OS FILMES NOIRS DE JULES DASSIN

Os filmes dele antes dos filmes noirs eram filmes de guerra (Sombra do Passado / Nazi Agent / 1942, Uma Aventura em Paris / Reunion in France / 1946), comédias (Sua Criada Obrigada / 1942, Cuidado com Mamãe / Young Ideas / 1943, Uma Carta para Evie / A Letter for Evie / 1946), um drama criminal romântico (Algemas para Dois / Two Smart People / 1946) e uma adaptação da história de Oscar Wilde (O Fantasma de Canterville / The Phantom of Canterville / 1944).

A partir de 1947 começou a fazer os seguintes filmes noirs:

BRUTALIDADE / BRUTE FORCE (Hellinger,1947).

Em uma penitenciária, os detentos são tratados com requinte de sadismo pelo Capitão Munsey (Hume Cronyn). Joe Collins (Burt Lancaster) e seus companheiros de cela começam a planejar a fuga. Depois que seu informante é morto, a brutalidade de Munsey parece incontrolável. A subsequente rebelião se transforma em uma erupção de violência fatal que destrói os detentos e Munsey.

Drama penitenciário contendo aspectos noir (niilismo, corrupção, desespero, fatalismo) e uma severa acusação do sistema penal e da sociedade contemporânea.

A prisão é representada como um microcosmo de uma ordem social baseada na repressão e na tirania. É um verdadeiro inferno, do qual não há escapatória.

As cenas da morte do delator, ameaçado pelos maçaricos acesos de seus companheiros até ser esmagado pela prensa; a morte do suicida, vendo-se a sombra do enforcado na parede e os óculos caídos; a rebelião no pátio, com a execução do traidor amarrado ao vagão de carregamento de minério e Collins jogando Munsey do alto da torre, são os momentos cinematográficos de maior impacto na direção viril de Dassin.

CIDADE NUA / THE NAKED CITY (Hellinger, 1948)

O detetive veterano Dan Muldoon (Barry Fitzgerald) e seu auxiliar inexperiente, Jimmy Halloran (Don Taylor), investigam o assassinato de uma jovem modelo em NovaYork. Os dois devassam a cidade, interrogando várias pessoas e acabam identificando os responsáveis pelo crime, que envolvia um roubo de jóias: Frank Niles (Howard Duff) e Willie Garzah (Ted de Corsia), Niles é preso com facilidade; porém Garzah foge desesperadamente pelas ruas do Lower East Side, sendo finalmente encurralado na ponte de Williamsburg e morto pelos policiais.

Rodado em lugares autênticos, no estilo semi-documentário, o filme pouco (voz over, a cidade grande como parte integral do drama, enquadramentos muito ornamentados nas cenas passadas nas vigas da ponte), tem de noir. É uma autêntica reportagem cinematográfica, descrevendo de maneira concisa e vigorosa o trabalho da polícia na grande metrópole.

O próprio produtor (Mark Hellinger) narra os acontecimentos, conversando com os personagens, lendo seus pensamentos, fazendo comentários e até atuando como nosso substituto, quando diz, por exemplo, ao fugitivo Garzah: “Calma, Garzah. Não corra! Não chame a atenção sobre sua pessoa!” ou “Não perca a cabeça”, no instante em que o assassino é atacado pelo cão do cego e ele tira a arma do bolso traseiro da calça para matá-lo.

O filme demonstra certa consciência social no momento em que o casal do interior chega a Manhattan para identificar o corpo de sua filha assassinada. A mãe lamenta: “Luzes brilhantes, teatro, peles, boates … Bom Deus, por que ela não nasceu feia? Esta cena triste, passada na margem do East River, enquanto o sol se põe atrás dos arranha-céus, magnificamente fotografados por William Daniels, têm a força de uma acusação.

A fotografia, a montagem e a música, bem coordenadas por Dassin, dão um ritmo ideal à narrativa, que transcorre em uma atmosfera humana e realista até o desfecho eletrizante da perseguição do criminoso pelas ruas, culminando no alto da ponte, onde ele é alvejado pelas balas dos policiais.

MERCADO DE LADRÕES / THIEVE’S HIGHWAY (20thCentury -Fox, 1949)

O ex-pracinha Nick Garcos (Richard Conte) volta para casa e fica sabendo que o pai, um velho caminhoneiro, ficou aleijado em um acidente em circunstâncias suspeitas, após ter vendido seu carregamento para um atacadista, Mike Figlia (Lee J. Cobb). Nick faz parceria com Ed (Millard Mitchell), um amigo de seu pai, e os dois levam um carregamento de maçãs até San Francisco, onde Nick pretende ajustar contas com Figlia. Este contrata uma refugiada italiana, Rica (Valentina Cortese) para atrair Nick ao seu apartamento enquanto ele vende as maçãs dele. Finalmente, Nick obriga Figlia a devolver-lhe o dinheiro e o esmurra sem parar até que a polícia, alertada por Rica, chega ao local.

