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OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

OS RUSSOS BRANCOS NO CINEMA FRANCÊS

Por intermédio de um antigo represente da Pathé que eles haviam conhecido em Moscou um grupo de cineastas refugiados tomou posse de um velho estúdio abandonado em Montreuil-sous-Bois, generosamente colocado à sua disposição por Charles Pathé. Foi lá que, sob a marca Albatros, a pequena colônia russa criou numerosas obras cinematográficas que podemos classificar entre as melhores de seu tempo.

Estes homens, foram chamados os Russos Brancos, pois a maior parte acabava de escapar do novo regime soviético. Eles foram então se refugiar através da Europa, na Alemanha e na França, sobretudo nos anos vinte. Seus nomes: Alexis Granowski, Anatole Litvak, Léonide Moguy, Fédor Ozep, Vladimir Strijewski, Victor Tourjansky, Victor Trivas, Alexandre Volkoff e Ivan Mosjoukine.

Na sua maior parte, os filmes dos Russos Brancos continham intrigas adaptadas dos grandes autores da literatura russa: Tolstoi, Pushkin, Gogol, Dostoievsky ou quando não era o caso simplesmente de Joseph Kessel, romancista argentino que viveu os primeiros dias de sua infância na Rússia e depois se tornou um romancista francês.

Esta corrente, uma das mais insólitas do cinema francês, não proporcionou obras-primas duradouras. Eram na sua maioria histórias românticas desgrenhadas e melodramáticas, mas que tinham um certo encanto. Atores com uma bela presença – Pierre Richard-Willm, Victor Francen, Pierre Blanchar – se consagraram com este tipo de filme. O sucesso destas realizações influenciou outros cineastas: Marcel L’Herbier (Noites de São Petersburgo / Nuits de Feu / 1937; Rasputin – A Tragédia Imperial / Tragédie Imperiale / 1938; Jean Dréville (Troïka sur la piste blanche / 1937 e Sonata de Kreutzer / Les Nuits blanches de Saint-Petersbourg / 1938, Pierre Billon (Ao Serviço do Tsar / Au Service du Tsar / 1936.

Alexis Granowski

Assim como outros de seus compatriotas, Alexis Granowski (Abraham Azarkh, (1899-1937) trabalhou primeiro na Alemanha antes de chegar na França. Deve-se a ele lá, por exemplo, Die Koffer des Herrn O.F. /1931. Já na França, ele fez:  a comédia Les Aventures du Roi Pausole / 1933 com Edwige Feuillère no elenco; a adaptação cinematográfica do romance de Pierre Benoît Noites Moscovitas / Les Nuits Moscovites / 1934, com Harry Baur e o par Annabella e Pierre Richard-Willm; Taras Bulba / Tarass Boulba / 1936, outra adaptação literária de Pierre Benoît com Harry Baur (no papel do cossaco gargantuesco), Jean-Pierre Aumont e Roger Duchesne como seus filhos André e Ostap e Danielle Darrieux como Marina, a nobre polaca que seduz André e o faz trair seu pai.

Anatole Litvak

Ator muito popular na União Soviética, Anatole Litvak (Anatoly Mikhailovich Litvak, (1902-1974) torna-se diretor com seu primeiro longa metragem intitulado Tatiana / 1925. Ele está em Berlim no começo do cinema falado depois em Paris onde realiza Coeur de Lilas / 1932, seu primeiro filme francês e depois: Ave de Rapina / Cette Vieille Canaille / 1933 com Harry Baur Pierre Blanchar e Alice Field; Tripulantes do Céu / L’Equipage / 1935 com o quarteto Annnabella, Jean-Pierre Aumont, Charles Vanel e Jean Murat; Mayerling / Mayerling / 1936 com o casal Charles Boyer e Danielle Darrieux encarnando os amores trágicos de Marie Vetsera e o Arquiduque Rodolphe. Este filme marca uma reviravolta importante na filmografia do cineasta porque foi o seu último longa-metragem francês antes de sua ida para os Estados Unidos.

Léonide Moguy

Léonide Moguy (Leonid Mohylevskyi, 1899-1976) começou sua carreira no cinema como técnico, codirigindo Baccara / 1935 com Yves Mirande e depois assumiu sozinho a responsabilidade de Le Mioche / 1936. Em seguide ele fez: Mulheres sem Homens / Prison sans Barreaux / 1937; Conflito / Conflict / 1938; A Caminho do Front / J’Attendrai / 1939 com ação situada na Primeira Grande Guerra. Em 1940, após ter feito L’ Empreinte du Dieu / 1940, Moguy partiu para os Estados Unidos.

Fédor Ozep

A carreira cinematográfica de Fédor Ozep (Fyodor Otsep, 1895-1949) começou na Rússia. Ele foi um dos autores do roteiro com inspiração fantástica de Aelita (Dir: Yakov Protazanov / 1924). Depois ele filmou na Alemanha Zhivoy trup / Cadáver Vivo / 1929 baseado numa peça de Tolstoi. No curso dos anos trinta estava na França, onde realizou em duas versões, francesa e alemã, Les Frères Karamazov / 1931, adaptação renomada do grande romance de Dostoievsky com Anna Sten como Gruschenka e o argumento de Victor Trivas e a fotografia de Fritz Rasp, acentuando o clima de fascinação que o filme exerceu sobre o público.

Em 1932 o jovem diretor se instalou na França, onde realizou Miragens de Paris / Mirages de Paris em 1932; o esplêndido Amok /Amok / 1934, baseado num conto de Stefan Zweig, com Jean Yonnel como o médico fracassado que busca o esquecimento na selva malasiana e acaba por encontrar uma razão de viver no amor sublimado de uma mulher arrogante (Marcelle Chantal); A Dama de Espadas / La Dame de Pique / 1937  inspirado na novela com elementos sobrenaturais de Alexandre Pushkin, tendo nos papéis principais Marguerite Moreno como a Condessa Tomski, a Dama de Espadas e Pierre Blanchar como o Capitão Hermann, que quer lhe arrancar o segredo para ganhar no jogo de cartas; A Princesa Tarakanowa / Tarakanowa / 1938, nova versão de um filme mudo de Raymond Bernard com Suzy Prim como Catarina, a Grande, Annie Vernay como a princesa Elisabeth Tarakanowa e Pierre Richard-Willm como o Conde Alexis Orloff, favorito da imperatriz, encarregado de seduzir Elisabeth, pretendente do trono, a fim de trazê-la para a Russia, a fim de que Catarina possa mais facilmente livrar-se dela. A história atinge seu ponto culminante com a morte trágica dos dois amantes. marcados pelo destino.

Triunfo comercial, Gibralta / Gibraltar / 1938, com Viviane Romance, Roger Duchesne e Erich von Stroheim, foi o último longa-metragem francês do cineasta antes de sua partida para o Novo Mundo.

Wladimir Strijewsky

Ator em 1916 dos filmes de Yegeni Bauer, Wladimir Strijewsky realizou dois filmes na França: Les Bateliers de la Volga / 1936, drama de espionagem baseado num romance de Joseph Kessel com Véra Korène como mulher fatal capaz de todas as perfídias e dois atores de classe, Pierre Blanchar e Charles Vanel e Nuits de Princes / 1937, também adaptado de um romance de Kessel passado no meio de imigrantes russos com a atriz alemã Käthe von Nagy e Jean Murat.

Victor Tourjansky

Pioneiro do cinema tsarista, Victor Tourjansky (1891-1976) era um ator célebre na Rússia. Após a Revolução de1917 ele emigrou para a Europa e, a partir de 1920, se encontrava na França, onde realizou uma primeira versão de L’ Ordonnance / 1921, baseada num romance de Guy de Maupassant.

Uma carreira internacional se abriu para ele, primeiro em Hollywood em 1928, depois na Alemanha em 1935, e mais tarde na Itália nos anos cinquenta. Desta maneira ele experimentou todas as tendências da 7ª Arte, do brilho de Hollywood aos esplendores do cinema nazista, passando pelo peplum italiano. Foi logo depois sua partida da Alemanha – uma partida momentânea – e um Manolesco / Manolesco – Der Konig des Hochstapler / 1929 famoso com Ivan Mosjoukine, Brigitte Helm, Dita Parlo e Heinrich George que Tourjansky realiza seu primeiro filme francês, L’Aiglon / 1931, baseado na peça de Edmond Rostand sobre Napoleão II com Jean Weber como o filho de Napoleão e Victor Francen como o seu fiel Flambeau. Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937

Seus filmes seguintes na França foram: Le Chanteur Inconnu / 1931 com o tenor da Ópera de Paris Lucien Muratore; Hôtel des Étudiants / 1932; nova versão falada de L’Ordonnance /1933 com Marcelle Chantal, Georges Rigaud, Jean Worms, Alexandre Rignault e … Fernandel paquerando Paulette Dubost; Volga em Chamas / Volga em Flammes / 1934, superprodução filmada na Tchecoslováquia com o quarteto Albert Préjean, Danielle Darrieux, Raymond Rouleau e Valéry Inkijinoff; Olhos Negros / Les Yeux Noirs / 1935 com Harry Baur e Simone Simon e Jean-Pierre Aumont formando um par charmoso; Vertigem de uma Noite / Vertige d’un Soir / 1936 (também conhecido como La Peur)  com Gaby Morlay, Georges Rigaud, Charles Vanel e Suzy Prim; A Sublime Mentira de Nina Petrovna /  Le Mensonge de Nina Petrovna / 1937, melodrama de estilo barroco cm Fernand Gravey, Aimé Clariond e Isa Miranda.

Na Alemanha Tourjanksy filmou uma comédia com Zarah Leander e Willy Birgel, A Raposa Azul / Der Blaufuchs / 1938 e dois melodramas com Brigitte Horney, um de propaganda nazista, Der Gouveurneur / 1939 e o outro, romântico, Illusion / 1941.

Victor Trivas

O russo Victor Trivas se estabeleceu na Alemanha antes ir trabalhar na França em 1933. Cenógrafo do cineasta Georg W. Pabst, ele logo se junta à colônia de seus compatriotas russos, reunidos durante algum tempo nos estúdios berlinenses.

Em 1931, ele havia dirigido seu primeiro filme, o drama de guerra Niemansland, um vibrante apelo à paz, passado na Primeira Guerra Mundial Os nazistas julgaram seu conteúdo muito subversivo e destruíram todas as cópias que encontraram, pouco tempo depois de sua exibição nos cinemas.

Trivas só realizou um longa-metragem na França, Dans les Rues / 1933, drama criminal sobre delinquência juvenil com Jean-Pierre Aumont, Madeleine Ozeray e Vladimir Sokoloff e participou como co-diretor (não creditado) de uma comédia de boulevar, Tovaritch, comédia de boulevard que retrata precisamente as desventuras de um casal de Russos Brancos exilados na França, e de alta linhagem real, obrigado a trabalhar como empregados domésticos para sobreviver. Em 1937, já nos Estados Unidos, Anatole Litvak faria uma refilmagem, intitulada no Brasil Nobres sem Fortuna com Claudette Colbert, Charles Boyer e Basil Rathbone. Curiosamente, Trivas se tornou então um roteirista do sistema hollywoodiano.

