconhecida, seu único álibi, poderia inocentá-lo – mas como encontrá-la? Estranhamente as testemunhas negam a existência da tal mulher e Scott é condenado. Sua secretária, Carol “Kansas” Richman (Ella Raines), secretamente enamorada do patrão, procura descobrir o verdadeiro culpado com o auxílio do inspector Burgess (Thomaz Gomez), também convencido da inocência do engenheiro. Ao visitar Scott na prisão, Kansas conhece um de seus amigos, o artista plástico Jack Marlowe (Franchot Tone) que se oferece para ajudá-la a encontrar a “dama misteriosa”. Eles conseguem localizar Ann Terry; mas esta não poderá depor no tribunal, porque a morte súbita do noivo perturbou-lhe o juízo; todavia, o chapéu é uma prova suficiente para a defesa de Scott. Para festejar a vitória e esperar Burgess, vão para o apartamento de Marlowe, onde Kansas vê sua bolsa roubada e percebe que ele é o assassino. Marlowe confessa que matou a mulher de Scott, porque ela zombara dele. No momento em que vai estrangular Kansas, Burgess chega e o criminoso se atira pela janela.

Fay Helm e Alan Curtis em A Dama Fantasma

Aurora Miranda em A Dama Fantasma

Cena de A Dama Fantasma

O enredo contém elementos essenciais para um filme noir: o inocente enroscado pelas teias do destino; o ambiente noturno com os detalhes de sombras ameaçadoras; o criminoso paranóico; e, de certa forma, a presença de uma mulher fatal (que é ao mesmo tempo a investigadora), pelo menos durante algum tempo da ação. Na sua busca para salvar o patrão da cadeira elétrica, Kansas, usando seus encantos, persegue o garçom (Andrew Tombes, Jr.) e o baterista Cliff Milburn (Elisha Cook, Jr.), e causa a morte dos dois. Entretanto, nos derradeiros instantes da narrativa, volta a ser a fêmea indefesa, sujeita às forças patriarcais: Marlowe, o assassino, que a ameaça; Burgess, o policial que a protege paternalmente; e Scott, o patrão que vai se casar com ela, recolocando-a no papel passivo e convencional de secretária e esposa.

Cena de A Dama Fantasma

Cena de A Dama Fantasma

O engenheiro assassino “normal”do livro foi transformado em um personagem estereotipado: o artista louco, com mania de grandeza, dores de cabeça, tontura, tique nervoso no olho direito e atelier decorado com esculturas estranhas. Há um momento em que, sentado em uma cadeira, recita um monólogo sobre as mãos e depois se levanta para estrangular o baterista. Neste momento, o seu corpo encobre aos poucos o da vítima e toma conta de toda a tela.

Thomaz Gomes, Ella Raines e Franchot Tone em A Dama Fantasma

Franchot Tone e Ella Raines em A Dama Fantasma

Franhcot Tone em A Dama Fantasma

O filme é, sobretudo, um admirável exercício de estilo. Com seu especial temperamento germânico e ajuda do fotógrafo Ellwood “Woody” Bredell, R. Siodmak recriou o universo de Woolrich quase que inteiramente através de uma direção dinâmica e inventiva. Para se ter uma idéia da mise-en-scène, no momento em que a heroína segue o garçom suspeito pelas ruas escuras e molhadas pela chuva até a estação elevada do metrô, ouve-se somente o ruído dos saltos dos sapatos de ambos. Na plataforma deserta, ele se coloca atrás dela, dando a impressão de que vai empurrá-la para a linha férrea mas, subitamente, aparece uma mulher negra e irrompe o som do trem que está chegando. A perseguição continua silenciosa pelas ruas e quando finalmente Kansas se aproxima do homem para interrogá-lo, ele se volta contra ela raivoso. Alguns transeuntes oferecem-se para defendê-la, seguram o fugitivo, porém ele se esquiva e sai bruscamente de cena. Rangido de freios, gritos e um chapéu rola para o bueiro. Ou seja, os sentimentos de perigo e de tensão são transmitidos para a platéia exclusivamente através do som, luz, montagem e movimentos de câmera – puro cinema.

Ella Raines e Thomaz Gomes em A Dama Fantasma

Ella Raines e Elisha Cook Jr. em A Dama fantasm

Ella Raines em A Dama Fantasma

Elisha Cook Jr. em A Dama Fantasma

Entretanto, a sequência antolológica é a do encontro de Kansas com o baterista. Sentada na primeira fila do teatro, com um vestido de cetim preto e mascando chicletes, ela flerta com o músico. Depois, os dois vão a uma sessão de swing noturna. Para ilustrar a música ensurdecedora, a câmera mostra Kansas maquilando-se diante de um espelho que balança. O clima é de delírio, com os músicos tocando ao lado de muitas garrafas de cerveja. Diante de Kansas sensual e provocante, Cliff executa um solo de bateria frenético, arrebatado até o limite do orgasmo; nestas cenas a angulação, a montagem e a iluminação traduzem tudo visualmente.

Quando Joan Harrison se associou temporariamente à United Artists, R. Siodmak recebeu como encargo da Universal a direção de Férias de Natal / Christmas Holiday / 1944, melodrama reunindo dois astros comumente ligados ao filme musical, Deanna Durbin e Gene Kelly, escolhidos para papéis atípicos. No enredo, baseado em um romance de W. Somerset Maugham (bastante modificado pelo roteirista Herman Mankiewicz), um militar (Dean Harens) recebe carta de sua noiva, dizendo que se casou com outro. Na noite de Natal, seu avião pousa em New Orleans devido a uma tempestade, e o rapaz, muito deprimido, conhece um repórter (Richard Whorf), que o convida para o bordel clandestino de     Mme. Valerie (Gladys George), onde ele encontra uma cantora (Deanna Durbin). Depois de terminar seu número, ela convida o militar para acompanhá-la até uma igreja e alí, cai em prantos. Ele a leva para jantar e ouve sua história. Retrospectos revelam que a jovem foi feliz durante algum tempo do seu casamento até que descobriu que seu marido (Gene Kelly), um jogador inveterado, matara o seu bookmaker para roubá-lo, tendo sido condenado à prisão perpétua. Ela diz a seu ouvinte que se degradou voluntariamente. Por ciúme, o marido foge da prisão, com a intenção de matar sua esposa, que, mesmo sabendo disso, o aguarda ainda com uma devoção cega. Ele está prestes a cometer o ato criminoso, quando é abatido pela polícia

Deam Harens, Richard Whorf e Gladys George em Férias de Natal

Deanna Durbin em Férias de Natal

Gene Kelly e Deanna Durbin em Férias de Natal

Gale Sondegaard, Gene Kelly e Deanna Durbin em Férias de Natal

A filmagem de Férias de Natal foi caótica. Deanna Durbin, brigava violentamente com o produtor Felix Jackson, seu marido e com o diretor, que ela odiava. R. Siodmak procurou em vão ”desglamourizar” a atriz, porém Deanna se obstinou em permanecer ela mesma, recusou maquilagem e vestidos demasiadamente “aviltantes” e acabou por dirigir uma parte de suas próprias cenas sózinha. R. Siodmak só retomou o filme na fase de montagem, para salvar o que era possível salvar. Graças ao seu domínio completo da linguagem cinematográfica, ele tornou o filme razoavelmente atraente, deixando sua marca estilística no conjunto do espetáculo.

As quatro próximas realizações de R. Siodmak, as duas primeiras para a Universal (Dúvida / The Suspect / 1944; Caprichos do Destino / The Strange Affair of Uncle Harry / 1945); a terceira para a RKO (Silêncio nas Trevas / Spiral Staircase / 1945); e a quarta para a Universal-International (Espelho d’Alma / Dark Mirror / 1946) foram dramas de suspense e de mistério, com os quais R. Siodmak alcançou definitivamente uma posição de destaque entre os diretores de cinema de Hollywood.

Robert Siodmak, Charles Laughton e Ella Raines na filmagem de Dúvida

Ella Raines e Charles Laughton em Dúvida

Henry Daniell e Charles Laughton em Dúvida

Robert Siodmak dirige Ella Raines e Charles Laughton na filmagem de Dúvida

Em Dúvida, um homem íntegro (Charles Laughton), gerente sexagenário de uma tabacaria em um subúrbio de Londres no comêço do século, é levado ao assassinato de sua esposa rabugenta e vingativa (Rosalind Ivan), quando se apaixona por uma jovem datilógrafa (Ella Raines). Ele é assediado por um detetive da Scotland Yard (Stanley Ridges) e um vizinho chantagista (Henry Daniell), o qual acaba matando. O detetive arma um plano para fazer com que o gerente confesse seus crimes;

Robert Siodmak, Ella Raines e George Sanders

Ella Raines e George Sanders em Caprichos do Destino

Geraldine Fitzgerald e Ella Raines em Caprichos do Destino

Geraldine Fitzgerald, Robert Siodmak e George Sanders em Caprichos do Destino

em Caprichos dos Destino, um desenhista solteirão (George Sanders) de uma cidade provinciana de New Hampshire, vive na companhia de suas duas irmãs. Uma, (Moyna MacGill), é viúva e dominada pela outra (Geraldine Fitzgerald), mais jovem e bela, que tem uma paixão incestuosa pelo irmão, A vida deles é perturbada quando o irmão se apaixona por uma jovem (Ella Raines) que trabalha com ele em uma fábrica de tecidos. A irmã viúva acolhe a jovem com resignação, mas a outra, faz tudo para destruir a felicidade de seu irmão. Este finalmente tenta envenenar a irmã dominadora, mas o destino intervém, e o final do filme reserva uma surpresa para os espectadores;

Cena de Silêncio nas Trevas

Dorothy McGuire em Silêncio nas Trevas

Dorothy McGuire, George Brent, Rhonda Fleming e Gordon Oliver em Silêncio nas Trevas

Robert Siodmak e Dorothy McGuire na filmagem de Silêncio das Trevas

em Silêncio nas Trevas, na mansão habitada por uma velha senhora viúva e cardíaca, que vive presa ao leito (Ethel Barrymore), seu filho (Gordon Oliver), jovem cínico e volúvel, seu enteado (George Brent), um professor de química, a amante do primeiro e secretária do segundo (Rhonda Fleming), o jardineiro (Rhys Williams) e sua esposa alcoólatra (Elsa Lanchester), a jovem muda (Dorothy MacGuire), que cuida da idosa, é advertida por sua patroa de que deve deixar a casa o mais breve possível, pois um psicopata que mata jovens com alguma enfermidade está agindo nas imediações. A moça aguarda a chegada de um médico (Kent Smith) que, apaixonado por ela, se dispusera a levá-la embora dali. Enquanto ele não chega, ela é atacada pelo homicida, que vem a ser o enteado da velha senhora. Ele vai estrangular a jovem muda, perto de uma escada em espiral, quando sua madrasta o abate a tiros. O choque deste momento faz com que a moça recupere a fala;

Olivia de Havilland, Robert Siodmak e Lew Ayres em Espelho d’Alma

Olivia de Havilland em Espelho d’Alma

Cena de Espelho d’Alma

Lew Ayres, Olivia de Havilland e Robert Siodmak na filmagem de Espelho d’Alma

em Espelho d’Alma, uma mulher suspeita de matar um médico seu namorado, tem uma irmã gêmea idêntica. Quando ambas as gêmeas (Olivia de Havilland) oferecem um álibi para a noite do crime, um psiquiatra (Lew Ayres) é convocado para ajudar um policial (Thomas Mitchell) a solucionar o caso. Através de uma série de testes, o psiquiatra descobre, que uma delas é demente e, no decorrer de sua investigação, apaixona-se pela gêmea inocente. Graças a um estratagema muito bem calculado pelo psiquiatra e pelo policial, a verdadeira culpada se desmascara.

Em todos esses filmes, R. Siodmak demonstrou a sua capacidade de narrar uma história de maneira essencialmente cinematográfica, o seu gôsto pela criação de uma atmosfera inquietante ou sombria em espaços fechados e o seu domínio absoluto dos movimentos de câmera e da iluminação, pois ele era um dos raros diretores que conhecia também os aspectos técnicos de sua profissão a fundo. Sua aptidão fílmica consagrou-o internacionalmente, quando o cineasta realizou o seu segundo filme noir, Assassinos / The Killers / 1946, produzido por Mark Hellinger para a Universal.

Burt Lancaste,r o produtor Mark Hellinger e Robert Siodmak

O preceito de Assassinos é o de que a ambição pelo dinheiro leva à corrupção e à morte. Uma dupla de assassinos de aluguel, Max (William Conrad) e Al (Charles McGraw) chegam à pequena cidade de Brentwood, New Jersey, à procura de Ole Anderson. Conhecido como sueco (Burt Lancaster), ele trabalha em um posto de gasolina. Eles o encontram aguardando-os silenciosamente em um quarto escuro; e não oferece resistência. Ao saber das circunstâncias em que o crime foi cometido, Jim Riordan (Edmond O’Brien), investigador da companhia de seguros responsável pelo pagamento da indenização à beneficiária do falecido – a arrumadeira de um hotel onde o Sueco havia se escondido usando nome falso -, quer descobrir porque a vítima deixou-se matar mansamente pelos dois facínoras.

Edmond O’Brien e Sam Levene em Assassinos

Albert Dekker e Vince Barnett em Assassinos

Sua investigação leva-o ao encontro de várias pessoas que conhecem o passado do Sueco: o detetive Sam Lubinsky (Sam Levene), sua esposa Lilly (Virginia Gilmore) e Charleston (Vince Barnett), um ex-presidiário. Através desses depoimentos, fica sabendo que o Sueco foi obrigado a encerrar a carreira de pugilista por ter quebrado a mão em uma luta e, incitado por uma bela mulher, Kitty Collins (Ava Gardner), se uniu a um bando de ladrões liderados pelo amante dela, Big Jim Colfax (Albert Dekker). Riordan localiza os outros components da quadrilha, Blanky (Jeff Corey) e Dum Dum (Jack Lambert) e, finalmente, chega Colfax e Kitty, desvendando todo o mistério: como Kitty fez o Sueco passar por traidor do grupo após um assalto, enquanto ela e o amante fugiram com o dinheiro roubado, e como, anos depois, Kity e Colfax contrataram dois pistoleiros para matar o Sueco por medida de segurança.

Desenvolvendo o conto de Ernest Hemingway, o filme procura decifrar o enigma da resignação existencial do Sueco, como ele perdeu a vontade de viver. Por intermédio de onze retrospectos acronológicos e com uma obsessão pessoal que excede os interessses da companhia de seguros, Riordan vai descobrindo porque aquele homem abraçou a morte com indifrença. O testemunho das pessoas que o conheceram no passado se completam uns aos outros e o obstinado investigador vai reconstituindo , como um mosaico, o seu destino trágico.

Cena inicial de Assassinos

Charles McGraw e William Conrad em Assassinos

O prólogo – que corresponde exatamente ao conto – é conduzido com admirável precisão cinematográfica, em um clima sombrio e de violência fria criado pela interpretação seca dos atores que forma a dupla de assassinos, pelos diálogos curtos e diretos e pela iluminação claro-escuro (Elwood Bredell) combinada com a profundidade de campo, angulações em câmera alta e baixa e um fundo musical (Miklos Rosza) de alta tensão. Deitado na cama do quarto escuro, o condenado aguenta impassível a chegada dos assassinos. Até que ouve o barulho de passos na escada e percebe um raio de luz infiltrando-se por debaixo da porta. Após alguns segundos de silêncio, a porta se abre brutalmente iluminando o rosto angustiado do Sueco e os dois algozes descarregam suas armas sobre ele.

