KAY FRANCIS

Ela foi uma das atrizes mais populares da tela no anos 30, classificada como “a rainha da Warner Bros.“, “a mulher mais bem vestida do Cinema” e, por sua cor de pele morena e cabelos negros, “a americana mais brasileira de Hollywood” (aqui no Brasil houve até rumores de que ela teria nascido em Pernambuco). Entre 1930 e 1937 ninguém, a não ser Shirley Temple, apareceu mais nas capas das revistas de cinema dos Estados Unidos e, em nosso país, basta folhear as nossas Cinearte e A Scena Muda para constatar a constância de suas fotos em quase todos os números destas duas publicações, sempre chique em modelos muito admirados pelas fãs. Apesar de sofrer de uma leve gagueira e pronunciar os “rs” como “ws” (palavras começando por “r” eram cortadas dos roteiros de Francis) ela era uma das estrelas mais glamourosas e bem pagas (em meados da década de trinta seu salário de mais de 5 mil dólares semanais ultrapassava o de várias outras colegas), interpretando, primeiro na Paramount e depois na Warner Bros., mulheres elegantes e mundanas em melodramas românticos e, eventualmente, em algumas comédias.

Kay Francis

Katharine Edwina Gibbs (1905-1968), nasceu em Oklahoma City, filha de Joseph Gibbs, proprietário de terras e criador de cavalos que havia perdido sua fortuna quando ela nasceu e de Katherine Clinton, atriz de teatro. Quando Kay tinha nove meses de idade a família se mudou para a Califórnia e depois foi para Denver e Salt Lake City onde, Mrs. Gibbs, cansada das frequentes mudanças, problemas financeiros e alcoolismo de Joseph, e arrependimento por ter abandonado a carreira teatral, decidiu se separar do marido e voltar para o palco.

A pequena Katharine passou a infância acompanhando a mãe em suas excursões frequentes, estudando em alguns colégios religiosos e finalmente em uma escola de treinamento para secretárias de Nova York até que arrumou emprego como assistente de Juliana Cutting, organizadora de festas para a alta sociedade novaiorquina. Nesta ocasião a carreira de sua mãe teve um impulso, quando ela apareceu em duas peças no Garrick Theater de Nova York, produzidas pelo prestigioso Theatre Guild.

Em 1922 Kay trabalhou brevemente como modelo e como secretária, perdeu sua virgindade e iniciou uma vida de sexualidade desinibida (casou-se aos 17 anos de idade com James Dwight Francis, filho de família rica, teve amantes de ambos os sexos e fez três abortos). Ela se divorciou de James em 1925 e neste mesmo ano estreou no teatro em uma versão moderna do “ Hamlet” de Shakespeare, casou-se com William Gaston, assistente de um promotor público (outro matrimônio frustrado) e fez um teste no estúdio da Famous Players em Astoria para o diretor David Wark Griffith, provavelmente para ser incluída no elenco de Tristezas de Satanás / Sorrow of Satan. Mas não deu em nada.

Deixando de lado a vida pessoal de Kay – seus / suas amantes, mais um aborto, início de sua tendência para o alcoolismo, algumas aparições no teatro, trabalho como modelo, vejamos como ela debutou no cinema. Existem várias versões, mas parece que foi por intermédio de Walter Huston, o ator principal de “Elmer the Great”, peça na qual ela desempenhara um pequeno papel como uma corista. Escolhido para liderar o elenco de Algema Cruel / Gentlemen of the Press / 1929, Huston teria convencido os responsáveis pela Paramount a contratar Kay. Logo em seguida, ela participou de um filme dos Irmãos Marx, Hotel da Fuzarca / The Cocoanuts / 1929, usando em ambos o nome artístico de Katherine Francis. Após Kay ter completado seus dois primeiros filmes em Nova York, a Paramount decidiu transferí-la para Los Angeles a fim de continuar sua carreira no estúdio da Melrose Avenue em Hollywood e, assim que ela chegou, imediatamente iniciou uma campanha de publicidade, lançando Kay como competidora das duas atrizes consideradas as ”mais bem vestidas” da época, Constance Bennett e Lilyan Tashman. Sua presença esbelta e vistosa, figura de modelo (com 1.75 ms de altura), cabelos  bem pretos e capacidade de se vestir com elegância  (com figurinos de Travis Banton e Orry-Kelly) ela conquistou o público, principalmente o feminino.

Kay Francis e Ronald Colman em Raffles

Nos seus filmes iniciais em Hollywood, a maioria deles na Paramount – Curvas Perigosas / Dangerous Curves / 1929 com Clara Bow e Richard Arlen; Ilusão / Illusion / 1929 com Charles “ Buddy” Rogers, Nancy Carroll; Órfãos do Divórcio / The Marriage Playground / 1929 com Mary Brian, Fredric March; Por Traz da Máscara / Behind the Make-Up / 1930 com Hal Skelly, William Powell, Fay Wray; Caminhos da Sorte / Street of Chance / 1930 com William Powell, Jean Arthur; Paramount em Grande Gala / Paramount on Parade / 1930 com um elenco de astros e estrelas; Mulher Desejada / A Notorious Affair / 1930  (First National) com Billie Dove, Basil Rathbone – Kay não teve o papel principal, o que só viria acontecer em Defesa Que Humilha / For the Defense  / 1930 e logo depois em Raffles /  Raffles / 1930 (Samuel Goldwyn), nos quais dividiu o estrelato respectivamente com William Powell e Ronald Colman. Foram os seus dois melhores filmes até então.

Kay Francis e Jack Oakie em Naufrágio Amoroso

Ela fez sucessivamente, – salvo quando mencionados outros estúdios – na Paramount: Naufrágio Amoroso / Let´s Go Native / 1930 (com Jeannette MacDonald encabeçando o elenco); Coragem de Amar / The Virtuous Sin / 1930 com Walter Huston, Kenneth MacKenna); Um Sonho Apenas / Passion Flower / 1930 (MGM) com Kay Johnson, Charles Bickford; Página de Escândalo / Scandal Sheet /1931 com George Bancroft, Clive Brook; O Benzinho de Todas / Ladie´s Man /1931 com William Powell, Carole Lombard. The Vice Squad / 1931 com Paul Lukas; Reconquistada / Transgression / 1931 (RKO) com Paul Cavanagh, Ricardo Cortez; Mãos Culpadas / Guilty Hands/ 1931 (MGM) com Lionel Barrymore, Madge Evans; 24 Horas / 24 Hours / 1931 com Clive Brook, Miriam Hopkins; Prá Que Casar / Girls About Town / 1931 com Joel McCrea, Lilyan Tashman; A Falsa Madona / The False Madonna / 1932 com William “ Stage” Boyd; A Volta do Deserdado / Strangers in Love  / 1932 com Fredric March.

Lionel Barrymore e Kay Francis em Mãos Culpadas

Neste lote destaco em negrito Mãos Culpadas, drama criminal com ótimo enredo: em uma viagem de trem, o ex-promotor público e agora advogado, Richard Grant (Lionel Barrymore), diz para seus companheiros de viagem que, baseado em sua longa experiência, o assassinato algumas vezes pode ser justificado e uma pessoa inteligente deve ser capaz de cometê-lo, sem ser descoberto. É o que ele pretende fazer, a fim de impedir que sua filha (Madge Evans) se case com Gordon Rich (Alan Mowbray) um canalha bem mais velho do que ela. Kay faz o papel da amante despeitada de Rich, que suspeita de que a morte dele não foi suicídio, como Grant fizera a polícia crer. O diretor W. S. Van Dyke dirigiu com boa imaginação cinematográfica um roteiro cheio de reviravoltas e Barrymore brindou o espectador com um de seus melhores desempenhos.

Kay Francis e Ricado Cortez em Capricho Branco

Em 1931, Kay casou-se com o ator Kenneth MacKenna. Pouco depois assinou contrato com a Warner Bros. e, depois de fazer três de seus melhores filmes em 1932 – Ladrão Romântico / Jewel Robbery; A Única Solução / One Way Passage; Ladrão de Alcova / Trouble in Paradise (este na Paramount) – seus papéis foram diminuindo de qualidade em produções de menor merecimento artístico: 1932 – Amante Discreta / Cynara com Ronald Colman. 1933 – Pela Fechadura / The Keyhole com George Brent; Aurora de Duas Vidas / Storm at Daybreak (MGM) com Nils Asther, Walter Huston; Mulher e Médica / Mary Stevens, M.D. com Lyle Talbott, Glenda Farrell; A Mulher Que Eu Amei / I Loved a Woman (First National) com Edward G. Robinson; Presa do Destino / The House on 56th Street com Ricardo Cortez, Gene Raymond. 1934 – Capricho Branco / Mandalay com Ricardo Cortez, Lyle Talbot; Wonder Bar / Wonder Bar (First National) com Al Jolson, Dolores Del Rio, Ricardo Cortez, Dick Powell; Monica / Dr. Monica com Warren William.  Espionagem / British Agent (First National) com Leslie Howard. 1935 – Vivendo em Veludo / Living on Velvet (First National) com Warren William; O Primeiro Beijo / Stranded com George Brent; A Favorita / The Goose and the Gander com George Brent; Amores Trágicos / I Found Stella Parrish com (First National) com Ian Hunter, Paul Lukas. 1936 – Anjo de Piedade / White Angel com Ian Hunter, Donald Woods; Dá-me Teu Coração / Give Me Your Heart com George Brent; 1937 – Ventura Roubada / Stolen Holiday com Claude Rains, Ian Hunter; Outra Aurora / Another Dawn com Errol Flynn, Ian Hunter; Confession; Intrigas da Alta Roda / First Lady com Anita Louise, Preston Foster. 1938 –  Assim São as Mulheres / Women Are Like That com Pat O´Brien , Ralph Forbes; Filhos Sem Lar / My Bill com Dickie Moore, Bonita Granville; Segredos de uma Atriz / Secrets of an Artist com George Brent, Ian Hunter; Promessa CumpridaComet Over Broadway com Ian Hunter. 1939 – Contra a Lei / King of the Underworld com Humphrey Bogart; Mulheres Que O Vento Leva / Women in the Wind com William Gargan.

Kay Francis e Ronald Colman em Amante Discreta

Kay Francis, Walter Huston e NIls Asther em Aurora de Duas Vidas

Ricardo Cortez, Dolores Del Rio,   Al Jolson, Kay Francis e Dick Powell  em Wonder Bar

Kay Francis e Warren William em Monica 

Leslie Howard e Kay Francis em Espionagem

George Brent e Kay Francis em Dá-me Teu Coração

Ladrão Romântico, muito bem dirigido por William Dieterle, é uma comédia romântica excelente, baseada em uma peça de Ladislaus Fodor, sobre uma dama da alta sociedade, Baronesa Teri (Kay Francis), esposa adúltera de um milionário que percebeu o vazio de sua vida e se curou de seu tédio com um ladrão de jóias audacioso, elegante e requintado  (William Powell), – parecido com o Arsène Lupin de Maurice Leblanc. Dotado de uma técnica incomparável para esvaziar as joalherias da Ringstrasse de Viena nas barbas das autoridades, ele ridiculariza os representantes da lei e até o prefeito sucumbe aos cigarros de marijuana oferecidos pelo charmoso larápio. Outra dose parecida de amoralidade – pois trata-se de um filme anterior ao Código Hays – é o decote escandalosamente ousado nas costas de Teri e, no final, o oferecimento de seu marido para uma cura de descanso em Nice, onde a espera o irresistível gatuno.

Kay Francis e William Powell em Ladrão

A Única Solução é um melodrama com história original de Robert Lord premiada com o Oscar. Dan Hardesty (William Powell), condenado  por homicídio e preso em Honk Kong é levado para San Francisco no transtlântico  SS Maloa a bordo do qual se encontra com uma doente incurável, Joan Ames (Kay Francis). Os dois se envolvem em um idílio, cada qual sem saber que a vida do outro está prestes a se extinguir. O diretor Tay Garnett deu pungência ao tema romântico, equlibrando-o com toques de comédia, providenciados por Aline MacMahon e Frank McHugh, um vigarista e uma falsa condessa, espécie de cupidos dos casal com os dias contados.

William Powell e Kay Francis em A Única Solução

Em Ladrão de Alcova, comédia romântica dirigida magnificamente por Ernst Lubitsch, Gaston Monescu (Herbert Marshall) e Lily (Miriam Hopkins) são dois ladrões cosmopolitas que pretendem furtar as jóias de Madame Mariette Colet  (Kay Francis), dona de uma fábrica de perfumes, empregando-se em sua casa. Depois de muitos imprevistos, finura e mordacidade, termina esta farsa mundana, deliciosamente cínica e amoral, um dos filmes prediletos do diretor, que conta ainda com a presença hilariante de Edward Everett Horton e Charles Ruggles como os rivais pela mão de Madame Cole.

Kay, Herbert Marshall e Miriam Hopkins em Ladrão de Alcova

Kay Francis e Herbert Marshall em Ladrão de Alcova

Confession, é a refilmagem – incompreensívelmente inédita no Brasil, pois se tratava de uma produção classe A da Warner – do filme alemão Mazurca / Mazurka / 1935 de Willi Forst com Pola Negri, coincidentemente dirigida por outro alemão, Joe May, então radicado nos EUA. Tal como na produção germânica, a história foi valorizada pela excelência da direção. Kay é Vera Kowalska, cantora de ópera pupila de um grande maestro, Michael Michailow (Basil Rathbone), seu admirador; porém ela se casa com outro e tem uma filha, Lisa (Jane Bryan). Quando o marido vai para a guerra, ela se embriaga em uma festa e se entrega ao maestro. O marido fica sabendo de tudo,  deixa-a e se casa novamente, obtendo a guarda da filha. Vera, para ganhar a vida, vai ser cantora em um cabaré. Basta descrever uma sequência do filme para mostrar a intuição de cinema de Joe May. Vera está cantando no cabaré. De repente ela avista em uma das mesas, o ex-amante beijando sua filha. Vera desmaia. Nervoso, o maestro resolve sair rapidamente com a garota. Quando estão subindo a escada em direção à porta de saída, a câmera se volta para baixo, onde vemos Vera com um revólver na mão. Ela atira e atinge Michailov pelas costas. O corpo dele rola pela escada, indo cair ao lado de algumas serpentinas e da arma assassina.

Kay Francis na filmagem de Confession

Na sua vida íntima sempre turbulenta Kay divorciou-se de Kenneth MacKenna, continuou se entregando à bebida, fazendo abortos e colecionando amantes entre eles Maurice Chevalier, Otto Preminger, Delmer Daves, Rouben Mamoulian e Fritz Lang. Sua carreira que parecia tão promissora dez anos atrás, tornou-se um fardo em 1939, por ter a Warner colocado a atriz em um amontoado de filmes com histórias ruins; mas havia se tornado uma milionária. Durante a filmagem de seu último filme neste estúdio, Mulheres Que O Vento Leva, ela concedeu uma entrevista para a revista Photoplay, cujo título e primeira frase era: “I can´t wait to be forgotten”.

Em fevereiro de 1939 a RKO contratou-a para Esposa Só No Nome / In Name Only, bom filme de John Cromwell, no qual ela contracenou com Carole Lombard e Cary Grant e impressionou os críticos, interpretando uma esposa vingativa e amarga. Em janeiro de 1940 trabalhou com Deanna Durbin e Walter Pidgeon na Universal em Rival Sublime / It´s a Date, sob a direção de William Seiter, atuando como mãe de Deanna. Esta, é claro, era a principal atração, porém Kay não ficou embaraçada no papel de uma estrela envelhecida que é obrigada a competir com sua filha.

Jack Benny e Kay Francis em A Tia de Carlitos

 

Cena de Sempre no MeuCoração

Como free lancer Kay fez em seguida: 1940 – A Vingança dos Daltons  / When The Daltons Rode  (Universal) com Randolph Scott, Brian Donlevy; Homenzinho / Little Men (RKO) com Jack Oakie, George Bancroft. 1941 – Mulheres de Luxo / Play Girl (RKO) com James Ellison); O Homem Que Se Perdeu / The Man Who Lost Himself (Universal) com Brian Aherne; A Tia de Carlitos / Charley´s Aunt (Twentieth Century-Fox) com Jack Benny, James Ellison, Anne Baxter; Ciúme Não é Pecado / The Feminine Touch (MGM) com Rosalind Russell, Don Ameche, Van Heflin. 1942 – Sempre no Meu Coração / Always in My Heart (Warner Bros.), com Walter Huston, Gloria Warren; Fruta Cobiçada / Between Us Girls (Universal) com Diana Barrymore, Robert Cummings. 1944 – Quatro Moças Num Jeep/ Four Jills in a Jeep (Twentieth Century-Fox) com Carole Lombard, Martha Raye, Mitzi Mayfair. Neste grupo de filmes, sobressaiu Sempre no Meu Coração, apenas por ter sido grande sucesso de público no Brasil, tendo ficado 22 semanas em cartaz no Rio de Janeiro

Durante a Segunda Guerra Mundial Kay colaborou com o esforço de guerra, ajudando a divertir as tropas em shows domésticos e no exterior, visitando hospitais e servindo mesas em cantinas especiais para soldados. Em abril de 1945  esteve no Brasil, cumprindo missão da U. S. O. Camp Shows, primeiro no Recife e depois no Rio de Janeiro.