Alexandre Volkoff

Alexandre Volkoff foi ator e depois um realizador brilhante da Rússia tzarista. Otets Sergiy, baseado num conto de Tolstoi, que ele dirigiu em 1917 de parceria com Yakov Protazanov e tendo Ivan Mosjoukine e Nathalie Lissenko no elenco, coroa o primeiro período de sua carreira. Após a Revolução, acompanhado do ator e amigo Mosjoukine, Volkoff se instala na França. Eles ofereceram vários filmes de sucesso mas sua obra-prima incontestável foi Kean ou Desórdre et Génie / 1924, adaptação da peça de Alexande Dumas sobre o grande ator shakespereano britânico Edmund Kean, interpretado por Mosjoukine.

Ivan Mosjoukine

Após a morte de Rudolph Valentino, Casanova / 1927, fez de Mosjoukine o único “amante perfeito” do cinema internacional aos olhos do gênero feminino. Entretanto, o cinema falado veio para estragar tudo. Por causa de seu sotaque Mosjoukine de repente perdeu seu público. La Mille et Deuxième Nuit / 1933 é representativo deste desastre: o público mal entendia as falas do ator. Mesmo destino cruel teve L’ Enfant du Carnaval / 1934.

Alexandre Volkoff realizou um filme na Itália e desapareceu ele também pouco tempo depois.

A PARADA DA VIDA DE JOHN NESBITT

A PARADA VIDA DE JOHN NESBITT (REPRISE DE NOSSSO POST DE 20.01.2021(Com Acréscimos).

Ele foi um grande contador de histórias, primeiro no Rádio e depois no Cinema. Nascido no Canadá, John Booth Nesbitt (1910-1960) supostamente começou a contar histórias quando seu pai, em vários momentos um pastor e um oficial da Inteligência Britânica, lhe deixou um baú com recortes de jornais acumulados durante uma vida inteira de viagens.

John Nesbitt

Quando o jovem Nesbitt foi trabalhar no rádio nos anos trinta (começando a fazer adaptações de Shakespeare para a emissora HXL em San Francisco), ele desenvolveu um programa próprio intitulado Headlines of the Past (Manchetes do Passado), que gradualmente evoluiu para Passing Parade (Parada da Vida). Foi o sucesso deste programa que levou Nesbitt para a MGM, inicialmente para narrar uma nova série de shorts (curtas-metragens), Mistério Histórico / Historical Mysteries, começando com O Navio Que Morreu / The Ship That Died, The Face Behind the Mask, Providência Esquecida / Forgotten Step, Salvando a Vida das Mães / That Mothers May Live, Joaquin Murieta, e um “special” chamado A Vida lhes Sorri de Novo / They Live Again. Em 1942 ele narrou outro “special” de tempo de guerra, A Yardstick for Rumors.
Em pouco tempo a popularidade de Nesbitt ditou que ele recebesse uma série própria, e após um ano narrando e escrevendo vários shorts semidocumentários, nasceu A Parada da Vida de John Nesbitt, primeiramente incluindo vários tópicos em um rolo de filme e depois focando em um único assunto por filme. Estes curtas-metragens faziam uso abundante de tomadas de arquivo não somente da filmoteca da MGM, mas também dos primeiros filmes da série. Neles figuram diretores que depois se tornaram famosos como, por exemplo, Fred Zinneman, George Sidney e Jacques Tourneur.
A Parada da Vida, introduzida com a impressionante arte do título e um tema musical da Quinta Sinfonia de Tchaikowsky, continuou até 1949, quando por razões desconhecidas, foi descontinuada. Em 1956 a série foi reativada, desta vez na televisão realizada no estúdio de Hal Roach.

1939:

1.Singularidades / Passing Parade #1. Dir: Basil Wrangell. Composto de três episódios: The Marriage Industry, história do casamento por correspondência; Unclaimed Millions, mostrando o dinheiro que é deixado no banco indefinitivamente; Autbiography of a Car, da fábrica para a pilha de sucata.

2. Novos Caminhos / New Roadways. Dir: Basil Wrangell. Sobre o novo desenvolvimento da indústria; um olhar sobre a cirurgia plástica; a maravilha da pesquisa científica.

3. A História de Alfredo Nobel / The Story of Alfred Nobel. Dir: Joseph M. Newman. Sobre o inventor da dinamite.

4. A História do Dr. Jenner / The Story of Dr. Jenner. Dir: Henry K. Dunn. Sobre o homem que descobriu a vacinação.

5. Anjo de Caridade / Angel of Mercy. Dir: Edward L. Cahn. A história de Clara Barton, fundadora da Cruz Vermelha.

6. O Espírito de um Povo / Yankee Doodle Goes to Town. Dir: Jacques Tourneur. Ao longo da História Americana deve ter existido rabugentos como Nathaniel Curdleface, que só vê o pior.

O Gigante da Noruega

7. O Gigante da Noruega / The Giant of Norway. Dir: Edward L. Cahn. A história de Fridtjot Nansen que devotou sua vida para ajudar refugiados da Primeira Guerra Mundial.

8. A história que não pode ser contada / The Story That Couldn’t Be Printed. Dir: Joseph M. Newman. A história do jornalista e impressor alemão John Peter Zenger, que em 1784, testou a cobiçada liberdade de imprensa na América do Norte.

Um Contra o Mundo

9. Um Contra o Mundo / One Against the World. Dir: Fred Zinnemann. A história de Ephraim McDowell, o primeiro homem que tentou fazer uma operação cirúrgica em uma mulher, Jane Crawford, que tinha um grande tumor.

10. Sentinelas Invisíveis / Unseen Guardians. Dir: Basil Wrangell. Focalizando o Postal Inspection Bureau, a Children’s Home Societies e a Underwriters’ Laboratories.

11. Vitória Esquecida / Forgotten Victory. Dir: Fred Zinneman. Um tributo ao homem responsável pelo próprio pão que nós comemos.

1940:

Cena de XXXMedico

12. XXXMédico / XXXMedico. Dir: Basil Wrangell. Um novo sistema miraculoso que permite médicos a operar à longa distância.

13. A Força Oculta / The Hidden Mystery. Dir: Sammy Lee. Exemplos históricos de como a sorte pode ser importante na vida de uma pessoa.

14. Um Caminho nas Selvas / A Way in the Wilderness. Dir: Fred Zinneman. A história de um imigrante chamado Joseph Goldberger que foi para os EUA e descobriu a cura para uma doença mortal chamada pelagra.

15. Pequenos Nadas Que São Tudo / Triffles of Importance. Dir: Basil Wrangel. Os menores incidentes podem mudar vidas inteiras, como provam três exemplos na História.

16. O Barão e a Rosa / The Baron and the Rose. Dir: Basil Wrangell. A história de Henry Seigel, um ferreiro da Pennsylvania que ganhou e perdeu uma fortuna como vidreiro.

17. A Morte da Utopia / Utopia of Death. Dir: Nenhum diretor creditado. Os índios Seri do México vivem em preparação para a maior de todas as existências, morte.

18. Sonhos / Dreams. Dir: Feix E. Feist. O que se passa na nossa mente quando sonhamos e como isto pode afetar nossas vidas.

19. American Spoken Here. Dir: Basil Wrangells. A história da gíria é realmente a história dos EUA.

20. Boatos / Whispers. Dir: Basil Wrangell. Como alguns homens astutos transformaram a fofoca de uma cidade pequena em um empreendimento lucrativo.

1941:

21. Outras Bagatelas de Importância / More Triffles of Importance. Dir: Basil Wrangell. Uma xícara de chá e uma pequena flor provam novamente como itens menores podem desempenhar papéis importantes na vida.

22. Chama entre Cinzas / Out of Darkness. Dir: Sammy Lee. História de um corajoso jornal clandestino na Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial.

23. Willie and the Mouse. Dir: George Sidney. Ratos têm cérebros e este estudo mostra que, assim como acontece com os humanos, existem membros inteligentes e burros da espécie.

A Rua da Amargura

24. A Rua da Amargura / This is the Bowery. Dir: Gunther V. Fritsch. Visão realista de uma das ruas mais incomuns da América do Norte e algumas das figuras trágicas que vivem lá.

25. O Último Ato / Your Last Act. Dir: Fred Zinneman. Uma olhada em alguns dos testamentos mais estranhos de todos os tempos, inclusive o de Charles Lounsberry.

26. Cães e Charadas / Of Pups and Puzzles. Dir: George Sidney. Vencedor do Oscar.
Experimentos com vários animais permitem que homens sejam colocados em trabalhos adequados.

27. Manias / Hobbies. Dir: George Labrouse. Um olhar para os hobbies mais interessantes do mundo mundo, inclusive a construção de ferrovias modelo e colocar navios em garrafas.

1942:

28. Strange Testament. Dir: Sammy Lee. A história de Julian Poydras, cujo encontro com uma moça no Mardi Gras produziu um efeito profundo em sua vida posterior.

29. Qual a Razão? / We Do It Because. Dir: Basil Wrangell. A origem de costumes como apertar as mãos, beijar, tirar o chapéu para as damas, etc.

30. Bandeira de Misericórdia / Flag of Mercy. Dir: Edward L. Cahn. Uma reedição de Anjo de Caridade / Angel of Mercy com uma nova estrutura de filmagem, relacionando-a com o envolvimento da América do Norte na Segunda Guerras Mundial.

Enclausurada pelo Medo

31. Enclausurada pelo Medo / The Woman in the House. Dir: Sammy Lee. A história de uma mulher que ficou reclusa durante quarenta anos, temendo que as pessoas a culpassem pela morte de seu amante anos atrás.

32. O Desconhecido Misterioso / The Incredible Stranger. Dir: Jacques Tourneur. Um homem se recusa a aceitar o fato de que sua esposa e filho estão mortos, e continua a agir como se eles estivessem vivos.

33. Vendetta / Vendetta. Dir: Joseph M. Newman. A história de Carlo Pozzo di Borgo, amigo de infância de Napoleão que mais tarde jura vingança.

Cena de O Alfabeto Mágico

34. O Alfabeto Mágico / The Magic Alphabet. Dir: Jacques Tourneur. A história do Dr. Christiaan Eijkman que descobriu o segredo das vitaminas e sua importância.

35. Enganos Famosos / Famous Boners. Dir: Douglas Foster. Gafes famosas na História: como o manuscrito de Thomas Carlyle sobre a Revolução Francesa foi queimado, como um espião frustrou um plano de sabotagem, etc.

36. O Filme Perdido / The Film That Was Lost. Dir: Sammy Lee. A história do departamento do filme do Museu de Arte Moderna de Nova York e exemplos de filmes raros que foram salvos.