Burt Lancaster em Assassinos

No primeiro retrospecto, Nick conta a Riordan que, uma semana atrás, o Sueco reconheceu um cliente em um cadillac negro. Depois, disse que estava doente e não voltou mais ao trabalho. No segundo, Riordan procura a beneficiária do seguro, Mary Ellen Daugherty, em Atlantic City e ela lhe revela que, uma tarde, ouviu o Sueco gritando : “Ela foi embora! Ela foi embora!. Charleston tinha razão!”. Mary entrou no quarto onde ele, como um louco, estava quebrando os móveis e o impediu de se atirar pela janela. Em Filadéflia, o detetive Lubinsky explica para Riordan porque o sueco abandonou sua carreira promissora de boxeador – terceiro retrospecto – depois de levar uma surra do adversário por ter quebrado todos os ossos de sua mão direita.

Burt Lancaster e Robert Sidomak na filmagem

Cena de Assassinos

A esposa de Lubinsky, Lilly, antiga namorada do Sueco, revela, em um quarto retrospecto, o encontro fatal do ex-pugilista com Kitty em uma festa no luxuoso apartamento de seu amante. Quando o Sueco entra, Kitty está apoiada no piano com um copo na mão; o vestido longo de cetim preto, os ombros cobertos por sua cabeleira negra, as luvas pretas cobrindo seus antebraços, toda a sua aparência de um erotismo refinado, é a própria imagem da sedução. Enquanto ela canta “The More I Know of Love”, uma lâmpada em forma de vela (espécie de símbolo fálico inflamado), os separa, criando uma composição visual muito evocativa da paixão devastadora que arrastará o Sueco para a morte.

Em um quinto retrospecto, Lubinsky lembra um dos últimos encontros com o Sueco em um restaurante, quando ele se preparava para prender Kitty, suspeita de ter roubado uma jóia de grande valor. Aí aparece o Sueco, assume a culpa de Kitty e Lubinsky é obrigado a prendê-lo. No enterro do Sueco, comparece seu antigo companheiro de cela, Charleston, e vem o sexto retrospecto, um tanto lírico. Charleston dá uma lição de astronomia para o Sueco, mostrando as estrelas que ele observa através das grades enquanto seu companheiro, tendo a mão o lenço de Kitty com desenhos de harpas, recorda-se de sua amada. No decorrer do sétimo retrospecto, Charleston descreve a reunião para preparar o assalto. O Sueco concorda em participar. Charleston se retira e o aconselha a não “ouvir o som das harpas”.

Ava Gardner e Burt Lancaster em Assassinos

Virginia Gillmore, Burt Lancaster e Ava Gardner em Assssinosa

Jeff Corey,Burt Lancaster, Ava Gardner, Albert Dekker em Assassinos

Riordan prossegue sua investigação na biblioteca municipal, onde examina velhos jornais. Durante a leitura do material, aparecem – oitavo retrospecto – as peripécias do audacioso assalto a uma fábrica de chapéus de New Jersey. Para acentuar o caráter jornalístico desta sequência, Siodmak filmou-a sem cortes, em um só movimento de grua apanhando em câmera alta os mínimos detalhes do roubo.

O nono e o décimo restrospecto dizem respeito às lembranças de Blanky, que Riordan encontra moribundo em um hospital. No seu delirio, Blanky se reporta a uma desavença entre o Sueco e Colfax durante um jôgo de pôquer e à partilha do roubo, quando o Sueco rende todo o bando e foge com o dinheiro. Riordan compreende que Blanky foi morto por um outro membro da quadrilha, Dum Dum, e o surpreende no quarto do Sueco em Brentwood.

Edmond O’Brien em Assassinos

Jack Lambert em Assassinos

Graças às informações de Dum Dum, localiza Colfax, que se tornou um cidadão respeitável em Pittsburgh, e finalmente Kitty, que lhe revela, no décimo primeiro e último retrospecto, como persuadiu o Sueco a fugir com ela. Kitty está casada com Colfax: o Sueco foi apenas um instrumento para iludir o resto do bando; porém Dum Dum também descobriu o lôgro; Riordan chega na casa de Colfax, acompanhado por Lubinsky e outros policiais, no momento em que ocorre o tiroteiro entre Dum Dum e Colfax. Um traveling lateral para a direita do patamar da escada mostra, atrás de um balaustre iluminado na melhor tradição expressionista, o cadáver de Dum Dum e depois, estendido sobre alguns degraus, Colfax agonizando. Kitty agarra-se ao pescoço de Colfax e suplica histérica: “Diga para eles que eu não sabia de nada”, mas Colfax finge que não ouve e morre com um cigarro nos lábios contraídos pela dor.

Cena de Assassinos

Todo o filme é marcado por lances de violência e sadismo (a luta de boxe; o primeiro plano da mão deformada; as balas dos assassinos que “rasgaram o corpo do Sueco”; Blanky, um “morto que ainda respira”; o banho de sangue no confronto final entre Dum Dum e Colfax etc.) e pela tendência do herói para a autodestruição, em uma mistura de ingenuidade e masoquismo. E há também o caráter fetichista do amor do Sueco por Kitty, não só na sua idealização romântica dessa mulher, como na maneira pela qual ele acariciava o lenço de cetim que ela lhe deu – a única coisa que ainda possuía quando se entregou passivamente aos seus executores.

Siodmak não pôde resistir às pressões de J. Arthur Rank – que mantinha uma colaboração estreita com a Universal-International e desejava introduzir através da firma americana a nova estrela britânica Phyllis Calvert (a heroína de Amor nas Sombras / Fanny by Gaslight / 1944) no mercado americano. Mediante um contrato mirabolante com a U-I – salário triplicado durante dois anos, mais liberdade para os filmes seguintes etc. – o cineasta aceitou não somente dirigir, mas também atuar como produtor de um dramalhão baseado em um romance de Rachel Field.

Robert Hutton e Phyllis Calvert em Brumas do Passado

Brumas do Passado / Time Out of Mind / 1947, conta a história de um rapaz (Robert Hutton), filho de um armador rico do Maine (Leo G. Carroll), que quer seguir a carreira de músico, contrariando o desejo do pai de torná-lo um capitão de navio. Sua irmã (Ella Raines) lhe devota um amor excessive, mas é da filha da governanta (Phillys Calvert), educada junto com os dois irmãos, que ele recebe uma ajuda concreta. Ela lhe entrega suas economias, a fim de que ele possa sair do domicílio familiar e estudar no Conservatório de Paris. O pai não sobrevive a essa “deserção”. O rapaz retorna da Europa coberto de glória e casado com a filha (Helena Carter) de um banqueiro; porém depois perde a fé no seu talento, quando descobre que sua esposa organizava seus concertos às suas próprias custas, enchendo as salas com seus conhecidos. O rapaz começa a beber, a esposa o abandona, e é a filha da empregada que cuida de seu artista deprimido que, para coroar seu amor enfim assumido, compõe uma sinfonia, cujo triunfo é festejado em Nova York. O diretor verteu para a tela o argumento que lhe deram, assegurando somente a qualidade técnica do espetáculo

Richard Conte e Victor Mature em Uma Vida Marcada

Em 1948, Darry F. Zanuck contratou R. Siodmak para fazer um drama criminal no estilo neo-realista proposto por Louis de Rochemont na 20thCentury-Fox, Uma Vida Marcada / Cry of the City. No enredo, Martin Rome (Richard Conte), gravemente ferido, recebe a extrema-unção em um hospital de Nova York. O tenente Vittorio Candella (Victor Mature), seu amigo de infância, suspeita de que Martin esteja envolvido em um roubo de jóias. Martin consegue fugir da prisão e vai ao escritório de Niles (Berry Kroeger), um advogado inescrupuloso, em cujo cofre encontra as jóias. Niles revela o nome de sua cúmplice, uma massagista corpulenta chamada Rose Given (Hope Emerson). Martin procura Rose e lhe pede dinheiro e duas passagens para a América do Sul em troca das jóias que escondeu no armário de uma estação do metrô; mas Rose é presa. Candella descobre que Martin vai se encontrar com sua noiva Teena (Debra Paget) em uma igreja e perto dali os dois se confrontam.

Berry Kroeger e Richard Conte em Uma Vida Marcada

Richard Conte e Shelley Winters em Uma Vida Marcada

Cena de Uma Vida Marcada

Siodmak trabalhou com o tema muito usado do bom e do mau rapaz oriundos do mesmo meio social, cujos caminhos na vida divergem diametralmente. Rome tornou-se um gangster irrecuperável (seu último gesto empunhando o canivete aberto, parece ser um símbolo disso) e Candella, um incorruptível defensor da lei (“Só ganho 94 dólares e 43 centavos por semana, mas durmo bem”).

Dotado de um charme irresistível, o criminoso manipula os sentimentos daqueles com os quais entra em contato: a enfermeira solteirona que consente em esconder Teena, o condenado com bom comportamento que o ajuda a fugir, a ex-amante que lhe dá abrigo, o médico em situação ilegal que lhe faz os curativos clandestinamente. Cada qual vem a ser colhido pela lei na pessoa de Candella, e devidamente punido. Porém, ao mesmo tempo, o bandido tem que lidar com criaturas mais diabólicas do que ele, como o advogado escroque e a massagista de ameaçadora presença física, cuja especialidade é torturar senhoras ricas para se apoderar de suas jóias.

Richard Conte e Hope Emerson em Uma Vida Marcada

Hope Emerson e Richard Conte em Uma Vida Marcada

Cena de Uma Vida Marcada

Victor Mature em Uma Vida Marcada

Os personagens grotescos, a alienação e a predestinação do criminoso para um fim trágico (pressagiado desde a cena de abertura na sala austera e escura do hospital) e o expressionismo fotográfico – que o diretor consegue conciliar com o naturalismo de algumas tomadas em locação – dão um toque noir ao filme, que classifico -segundo a distinção que criei em “O Outro Lado da Noite: Filme Noir”, como um filme noir impuro, ou seja, com uma negritude mínima. Quem não teve oportunidade de ler o meu livro, que escreví há 15 anos e que se encontra esgotado, encontrará meu conceito de film noir, justificado com mais precisão, nos quatro artigos sobre filme noir que escreví recentemente neste blogue.

ROBERT SIODMAK E SEUS FILMES NOIRS I

February 3, 2017

Ele realizou filmes na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e, episodicamente, na Itália, na Grã Bretanha, na Iugoslávia e na Rumênia. Sua obra se estende do cinema mudo de vanguarda ao superespetáculo em Cinerama. Entretanto, sua reputação repousa essencialmente sobre uma série de filmes noirs rodados durante a época de ouro deste subgênero do drama criminal (1943-1949). Vou abordar detalhadamente cada um deles e, ao mesmo tempo, fazer uma exposição sucinta da trajetória artística do diretor, para dar uma idéia do conjunto da sua obra.

Robert Siodmak

Robert Siodmak nasceu em Dresden, na Alemanha descendente de uma família israelita da Galícia, que fez parte do império austro-húngaro até 1918. O avô de Robert, rabino Abraham Siodmak, vivia em um gueto de Podgorze, do outro lado do Vístula. Sua inflexível ortodoxia causou uma revolta em seu filho caçula: Ignatz deixou o gueto de seus ancestrais para nunca mais voltar. Em 1886, com 16 anos de idade, emigrou para os Estados Unidos onde, depois de trabalhar em vários lugares, instalou-se em Shelby County, perto de Memphis no Tennessee, obtendo a nacionalidade americana em 1892. Porém, sete anos mais tarde, ele voltou para a Alemanha com uma invenção que iria rapidamente fazer sua fortuna: um sistema frigorífico que lhe permitia conservar os ovos até o inverno.

Ignatz fixou residência em Dresden, em uma vila luxuosa na Seidnitzerplatz nº 3 e montou um negócio florescente de importação de ovos russos e polonêses. Nesse mesmo ano, casou-se com Rosa Philippine Blum, filha dos donos da mercearia Blum de Leipzig, que estava à beira da falência. Robert veio ao mundo em 8 de agosto de 1900. Em 1902, nasceu o primeiro irmão de Robert, Kurt (depois Curt), que se tornou romancista, roteirista e diretor. Em 1907, nasceu Werner e em 1913, Rolf, que se suicidaria em 1934.

Ignatz proporcionou uma vida de opulência para a sua família e Rosa, mulher exuberante e de grande beleza, da qual Robert provavelmente herdou o temperamento artístico, suscitava a admiração dos salões. Ela sonhara outrora em se tornar atriz, mas acabou esposa de um comerciante novo-rico com preocupações estritamente materiais. Rosa cercava-se de atores, músicos, escultores, pintores e poetas, organizando em sua casa concertos na “sala de música” e incentivando conversas de alto nível cultural entre seus convidados. Porém o lar dos Siodmak não era feliz e Robert ficaria marcado pelas desavenças, as discussões violentas e as separações repetidas de seus pais. A esta degradação da situação familiar acresceu-se logo a ruína econômica, porque a Rússia fechou suas fronteiras em 1917 e o comércio de Ignatz se desmoronou.

Robert foi um mau aluno, mudou várias vêzes de colégio, e nem a disciplina de ferro de um internato em Bad Kösen, conseguiu domá-lo. De volta a Dresden, matriculado no Drei-Königs-Gymnasium, ele ausentava-se das aulas para ir ao Albert-Theater, onde conseguiu trabalhar como figurante. Sem que seus pais soubessem, frequentou as aulas de arte dramática de Erich Ponto, um sustentáculo do Sächsisches Staatheater, que seria depois ator de cinema. Aos dezoito anos, cansado do mau humor persistente e dos caprichos tirânicos do seu pai alcoólatra, Robert deixa o domicílio familiar. Ele se junta a uma pequena trupe de teatro ambulante, mas seu físico ingrato o impede de se tornar gigante galã. Em 1921, encerrou sua carreira no teatro. Desencantado e com o estômago vazio, ele retorna para Dresde, onde seu pai lhe arruma um emprego de contador no banco dos irmãos Mattersdorff. Robert se inicia nos segredos da bôlsa e, dentro de seis mêses, já é diretor do banco Moritz Schermer. Ele ganha uma pequena fortuna, porém a boa chance não dura: em novembro de 1923 o Reichsmark é estabilizado e a deflação o arruina. Percorrendo o subúrbio de Dresden de bicicleta, tenta vender cigarros russos e roupas íntimas femininas. Neste mesmo ano, funda uma editora, porém esta não resiste à concorrência, e Robert fica de novo sem um centavo.

Os irmãos Siodmak: Robert e Kurt

Em 1925, Kurt e Robert vão para Berlim. Kurt continua seus estudos e obtém um diploma de matemático, mas deseja seguir uma carreira de escritor. Eles conseguem vender “Die Brucker” (Os Irmãos), uma história imaginada conjuntamente pelos dois, para o departamento de dramaturgia da UFA. Logo depois, Robert conhece o Dr. Herbert Nossen, importador-distribuidor de filmes americanos e redige para ele notadamente os intertítulos alemães de Dois Cavaleiros Árabes / Two Arabian Knights / 1927 de Lewis Milestone.

Por acaso, Robert tem um tio no meio cinematográfico, o produtor Heinrich Nebenzahl cujo filho, Seymour Nebenzal, havia fundado em 1924 com Richard Oswald a companhia Nero-Film, firma produtora de obras prestigiosas como M, O Vampiro de Dusselforf / M / 1931 e O Testamento do Dr. Mabuse / Das Testament des Dr. Mabuse / 1933 de Fritz Lang; Guerra! Flagelo de Deus / Westfront 1918 / 1930, A Tragédia da Mina / Kameradschaft / 1931 e Atlantide / Die Herrin von Atlantis / 1932 de G. W. Pabst, etc. Robert remontou com sucesso para os Nebenzahl vários filmes de aventuras de Harry Piel (apelidado de “o Douglas Fairbanks alemão”) enquanto Kurt, por sua vêz, começou a publicar seus primeiros romances de ficção-científica, um gênero então novo.