Em 1945-1946 Kay produziu com Jeffrey Bernerd seus três filmes derradeiros, todos de baixo orçamento e distribuídos pela Monogram:  1945 – Divórcio / Divorce com Bruce Cabot; Esposas ErrantesAllotment Wives com Paul Kelly. 1946 – Precisa-se de uma Esposa / Wife Wanted com Paul Cavanagh. Em 1946 ela se retirou do cinema e, exceto algum trabalho no palco e aparições na televisão no início dos anos 50, evitou totalmente os refletores. Quando faleceu em 1968, vitimada pelo cancer, deixou a maior parte da sua fortuna de quase 2 milhões de dólares para a Seeing Eyes, Inc., organização que treinava cães para serem guias de cegos.

MATHILDE COMONT

Ela era uma atriz nos filmes de Hollywood dos anos 20-30, que sempre chamava atenção pelo seu físico imponente e suas qualidades interpretativas. Hoje talvez ninguém mais se lembre dela, mas tendo revisto recentemente  suas atuações em O Ladrão de Bagdad / The Thief of Bagdad e O Bamba do Rio Verde / The Hard Hombre e visto pela primeira vez Rosita / Rosita (em uma cópia restaurada exibida no canal franco-alemão Arte, que me foi enviada por Sergio Leemann), achei que ela merecia uma homenagem.

Mathilde Comont

Mathilde Comont (1886-1938) apareceu primeiramente no cinema em oito curtas-metragens franceses : 1908 – Mon Chef Vient Dejeuner (Dir: Maurice de Féraudy / Gaumont); Les Vingt-Huit Jours de Clairette (Dir: Maurice de Féraudy / Gaumont). 1909 – La Dormeuse (Dir: Michel Carré / Pathé-Frères). Ordre du Roi (Dir: Michel Carre´/ Pathé-Frères); Mathurin Fait la Noce (Dir: Michel Carré / Pathé-Frères); Mange ta Soupe (Dir: Georges Monca / Pathé-Frères); Ce que Femme Veut (Dir: Georges Monca (Pathé-Frères). 1910 – L´Inspecteur des Becs-de-Gaz (Dir: René Chavance / Pathé-Frères).

Mathilde e Stan Laurel

Instalada definitivamente nos EUA, participou de alguns filmes curtos: não creditada em Max in a Taxi e Max Wants a Divorce, ambos de 1917 (Dir: Max Linder / Essanay); A Bad Little Good Man / 1917 e Eddie Get the Mop / 1918 (Dir: William Beaudine, argumento King Vidor / Nestor); Romance de um Apache / A Rogue´s Romance / 1919 (Dir: James Young / Vitagraph); não creditada em O Lírio do Reino Florido / A Tale of Two Worlds / 1921 (Dir: Frank Lloyd / Goldwyn); The Handy Man / 1923 (Dir: Robert Kerr / Quality Film) contracenando com Stan Laurel.

Seus dois primeiros papéis importantes ocorreram em duas grandes produções: Rosita / 1923 (Dir: Ernst Lubitsch), interpretando a mãe de Rosita (Mary Pickford) e O Ladrão de Bagdad / 1924 (DIr: Raoul Walsh), filme de aventuras orientais protagonizado por Douglas Fairbanks no qual, sem receber crédito, assumiu a figura masculina do Príncipe Persa, de bigode e turbante.

Mathilde ao lado de Mary Pickford em Rosita

Mathilde em O Ladrão de Bagdad

Ainda na década de trinta, fez mais 27 filmes como coadjuvante, em pequenos papéis ou apenas pontas, algumas vezes sem ser creditada: 1924 – O Espírito da Meia-Noite / Mademoiselle Midnight (Dir: Robert Z. Leonard); Confissão Suprema / His Hour (Dir: King Vidor). 1925 – não creditada em Playing with Souls (Dir: Raph Ince): A Falência do Casamento / If Marriage Fails (Dir: John Ince). 1926 – A Fera do Mar / The Sea Beast (Dir: Millard Webb); A Montanha Encantada / The Enchanted Hill (Dir: Irvin Willat); A Dansarina de Montmartre / The Girl from Montmartre (Dir: Alfred E. Green); Um Grito D´Alma / The Far Cry (Dir: Silvano Balboni); La Bohème / La Bohème (Dir: King Vidor); A Felicidade Depende do Dinheiro / The Gilded Highway /  (Dir: J. Stuart Blackton); não creditada em Kiki / Kiki (Dir:  Clarence Brown); Meia-Noite em Paris / Paris at Midnight (Dir: E. Mason Hopper); Coração Que Hesita / Volcano (Dir: William K. Howard); Amor Napolitano / (Dir: George Archainbaud); não creditada em Sonhos e Realidade / The Passionate Quest (Dir:  J. Stuart Blackton); Sangue por Glória  / What Price Glory (Dir: Raoul Walsh); A Flor dos Cortiços / Rose of the Tenements (Dir: Phil Rosen). 1927 – em cenas extirpadas de Que Escândalo! / The Whole Town´s Talking (Dir: Edward Laemmle); Dois Xarás e uma Xarada / The Wrong Mr. Right  (Dir: Scott Sidney); Os Amores de Carmen / The Loves of Carmen (Dir: Raoul Walsh); Anna Karenina / Love (Dir: Edmund Goulding); Ruas de Shanghai / Streets of Shanghai (Dir: Louis J. Gasnier). 1928 – Noite de Estréia ou O Caminho de uma Mulher / A Woman´s Way (Dir: Edmund Mortimer); Ramona / Ramona (Dir: Edwin Carewe); Una Nueva y Gloriosa Nación / The Beautiful Spy (Co-Prod. Argentino-Americana. Dir: Albert Kelly); You Know What Sailors Are (Prod britânica. Dir: Maurice Elvey); Paris de Contrabando / The Rush Hour.

Mathilde e Lilian Gish  em La Bohème

Mathilde em Meia-Noite em Paris

Mathilde em A Woman´s Way

Às vezes o nome de Mathilde aparecia como Matilde ou Mathilda nos créditos. Entre seus melhores papéis (Madame Benoit em La Bohème, com Lilian Gish e John Gilbert; Camille em Sangue por Glória com Victor MacLaglen, Edmund Lowe, Dolores Del Rio; Emilia em Os Amores de Carmen com Dolores Del Rio, Don Alvarado, Victor MacLaglen; Marda em Ramona com Dolores Del Rio, Warner Baxter) destaca-se o de Madame Vauquer, a dona da pensão do romance famoso de Honoré de Balzac, “Le Père Goriot”, em Meia-Noite em Paris, adaptação cinematográfica (com muita liberdade) da obra do grande escritor, na qual estão presentes também outros conhecidos personagens da Comédia Humana como Vautrin (Lionel Barrymore), Eugene de Rastignac (Edmund Burns) e Pai Goriot (Emile Chautard).

Mathilde com Ramon Novarro em Seviha de Meus Amores

Nos anos 30 foram mais 30 longas-metragens e 1 curta: 1930 – O Monstro Marinho / The Sea Beast (Dir:  Lionel Barrymore, Wesley Ruggles); Sevilha de Meus Amores / Call of the Flesh (Dir: Charles Brabin); Romance / Romance (Dir: Clarence Brown); Just Like Heaven (Dir:  Roy William Neill); não creditada em O Chicote / The Lash(Dir: Frank Lloyd); não creditada em Along Came Youth (Dir: Lloyd Corrigan, Norman Z. McLeod); Le Chanteur de Séville (Dir: Ramon Novarro, versão de Sevilha de Meus Amores / Call of the Flesh); não creditada em The Lady Who Dared (Dir: William Baudine); O Bamba do Rio Verde / The Hard Hombre  (Dir: Otto Brower); Melodia Cubana / The Cuban Love Song ( Dir: W. S. Van Dyke); não creditada em Monstros / Freaks (Dir: Tod Browning); não creditada em Coquetel de Amores / Lady With a Past (Dir: Edward H. Griffith); não creditada em Mulheres e Aparências / Careless Lady / 1932 (Dir: Kenneth MacKenna); L´Athlète Incomplet (Dir: Claude Autant Lara, versão de Sêde de Escândalo / Local Boy Makes Good). 1933 – Rindo-se da Vida / Laughing at Life (Dir: Ford Beebe); não creditada em Vidas sem Rumo / The Devil´s in Love (Dir: William Dieterle); não creditada em Sócios no Amor / Design for Living (Dir: Ernst Lubitsch). 1934 – não creditada em Paixão de Zíngaro / Caravan (Dir: Erik Charell); A Torch Tango (curta-metragem musical com Ruth Etting); Idílio Interrompido / All Men Are Enemies (Dir: George Fitzmaurice); não creditada em Promessa de Mãe / A Wicked Woman (Dir: Charles Brabin). 1935 – Flirt / Escapade (Dir: Robert Z. Leonard); Um Brinde ao Amor / Here´s to Romance (Dir: Alfred E. Green); Waterfront Lady (Dir: Joseph Santley). 1936 – não creditada em Heróis do Ar / Ceiling Zero (Dir: Howard Hawks); não creditada em O Bandoleiro de El Dorado / Robin Hood of Eldorado (Dir: William Wellman); Pobre Menina Rica / Poor Little Rich Girl (Dir: Irving Cummings); Adversidade / Anthony Adverse (Dir: Mervyn LeRoy); não creditada em Noite sem Fim / The Longest Night (Dir: Errol Taggart); Along Came Love (Dir: Bert Lytell). 1937 – Porque o Diabo Quis / God´s Country and the Woman (Dir: William Keighley); não creditada em Moça de Expediente / Wise Girl (Dir: Leigh Jason).

Hoot Gibson, Lina Basquette e Mathilde em O Bamba do Rio Verde

Gostei muito de Mathilde, ou Matilde, como saiu o nome dela como o terceiro nome nos créditos logo depois de Hoot Gibson e Lina Basquette em O Bamba do Rio Verde, um dos melhores westerns cômicos do cowboy menos convencional da História do Western.  No filme, Hoot é William Penn “ Peaceful” Patton, rancheiro simplório  queridinho de sua mamãe, que pede emprego de capataz na fazenda de uma linda viúva, Isabel Martinez (Lina Basquette). Confundido com um bandido perigosíssimo, conhecido como The Hard Hombre, ele consegue defender os interesses de sua patroa, pois todos estremecem de medo diante dele, inclusive Maria Romero, vizinha de Isabel, o personagem interpretado por Matilde. Quando o verdadeiro Hard Hombre aparece e ameaça a mãe de  “ Peaceful”, ele fica furioso, acaba com o fora-da-lei e conquista Isabel.

Grande Mathilde

Vi Mathilde também em outros filmes (v. g. Sevilha de Meus Amores, no qual ela é La Rumbarita, que aluga o quarto onde Juan de Dios (Ramon Novarro), Maria Consuelo (Dorothy Jordan) e Esteban (Ernest Torrence) se hospedam em Madrid; Pobre Menina Rica como a esposa de Tony (Henry Armetta), tocador de realejo italiano em cuja casa Barbara (Shirley Temple) se abriga depois de ter ficado sozinha na rua quando a empregada que a conduzia para uma nova escola foi atropelada por um carro) sempre com o maior prazer, por mais breve que tivesse sido as suas aparições na tela (v. g. como a cozinheira de Norma Talmadge em Kiki ou como uma cigana dançando com Eugene Pallette em Paixão de Zíngaro).

Mathilde Comont morreu prematuramente aos 51 anos de idade, vitimada por um ataque cardíaco pouco depois do lançamento de seu último filme.

WILLIAM WITNEY

William Nuelsen Witney (1915-2002) nasceu em Lawton, Oklahoma. Sua família mudou-se para a Califórnia e seu pai polaco-americano morreu quando ele tinha quatro anos de idade. Em 1933, seu cunhado, Colbert Clark, diretor de seriados na Mascot, utilizou-o como figurante no seriado Os Cavaleiros Mascarados ou Sacrifício Glorioso / Fighting With Kit Carson e depois lhe arrumou um emprego como ajudante de escritório neste estúdio da Poverty Row. Após algum tempo, Witney serviu como segundo assistente de direção na filmagem do seriado O Dominador das Selvas / Law of the Wild / 1934 (Dir: Armand Schaefer e B. Reeves Eason), estrelado por Rex, o Rei dos Cavalos Selvagens e Rin-Tin-Tin. Em 1935, quando a Mascot se fundiu com a récem formada Republic Pictures ele foi promovido a assistente da montadora Helene Turner, em uma equipe supervisionada por Joseph H. Lewis que, logo depois passou a ser diretor, sendo substituído por Murray Seldene. O próximo passo de Witney no estúdio foi como continuista e sua primeira atuação neste cargo foi na filmagem de A Deusa de Joba / Darkest Africa (Dir: B. Reeves Eason, Joseph Kane), o primeiro seriado da Republic.

William Witney

Em 1937, Witney assumiu a direção do seriado O Aliado Misterioso / The Painted Stalllion. Alan James dirigiu no primeiro dia de filmagem e Ray Taylor no segundo dia. Esta era uma prática comum na realização de seriados: o revezamento de dois diretores, pois seria demais esperar que apenas um homem pudesse filmar centenas de cenas dia após dia. Quando um se ocupava da direção, o outro aproveitava sua folga, preparando-se para o próximo dia de filmagem. A certa altura, Ray Taylor teve que ser afastado por causa de seu problema com o alcoolismo e então o supervisor da produção, Larry Wickland, pediu a Witney para substituí-lo momentaneamente com a promessa de que iria logo convocar outro diretor para o lugar de Taylor. Ouvindo com atenção os conselhos do primeiro cameraman William Nobles, Witney  deu conta do recado, e acabou permanecendo no novo pôsto até o final da filmagem.

Julia Thayer em O Aliado Misterioso

No enredo do seriado, Clark Stuart (Ray Corrigan), a caminho de Santa Fe para negociar um tratado entre os Estados Unidos e o governador de New Mexico, junta-se a um comboio de carroças liderado por Walter Jamison (Hoot Gibson), Neste seguem também Jim Bowie (Hal Taliaferro) e um jovem Kit Carson (Sammy McKim)  e mais tarde David Crockettt (Jack Perrin) se torna um aliado do grupo contra Alfredo Dupray (LeRoy Mason), que controla o território de Santa Fe enquanto o novo governador não chega e, com a ajuda de Zamorra (Dunca Renaldo) e seus capangas, planeja sabotar o tratado e substituir Stuart por um de seus homens.

Cena de O Aliado Misterioso

Os roteiristas inventaram um personagem original: uma jovem branca montada em um cavalo malhado e vestida com um cocar emplumado, única sobrevivente de um massacre, que fôra criada pelos índios, ajudava o comboio a chegar ao seu destino, desfechando uma flecha sibilante para avisá-los do perigo. Para o papel da bela amazona escolheram uma jovem atriz que havia sido uma Wampas Baby Star. Seu nome era Jean Carmea, mas foi creditada no filme como Julia Thayer.

Witney compartilhou com Alan James a direção de um segundo seriado, Guarda-Costa Alerta! / SOS Coast Guard (com Ralph Byrd, Bela Lugosi e Maxine Doyle), e quando terminou seu trabalho, realizou um western, O Trio do Gatilho / The Trigger Trio, para a série The Three Mesquiteers com Ray Corrigan, Max Terhune e Ralph Byrd (substituindo Bob Livingstone, que sofrera um acidente enquanto nadava em um rio).