Francisco Madero, Herói Mexicano

37. Francisco Madero, Herói Mexicano / Madero of Mexico. Dir: Edward L. Cahn. A história do homem que desencadeou a Revolução Mexicana e sacrificou sua vida para a liberdade de seu país.

1943:

38. Quem Não é Supersticioso? / Who’s Supersticious? Dir: Sammy Lee. Olhando superstições famosas, e rastreando suas origens, inclusive o “Flying Dutchman” (Holandês Voador) dos marinheiros.

39. Foi Por Isso Que Te Deixei / That’s Why I Left You. Dir: Edward L. Cahn. Um jovem escreve para sua esposa que está indo embora porque não consegue suportar a corrida de ratos em que vivem.

40. Bagatelas que contribuem para a Vitória / Triffles That Win Wars. Dir: Harold Daniels. Tais itens como uma garrafa vazia, uma aranha, e pesquisa química sobre bolas de bilhar ditaram o destino de muitas guerras.

41. Nem Toda A História é Verdade / Don’t You Believe It. Dir: Edward L. Cahn. Falsidades são expostas em lendas como a vaca de Mrs. O’Leary’s e o violino de Nero.

42. Como Nascem as Cantigas de Ninar / Nursery Rhime. Dir: Edward L. Cahn. Origens de algumas das cantigas de ninar mais populares – e da própria Mamãe Ganso.

43. Tesouro Esquecido / Forgotten Treasure. Dir: Sammy Lee. Mais trechos de filmes da filmoteca do Museu de Arte Moderna, inclusive tomadas de cinejornais das consequências do terremoto de San Francisco, comparadas com as imagens do filme San Francisco, a Cidade Pecado / San Francisco / 1936 da MGM.

44. Tormenta / Storm. Dir: Paul Burnford. Como o homem enfrentou as forças da natureza ao longo dos anos.

45. A Meu Filho Por Vir / To My Unborn Son. Dir: Leslie Kardos. Um pai checoslovaco escreve para o filho que ele nunca verá, para explicar sua resistência à invasão nazista.

46. Este é o Amanhã / This is Tomorrow. Dir: Nenhum diretor creditado. Um olhar sobre o futuro da América do Norte, com cidades e comunidades planejadas etc.

1944:

47. O Ferreiro Imortal / The Immortal Blacksmith. Dir: Sammy Lee. A história de Tom Davenport, um fazendeiro que inventou o motor elétrico.

48. Arte de Antanho / Grandpa Called It Art. Dir: Walter Hart. Uma pesquisa sobre a arte Norte-Americana de seus dias primitivos ao presente, com quadros de muitos mestres norte-americanos modernos.

Cena de Voltando do Nada

49. Voltando do Nada / Return from Nowhere. Dir: Paul Burnford. A história de um homem cujo subconsciente assume o controle de sua mente numa tarde, e ele não consegue se lembrar do que fez.

50. Ressurgimento do Normandie / A Lady Fights Back. Dir: Nenhum diretor creditado. A história do transatlântico de luxo francês Normandie que se recusa a ficar submerso.

1945:

51. Parece Que Vai Chover / It Looks Like Rain. Dir: Paul Burnford. A importância da previsão do tempo, especialmente para os fazendeiros, e o que eles podem fazer para se preparar.

The Seesaw and the Shoes

52. The Seesaw and the Shoes. Dir: Douglas Foster. Estes dois objetos (a gangorra e os sapatos) inspiraram a invenção do estetoscópio e a descoberta das propriedades da borracha.

53. The Great American Mug. Dir: Cyril Endfield. Um olhar nostálgico da barbearia nos anos 1890.

54. Caminho para a Luz / Stairway to Light. Dir: Sammy Lee. Vencedor do Oscar. A história do Dr. Philippe Pinel, o primeiro homem a tratar os loucos com compaixão em vez de crueldade.

55. People on Paper. Dir: Herbert Morgan. Uma história concisa das histórias em quadrinhos com clipes de filmes destes cartunistas e suas criações: H.H. Knerr (“Katzenjammer Kids”), Bud Fisher (“Mutt and Jeff”), Fred Lasswell Jr. (*Barney Google”), Frank King (“Gasoline Alley”), Chester Goud (“Dick Tracy”), Dick Calkins (“Buck Rogers”), Milton Caniff (“Terry and the Pirates”),Chic Young (“Blondie”), Raeburn Van Beuren (“Abbie and Slats”), Ham Fisher (“Joe Palooka”), Hal Foster (“Prince Valiant”),Harold Gray (“Little Orphan Annie”), Al Capp (“Lil’Abner”).

1946:

56. O Lampejo de Intuição / Golden Hunch. Dir: Nenhum diretor creditado. As histórias dos homens que tiveram palpites que levaram a grandes descobertas.

57. Magic on a Stick. Dir: Cyril Endfield. A história do químico britânico que descobriu o príncípio do fósforo de enxofre.

58. Our Old Car. Dir: Cyril Endfield. Nesbitt descreve a sua vida e a “história” de seu bairro através da sucessão de carros que seu pai possuía.

1947:

59. A Really Important Person. Dir: Basil Wrangell. Um menino é designado para escrever uma redação para a escola sobre uma pessoa muito importante, e ele percebe quão importante é seu próprio pai.

60. Tennis in Rhythm. Dir: Nenhum diretor creditado. A campeã de tênis Alice Marble mostra como um senso de ritmo pode ajudar em jogo de tênis.

61. O Extraordinário Mr. Nordell / The Amazing Mr. Nordell. Dir: Joseph M. Newman. A história de um dos falsificadores mais inteligentes de todos os tempos.

62. Milagre no Milharal / Miracle in a Cornfield. Dir: Nenhum diretor creditado. A história de um vulcão que entrou em erupção em um milharal em Paicutin, México.

1948:

63. Isto é Impossível! / It Can´t Be Done. Dir: Nenhum diretor creditado. Uma viagem através do Washington Hall of Fame (Salão da Fama de Washington) lembra homens cujas grandes idéias foram desprezadas em sua época.

64. Adeus, Querida Mestra / Goodbye, Miss Turlock. Dir: Edward L. Cahn. Vencedor do Oscar. Uma visita nostálgica a uma escola de uma sala e sua dedicada professora.

65. Minha Cidade Natal / My Old Town. Dir: Nenhum diretor creditado. A vida idílica em uma cidade pequena da América do Norte no início do século vinte.

66. Troféus Trágicos / Souvenirs of Death. Dir: Edward L. Cahn. A história de uma arma do campo de batalha germânico ao submundo Norte-Americano.

67. The Fabulous Fraud. Dir: Edward L. Cahn. A história de Franz Anton Mesmer, um charlatão que inadvertidamente descobriu o segredo do hipnotismo.

1949:

68. Annie era uma Maravilha / Annie Was a Wonder. Dir: Edward L. Cahn. Indicado ao Oscar. Uma garota sueca chega para trabalhar em uma família de fazendeiros norte-americanos no começo do século.

69. Pistas da Aventura / Clues to Adventure. Dir: Nenhum diretor creditado. Como três incidentes não relacionados afetaram o Bill of Rights (Declaração de Direitos).

70. Mr. Whitney teve uma idéia / Mr. Whitney Had a Notion. Dir: Gerald Mayer. A proposta ousada de Eli Whitney que introduziu a produção em massa na América do Norte.

71. Cidade das Crianças / City of Children. Nenhum diretor creditado. A história de Mooseheart, Illinois, um lar para crianças sem pais.

OS FILMES NOIRS DE EDWARD DMYTRYK

Ele era um diretor talentoso, o primeiro dos três principais montadores – Robert Wise e Mark Robson eram os outros – que passaram a ser diretores , todos criando carreiras substanciais na RKO.

Edward Dmytryk

Edward Dmytryk (1908–1999) nasceu no Canadá, filho de imigrantes ucranianos. Quando tinha seis anos de idade sua mãe faleceu e seu pai se mudou para San Francisco. Ele teve uma infância infeliz, e depois que fugiu de casa, o juizado de menores colocou-o com uma família em Hollywood. Aos quinze anos de idade começou como menino mensageiro na Paramount, trabalhando em vários departamentos do estúdio até 1930. O diretor Cyril Gardner utilizou-o como montador, função que ocupou por toda a década de trinta.Ele dirigiu seu primeiro filme, The Hawk, um western de orçamento barato, em 1935, mas sua carreira decolou quando a Paramount o contratou para dirigir vários filmes em 1939.

Depois de um breve período na Columbia, onde dirigiu sete filmes inclusive um thriller de horror com Boris Karloff, Os Mortos Falam / The Devil Commands / 1941, no qual experimentou pela primeira vez a iluminação expressionista, Dmytryk foi para a RKO, estúdio para o qual realizou filmes de propaganda de guerra como  os Filhos de Hitler / Hitler´s Children e Atrás do Sol Nascente / Behind the Rising Sun, ambos de 1943.

Nos próximos anos, seus filmes noirs mais conhecidos foram feitos para a RKO, até que, em 1947 , ele foi intimado para prestar depoimento diante da HUAC (House Unamerican Activities Committtee) presidida pelo anticomunista raivoso Senador Joseph McCarthy. Sua recusa em testemunhar (como um dos “Dez de Hollywood”) levou a um julgamento por desacato e, após um período de exílio na Inglaterra, onde fez três bons filmes (Aquele Dia Inesquecível / So Well Remembered / 1947, Mórbido Despeito / Obsession / 1949, O Preço de uma Vida / Give us the Day / 1949), foi condenado a um ano de prisão em 1951. Após cumprir a pena, ele se retratou e aceitou delatar alguns companheiros. Depois disso gradualmente restaurou sua carreira, realizando na sua maioria filmes não noir muito interessantes como Volúpia de Matar / The Sniper / 1952, A Lança Partida / Broken Lance / 1954, A Nave da Revolta / The Caine Mutiny / 1954, Os Deuses Vencidos / The Young Lions / 1958, Minha Vontade é Lei / Warlock / 1959 e Os Insaciáveis / The Carpetbaggers / 1964.

Neste artigo relembro seus três filmes noirs Até a Vista Querida / Murder my Sweet / 1944, Acossado / Cornered / 1945 e Rancor / Crossfire / 1947, que estão entre os melhores de sua filmografia.

Dick Powell e Claire Trevor em Até a Vista, querida

ATÉ A VISTA, QUERIDA

Em Até a Vista, querida , adaptação de “Farewell my Lovely”, de Raymond Chandler, o noir look aparece pela primeira vez completamente realizado. Na trama um tanto complicada, mas logicamente desenvolvida, o detetive particular Philip Marlowe (Dick Powell) , como todo detetive noir, é envolvido em uma investigação que põe em foco sua responsabilidade profissional e suas próprias inquietações.   A atmosfera de pesadelo, as sombras ameaçadoras e os fortes contrastes de iluminação dão a Até a Vista Querida uma qualidade visual que se tornou característica dos filmes noirs no período áureo. E não falta a presença da fêmea fatal, Velma Valento, que se tornou Mrs. Lewellyn Lockridge Grayle, interpretada por Claire Trevor. Casada, ela comete um crime para evitar uma chantagem relativa ao seu passado, que se pressente agitado.Depois, se joga resolutamente nos braços de Marlowe para fazê-lo seu cúmplice em um novo empreendimento homicida.