Seymour Nebenzahl

Na qualidade de repórter de um jornal, Kurt assiste à filmagem de Metrópolis / Metropolis / 1927, superespetáculo futurista de seis milhões de marcos realizado nos estúdios da UFA de Neubabelsberg por Fritz Lang. Kurt e sua esposa Henrietta apareciam nesta grande produção como figurantes, participando da cena em que Brigitte Helm – o robô maléfico – é queimado pela massa de operários enfurecidos. Robert também aproveitava todas as chances de se infiltrar no palco de filmagem, para observar o trabalho do grande mestre. Em 1927, ele atua como assistente de direção, primeiramente do cineasta dinamarquês Alfred Lind, em um filme da Nero intitulado Tragödie Im Zirkus Royal e depois, de Kurt Bernhardt, em um melodrama que se desenrola no ambiente da Legião Estrangeira, Das Letzte Fort ou Die Zitadelle Von Tunis.

Em 1929, em uma mesa no terraço do Romanisches Café, um dos centros mais pitorescos da fauna artística berlinense, alguns jovens decidem rodar em conjunto um filme que fugiria dos esquemas comerciais estabelecidos. Os nomes desses rapazes são conhecidos, eles se reencontrarão mais tarde todos em Hollywood: os irmãos Siodmak, Billy Wilder, Edgar G. Ulmer, Fred Zinnemann e Eugen Schüfftan. A eles se junta o crítico e dramaturgo Dr. Moriz Seeler, coordenador do empreendimento, que fundou uma companhia produtora, Filmstudio 29, para a consecução do projeto. A idéia era fazer uma reportagem sobre o domingo dos berlinenses (daí o título Menschen Am Sontag), filmando ao ar livre nos parques e ruas da cidade.

Cena de Menschen Am Sontag

Segundo Hervé Dumont, autor do melhor livro sobre Robert Siodmak (Robert Siodmak, le maître du film noir, L ‘Age D’Homme, 1981), do qual extraí muita informação para a exposição do currículo fílmico do diretor, é difícil estabelecer a parte exata das responsabilidades, pois cada um dos membros da equipe tentou em retrospectiva assumir o crédito pela realização. Para Dumont, a versão mais verossímel é a de que Rochus Gliese (muito conhecido como o diretor de arte de Aurora / Sunrise / 1927) começou a dirigir o filme, pois sua presença tornou-se necessária para dar mais confiança ao financiador Nebenzahl. Robert Siodmak e Edgar G. Ulmer funcionaram como assistentes de câmera de Eugen Schüftan. Billy Wilder participou dando sugestões na elaboração do roteiro com base em uma idéia de Kurt Siodmak. Após uma dezena de dias de filmagem, Gliese e Ulmer abandonaram a produção. Fred Zinnemann, cuja única função era carregar a câmera e cuidar do foco, retirou-se pouco depois. Robert Siodmak e Schüfftan prosseguiram com a filmagem e é indiscutivelmente a eles que deve ser atribuída a responsabilidade maior pela realização de Menschen Am Sontag.

Em fevereiro de 1930, Robert Siodmak foi contratado primeiramente para o departamento de dramaturgia da UFA e depois obteve autorização para realizar um curta-metragem de 12 minutos. Der Kampf Mit Dem Drachen ou Die Tragödie Des Untermieters (O Combate com o Dragão ou A Tragédia do Sublocatário), farsa surrealista de vanguarda escrita por seu irmão Kurt. A trama era bem simples, mas permitia experimentações formais as mais desenfreadas. Um sublocatário (Felix Bressart) penetra em um corredor sombrio e estreito, cujas paredes são cobertas de avisos: “Proibido”! – “Paragr. 68 – as venezianas devem ficar fechadas para proteger os móveis do sol”, “Paragr. 141 – é estritamente proibido fazer barulho, cantar, roncar, fumar, fazer bagunça ou receber visitas femininas” e assim por diante. Subitamente, o sublocatário explode de raiva, arranca todas as cobertas dos móveis, acende todas as lâmpadas, abre todas as janelas, salta e dança em cima do mobiliário. Quando a locatária enlouquecida (Hedwig Wangel) – “o dragão”- aparece, ele a amarra com sua rede de dormir e, pulando selvagemente, desenrola rolos de papel higiênico pelo seu quarto. A locatária está quase tendo uma síncope. Ele então se arma de um copo gigante de cerveja que pertencera ao falecido esposo do “dragão” e quebra este símbolo da pequena burguesia wilhelmiana em mil pedaços com um martelo. A mulher morre no local. No tribunal, o juiz absolve o sublocatário. Ele protesta: “Mas eu matei alguém!” – “Pouco importa”, lhe responde o magistrado e depois, dirigindo-se maliciosamente para o público, ele acrescenta: “Nós sabemos como é: nós todos já fomos inquilinos”.

Aribert Mog e Brigitte Horney em Abschied

Heinz Human em Der Mann, Der Seinen Mörder Sucht

Anna Sten e Emil Jannings em Tempestade Paixões

Lilian Harvey e Hans Albers em Adorável Sedução

Em seguida, R. Siodmak fez cinco filmes de longa-metragem para a UFA: Abschied (Adeus) / 1930 (descrição amarga de uma velha e deteriorada pensão burguêsa onde várias pessoas medíocres ou mesquinhas se cruzam em uma promiscuidade sufocante, que acaba provocando a separação de um jovem casal (Brigitte Horney / Aribert Mog); Der Mann, Der Seinen Mörder Sucht / (O Homem que procura seu Assassino) / 1930 (comédia macabra na qual um rapaz (Heinz Rühmann), cheio de dívidas, resolve se suicidar. Mas como a simples visão de um revólver o aterroriza, ele contrata um ladrão para matá-lo em troca do que este se beneficiaria de um terço do seguro de vida de sua vítima. Entretanto, nas poucas horas que lhe restam de vida, ele conhece a mulher dos seus sonhos, e não quer mais morrer); Voruntersuchung / 1931 (Instrução Preliminar) / 1931 (drama criminal que gira em torno do assassinato de uma mulher, do qual é acusado um jovem estudante (Gustav Fröhlich), amigo íntimo do filho do juiz de instrução (Albert Basserman) e apaixonado pela filha deste. No curso da investigação, o filho do juiz torna-se o principal suspeito); Tempestade de Paixões / Stürme der Leidenschaft / 1931 (história sombria de ciúme passada no bas-fonds berlinense envolvendo um ladrão brutamontes de bom coração (Emil Jannings) récem-libertado da prisão; uma russa volúvel (Anna Sten) por quem ele está perdidamente apaixonado; e os dois amantes sucessivos dela, um fotógrafo de nús e assassino de aluguel e o jovem – filho de seu melhor amigo morto em uma prisão em massa -, que ele retirou de uma casa de correção; Adorável Sedução / Quick, König Der Clowns / 1932 (comédia baseada no tema da identidade trocada: uma jovem afortunada, ociosa e divorciada (Liliam Harvey), apaixona-se por um palhaço famoso (Hans Albers). Ele também fica gostando dela, mas tenta conquistá-la sem a maquilagem, fazendo-se passar pelo diretor do teatro).

Os três últimos filmes tiveram versões francêsas, respectivamente, Entre Duas Mulheres / Autor d’une Enquête, com Pierre Richard-Willm e Annabella; Tumultos / Tumultes com Charles Boyer e Florelle; e Quick com Lillian Harvey e Jules Berry.

Descontente com a orientação política da UFA e as intromissões de seus produtores no seu trabalho, R. Siodmak transferiu-se para Deutsche Universal-Film A.G. Esta firma, originariamente uma filial da Universal Pictures fundada pelo alemão Carl Laemmle nos Estados Unidos, era então dirigida pelo húngaro Joe Pasternak (diretor de produção) e pelo tcheco Paul Kohner (diretor artístico). Kohner acolheu R. Siodmak de braços abertos, dando-lhe liberdade para filmar o que quisesse. Ele escolheu um romance de Stefan Zweig, Brennendes Geheimnis (Segredo Queimado) / 1933, cujo centro das atenções é um menino de treze anos (Hans Joachim Schaufuss) confrontado com as mentiras, traições e segredos inconfessáveis dos adultos (o pai, (Alfred Abel), a mãe (Hilde Wagener) e um Casanova notório (Willy Forst). O filme estréia somente com o nome dos atores. Um telefonema proveniente do escritório de Goebbels havia intimado a Deustsche Universal a eliminar dos créditos todos os nomes israelitas, sob pena de o filme ser proibido. Uma semana depois, Brennendes Geheimnis, mesmo privado dos seus créditos comprometedores, desaparece de cartaz em todo o Reich, sem outra explicação. Desde então os acontecimentos se precipitam. R. Siodmak, sua companheira Bertha Odenheimer (com quem se casaria e viveriam 40 anos juntos), e K. Siodmak partem para a França. Todos os escritos de Kurt são confiscados pela Gestapo.

Pierre Brasseur e Mireille Ballin em Le Sexe Faible

Albert Préjean e Danielle Darrieux em La Crise est Finie

Siodmak encontra trabalho rapidamente na sucursal francêsa da Nero-Film, que seu primo Seymour Nebenzahl dirige. Para a Nero, R. Siodmak fez: Le Sexe Faible / 1933 comédia na qual uma milionária sul americana divorciada (Jeanne Cheirel) com a ajuda do seu mordomo (Victor Boucher), consegue casar seus filhos ainda solteiros e reconciliar os que já são casados; La Crise est Finie / 1934, comédia musical mostrando como um grupo de artistas itinerantes sem dinheiro, entre eles, o pianista (Albert Préjean) e a dublê da vedette (Danielle Darrieux) conseguem montar uma revista em um teatro abandonado da capital movidos pelo otimismo; Vida Parisiense / La Vie Parisienne / 1935 comédia sobre um brasileiro truculento e bem humorado (Max Dearly) que foi a Paris em 1900 e se relacionou com a estrela do espetáculo. Ele retorna trinta e cinco anos depois, acompanhado de seu filho (Georges Rigaud) e de sua linda neta (Conchita Montenegro), que vem a ser cortejada por todos. O filho muito puritano é contra o casamento de sua filha; mas acaba convertido à vida parisiense. A Vida Parisiense teve versão inglêsa com Neil Hamilton no lugar de Georges Rigaud.

Siodmak dirige La Vie Parisienne

Conchita Montenegro

Entre 1934 e 1936, o nome de R. Siodmak apareceu como supervisor nos créditos de dois filmes, a comédia Le Roi des Champs Elysées / 1934 (com Buster Keaton) e o musical Le Grand Refrain / 1936 (com Fernand Gravey). Entretanto, como revelou Hervé Dumont, baseado em informação de Jean Delannoy, o montador do filme, Le Roi des Champs Elysées, produzido por Nebenzahl nos estúdios de St. Maurice, foi realizado conjuntamente por Siodmak e Max Nossek. Nossek filmava de dia e R. Siodmak à noite; já em Le Grand Refrain, produzido pela Métropa-Film, R. Siodmak realmente supervisionou o trabalho do diretor estreante Yves Mirande, conhecido autor de peças de vaudeville.

Edwige Feuillère e Fernand Gravey em Mister Flow

Em 1936, R. Siodmak dirigiu, para o produtor grego Nicolas Vondas, Mister Flow ou Les Amants Traqués, adaptação de um romance de Gaston Leroux em cuja trama um advogado ingênuo (Fernand Gravey), torna-se cúmplice do temível ladrão Mister Flow (Louis Jouvet), “o homem das mil caras”, graças a uma chantagem depois de cair nas malhas da sua perturbadora assistente (Edwige Feuillère) que, ao final, se apaixona por ele.

Voltando a prestar serviço à Nero-Film, R. Siodmak filma Le Chemin de Rio ou Cargaison Blanche / 1936, drama ilustrando uma reportagem sobre o tráfico de brancas com Käthe von Nagy no papel de uma jornalista que se emprega como dançarina em uma boate e ali encontra um colega do jornal concorrente (Jean-Pierre Aumont). Os dois vivem momentos perigosos a bordo de um transatlântico em rota para o Rio de Janeiro, depois que sua identidade é descoberta pelos bandidos, os quais eles pretendem que sejam presos. Em todos esses anos, a Nero-Film na verdade aproveitou-se da situação precária de emigrado de R. Siodmak, para lhe impor assuntos de filmes, e lhe pagar apenas uma parte de seu salário.

Após Le Chemin de Rio, o cineasta rompe com seu primo Nebenzahl e investe suas economias na aquisição dos direitos de um livro de Oscar-Paul Gilbert, que combinava os atrativos de um romance de aventuras com uma pintura de caracteres particularmente corrosiva. O enredo de Ódio / Mollenard / 1937 tinha como personagem principal o capitão de longo curso e traficante de armas (Harry Baur), que volta ao lar depois que uma vingança destruiu seu navio. Doente e paralítico, sofre a crueldade fria de sua esposa (Gabrielle Dorziat), sem poder reagir. Arrancado subrepticiamente de sua casa pelos seus homens, ele morre como havia sonhado, em pleno mar. Apoiado por um produtor corajoso e inteligente, Edouard Corniglion-Molinier e pela distribuidora Pathé Consortium Cinéma, R. Siodmak realizou um dos melhores filmes que fez na França. Os outros foram La Crise est Finie e Pièges.

Marie Déa e Maurice Chevalier em Ciladas

Pièges / 1939 foi exibido no Brasil com o título em português de Ciladas. Neste filme, a polícia investiga o desaparecimento de onze dançarinas, após responderem a pequenos anúncios de jornais em forma de poema. A amiga (Marie Déa) de uma delas, colabora com a polícia. Ela começa a responder sistematicamente aos anúncios, e a cada encontro se depara com um tipo estranho como o costureiro louco (Erich von Stroheim) e um mordomo (Jacques Varennes) envolvido com tráfico de mulheres brancas. Um dono de boates e grande sedutor (Maurice Chevalier), torna-se um dos suspeitos, mas a jovem descobre que o verdadeiro assassino é o sócio (Pierre Renoir) deste último, um maníaco sexual com uma idéia fixa. A apresentação do título nos créditos dá o tom: uma sombra ameaçadora aproxima-se de uma caixa do correio e aparece, em primeiro plano, uma carta endereçada à polícia, contendo um poema curto, que termina com as palavras “você pagará pela última dança”. A partir daí, a intriga evolui em um esquema de filme de episódios, levando o público a uma série de pistas falsas. O mais curioso é o epísódio no qual a jovem “detetive” se apresenta como manequim ao ex-grande costureiro, cuja demência, de início inofensiva – ele mostra sua coleção de moda diante de uma sala vazia e fala com as cadeiras com uma voz sussurrante -, torna-se subitamente furiosa: ele põe fogo no ateliê e tenta arrastar a moça para a morte.

Pierre Renoir e Marie Déa em Ciladas

Siodmak dirige Erich von Stroheim em Ciladas

Antes de partir para os Estados Unidos, R. Siodmak ajudou a terminar Ultimatum / Ultimatum / 1938 (com Erich von Stroheim e Dita Parlo), depois que Robert Wiene teve que se afastar da filmagem por motivo de uma doença grave e supervisionou o trabalho do diretor novato, Géo Kelber em Les Frères Corses / 1938 (com Pierre Brasseur e Jean Aquistapace), mas exigindo que seu nome não constasse dos créditos, porque não gostou das tolices do argumento, que não era compatível com o romance homônimo de Alexandre Dumas. Em 31 de agosto de 1939, o casal Siodmak embarca a bordo do navio francês “Champlain”, rumo à América, onde Kurt e Henrietta já se encontravam desde 1937. No dia seguinte, estoura a Segunda Guerra Mundial; a travessia se faz de luzes apagadas por causa dos submarinos.