O filme é um drama realista de repercussão social – caminhoneiros que vão buscar frutas às mãos dos produtores e levá-las até o mercado distante, onde são explorados por intermediários – cuidando particularmente da vingança do ex-pracinha contra um dos inescrupulosos negociantes.

Dassin expõe os fatos cruamente, aproveitando as locações nas estradas e no mercado de São Francisco para efeitos de realismo – e lhes dá ua conclusão otimista, divergente da obra original (romance Thieves Market de A.I. Bezzerides, roteirista do filme) pois nesta o protagonista se converte à ganância geral.

O detalhe noir está na transformação do veterano de guerra, por força das circunstâncias, em um indivíduo rancoroso, que pretende fazer justiça pelas próprias mãos, e no ambiente de cobiça e de traição, no qual ele é obrigado a se envolver.

Esta mudança é bem expressa pela fotografia. As cenas passadas no campo são claras e filmadas geralmente com uma câmera normal, colocada na altura dos personagens.  À medida que Nick se aproximada cidade, a iluminação se torna mais escura e os ângulos mais ousados.

O espetáculo também tem cenas angustiantes (a descida vertiginosa do caminhão descontrolado de Ed pela ladeira) e violentas (o acerto de contas no epílogo quando Nick usa o cabo de uma machadinha para quebrar a mão de Figlia), ambas realizadas com consciência cinematográfica.

SOMBRAS DO MAL / NIGHT AND THE CITY (20thCentury-Fox, 1950)

Ao saber que o lendário profissional de luta romana, Gregorios (Sanislaus Zbyszko), está indignado com as lutas sensacionalistas que seu filho Kristo (Herbert Lom) oferece ao público, Harry Fabian (Richard Widmark) conquista sua simpatia. E o convence de que poderá realizar espetáculos mais dignos daquele esporte.  Ao saber disso, Kristo ameaça Fabian de morte, caso ele não cumpra o que prometeu ao seu pai.  Entretanto, Phil Nosseros (Francis L. Sullivan) dono de uma boate, que financia Fabian, desconfiando de que este é amante de sua mulher, arma-lhe uma cilada. Nosseros obriga-o a promover uma luta entre Nicolas (Ken Richmond), o pupilo de Gregorius e O Estrangulador (Mike Mazurki), um lutador que Gregorios despreza. O Estrangulador troca insultos com Gregorios, os dois se agridem fisicamente e o velho sofre um derrame cerebral. Em consequência, Kristo mobiliza todo o submundo de Londres para encontrar Fabian, que vem a ser morto pelo Estrangulador.

O espetáculo possui todos os ingredientes de um filme noir puro salvo o ambiente urbano americano.

Seu personagem central, Harry Fabian, é um herói dark típico, que circula em um submundo povoado por falsos mendigos e pequenos escroques que lembram o “pátio dos milagres” Hugoliano.

Ao lado desses tipos de rua surgem, em um nível mais elevado da escala social, personagens grotescos ou patéticos (o proprietário da boate, obeso e mal-amado; sua esposa frustrada e ambiciosa; o gângster inescrupuloso e vingativo; o lutador idealista e anacrônico) cujas ações vão influenciar o fim trágico do vigarista.

Desde os primeiros momentos da narrativa, fica óbvio que Fabian é um perdedor e sua sorte está selada. Nosseros lhe diz: “Você é um homem morto”.  Após ter sido perseguido durante toda a noite, ele consegue abrigo no barraco de uma mulher que negocia no mercado negro e se abre pela primeira e única vez, confessando para a velha indiferente: “Passei toda a minha vida correndo: de assistentes sociais, de bandidos, de meu pai …” Finalmente, Fabian pensa: “Eu estava tão perto …Então um acidente, um simples acidente e tudo se desmoronou.”

O ritmo do filme é vibrante e a composição plástica expressionisticamente barroca.

Dassin e seu cinegrafista exploram muito bem o claro-escuro, as ruelas e as ruínas de Londres do pós-guerra, elevando a filmagem realmente de noite a um nível máximo de criatividade.