Walter Slezac e Dick Powell em Acossado

ACOSSADO

Após ser libertado de um campo de concentração, Laurence Gerard (Dick Powell), piloto canadense, segue o rastro de Marcel Jarnac (Luther Adler), alto funcionário do regime de Vichy, responsável pela morte de sua esposa.Apesar de ser basicamente uma aventura de guerra, o filme tem um clima noir , não só por causa do tema do ex-combatente que volta descontrolado pelo ódio como também pelas situações de mistério e pela fotografia escura. Funcionando com a mesma equipe de Até a Vista, querida, Dmyrtryk deu fluência e vigor à narrativa, na qual se destaca a cena final, quando Gerard se confronta com o criminoso. Jarnac está o tempo todo no escuro e só aparece diante da luz, para matar impiedosamente Melchior Incza  (Walter Slezac) o informante traiçoeiro.Desfere vários tiros contra este e explica para Gerard: “Aquele rosto vai ser difícil de ser reconhecido” – pois sua idéia é deixar que todos pensem que foi ele quem morreu. Ainda meio tonto da pancada que levou na cabeça, Gerard entra em luta corporal com Jarnac, esmurrando-o sem parar, até sair de foco.

Robert Ryan , Robert Mitchum e Robert Young em Rancor

RANCOR

Quatro soldados, Leroy (William Phipps), Montgomery (Robert Ryan),Floyd (Steve Brodie) e Mitchell (George Cooper), divertem-se no bar de um hotel. Leroy, sem querer, derruba uma bebida na namorada de Joseph Samuels (Sam Levene) , um judeu. O casal  percebe que Mitchell está deprimido e o convida para jantar. A jovem vai trocar de roupa e os dois homens aguardam-na no apartamento de Samuels. Montgomery e Floyd seguem-nos e aparecem lá bêbados. Mitchell sai para tomar um pouco de ar, porque não se sente bem. Montgomery , que é anti-semita, discute com Samuels e o espanca até à morte enquanto Floyd jaz estendido em uma cadeira, completamente embriagado.O Comissário Finlay (Robert Young), com a cooperação do sargento Keeley (Robert Mitchum), companheiro de quarto de Mitchel, e a de LeRoy, arma uma cilada para o assassino.

 O mesmo trio de Até a Vista, querida, Edward Dmytryk – John Paxton (roteirista) – Adrian Scott (produtor), usa o estilo e a atmosfera noir para denunciar o preconceito racial, em particular, o anti-semitismo, substituindo a vítima do crime, que no romance “The Brick Foxhole” de Richard Brooks no qual o filme se baseia, era um homossexual, por um judeu.

Dmytryk consegue manter a tensão e compor cenas excelentes: a luta dos dois homens visualizada pelas sombras projetadas na parede e o abajur que cai , deixando o ambiente completamente escuro; a primeira aparição da prostituta Ginny (Gloria Grahame, entrando em foco em um close-up; a intervenção do personagem sem nome e enigmático vivido por Paul Kelly, que dá três versões do seu relacionamento com a prostituta e finalmente demonstra sua consciência cívica; o suspense no diálogo de Leroy com Montgomery no lavatório, quando o “caipira bobo” tenta iludir o racista; a fuga do criminoso após cair na armadilha e sua queda na calçada, abatido como um animal pelos tiros do investigador.

DIRK BOGARDE

Sir Dirk Bogarde (1921-1999), cujo nome verdadeiro é Derek Jules Gaspard Ulric Niven van der Bogaerd, nasceu em Hampstead, Londres, filho do editor de arte holandês do London Times e de uma mãe atriz-frustrada. Bogarde estudou cenografia e trabalhou como artista comercial, além de ter sido um estudante de teatro antes da guerra. Ele apareceu pela primeira vez no palco em 1939 e como figurante no filme Come on George! (estrelado pelo comediante muito popular George Formby) no mesmo ano.

Dirk Bogarde

Durante a Segunda Guerra Mundial serviu na Air Photographic Intelligence Unit. Em 1947 sobressaiu na peça criminal de Michael Clayton Hutton “Power Without Glory” e, graças a este sucesso, foi contratado pela Organização Rank, onde despontou como o jovem bandido carismático na produção do Ealing Studios A Lâmpada Azul / The Blue Lamp /1949.

Dirk em A Lâmpada Azul

Seguiram-se, entre outros, bons filmes como Angústia de uma Alma / So Long at the Fair / 1950, A Mulher Falada / The Woman in Question / 1950, Devoção de Assassino / Hunted /1952 e O Ódio era Mais Forte / The Gentle Gunman / 1952 e sua popularidade disparou quando estrelou, como o estudante de medicina Simon Sparrow, a série de comédias Doctor, iniciada com Rivais na Conquista / Doctor in the House / 1954. Ainda nos anos cinquenta Bogarde fez outros bons filmes como A Sombra do Pecado / Cast a Giant Shadow / 1955, O Jardineiro Espanhol / The Spanish Gardener / 1956, Perigo nas Sombras / Ill Met by Moonlight / 1957, À Beira do Cadafalso / A Tale of Two Cities / 1958, A Noite é Minha Inimiga / Libel / 1959.

Dirk em A Mulher Falada

Dirk em Devoção de Assassino

Dirk em  Rivais na Conquista

Seguiram-se entre outros, bons filmes como Angústia de uma Alma / So Long at the Fair / 1950,  A Mulher Falada / The Woman in Question / 1950, Devoção de Assassino / Hunted / 1952 e O Ódio Era Mais Forte / The Gentle Gunman / 1952 e sua popularidade disparou quando estrelou como o estudante de medicina Simon Sparrow, a série de comédias Doctor, iniciada com Rivais na Conquista / Doctor in the House / 1954. Ainda nos anos cinquenta Bogarde fez outros bons filmes como A Sombra do Pecado / Cast a Giant Shadow / 1955,  O Jardineiro Espanhol / The Spanish Gardener / 1956, Perigo nas Sombras / I’ll Met by Moonlight / 1957, À Beira do Cadafalso / A Tale of Two Cities / 1958, A Noite é Minha Inimiga / Libel / 1959.

Dirk em A Noite é Minha Inimiga

Sua experiência em Hollywood foi desastrosa. Em 1960 ele fez Sonho de Amor / Song Without End, cinebiografia do compositor Franz Liszt realizada por George Cukor, que foi um desastre comercial. Em1961 interpretou um advogado homossexual em Meu Passado Me Condena / Victim , provavelmente perdendo suas fãs adolescentes do tempo da série Doctor, mas ganhou acesso a papéis mais sérios que almejava.

Dirk em Sonho de Amor

Dirk em Meu Passado me Condena

O fato mais marcante na sua carreira nesta fase foi o início da sua associação com o diretor fugitivo da Lista Negra de Hollywood, Joseph Losey. Esta começou com um melodrama aprazível O Monstro de Londres / The Sleeping Tiger/ 1954, mas foi O Criado / The Servant / 1963 que marcou a emergência de um novo Bogarde. Ele fez mais três filmes com Losey: (O Rei e o Cidadão, também conhecido como Pelo Rei e Pela Pátria / King and Country /1964, Modesty Blaise / Modesty Blaise / 1966 e Estranho Acidente / Accident / 1967) e se tornou, nas suas próprias palavras, um ator europeu, associado a Luchino Visconti (A Morte em Veneza / Morte a Venezia / 1971), Liliana Cavani (O Porteiro da Noite / Il Portiere di Notte / 1974), Alain Resnais (Providence / 1977), Rainer Werner Fassbinder (Uma Viagem para a Luz / Despair / 1978 e Bertrand Tavernier (O Regresso / Daddy Nostalgie / 1990).

Dirk em O Criado

A filmografia de Dirk Bogarde é muito extensa (63 filmes), de modo que estou mencionando apenas seus filmes que julgo mais importantes. Nos anos sessenta Bogarde fez ainda Revolta em Alto-Mar / H.M. S. Defiant / 1962, Coragem é a Senha / The Password is Courage / 1962, Na Glória, a Amargura / I Could go on Singing / 1963, Darling, a que Amou Demais / Darling / 1965, Todas as Noites às Nove / Our Mother´s House / 1967, O Homem de Kiev / The Fixer / 1968, Oh! Que Beleza de Guerra / Oh! What a Lovely War / 1969, Os Deuses Malditos / La Caduta degli Dei / 1969 e, nos anos setenta, esteve em Uma Ponte Longe Demais / A Bridge Too Far / 1977.

Dirk em A Morte em Veneza

A meu ver sua melhor atuação ocorreu em A Morte em Veneza, interpretando Gustav von Aschenbach, um compositor envelhecido para quem a música era tudo, que chega a um hotel luxuoso de Veneza, onde tudo lhe teria sido indiferente se não tivesse sido impressionado pela beleza de um adolescente, Tadzio (Bjorn Andressen). Aschenbach o observa, o segue, não consegue se adaptar ao clima exaustivo da bela cidade. Um cabelereiro pinta seu cabelo, o rejuvenesce. Ele contempla Tadzio brincando na praia deserta e morre. Visconti tomou emprestado o tema a Thomas Mann, fotografou magnificamente uma Veneza admirável e apodrecida, aproveitou a música sublime de Mahler e se serviu da excelente interpretação de Bogarde para criar sua obra-prima. O ator, no auge de sua arte, transcreve muito bem a tristeza e a ambiguidade do seu personagem .

Em 1977 Bogarde iniciou uma segunda carreira como autor, escrevendo romances muito bem vendidos e sua autobiografia além de crônicas jornalísticas, ensaios e poesia. Foi ordenado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II em 1992 .

HEINRICH GEORGE

Em todos os sentidos um peso-pesado no teatro de esquerda durante a República de Weimar, ele se tornou um defensor da indústria de propaganda nazista.

Heinrich George

Georg August Friedrich Hermann Schulz (1893-1946) nasceu em Stettin (Alemanha, hoje Szczecin, Polônia). Após abandonar o ensino médio em Berlim, George frequentou aulas de interpretação na sua cidade natal de Stettin, e começou a trabalhar em teatros regionais em 1912. Ele se alistou voluntariamente no início da Primeira Guerra Mundial e serviu no exército alemão entre 1914 e 1917, quando ficou gravemente ferido.