Após terminar a filmagem de Guarda-Costa Alerta, John English substituiu Alan James como o outro diretor no próximo seriado A Volta do Zorro  / Zorro Rides Again com John Carroll, Helen Christian, Reed Howes. John English era canadense e havia trabalhado na MGM como montador em alguns filmes de Irving Thalberg. Eles formaram um dupla muito eficiente proporcionando 17 seriados inesquecíveis. 1938 – O Guarda Vingador / The Lone Ranger¡ Demônios em Luta / Fighting Devil Dogs¡ A Volta de Dick Tracy / Dick Tracy Returns¡ O Falcão da Floresta / Hawk of the Wilderness. 1939 – A Volta do Cavaleiro Solitàrio / The Lone Ranger Rides Again¡ Os Demônios do Círculo Vermelho / Daredevils of the Red Circle¡ Novas Aventuras de Dick Tracy / Dick Tracy´s G-Men¡ A Legião do Zorro / Zorro´s Fighting Legion. 1940 – Os Tambores de Fu Manchu / Drums of Fu Manchu¡ Aventuras de Red Ryder/ Adventures of Red Ryder¡ O Rei da Polícia Montada  / King of The Royal Mounted¡O Misterioso Dr. Satan / Mysterious Dr. Satan. 1941 – O Homem de Aço / Adventures of Captain Marvel¡ A Filha das Selvas / Jungle Girl¡ Contra a Quinta Coluna / King of the Texas Rangers¡ Dick Tracy Contra o Crime/ Dick Tracy´s vs Crime. Destaco em negrito os melhores.

Cena de O Guarda Vingador

Em O Guarda Vingador, após a Guerra Civil, cinco Texas Rangers  – Allen King (Lee Powell), Bert Rogers (Herman Brix), Dick Forrest (Lane Chandler), Bob Stewart (Hal Taliaferro) e Jim Clark (George Lentz) – combatem um bando de fora-da-lei liderado pelo indivíduo chamado Jeffries (Stanley Andrews). Eles são auxiliados por um cavaleiro mascarado (montado no seu esperto cavalo Silver) e seu fiel companheiro, o índio Tonto (Chief Thundercloud). Aproveitando o personagem criado por Fran Strayer para um programa de rádio, o seriado distingue-se principalmente pelo elemento de mistério original, pois ficamos sem saber a identidade, não do vilão, mas sim do herói, até o último episódio. De resto, o espetáculo segue a fórmula costumeira dos seriados de western com muitas explosões, diligências  desgovernadas, quedas no abismo, brigas etc.

Em Demônios em Luta, Tom Grayson (Lee Powell) e Frank Corby (Herman Brix), tenentes do Corpo de Fuzileiros Navais, cumprem a missão de encontrar o criminoso conhecido apenas como ¨The Lightning¨, que usa um raio artificial para conseguir seus objetivos.  Os dois militares são apoiados por um grupo que inclui o coronel Grayson (Sam Flint), pai de Tom¡ Warfield (Hugh Sothern), rico fabricante de maquinária elétrica¡ Janet (Eleanor Stewart), sua assistente¡ e Crenshaw (Perry Ivins, famoso inventor. Aos poucos, torna-se óbvio que um destes é o vilão. O seriado tem diversos cenários  (selva asiática, ilha dos Mares do Sul, San Francisco), um vilão carismático (cuja indumentária lembra a do Darth Vader) e uma variedade de cenas de ação  (debaixo do mar, em lanchas, aviões, zeppelins, submarinos, cavernas etc.). Enfim, material suficiente para agradar o público.

 

Herman Brix em O Falcão da Floresta

Em O Falcão da Floresta, em uma ilha vulcânica, o Dr. Munro (Tom Chatterton), sua filha Beth (Jill Martin) e o namorado desta, Allen Kendall (George Eldridge), confrontam-se com um grupo de contrabandistas, liderados por Solerno (William Royle) e com índios hostís, tendo à frente o feticeiro Yellow Weasel (Monte Blue). Kioga (Herman Brix), um homem branco, filho de um cientista amigo de Munro, que fora salvo de um naufrágio ainda bebê e criado pelo índio Mokuyi (Noble Johnson), aparece para proteger os membros da expedição. Em um cenário suntuoso de montanhas e florestas virgens, Kioga anda pelas árvores, usando seu laço como cipó e pratica toda sorte de esforços para ajudar o Dr.Munro e seus amigos, demonstrando um fôlego inesgotável. Além da bela paisagem e de um ator em plena forma física, o seriado tem a seu crédito uma intriga com muita aventura, parecido com aquela dos livros de James Fenimore Cooper e Robert Louis Stevenson.

 

Em Demônios do Círculo Vermelho, o prisioneiro 39013 (Charles Middleton) escapa da penitenciária e começa a se vingar de Granville (Miles Mander), seu ex-patrão, praticando atos de sabotagem nas fábricas deste. Três amigos atletas de circo, Gene (Charles Quigley), Tiny (Herman Brix) e Burt (David Sharpe), que se apresentam como Os Demônios do Círculo Vermelho, ficam indignados quando um irmão deles morre em consequência de um atentado planejado pelo 39013 e resolvem levar o criminoso à Justiça. O espetáculo tem alguns componentes originais (três heróis em vez de um¡ o vilão que se disfarça com uma máscara reproduzindo o rosto de sua vítima) e boas cenas de ação, destacando-se aquela em que Gene percorre o túnel submarino de motocicleta, tentando escapar da inundação, e todas as lutas tendo como cenário as instalações fotogênicas das fábricas.

 

Cena de Os Tambores de Fu Manchu

Em Os Tambores de Fu Manchu, Fu Manch (Henry Brandon) lidera uma organização secreta cujo propósito é fomentar a guerra na Ásia Central. Ajudado por sua filha, Fah Lo Suee (Gloria Franklin), ele procura o cetro perdido de Gengis Khan, que lhe dará autenticidade como um novo conquistador do mundo. Sir Nayland Smith (William Royle), representante do British Foreign Office e o jovem Alan Parker (Robert Kellard), filho de um arqueólogo assassinado por Fu Manchu, impedem que as intenções maléficas deste se concretizem. Inspirado no personagem de Sax Rohmer, o seriado é um dos melhores da Republic, distinguindo-se pela ênfase dada aos elementos de mistério e pelos imaginativos momentos de perigo arquitetados pelo diabólico oriental (v. g. Allan caindo em uma armadilha onde um polvo o esperava com seus ansiosos tentáculos, o lagarto envennenado na cama de Sir Nayland etc.). Em suma, algo mais do que a fórmula habitual de socos e explosões.

Tommy Cook e Donald Barry em As Aventuras de Red Ryder

Em Aventuras de Red Ryder, quando Calvin Drake (Harry Worth), o banqueiro de Mesquita, fica sabendo que uma ferrovia vai ser construída naquela região, ele e seus capangas Ace Hanlon (Noah Beery) e One-Eye Chapin (Bob Kortman) intimidam os rancheiros para ficar com suas terras. Red Ryder (Donald Barry) e seu pai, o Coronel Tom Ryder (William Farnum), enfrentam os pistoleiros.. Com a ajuda do indiozinho Little Beaver / Filhote de Castor (Tommy Cook) e Cherokee (Hal Taliaferro), Red põe fim às atividades dos bandidos. O herói, criado nos quadrinhos por Fred Harman em 1934, chamava-se inicialmente Bronc Peeler (Bronco Piler no Brasil)¡ a partir de 1938 o nome do vaqueiro mudou para Red Ryder. Dos seriados no gênero western é um dos mais movimentados, destacando-se, além do mocinho esquentado e bom de briga, o indiozinho Navajo, sempre atento e prestativo, com o qual todo garoto se identifica.

Allan Lane em O Rei da Polícia Montada

Em O Rei da Polícia Montada, o Sargento King da Polícia Montada do Canadá (Allan Lane) impede que espiões comandados por Juan Kettler (Robertr Strange) e seu capanga Wade Garson (Harry Cording) usem uma substância denominada Complexo X para fins destrutivos. Inspirado no personagem das histórias em quadrinhos, criado por Zane Grey, o seriado é um excelente northwestern com elementos modernos. A cavalo, em automóvel, lancha, trem e avião, o sargento King continua a luta contra os agentes inimigos, escapando de desastres em todos estes veículos, sem mencionar os momentos em que se safa de um incêndio ou de ser retalhado por uma serra elétrica etc. A melhor cena de ação, no entanto, acontece quando King dá um salto espetacular de uma ponte para cima de um bandido que está fugindo, e os dois, ainda brigando, são arrastados pelas águas de uma represa em direção a uma cachoeira.

Cena de O Misterioso Dr. Satã

 

Em O Misterioso Dr. Satan, o Dr. Satã (Eduardo Ciannelli), misterioso mestre do crime, inventou um robô, mas necessita do controle remoto desenvolvido por um eminente cientista, Dr. Scott (C. Montague Shaw). Suas tentativas para obtê-lo são frustradas pela aparicão do Copperhead (um homem com uma máscara sugerindo a cabeça de uma cobra venenosa) que, na realidade, é Bob Wayne (Robert Wilcox), um rapaz que deseja proteger a sociedade das maquinações do Dr. Satã. O seriado está entre os melhores da Republic e, além de um vilão diferente (porque elegante), apresenta cenas espetaculares com os dublês, salientado-se aquele salto que o  Copperhead dá de uma varanda do segundo andar de uma casa, indo cair sobre o bandido lá embaixo – um pulo realmente sensacional.

Tom Tyler em O Homem de Aço

Em O Homem de Aço, Billy Batson (Frank Coghlan Jr.), assistente do operador de rádio de uma expedição científica no Sião, é o único do grupo que não penetra na câmara proibida de uma tumba sagrada e, por isso, recebe do velho guardião do templo, Shazam, o poder mágico de se transformar no indestrutível Capitão Marvel (Tom Tyler). Assim, ele vai enfrentar o Escorpião  (na realidade um dos membros da expedição), para impedir que este se apodere de uma arma perigosíssima  encontrada na tumba. Trazer um herói  sobre-humano dos quadrinhos para as telas , de um modo que a platéia o aceitasse, não era uma tarefa fácil, mas a Republic desempenhou-a com louvor. O que mais chama a atenção no seriado  são as cenas de vôo do Capitão Marvel, que parecem absolutamente reais graças aos efeitos especiais de Howard Lydecker e das acrobacias do excelente dublê David Sharpe.

 

Frances Gifford em A Filha das Selvas

A Filha das Selvas, baseado em um romance de Edgar Rice Burroughs, tem como heroína uma jovem criada nas selvas da África chamada Nyoka (Frances Gifford). Auxiliada por dois aviadores, Jack Stanton (Tom Neal) e Curly Rogers (Eddie Acuff), Nyoka enfrenta os vilões que mataram seu pai e estão à procura de diamantes. A grande atração do espetáculo, além das lindíssimas pernas da srta. Gifford são as acrobacias de Nyoka nos cipós, muito mais sensacionais do que aquelas executadas por Johnny Weissmuller nos filmes de Tarzan. A melhor delas ocorre quando Nyoka vê o menino atacado pelo crocodilo, dá um salto mortal ao passar de um cipó para outro e depois, com a faca entre os lábios, mergulha no rio, para lutar contra a fera.

Em Contra a Quinta Coluna, a ação transcorre nos tempos modernos, envolvendo sabotadores que operam no Texas, usando como base um gigantesco Zeppelin. Para o papel do Texas Ranger Tom King, a Republic contratou o craque do futebol American Sammy Baugh, e ele se comportou como um verdadeiro astro de seriado. A cena mais emocionante ocorre quando os sabotadores dinamitam uma montanha para soterrar um trem. O mocinho aguarda no alto de uma colina e cai sobre o teto do trem quando este passa velozmente. A locomotiva entra em um túnel cavado na montanha. King penetra na cabine de comando e a explosão ocorre. No episódio seguinte, ele grita para o maquinista “Acelere!”, e a locomotiva dispara que nem um torpedo para fora da montanha, livrando-se do desmoronamento.

Witney dirigiu mais 4 seriados sozinho (O Terror dos Espiões / Spy Smasher, Os Perigos de Nyoka / Perils of Nyoka, Polícia  Montada Contra a Sabotagem / King of the Mounties, O Dragão Negro  / G-Man vs The Black Dragon) e um co-dirigido com Fred Brannon.  O Espirito Escarlate / The Crimson Ghost.

Cena de O Terror dos Espiões

Em O Terror dos Espiões, com a ajuda de seu irmão gêmeo Jack, o Spy Smasher, na realidade Allan Armstrong (Kane Richmond em papel duplo), combate o Máscara, líder de uma rede de espionagem alemã na América. Eles protegem o almirante Corby (Sam Flint), pai da noiva de Jack, Eve (Marguerite Chapman), e contam com a colaboração de Pierre Durand (Frank Corsaro), um combatente da França Livre. Baseada nas histórias em quadrinhos criadas em 1941 por Bill Parker, o seriado é excelente, não só pelos efeitos especiais e pela acão dos dublês, mas tambvém porque tem uma trama bem construída, boas caracterizações e uma fotografia até, em certos momentos, artística. A seqûencia  mais espetacular é aquela em que Spy Smasher e Jack perseguem o carro dos bandidos em uma motocicleta. Eles cortam caminho subindo uma colina, mas a motocicleta derrapa. O Spy Smasher então corre para o alto da colina e salta sobre o carro dos bandidos, que passa lá embaixo em alta velocidade.

Lorna Gray e Kay Aldridge em Os Perigos de Nyoka

Como foi a Republic que criou o nome de Nyoka no seriado A Filha das Selvas, o estúdio ficou com o direito de filmar uma continuação usando aquele nome, sem se basear em um romance de Edgar Rice Burroughs. O novo seriado tinha uma nova atriz (Kay Aldridge), um novo mocinho, Dr. Larry Grayson (Clayton Moore), em momentos eletrizantes (v. g. Nyoka escapando de uma carroça em chamas que despenca em um desfiladeiro, de ser retalhada por uma lâmina em movimento pendular, de cair em um poço de lava derretida, de ser esmagada por pregos em forma de estalactite etc.)¡ porém  a heroína não dava mais os maravilhosos saltos mortais no cipó como fazia sua predecessora. O vilão desta vez é uma mulher, Vultura (Lorna Gray), com quem Nyoka trava uma luta corpo a corpo no final.

A ação de O Dragão Negro trancorre durante a Segunda Guerra Mundial. A agente britânica Vivian Mash (Constance Worth), une-se ao investigador especial americano Rex Bennett (Rod Cameron) e a Chang (Roland Got) do Serviço Secreto Chinês, para destruir a Sociedade do Dragão Negro, liderada pelo satânico Haruchi (Nino Pipitone). Quando Haruchi e seus capangas provocam vários afundamentos , colocando um ingrediente incendiário na pintura dos navios, os agentes percebem o poder  e a engenhosidade de seu oponente. O seriado é bem animado e tem boas cenas de briga. No último episódio, ocorre um dos momentos mais excitantes quando, perseguido por Rex, Haruchi foge em uma lancha carregada de explosivos. Rex pula para a lancha de Haruchi, luta com ele e o deixa desacordado, pouco antes do submarino japonês submergir. Rex salta, a lancha bate no submarino, e ambos explodem.