Para Hollywood, R. Siodmak é um desconhecido. Seus filmes só haviam sido exibidos em cinemas de arte de Nova York. Seu agente, Paul Kohner, velho conhecido de Berlim, tenta em vão lhe arranjar trabalho. Kurt, que conseguira prestar algum serviço para a Paramount, pede ao chefe do estúdio, William Le Baron, que contrate seu irmão Robert para dirigir Aloma of the South Seas, cujo roteiro ele acabara de redigir. Le Baron oferece a R. Siodmak um contrato de dois anos, porém sai do estúdio pouco depois, e R. Siodmak passa seis mêses recebendo seu cheque de pagamento sem trabalhar. O filme seria realizado por Alfred Santell e lançado em dezembro de 1941, tendo sido exibido no Brasil com o título de Aloma, a Virgem Prometida.

Finalmente, por intermédio de seu agente, R. Siodmak fica conhecendo Preston Sturges e este, pelo telefone, fala com Sol C. Siegel, produtor da Republic contratado temporariamente pela Paramount como supervisor de westerns “B” e filmes para complemento de programa. Imediatamente, Siegel atende o pedido do amigo e assim surgiram os primeiros filmes americanos do diretor alemão emigrado: O Segredo da Enfermeira / West Point Widow / 1941 e O Segredo do Professor / Fly by Night / 1941.

No primeiro filme, uma enfermeira (Anne Shirley) mantém em segredo sua filha ainda bebê, porque fôra casada com um craque do futebol do Exército e depois anulara o casamento, a fim de que ele pudesse prosseguir sua carreira na Academia Militar de West Point, que não aceitava cadetes casados. O rapaz lhe prometeu que se casaria de novo com ela depois que se formasse, porém, sem saber da existência da filha, fica noivo de outra. Ao descobrir seu segrêdo, um dos médicos do hospital (Richard Carlson) consola a mãe solteira, oferece-se para assumir a paternidade da criança, e lhe propõe casamento.

Richard Carlson e Anne Shirley em O Segredo do Professor

No segundo filme, um jovem médico (também interpretado por Richard Carlson) é forçado a dar carona para um fugitivo de um sanatório, que tenta desesperadamente convencê-lo de que é o assistente do inventor de uma arma denominada G-32. Ele diz que foi sequestrado por espiões alemães que estão atrás da invenção. O médico o leva para o seu quarto de hotel e, quando vai atender a um telefonema, o homem é assassinado com sua faca cirúrgica. A partir daí, é o médico que se torna um fugitivo, sendo perseguido pela polícia e pelos espiões ao mesmo tempo. Na sua fuga, ele leva uma desenhista (Nancy Kelly) com refém e, é claro, eles se apaixonam. Não conheço o primeiro filme mas pude ver o segundo e achei que é um espetáculo rápido, divertido do começo ao fim, com situações rocambolescas que lembram os filmes de perseguição hitchcockianos como, principalmente, Os 39 Degraus / The 39 Steps / 1935.

Em 1942, Sol Siegel “emprestou” R. Siodmak para a 20thCentury-Fox, onde ele realizou, sem entusiasmo (como disse Hervé Dumont), The Night Before the Divorce, comédia sobre desventuras sentimentais de um casal (Lynn Bari, Joseph Allen Jr.) que decidiu se separar. Depois da separação, ela sai com um chefe de orquestra (Nils Ashter) e ele com uma loura (Mary Beth Hughes), que conhecera jogando golfe. Um policial (Truman Bradley), amigo de ambos, não se conforma com o divórcio deles. Quando o músico aparece morto, o policial acusa seu amigo do crime, mas tudo não passa de um esquema para reunir o casal novamente.

De volta à Paramount, R. Siodmak fez Meu Filho Não se Vende / My Heart Belongs to Daddy, comédia romântica permanentemente agradável que se inicia quando um chofer de taxi (Cecil Kellaway) que conduz uma jovem grávida (Martha O’Driscoll) é obrigado a parar seu carro por causa da neve na estrada. Eles se refugiam na residência de um astrofísico de renome e viúvo (Richard Carlson). A moça entra em trabalho de parto e o motorista ajuda-a a dar à luz. Estupefacto, o cientista se embebeda e depois tem que explicar o acontecimento para sua mãe (Florence Bates) e para as cunhadas (Velma Berg, Frances Gifford), que vivem com ele, como a parturiente e o bebê entraram no quarto delas. No dia seguinte o chofer é procurado na sede da companhia de taxi pelos parentes da moça, um casal de granfinos que pretende obter a custória de seu neto, pois a jovem era viúva do filho deles. Várias complicações ocorrem quando o cientista contrata o chofer como mordomo e começa a namorar a moça.

O filme derradeiro de R. Siodmak para Sol Siegel, desta vez nos estúdios da Republic, Doce Lembrança / Someone to Remember / 1943, era um drama humano e emocionante sobre uma senhora de idade(Mabel Page), viúva, cujo filho desaparecera anos atrás, que se recusa a deixar o apartamento em que vive em um hotel residencial, quando o imóvel é comprado por uma universidade, para ser transformado em dormitório de alunos. Ao contrário de outros inquilinos, o apartamento onde mora é de sua propriedade, e não quer sair de lá, porque está convencida de que seu filho, que fugira de casa por causa de uma briga com o pai já falecido, há de voltar um dia. A velha senhora continua a viver no prédio depois que ele se torna dormitório da universidade e eventualmente se afeiçoa por um jovem estudante (John Craven), que ela acredita que seja seu neto. Quando fica sabendo que o pai do rapaz virá visitá-lo, a idosa se prepara para se reunir com o homem que está convencida de que é seu filho há tanto tempo perdido. Ela morre antes do encontro e depois ficamos sabendo que o filho morrera muitos anos atrás em uma briga. 0 falecido marido dela sabia da verdade mas, para poupar a esposa, deixou que ela tivesse a esperança de que o filho retornaria algum dia.

O contrato com a Paramount expirou no outono de 1940 e na esperança de encontrar um trabalho mais interessante, R. Siodmak procurou o produtor Henry Blanke da Warner Bros., trazendo consigo uma história policial, “The Pentacle”, que ele esboçara com a ajuda de um dramaturgo berlinense, Alfred Neumann, autor da peça “The Patriot”, que deu origem ao filme perdido de Ernst Lubitsch. Interessado, Blanke submeteu o manuscrito ao seu departamento de roteiro. O parecer foi favorável, mas Harry Warner se opôs categoricamente à contratação de R. Siodmak. Apos muita negociação, o cineasta, decepcionado, cedeu sua história por 35 mil dólares e o filme, finalmente intitulado Conflitos d’Alma / Conflict / 1945 foi confiado a Kurt Bernhardt (agora Curtis Bernhardt), do qual R. Siodmak havia sido assistente em 1929.

Foto para divulgação de O Filho de Dracula

Graças à influência de K. Siodmak, adquirida na Universal após sua colaboração em uma série de filmes de horror de sucesso, R. Siodmak, assinou um contrato de sete anos com o referido estúdio. Sua primeira tarefa foi filmar O Filho de Drácula / Son of Dracula / 1943, baseado em uma história de Kurt, situada no Sul dos Estados Unidos, nas plantações pitorescas da Lousiana, onde o Conde Alucard (Lon Chaney Jr.) chega convidado para uma recepção organizada na propriedade de Dark Oakes, pela jovem (Louise Allbritton), que ele, conhecera em Budapeste. Embora não tivesse afinidade com o gênero como seu irmão, R. Siodmak fez o melhor que pôde, criando uma atmosfera de horror gótico e um efeito de transição para vampiro muito especial com o auxílio de um especialista na trucagem, John P. Fulton. Como era praxe tratando-se de um filme B, R. Siodmak só teria no máximo três semanas de filmagem, mas terminou o filme em quinze dias e utilizou apenas 6 mil metros de película dos 20 mil metros habitualmente permitidos, conquistando a confiança de Ford Beebe, conhecido diretor de seriados, então atuando como produtor

Maria Montez em Mulher Satânica

Todavia, o segundo filme para o qual foi designado, não modificou sua situação profissional, a não ser a oportunidade de fazer seu primeiro filme em cores, Mulher Satânica / Cobra Woman / 1943, aventura tropical desenrolada em um arquipélago imaginário do Oceano Índico, estrelada pelo trio Maria Montez, Jon Hall e Sabu. Com sua eficiência habitual, o diretor conduziu a ação em um rítmo rápido, construindo sequências empolgantes, entre elas, aquela em que a sacerdotiza cruel e sanguinária designa as próximas vítimas do vulcão. O filme obteve sucesso como entretenimento e rendeu um bom lucro para a Universal.

Apesar de ter tido um aumento de salário, R. Siodmak se desesperava por não ter tido ainda oportunidade de abordar os temas que lhe interessavam até que sua boa fada apareceu sob os traços da produtora Joan Harrison. Graças a ela, o cineasta pôde realizar seu primeiro filme noir.

PRODUÇÕES ANGLO-AMERICANAS NOS ANOS 50

January 20, 2017

Um grande problema para a indústria de cinema britânica desde os seus primórdios foi o tamanho da dominação de Hollywood sobre suas telas.
É claro que esse problema não era unicamente britânico, porém lá foi muito exacerbado pelo fato de que a Inglaterra e a América do Norte compartilhavam um mesmo idioma dispensando a necessidade de se fazer dublagens custosas ou subtitulagem dos filmes americanos.

Em 1926, os filmes programados nos cinemas britânicos eram quase que exclusivamente americanos. No mesmo ano, 37 filmes inglêses competiam com mais de 500 filmes americanos importados, que eram alugados por pacote e no escuro.

Em janeiro de 1927, o Govêrno Britânico encaminhou ao Parlamento um projeto de lei, o Cinematograph Films Act (que se tornou lei em dezembro), obrigando os distribuidores a alugar e os exibidores a exibir um mínimo ou percentagens de filmes britânicos: uma cota de 7,5% para os distribuidores e de 5% para os exibidores. Em 1936, ambas as cotas foram elevadas para 20%. O Cinematograph Films Act de 1948 extinguiu a cota devida pelos distribuidores por fôrça do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), que só admitiu cotas para os exibidores. A cota destes foi aumentada para 45%, sendo depois reduzida para 30% em 1950, permanecendo neste nível até ser abolida em 1983.

Entretanto, nada impedia que as companhias de cinema americanas formassem suas próprias unidades de produção de filmes baratos e feitos às pressas na Inglaterra, para cumprir suas cotas. Com a finalidade de pôr fim ao abuso desses chamados quota quickies, o Govêrno Britânico decidiu que somente filmes de alta qualidade poderiam preencher as cotas, mas como não disse precisamente que tipo de qualidade, ela teve que ser estabelecida em termos de custo, ou seja, os filmes deveriam ter um custo mínimo de 7.500 libras, com escassa consideração a respeito de seu conteúdo.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra estava pagando à América uma média de 7 milhões de libras (28 milhões de dólares) anualmente por aluguel de filmes e não havia restrições quanto ao montante que os distribuidores americanos poderiam remeter para o seu país. Porém a necessidade de salvaguardar sua balança de pagamentos, quando irrompeu o conflito mundial, obrigou o Govêrno Britânico a impor limites. Em 1940, as remessas de lucros para os Estados Unidos foram reduzidas para 4.8 milhões de libras e, em 1941, para 5.7 milhões de libras. Em 1947, ocorreu nova crise na balança de pagamentos e, entre outras medidas para solucioná-la, o Govêrno impôs uma taxa alfandegária de 75% sobre os filmes importados.

A indústria de cinema americana irritou-se e suspendeu a exportação de seus filmes para a Inglaterra. Contudo, em março do ano seguinte, foi assinado um acordo cinematográfico anglo-americano, revogando a taxa e permitindo que as companhias de cinema americanas remetessem anualmente 17 milhões de dólares (cerca de 3 milhões de libras) de seus rendimentos. Os lucros não transferíveis, ficariam bloqueados, mas poderiam ser reinvestidos na indústria cinematográfica britânica.

Após o desmantelamento do sistema de estúdio nos Estados Unidos com a decretação do “divórcio” entre produção-distribuição e exibição e a competição crescente da televisão, a “runaway production” se espalhou pela França, Espanha, Itália bem como pela lnglaterra, onde as companhias americanas foram incentivadas por dois fatôres: os custos baixos nesses países e o subsídio para a produção de filmes britânicos instituído pelo Eady Levy, um imposto que começou a ser recolhido em 9 de setembro de 1950, e foi depois incorporado ao Cinematograph Films Act de 1957.

Sir Wilfred Eady

O imposto recebeu o apelido de Eady, nome do Segundo Secretário do Tesouro, Wilfred Eady, que delineou o esquema juntamente com o presidente da Câmara de Comércio, Harold Wilson, e consistia no seguinte: em troca de uma redução na taxa de entretenimento (Entertainment Duty), os exibidores concordaram em pagar um imposto sobre o preço de cada ingresso de cinema: este imposto era depositado no British Film Production Fund e subsequentemente partilhado entre os produtores de filmes britânicos na proporção de suas receitas de bilheteria.

Para encorajar o investimento dentro do país, a Câmara de Comércio definiu o que era um filme britânico. Ele tinha que ser produzido por uma companhia britânica, filmado em um estúdio situado na Comunidade Britânica de Nações (British Commonwealth) ou na República da Irlanda, e tinha que pagar 75% dos custos trabalhistas do filme, excluindo a remuneração de uma pessoa, ou 80%, excluindo as remuneracões de duas pessoas, uma das quais tinha que ser um ator ou uma atriz. Isto permitiu que uma companhia de Hollywood fizessse um filme internacional na Inglaterra, com produtor, diretor, e até dois de seus astros americanos. e ainda assim ser classificado como britânico para propósito de cotas. A mesma definição de filme britânico foi usada quando o British Film Fund foi instituído em 1950.

Em contraste com os dias dos quota quickies nos anos trinta, a tendência predominante nos anos cinquenta era fazer filmes de orçamento alto, que agradassem tanto o público americano quanto o britânico.

Assim, a Warner pôde produzir através de sua subsidiária britânica Warner Bros. – First National Ltd.: Pavor nos Bastidores / Stage Fright / 1950, direção de Alfred Hitchcock com Jane Wyman, Marlene Dietrich e Richard Todd nos papéis principais; Falcão dos Mares / Captain Horatio Hornblower R.N. / 1951, direção de Raoul Walsh com Gregory Peck, Virginia Mayo e Robert Beatty; A Tia de Carlitos / Where’s Charley / 1952, direção de David Butler com Ray Bolger, Allyn Ann McLerie e Robert Shackleton; O Pirata Sangrento / The Crimson Pirate / 1952, direção de Robert Siodmak com Burt Lancaster, Nick Cravat e Eva Bartok; Sua Majestade, o Aventureiro / His Majesty O’Keefe / 1954, direção de Byron Haskin com Burt Lancaster , Joan Rice e André Morell; Minha Espada, Minha Lei / The Master of Ballantree / 1953, direção de William Keighley com Errol Flynn, Roger Livesey, Beatrice Campbell e Anthony Steel.