George retornou ao palco em Dresden e Frankfurt am Main de 1917 a 1921. Neste período realizou participações especiais em Berlim em 1920 e seus primeiros papéis no cinema no ano seguinte. Juntamente com Alexander Granach, Elisabeth Bergner e outros luminares do teatro, Geroge fundou o Schauspielertheater em 1923, e esteve no Volksbühne (Teatro do Povo) com Erwin Piscator de 1925 a 1928.Ele se tornou um frequentador assíduo do Festival de Heidelberg entre 1926 e 1938, e também dirigiu suas primeiras produções partir de 1927. Na maioria das vezes encarnando proletários de físico forte no cinema de Weimar, tais como o contramestre Grot em Metrópolis / Metropolis / 1927 de Fritz Lang ou Franz Biberkopf em Berlin -Alexanderplatz / 1931 de Phil Jutzi, George também emprestou seu corpo robusto para momentos teatralmente inspirados tais como o discurso de Émile Zola em Dreyfus / Dreyfus / 1930 de Richard Oswald.

HG em Metrópolis

Em 1930, George apareceu em Menschen Im Käfig, a versão alemã do filme britânico Cape Forlorn dirigido por E. A. Dupont e em 1930-31, o ator viajou para Hollywood a fim de estrelar duas versões alemães na MGM: Wir Schalten Um Auf Hollywood (baseada em Hollywood Revue / The Hollywood Revue of 1929) e Menschen Hinter Gittern (baseada em O Presídio / The Big House / 1930).

HG em Mocidade Heróica

HG em O Judeu Suss

Durante o Terceiro Reich, George tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do Cinema Nazi, interpretando um comunista convertido ao Nacional Socialismo em Mocidade Heróica / Hitlerjunge Quex / 1933 de Hans Steinhoff, o duque decadente em O Judeu Suss / Jud Süss / 1940, e o prefeito local inabalável na exortação da guerra total de Veit Harlan, Kolberg /1943-45. Ele também assumiu papéis autoritários em cinebiografias em Friedrich Schiller – Der Triumph Eines Genies 1940, no qual interpretava o Duque de Wuttemberg e Andreas Schlüter / 1941-1942, no qual era o escultor e arquiteto barroco alemão.

George apresentou performances um pouco mais variadas em uma série de filmes adaptados de fontes literárias como Os Pilares da Sociedade / Stützen Der Gesellschaft / 1935 de Detlef Sierk (Doulas Sirk), baseado na peça teatral de Henrik Ibsen; Der Biberpelz / 1937 de Jürgen von Alten, baseado na peça de Gerhard Hauptmann; e particularmente Caminho da Perdição / Der Postmeister / 1939-40 de Gustav Ucicky, baseado no conto de Pushkin. Em 1937 ele foi designado Staatsschauspieler (ator de importância nacional). Nomeado diretor do Schiller-Theater de Berlim em 1938, ganhou também sua própria unidade produtora na Tobis em 1942.

HG em Caminho da Perdição

No final da Segunda Guerra Mundial, as forças soviéticas internaram-no no campo de Hohenschönhausen, depois em Sachsenhausen, onde ele faleceu após uma operação para extração do apêndice. Seu último filme, a comédia romântica Das Mädchen Juanita de Wolfgang Staudte, foi filmada entre novembro de 1944 e janeiro de 1945 e deveria chegar às telas germânicas no final da primavera de 1945, porém só foi exibida sete anos depois quando George já estava preso e a estrela do filme, Charlotte Shellhorn havia se suicidado aos 23 anos de idade, com medo de ser estuprada pelos soldados soviéticos.

Em 1997 o diretor Hans-Christoph Blumenberg filmou a co-produção Germano-Polonesa Dies Verlauste, Nackte Leben / To Wszawe, Nagie Zycie, um filme biográfico para a TV sobre os últimos dias de George na prisão.

CLAUDE AUTANT-LARA

CLAUDE AUTANT-LARA

Tal como Jean Delannoy, ele foi um dos principais alvos dos críticos da Nouvelle Vague no seu combate à “tradição de qualidade”. Cineasta típico da “qualidade francesa”, Claude Autant -Lara (Luzarches, 1901- Antibes, 2000) estudou na École des Beaux-Arts e começou no cinema em 1919 como cenógrafo de vários filmes de Marcel l’Herbier. Depois trabalhou como assistente de René Clair (Paris qui Dort, Le Voyage Imaginaire) e realizou dois curtas-metragens de vanguarda: Fait-Divers / 1923 e Construire un Feu / 1925, primeiro ensaio de “filme largo” com o processo do professor Chrétien, que se tornaria, 28 anos mais tarde, o Cinemascope.

Claude Autant-Lara

Em 1930, foi contratado pela MGM para dirigir versões francesas de filmes americanos. De retorno à Europa, fez um longa-metragem na França (Ciboulette / 1933), outro na Inglaterra (My Partner, Mr. Davis / 1936), e apareceu   nos créditos como consultor técnico ede O Crime do Correio de Lyon / L’Affaire du Courrier de Lyon / 1937, Le Ruisseau / 1938 e Fric-Frac (na TV) / Fric-Frac / 1939, na verdade dirigidos em parceria com Maurice Lehmann.

Sua carreira como diretor de primeira linha começou na Paris ocupada e submetida à ordem moral de Vichy, quando fez três filmes – Lettres d’Amour / 1941, Casamento de Chiffon / Le Marriage de Chiffon / 1942 e Dulce, paixão de uma noite / Douce / 1943 -, nos quais, sob o charme adocicado da Belle Époque, mal se escondia uma crítica social corrosiva.

Selecionei estes seis filmes relevantes do diretor:

Odette Joyeux e André Luguet em Casamento de Chiffon

CASAMENTO DE CHIFFON / LE MARRIAGE DE CHIFFON / 1941

A Marquesa de Bray (Suzanne Dantès) quer casar sua filha Corysande (Odette Joyeux) – chamada de Chiffon – com o quinquagenário coronel duque d’Aubières (André Luguet), mas a moça ama em segredo o irmão de seu padrasto, Marc (Jacques Dumesnil), um apaixonado pela aviação. Chiffon aceita o casamento, a fim de dispor de seu dote, para ajudar Marc. Alice de Liron (Monette Dinay), amante de Marc, observa as atitudes de Chiffon para com Marc com despeito. Jean (Pierre Larquey), o velho doméstico da marquesa, descobre uma carta de amor escrito por Chiffon para Marc e a coloca em um álbum de fotos que ele dá para o duque olhar. Com a cumplicidade deste, Chiffon e Marc se casam.

Chiffon torna-se uma jovem e quer se fazer reconhecer como tal por aquele que a considera ainda uma menina. O militar que se apaixonou seriamente por Chiffon percebe que não tem mais a idade que convém às tormentas do coração. Assim, o filme está construído sobre o desenvolvimento dessa dupla crise, retratada por Claude Autant-Lara com muita sensibilidade. Ele recria admiravelmente a Belle Époque, fazendo uma observação irônica de seus ambientes íntimos (os salões da pequena burguesia provinciana, a visita à pâtisserie no domingo após a missa) e refletindo sobre ela (os preconceitos sociais, a opressão da educação burguesa). Nessa reconstituição, o diretor se distingue por sua elegância e virtuosidade decorativa.

Odette Joyeux em Dulce, Paixão de uma Noite

DULCE, PAIXÃO DE UMA NOITE / DOUCE / 1943

Em uma rica mansão, vivem três personagens da aristocracia do século XIX.  Douce (Odette Joyeux), uma adolescente romântica; seu pai, o conde Engelbert de Bonafé (Jean Debucourt), antigo oficial da cavalaria; e sua avó autoritária, a condessa de Bonafé (Marguerite Moreno). Douce se apaixona pelo secretário de seu pai, Fabien Marani (Roger Pigaut), e sonha em partir com ele. Irène (Madeleine Robinson), a governanta de Douce, é amante de Fabien, mas ambiciona casar-se com Engelbert, a quem agrada. Fabien, por despeito, leva Douce consigo. Eles vão ao teatro. Irrompe um incêndio e Douce morre. A velha condessa expulsa os dois empregados da mansão.

Através dos personagens são postos em conflito os dois mundos aos quais eles pertencem. O tema do filme é essa luta de classes sorrateira, esse ódio escondido que acaba por explodir. E o resultado desse combate parece igualmente desfavorável às duas partes, pois uns vêem suas ambições malogradas e o conde e sua mãe ficam sós após a morte de Douce, talvez com remorso por não terem sabido comprendê-la ou educá-la. A cena mais famosa do filme é a “visita aos pobres. Para eles a condessa deseja “paciência e resignação”. “E a você, minha pequena dama”, pergunta uma mulher para a governante, “que é que é preciso desejar?”. “Deseje a ela a impaciência e a revolta”, responde Fabien. É uma réplica brihante, que dá o tom dessa sátira social finamente arquitetada.

Gérard Philipe e Micheline Presle em Adúltera

ADÚLTERA / LE DIABLE AU CORPS / 1946

No enterro de Marthe Lacombe (Micheline Presle), um rapaz, François Jaubert (Gérard Philipe), cheio de tristeza, recorda o passado. Em 1917, ele conheceu e se apaixonou por Marthe, mas ela estava noiva. Alguns meses mais tarde, François reencontra Marthe já casada e os dois se tornam amantes enquanto o marido dela, Jacques (Maurice Lagrené), está lutando na guerra. Marthe fica grávida. François hesita em assumir suas responsabilidades. Marthe morre de parto, pronunciando o nome do amante. Jacques vai educar a criança, sem saber que ela não era sua.

Tal como o romance de Raymond Radiguet no qual se baseia, o filme provocou escândalo por abordar uma relação de adultério entre dois jovens enquanto milhares de homens estavam morrendo para salvar a pátria. Os defensores da moral não perceberam que tanto o livro como o filme proclamavam antes de tudo o direito ao amor e ao prazer reprimidos pelas guerras e que os dois amantes eram vencidos pelo que Jean Cocteau chamou de “furor público contra a felicidade”. A adaptação e a realização são impecáveis, sobressaindo a utilização muito feliz do retrospecto por meio da diminuição muito do som dos sinos da igreja. Micheline Presle e Gérard Philipe transmitem com emoção um relacionamento ao mesmo tempo tórrido e imaturo.

Jean Desailly e Danielle Darrieux em Meu Amigo, Amélia e Eu

MEU AMIGO, AMÉLIA E EU / OCCUPE-TOI D’AMÉLIE / 1949

No começo do século XX, Amélie Pochet (Danielle Darrieux), outrora camareira, é agora Amélie d’Avranches, graças à proteção e às liberalidades de seu amante Étienne de Milledieu (Andre Bervil), um tenente dos hussardos. Marcel Courbois (Jean Desailly) necessita de dinheiro e pede Amélie “emprestada” ao seu amigo Étienne, para um casamento branco. Assim, seu tio poderá lhe transmitir a herança que o falecido pai de Marcel havia reservado ao filho para o dia de seu matrimônio. Étienne, que está de partida para o período de serviço militar, aceita. Retornando de imprevisto, ele percebe, consternado, que Marcel se ocupou demais de Amélie…

Releitura da peça de Georges Feydeau, mantendo intactos seus diálogos maliciosos, sua incessante e agitada movimentação, sua alegria contínua, seus quiproquós e acontecimentos imprevistos. Autant-Lara encontrou a maneira cinematográfica de reproduzir a vivacidade do texto original e de manter os espectadores rindo o tempo todo. E há também uma novidade foral: o roteiro mistura os atores do teatro Palais-Royal e a plateia que assiste à representação nesse mesmo teatro. Por exemplo: uma personagem nos é apresentada como ator, antes que comece a interpretar o papel que lhe foi atribuido. Uma família burguesa que assiste ao espetáculo acaba por invadir a ribalta, a fim de moralizar o desenlace da peça.