Witney e Roy Rogers

Além de O Trio do Gatilho, Witney dirigiu outro exemplar da série The Three Mesquiteers, Heróis do Sertão / Heroes of the Saddle / 1940¡ um western com Don Barry, O Seis de Paus / Outlaws of Pine Ridge, 27 westerns de Roy Rogers (1946 – Luar do Sertão Texano / Roll On Texas Moon¡ Nas Terras de Oklahoma / Home in Oklahoma¡ Delegado de Saias / Heldorado. 1947 – A Barca do Jogo / Apache Rose¡ Sinos de San Angelo / Bells of San Angelo¡ Primavera nas Ser / Springtime in the Sierras¡ Na Velha Senda / The Old Spanish Trail. 1948  – Aconteceu no Sertão / The Gay Ranchero¡ Balas Traidoras / Under California Stars¡ Amigo Fiel / Eyes of Texas¡  Sob o Luar de Nevada / Night Time in Nevada¡ A Sineta de Prata / Grand Canyon Trail¡ Carga Humana / The Far Frontier. 1949 – O Mistério do Lago / Susanna Pass¡ Trilha do Perigo / Down Dakota Way¡ Cavalgada do Ouro / The Golden Stallion. 1950 – Médico da Roça / Bells of Coronado¡ Crepúsculo na Serra / Twilight in the Sierras¡ Vida de Circo / Trigger Jr.; Comoção na Fronteira / Sunset in  the West¡   Barragem Maldita / North of the Great Divide¡ Cowboys em Desfile / Trail of Robin Hood. 1951 – Foguete Misterioso / Spoilers of the Plains¡ Acusação Injusta / Heart of the Rockies¡ O Paladino da Lei / In Old  Amarillo¡ Ao Sul de Caliente / South of Caliente¡ Reduto de Assassinos / Pals of the Golden West), 9 westerns de Rex Allen (1952 – Cavaleiro do Colorado / Colorado Sundown¡ O Último Mosqueteiro / The Last Musketeer¡ Raposas  da Fronteira / Border Saddlemates¡ O Caminho do Terror / Iron Mountain Trail¡ Golpe Traiçoeiro / Old Oklahoma Plains¡ Emboscada Sangrenta / South  Pacific Trail. 1953 –  Flecha Ligeira / Old Overland Trail¡ O Salto da Morte / Down Laredo Way¡ O Vale do Medo / Shadows of Tombstone), 28 filmes de diversos gêneros para vários estúdios (1952 – Garota Infernal / The WAC From Walla Walla. 1954 – Tropel de Vingadores /  of Shadows¡ Assassinos Desalmados / Headline Hunters¡ Ambição Desenfreada / The Fighting Chance.1955 – Massacre Traiçoeiro / Santa Fe Passage;  Homens Perversos / City of Shadows. 1956 – A Lei do Revólver / Stranger at My Door¡ Quadrilha Sanguinária / A Strange Adventure. 1957 – Destinos Cruzados / Panama Sal. 1958 – The Cool and the Crazy¡ Entre o Crime e a Lei / Juvenile Jungle¡ Jovens e Selvagens / Young and Wild¡ Gângsteres em Fúria / The Bonnie Parker Story¡ Paratroop Command. 1960 – O Vale da Traição / Valley of the Redwoods¡O Segredo dosArrecifes / The Secret of the Purple Reef. 1961 – O Laço Ameaçador / The Long Rope¡ Robur, o Conquistador do Mundo / Master of the World¡ The Cat Burglar. 1964 – Rifles Apaches / Apache Rifles (com Audie Murphy) 1965 – Brotinhos de Biquini / The Girls On the Beach¡ Bandoleiros do Arizona / Arizona Raiders (com Audie Murphy). 1967 – Os Rifles da Desforra / 40 Guns To Apache Pass (com Audie Murphy). 1970 –O Rebelde da Selva / Tarzan´s Jungle Rebellion (piloto da série de TV ¨Tarzan” , exibido nos cinemas)¡A Pedra Azul / The Blue Stone of Heaven. 1973 –Fuga da Ilha do Diabo / I Escaped From Devil’s´sIsland. 1975 – Darktown Strutters. 1982 – Showdown at Eagle Gap).

Entre 1954 e 1974 o incansável Witney dirigiu dezenas de episódios de várias séries de televisão.

THELMA TODD-ZASU PITTS-PATSY DRAKE

Hal Roach, o produtor que formou a dupla Stan Laurel e Oliver Hardy, mais conhecidos no Brasil como O Gordo e o Magro, imaginou Thelma Todd e Zasu Pitts como o equivalente feminino de seus dois grandes comediantes. Entre 1931 e 1933, elas fizeram 16 comédias curtas. Quando ZaSu se desligou da parceria com Thelma, foi substituída por Patsy Kelly em mais 21 shorts produzidos entre 1934 e 1935.

Thelma Todd

Thelma Alice Todd (1905-1935) nasceu em Lawrence, Massachusetts, filha de um imigrante irlandês, John Shaw Todd e de uma imigrante do Canadá, Alice Elizabeth Edwards. Ex-professora e modelo em regime de tempo parcial, ela foi levada para a Paramount por um descobridor de talentos, quando ganhou o título de Miss Massachusets em 1925. O primeiro filme no qual apareceu foi Desafio à Mocidade / Fascinating Youth / 1926 e seu primeiro filme parcialmente falado, produzido pela First National, intitulou-se Nos Domínios de Satã / Seven Footprints to Satan / 1929.

Thelma Todd e Charley Chase em pose para a publicidade

Grouch Marx e Thelma Todd

Thelma e John Barrymore em O Conselheiro

Thelma Todd em O Falcão Maltês

Sua popularidade cresceu no início dos anos trinta, quando atuou em várias comédias curtas ao lado de Harry Langdon, Charley Chase, Laurel e Hardy; como leading lady em um longa metragem com estes últimos (Fra Diavolo / The Devil´s Brother) e em dois outros com os Irmãos Marx (Os Quatro Batutas /  Monkey Business / 1931 e Os Gênios da Pelota / Horse Feathers / 1932); contracenando com astros do porte de Clara Bow (Sangue Vermelho / Call Her Savage / 1932 e John Barrymore em O Conselheiro / Counsellor at Law / 1933); interpretando o papel da traiçoeira esposa de Miles Archer, o parceiro de Sam Spade (Ricardo Cortez) em O Falcão Maltês / The Maltese Falcon, primeira versão do romance de Dashiel Hammett; e nas comédias curtas com Zasu Pitts e depois Patsy Kelly, além de trabalhar em filmes de outros comediantes como Buster Keaton, Joe E. Brown e da dupla Wheeler e Wolsey. No seu filme derradeiro, A Princesa Boêmia / The Bohemian Girl, Thelma ocupava nos créditos o papel principal feminino ao lado do Gordo e do Magro. Thelma trabalhou sob o nome artístico de Alison Loyd em um filme do diretor Roland West, O Corsário / The Corsair / 1931.

Em agosto de 1934 ela abriu o Thelma Todd´s Sidewalk Café, que atraiu uma clientela diversificada de celebridades e também muitos turistas. Em 14 de dezembro de 1935, após participar de uma festa, Thelma foi encontrada morta caída sobre o volante de seu carro. Ela faleceu envenenada por monóxido de carbono; não ficou satisfatoriamente determinado se ela cometeu suicídio, foi assassinada por gângsteres que haviam tentado extrair dinheiro dela, ou se morreu acidentalmente. A infortunada atriz tinha apenas 29 anos de idade. Em vida recebeu um apelido carinhoso dos fãs: “The Ice Cream Blonde”.

ZaSu Pitts e Thelma Todd

Zasu Pitts (1894-1963), cujo verdadeiro nome era Eliza Susan Pitts, nasceu em Parsons, Kansas, filha de Rulandus Pitts e Nelly Shay. Os nomes das irmãs de seu pai, Eliza and Susan, serviram de base para seu apelido de ZaSu. Ela depois adotou o apelido profissional e legalmente. Em 1903, quando ZaSu tinha nove anos de idade, sua família mudou-se para Santa Cruz, Califórnia, onde ela estudou na Santa Cruz High School. Depois de ter feito sua estréia no palco em representações escolares e no teatro comunitário da cidade, ZaSu foi para Los Angeles. Depois de trabalhar em alguns filmes como figurante ou como parceira de Billy Franey em comédias de um rolo da Universal, obteve, por intermédio da roteirista Frances Marion, uma participação no fime A Princesinha / A Little Princess / 1917, estrelado por Mary Pickford.

ZaSu com Mary Pickford em A Princesinha

Zasu em Ouro e Maldição

ZaSu, Gus Meins e Thelma Todd

ZaSu obteve seu primeiro papel principal em A Estalagem do Tio Libório / Better Times / 1919 (Dir: King Vidor). No ano seguinte casou-se com Tom Gallery, com o qual formou dupla em alguns filmes. Em 1924, depois de firmar uma reputação como boa comediante ela obteve o maior papel dramático de sua carreira em Ouro e Maldição / Greed / 1924 de Erich von Stroheim e continuou servindo ao grande cineasta (v. g. Lua de Mel / The Honeymoon / 1928, A Marcha Nupcial / The Wedding March / 1928). Ainda nos anos 30 esteve no elenco de bons filmes (v. g. Monte Carlo / Monte Carlo / 1930 e Não Matarás / Broken Lullaby / 1932 de Ernst Lubitsch e Vamos à América  Ruggles of Red Gap / 1935), sucedeu Edna May Oliver como a solteirona detetive da série Hildergard Withers; atuou em filmes com Slim Summerville) e principalmente nos exemplares da série que compartilhou com Thelma Todd. Nos anos 40 / 50 seus filmes mais importantes foram Nossa Vida com Papai / Life With Father / 1947 (Dir: Michael Curtiz) ao lado de William Powell, Irene Dunne, Elizabeth Taylor e … E O Mulo Falou / Francis com Donald O´Connor e Patricia Medina, primeiro filme de uma série de sucesso popular. Na década de quarenta trabalhou também no rádio e no teatro e no decênio seguinte na televisão, destacando-se no Gale Storm Show da CBS no papel de Elvira Nugent.

Patsy Kelly  e Thelma Todd

Patsy Kelly (1910-1981), cujo verdadeiro nome era Bridget Sara Veronica Kelly, nasceu no Brooklyn, Nova York, filha dos imigrantes irlandeses John e Delia Kelly. Ela começou sua carreira no vaudeville como dançarina aos doze anos de idade e desfrutou de muita popularidade na Broadway no início dos anos 30, notadamente nas revistas musicais Earl Carroll Vanities, Earl Carroll Sketch Books e Wonder Bar. Patsy estreou no cinema em uma comédia curta da série Vitaphone Varieties de 1931 e no mesmo ano Hal Roach contratou-a para substituir ZaSu Pitts como co-estrela de Thelma Todd para o período 1934-1935. Após a morte de Thelma, Patsy fomou dupla com Pert Kelton em uma comédia da série e depois em mais duas com Lyda Roberti. Quando a popularidade dos shorts começou a diminuir, Patsy passou para os longas-metragens, distinguindo -se com a cozinheira Etta em Sua Excelência, o Chofer / Merrily We Live / 1938 (Dir: Norman Z. McLeod), indicado para o Oscar em cinco categorias. Nos anos 50 aderiu à televisão e nos anos 60 participou de dois filmes classe A famosos, O Beijo Amargo / The Naked Kiss / 1964 de Samuel Fuller e O Bebê de Rosemary / Rosemary´s Baby / 1968 de Roman Polanski. Em 1971, ela retornou à Broadway em um relançamento de No, No Nanette, co-estrelando com sua amiga de infância Ruby Keeler. Patsy fez um tremendo sucesso como a criada piadista e sapateadora e ganhou o Tony Award de Melhor Atriz em um musical.

Thelma Todd e Patsy Kelly

Patsy e Thelma

Como observou Leonard Maltin (The Great Movie Shorts, Crown Publishers, 1972), Thelma e ZaSu forneceram o contraste certo para uma boa comédia, com a garota esperta Thelma geralmente tendo que livrar as duas de situações causadas pela ignorância inocente de ZaSu. Segundo Anke Sterneborg no Catálogo de uma Retrospectiva sobre Hal Roach publicado pela Stiftung Deutsche Kinemathek de Berlim em 1992, a substituição de ZaSu por Patsy Kelly implicou uma mudança radical no relacionamento entre as duas estrelas. ZaSu havia sido a vítima dos planos ambiciosos de Thelma; agora a própria Thelma é a vítima da turbulência e energia incontrolável de sua nova amiga. Seja qual for o esquema humorístico utilizado, o fato é que as três formidáveis comediantes conquistaram o público, particularmente em nosso pais.

ZaSu Pitts e Thelma Todd

FILMOGRAFIA THELMA TODD – ZASU PITTS

1931 – Let´s Do Things (Dir: Hal Roach); Amor a Muque / Catch As Catch Can (Dir: Marshall Neilan); Festa de Arromba / The Pajama Party (Dir: Hal Roach;) Companheiras de Guerra / War Mamas (Dir: Marshall Neilan); Farra de Praxe / On the Loose (Hal Roach). 1932 Bicho Precioso / Seal Skins (Gil Prat, Morey Lightfoot); Gripadas / Red Noses (Dir: Hal Roach); Criadinha de Confiança / Strictly Unreliable (Dir: George Marshall); Leão de Verdade / The Old Bull (Dir: George Marshall); Gente de Palco / Show Business (Dir: Jules White); Oh, Seu Doutor! / Alum and Eve (Dir: George Marshall); Ora Pílulas / Sneak Easily (Dir: Gus Meins). 1933 – Salão da Fuzarca / Asleep in the Fleet (Dir: Gus Meins); Vestidas à Francesa / Maids a la Mode (Dir: Gus Meins); A Grande Pechincha / The Bargain of the Century (Dir: Charley Chase); A Caminho de Hollywood / One Tracks Minds (Dir: Gus Meins).

Patsy e Thelma

FILMOGRAFIA THELMA TODD – PATSY KELLY

1933 – Beauty and the Bus (Dir: Gus Meins); Natureza Torta / Back to Nature (Dir: Gus Meins); Asas do Dia / Air Fright (Dir: Gus Meins). 1934 – Verifiquem Nossos Preços / Babes in the Goods (Dir: Gus Meins); Distintas Senhoritas / Soup and Fish (Dir: Gus Meins); A Caminho de Hollywood / Maid in Hollywood (Dir: Gus Meins;) Tua Perna Não Nega/ I´ll Be Suing You (Dir: Gus Meins); Bom Partido / Three Chumps Ahead (Dir: Gus Meins); Casinha Pequenina / One Horse Farmers (Dir: Gus Meins); Aberta por Engano / Opened by Mistake (Dir: James Parrott;) Pintado a Óleo / Done in Oil (Dir: Gus Meins); Viagem Acidentada / Bum Voyage (Dir: Nick Grinde). 1935 – Tesouro de Ilusão / Treasure Blues (Dir: James Parrott); Cante e Acalme-se / Sing, Sister, Sing (Dir: James Parrott); The Tin Man (Dir: James Parrott); Duas Desastradas / The Misses Stooge (Dir: James Parrott;) Slightly Static (Dir: William Terhune); Gêmeos por Encomenda / Twin Triplets (Dir: William Terhune); Hot Money (Dir: James W. Horne;) Top Flat (Dir: William Terhune); All -American Toothache (Dir: Gus Meins).

Pert Kelton e ZaSu

PATSY KELLY – PERT KELTON

1936 – Pan Handlers (Dir: William Terhune)

Lyda Roberti e Patsy Kelly

PATSY KELLY – LYDA ROBERTI

1936 – At Sea Ashore (Dir: William Terhune); Hill Tillies (Dir: Gus Meins); Hill Tillies (Dir:Gus Meins).

 

JEAN NEGULESCO

Ioan Negulescu (1900-1993) nasceu em Craiova, Rumênia, um dos oito filhos (teve seis irmãs e um irmão) do dono de um hotel e estudou no Colégio Nacional Carol I nesta mesma cidade. Aos quatorze anos de idade, como escoteiro, estava prestando serviços em um hospital militar durante a Primeira Guerra Mundial. Quando Georges Enesco veio tocar violino para os feridos, Negulesco desenhou um retrato dele, que o compositor famoso comprou. Ioan então decidiu ser pintor e estudar arte em Bucarest. Em 1920, ele foi para Paris, onde se matriculou na Academie Juliane e, para ajudar nas despesas, trabalhou como dançarino profissional no Hotel Negresco.

 

Jean Negulesco

Na sua autobiografia ”Things I Did and Things I Think I Did – A Holllywood Memoir”(Linden Press/Simon & Schuster, 1984) Negulesco conta que sua vida foi salva duas vezes pelo cinema. A primeira vez foi quando escapou de morrer em um desastre de automóvel porque, quando foi buscar sua mala para partir com seus amigos no Mercedes fatídico, passou diante de um cinema, onde estava sendo exibido Sangue por Glória / What Price Glory / 1926 com Dolores Del Rio e ele preferiu não viajar e ver o filme. A segunda vez foi quando mandou para o Salon d´Automne um nú artístico de sua autoria, que foi adquirido pelo famoso diretor da MGM Rex Ingram por três mil francos, quantia que garantiu sua subsistência por algum tempo.

Em 1927, Negulesco visitou Nova York para uma exposição de suas pinturas e depois se mudou para a Califórnia, onde ganhou a vida como retratista e começou a se interessar pelo cinema, realizando por contra própria um filme experimental, Three and a Day, ou seja, um dia na vida de três pessoas: um pintor (Mischa Auer), uma bailarina (Katya Sergaya) e um fazendeiro (John Rox).  Negulesco conseguiu convencer o talentoso cameramaniugoslavo Paul Ivano a fotografar sua “obra-prima” mas, sem aceitar seus conselhos técnicos, dirigiu o filme como bem queria e depois não conseguiu montá-lo, perdendo todas as suas economias, que haviam sido investidas na produção.