Elizabeth Taylor e Robert Taylor em Traidor

Na MGM-British a responsabilidade principal de recriar o estilo visual suntuoso da companhia ficou a cargo de técnicos renomados como o diretor de fotografia Freddie Young, o diretor de arte Alfred Junge e a figurinista Elizabeth Haffenden, surgindo os filmes, rodados no seu estúdio em Elstree: Traidor / Conspirator / 1949, direção de Victor Saville com Robert Taylor, Elizabeth Taylor e Robert FlemIng; Romance de uma Esposa / The Miniver Story / 1950 (continuação de Rosa da Esperança / Mrs. Miniver / 1942), direção de H.C. Potter com Greer Garson, Walter Pidgeon e Leo Genn; Londres à Meia-Noite / Calling Bulldog Drummond / 1951, direção de Victor Saville com Walter Pidgeon, Margaret Leighton e David Tomlinson; Caminhos da Noite / The Hour of 13 / 1952, direção de Harold French com Peter Lawford, Dawn Addams e Roland Culver; Nunca Me Deixes Ir / Never Let Me Go / 1953, direção de Delmer Daves com Clark Gable, Gene Tierney e Bernard Miles; a trilogia de grandes espetáculos de aventura histórica, dirigidos por Richard Thorpe e protagonizados por Robert Taylor: Ivanhoe, o Vingador do Rei / Ivanhoe / 1953 (com Elizabeth Taylor, Joan Fontaine, George Sanders); Os Cavaleiros da Távola Redonda / Knights of the Round Table / 1954 com Taylor, Ava Gardner e Mel Ferrer e A Coroa e a Espada / Quentin Durward / 1955 com Taylor, Kay Kendall e Robert Morley; O Belo Brummel / Beau Brummel / 1954, direção de Curtis Bernhardt com Stewart Granger, Elizabeth Taylor, Peter Ustinov e Robert Morley; A Encruzilhada dos Destinos / Bhowani Junction /1956, direção de George Cukor com Stewart Granger, Ava Gardner e Bill Travers; Convite à Dança / Invitation to the Dance / 1956, direção de Gene Kelly; O Céu em teu Amor / Barretts of Wimpole Street / 1957, direção de Sidney Franklin com Jennifer Jones, John Gieguld e Bill Travers.

Glynis Johns, James Robertson Justice e Richard Todd em Entre a Espada e a Rosa

A RKO co-financiou e distribuiu os filmes britânicos da Walt Disney Productions e da Coronado Films. A primeira produção britânica da Walt Disney foi A Ilha do Tesouro / Treasure Island / 1950, filme de aventura em Technicolor, produzido por Perce Pearce, direção de Byron Haskin com Bobby Driscoll, Robert Newton e Basyl Sydney; Disney fez mais três filmes de aventura de época em Technicolor, todos produzidos por Pearce e estrelados por Richard Todd: Robin Hood, o Justiceiro / The Story of Robin Hood and His Merrie Men / 1952, direção de Ken Annakin com Todd, Joan Rice e Peter Finch, Entre a Espada e a Rosa / The Sword and the Rose / 1953, direção de Ken Annakin com Todd, Glynis Johns e James Robertson Justice e O Grande Rebelde / Rob Roy the Highland Rogue / 1953, direção de Harold French também com Todd, Glynis Johns e James Robertson Justice.

A Coronado Films, pequena empresa sob a liderança do americano David E. Rose, fez dois filmes para a RKO (Circle of Danger / 1952, direção de Jacques Tourneur com Ray Milland, Peggy Cummings, Marius Goring e Patricia Roc e Ilha do Desejo / Saturday Island ou Island of Desire / 1952, direção de Stuart Heisler com Linda Darnell, Tab Hunter e Donald Gray), mas também trabalhou com a Columbia, a MGM e a Warner Bros.

Van Johnson e Deborah Kerr em Pelo Amor de Meu Amor

Para a Columbia, a Coronado fez dois filmes: Pelo Amor de Meu Amor / The End of the Affair / 1955, direção de Edward Dmytryk com Deborah Kerr, Van Johnson e John Mills; Pecadoras de Porto África / Port Afrique / 1956, direção de Rudolph Mate com Pier Angeli, Philip Carey e Dennis Price. Para a MGM: O Arrombador de Cofres / The Safecracker / 1958, direção de Ray Milland com Milland, Barry Jones e Victor Maddern e A Casa dos Sete Gaviões / The House of the Seven Hawks / 1959, direção de Richard Thorpe com Robert Taylor, Nicole Maurey e Linda Christian. Para a Warner Bros.: Testemunha de Vista / Your Eye Witness / 1950 (reintitulado Eye Witness nos EUA), direção de Robert Montgomery com Montgomery, Leslie Banks e Felix Aylmer.

Richard Widmark em Sombras do Mal

O primeiro filme britânico da Twentieth Century-Fox, Sombras do Mal / Night and the City / 1950, direção de Jules Dassin com Richard Widmark, Gene Tierney e Googie Withers, foi lançado em duas versões diferentes. A versão inglêsa tinha 101 minutos e uma partitura musical de Benjamin Frankel enquanto que a versão americana era seis minutos mais curta e contava com um score de Franz Waxman. Seguiram-se: A Rosa Negra / The Black Rose / 1950, direção de Henry Hathaway com Tyrone Power, Jack Hawkins, Cecile Aubry e Orson Welles; O Garoto e a Rainha / The Mudlark / 1950, direção de Jean Negulesco com Irene Dunne, Alec Guiness e Andrew Ray; Na Estrada do Céu / No Highway (reintitulado No Highway in the Sky nos EUA) / 1951, direção de Henry Koster com James Stewart, Marlene Dietrich, Jack Hawkins e Glynis Johns; Jamais te Esquecerei / The House in the Square (reintitulado I’ll Never Forget You nos EUA) / 1951 , direção de Roy Baker com Tyrone Power, Ann Blyth e Dennis Price; Marinheiro do Rei / Single Handed (reintitulado Sailor of the King nos EUA) / 1953, direção de Roy Boulting com Jeffrey Hunter, Michael Rennie e Wendy Hiller; O Profundo Mar Azul / The Deep Blue Sea / 1955, direção de Anatole Litvak com Vivien Leigh, Kenneth More e Emlyn Williams; O Homem Que Nunca Existiu / The Man Who Never Was / 1956, direção de Ronald Neame com Clifton Webb, Gloria Grahame e Stephen Boyd; Jogos da Vida / Smiley / 1956, direção de Anthony Kimmins com Colin Petersen, Ralph Richardson, Bruce Archer; A Ilha dos Trópicos / Island in the Sun / 1957, direção de Robert Rossen com James Mason, Dorothy Dandridge, Joan Collins, Michael Rennie e Harry Belafonte; O Céu por Testemunha / Heaven Knows Mr. Allison / 1957, direção de John Huston com Robert Mitchum e Deborah Kerr; A Intocável / Seawife / 1957, direção de Bob McNaught com Joan Collins, Richard Burton e Basil Sydney.

Clifton Webb em O Homem Que Nunca Existiu

Ann Blyth e Tyrone Power em Jamais te Esquecerei

A reintitulação explica-se porque, embora muitos filmes fossem promovidos como filmes britânicos no Reino Unido, eles eram anunciados como americanos quando exibidos além-mar.

A Columbia levou algum tempo para avaliar os benefícios de produzir filmes na Inglaterra. Por volta de 1953, ela havia financiado e distribuído apenas dois filmes de orçamento baixo ambos produzidos e dirigidos por Mario Zampi: Shadow of the Past / 1950 com Joyce Howard e Terence Morgan e Michael Medwin e Come Dance with Me / 1950 com Max Well, Gordon Humphris e Yvonne Marsh. Porém, nesse mesmo ano, a companhia firmou uma relação de longo termo com Irving Allen e Albert R. Broccoli e sua empresa, Warwick Films.

Quando Allen e Broccolli abordaram Alan Ladd para estrelar o seu primeiro filme, a mulher dele, Sue Carol, insistiu em um contrato de três filmes: Sinal Vermelho / The Red Beret /1953 (reintitulado Paratrooper nos EUA), direção de Terence Young com Ladd, Leo Genn e Susan Stephen; O Espadachim Negro / The Black Knight / 1954, direção de Mark Robson com Ladd, Patricia Medina e Peter Cushing; Inferno Branco / Hell Below Zero, direção de Tay Garnett com Ladd, Joan Tetzel e Basil Sydney) para seu marido, mais 200 mil dólares e 10 % sobre os lucros por filme. Determinada a preservar a imagem de uma vida limpa de Ladd perante os Escoteiros da América, Sue insistiu para que ele não fosse mostrado roubando um cavalo em O Espadachim Negro, muito embora o filme transcorresse na Inglaterra do século XV. O quarto e o quinto filme de Allen e Broccoli para a Columbia foram Ouro Maldito / A Prize of Gold / 1954, direção de Mark Robson om Richard Widmark, Mai Zetterling e Nigel Patrick e Os Sobreviventes / The Cockleshell Heroes / 1955, direção de José Ferrer com Ferrer, Trevor Howard e Victor Maddern.

Em fevereiro de 1956, a Warwick negociou um novo contrato com a Columbia, surgindo: Odongo / Odongo / 1956, direção de John Gilling com Rhonda Fleming, MacDonald Carey e Juma; A Morte Espreita na Floresta / Safari / 1956, direção Terence Young com Victor Mature, Janet Leigh e John Justin; Zarak / Zarak / 1957, direção de Terence Young com Victor Mature, Anita Ekberg e Michael Wilding; Perseguição sem Tréguas / Interpol (reintitulado Pickup Alley nos EUA) / 1957, direção de John Gilling com Victor Mature, Anita Ekberg, Trevor Howard; Lábios de Fogo / Fire Down Below / 1957, direção de Robert Parrish com Rita Hayworth, Robert Mitchum e Jack Lemmon; Audácia a Jato / High Flight / 1957, direção de John Gilling com Ray Milland, Anthony Newley e Kenneth Haigh; Sem Tempo para Morrer / No Time to Die (reintitulado Tank Force nos EUA) / 1958, direção de Terence Young com Victor Mature, Leo Genn e Anthony Newley; Conflito Íntimo / The Man Inside / 1958, direção de John Gilling com Jack Palance, Anita Ekberg e Nigel Patrick.

Robert Taylor em A Morte Vem do Kilimanjaro

Em outubro de 1958, Allen e Broccoli tentaram se tornar produtores independentes, comprando a Eros Films. Porém depois, cada um seguiu caminhos separados: Allen ficou com a Warwick e Broccoli juntou-se a Harry Saltzman, para formar a Eon Films que produziria os filmes de James Bond. A Warwick recorreu a outros produtores para realizar filmes feitos às pressas para a Columbia tais como Idol on Parade / 1959, direção de John Gilling com William Bendix, Anthony Newley e Anne Aubrey; Bandido Sanguinário / The Bandit of Zhobe / 1959, direção de John Gilling com Victor Mature, Anthony Newley e Anne Aubrey; A Morte Vem do Kilimanjaro / Killers of Kilimanjaro / 1959, direção de Richard Thorpe com Robert Taylor, Anthony Newley e Anne Aubrey.

A Columbia financiou ainda outras companhias produtoras durante os anos cinquenta, porém nenhuma tão extensivamente como a Warwick. Em 1954, ajudou a Facet Productions a produzir Aventuras do Padre Brown / Father Brown (reintitulado The Detective nos EUA), direção de Robert Hamer com Alec Guiness, Joan Greenwood e Peter Finch e Prisioneiro do Remorso / The Prisoner, direção de Peter Glenville com Alec Guiness, Jack Hawkins e Wilfred Lawson. Em 1955-57, auxiliou a Film Locations de Mike Frankovich na produção de: A Cruz do Meu Destino / Footsteps in the Fog / 1955, direção Arthur Lubin com Stewart Granger, Jean Simmons e Bill Travers; Joe Macbeth / Joe Macbeth / 1955, direção de Ken Hughes com Paul Douglas, Ruth Roman e Bonar Colleano; Soho Incident (reintitulado Spin a Dark Web nos EUA) / 1956, direção de Vernon Sewell com Faith Domergue, Lee Patterson e Rona Anderson; Lodo na Alma / Wicked As They Come / 1956, direção de Ken Hughes com Arlene Dahl, Philip Carey e Herbert Marshall; Cidade Amedrontada / Town on Trail / 1957, direção de John Guilhermin com John Mills, Charles Coburn e Barbara Bates; The Long Haul / 1957, direção de Ken Hughes com Victor Mature, Diana Dors e Patrick Allen.

Laurence Olivier e Marilyn Monroe em O Príncipe Encantado

No início de 1957, a RKO já havia cessado de colaborar no financiamento e distribuir os filmes da Disney e da Coronado. A Warner Bros. também diminuiu seu investimento em filmes britânicos, limitando-se a apoiar quatro filmes: O Príncipe Encantado / The Prince and the Showgirl / 1957, direção Laurence Olivier com Olivier, Marilyn Monroe e Jeremy Spencer; Odeio Esta Mulher / Look Back in Anger / 1959, direção Tony Richardson com Richard Burton, Claire Bloom e Mary Ure; e dois filmes da Hammer, A Maldição de Frankenstein / The Curse of Frankenstein / 1957, direção de Terence Young com Peter Cushing, Hazel Court e Christopher Lee; O Abominável Homem da Neve / The Abominable Snowman / 1957, direção de Val Guest com Forrest Tucker, Peter Cushing e Maureen Connell.

Richard Burton e Mary Ure em Odeio Esta Mulher

Os útimos filmes co-patrocinados pela Twentieth Century-Fox foram: O Traquina / Smiley Gets a Gun / 1958, direção de Anthony Kimmins com Keith Calvert, Sybil Thorndike, Chips Rafferty e Bruce Archer e A Morada da Sexta Felicidade / Inn of the Sixth Happiness / 1958, direção de Mark Robson com Ingrid Bergman, Robert Donat e Curd Jürgens.

Ruth Roman, Richard Burton e Curd Jurgens em Vitória Amarga

Jean Seberg, Deboraj=h kerr e David Niven em Bom Dia, Tristeza

A Columbia fez ainda: Um Crime por Dia / Gideon’s Day / 1958, direção de John Ford com Jack Hawkins, Anna Lee e John Loder; Amargo Triunfo / Bitter Victory / 1957, direção de Nicholas Ray com Richard Burton, Curd Jürgens e Ruth Roman; Bom Dia, Tristeza / Bonjour Tristesse / 1958, direção de Otto Preminger com Jean Seberg, David Niven e Deborah Kerr; A Ponte do Rio Kwai / The Bridge on the River Kwai / 1957, direção de David Lean com Alec Guiness, Jack Hawkins, William Holden e Sessue Hayakawa. E a MGM: O Julgamento do Capitão Dreyfuss / I Accuse / 1958, direção de José Ferrer com Ferrer, Anton Walbrook e Viveca Lindfors; O Dilema do Médico / The Doctor’s Dilemma / 1959, direção de Anthony Asquith com Dirk Bogarde, Leslie Caron, Alastair Sim e Robert Morley; A Noite é Minha Inimiga / Libel / 1959, direção de Anthony Asquith com Dirk Bogarde, Olivia de Havilland, Paul Massie e Robert Morley.

José Ferrer em O Julgamento do Capitão Dreyfus

No final da década, muitos na indústria cinematográfica achavam que a produção britânica de filmes estava simplesmente se tornando um território dominado pelos grandes estúdios americanos. Em abril de 1959, quando a Câmara dos Lordes reviu a legislação secundária, que regulava os pagamentos do Film Production Fund, o Govêrno apresentou uma emenda que excluia os filmes produzidos nos países da Comunidade Britânica de receber dinheiro do fundo. A emenda limitava os benefícios àquelas companhias nas quais a administração central e o contrôle era exercido na Grã Bretanha. Porém quando Lord Archibald, o presidente da Federation of British Film Makers, dominada pelos americanos, mostrou que esta formulação iria implícitamente pôr em perigo o status das subsidiárias britânicas das majors americanas, o Govêrno lhe assegurou formalmente que “a posição das companhias residentes no Reino Unido que fôssem subsidiárias de companhias americanas ou de outras, não corriam perigo com esta emenda”. Tal garantia foi repetida pela Câmara dos Comuns, antes que o projeto de regulamentação se tornasse lei.