Empregam o close-up, a lente angular e os ângulos bizarros de maneira admirável, principalmente quando focalizam o gordo Nosseros como se fosse uma aranha  na sua toca ou O Estrangulador enfrentado Gregorios num  choque de gigantes

BRUTALIDADE / BRUTE FORCE (Hellinger,1947).

Em uma penitenciária, os detentos são tratados com requinte de sadismo pelo Capitão Munsey (Hume Cronyn). Joe Collins (Burt Lancaster) e seus companheiros de cela começam a planejar a fuga. Depois que seu informante é morto, a brutalidade de Munsey parece incontrolável. A subsequente rebelião se transforma em uma erupção de violência fatal que destrói os detentos e Munsey.
Drama penitenciário contendo aspectos noir (niilismo, corrupção, desespero, fatalismo) e uma severa acusação do sistema penal e da sociedade contemporânea.
A prisão é representada como um microcosmo de uma ordem social baseada na repressão e na tirania. É um verdadeiro inferno, do qual não há escapatória.
As cenas da morte do delator, ameaçado pelos maçaricos acesos de seus companheiros até ser esmagado pela prensa; a morte do suicida, vendo-se a sombra do enforcado na parede e os óculos caídos; a rebelião no pátio, com a execução do traidor amarrado ao vagão de carregamento de minério e Collins jogando Munsey do alto da torre, são os momentos cinematográficos de maior impacto na direção viril de Dassin.

CIDADE NUA / THE NAKED CITY (Hellinger, 1948)

O detetive veterano Dan Muldoon (Barry Fitzgerald) e seu auxiliar inexperiente, Jimmy Halloran (Don Taylor), investigam o assassinato de uma jovem modelo em NovaYork. Os dois devassam a cidade, interrogando várias pessoas e acabam identificando os responsáveis pelo crime, que envolvia um roubo de jóias: Frank Niles (Howard Duff) e Willie Garzah (Ted de Corsia), Niles é preso com facilidade; porém Garzah foge desesperadamente pelas ruas do Lower East Side, sendo finalmente encurralado na ponte de Williamsburg e morto pelos policiais.
Rodado em lugares autênticos, no estilo semi-documentário, o filme pouco (voz over, a cidade grande como parte integral do drama, enquadramentos muito ornamentados nas cenas passadas nas vigas da ponte), tem de noir. É uma autêntica reportagem cinematográfica, descrevendo de maneira concisa e vigorosa o trabalho da polícia na grande metrópole.
O próprio produtor (Mark Hellinger) narra os acontecimentos, conversando com os personagens, lendo seus pensamentos, fazendo comentários e até atuando como nosso substituto, quando diz, por exemplo, ao fugitivo Garzah: “Calma, Garzah. Não corra! Não chame a atenção sobre sua pessoa!” ou “Não perca a cabeça”, no instante em que o assassino é atacado pelo cão do cego e ele tira a arma do bolso traseiro da calça para matá-lo.
O filme demonstra certa consciência social no momento em que o casal do interior chega a Manhattan para identificar o corpo de sua filha assassinada. A mãe lamenta: “Luzes brilhantes, teatro, peles, boates … Bom Deus, por que ela não nasceu feia? Esta cena triste, passada na margem do East River, enquanto o sol se põe atrás dos arranha-céus, magnificamente fotografados por William Daniels, têm a força de uma acusação.
A fotografia, a montagem e a música, bem coordenadas por Dassin, dão um ritmo ideal à narrativa, que transcorre em uma atmosfera humana e realista até o desfecho eletrizante da perseguição do criminoso pelas ruas, culminando no alto da ponte, onde ele é alvejado pelas balas dos policiais.

MERCADO DE LADRÕES / THIEVE’S HIGHWAY (20thCentury -Fox, 1949)

