OS FILMES NOIRS DE ANTHONY MANN

Foi no western que ele, a partir de 1950, unindo tema, estrutura e estilo, produziu suas obras mais pessoais. Porém, antes disso, já havia demonstrado sua grande aptidão como cineasta na realização de cinco filmes noirs.

DESESPERADO / DESPERATE (RKO, 1947)

O caminhoneiro Steve Randall (Steve Brodie) é contratado para apanhar uma mercadoria em um armazém, sem saber que vai carregar o produto do roubo que está sendo praticado por Walt Radak (Raymond Burr) e seu bando. Ao perceber do que se trata, Steve acende os faróis do seu caminhão e alerta a polícia. Al (Larry Nunn), irmão de Walt, é preso e condenado. Para tentar livrar Al, Walt obriga Steve a se apresentar como o único responsável, ameaçando fazer mal à sua esposa Anne (Audrey Long. O casal é perseguido, mas felizmente tudo se resolve com a intervenção da polícia.

A situação desesperada do fugitivo, o desejo de vingança dos criminosos (“Seja lá onde estiver, temos que pegá-lo”) e a fotografia expressionista inserem o filme no âmbito noir.

Logo no início, ao ser espancado no esconderijo dos bandidos, Steve esbarra na lâmpada fixada no teto, a única fonte de luz no ambiente, e ela balança, iluminando várias imagens, inclusive o corpo maciço de Walt enquadrado sempre em câmera baixa, como se fosse a encarnação do Mal.

A brutalidade continua quando Walt pretende liquidar Steve no mesmo instante em que seu irmão Al morrer na cadeira elétrica. A execução está marcada para a meia-noite e ele faz questão de aguardar a “hora fatídica”, mantendo um diálogo sádico com seu prisioneiro. “Quem dique o tempo voa?”, diz cinicamente, enquanto a câmera focaliza alternadamente os rostos dos dois homens e o despertador, cujo tique-taque incessante aumenta o suspense.

ENTRE DOIS FOGOS / RAW DEAL (Reliance,1948)

O gângster Joe Sullivan (Dennis O’Keefe) cumpre pena em uma penitenciária, porque Rick Coyle (Raymond Burr) armou uma trama para incriminá-lo. Com a ajuda da amante, Pat (Claire Trevor), ele foge da prisão e pretende se vingar. Quando estava preso, Joe recebia a visita de uma assistente social, Ann Martin (Marsha Hunt); o fugitivo decide sequestrá-la, para servir como refém. Mais tarde, percebendo que Anne não pode viver no submundo, Joe manda-a embora. Ao receber a notícia de que Ann está em poder de Coyle, Pat não diz nada a Joe, porém depois se arrepende e conta tudo. Joe luta com Coyle ocasionando um incêndio. Coyle consumido pelas chamas e Joe sai do local para morrer na rua.

Paté obcecada por Joe. Faz tudo por ele e sente ciúmes de Ann (“Por alguma estranha razão estou me sentindo pior do que antes. Talvez porque ela esteja sentada perto de Joe, onde eu deveria estar. Onde estaria, se ela não estivesse ali”).

Fica ao lado de Joe até o fim, mas passa ao segundo plano na vida de seu antigo parceiro e acaba se conformando, pois seu amor ainda é maior do que o de Ann.

Estes três personagens evoluem em um contexto fatalístico reforçado pela riquíssima fotografia em claro-escuro de John Alton.  A arte de Alton atinge o auge na cena passada na cabine do navio, quando se vê o rosto de Pat de perfil, olhando para o relógio iluminado por um facho de claridade. Depois, o rosto dela refletido no vidro do relógio, o close, até que resolve revelar a Joe o paradeiro de Ann. A silhueta dos dois focalizados entre uma das escotilhas bem iluminada e o reflexo desta no espelho é realmente admirável.

Um outro elemento noir presente neste filme de gângster é o vilão piromaníaco e sádico, sendo notáveis os detalhes dele encostando o isqueiro aceso na orelha do capanga e arremessando um prato um prato quente no rosto da mulher que derrubou bebida em seu terno.

MERCADO HUMANO / BORDER INCIDENT (MGM,1949)

Um fazendeiro sem escrúpulos, Owen Parkson (Howard Da Silva), introduz ilegalmente trabalhadores mexicanos na Califórnia, onde são explorados e depois roubados e mortos. Agentes do Departamento de Imigração dos dois países unem seus esforços para investigar. O agente Pablo Rodriguez (Ricardo Montalban) faz amizade com Juan Garcia (James Mitchell), um dos mexicanos que aguarda ansiosamente sua vez de cruzar a fronteira e consegue ser transportado junto com os outros operários. Ao mesmo tempo, o agente Jack Bearnes (George Murphy) infiltra-se no bando de Parkson, passando por um pequeno escroque. Bearnes é morto, mas Pablo e Garcia, auxiliado por outros companheiros, conseguem exterminar os traficantes.

O filme aborda um problema social (a exploração e o latrocínio dos “braceros” por uma rede de tráfico de mão-de-obra) empregando as estratégias narrativas do semidocumentário (filmagem em locações reais, voz over do narrador atestando a autenticidade dos fatos narrados, louvação aos procedimentos dos agentes governamentais etc.)  e o estilo visual noir.