O govêrno conservador não estava evidentemente preparado para precipitar a retirada do capital americano da produção britânica, porque as produções anglo-americanas eram agora a categoria predominante dos filmes britânicos. Se a persuasão financeira era o único meio de continuar a trazer o capital americano para a Grã Bretanha, então que assim fôsse.

LIvros consultados:

British Cinema of the 1950s – The Decline of Deference, de Sue Harper e Vincent Porter (Oxford University Press, 2003).

All Our Yesterdays – 90 Years of British Cinema, ed. por Charles Barr (BFI Publishing, 1986).

The British Film Business de Bill Baillieu e John Goodchild (John Wiley & Sons , Ltd., 2002).

The Film Business – A History of British Cinema 1896-1972 de Ernest Betts (Pitman Publishing Corporation, 1973).

TRIBUTO A JACQUES TOURNEUR

January 6, 2017

Ele se considerava um mero artesão, porém era um artista que, em uma variedade de gêneros – filme de horror psicológico ou sobrenatural, filme noir, western, aventura, drama -, dispondo quase sempre de poucos recursos, construía sempre imagens nas quais se notava a sua sutileza e perfeccionismo, principalmente no que se referia ao uso do som e do silêncio, da luz e da sombra, da fotografia em preto e branco ou colorida, elementos que contribuíam fortemente para a qualidade atmosférica de seus filmes, característica fundamental de sua obra.

Jacques Tourneur

Jacques Tourneur

Jacques Tourneur nasceu em Paris no dia 12 de novembro de 1904, filho do famoso cineasta Maurice Tourneur e de Fernande Petit, atriz vedeta do Théâtre Antoine. Em 1914, aos dez anos de idade, partiu com sua mãe para a América, porém somente em 1918 eles se reuniram ao pai na Califórnia, onde ele estava dirigindo filmes, porque estiveram primeiramente em Nova York, onde Fernande atuou no teatro. Jacques estudou na Hollywood High School e se tornou cidadão americano em 1919.

Atraído para a indústria cinematográfica, apareceu como figurante em Scaramouche / Scaramouche / 1923 de Rex Ingram, e depois acompanhou Maurice ao Tahiti, a fim de lhe prestar serviço como colaborador no roteiro de Thaméa / Never the Twain Shall Meet, continuando nesta função nos vários filmes seguintes de seu progenitor.

Quando Maurice voltou para a Europa depois de um desentendimento com a MGM durante a filmagem de Ilha Misteriosa / The Mysterious Island (somente completado sob a direção de Benjamin Christensen e depois Lucien Hubbarb em 1929), Jacques arrumou emprego naquele estúdio como ator, sendo visto rapidamente em Coleguinha Legal / The Fair Co-ed / 1927 de Sam Wood, Anna Karenina / Love / 1927 de Edmund Goulding, Ouro / The Trail of the ’98 / 1928 de Clarence Brown, entre outros filmes. Jacques serviu também como segundo assistente de Clarence Brown, John M. Stahl e Fred Niblo, atuou no teatro, e trabalhou como lanterninha no Hollywood Bowl.

Jacques Tourneur e sua esposa Christiane Virideau ao lado de Walt Disney

Jacques Tourneur e sua esposa Christiane Virideau ao lado de Walt Disney

A carreira de ator de Jacques não estava levando a lugar nenhum quando, em 1928, seu pai o chamou a Berlim, onde estava dirigindo Das Schiff der verlorenen Menschen. Jacques trabalhou no filme como seu assistente e também aproveitou a oportunidade para aprender o ofício de montador, percebendo que assim poderia alcançar mais facilmente o cargo de diretor. Nesta ocasião, conheceu Marguerite Christiane Virideau, uma atriz. Eles contraíram matrimônio em 1930 e continuaram casados até a morte de Jacques. Marguerite apareceu em alguns filmes francêses, pelo menos em um filme de Hollywood, Os Mandamentos Sociais / Society Smuggler’s / 1939 de Joe May, e dublou a voz de Branca de Neve na versão francêsa do filme de Disney.

Marcel Levesque, Josseline Gäel e Jean Gabin em Tout ça ne vau pas l 'amour

Marcel Levesque, Josseline Gäel e Jean Gabin em Tout ça ne vau pas l ‘amour

Jacques Tourneur foi assistente de direção, montador ou exerceu ambos os ofícios em todos os filmes francêses de seu pai de 1930 a 1934 bem como foi o montador de Rothschild de Marco de Gastyne e o assistente de direção de Jacques Natanson em La Fusée, ambos em 1933. O primeiro filme dirigido por Jacques foi Tout ça ne vaut pas l ‘amour / 1931, seguido por Pour être aimé / 1933, Toto / 1933 e Les Filles de la concierge / 1934.

Cena do curta Master William Shakespeare

Cena do curta Master William Shakespeare

Em 1934, Tourneur sentiu que já possuia experiência suficiente para arriscar um retorno a Hollywood, e assinou um contrato com a MGM onde, até 1939, trabalhou como diretor de segunda unidade nos filmes de longa-metragem Sorte Grande e Nada Mais / The Winning Ticket / 1935, A Queda da Bastilha / A Tale of Two Cities / 1935 e Maria Antonieta / Marie Antoinette / 1938 e como diretor de vários curtas-metragens, alguns exibidos no Brasil: A História do Diamante Jonker / The Jonker Diamond / 1936, William Shakespeare / Master William Shakespeare / 1936, O Patrão Não Disse Bom Dia / The Boss Didn’t Say Good Morning / 1937, Romance do Radium / Romance of Radium / 1937, O Rei sem Trono / The King without a Crown / 1937, O Homem do Galpão / The Man in the Barn / 1937, O Navio que Morreu / The Ship that Died / 1938, Pense Primeiro / Think it Over / 1938, O Espírito do Povo / Yankee Doodle Goes to Town / 1939, O Desconhecido Misterioso / The Incredible Strange / 1942, O Alfabeto Mágico / The Magic Alphabet / 1942.

Rita Johnson e Walter Pidgeon em Nick Carter, Super Detetive

Rita Johnson e Walter Pidgeon em Nick Carter, Super Detetive

Em 1939, ele conseguiu ser promovido para a direção de um longa-metragem, Escravos do Mal /They All Come Out, um filme inicialmente planejado como um exemplar da série de shorts O Crime Não Compensa /Crime Does Not Pay. Após a realização de mais dois filmes B, Nick Carter, Super Detetive / Nick Carter, Master Detective / 1939 e Nick Carter nos Trópicos / Phantom Raiders / 1940, Tourneur ( não se sabe por qual motivo) fez um filme para a Republic, Silêncio de Médico / Doctor’s Don’t Tell / 1941 e finalmente, em 1942, a MGM o deixou completamente livre, quando Val Lewton, com quem ele havia trabalhado na segunda unidade de A Queda da Bastilha, o convidou para dirigir Sangue de Pantera / Cat People, seu primeiro filme como produtor na RKO. Este filme B obteve um sucesso surpreendente aumentando a reputação de Tourneur e de Lewton e eles fizeram mais dois filmes juntos, A Morta-Viva / I Walked With a Zombie / 1943 e O Homem Leopardo / A Morta-Viva / The Leopard Man / 1943, antes que a RKO decidisse promover Tourneur para as produções classe A com Quando a Neve Tornar a Cair / Days of Glory / 1944 Tourneur fez mais quatro filmes para a RKO – Idílio Perigoso / Experiment Perilous / 1944, Fuga ao Passado / Out of the Past / 1947, Expresso para Berlim / Berlin Express e Tormento de uma Glória / Easy Living / 1949 – e foi emprestado para a Universal onde dirigiu Paixão Selvagem / Canyon Passage / 1946.

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Quando seu contrato com a RKO expirou, Tourneur tornou-se free lancer realizando O Testamento de Deus / Stars in my Crown / 1950 para a MGM, O Gavião e a Flecha / The Flame and the Arrow / 1950 para a Warner Bros., Circle of Danger / 1951 na Inglaterra para a Coronado Productions e A Vingança dos Piratas / Anne of the Indies / 1951 e O Gaúcho / Way of a Gaucho / 1952 para a 20th Century-Fox.

Gene Tierney e Rory Calhoun em O Gaúcho

Gene Tierney e Rory Calhoun em O Gaúcho

Este último filme, uma produção cara e tumultuada, foi um fracasso commercial e marcou uma mudança na carreira de Tourneur: ele prosseguiu realizando filmes de orçamento modesto, a maioria para produtores independentes. Começando com Almas Selvagens / Appointment in Honduras / 1953 (Prod: Benedict Bogeaus), prosseguiu com O Cavaleiro Misterioso / Stranger on Horseback / 1955 (Prod: Robert Goldstein), Choque de Ódios / Wichita / 1955 (Prod: Walter Mirisch), Pelo Sangue de Nossos Irmãos / Great Day in the Morning / 1956 (Prod: Edmund Grainger), A Maleta Fatídica / Nightfall / 1957 (Prod: Ted Richmond).

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Além de dirigir com frequência para a televisão a partir de 1954 até 1966, Tourneur filmou na Inglaterra, A Noite do Demônio / Night of the DemonCurse of the Demon nos EUA / 1956 (Prod: Frank Bevis) e encerrou seu trabalho na década de cinquenta com Fabricantes do Mêdo / The Fearmakers / 1958 (Prod: Martin H. Lancer), Timbuktu / Timbuktu / 1959 (Prod: Edward Small) e A Batalha de Maratona / La Battaglia di Maratona The Giant of Marathon nos EUA / 1959 (Prod: Bruno Vailati), filmado na Itália. Em 1963, Tourneur assinou contrato com a American-International Pictures, para a qual fez Farsa Trágica / The Comedy of Terrors / 1963 e Monstros da Cidade Submarina / War-Gods of the Deep / 1965, seu derradeiro filme. Ele faleceu em Dordogne, França no dia 19 de dezembro de 1977.

Neste artigo presto uma homenagem a Jacques Tourneur, relembrando alguns de seus melhores filmes.

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SANGUE DE PANTERA / CAT PEOPLE.

Irena Dubrovna (Simone Simon), uma garota da Sérvia, desenhista de moda, vive na cidade de Nova York, obcecada pela idéia de que é descendente de uma antiga raça de mulheres felinas, as quais, quando excitadas, transformam-se em panteras. Por isso, tem medo de consumar seu casamento com Oliver Reed (Kent Smith), arquiteto de uma firma de construção naval. Ele persuade a esposa a consultar o Dr. Judd (Tom Conway), um psiquiatra; mas este não consegue melhorar o estado de Irena. Olivier então se consola, contando seus problemas para Alice (Jane Randolph), uma colega de escritório. Subsequentemente, Alice é ameaçada duas vêzes por uma fera desconhecida. Oliver ameaça deixar Irena e, na mesma noite, ele e Alice são atacados. O Dr. Judd visita Irena e tenta conquistá-la à força. Ela se transforma em pantera e o mata. Ferida por Judd, Irena more no Jardim Zoológico do Central Park, depois de libertar uma pantera enjaulada.

Filmagem de Sangue de Pantera

Filmagem de Sangue de Pantera

Tourneur tinha uma grande capacidade para criar sequências tenebrosas. Em uma das melhores do filme, Alice entra de noite em uma piscina deserta e quando se prepara para seu exercício de natação, sente a aproximação de algo ameaçador. Sem possibilidade de fuga, atira-se na água. A câmera focaliza Alice só com o rosto à tona em alternância com a sombra das águas turvas nas paredes e a repercussão sonora dos urros de uma pantera.

Pose pa a publicidade: Simone Simon em Sangue de Pantera

Pose pa a publicidade: Simone Simon em Sangue de Pantera

Outra sequência memorável, muito bem fotografada por Nicholas Musuraca, é a caminhada noturna de Alice pelas imediações do Central Park, um percurso que vai se tornando cada vez mais nervoso, quando ela ouve passos seguindo-a. Alice pára diante de um poste de luz e olha para trás nas trevas. O barulho dos passos se interompe; ela não vê nada, mas sente que continua sendo seguida por algo que roça nas folhagens. Assustada, corre até o próximo poste. No momento em que a tensão da platéia está no auge, um ônibus surge bruscamente dentro do quadro e dá uma freada súbita, para alguns passageiros desembarcarem. A inesperada aparição do ônibus, o ruído estridente dos freios, dão um susto tremendo nos espectadores.

Na mesma noite, uma ovelha é encontrada morta no parque e a câmera segue o rastro das patas de um felino afastando-se do corpo do animal morto até que, subitamente, as patas viram marcas de saltos de sapatos de uma mulher.

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A MORTA-VIVA / I WALKED WITH A ZOMBIE. Betsy Connell (Frances Dee), enfermeira canadense, chega a St. Sebastian nas Antilhas, para cuidar de Jessica Holland (Christine Gordon), uma inválida que parece estar sofrendo de paralisia nervosa. Betsy apaixona-se por Paul (Tom Conway), marido de Jessica e é cortejada por Wesley Rand (James Ellison), o meio-irmão de Paul. Acreditando que este continua enamorado da esposa, Betsy, altruisticamente, leva Jessica a uma cerimônia de vodu, na esperança de restituí-la ao marido. Sua intenção falha, mas força Mrs. Rand (Edith Barrett), viúva missionária e mãe de Paul e Wesley, a revelar que havia usado o vodu para transformer Jessica em uma zumbi, quando ela anunciar sua partida de St. Sebastian com Wesley. Wesley mata Jessica a fim de libertá-la da maldição da “morte em vida” e se afoga, carregando o corpo dela mar adentro.

Cena de A Morta-Viva

Cena de A Morta-Viva

Frances Dee e Tom Conway em A Morta-Viva

Frances Dee e Tom Conway em A Morta-Viva

Cena de A Morta-Viva

Cena de A Morta-Viva

Logo no início do filme, Betsy e Paul estão a bordo de um veleiro comercial. O céu estrelado e o oceano cintilante deixam-na extasiada. Seus devaneios são interrompidos por Paul: “Não é bonito … – ele lê seu pensamento. “Tudo parece bonito porque você não compreende. Aqueles peixes-voadores não estão pulando de alegria, eles estão pulando aterrorizados. Os peixes maiores querem comê-los. Aquela água luminosa – ela tira o seu brilho de milhões de cadáveres, o brilho da putrescência. Aquí não há beleza, somente morte e decomposição. Depois de uma tomada mostrando o céu cadente, ele acrescenta: “Tudo que é bom morre aquí, até as estrelas”.

Dirigido por Tourneur com grande inspiração, magnificamente fotografado por J. Roy Hunt e interpretado com segurança por todo o elenco, inclusive os atores negros Sir Lancelot (cantor de calypso) e Darby Jones (Carre-Four), o filme é considerado por muitos críticos o melhor da série de horror psicológico de Val Lewton, “um dos raros exemplares de pura poesia visual fabricado por Hollywood”. Esta qualidade é perceptível em sequências como a do primeiro encontro de Betsy com Jessica; a da caminhada das duas à sede da macumba através dos canaviais sob o batuque enervante dos tambores e o soprar do vento até se depararem com o zumbi; e a do desenlace, em notável montagem alternada, encerrando-se quando a agulha é espetada na boneca representando Jessica e, em seguida, em um corte brusco, aparece Wesley, que acabara de matar a verdadeira Jessica com a flecha da estátua de São Sebastião.

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O HOMEM LEOPARDO / THE LEOPARD MAN.