Entretanto, através de Mischa Auer, Negulesco conheceu Frank Tuttle em uma festa e este o convidou para desenhar sketches para a abertura de Esposa Improvisada / This is the Night / 1932 (produção da Paramount inicialmente intitulada Tonight We Sing). O fotógrafo Victor Milner gostou dos desenhos de Negulesco e lhe pediu sugestões para a colocação da câmera durante a filmagem. Contratado pela Paramount, o produtor Benjamin Glazer deu-lhe a incumbência de desenhar uma cena de estupro em Levada à Força / The Story of Temple Drake / 1933, que pudesse passar pela censura. Ele cumpriu muito bem sua tarefa e ainda supervisionou a filmagem desta sequência inesquecível, que perdurou na memória dos fãs de Miriam Hopkins, a Temple Drake nesta adaptação de “Sanctuary” de William Faulkner, bem dirigida por Stephen Roberts. Na Paramount, Negulesco atuou também como diretor de segunda unidade em Ondas Sonoras / The Big Broadcast / 1932; Beijos para Todos / Bed Time Story / 1933 e Adeus às Armas / Farewell to Arms / 1934 e co-dirigiu com Harlan Thompson Templo da Beleza / Kiss and Make Up / 1934.

Em 1936 Negulesco perdeu o emprego na Paramount. Seu protetor no estúdio, o executivo encarregado da produção, Sam Jaffe, também. Jaffe abriu uma agência e Negulesco lhe apresentou um argumento intitulado Rio, que ele conseguiu vender para Joe Pasternak (produtor da maioria dos filmes de Deanna Durbin na Universal) por dez mil dólares e ainda conseguiu que seu cliente fosse contratado para colaborar com o roteirista do filme que dele resultaria. Mas Negulesco, com os nove mil que lhe coube na transação (pois dez por cento dos dez mil ficou com o agente) preferiu conhecer o México, onde passou três meses no país, cujos aspectos pitorescos ele captou em 600 desenhos.

 

Em 1940 Negulesco ingressou na Warner Bros. como diretor de curtas-metragens para várias séries (Melody Masters; Technicolor Specials; Broadway Brevities e Featurettes), destacando-se os shorts sobre bandas, balés ou orquestras. Em 1941, ele fez seu primeiro longa-metragem Mulher Fatídica / Singapore Woman (com Brenda Marshall, David Bruce, Virginia Field), mas somente a partir de 1944, depois de reconhecida sua capacidade técnico-artística nos curtas, é que ele pôde demonstrar seu talento em sete longas-metragens (1944 – A Máscara de Dimitrios / Mask of Dimitrios; Os Conspiradores / The Conspirators. 1946 – Regeneração / Nobody Lives Forever; Três Desconhecidos / Three Strangers; Acordes do Coração / Humoresque. 1947 – O Vale do Destino / Deep Valley. 1948 – Belinda / Johnny Belinda) que, sem dúvida, constituíram a parte mais artisticamente eminente de sua filmografia.

Peter Lorre e Sidney Greenstreet em A Máscara de Dimitrios

Faye Emerson e Zachary Scott em A Máscara de Dimitrios

Baseado em um romance de Eric Ambler, A Máscara de Dimtrios é um drama criminal absorvente com um bom nível de suspense e originalidade. No enredo, o escritor de livros de mistério Cornelius Leyden (Peter Lorre) está viajando por Istanbul quando conhece o Coronel Haki (Kurt Katch), chefe da polícia secreta, que é um grande fã de seu trabalho. Através dele, Leyden fica sabendo que o corpo de um criminoso notório, Dimitrios Makroupolos (Zachary Scott), foi encontrado morto na praia. Parece que Makropoulos estava envolvido em toda espécie de atos ilegais imagináveis de homicídio, contrabando, chantagem a assassinato político. Fascinado, Leyden decide que Makroupolos seria um bom argumento para seu próximo livro e começa a pesquisar sobre sua vida, a partir do dossier de Haki sobre o criminoso. A investigação de Leyden o leva para muitos lugares da Europa, onde se encontra com várias pessoas que conheceram Makroupolos: Irana Prevaya  (Faye Emerson), a mulher que ele amou; Grodek (Victor Francen), que ele enganou; Bulic (Steve Geray), que ele desonrou e Mr. Peters (Sidney Greenstreet), que foi sua vítima e não está convencido da morte do criminoso. Este retrato de um personagem misterioso tal como foi visto por diversas pessoas o faz aparecer sucessivamente sob aspectos bem diferentes e mantém um interesse constante pelo relato, conduzido com vigor pelo cineasta. que contou com um excelente roteiro de Frank Gruber, uma câmara inspirada de Arthur Edeson e um elenco admirável.

Hedy Lamarr e Paul Henreid em Os Conspiradores

Os Conspiradores é um melodrama romântico em tempo de guerra mais ou menos na mesma linha de Casablancade Michael Curtiz. Após ter cometido um ato de sabotagem contra os nazistas, o holandês Vincent Van Der Lyn (Paul Henreid), foge para Lisboa, onde se encontra com Ricardo Quintanilla (Sidney Greenstreet) e seu grupo de conspiradores, que inclui Jan Bernaszak (Peter Lorre), Irene (Hedy Lamarr) e seu marido, Hugo Van Mohr (Victor Francen). Um dos conspiradores é assassinado por um traidor do grupo e Vincent é acusado do crime. Ele escapa da polícia portuguesa e, depois de vários acontecimentos, desmascara e mata o assassino, que não é outro senão o traidor Van Mohr, um nazista que se infiltrara entre os conspiradores. Negulesco teve dificuldades na filmagem depois que seu produtor Hal Wallis foi substituído, porém com o apoio de um conjunto de atores muito competentes (além dos citados, Steve Geray, Joseph Calleia e Eduardo Cianelli) e de uma fotografia (Arthur Edeson), cenografia (Anton Grot) e música (Max Steiner) apropriadas para criar uma atmosfera de intriga, ele conseguiu realizar um filme com uma ação movimentada. Curiosamente a nossa Aurora Miranda canta um fado em uma cantina de Lisboa.

John Garfield e Geraldine Fitzgerald em Regeneração

Walter Brennan e John Garfield em Regeneração

Regeneração é um drama criminal com um personagem bem conhecido nos filmes do imediato pós-guerra do veterano que retorna da Segunda Guerra Mundial e tenta retomar sua vida. Antes da guerra Nick Blake (John Garfield) era um escroque, criado nos quarteirões pobres de Nova York, que havia deixado uma certa quantia de dinheiro com sua amante Toni (Faye Emerson); mas esta encontrou um novo parceiro (Robert Shayne), dono de uma boate onde trabalha como cantora. Nick recupera à força seus dólares e, na companhia de seu amigo Al Doyle (George Tobias), vai para Los Angeles, onde eles encontram um velho mentor de Nick, Pop Gruber (Walter Brennan) e um grupo de golpistas chefiado por Doc Ganson  (George Colouris). Ganson propõe a Nick dar um golpe em uma viúva rica, Gladys Halvorsen (Geraldine Fitzgerald); porém Nick se apaixona por ela. Nick quer sair do acordo, mas Toni convence Ganson de que Nick está tentando trair o bando, resultando consequências trágicas. Com a ajuda de um bom roteiro (W. R. Burnett), de uma boa fotografia (Arthur Edeson) e de um elenco escolhido a dedo, Negulesco mantêm o interesse contínuo do espectador, embora a direção seja discreta, sem grandes efeitos cinematográficos.

Peter Lorre, Geraldine Fitzgerald e Sidney Greenstreet em Três Desconhecidos

Peter Lorre e Sidney Greenstreet em Três Desconhecidos

Três Desconhecidos é um drama criminal com elementos místicos tendo como tema a ambição de riqueza, ligando três destinos em contraste: o de Crystal Shakelford (Geraldine Fitzgerald) e o de dois homens – Jerome K. Arbutny (Sidney Greenstreet), advogado inescrupuloso e Johnny West (Peter Lorre), pianista alcoólatra – que ela atraiu para seu apartamento, a fim de fazer um pedido diante da estátua de uma deusa chinesa conhecida como Kwan Yin. Acredita-se que Kwan Yin fará realizar um desejo se ele for feito por três desconhecidos à meia-noite. Eles concordam em comprar mutuamente um bilhete de loteria e dividir o valor do bilhete premiado. Porém as coisas não ocorrem como planejado. Recebendo um excelente roteiro de John Huston e Howard Koch, contando mais uma vez com a fotografia primorosa  em preto e branco de Arthur Edeson e principalmente com três intérpretes perfeitos nos seus respectivos papéis, Negulesco, coordenou muito bem a passagem de um episódio para outro, realizando um filme inquietante com um final maravilhosamente irônico.

Joan Crawford e John Garfield em Acordes do Coração

Negulesco, John Garfield e Joan Crawford na filmagem de Humoresque

Acordes do Coração, é um melodrama baseado em um conto de Fannie Hurst e adaptado por Clifford Odets e Zachary Gold, no qual o amor deve ceder lugar a uma paixão mais forte. Paul Boray (John Garfield) é um violinista de grande talento mas desconhecido. Ele encontra Helen Wright (Joan Crawford) – mulher rica, neurótica e com pendor para o alcoolismo, vivendo um casamento sem amor com Victor Wright (Paul Cavanaugh) – e ela se torna sua patrocinadora e amante. Entretanto, seu relacionamento é abalado pela índole possessiva de Helen, pois Paul não quer ser dominado por ela, reafirmando sistematicamente uma dedicação inabalável à sua arte. Quando Helen compreende que está prejudicando sua carreira, ela decide por fim ao romance de um modo trágico: jogando-se no mar enquanto Paul está  executando em um concerto a Liebestod, ária final da ópera “ Tristão e Isolda” de Richard Wagner. A música clássica tem lugar de relevo na narrativa, ouvindo-se trechos de Dvorak, Rimsky-Korsakov, Wagner, Tchaikovsky, Brahms, Bach, Bizet, Sarazate, Mendelsohn, César Franck, Prokofiev, Shostakovski, Grieg etc. Negulesco teve um cuidado especial com o modo de encadear as sequências, usando a fusão (v. g. uma cortina de enrolar que se fecha transmuda-se em teclas de um piano, as cordas de um violino se transformam em trilhos, à batida de um copo na mesa faz irromper a orquestra, o sifão converte-se nas espumas das ondas). A sucessão das imagens descrevendo o desespero da heroína caminhando para a morte na praia enquanto ocorre o triunfo do músico no concerto é excelente. Franz Waxman foi indicado para o Oscar de Melhor Música (para filme não musical) e quem faz a platéia vibrar como os solos de violino é Isaac Stern. Joan Crawford com sua interpretação interiorizada tem aqui um de seus melhores papéis no cinema. As réplicas mordazes sobre arte e talento, a maior parte delas improvisadas por Oscar Levant (como Sid Jeffers, o melhor amigo de Paul), aliviam o clima  pesado do filme.

O fotógrafo Ted McCord dá instruções para Ida Lupino e Dane Clark emO Vale do Destino

Dane Clark e Ida Lupino em O Vale do Destino

O Vale do Destino é um melodrama romântico passado em uma área rural da Califórnia, onde Libby Saul (Ida Lupino), jovem tímida e gaga, vive com seus pais rudes (Henry Hull, Fay Bainter) em uma fazenda isolada. Afastada de todo convívio social, a moça tem como companhia apenas o seu cachorrinho até que avista Bary Burnette (Dane Clark), presidiário fugitivo que trabalha na construção de estradas. Ela o esconde de seus perseguidores e o breve idílio entre os dois resulta na cura da sua gagueira. Então os policiais chegam à procura do condenado, que morre ao tentar escapar. Com excelente fotografia em exteriores de Ted McCord o filme exigiu muito esforço físico por parte da atriz. As cenas supostamente passadas no verão foram filmadas sob um frio intenso em uma montanha e Ida, vestida com roupas leves, pegou uma gripe. Pouco depois, quando ela corria descalça sobre pedras, cortou o pé, desenvolvendo-se uma infecção, que afetou seus tornozelos. Ida insistiu em permanecer no local, para evitar que a filmagem se atrasasse e sua saúde frágil piorou, ao sofrer uma crise de bronquite crônica. Mesmo assim, ela proporcionou ao público uma de suas melhores interpretações, do tipo para o qual era singularmente dotada.

Lew Ayres e Jane Wyman em Belinda

Stephen McNally e Jane Wyman em Belinda

Belinda é um drama profundamente humano. Filha de um fazendeiro pobre, McDonald (Charles Bickford) de um povoado da Nova Escócia no Canadá, Belinda (Jane Wyman), é surda-muda de nascença. Um jovem médico, Dr. Robert Richardson (Lew Ayres), lhe ensina a falar por meio de sinais, revela sua inteligência e a liberta da solidão. A jovem é estuprada por Locky (Stephen McNally), rapaz de maus instintos, e ela dá à luz uma criança, Johnny, cuja paternidade é atribuída ao médico. Este, aborrecido com a situação, retira-se da cidadezinha. Locky se casa, mas como sua esposa não pode ter filhos, ele toma o filho de Belinda. Esta, para se defender, o mata; mas no final a verdade vem à tona e o médico pede Belinda em casamento. Negulesco narra esta história com delicadeza e sobriedade, valendo-se de uma fotografia de grande beleza (Ted McCord), de um fundo musical melodioso (Max Steiner) e sobretudo do desempenho de Jane Wyman que, sem pronunciar uma só palavra durante todo o transcurso do entrecho, conseguiu criar com grande veracidade a sua personagem, conquistando o prêmio da Academia. A produção ensejou mais onze indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Lew Ayres), Diretor, Ator Coadjuvante (Charles Bickford), Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em preto e branco, Roteiro (Irmgard von Cube, Allen Vincent), Direção de Arte em preto e branco  (Robert Haas, William Wallace /decorador), Música de filme não musical, Montagem (David Weisbart), Som (Nathan Levinson).

Em 1948 Negulesco foi trabalhar para a 20thCentury-Fox, onde fez 22 filmes:  1948 – A Taverna do Caminho / Road House. 1949 – A Rua Proibida / Britannia Mews. 1950 – Vingança do Destino / Under my SkinFeras Que Foram Homens / Three Came Home; O Garoto e a Rainha / The Mudlark. 1951 – Clube de Moças / Take Care of My Little Girl. 1952 – Telefonema de um Estranho / Phone Call From a Stranger; Lydia Bailey, a Feticeira do Haiti / Lydia Bailey; Um Grito no Pântano / Lure of the Wilderness; Páginas da Vida / O. Henry´s Full House (episódio). 1953 – Náufragos do Titanic / Titanic; Como Agarrar um Milionário / How to Marry a Millionnaire. 1954 – A Fonte dos Desejos / Three Coins in the Fountain; O Mundo é da Mulher / A Woman´s World. 1955 – Papai Pernilongo / Daddy Long Legs; As Chuvas de Ranchipur / The Rains of Ranchipur. 1957 – A Lenda da Estátua Nua / Boy on a Dolphin. 1958 – A Angústia de Tua Ausência / The Gift of Love; Um Certo Sorriso / A Certain Smile. 1959 – Sob o Signo do Sexo / The Best of Everything. 1964 – Em Busca do Prazer / The Pleasure Seekers. 1970 – Um Instante, Adeus / Hello Goodbye. Negulesco participou ainda de dois filmes da MGM (Os Maridos da Mamãe / Scandal at Scorie / 1953 e Mesmo Assim Eu Te Amo / Count Your Blessings / 1959) e mais dois de outros produtores: A Greve do Sexo / Jessica  / 1962 (Prod: Dear Film, Les Films Ariane); Os Seis Invencíveis / The Invincible Six ou The Heroes/ 1969. A partir dos anos 50 a criatividade do cineasta foi se desgastando daí a irregularidade artística de sua filmografia desde então. Destaco em negrito seus melhores filmes nesta fase.

Ida Lupino e Richard Widmark em A Taverna do Caminho

A Taverna do Caminho é um drama com intriga psicológica contando uma vingança curiosa e inédita. Jefferson “Jefty” Robbins (Richard Widmark), dono de uma boate que tem uma pista de boliche adjacente, contrata Lily Stevens (Ida Lupino) como cantora e se apaixona por ela. Ao saber que Lily ama Pete Morgan (Cornel Wilde), seu amigo de infância e gerente do estabelecimento, ele o acusa falsamente de roubo e depois consegue obter com o juiz a custódia do condenado. Nesta condição, Lefty leva Pete, Lily e Susie (Celeste Holm), a moça que cuida da caixa do cabaré, para sua cabana de caça perto da fronteira canadense, com a intenção de fazer com que Pete e Lily tentem fugir atravessando a fronteira e ele então os mataria. Quando Pete e Lily resolvem escapar, Susie intervém para impedir a execução do plano diabólico de Lefty e é ferida por ele. Peter retorna e se confronta com Lefty. Enquanto os dois lutam, Lily se apodera da arma e mata Lefty, quando ele ia atacá-la com uma pedra.  Graças a Susie, que encontrou uma prova da inocência de Peter, este e Lily não serão mais incomodados. Negulesco expôe gradualmente esta história de amor não correspondido e obsessão, primeiramente com uma exposição um pouco longa mas animada por alguns atrativos como as duas canções interpretadas por Lily (com uma voz encantadoramente  rouca) e a briga na boate entre Peter e um grandalhão; na segunda parte da narrativa o ritmo do filme fica mais nervoso por causa das manifestações psicóticas de Jefty (com suas risadas insanas), resultando em um espetáculo atraente.