Françoise Rosay e Fernandel em em Estalagem Vermelha

ESTALAGEM VERMELHA / 1951

Em 1883, uma diligência e depois monge (Fernandel) um noviço, Jeannou (Didier D’Yd), chegam a uma hospedaria em Peyrebeille no planalto de Ardèche. O hospedeiro, Pierre Martin (Julien Carette), sua esposa, Marie (Françoise Rosay), e um criado negro, Fétiche (Lud Germain), por cupidez, matam todos os viajantes que ali costumam pedir abrigo. A filha dos Martin, Mathilde (Marie-Claire Olivia), parece saber de tudo. Os escrúpulos atormentam a hospedeira e ela exige que o monge ouça sua confissão. Este, impedido pelo segredo da confissão de revelar aos visitantes o perigo que eles correm, tenta desesperadamente salvá-los por outros meios.

Farsa macabra, satirizando com espírito voltairiano e de maneira burlesca o sentimento melodramático e o religioso através, respectivamente, do comportamento dos assassinos e do monge. Nota-se também, uma crítica da estupidez burguesa (representada pela conduta dos viajantes) e da candura da adolescência (a heróina pura tradicional é cúmplice dos pais). Autant-Lara consegue equilibrar o elemento trágico e o cômico, extraíndo de uma cena aparentemente trágica uma força cômica ou de uma cena aparentemente cômica uma fatalidade trágica. No final da farsa, os celerados são presos, e os viajantes -os hipócritas, os inúteis, os ridículos – encntram a morte logo em seguida.

Bourvil e Jean Gabin em A Travessia de Paris

A TRAVESSIA DE PARIS / LA TRAVERSÉE DE PARIS / 1956

Em 1943, Martin (Bourvil), chofer de taxi desempregado, transporta clandestinamente carne destinada ao mercado negro. Como o seu auxiliar foi preso, ele pede ajuda a Grandgil (Jean Gabin), um desconhecido com quem fez amizade. Grandgil na verdade é um pintor célebre e rico que aceitou participar da aventura apenas ara experimentar até que ponto se pode abusar de uma situação mesmo correndo o risco de ser preso pelos alemães, e viver alguns momentos de emoção. No decorrer do trajeto, uma patrulha os prende. Grandgil é reconhecido por um oficial amante da pintura e é solto. Somente Martin será deportado.

Crônica do tempo da Ocupação, retratando uma certa mentalidade francesa dos anos 1940 em um tom de humor amargo bem característico do espírito de Autant-Lara. A perfeita reconstituição da época cria um ambiente realista conforme as necessidades do relato. Alguns excelentes achados dramáticos surgem durante o percurso dos dois pequenos traficantes: a morte do porco abafada pelo som do acordeão; o instante no qual um cão fareja as malas onde estão os pedaços do porco, dois guardas seguem nossos “heróis” e Grandgil recita um poema alemão em voz alta. O reencontro de Grandgil e Martin na estação ferroviária, onde Martin passa a trabalhar como carregador. Da janela do vagão de primeira classe, Grandgil diz para Martin: “Você sempre carregando malas”, e este responde: “Sim, só que agora são as malas dos outros”.

JEAN DELANNOY

Após se formar no Lycée Louis-le-Grand em Paris, Jean Delannoy (Noisy-le-Sec, 1908 – Guainville, 2008) inscreveu-se na Sorbonne para seguir o curso de letras, porém o cinema o atraiu. Apoiado pela irmã Henriette, que era atriz, ele fez pequenos papéis em dois filmes mudos. Interessando-se pela técnica, Delannoy começou a trabalhar no estúdio da Paramount em Saint-Maurice, onde montou cerca de 75 filmes, passando depois a assistente de direção de Jacques Deval e Felix Gandera. Em 1932, realizou seu primeiro filme curto, Franches Lippées. No ano seguinte, estreou no longa-metragem com Paris-Deauville, mas somente em 1942 com Pontcarral, Colonel d’empire começou a chamar a atenção como diretor no meio cnematográfico.

Jean Delannoy

Delannoy adquiriu fama como profissional competente e meticuloso, porém sem personalidade. Seu academicismo e sua dependência de bons textos literários, diálogos de eficientes roteiristas e astros famosos fizeram com que críticos da Nouvelle Vague o colocassem como um dos principais alvos – juntamente com Claude Autant-Lara – no seu combate à “tradição de qualidade”. Por mais corretas que possam ser essas observações, o fato é que os melhores filmes do cineasta, como Além da Vida / L’Eternel Retour / 1943 e outros que realizou posteriormente resistiram mais ao tempo do que muitos filmes feitos pelos seus detratores.

No meu livro Uma Tradição de Qualidade O Cinema Clássico Francês 1930-1959, (ed. PUC-Contraponto, 2010), selecionei estes cinco filmes relevantes do diretor.

Madeleine Sologne e Jean Marais em   Além da Vida

ALÉM DA VIDA / L’ÉTERNEL RETOUR / 1943

Patrice (Jean Marais) mora na Bretanha no castelo de seu tio Marc (Jean Murat), que é viúvo. Gertrude Frossin (Yvonne de Bray), cunhada de Marc, seu marido Amédée (Jean d’Yd) e o filho deles, o anão Achille (Pierre PIéral), vivem no castelo. Os Frossin detestam Patrice. Patrice decide procurar uma nova esposa para o tio. Em uma ilha de pescadores ele salva a loura Nathalie (Madeleine Sologne) das garras de um bruto. Nathalie aceita casar-se com Marc. Mas Anne (Jane Marken), a velha ama de Nathalie, lhe dá um filtro de amor. Patrice e Nathalie bebem o conteúdo do frasco e descobrem sua paixão…

Transposição céltica de Tristão e Isolda para o século XX, transformando Jean Marais e Madeleine Sologne em “heróis românticos” da juventude da época. A idéia do amor mais forte que as forças do mal já havia sido utilizado por Jacques Prévert e Marcel Carné em Os Visitantes da Noite / Les Visiteurs du Soir / 1942, mas isso não tira o mérito da realização de Cocteau (autor do roteiro e diálogos) -Delannoy, que ficou célebre pela utilização poética dos exteriores, os grandes cenários (direção de arte de Georges Wakhevitch), a beleza plástica das Imagens (foto de Roger Hubert) e os diálogos refinados. Delannnoy foi criticado pela aparência glacial que deu ao universo de Cocteau, porém os artifícios do poeta pediam essa encenação, que lhe serviu muito bem.

Pierre Banchar e Michèle Morgan em Sinfonia Pastoral

SINFONIA PASTORAL / LA SYMPHONIE PASTORALE / 1946

O pastor Jean Martin (Pierre Blanchar) recolhe, em uma cabana isolada no meio da neve, uma menina órfã cega e meio selvagem.  Apesar da oposição de sua esposa Amélie (Line Noro), ele decide educá-la com seus filhos. Gertrude (MIchèle Morgan) torna-se uma bela jovem. O filho mais velho do pastor, Jacques, tem uma amiga de infância Piette Castéran (Andrée Clément), que o ama, mas ele se interessa por Gertrude. Seu pai, confusamente ciumento, lhe faz entender que não pode se casar com uma cega. Gertrude é operada e recobra a visão.  Incapaz de aceitar o amor de Jacques e desapontada com a afeição que Martin lhe devota, Gertrude foge. O pastor sai à sua procura e a encontra morta.

Na obra de Gide – com um sugestivo título beethoviano -, o pastor vai reler o Evangelho, para confirmar sua intuitiva convicção de que um sentimento tão natural e puro como o amor que sente por Getrude não pode ser um pecado. Porém, no filme o conflito religioso foi atenuado, acentuando-se as reações psicológicas dos personagens. A direção de Delannoy é sóbria e límpida, ensejando bons momentos de cinema, como a entrada de Gertrude na igreja já com a visão recuperada e a corrida do pastor até encontrar o grupo carregando o corpo de Gertrude. Em um gesto autoritário, Martin afasta os circunstantes gritando: “Vão embora! Ela é minha! Logo depois, a câmera mostra o rosto inerte de Gertrude com os olhos abertos e a mão do pastor que desce para fechá-los.

DEUS NECESSITA DE HOMENS / DIEU A BESOIN DES HOMMES / 1950

Em1859, o vigário da ilha de Sein, na Bretanha, desencorajado pela atitude de seus paroquianos, que roubam os destroços dos navios naufragados, retorna ao continente. No domingo seguinte, os habitantes da ilha “elegem” como padre o sacristão Thomas Gourvennec (Pierre Fresnay). Este, crente a atraído pelo cerimonial religioso, tenta suprir a ausência do vigário. Para cumprir sua missão, ele chega até a romper seu noivado com Scholastique (Andrée Clement). Thomas solicita em vão a ajuda do prior de Lescoff (Jean Brochard). Um pescador, Joseph Le Berre (Daniel Gélin), mata sua mãe por piedade. Thomas o absolve, mas o prior, que finalmente chegara, não permite que ele seja enterrado no solo da igreja.

Drama religioso colocando o problema da necessidade que uma população primitiva e sem padre tem de receber todos os sacramentos. Em princípio, um eloquente testemunho dado à indestrutibilidade da fé mesmo entre as almas ainda grosseiras e submetidas a instintos elementares. Porém o espetáculo começa pela visão de um padre que abandona seu posto justamente quando seus paroquianos mais precisam dele, e termina pela recusa da Igreja em reconhecer a vocação sincera consagrada pelos fiéis. Sem falar na atitude do prior que, jogando no chão as hóstias preparadas com tanta devoção pelas mulheres da ilha, age como um agente brutal da ordem hierárquica.

Jean Gabin e Michèle Morgan em Amar-te é Meu Destino

AMAR-TE É MEU DESTINO / LA MINUTE DE VERITÉ / 1952

Casado com Madeleine (Michèle Morgan), uma atriz de teatro, o doutor Pierre Richard (Jean Gabin) é chamado para atender um jovem pintor, Daniel Prévost (Daniel Gélin), que tentou o suicídio ligando o gás. Prestando-lhe os primeiros socorros, o médico descobre, ao lado da cama do rapaz, uma foto do moribundo em companhia de Madeleine, abraçados ternamente. Naquela mesma noite, Pierre pede explicações à sua esposa e o casal faz um balanço de sua vida sentimental.