Em uma pequena cidade da fronteira do Novo México, um leopardo que o empresário teatral Jerry Manning (Dennis O’Keefe) havia usado em um truque publicitário de sua vedete, Kiki Walker (Jean Brooks), assusta-se com o som de castanholas e foge. A fera mata uma adolescente, Teresa Delgado (Margaret Landry). Posteriormente, duas outras jovens , Consuelo Contreras (Tula Parma) e a dançarina Clo-Clo (Margo), são mortas; mas, desta vez, por um assassino demente, que usa o leopardo para encobrir suas atividades. Perseguido por Jerry e Kiki, o criminoso vem a ser preso e morto pelo namorado de uma das vítimas.

Cena de O Homem Leopardo

Cena de O Homem Leopardo

A narrativa, sem ter personagens centrais, é um tanto fragmentada, prejudicando um pouco a dramaticidade, mas há sequências de excelente Cinema. Em uma delas, sem dúvida a mais aterrorizadora de toda a série, Teresa é forçada pela mãe a sair de noite para comprar farinha. A mocinha está assustada, pois ouvira dizer que um leopardo andava solto pelas redondezas. A mãe empurra-a para fora de casa e tranca a porta. A pobrezinha encontra a mercearia fechada e tem de atravessar um longo caminho na escuridão, até chegar à única loja ainda aberta. Na volta, ela vê os olhos de um felino brilhando nas trevas. Em um efeito semelhante ao da parada repentina do ônibus em Sangue de Pantera, quando ela está sob uma passagem elevada da estrada de ferro, um trem irrompe estridentemente. Logo depois, ela se depara com a fera, cai, derramando a farinha e foge. O resto da sequência é filmado do interior da casa. A menina bate aflita na porta, suplicando à mãe para deixá-la entrar; esta, zangada com a demora, decide puní-la, fazendo-a esperar. Quando finalmente se convence de que a filha corre perigo, não consegue abrir o ferrolho e vê o sangue da menina escorrendo por debaixo da porta.

Cena de O Homem Leopardo

Cena de O Homem Leopardo

O virtuoso emprêgo do som e das sombras e a sucessão tensa das imagens continua no momento de outras mortes – a de Consuelo no cemitério e a de Clo-Clo tocando castanholas pelas ruas escuras, antes de perecer nas mãos do assassino. Boa parte do êxito destes instantes aconteceram devido às tomadas perfeitas em chave baixa do fotógrafo Robert de Grasse

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PAIXÃO SELVAGEM / CANYON PASSAGE.

Em 1856, no Oregon, Logan Stuart (Dana Andrews) é proprietário de uma linha de transporte de carga por mulas e um armazém na pequena cidade mineira de , e vive percorrendo vales e montanhas. Ele se relaciona com várias pessoas: seu amigo George Camrose (Brian Donlevy), um banqueiro que está roubando secretamente o ouro em pó depositado no banco por seus clientes, a fim de sustentar suas dívidas de jôgo; a noiva de George, Lucy Overmire (Susan Hayward), apaixonada por Logan: Caroline Marsh (Patricia Roc), imigrante inglêsa que fica noiva de Logan; o rancheiro Ben Dance Dance (Andy Devine); o trovador Hi Linnet (Hoagy Carmichael) que observa e comenta os acontecimentos; e o brutal e solitário Honey Bragg (Ward Bond), que Logan suspeita ter praticado alguns crimes. Para esconder seu desfalque, George mata um mineiro, McIver (Wallace Scott), mas é preso e condenado à morte por um tribunal irregular. Logan ajuda-o a fugir durante uma confusão causada pela notícia de uma rebelião dos índios, porém George acaba sendo morto pela população. Durante a revolta dos peles-vermelhas, Ben Dance e um de seus filhos são mortos assim como Bragg, depois de ter estuprado e assassinado uma jovem índia. Caroline, percebendo que seria infeliz ao lado de Logan por incompatibilidade de seu temperamento e expectativa, desfaz seu noivado, deixando – o livre para partir com Lucy para San Francisco.

Susan Hayward e Dana Andrews em Paixão Selvagem

Susan Hayward e Dana Andrews em Paixão Selvagem

Neste western atípico e realista, Tourneur faz uma crônica de uma pequena cidade isolada no Oregon nos tempo dos pioneiros, sempre ameaçados pelos índios. Em uma sequência notável, um baile é interrompido pela presença deles, percebida pelo olhar apurado de Hi Linnet, que faz a orquestra parar e logo depois os selvagens aparecem em um reverse-shot sob a luz avermelhada do fogo.

Brian Donlevy e Susan Hayward em Paixão Selvagem

Brian Donlevy e Susan Hayward em Paixão Selvagem

Cena de Paixão Selvagem

Cena de Paixão Selvagem

Por meio de uma encenacão inteligente, o diretor descreve com profundidade tanto os personagens principais como os secundários, expondo sem precipitação suas preocupações cotidianas, daí porque o rítmo não é sempre nervoso, dando ao filme uma aparência de drama psicológico. Em compensação, outras sequências como a da briga entre Bragg e Logan no saloon e o ataque dos índios são mais movimentadas. Tourneur usa o close-up com muita felicidade, para mostrar a ferocidade e a anormalidade de Bragg, que transparece não somente na mencionada briga mas também quando o brutamontes surpreende as índias banhando-se no rio. Outros elementos estéticos bem aplicados pelo cineasta foram a elipse (eis que não vemos as cenas da morte de George nem a de McIver) e a cor (principalmente na perseguição de Bragg pelos índios através das plantas; quanto mais os perseguidores se aproximam dele, elas se tornam cada vez mais vermelhas). Na aplicação do Technicolor a contribuição do fotógrafo Edward Cronjager foi inestimável.

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FUGA AO PASSADO / OUT OF THE PAST.

Jeff Markham (Robert Mitchum), um detective particular de Nova York, e seu sócio, Jack Fisher (Steve Brodie), são contratados por um gângster, Whit Sterling (Kirk Douglas), para encontrar a amante dele, Kathie Moffat (Jane Greer), que fugiu com quarenta mil dólares, após ter tentado matá-lo. Jeff segue a pista de Kathie até Acapulco e se apaixona por ela, acreditando na sua palavra de que não roubou o dinheiro. Em consequência, o detetive não informa Whit sobre o seu paradeiro e os dois partem para San Francisco, onde vivem temporariamente em segurança. Até o momento em que são reconhecidos por Fisher, convocado por Whit para procurar Jeff. Tentando chantageá-los, Fisher é morto friamente por Kathie. Jeff fica perplexo com a violência de Kathie. Quando se volta para ela, apó ter examinado o corpo de Fisher, Kathie não está mais ali; mas deixara seu talão de cheque, que acusa um depósito de quarenta mil dólares. Os acontecimentos posteriores levarão a um final trágico.

Tourneur e o fotógrafo Nicholas Musuraca, ex-colaboradores da série de horror de Val Lewton, eram especialmente preparados para criar o jogo lírico e sensual de sombras que caracteriza o filme noir. Em um entrosamento perfeito, Tourneur e Musuraca produziram imagens esplêndidas de interiores escuros dramaticamente iluminados, planos filmados de dia como se fossem de noite das praias do México e exteriors claros e meticulosos, muito bem integradas no todo atmosférico. O diretor teve ainda o mérito de fazer com que uma jovem inexperiente de 22 anos, Jane Greer, se transformasse em uma das mulheres fatais mais inesquecíveis, frágil, ameaçadora, e ao mesmo tempo, sensual e demoníaca.

Virginia Huston and Robert Mitchum in a scene from the 1947 movie, Out of the Past.

Virginia Huston and Robert Mitchum in a scene from the 1947 movie, Out of the Past.

Kirk Douglas e Robert Mitchum em Fuga ao Passado

Kirk Douglas e Robert Mitchum em Fuga ao Passado

Robert Mitchum e Jane Greer em Fuga ao Passado

Robert Mitchum e Jane Greer em Fuga ao Passado

Cena de Fuga ao Passado

Cena de Fuga ao Passado

Cena de Fuga ao Passado

Cena de Fuga ao Passado

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No momento em que surge vestida de branco em uma rua de Acapulco, Kathie Moffat não parece a mulher insidiosa que realmente é, mas sim uma criatura do sonho de Jeff, que se materializou ao entrar no Café La Mar Azul. Jeff fica deslumbrado e joga para o alto o seu código de honra. Quando Kathie tenta convencê-lo de que não roubou o dinheiro de Whit, ele a interrompe dizendo: “Baby, pouco me importa”. Contrariando os interesses do cliente, transigindo com a ética profissional, Jeff não comunica a Whit que a encontrou, e foge com ela para San Francisco. Ele não consegue superar sua obsessão sexual. Sua voz over descreve Kathie de uma maneira cada vez mais romântica, representando-a como uma imagem luminosa: “”E então eu a ví, saindo do sol”; “E então ela entrou, vinda do luar, sorrindo”; “E então eu a ví andando pela estrada sob a luz dos farois”. Porém, no dia em que Kathie mata Fisher, deixando-o com o cadáver para sofrer as consequências, e ele descobre que ela havia depositado os quarenta mil dólares na sua conta bancária, Jeff fica arrasado. Ele lembra para Ann (Virginia Huston), sua namorada, a quem ele resolveu contar sua história: “Eu não sentia pena dele, não estava zangado com ela, não estava nada”. Ao revê-la, junto de Whit, exclama indiferente: “Você é como uma folha que o vento carrrega de uma sarjeta para outra. Todavia, mesmo depois desta cena, ainda ficamos sem saber se Jeff realmente ficou livre de sua paixão por Kathie, pois um grau de ambivalência permanece até o final do filme.

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EXPRESSO PARA BERLIM / BERLIN EXPRESS.

Alguns mêses após o armistício de 1945, o eminente humanista Dr. Heinrich Bernhart (Paul Lukas) é encarregado de uma comissão visando a reunificação da Alemanha, então dividida em quatro setores controlados pelos aliados. Em um trem que o conduz de Paris para Berlim, o doutor escapa de um atentado e depois é sequestrado por membros de um movimento neo-nazista subterrâneo, durante uma parada do expresso em Frankfurt. Um grupo composto por um agrônomo americano, Robert Lindley (Robert Ryan), uma francêsa, Lucienne Mirbeau (Merle Oberon), um tenente do exército russo, Roman Toporow (Maxim Kiroshlov), um professor inglês, James Sterling (Robert Coote) e um antigo resistente francês, Henri Perrot (Charles Korvin), se organiza para encontrar o paradeiro de Bernhart na cidade em ruínas.

Cena de Expresso para Berlim

Cena de Expresso para Berlim

Tourneur reforça a estrutura dramática do relato, mantendo em segredo a verdadeira identidade de alguns personagens, que somente no final é revelada. Bernhart não é aquele que pensamos ser, a jovem francêsa acaba demonstrando seu verdadeiro papel aos homens do grupo e uma outra identidade falsa também vem à tona nos últimos momentos do filme.

Para manter o espectador constantemente interessado na história, o cineasta também cria alguns momentos de alta inspiração cinematográfica como, por exemplo, a maneira como ficamos ao par da mensagem estranha que o pombo-correio levava; o episódio com os dois palhaços, um falso e outro verdadeiro; o suicídio de Walther (Reinhold Schunzel), o amigo que traiu Bernhart; a luta entre Robert e o espião dentro de um enorme barril de cerveja; o instante em que Reinhardt está sendo atacado em sua cabine e na cabine vizinha, pelo reflexo reproduzido nos vidros da estação, Robert e Lucienne tomam conhecimento do fato. A arte do fotógrafo Lucien Ballard foi um fator determinante para a excelência dessas cenas.

Cena de Expresso para Berlim

Cena de Expresso para Berlim

Robert Ryan e Merle Oberon em Expresso para Berlim

Robert Ryan e Merle Oberon em Expresso para Berlim

Cena de Expresso para Berlim

Cena de Expresso para Berlim

O interesse do filme repousa igualmente sobre o aspecto documentário de certas sequências, mostrando o estado de um país – principalmente a cidade de Frankfurt – depois de sua derrota. Enquanto os protagonistas são enquadrados nas ruínas, o olho do espectador os acompanha contemplando ao mesmo tempo o espetáculo desastroso dos bombardeios no fundo do quadro. No epílogo, quando se despedem os protagonistas restantes da trama, encontramos uma crítica silenciosa da situação internacional na imagem de um aleijado, passando entre as colunas do Portão de Brandenburgo, que também pode ser interpretada como um símbolo de que o mundo marcha apesar do desastre ou do espectro da Guerra Fria caindo sobre a Europa mais dilacerada, mais dividida do que nunca.

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O TESTAMENTO DE DEUS / STARS IN MY CROWN.

Na pequena cidade sulista de Walesburg, no final do século dezenove, John Kenyon (Dean Stockwell e Marshall Thompson fazendo a voz do personagem como adulto), narra episódios concentrados na figura de seu pai adotivo, Josiah Doziah Gray (Joel McCrea), um pastor protestante, ex-soldado da Guerra Civil e casado com Harriet (Ellen Drew). Os lances mais dramáticos da narrativa são criados por duas ocorrências. Uma é a epidemia de tifo, para a qual o jovem médico da cidade, Daniel Kalbert Harris Jr. (James Mitchell), inicialmente suspeita de que o pastor seja o transmissor, mas cuja origem acaba sendo rastreada até o poço perto da escola. O outro acontecimento é a tentativa por parte de um proprietário de uma mina, Lon Backett (Ed Begley) de amedrontar um negro, Uncle Famous Prill (Juano Hernandez), para se apoderar de suas terras ricas em mica. Formando um bando de “Night Riders”, semelhante à Klu Klux Khan, os agressores de Famous querem linchá-lo, porém o pastor faz com que todos fiquem envergonhados e se dispersem, lendo o suposto testamento de Famous, contendo legados para todos, que lembram o papel benevolente que ele desempenhou em suas vidas.

Cena de O Testamento de Deus

Joel McCrea em O Testamento de Deus

Cena de O Testamento de Deus

Cena de O Testamento de Deus

Neste filme, que não é verdadeiramente um western, mas tem a ver com a cultura e história americana, Tourneur demonstra calma e comedimento, permitindo que a história vá crescendo aos poucos, o que dá aos climaxes (a epidemia de tifo e principalmente o quase-linchamento do velho negro) um grande impacto emocional.

O reverendo, que carrega uma Bíblia e um par de pistolas, tem uma tendência para contar histórias engraçadas com uma Mensagem, em vez de ser um mero “pregador”. É, portanto, o tipo de pastor que pode conquistar os corações e a alma. Após a confrontação de Gray com Backett e os linchadores, este comparece arrependido na igreja e, por fim, seu grande amigo Jed Isbell (Alan Hale), que ele sempre convidava em vão para assistir o culto, também se apresenta como mais um crente conquistado pela bondade e sinceridade do líder espiritual e moral de sua comunidade.

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O GAVIÃO E A FLECHA / THE FLAME AND THE ARROW.