Sesse Kayakawa e Claudette Colbert em Feras Que Foram Homens

Feras Que Foram Homens é um drama de guerra com roteiro de Nunally Johnson, baseado no livro da escritora americana Agnes Newton Keith, que relata a angústia e os sofrimentos pelos quais ela e outras companheiras passaram como prisoneiras de um campo de concentração japonês em Borneo. A novidade aqui é a apresentação da figura do Coronel Suga (Sessue Hayakawa) não como um monstro, de acordo com a velha fórmula dos filmes do gênero, mas sim como um homem gentil e culto admirador da obra da escritora sem que a brutalidade de seus comandados deixe de estar presente. Sob o ponto de vista cinematográfico Negulesco construiu boas cenas como a chegada dos invasores no hotel, o metralhamento dos australianos na cêrca de arame farpado ou o encontro clandestino de Mrs. Keith com o marido sob um coqueiro sendo seguida por um sentinela pelo ruído das aves até ser agredida inesperadamente pelo soldado japonês. Trata-se de um espetáculo denso que desperta muita emoção.

Keenan Wynn, Shelley Winters,Gary Merrill e Michael Rennie em Telefonema de um Estranho e em

Telefonema de um Estranho é um drama psicológico (ou melhor, quatro dramas diversos), escrito por Nunnally Johnson. Johnson seccionou o argumento em três partes, ligando-as por um desastre aéreo do qual escapa um único sobrevivente, o Dr. David Trask (Gary Merrill), que estabelecera uma camaradagem com outros três companheiros de viagem: Binky Gay (Shelley Winters), Dr. Robert Fortness (Michael Rennie) e Eddie Koke (Keenan Wynn). O Dr. Trask, é um advogado que deixa o lar para esquecer a infidelidade da esposa; Binky é uma atriz do teatro de variedades incompatibilizada com a sogra; o Dr. Fortness é um médico alcoólatra  que agora, cinco anos depois de ter enganado a justiça, tenciona apresentar-se ao promotor e confessar que ele foi o culpado do desastre automobilístico em que pereceu um colega e assim recuperar a confiança da mulher; e Eddie é um caixeiro- viajante extrovertido cuja consorte, Marie (Bette Davis), é uma semi-paralítica presa ao leito. O Dr. Trask telefona para as famílias dos três companheiros vitimados e as procura para relatar o que fôra a última noite que passaram juntos. Na casa do médico restabelece aos olhos da viúva e do filho do morto o respeito que este pretendia obter. No cabaré mantido pela sogra da atriz faz desaparecer o ódio que existia entre ela e a nora. Finalmente, na última casa, a do vendedor-viajante, Marie, cuja invalidez foi consequência de sua traição ao marido, enaltece o morto, como homem que sabia verdadeiramente amar e isto leva Trask a dar o seu último telefonema no filme: para dizer à esposa que a perdoou e voltará para casa. A direção de Negulesco, discreta e fluente, é muito feliz no uso dos flashbacks habilmente interligados, exprimindo em sequências comoventes o Poder do Amor e a Atratividade do Lar. Ajudaram-no, e muito, o bom desempenho de todos os seus intérpretes e uma fotografia (Milton Krasner) e música (Franz Waxman) que impressionam.

Betty Grable,Lauren Bacall e Marilyn Monroe em Como Agarrar um Milionário

Como Agarrar um Milionário é uma comédia romântica divertida e espirituosa,  satirizando a mulher americana ocupada em caçar um marido rico. Duas amigas, Loco (Betty Grable) e Pola (Marilyn Monroe) alugam com a inteligente Schatze (Lauren Bacall) um apartamento soberbamente mobiliado e, a partir desta base segura, pretendem fazer boas relações e conquistar o milionário de seus sonhos.  Elas viverão vendendo pouco a pouco os belos móveis do apartamento. Finalmente Loco se casa com um guarda florestal (Rory Calhoun) e Pola com um rapaz (David Wayne) que tem problemas com o fisco. Somente Schatz se dá bem e está prestes a se casar com um homem velho, mas rico (William Powell). Entretanto, no último instante, torna-se a esposa de um rapaz charmoso (Cameron Mitchell), que ela pensa que é um simples mecânico. As três amigas quase desmaiam, quando ficam sabendo que o mecânico, com o qual se casou por amor, é um industrial riquíssimo. Adaptado de uma peça teatral por Nunnally Johnson, esta segunda produção em CinemaScope da Fox, pela maneira inteligente pela qual foi fotografada (Joe MacDonald), mostrou que o então novo sistema de tela larga podia se adaptar a um ambiente quase todo em interiores. Negulesco mantém o filme bem ritmado, servindo-se dos diálogos espirituosos e da interpretação sutil do trio de atrizes formosas.

Van Heflin, Cornel Wilde, Fred MacMurray e Clifton Webb em O Mundo é da MUlher

O Mundo é da Mulher tem situações humorísticas se misturando com outras de ordem sentimental ou dramática, um certo suspense e uma sátira aos costumes (devassando o alto mundo da indústria automobilística). Três chefes de sucursais de uma fábrica de automóveis importante (Cornel Wilde, Fred MacMurray e Van Heflin) são convocados à sede da matriz em Nova York pelo diretor-presidente (Clifton Webb) para que, com as respectivas esposas (June Allyson, Lauren Bacall e Arlene Dahl), sejam submetidos ao teste para ocupar a vaga de gerente-geral da organização. Esta competição é conduzida com uma fluência suave por Negulesco, que nos oferece ainda uma viagem deslumbrante pela cidade dos arranha-céus, utilizando o CinemaScope com perfeição não somente nos exteriores mas também  nos interiores.

Na sua autobiografia Negulesco fornece mais estes dados: como autor da história original: Nova Orleans / New Orleans (Universal, 1947), Amores em Budapest / Fight For Your Lady (RKO, 1937), Dinheiro Demais / Beloved Brat (Warner Bros., 1938), Queijo Suiço / Swiss Miss (Hal Roach, 1938); como diretor de segunda unidade: Capitão Blood / Captain Blood (Warner, 1935), O Destemido Donovan / Crash Donovan (Universal, 1936); como diretor: The Dark Wave, 1956, documentário de curta-metragem produzido pela 20thCentury-Fox para a Variety Club Foundation to Combat Epilpesy. Elenco: Cornell Borchers, Charles Bickford, Nancy Reagan, Russ Conway.

 

SABU

Ele foi primeiro indiano a se tornar um astro de cinema internacional. Começou como ator infantil e subsequentemente apareceu em uma sucessão de produções britânicas antes de se transferir para Hollywood, onde foi repetidamente incluído em filmes technicoloridos de fantasias orientais e aventuras nas selvas.

Sabu

Sabu (1924-1963), cujo verdadeiro nome é Selar Sabu nasceu em Karapur no reino de Mysore, então um estado principesco da Índia Britânica, filho de um mahout (condutor ou domador de elefantes) indiano. Quando tinha treze anos de idade, o adolescente foi descoberto por Robert Flaherty, que lhe deu o papel do protagonista de O Menino e o Elefante / Elephant Boy, adaptação de “Toomai of the Elephants”, um conto de “The Jungle Book” (1894) de Rudyard Kipling. O filme foi originariamente concebido por Flaherty, diretor americano frequentemente considerado “o pai do filme documentário”, cuja reputação como um cronista dos povos “obscuros” e “primitivos” nasceu com a realização do seu famoso Nanook do Norte / Nanook of the North / 1922.

Sabe em O Menino e o Ellefante

Com o apoio financeiro de Alexander Korda, Flaherty começou a filmagem de O Menino e o Elefante em 1935 na Índia, porém transcorrido quase um ano o produtor húngaro, preocupado com a demora e os custos da produção, mandou a equipe de volta para seu estúdio em Denham, a fim de que o filme fosse ali completado, encarregando seu irmão Zoltan de dirigir cenas extras, para suplementar as cenas filmadas por Flaherty. O filme de 80 minutos, combinando cerca 40 minutos de cenas de Robert Flaherty e 40 minutos de cenas de Zoltan Korda, foi lançado em 1937, tendo sido ambos creditados como diretores. Durante o desenrolar da narrativa, tomadas de Sabu rodadas por Robert Flaherty na India alternam-se com tomadas de Sabu rodadas por Zoltan Korda na Inglaterra, sendo relativamente fácil distinguir as cenas de Flaherty das cenas de Korda. Enquanto Flaherty originariamente procurou fazer um retrato poético da relação de um menino indiano com seu elefante, que fosse o mais autêntico possível, o filme foi finalmente reconfigurado por Korda para ser uma adaptação fiel do conto de Kipling, que garantisse um sucesso comercial. As cenas mais impressionantes ocorrem no final, quando vemos a manada de elefantes enfurecidos e depois o ceremonial comovente homenageando o pequeno e corajoso herói.

Sabu, Valerie Hobson e Roger Livesey em Legião da Índia

Os três filmes britânicos technicoloridos nos quais Sabuy apareceu depois de O Menino e o Elefante foram produzidos como parte de acordo entre a London Films de Korda e a Technicolor do Dr. Herbert T. Kalmus. O segundo filme de Sabu, A Legião da Índia / The Drum foi o terceiro filme britânico totalmente em Technicolor. Sabu fez mais filmes em Technicolor do que qualquer outro astro  durante o período 1938-1944. Ele ficou identificado com o cinema em Technicolor e, depois que chegou a Hollywood em 1942, a Universal explorou a associação do seu novo contratado com esta tecnologia.

A Legião da Índia pertence mais explícitamente ao gênero empire film do que O Menino e o Elefante. É uma aventura colonial militar baseada em um livro de A. E. Mason e dirigida por Zoltan Korda. Planos de referência foram filmados na Índia e misturados com cenas rodadas com os atores no norte do País de Gales em locações escolhidas pelo exército como as mais parecidas com o terreno da Fronteira Noroeste. O filme tem início com a missão do Capitão Carruthers (Roger Livesey) em Tokot, para firmar um tratado de paz com o soberano. Porém este é assassinado pelo irmão, Ghul Khan (Raymond Massey), que usurpa o trono. Ghul planeja o massacre dos britânicos mas no momento crucial Azim (Sabu), o herdeiro legítimo do trono e amigo de Carruthers, toca seu tambor para avisar os britânicos, chega uma expedição de socorro, Ghul é morto e Azim colocado no trono.

A produção de Alexandre Korda recria em Technicolor toda a pompa do Império Britânico (o esporte do polo, a chegada do regimento em Tokot sob o som das gaitas e dos tambores, o baile do Governador em Peshawar, etc.) e tem boas cenas de ação notadamente o massacre final depois do banquete. No elenco, – além de Sabu com sua personalidade encantadora – destaca-se Raymond Massey no papel do fanático  ameaçador de duas caras que, em público, presta cumprimentos floridos aos ingleses (ele beija a mão da esposa de Carruthers (Valerie Hobson) dizendo “Eu beijo vossos pés… Eu sou vosso escravo”) e, em particular, despeja seu ódio com um olhar brilhante: “O Império está pronto para se esculpido em pedaços”.

 

Sabu em O Ladrão de Bagdad

Com O Ladrão de Bagdad / The Thief of Bagdad / 1940, Korda pretendeu realizar a sua produção mais esplêndida desde que o Technicolor foi inventado e, na verdade, a maior glória deste filme é a sua cor verdadeiramente magnificente. Este conto das Mil e Uma Noites, dirigido por Michael Powell, Ludwig Berger, Tim Whelan, repleto de aventura e fantasia romântica, já fora levado à tela de maneira magistral em 1924 por Raoul Walsh com Douglas Fairbanks; mas a versão de Korda também é excelente, não só pelo cuidado técnico-plático  – Oscar para fotografia em cores (George Perinal), efeitos especiais (Lawrence Butler / Jack Whitney), direção de arte em cores (Vincent Korda) – como pela magnífica partitura de Miklos Rposa e felicidade na escolha do elenco, em que se destacam John Justin (o rei destornado Ahmad), June Duprez (a Princesa), Sabu (Abu, o jovem ladrão), Conrad Veidt (o inesquecível Grão-Vizir Jaffar), Rex Ingram (o gênio negro) e Miles Maleson (o Sultão). Devido à guerra, Korda teve que desistir da idéia de filmar exteriores no Egito e na Arábia, transportando sua equipe para os Estados Unidos, onde Zoltan Korda e William Cameron Menzies, creditados como produtores associados, dirigiram as cenas finais no Grand Canyon. Os efeitos especiais tais como o gênio enorme saindo de uma garrafa, a luta entre contra uma aranha gigantesca, o tapete voador e o cavalo alado, são tão cativantes e convincentes quanto qualquer trabalho digital contemporâneo. A atmosfera das histórias orientais é realçada pelo Technicolor, que sublinha o luxo dos figurinos, a suntuosidade dos castelos e o mundo mágico e exótico descoberto pelo ladrãozinho das ruas de Bagdad.

Sabu em Mogli, o Menino Lobo

No terceiro filme de Sabu para Alexandre Korda, Mogli, o Menino Lobo / The Jungle Book, adaptação (por Laurence Stallings) da história de Rudyard Kipling, o jovem ator interpreta o papel de Mogli, jovem inocente sem nenhum conceito sobre o valor do dinheiro, criado pelos lobos de acordo com as leis da selva, capaz de matar um tigre, e imbuído de um respeito profundo pela natureza. O relato tem início com um velho indiano contando para uma mulher britânica a história de uma criança, Natu, que se perdeu na floresta e foi dada como morta pelo tigre Shere-Khan mas que, no entanto, foi encontrada e adotada por uma alcatéia de lobos. Chamado de Mogli pelos lobos, a criança cresceu e um dia retornou à cidade, onde sua mãe (Rosemary De Camp) a reconheceu como o filho perdido e o acolheu em sua casa A habilidade de Mogli falar com os animais tornou-o um objeto de fascinação pelos outros aldeões. Ele e a jovem Mahgala (Patricia O´Rourke) são atraídos um pelo outro, embora o pai de Mahal, Boldeo (Joseph Calleia ) considere Mogli como um animal selvagem. Mogli leva Mahala para o interior da selva e lhe mostra as ruínas de uma cidade perdida, que contém um tesouro. O problema surge quando ela retorna com uma moeda de ouro e Baldao se torna impiedosamente determinado a obrigar Mogli a lhe revelar o local daquela riqueza. Quando o velho indiano termina sua narrativa, verificamos que ele não é outro senão Boldeo.

Devido à guerra na Europa, Mogli, o Menino Lobo foi filmado inteiramente em um estúdio de Hollywood, sendo que a United Artists emprestou a Korda trezentos mil dólares para financiar a produção. O filme tem belos cenários, uma fauna e uma flora exuberantes e um trilha sonora envolvente, tendo ensejado indicações para o Oscar de Melhor Direção de Arte em cores (Vincent Korda), Melhor Fotografia em cores (W. Howard Greene), Melhor Trilha Sonora original (Miklos Rozsa) e Melhores Efeitos Especiais (Lawrence Butler, William H. Willmarth). O melhor momento é o do incêndio na floresta no desenlace com o uso espetacular do Technicolor. A única restrição que faço a este filme é a cobra que guarda o tesouro falar em língua de gente.