Estudo psicológico sobre o ponto culminante de uma crise conjugal. O filme é uma inquirição e um depoimento, durante os quais a ação passa do presente para o passado em um vaivém constante, habilmente forjado pela decupagem e pela montagem. Os diálogos são humanos, sóbrios, comoventes, salientando-se os contra-ataques irônicos ou amargos do marido depois de ouvir em silêncio, angustiado, as revelações de sua mulher. MIchèle Morgan e Jean Gabin expõem o drama íntimo do casal da alta burguesia de maneira um tanto contida, sem o ardor que talvez pudesse impressionar mais o público.

Jean Gabin e e Jean Desailly em Assassino de Mulheres

ASSASSINO DE MULHERES / MAIGRET TEND UM PIÈGE / 1958

Perto da Place des Vosges, uma mulher é encontrada morta com as roupas rasgadas. Outras três mulheres são apunhaladas. O comissário Maigret (Jean Gabin) arma uma cilada para tentar descobrir o assassino. No curso da reconstituição do crime, o inspetor Lagrume (Olivier Hussenot) repara o estranho comportamento de Marcel Martin (Jean Desailly), que conhece bem a praça, onde sua mãe possui um imóvel. Maigret fica convencido da culpabilidade de Marcel, decorador fracassado e impotente sexual. Mas enquanto Marcel está deitdo na delegacia, um novo crime é cometido. A esposa de Marcel, Yvonne (Annie Girardot), é a chave do mistério.

Dessa vez o comissário Maigret (personagem de ficção de novelas policias criadas pelo escritor belga Georges Simenon) está às voltas com um caso de mortes de mulheres repetidas a intervalos regulares e visivelmente cometidas por um mesmo criminoso. No desenrolar da investigação surgem tipos duvidosos e, como de costume, um deles é o verdadeiro assassino. Jean Delannoy dirige esta aventura policial solidamente construída, sem esquecer a dimensão humana, as relações psicológicas entre os personagens, sempre presentes na obra de Simenon. Gabin se parece muito consigo mesmo, para assumir a identidade de outro, mas em todos os seus filmes, ele dá um jeito de entrar na pele do personagem que interpreta.

JOHN BRAHM

Hans Brahm (1893-1982) nasceu em Hamburgo, Alemanha. Montador e roteirista na França e depois na Inglaterra, estreou atrás das câmeras em 1936 dirigindo a refilmagem de Lírio Partido / Broken Blossoms (que David Wark Griifith realizara em 1919). Foi para Hollywood, onde realizou, entre 1937 e 1943, apenas filmes de mercado, alguns interessantes, mas sem grandes valores artísticos: Defensor Impune / Counsel for Crime, Penitenciária / Penitentiary, Flores da Primavera / Girl’s School, Deixai-nos Viver! / Let us Live, Tortura de uma Alma / Rio, Rumo ao Oeste / Escape to Glory, Vida Sem Rumo / Wild Geese Calling, O Segredo do Monstro / The Undying Monster, Esta Noite Bombardearemos Calais / Tonight We Raid Calais, Flor de Inverno / Wintertime.  Ao realizar Ódio Que Mata / The Lodger / 1944, A Hipócrita / Guest in the House / 1944, Concerto Macabro / Hangover Square / 1945 e Angústia / The Locket / 1946 tornou-se um cineasta importante.

John Brahm

Ódio Que Mata é refilmagem de um filme de Alfred Hitchcock com uma atmosfera extremamente angustiante, imagem emocionante do assassinato de uma cantora de rua e composição impressionante do ator Laird Cregar como o assassino, principalmente nas últimas sequências do espetáculo.

Laird Cregar em Ódio que Mata

Laird Cregar e George Sanders em Concerto Macabro

Concerto Macabro focaliza o alucinante destino de um compositor de música clássica (também interpretado por Laird Cregar), sobrecarregado pela composição de um concerto, que é vítima de crises de loucura criminal e é assim que ele assassina um antiquário e uma cantora de cabaré, que tentara explorar seu talento. Nestes dois filmes percebe-se a influência do filme noir, então no seu apogeu, pois oferecem uma antologia de cenas invariavelmente noturnas com iluminação muito trabalhada. A fotografia de Lucien Ballard para Ódio Que Mata e a de Joseph LaShelle para Concerto Macabro são soberbas.

Anne Baxter em A Hipócrita

A Hipócrita é um melodrama tendo com centro das atenções uma jovem neurótica (Anne Baxter), que tem uma fobia bizarra de pássaros, e seu plano de destruir a harmonia da família feliz de seu noivo. Eventualmente as pessoas da casa percebem o que está ocorrendo e como ela está manipulando todos, o que leva a um fim trágico. Não é uma história de crime, mas foi filmada no estilo noir e tem uma mulher fatal.

Angústia é um melodrama freudiano contendo elementos noir entre eles a construção dramática cheia de retrospectos dentro de retrospectos e a iluminação contrastada. No día de seu casamento com Nancy Blair (Laraine Day), John Willis (Gene Raymond) recebe a visita do ex-marido de Nancy, um psiquiatra. Este lhe conta que Nancy é cleptomaníaca, problema causado por um incidente ocorrido na infância: filha de uma criada de gente rica, ela foi falsamente acusada de ter roubado um medalhão. Ele também não tinha conhecimento disto até que um pintor, Norman Clyde (Robert Mitchum), o informou da infelicidade que Nancy lhe trouxe. Angustiado, Clyde cometeu suicídio, tendo antes revelado ao Dr. Blair (Brian Aherne) que Nancy matou Mr. Bonner (Ricardo Cortez), um mecenas apaixonado por ela, e deixou um inocente levar a culpa.

O enredo mostra a progressiva insanidade da personagem até se desintegrar emocionalmente. Brahm joga de maneira inteligente com os laços que coexistem entre o passado e o presente, a realidade e o mistério, a loucura e a verdade. “A Verdade está fora do alcance de Nancy”, explica o Dr. Blair, ao tentar convencer Willis de que vai cometer os mesmos erros que ele e Clyde cometeram. No final, o psiquiatra conclui: “O medalhão é apenas um símbolo. Era de amor que ela precisava”.

Em alguns momentos, como o da cerimônia do casamento, com o magistral emprego da câmera subjetiva-psicológica, o diretor alcança o mesmo brilho de seus melhore filmes, Nancy desce a escadaria da mansão com um buquê nas mãos e caminha para o altar improvisado. De repente, tem alucinações, ouvindo as vozes e vendo, em sobreimpressão, a imagens de Clyde, da patroa acusadora e dela mesma quando menina. A objetiva, colocada diretamente do alto, focaliza seus pés pisando no tapete estravagante até que encara o noivo dá um grito e cai sem sentidos.

Florence Bates e George Montgomery em A Moeda Trágica

Moeda Trágica / The Brasher Doubloon/1947 já é um filme noir puro, baseado no romance “The High Window” de Raymond Chandler. No relato o detetive particular Philip Marlowe (George Montgomery) chega à residência de Mrs. Murdock (Florence Bates), onde é recebido por sua secretária, Merle Davis (Nancy Guild). A velha quer contratá-lo, para recuperar uma antiga moeda de ouro espanhola, que lhe fora roubada. No desenrolar da investigação, Marlowe se depara com vários personagens e várias mortes até chegar a Rudolph Vannier (Fritz Kortner), um cinegrafista que está chantageando Mrs. Murdock com algo que teria filmado. O filme revela que foi Mrs. Murdock quem matou seu marido com ciúmes de Merle. A moeda supostamente roubada estava sendo utilizada por  Leslie ( Conrad Janis), o filho mimado de Mrs. Murdock, para pagar uma dívida de jogo.

Apesar da simplificação que os roteiristas fizeram do romance de Raymond Chandler, o espetáculo não compromete como filme noir puro. Aí estão a mulher fatal (Mrs. Murdock), o herói hard-boiled (apenas suavizado na interpretação bastante razoável de George Montgomery), a trama complexa, a narração em voz over, personagens grotescos, cenários ameaçadores (o vento que agita as árvores e provoca sombras sobre Marlowe no interior da mansão; o aposento da asmática Mrs.Murdock decorado com plantas equatoriais), diálogos e situações eróticas.

Há uma cena em que Marlowe vê uma arma em uma gaveta aberta. “Pensando em matar alguém?”, ele pergunta a Merle. Quando coloca a mão nos ombros da jovem, ela se retrai como se estivesse fugindo de uma cobra. “Não gosto de ser tocada por um homem”, Merle explica, mas acrescenta maliciosamente: “Isto não quer dizer que não quero ficar curada disto”.

Os filmes seguintes de Brahm, tal como os da sua primeira fase como cineasta em Hollywood, são corriqueiros, mas quase todos interessantes como Singapura / Singapore / 1947; Caminhos da Aventura / Face to Face / 1952 (composto por duas histórias, The Secret Sharer e The Bride Comes to Yellow Sky); O Ladrão de Veneza / The Thief of Venice / 1950; A Virgem de Fátima / The Miracle of Our Lady of Fatima / 1952; A Máscara do Mágico / The Mad Magician / 1954 em 3-D com Vincent Price; As Fraldas do Embaixador / Special Delivery / 1955 e Die Goldene Pest / 1955 (filmado na Alemanha Ocidental. Exceções: Terras Escaldantes / Bengazi / 1955 e 52 Milhas de Terror / Hot Rods to Hell / 1967).

Durante as décadas de 1950 e 1960 Brahm trabalhou muito na televisão, dirigindo, por exemplo, episódios da série Alfred Hitchcock Apresenta / Alfred Hitchcock Presents, Além da Imaginação / Twilight Zone, O Agente da U.N.C.L.E. / The Man from U.N.C.L.E., A Quinta Dimensão / The Outer Limits, Gunsmoke / Gunsmoke etc.

DOUGLAS SIRK

Hans Detlef Sierck (1897-1987) nasceu em Hamburgo na Alemanha, filho de pais dinamarqueses. Serviu na Marinha na Primeira Guerra Mundial e estudou Direito, Filosofia e História da Arte em várias universidades na Alemanha. Assistente de diretor no teatro Deutsches Schauspielhaus em Hamburgo, começou a dirigir em 1923. Até 1938 Sierck trabalhou como diretor em teatros em Chemnitz e Bremen. Entre 1929 e 1935 foi gerente e diretor artístico do Altes Theater em Leipzig, mas por problemas com os nazistas, em parte devido ao fato de que sua esposa, Hilde Jary, era judia, rescindiu seu contrato.

Douglas Sirk

Em1934 /35 ele realizou três filmes curtos para a Ufa, seguidos por uma comédia, April, April! e dois dramas passados na Escandinavia: a adaptação da peça teatral de Henrik Ibsen, Stützen Der Gesellschaft e Das Mädchen Vom Moorhof, um Heimat film (gênero muito popular na Alemanha do final dos anos 40 ao início dos anos 60, que pode ser traduzido como Filme de Pátria) baseado numa história de Selma Lagerlöf.