O ex-pracinha Nick Garcos (Richard Conte) volta para casa e fica sabendo que o pai, um velho caminhoneiro, ficou aleijado em um acidente em circunstâncias suspeitas, após ter vendido seu carregamento para um atacadista, Mike Figlia (Lee J. Cobb). Nick faz parceria com Ed (Millard Mitchell), um amigo de seu pai, e os dois levam um carregamento de maçãs até San Francisco, onde Nick pretende ajustar contas com Figlia. Este contrata uma refugiada italiana, Rica (Valentina Cortese) para atrair Nick ao seu apartamento enquanto ele vende as maçãs dele. Finalmente, Nick obriga Figlia a devolver-lhe o dinheiro e o esmurra sem parar até que a polícia, alertada por Rica, chega ao local.
O filme é um drama realista de repercussão social – caminhoneiros que vão buscar frutas às mãos dos produtores e levá-las até o mercado distante, onde são explorados por intermediários – cuidando particularmente da vingança do ex-pracinha contra um dos inescrupulosos negociantes.
Dassin expõe os fatos cruamente, aproveitando as locações nas estradas e no mercado de São Francisco para efeitos de realismo – e lhes dá ua conclusão otimista, divergente da obra original (romance Thieves Market de A.I. Bezzerides, roteirista do filme) pois nesta o protagonista se converte à ganância geral.
O detalhe noir está na transformação do veterano de guerra, por força das circunstâncias, em um indivíduo rancoroso, que pretende fazer justiça pelas próprias mãos, e no ambiente de cobiça e de traição, no qual ele é obrigado a se envolver.
Esta mudança é bem expressa pela fotografia. As cenas passadas no campo são claras e filmadas geralmente com uma câmera normal, colocada na altura dos personagens. À medida que Nick se aproximada cidade, a iluminação se torna mais escura e os ângulos mais ousados.
O espetáculo também tem cenas angustiantes (a descida vertiginosa do caminhão descontrolado de Ed pela ladeira) e violentas (o acerto de contas no epílogo quando Nick usa o cabo de uma machadinha para quebrar a mão de Figlia), ambas realizadas com consciência cinematográfica.

SOMBRAS DO MAL / NIGHT AND THE CITY (20thCentury-Fox, 1950)

Ao saber que o lendário profissional de luta romana, Gregorios (Sanislaus Zbyszko), está indignado com as lutas sensacionalistas que seu filho Kristo (Herbert Lom) oferece ao público, Harry Fabian (Richard Widmark) conquista sua simpatia. E o convence de que poderá realizar espetáculos mais dignos daquele esporte. Ao saber disso, Kristo ameaça Fabian de morte, caso ele não cumpra o que prometeu ao seu pai. Entretanto, Phil Nosseros (Francis L. Sullivan) dono de uma boate, que financia Fabian, desconfiando de que este é amante de sua mulher, arma-lhe uma cilada. Nosseros obriga-o a promover uma luta entre Nicolas (Ken Richmond), o pupilo de Gregorius e O Estrangulador (Mike Mazurki), um lutador que Gregorios despreza. O Estrangulador troca insultos com Gregorios, os dois se agridem fisicamente e o velho sofre um derrame cerebral. Em consequência, Kristo mobiliza todo o submundo de Londres para encontrar Fabian, que vem a ser morto pelo Estrangulador.
O espetáculo possui todos os ingredientes de um filme noir puro salvo o ambiente urbano americano.
Seu personagem central, Harry Fabian, é um herói dark típico, que circula em um submundo povoado por falsos mendigos e pequenos escroques que lembram o “pátio dos milagres” Hugoliano.
Ao lado desses tipos de rua surgem, em um nível mais elevado da escala social, personagens grotescos ou patéticos (o proprietário da boate, obeso e mal-amado; sua esposa frustrada e ambiciosa; o gângster inescrupuloso e vingativo; o lutador idealista e anacrônico) cujas ações vão influenciar o fim trágico do vigarista.
Desde os primeiros momentos da narrativa, fica óbvio que Fabian é um perdedor e sua sorte está selada. Nosseros lhe diz: “Você é um homem morto”. Após ter sido perseguido durante toda a noite, ele consegue abrigo no barraco de uma mulher que negocia no mercado negro e se abre pela primeira e única vez, confessando para a velha indiferente: “Passei toda a minha vida correndo: de assistentes sociais, de bandidos, de meu pai …” Finalmente, Fabian pensa: “Eu estava tão perto …Então um acidente, um simples acidente e tudo se desmoronou.”
O ritmo do filme é vibrante e a composição plástica expressionisticamente barroca.
Dassin e seu cinegrafista exploram muito bem o claro-escuro, as ruelas e as ruínas de Londres do pós-guerra, elevando a filmagem realmente de noite a um nível máximo de criatividade.
Empregam o close-up, a lente angular e os ângulos bizarros de maneira admirável, principalmente quando focalizam o gordo Nosseros como se fosse uma aranha na sua toca ou O Estrangulador enfrentado Gregorios num choque de gigantes.

2 pensou em “OS FILMES NOIRS DE JULES DASSIN

  1. Newton C Braga

    Boa noite, mestre. Como sempre, ótima postagem. Mas o texto está duplicado (poder-se-ia dizer que o prazer é duplo…) Abraços.

  2. AC Autor do post

    Obrigado pelo aviso. Você como sempre meu defensor. Já consertei, pois um outro amigo me avisou.Tive um problema com o computoador.Este mundo digital me deixa louco.Um forte abraço.

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