Maria Montez, Jon Hall e Sabu em uma pose para a publicidade deAs Mil e Uma Noites

Maria Montez, Sabu e Jon Hall em Mulher Satânica

Sabu em Mulher Satânica

Contratado pela Universal, Sabu apareceu ao lado de Maria Monrez e Jon Hall em uma sucessão de três filmes explicitamente escapistas: uma aventura oriental, As Mil e Uma Noites / Arabian Nights / 1942 (Dir: John Rawlings) e duas fantasias passadas em ilhas dos Mares do Sul, Branca Selvagem / White Savage  / 1943 (DIr: Arthur Lubin) e Mulher Satânica / Cobra Woman / 1944 (Dir: Robert Siodmak).  Essas fantasias pseudo-orientais ou tropicais tinham sempre os mesmo ingredientes: cenários grandiosos, fictícios e virtuais; fotografia em Technicolor de primeira ordem; histórias pitorescas com certas inverossimilhanças narradas em  uma média de oitenta minutos, com muita vivacidade; par romântico atraente formado por intérpretes sofríveis, mas que atuavam com sinceridade, sempre focalizados em lindos close-ups; coadjuvantes de origem estrangeira (v. g. Turhan Bey, nascido na Austria, filho de um diplomata turco e Sabu) e/ ou oriundos das comédias curtas (v. g. Bily Gilbert, Andy Devine, Shemp Howard) para os interlúdios cômicos ingênuos, porém espirituosos; figurinos belos e exóticos providenciados por Vera West e adornados pelas jóias de Eugene Joseff; música devidamente estridente para reforçar a ação (embora às vezes anacrônica); climaxes exictantes ( v. g. as centenas de cavaleiros, tendo à frente Ali Ben Ali, surgindo das montanhas em As Mil e Uma Noites, o terremoto em Branca Selvagem, a prova diante do rei Cobra e a erupção do vulcão em Mulher Satânica); propaganda para o esforço patriótico (eis que em todos os filmes subsistia subliminarmente o tema da resistência de um povo contra um tirano usurpador do poder); e, é claro, os finais felizes. Foram espetáculos muito populares e lucrativos na ocasião de seu lançamento, tendo sido reprisados algumas vezes, inclusive em nosso pais, apesar de serem fustigados pelos crítricos que, no entanto, reconheciam seu êxito como entretenimento.

Sabu recebendo a condecoração das mãos de Eleonor Roosevelt

Após se tornar cidadão americano em em 1944, Sabu se alistou no exército americano e serviu como artilheiro de cauda e de popa em bombardeiros e recebeu a Distinguising Flying Cross por seu valor e bravura.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial e depois que seu contrato com a Universal expirou, Sabu continuou encontrando trabalho esporádico como ator. Em 1946 ele fez Tanger / Tangier (Dir: George Waggner), drama de intriga e espionagem convencional e claudicante em ambiente exótico, no qual um jornalista (Robert Paige), uma dançarina espanhola, Rita (Maria Montez) e Pepe (Sabu), jovem empresário, se unem para levar à justiça um tal de Balizar, fantoche nazista autor da morte de vários parentes de Rita durante a Guerra Civil Espanhola, que agora é o chefe de polícia da cidade sob o nome de Coronel José Artiego (Preston Foster). No mesmo ano, Sabu voltou para a Inglaterra onde participou de Narciso Negro / Black Narcissus e O Fim do Rio / The End of the River, filmes de qualidade artística bem diversas.

Jean Simmons e Sabu em Narciso Negro

Sabu em Narciso Negro

No primeiro filme, muito melhor que o segundo, um grupo de freiras, comandado pela irmã Clodagh (Deborah Kerr), é encarregado de instalar uma escola e um hospital no pico de uma montanha do Himalaia, no palácio Mopu – sede de um antigo harém – que lhes fôra doado pelo General local Toda Raí (Esmond Knight). Apesar da ajuda do agente britânico local, Mr. Dean (David Farrar), logo surgem  as dificuldades. O vento, a natureza, o ambiente exótico e sensual – a linda Indiana Kanchi (Jean Simmons) cortejada pelo jovem Rai (Sabu), sobrinho do General – influem irresistivelmente sobre o comportamento das freiras. Após a morte de uma delas – a histérica irmã Ruth (Kathleen Brown), que manifestara um desejo obsessivo por Mr. Dean e, rejeitada, tentara matar, por ciúme, a madre superiora, as religiosas deixam o lugar, admitindo o fracasso da missão. O cenário indiano foi todo recriado nos jardins subtropicais de Leonardslee em Horsham, West Sussex e no estúdio de Pinewood. Os diretores Michael Powell e Emeric Pressburger achavam que, neste filme, a atmosfera era tudo e eles e sua equipe técnica tinham que controlá-la inteiramente. Vento, altitude, beleza do cenário – tudo tinha que estar sob rígido controle. Os cenários básicos – o templo / convento de Mopu e a aldeia nativa debaixo dele – foram construídos em tamanho natural, com o panorama dos vales e montanhas pintados em telas e depois fotografado por trás dos atores por meio de transparências. Disciplinando com segurança o trabalho dos técnicos – Oscar para Jack Cardiff (fotografia em cores) e Alfred Junge (direção de arte em cores) – Powell e Pressburger dotaram esse drama psicológico sobre o velho conflito entre o sagrado e o profano de um espendor visual empolgante e criaram cenas de notável intuição cinematográfica. Assim é, por exemplo, o longo episódio do desvario da irmã Ruth, quase sem diálogos; a tentativa de matar a irmã Clordagh na torre do sino e a queda de seu corpo na folhagem, assustando os pásaros; o desenlace, com os pingos de chuva caindo sobre as enormes folhas verdes e, pouco a pouco, aumentando de intensidade, enquanto a pequena caravana de religiosas desce a encosta, fugindo daquela atmosfera inadequada para seu objetivo.

Sabu e Bibi Ferreira em O Fim do |Rio

No segundo filme (rodado em preto e branco), cuja ação transcorre no Brasil (mais precisamente no Amazonas e Belém do Pará) Michael Powell e Emeric Pressburger atuaram apenas como produtores, confiando a direção para Derek Twist e outros auxiliares menos competentes. O resultado foi uma realização apenas sofrível com Sabu no papel de um índio chamado Manoel, da tribo Akuna, a nossa Bibi Ferreira, como uma cabocla chamada Teresa, e a história contada através de retrospectos, nos quais os personagens, prestam seus depoimentos no tribunal, onde Manoel está sendo acusado de assassinato.

Retornando aos EUA, Sabu fez mais dois filmes não technicoloridos nos anos 40: A Fera de Kumaon / Man-Eater of Kumaon / 1948 (Dir: Byron Haskin) e Canção da Índia / Song of India / 1949 (Dir: Albert S. Rogell). No primeiro filme, Sabu é Narain, marido da jovem Lali (Joanne Page) que, grávida, é vítima de um tigre, perde a criança e não poderá mais engravidar. Este acidente priva Narain de sua primogenitura: segundo a lei de sua tribo é preciso um herdeiro ou a separação de sua esposa. A fera é caçada pelo Dr. John Collins (Wendell Corey) e por Narain, sendo finalmente abatida e o casal adota um órfãozinho. No segundo filme, os habitantes de Combi e os animais ditos ferozes se entendem bem. Porém Gopal (Turhan Bey), a princesa Tara (Gail Russell) e sua comitiva vêm caçar (e ela fotografar) neste território. Ramdar (Sabu) liberta as feras enjauladas pelos caçadores. Para obrigar estes últimos a deixar a floresta, ele rapta Tara. Perseguido por Gopal, Ramdar trava uma luta de faca com ele. Um tigre ferido anteriormente por Gopal, o mata. A paz volta a reinar em Combi e Ramdar se casa com a princesa. O segundo filme tem, andamento ligeiro e ação suficiente para manter o espectador sempre interessado na intriga, o que não acontece infelizmente com o primeiro.  Em 19 de outubro de 1948, Sabu casou-se com uma atriz pouco conhecida, Marilyn Cooper, companheira  até o fim de sua vida, com a qual teve dois filhos.

Sabu em Jaguar

Os anos 50 e 60 não foram bons cinematograficamente para Sabu. Ele continuou a desempenhar os mesmos papéis exóticos indiano / asiáticos, a maioria deles em  produções de orçamento modesto: 1951 – Savage Drums(Dir: William Berke com Lita Baron, H. B. Warner). 1952 – Hello Elephant (Dir: Gianni Franciolini  com Vittorio De Sica, Maria Mercader); Baghdad (Dir: Nanabhai Bhatt com Master Bhagwan, Anwar Hussein, Bharati  Davi). 1953 – Il Tesoro del Bengali (Dir: Gianni Vernucci com Luisella Boni, Luigi Tosi). 1956 – Jaguar / Jaguar (Dir: George Blair com Chiquita Johnson, Barton Maclane)). 1957 – Jungle Hell (Dir: Norman A. Cerf com K. T. Stevens, David Bruce); The Black Panther  (curta-metragem Dir: Ron Ormond com Carol Varga, Don C. Harvey); Sabu e o Anel Mágico / Sabu and the Magic Ring (Dir: George Blair com Daria Massey, William Marshal). 1960 – A Senhora do Mundo / Mistress of the World (Dir: William Dieterle com Martha Hyer, Carlos Thompson, Micheline Presle, Gino Cervi). 1963 – Maldita Aventura / Rampage (Dir: Phil Karlson com Robert Mitchum, Elsa Martinelli, Jack Hawkins). 1964 – Um Tigre Caminha pela Noite / A Tiger Walks (Dir: Norman Tokar com Brian Keith, Martha Hyer). Merecem destaque A Senhora do Mundo e Maldita Aventura pelo prestígio de seus diretores

Martha Hayer, Gino Cervi e Sabu em A Senhora do Mundo

Sabu, Robert Mitchum e Jack Hawkins em Maldita Aventura

O filme de William Dieterle é uma refilmagem de um seriado do cinema mundo alemão A Soberana do Mundo / Die Herrin Der Welt / 1919 dirigido por Joe May. O produtor Arthur Brauner ofereceu o projeto primeiramente a Fritz Lang com Pola Negri no papel da maléfica Madame Latour, mas o cineasta não aceitou sua proposta e William Dieterle assumiu a direção, porque precisava urgentemente de dinheiro, resultando um filme 185 minutos, que não tinha quase nada de comum com o original. Insatisfeito com a intervenção de Brauner na filmagem, Dieterle abandonou o filme nas mãos do fotógrafo Richard Angst. Quanto ao conteúdo da realização, trata-se de um sub-James Bond. A ação transcorre em Estocolmo com as explosões nucleares em uma central termonuclear, onde o professor Johansson (Gino Cervi) acaba de descobrir um procedimento capaz de suprimir a gravidade terrestre. O sábio e seu assistente anamita (Sabu) são sequestrados por um bando de espiões internacionais sob as ordens da cruel Madame Latour (Micheline Presle). Um agente da contra-espionagem sueco (Carlos Thompson) e a filha do professor (Martha Hyer) se lançam à procura da quadrilha, deixando mortos a cada combate até o final no templo de Angkor no meio de maravilhas da arquitetura khmer. O filme de Phil Karlson é um filme de aventura passado na selva malaia, onde um caçador ingles, Otto Abbot (Jack Hawkins), se opõe a um capturador de animais americano, Harry Stanton (Robert Mitchum), para aprisionar um espécime raro, misto de tigre e leopardo, para um jardim zoológico alemão, disputando, ao mesmo tempo, o amor de Ana (Elza Martinelli), a secretaria e amante do caçador. Sabu faz o papel de Talib, guia da expedição. O filme tem uma trilha musical persistente de Elmer Bernstein, o cenário natural (na verdade o Havaí) enche os olhos, mas Karlson não consegue criar nenhuma cena excitante, dando primazia aos diálogos, salvo nos momentos finais.

 

Sabu faleceu subitamente de um ataque do coração aos 39 anos de idade, três meses antes de seu derradeiro filme ser lançado.

William Beaudine

Ninguém trabalhou por mais tempo e dirigiu mais filmes do que ele. Durante seus quase sessenta anos de cinema teve seu nome nos créditos de mais de 500 filmes e 350 programas de televisão. Por ocasião de seu falecimento aos 78 anos de idade era o diretor mais velho em atividade.

William Beaudine

William Washington Beaudine (1892-1970) nasceu no Upper East Side de Nova York, filho de William Pryor Beaudine e Ella Louise Moran e sentiu pela primeira vez o gôsto pelo cinema quando tinha apenas oito anos de idade e ele e seu irmão de sete anos Harold apareceram em um short patriótico de 1 rolo produzido pela Edison Company. Quando seu pai faleceu em 1905, Beaudine se tornou arrimo da família aos treze anos de idade. Quando terminou o ensino médio, seu tio Charles, que era carpinteiro na Biograph, lhe arrumou um emprego neste estúdio, onde começou, em 1909, como um faz tudo ou quebra galho (v. g. limpando o chão cheio de celulóides, buscando adereços ou carregando latas de filmes e os tripés das câmeras) e logo passou a segundo assistente de Bobby Harron, que na época era ainda o aderecista de D.W. Griffith. Depois foi assistente de Frank Powell, Mack Sennett e Dell Henderson, atuando também com ator (inclusive em três melodramas de Griffith) e escrevendo enredos.

Em 1915, Beaudine assumiu a direção na primeira das 27 comédias de 1 rolo que fez na Kalem. Quando a Kalem fechou as portas, ele conseguiu ser admitido por H. O. Davis na Universal, onde ficou encarregado de dirigir as Joker Comedies e duas comédias (com argumento de King Vidor) com a gorducha Mathilde Comont, comediante francesa que viera para a América com Max Linder. Quando Davis foi recrutado para salvar a Triangle de uma má situação financeira, contratou Beaudine, colocando-o à frente de uma das oitos unidades de comédia.  Quando o contrato de Davis com a Triangle expirou, todos que vieram com ele também ficaram desempregados, Beaudine entre eles. Por sorte, Henry Lehrman ofereceu-lhe emprego na Fox, onde ele dirigiu algumas Sunshine Comedies, primeiramente em colaboração com Noel Smith. Lamentavelmente, após apenas cinco semanas de trabalho, Beaudine foi despedido, porque Lehman se aborreceu por ele ter cochilado durante as reuniões para se discutir a respeito dos gags, ou seja, as piadas visuais que seriam usadas nos filmes.

Cena de Toma Cuidado

O próximo emprego de Beaudine foi na Christie Comedies, companhia fundada por Al Christie e seu irmão Charles. Após três anos dirigindo comédias curtas para a Christie, Beaudine assinou contrato para dirigir dois filmes para Goldwyn e, finalmente, assumiu a direção de seu primeiro longa-metragem, Toma Cuidado / Watch Your Step (com Cullen Landis e Patsy Ruth Miller), lançado em 1922. Infelizmente o filme não foi o que Goldwyn esperava e Beaudine não realizou o segundo filme previsto no contrato.

Marie Prevost e Wesley Barry em Os Heróis das Ruas

 

Quando Toma Cuidado estreou, Beaudine havia completado uma comédia de 2 rolos para Sennett-First National e estava realizando duas comédias de 1 rolo para a Pathé-Roach. Beaudine voltou para a Christie em 1922 e lá ficou por um tempo até que o produtor Harry Rapf da Warner Bros. o contratou para dirigir o ator infantil Wesley “Freckles” Barry na Warner Bros. em Os Heróis das Ruas / Heroes of the Street. Foi primeiro filme de Beaudine onde uma parte substancial do elenco era composta por crianças. Com este filme ele e todo mundo iria descobrir que o cineasta possuia uma habilidade única para trabalhar com crianças (Beaudine dirigiria W. Barry em mais dois filmes, O Pequeno Tipógrafo / The Printer´s Devil  / 1923 e Valor de Criança  / The Country Kid / 1923). Antes porém, ainda em 1922, Beaudine foi emprestado para a Fox a fim de dirigir Tom Mix em A Volta do Vaqueiro / Catch My Smoke e, em 1923, foi a vez da Metro, onde ele dirigiu Viola Dana na comédia dramática Pagando na Mesma Moeda / Her Fatal Millions.

A Warner chamou-o de volta depois de adquirir os direitos de filmagem de dois êxitos da George M. Cohan no palco,” Little Johnny Jones” e “George Washington Jr.” e do romance de Charles Dickens, “David Copperfield”, que seria interpretado por Wesley Barry, anunciando que Beaudine iria dirigir os três filmes. Entretanto, diante do sucesso da ótima recepção de Homens de Amanhã / Penrod (a história de Booth Tarkington sobre a infância americana) dirigido por Marshal Neilan e estrelado por Wesley Barry, a Associated First National obteve os direitos de filmagem de outra história de Tarkington, “Penrod and Sam” e pediu Beaudine emprestado à Warner para dirigir a versão cinematográfica, aqui intitulada As Aventuras de Chiquinho, com Ben Alexander no papel principal, coadjuvado por mais dez meninos e pelo fox terrier Cameo, usado em Os Heróis das Ruas. O espetáculo excedeu as expectativas da First National e foi considerado um dos melhores filmes do ano.

Conhecendo a reputação de Beaudine como um diretor com uma capacidade especial para lidar com atores infantís, Mary Pickford o escolheu – com a permissão da Warner – para dirigir Sua Vida Pelo Seu Amor / Little Annie Rooney / 1925 e Aves Sem Ninho / Sparrows / 1926, que foram precisamente os melhores de suas carreiras.