Seu primeiro grande sucesso foi o melodrama A Nona Sinfonia de Beethoven ou Últimos Acordes / Schlussakkord / 1936, sobre um maestro dividido entre sua esposa e a babá do filho adotivo deles que vem a ser a mãe da criança. No mesmo ano fez A Canção da Lembrança / Das Hofkonzert, que teve também uma versão francesa, La Chanson du Souvenir.

Subsequentemente, Sierck foi fundamental em transformar a cantora sueca Zarah Leander em uma das maiores estrelas da Ufa em dois melodramas exóticos. Em Recomeça a Vida / Zu Neuen Ufern, Leander interpretou uma cantora inglesa do século XIX que é inocentemente enviada para uma colônia penal na Australia enquanto em La Habanera / La Habanera (ambos de 1937), ela foi escolhida para ser uma turista sueca que se apaixona por um proprietário de terras impetuoso em uma viagem a Puerto Rico.

Cena de La Habanera

Após uma viagem a Roma em 1937, Sierck não retornou para a Alemanha, deixando para trás seu filho de seu primeiro casamento, Klaus Detlef Sierck (1925-1944), que atuou em vários filmes de propaganda nazista no final dos anos trinta e início dos anos quarenta, e morreu como soldado no na Frente Oriental.

Cena de O Capanga de Hitler

Enquanto estava filmando Boefje / 1939 na Holanda obteve um contrato com a Warner Bros e partiu para os Estados Unidos. Mudando seu nome para Sirk, foi escolhido pelo produtor emigrado Seymour Nebenzahl como diretor de O Capanga de Hitler / Hitler’s Madman / 1942, filme que relatou o assassinato do oficial superior alemão governador de Praga Reinhard Heydrich (John Carradine) e o subsequente massacre nazista na aldeia theca de Lidice.

 

Cena de Vidocq – Um escândalo em Paris

No restante dos anos quarenta Sirk manteve-se ocupado dirigindo O Que Matou Por Amor / Summer Storm / 1944, Vidocq – Um Escândalo em Paris / A Scandal in Paris / 1946, Emboscada / Lured / 1947, Sonha, Meu Amor / Sleep, My Love / 1948, Era Somente Amor / Slightly French /1949 e Apaixonados / Schockproof / 1949. Os dois melhores são VidocqUm Escândalo em Paris, baseado nas memórias de Eugène-François Vidocq, o criminoso que se tornou policial e inspirou escritores como Victor Hugo, Balzac, Edgar Allan Poe e Conan Doyle e Emboscada, refilmagem de Ciladas / Pièges / 1939 de Robert Siodmak, que tem como figura central uma jovem recrutada pela polícia para servir de isca na tentativa de captura de um assassino em série.

Seus filmes realizados na metade dos anos cinquenta foram O Poder da Fé / The First Legion / 1950, Fantasma do Mar / Mystery Submarine / 1950, Agonia de uma Vida /  Thunder on the Hill / 1951, Resgate Sublime / The Lady Pays Off / 1951, Feitiço de Amor / Weekend With Father / 1951, Sinfonia Prateada /  / Has Anybody Seen My Gal / 1952, E O Noivo Voltou / No Room for the Groom / 1952, Música e Romance / Meet Me at the Fair / 1953, Mulher de Fogo / Take me To Town / 1953, Desejo Atroz / All I Desire / 1953, Herança Sagrada / Taza, Son of Cochise / 1945, Sublime Obsessão / Magnificent Obsession / 1954, Átila, Rei dos Hunos / Sign of the Pagan / 1954, distinguindo-se: O Poder da Fé, sobre um padre jesuíta (Charles Boyer) que tem dúvidas sobre um milagre que teria ocorrido em sua cidade; Agonia de uma Vida, sobre uma freira (Claudette Colbert) que procura provar a inocência de uma jovem acusada de assassinato e, principalmente, Sublime Obsessão, com o qual Sirk provou ser um especialista em melodramas lacrimogêneos exuberantemente produzidos, digno sucessor de John M. Stahl, mestre do melodrama do Cinema dos anos trinta e quarenta.

Cena de Imitação da Vida

No restante dos anos cinquenta, entre alguns filmes de outros gêneros (Sangue Rebelde / Captain Lightfoot / 1955, Hino de Uma Consciência / Battle Hynn / 1957), Sirk dirigiu uma série de melodramas (Tudo Que o Céu Permite / All That Heaven Allows / 1955, Chamas Que Não se Apagam / There’s Always Tomorrow / 1956, Palavras ao Vento / Written on the Wind / 1956, Sinfonia Interrompida / Interlude / 1957; Almas Maculadas / The Tarnished Angels / 1957; Amar e Morrer / A Time to Love and a Time to Die / 1958; Imitação da Vida / Imitation of Life / 1959). Este último foi seu  filme derradeiro em Hollywood e muitos o consideram sua obra mais bem realizada.

Deixando Hollywood por Lugano em 1959, Sirk dirigiu ocasionalmente produções teatrais em Munique e Hamburgo entre 1963 e 1969. Em 1971, o livro de entrevista “Sirk on Sirk” de Jon Halliday deu início a uma série de retrospectivas, redescoberta internacional e atenção acadêmica.

De 1975 a 1978, supervisionou a produção de três filmes de curta-metragem realizados pelos estudantes da Academia de Televisão e Cinema de Munique: Sprich zu mir wie der Regen, Sylvesternacht e Bourbon Street Blues, trabalhando com Rainer Werner Fassbinder, que o adotou como figura paterna artística e se tornou seu amigo íntimo.

 

PAUL CZINNER E ELISABETH BERGNER

Marido da atriz Elisabeth Bergner, Czinner (1890-1972), nascido em Budapeste, Austria-Hungria, hoje Hungria, desfrutou de uma carreira de cinquenta anos no teatro e no cinema, trabalhando na Áustria, Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Paul Czinner

Filho de um industrial, criança prodígio do violino, obteve seu doutorado em teoria literária e filosofia, antes de se tornar um dramaturgo no Deutsches Volkstheater em Budapeste. Em 1914, mudou-se para Viena, Austria onde trabalhou como jornalista e conheceu Carl Meyer, com quem colaboraria regularmente em roteiros de filmes. Czinner também escreveu peças como “Satans Maske” e dirigiu seus primeiros filmes, os influenciados pelo expressionismo, Homo Immanis e Inferno, ambos de 1919.

Cena de Liebe

Em Berlim a partir de 1924, dirigiu uma série de filmes estrelados pela atriz treinada por Max Reinhardt, Elizabeth Bergner: Maridos ou Amantes / Nju / 1924; Der Geiger von Florenz / 1926; Amores de Duquesa / Liebe / 1927 (baseado no romance de Balzac “La Duchessse de Langeais”); Doña Juana / 1928; Fräulein Else / 1929; Ariane / 1931; Der Träumende Mund / 1932. Doña Juana, como roteiro de Béla Balázs, e Fraulein Else com roteiro de Arthur Schnitzler, foram produzidos pela sua própria companhia, Poetic-Film GmbH.

Cena de A Rainha Imortal

Em 1932 Czinner e Bergner viajaram para Londres a fim de participar de uma produção da London Films de Alexander Korda, A Rainha Imortal / The Rise of Catherine the Great, co-protagonizado por Douglas Fairbanks Jnr. Após a ascenção dos nazistas ao poder na primavera de 1933, como ambos eram judeus, o casal decidiu continuar sua carreira na Inglaterra. Eles haviam se casado em 9 de janeiro de 1933 e se tornaram cidadão britânicos em 1938. Na Inglaterra Czinner fez ainda: Contudo És Meu / Escape Me Never / 1935; Como Gosteis / As You Like It /1936; Lábios Pecadores / Dreaming Lips / 1937, Vida Roubada / Stolen Life / 1938, todos com Elizabeth Bergner no papel principal feminino. Ela recebeu uma indicação para o Oscar por seu trabalho como Rosalind em Como Gosteis, baseado na peça de Shakespeare, no qual Laurence Olivier era seu parceiro no papel de Orlando.

Logo depois do começo da Segunda Guerra Mundial, o casal partiu para Hollywood, porém os produtores não estavam interessados em Bergner, enquanto Czinner se recusava a trabalhar sem ela. Os dois se transferiram para Nova York, onde Czinner se tornou produtor teatral e foi capaz de incluir Bergner na Broadway em algumas produções, inclusive o thriller de suspense de Martin Vale, “The Two Mrs. Carroll” (levado à tela em 1947 como Inspiração Trágica com Humphrey Bogart e Barbara Stanwyck) e “The Duchess of Malfi”, adaptação da peça de John Webster por W. A. Auden e Bertold Brecht. Bergner apareceu em apenas um filme, Paris Está Chamando / Paris Calling / 1941, dirigido por Edwin L Marin e ao lado de Randolph Scott.

Cena de Pari s Está Chamando

Czinner retornou à Austria em 1949 e depois para Londres em 1950, onde fundou uma nova companhia chamada Poetic Fims, que produzia filmes de ópera e balé para a Organização Rank. Em 1967 ele recebeu o “FiImband in Gold”, por sua contribuição para o cinema germânico.

Elisabeth Bergner

Elisabeth Bergner (1897-1986) nasceu em Drohobycz, Austria-Hungria hoje Drogobych, Ucrânia. Treinada no Conservatório de Viena entre 1912 e 1915 nos próximos dez anos apareceu no teatro em Innsbruck, Zurique, Viena e Munique, mas foi em Berlim que obteve seu maior sucesso. Sua Rosalind na produção de Max Reinhardt em 1923 de “As You Like It” no Deutsches Theater foi festejada como um triunfo da técnica moderna de teatro, e uma associação com Reinhardt e este palco continuou por muitos anos.

Cena de Ariane

O filme de estréia de Bergner foi num papel secundário em Der Evangelimann / 1924 (Dir: Holger-Madsen). Entretanto, ela logo surgiu exclusivamente como estrela sob a direção de Paul Czinner em vários filmes, que já citamos ao falarmos sobre este diretor. O filme silencioso deles mais exitoso foi Fräulein Else e seu primeiro filme falado, Ariane, seria refilmado por Billy Wilder em 1957 como Amor na Tarde / Love in the Afternoon com Audrey Hepburn no antigo papel de Bergner.

Bergner voltou para Londres em 1951, onde atuou no teatro, no cinema e na televisão. A partir de 1954 tez também certo número de apresentações no teatro na Alemanha Ocidental. Ela ganhou um “Filmband in Gold’ pelo seu papel em The Glücklichen Jahre Der Thorwalds / 1921, a saga familiar de John Olden e Wolfgang Staudte e apareceu frequentemente na televisão alemã entre os anos sessenta e oitenta. Em 1978 recebeu o “Filmband in Gold” por sua contribuição para o cinema germânico.