Na Lombardia do século XII, Dardo Bartoli (Burt Lancaster), excelente arqueiro e caçador, vive nas montanhas com seu filho Rudi (Gordon Gerbert). Sua mulher, Francesca (Lynne Baggett), o abandonou anos atrás, para se casar com Ulrich (Frank Allenby), representante feroz do Imperador da Alemanha, apelidado de “O Falcão”. Dardo mata um dos falcões de Ulrich e este, em represália, manda seus soldados prender Rudi, e conduzí-lo para seu castelo. Dardo se une aos camponêses para lutar contra o tirano. Sempre acompanhado pelo seu amigo Piccolo (Nick Cravat), um ferreiro mudo, ele rapta Anne (Virginia Mayo), sobrinha de Ulrich, com a finalidade de usá-la para resgatar seu filho. Ele captura também Alessandro de Granazia (Robert Douglas), um marquês italiano, que Ulrich pretendia unir em matrimônio com Anne, a fim de reforçar seu poder na região e obrigá-lo a pagar seus impostos. Anne porém o rejeitou e Ulrich mandou prender o marquês. Diante disso, Alessandro e seu trovador (Norman Lloyd) se aliam aos foras-da-lei, porém depois os trai. Prevenido a tempo por Anne, Dardo penetra no castelo com Piccolo, ambos disfarçados de palhaço entre os saltimbancos que ali se apresentam, libertam os populares e todos juntos enfrentam os soldados de Ulrich. Dardo descobre que Francesca está morta e mata Alessandro em uma luta de espada. Ulrich foge, e usa Rudi como escudo; mas não contou com a perícia de Dardo, que põe fim à sua vida com uma flechada, libertando seu filho. Anne, que se apaixonara por Dardo, junta-se a eles, para celebrar a vitória contra o opressor

Virginia Mayo e Burt Lancaster em O Gavião e a Flecha

Virginia Mayo e Burt Lancaster em O Gavião e a Flecha

Tourneur incutiu dinamismo e divertimento neste filme de aventura histórica em grande parte dominado pela habilidade atlética e saltitante de Burt Lancaster e Nick Cravat, principalmente por terem sido trapezistas de circo na vida real. O cineasta mostra o seu habitual rigor e capacidade de invenção notadamente na sequência formidável da invasão do castelo com Dardo e Picolo misturando-se com os membros da trupe de artistas, que adquire o caráter festivo de um espetáculo acrobático.

Cenas de O Gavião e a Flecha

Cenas de O Gavião e a Flecha

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Em outra sequência admirável, o heroí, sentindo dificuldade de se confrontar com um espadachim temível como o marquês, corta a corda que sustenta um lustre, fazendo – o cair e deixando o ambiente na escuridão. De uma tomada em câmera alta vemos o marquês de guarda e em silhueta diante de um retângulo de luz no chão, e ouvimos Dardo sussurrar: “Agora, marquês, estamos no escuro, onde uma espada é apenas uma faca longa. Os caçadores sabem tudo sobre facas. Você não pode me ver Alessandro, mas eu posso vê-lo”. Mais alguns planos, e o marquês é puxado para fora do quadro por Dardo. A câmera desce, e focaliza o retângulo de luz no assoalho, cruzado por um tocheiro caído. Ao som de uma golpe fora de cena, faz-se um corte para um outro ângulo em câmera alta da mesma área: o marquês tomba morto, sobre o retângulo de luz.
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CIRCLE OF DANGER.

Clay Douglas (Ray Milland), cidadão americano de descendência galêsa, chega na Inglaterra para investigar a morte de seu irmão Hank, que morreu em circunstâncias misteriosas, quando participava de uma missão de comandos do Exército Britânico na Bretanha em 1944. Douglas sai no encalço e entrevista os membros sobreviventes da unidade de comando de Hank entre eles o Major Hamish McArran (Hugh Sinclair), um aristocrata escocês líder do grupo e Sholto Lewis (Marius Goring), seu ex-tenente, que se tornou professor de balé. Entrementes, conhece Elspeth Graham (Patricia Roc), autora e ilustradora de livros infantis, cortejada por Hamish. Nenhum deles parece querer ajudar Clay, mas ele finalmente consegue descobrir – por intermédio do derradeiro questionado, um vendedor de automóveis chantagista, Reggie Sinclair (Naunton Wayne)-, que foi Hamish quem matou Hank. Hamish aceita a sugestão de Clay de acertarem suas contas em um duelo de fuzil, mas Sholto chega a tempo para explicar a Clay que seu irmão foi executado porque, recusando obedecer a uma ordem, colocou em perigo todos os homens do comando. Sem dizer uma só palavra, Clay se afasta, abalado com a terrível notícia. Depois, parte na companhia de Elspeth, com quem se reconcilia, após certo desentendimento.

Patricia Roc e Jacques Tourneur na filmagem de Circle of Danger

Patricia Roc e Jacques Tourneur na filmagem de Circle of Danger

Hugh Sinclair, Marius Goring e Ray Milland em Circle of Danger

Hugh Sinclair, Marius Goring e Ray Milland em Circle of Danger

Tourneur recebeu de Philip MacDonald, autor experiente na área do romance policial, uma trama interessante e, embora ela não tivesse lances movimentados, o diretor soube manter o espectador sempre interessado no seu desenvolvimento, explorando fotograficamente (com o precioso concurso de Oswald Morris) o contexto estrangeiro, em especial a paisagem campestre escocêsa onde, no final, ocorre maior suspense. O lance do assobio da canção folclórica que leva Clay a identificar o suposto criminoso é um achado digno de Hitchock, e o caráter insólito de um personagem como Sholto, um bailarino que foi militar e sabe manejar uma arma, tem a sua originalidade.

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A VINGANÇA DOS PIRATAS / ANNE OF THE INDIES.

No século XVII, o pirata Captain Providence, cruza o mar das Antilhas no “Sheba Queen”, e saqueia os navios britânicos. Ele é na realidade uma mulher destemida e orgulhosa chamada Anne (Jean Peters), que detesta os inglêses, porque eles enforcaram seu irmão. Um dia, Anne e seus homens, entre eles seu primeiro pilôto, Red Dougall (James Robertson Justice), capturam um navio britânico; depois de obrigar a tripulação vencida a caminhar pela prancha e se jogar ao mar, descobre que a embarcação está conduzindo um prisoneiro francês, Pierre François La Rochelle. (Louis Jourdan). Embora Dougall desconfie de Pierre, Anne decide nomeá-lo seu navegador. Mais tarde, o “Sheba Queen” chega a Nasssau, e ela apresenta Pierre ao famoso pirata Barbanegra (Thomas Gomez), que criara Anne e seu irmão, quando eles ficaram órfãos. Barbanegra adora a sua protegida, mas, como Douglas, desconfia de Pierre. Anne se apaixona por Pierre porém, após várias peripécias, ficamos sabendo que ele é casado com a jovem Molly (Debra Paget), e pretende entregar Anne às autoridades de Port Royal em troca de seu navio apreendido pelos inglêses.

Jean Peters em A Vingança dos Piratas

Jean Peters em A Vingança dos Piratas

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Cena de A Vingança dos Piratas

Cena de A Vingança dos Piratas

Jean Peters e Luis Jourdan em A vingança dos Piraas

Jean Peters e Luis Jourdan em A Vingança dos Piratas

Jean Peters a Debra Paget em A Vingança dos Piratas

Jean Peters a Debra Paget em A Vingança dos Piratas

Jean Peters e Thomaz Gomez em A Vingança dos Piratas

Jean Peters e Thomaz Gomez em A Vingança dos Piratas

Debra Pagert, louis Jourdan e Jean Peters em A Vingança dos Piratas

Debra Pagert, louis Jourdan e Jean Peters em A Vingança dos Piratas

Inspirando-se em figuras e fatos reais (v. g. Edward Teach, o Barbanegra; o tesouro de Henry Morgan; a bucaneira Anne Bonny) e aproveitando muito bem o Technicolor, Tourneur nos oferece tudo o que poderíamos esperar de um filme de piratas: batalhas navais, abordagens e motins, duelos de espada, ilha deserta, a busca de um tesouro, tavernas de má fama onde o rum é consumido aos borbotões. Toadavia, ao contrário de O Gavião e a Flecha, cujo tom é de bom humor e fantasia, A Vingança dos Piratas é trágico, e acrescenta uma originalidade: a personagem principal é uma mulher flibusteira, que movida pelo ódio, renega sua condição de fêmea, para poder ter seu lugar em um mundo de homens. Ao descobrir sua alma feminina diante do charme de um formoso capitão (pintando um clima bastante sensual), Anne se vê envolvida em um triângulo amoroso. Enciumada, começa a praticar desatinos, dos quais se redime, finalmente, sacrificando-se em um combate com Barbanegra, para salvar o casal que antes invejara.

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CHOQUE DE ÓDIOS / WICHITA.

Wyatt Earp (Joel McCrea) dirige-se para Wichita com a idéia de se instalar ali, abrindo um pequeno comércio. Ele logo faz amizade com o diretor do jornal local, Arthur Whiteside (Wallace Ford) e seu jovem repórter Bat Masterson (Keith Larsen). Impedindo um assalto a um banco, Wyatt tem oportunidade de mostrar suas qualidades de homem de ação e de decisão. O prefeito (Carl Benton Reid) lhe oferece o cargo de delegado. Waytt a princípio recusa, mas depois da morte de uma criança durante uma arruaça de vaqueiros embriagados, acaba aceitando. Como primeira providência, interdita o porte de armas de fogo na cidade. Suas decisões drásticas inquietam os comerciantes, que acham seus métodos muito radicais, notadamente Sam McCoy (Walter Coy), que vê com circunspecção o amor que o novo xerife dedica à sua filha Laurie (Vera Miles). Achando que a proibição do porte de armas afastará a sua clientela de caubóis, os negociantes procuram destituir o delegado, e um deles, Doc Black (Edgar Buchanan), trama a sua eliminação.

Joel MacCrea em Choque de Ódios

Joel MacCrea em Choque de Ódios

Tourneur narra o começo da carreira de Wyatt Earp (embora os fatos históricos não tivessem sido bem assim), projetando a figura mítica do protagonista, sua honestidade, e seu zelo pela justiça. A lei é transgredida pelas forças econômicas e essas transgressões produzem as imagens mais contundentes do espetáculo: um menino morto por uma bala perdida, a mulher do banqueiro alevejada através da porta de sua casa. Apesar de contrariado pelos corruptos, Wyatt continua inflexível e é este clima, que o diretor deixa transparecer com muito rigor, muito senso dramático e esplêndida utilização do CinemaScope. Uma boa surpresa ocorre quando Doc Black, contrata dois pistoleiros para liquidar Wyatt, sem saber que eles são dois dos irmãos do xerife.

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A MALETA FATÍDICA / NIGHTFALL.

Em San Francisco, Jim Vanning (Aldo Ray), desenhista de anúncios, suspeito de ter assassinado um amigo e companheiro de pescaria, Dr. Edward Garston (Frank Albertson), nas montanhas do Wyoming, está sendo vigiado pelo investigador de uma companhia de seguros (James Gregory) e perseguido pelos verdadeiros criminosos John (Brian Keith) e Red (Rudy Bond), que estão certos de que Jim tem em seu poder a maleta contendo 350 mil dólares, que eles roubaram de um banco. Ele procura refúgio em um bar, onde encontra Marie Gardner (Anne Bancroft), uma jovem modelo. Quando estavam caçando nas montanhas, Jim e Gurston presenciaram um acidente de carro, e socorreram John e Red, depois do assalto ao banco. Os criminosos mataram o médico, deixaram Vanning ferido e, na fuga, levaram a maleta do doutor em vez da maleta que continha o dinheiro roubado. Jim não avisou a polícia e escondeu o dinheiro na neve, perto de uma cabana. Jim e Marie resolvem retornar ao local, onde se dá o desenlace da trama. John é morto pelo seu sócio psicopata e Jim, livre de qualquer suspeição (porque o investigador, que já estava convencido de sua inocência, assiste a todos esses acontecimentos), pode se casar com Anne.

Cena de A Maleta Fatídica

Cena de A Maleta Fatídica

Anne Bancroft e Aldo Ray em A Maleta Fatídica

Anne Bancroft e Aldo Ray em A Maleta Fatídica

Cena de A Maleta Fatídica

Cena de A Maleta Fatídica

Usando três retrospectos, introduzidos apenas por um corte seco, Tourneur nos apresenta a história de um personagem tipicamente noir: Vanning é uma vítima do acaso, que o colocou em uma situação de perigo e na possibilidade de ser incriminado pela morte do amigo. Sua desconfiança inicial de que Marie o traiu a mando de John e Red mostra como o trauma do herói distorceu sua perspectiva.

A fotografia escura no ambiente citadino contribui para acentuar o clima de paranóia, principalmente na cena do interrogatório em frente à sonda de petróleo – o enorme mecanismo que sobe e desce é uma metáfora dos terrores que atormentam o protagonista. Quando a ação se transfere para a região as montanhas cobertas de neve, o diretor e seu fotógrafo, Burnett Guffey, optam por imagens mais iluminadas, afastando-se da estética expressionista.

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A NOITE DO DEMÔNIO / NIGHT OF THE DEMON.

O Dr. Karswell (Niall MacGinnis), apaixonado por ciências ocultas e magia negra, recebe a visita do professor Henry Harrington (Maurice Denham), que suspeita de sua dedicação a um culto demoníaco. Pouco depois, Harrington é morto por uma criatura, ao que parece, vinda do além. Um colega de Harrington, o psicólogo Dr. John Holden (Dana Andrews), chega da América para prosseguir na sua pesquisa sobre o sobrenatural e, auxiliado por Joanna (Peggy Cummings), sobrinha do falecido, decide investigar aquela morte misteriosa. Holden procura Karswell e este lhe entrega um pergaminho com símbolos rúnicos e prediz sua morte daquí a três dias. Uma série de acontecimentos estranhos enfraquece o ceticismo de Holden, e ele se convence dos poderes de Karswell. Ao saber por um dos seguidores de Karswell, Rand Hobart (Brian Wilde), ao hipnotizá-lo, que o único meio de evitar seu destino, é devolver o pergaminho a Karswell, Holden consegue fazer isto a bordo de um trem, há pouco minutos da data prevista para sua morte e, em consequência, o demônio se materializa, e mata Karswell.

Cena de A Noite do Demônio

Cena de A Noite do Demônio

Tourneur retorna ao gênero de horror sobrenatural, que sempre o seduziu, e consegue mais uma vez assustar o espectador, utilizando o som, lentes distorcidas e a fotografia expressionista, para criar o clima ideal para o desenvolvimento do tema: a existência ou não de forças demoníacas, encarregadas de cumprir uma maldição.

Cena de A Noite do Demônio

Cena de A Noite do Demônio

Cena de A Noite do Demônio

Cena de A Noite do Demônio

No final do filme não se pode afirmar com certeza se o racional ou o sobrenatural teve ascendência um sobre o outro. Se a aparição do demônio parece constatar que as potências das trevas existem, pode ser também que tal aparição ocorreu devido às alucinações das vítimas, paralizadas pelo medo, e que elas foram mortas acidentalmente – nota-se nas duas mortes causadas por uma espécie de dragão gigantesco e fumegante a coincidência de outras causas, como o choque do automóvel da primeira vítima com um poste elétrico e a passagem de um trem, quando o vilão é esmagado pelo monstro. O filme funciona muito bem com essa ambiguidade.

Cena de A Noite do Demônio

Cena de A Noite do Demônio

Além do aspecto parapsicológico, o que interessa ao cineasta é lidar com o medo, construindo momentos inquietantes como a entrada de Holden na mansão de Karswell, sendo assustado pela mão que surge no corrimão da escada ou por uma porta que se abre; a luta de Holden na biblioteca com um gato subitamente metamorfoseado em pantera (que faz lembrar algumas passagens de Sangue de Pantera); Holden sendo perseguido no bosque por uma nuvem de fumaça branca; a sessão de hipnose, com a recuperação da palavra por um adepto do culto demoníaco que havia entrado em estupor catatônico ao trair um ïrmão”; a festa infantil ao ar livre interrompida repentinamente por uma tempestade invocada pelo satanista vestido de palhaço; o pergaminho levado pelo vento e Karswell correndo pela linha do trem em um desespêro inútil para pegá-lo, porque o demônio (ou o fruto de um delírio) logo aparece.