O fotógrafo John Alton, assíduo colaborador de Mann na época, pinta com seus magníficos contrastes de claro-escuro os desfiladeiros e pântanos de Joaquin Valley, obtendo efeitos impressionantes como, por exemplo, ao focalizar a multidão no crepúsculo.

As numerosas cenas noturnas criam um ambiente dramático que atinge o auge na emboscada dos agricultores clandestinos e na morte do agente americano esmagado por uma ceifeira, cuja imagem distorcida pela lente grande angular causa ainda mais temor.

A paisagem, como sempre acontece na obra do diretor, é captada com alma de arquiteto em magníficas composições pictóricas, prefigurando seu trabalho nos westerns, que começaria a fazer no ano seguinte.

MOEDA FALSA / T-MEN (Reliance, 1948)

Um agente do Tesouro está prestes a desmascarar uma quadrilha de falsários, quando é assassinado. Dois novos agentes, O’Brien (Dennis O’ Keefe) e Genaro (Alfred Ryder), são encarregados do caso. Assumindo as identidades de pequenos delinquentes, travam conhecimento com um homem apelidado de “Professor”, (Wallace Ford) que tem ligação com os falsários e quando este é eliminado por Moxie (Charles McGraw), um dos capangas do subchefe da quadrilha, Genaro encontra uma caderneta dele com anotações em código que comprometem o alto escalão do bando. Neste instante, chega Moxie e mata Genaro. O’Brien observa, sem poder fazer nada; mas se apodera do código e o entrega a seus superiores.

Orientados pela voz over de um narrador (Reed Hadley), vemos como agem os agentes do Tesouro e como correm perigo no cumprimento do dever. Eles têm de controlar seus nervos quando são obrigados a se fazerem passar por criminosos, vivem uma vida solitária e apreensiva, sacrificam-se para levar a cabo sua missão.

Desde as primeiras tomadas da morte do primeiro agente quando o rosto iluminado de Moxie surge das sombras até a perseguição final no navio, Alton e Mann ilustram esses temas com grande inventividade, usando contrastes de claro-escuro, angulações estranhas, profundidade de campo, silhueta, reflexos, etc.

O plano em câmera baixa de O’Brien e o “Professor” examinando a nota falsa sobre a luz de um abajur ou a imagem da fotógrafa loura do Clube Trinidad refletida na cabine telefônica onde O’ Brien se encontra, mostram bem a criatividade visual dos dois artistas.

A cena antológica é a da morte do “Professor” na sauna. Moxie deixa-o trancado no meio do vapor sob uma luz forte e do lado de fora espia sorridente a aflição da vítima tentando quebrar o vidro da porta com um banquinho. Não ouvimos a voz do “Professor”, apenas seus gestos desesperados.

PECADO SEM MÁCULA / SIDE STREET (MGM, 1950)

Precisando pagar as despesas com o parto de sua esposa Ellen (Cathy O’Donnell), o mensageiro Joe Norson (Farley Granger) rouba uma pasta que julga conter alguns dólares. Entretanto, o dinheiro era o pagamento de uma chantagem que Victor Backett (Edmond Ryan) e seu cúmplice, George Garsell (James Craig), fizeram com Emil Lorrison (Paul Harvey), um próspero corretor, usando uma loura chamada Lucile (Adele Jergens) para atraí-lo. Norson retira os 236 dólares de que necessita, coloca o restante em um pacote e o entrega a Nick Drummon (Ed Max), um garçom amigo seu, para guardá-lo. Depois, apresenta-se a Backett, dispondo-se a devolver todos os dólares menos os 236 que já gastou, se ele não denunciá-lo. Porém Nick roubou o dinheiro e Norson é perseguido pelos bandidos.

O filme tem um estilo semidocumentário (filmagem em locação, narrador apresentando a cidade e o protagonista ou comentando as situações), elementos temáticos noir (homem comum conduzido ao crime por um lapso moral momentâneo, corrupção, violência, desespero) e uma fotografia ocasionalmente contrastada (v. g. quando Norson encontra Nick morto; entra sorrateiramente no hospital; vai à boate e depois ao prédio onde Harriet (Jean Hagen), a namorada de Garsell,reside).

Norson comete um ato de fraqueza e, a partir daí, é conduzido por acontecimentos fora do controle de qualquer indivíduo, uma vítima dark perfeita, bem representada na figura de Farley Granger, o ator ideal para o papel. Com sua voz mansa e rosto frágil ele exprime bem o sentimento de culpa e a aflição do herói.

Mann e seu fotógrafo Joe Ruttenberg esmeraram-se nos enquadramentos (George de costas para a câmera no escuro apontando uma arma na direção das figuras bem iluminadas de Lucille e de Lorrison em contra-plano enquanto o chantageado está se abaixando para pegar as fotos no chão; George estrangulando Harriet  (Jean Hagen) como se a estivesse beijando dentro do carro, vendo-se pelo vidro traseiro o leiteiro que se aproxima etc.) e construíram uma sequência final emocionante de perseguição pelas ruas desertas do centro financeiro de  Manhattan, utilizando figurativamente as mais variadas angulações, inclusive a câmera diretamente do alto.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.