William Beaudine e Mary Pickford

Mary Pickford

No primeiro filme – uma comédia que provoca lágrimas – a filha de um policial, Annie Rooney (Mary Pickford) – uma menina irlandesa de doze anos de idade -, passa o tempo brigando com os meninos da vizinhança e cuidando de seu pai viúvo  (Walter James) e seu irmão Tim (Gordon Griffith). Depois que seu pai é morto, Annie e Tim buscam vingança. Quando  eles eroneamente acreditam que o culpado foi Joe Kelly (William Haines), o rapaz que Annie ama, Tim pega a arma de seu pai e fere Joe. Enquanto isso, Annie captura o verdadeiro assassino. Ela encontra Joe no hospital e doa seu sangue para uma transfusão, que salva a vida dele. É impressionante como Mary aos 33 anos de idade, depois de ter ter interpretado papéis de adulta em Rosita / Rosita e Entre Duas Rainhas / Dorothy Vernon of Haddon Hall, penetra no corpo de uma garota levada. Beaudine armou algumas sequências formidáveis como, por exemplo, aquela em que o pai de Annie é morto e depois quando ela recebe a notícia desta tragédia. Muito interessante é o uso de estereótipos étnicos (chineses, negros, judeus), porque embora a meninada esteja sempre brigando, os pais são unidos pela ansiedade e todos buscam o conselho do pai de Annie como se ele fosse o médico das redondezas. A produção é de primeira ordem, contando com dois excelentes fotógrafos, Charles Rosher e Hal Mohr, respectivamente primeiro e segundo cinegrafista.

Em Aves sem Ninho, em uma região pantanosa do Sul dos Estados Unidos, um casal de camponeses, os Grimes (Gustav von Seiffertitz, Charlotte Mineau) e seu filho Ambrose (Spec O´Donnell), exploram um grupo de crianças abandonadas, obrigando-as a trabalhar na sua fazenda. Os menores são tratados como prisioneiros, para não dizer escravos, e são muitas vezes brutalizados e privados de comida. Uma adolescente chamada Mollie (Mary Pickford) cuida dos pequenos   “pardais” da melhor maneira possível, os reconforta, e lhes assegura que Deus vela sobre eles. Doris (Mary Louise Miller), uma menininha, é raptada da cidade e entregue aos Grimes. A fim de que a polícia não descubra seu paradeiro, Grimes manda seu enteado afogá-la no pântano. Mollie salva Doris e, depois de se opor violentamente contra Grimes, organiza a fuga de seus protegidos. Percorrendo o pantano infestado de crocodilos, as crianças passam por situações, difíceis  livrando-se de todos os perigos. A polícia prende os Grimes e persegue os raptores, que encontrarão a morte nas areias movediças. Mollie tem a felicidade de ver todos os seus “ pardais” adotados pelo milionário Dennis Wayne (Roy Stewart), pai de Doris.

Cena de Aves sem Ninho

Nossas emoções atingem o auge durante a fuga no final, cheia de suspense, quando Mollie conduz as crianças através do pântano para a liberdade. Perseguida pelo cão de Grimes, a meninada usa uma corda como cipó para atravessar a area de areia movediça, trepa nas árvores e se arrasta pelos seus galhos, pairando pouco acima dos répteis ferozes, que escancaram suas terríveis mandíbulas. Porém a cena que mais me impressionou foi aquela na qual Mollie embala um bebê morto em seus braços enquanto Jesus Cristo aparece no fundo do quadro com um rebanho de ovelhas. Ela adormece, Jesus se aproxima, toma o bebê nos seus braços, e se afasta. É uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema. O espetáculo foi realizado por Beaudine com muito acêrto, auxiliado pela extraordinária direção de arte de Harry Oliver e pela excelente fotografia de Charles Rosher e seus colaboradores Hal Mohr e Karl Struss, influenciados pelo expressionismo alemão dos anos vinte. Estes dois filmes com Mary Pickford colocaram Beaudine no tôpo dos diretores então em exercício em Hollywood, porém nenhum outro filme seu chegou ao nível deles.

Durante a sua longa e altamente prolífica carreira ele realizou centenas de filmes de uma ampla varidedade de gêneros para várias companhias e inclusive na Inglaterra de 1934 a 1937. Ao voltar para a América, Beaudine teve dificuldade de se restabelecer nos grandes estúdios. A partir do início dos anos 40 ele trabalhou principalmente para estúdios da chamada Poverty Row tais como PRC, Monogram e Allied Artists e foi responsável, entre outros numerosos filmes, por exemplares das séries East Side Kids, Bowery Boys, Philo Vance, Michael Shayne Private Detective Torchy Blane, Charlie Chan, Jiggs and Maggie, Kitty O´Day. Em 1944, ele dirigiu um filme de higiene sexual muito controvertido, Mom and Dad, produzido por Kroger Babb e em 1950 o drama religioso Again … Pioneers! e outros filmes  produzidos pela Protestant Film Comission. Sua eficiência era tão conhecida que Walt Disney contratou-o para dirigir alguns de seus projetos televisivos e um longa-metragem do gênero western, Ten Who Dared / 1960. Beaudine também dirigiu numerosos episódios para séries de TV inclusive The Green Hornet, Lassie e Rin-Tin-Tin, que foram exibidas no Brasil. Seus últimos filmes de longa-metragem, lançados em 1966, foram os horror-westerns Billy the Kid vs. Dracula e Jesse James Meets Frankenstein´s Daughter.

John Carradine em Billy the Kid vs Dracula

 

Em maio de 1969, Kewin Brownlow e David Shepard do American Film Institute  descobriram uma cópia de Serás Minha Algum Dia / The Canadians, dirigido por Beaudine em 1926, entre um grupo de filmes silenciosos  doados para a Biblioteca do Congresso pela Paramount. O filme foi incluído em uma Retrospectiva do AFI e teve uma recepção calorosa por parte do público, sendo posteriormente agraciado com o New York Film Critics Award como um dos melhores filmes da era pré-som.

FILMOGRAFIA

Sergio Leemann facilitou meu trabalho, enviando-me a extensa filmografia de William Beaudine, que faz parte de seu monumental DIretores do Cinema Americano Clássico (contendo verbetes e filmografias de mais de mil diretores, dos pioneiros até o fim da era dos grandes estúdios, e centenas de fotos deles em filmagem), que será publicado brevemente.

1922 – Toma Cuidado / Watch Your Step; A Volta do Vaqueiro / Catch MY Smoke; Os Heróis das Ruas / Heroes of the Street. 1923 – Pagando na Mesma Moeda / Her Fatal Millions; Aventuras de Chiquinho / Penrod and Sam; O Pequeno Tipógrafo / The Printer´s Devil; Valor de Criança / The Country Kid; O Fruto da Discórdia / Boy of Mine. 1924 – Audácia e Mocidade / Daring Youth; Maridos Extraviados ou Maridos Descontentes / Wandering Husbands; Filhas do Prazer / Daughters of Pleasure; Sorte ou Azar? / A Self Made Failure; O Mistério da Broadway / Cornered. 1925 – A Encantadora Intrusa / The Narrow Street; Borboletas da Broadway / A Broadway Butterfly; Como se Fazem Heróis  / How Baxter Butted In; Sua Vida Pelo Seu Amor / Little Annie Rooney. 1926 – Quem é o Pai da Criança? / That´s My Baby; Aves Sem Ninho / Sparrows; Ladrão de Casaca / The Social Highwayman; Herói à Força /  Hold That Lion; Serás Minha  Algum Dia / The Canadian. 1927 – O Intruso / Frisco Sally Levy; Rabo de Saia / The Life of Riley; O Amante Irresistível / The Irresistible Lover. 1928 – Dois Forasteiros em Paris / The Coehns and the Kellys in Paris; Frente à Frente / Heart to Heart; Casamento ou Cadeia / Home, James; Com a Boca na Botija / Do Your Duty; Lucros e Perdas / Give and Take. 1929 – Os Evadidos / Fugitives; Falsa Glória / Two Weeks Off; Fraquezas de Mulher / Hard to Get; Não Faça Isso Meu Bem / The Girl from Woolworth´s; Alianças de Amor / Wedding Rings. 1930 – A Danca da Morte ou O Baile da Morte / Those Who Dance; A Outra / Road to Paradise. 1931 – Nosso Filho/ Father´s Son; Apuros da Realeza / Misbeheaving Ladies; The Lady Who Dared; The Mad Parade; Gente Levada / Penrod and Sam; Homens na Sua Vida / Men in Her Life. 1932 – Três Garotas Ladinas / Three Wise Girls; Quero Ser Estrela / Make Me a Star. 1933 – O Crime do Século / The Crime of the Century; De Guarda ao Seu Amor / Her Bodyguard. 1934 – No Tempo do Onça / The Old Fashioned Way. 1935 – Two Hearts in Harmony; So You Won´t Talk; Dandy Dick; Boys Will Be Boys; Get Off My Foot; Mr. Cohen Takes a Walk. 1936 – Where There´s a Will; Educated Evans; It´s in the Bag; Windbag the Sailor. 1937 – Feather Your Nest; Said O´Reilly to McNab; Take It from Me (estes doze filmes rodados na Inglaterra). 1938 – Caçando um Homem / Torchy Gets Her Man. 1939 – Vendo o China / Torchy Blane in Chinatown. 1940 – Maridos Travessos / Misbehaving Husbands. 1941 – Fugitivos Federais / Federal Fugitives; Aterrisagem Forçada / Emergency Landing; Desperate Cargo; Mr. Celebrity; The Miracle Kid; Blonde Comet. 1942 – Duke of the Navy; Brtoadway Big Shot; Lucky Ghost; Professor Creeps; The Panther´s Claw; Homens Segregados / Men of San Quentin; Martírio de Médica / Gallant Lady; Noite de Suplício; One Thrilling Night; Phantom Killer; Foreign Agent; The Living Ghost. 1943 – O Homem Gorila / The Ape Man; Clancy Street Boys; Spotlight Revue; Fantasmas às Soltas / Ghosts on the Loose; Here Comes Kelly; Mr. Muggs Steps Out; Mystery of the 13th Guest. 1944 – What a Man!; Os Mistérios da Magia Negra / Voodoo Man; Hot Rhythm; Detetive Kitty O´Day / Detective Kitty O´Day; Follow the Leader; Leave It To The Irish; Ladrões e Granfinas / Oh, What a Night; A Sombra da Suspeita / Shadow of Suspicion; Campeões de Arrabalde / Bowery  Champs; Crazy Nights. 1945 – Mom and Dad; As Aventuras de Kitty O´Day / Adventures of Kitty O´Day; Fashion Model; Lourinha e Perigosa / Blonde Ranson; Swingin´on a Rainbow; O Rei do Ringue / Come Out Fighting; MercadoNegro de Crianças / Black Market Babies. 1946 – Garota Providencial / Girl on the Spot; Cara de Mármore / The Face of MarbleOne Eciting Week; Finórios do Pano Verde / Don´t Gamble with Strangers; Vítimas do Jogo / Below the Deadline; Cientistas da Fuzarca / Spook Busters; Macumba / Mr. Hex. 1947 – Philo Vance Returns; Os Anjos e a Necromante / Hard Boiled Mahoney; Too Many Winners; Killer at Large; Gas House Kids Go West; Aposta de Má Fé / News Hounds; O Tesouro Maldito / Bowery Buckaroos; O Anel Chinês / The Chinese Ring. 1948 – Os Anjos do Beco / Angel´s Alley; Guarda-Chuva Fatal / Jinx Money; Crime por Alfabeto / The Shanghai Chest; O Olho de Ouro / The Golden Eye; Herança Atrapalhada / Smuggler´s CoveEncontro Fatal / Incident; Maldição da Torre / Kidnapped; Pafúncio e Marocas em Apuros / Jiggs and Maggie in Court; Charlie Chan e o Tesouro Asteca / The Feathered Serpent. 1949 – The Lawton Story; Fúria do Mar / Tuna Clipper; Mulheres Esquecidas / Forgotten Women; Caçadores de Ouro / Trail of the Yukon; Pafúncio e Marocas na Televisão / Joggs and Maggie in Jackpot Jitters; Tough Assigment. 1950 – Raça e Fidalguia / Blue Grass of Kentucky; Loura de 18 Quilates / Blonde Dynamite; A Voz do Espírito / Jiggs and Maggie Out West; Felizardos no Azar / Lucky Looser; County Fair; A Wonderful Life; Second Chance; Os Anjos no Cabaré / Blues Busters; Again … Pioneers!. 1951 – Os Anjos e os Espiões / Bowery Batallion; Foguete Cubano / Cuban Fireball; Caçadores de Fantasmas / Ghost Chasers; Somos da Marinha / Let´s Go Navy!; Nas Garras de Cupido / Havana Rose; Veio, Viu e Venceu / Crazy Over Horses. 1952 – The Congregation; Nascido para Cowboy / Born to the Saddle; Rodeo; Aguenta a Mão / Hold that Line; Aventureiros das Nuvens / Jet Job; Fuzileiros da Fuzarca / Here Come the Marines; The Rose Bowl Sory; O Satânico Dr. Zabor / Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorila; Fazendeiros Fracassados / Feudin´Fools; Vale Tudo / No Holds Barred. 1953 – Corrida às Avessas / Jalopy; Roar of the Crwod; Murder Without Tears. 1954 – Garras Assassinas / Yukon Vengeance; Farristas de Paris / Paris Playboys; O Amor Sempre Vence / Pride of the Blue Grass. 1955 – Anjos Granfinos / High Society; Escola de Vigaristas / Jail Busters. 1956 – Odisséia do Oeste / West Ho the Wagons!. 1957 – Up in Smoke. 1958 – In the Money. 1960 – Ten Who Dared. 1963 – Lassie´s Great Adventure. 1966 – Jesse James Meets Frankenstein´s Daughter; Billy the Kid versus Dracula. 1974 – Kato, o Dragão Invencível / The Green Hornet  (compilação de episódios da sperie de TV, exibida nos cinemas brasileiros – co-direção de Norman Foster).

GEORGE STEVENS

George Stevens (1904-1975) nasceu em Oakland, Califórnia filho de Landers Stevens e Georgie Cooper, ambos atores de teatro, e fez sua estréia no palco aos cinco anos de idade, aparecendo na ribalta ao lado da atriz dramática Nance O´Neill em “Sapho” no Alcazar Theatre de San Francisco. Aos nove anos de idade, George ganhou de presente da mãe uma câmera Brownie e filmou boa parte da temporada itinerante que seus progenitores fizeram por algumas cidades dos EUA e Canadá. Em 1921, quando George tinha dezesseis anos de idade, a família chegou em Glendale, perto de Los Angeles, onde o primo de Georgie, James Horne, já era um diretor de sucesso no Hal Roach Studios. Landers também tinha amigos na indústria de cinema inclusive David Wark Griffith, Alla Nazimova, Bert Lytell, e Hobart Bosworth, e eventualmente conseguiu trabalho em alguns filmes da Universal e da RKO.

George Stevens

Depois que chegou em Glendale, George teve que deixar o colégio, a fim de levar seu pai de carro para os testes nos estúdios. Nesta ocasião, ele iniciou um negócio de tirar e vender fotografias dos moradores e comerciantes locais e, com a ajuda de seu primo James Horne, ingressou em 1922 na Warner Bros. como aprendiz e assistente de câmera (O filme era Os Heróis das Ruas / Heroes of the Street, dirigido por William Beaudine).

Entre 1924 e 1932, Stevens trabalhou no Hal Roach Studios como assistente de câmera, cameraman, gag writer e então diretor. Como cameraman funcionou em 18 comédias curtas silenciosas e 16 faladas de O Gordo e o Magro (Stan Laurel e Oliver Hardy), 16 comédias curtas de Charley Chase, 4 comédias curtas da série Os Peraltas / Our Gang, 6 comédias curtas da série Max Davidson, 8 comédias curtas da série All Star, 13 comédias curtas de Harry Langdon e, como diretor, em 7 comédias curtas  – e mais 4 comédias sem ser creditado – da série The Boy Friends.

Entre 1932, Stevens deixou Roach e foi para a Universal, onde se revezou com James Horne e Fred Guiol como argumentista e diretor em 12 comédias curtas da The Warren Doane Comedy Series e, finalmente, dirigiu seu primeiro longa-metragem,  Abraços Traiçoeiros / The Cohens and Kellys in Trouble / 1933.

The Cohens And The Kellys In Trouble, poster, George Sidney, Charles Murray, Maureen O’Sullivan, 1933. (Photo by LMPC via Getty Images)

O filme foi bem recebido pelos comentaristas e trouxe o reconhecimento de que Stevens necessitava, mas antes que ele pudesse se beneficiar dele e assinar um contrato com o estúdio para realizar longas-metragens como havia sido prometido, a Universal interrompeu suas atividades devido ao fechamento dos bancos. Sem trabalho novamente, Stevens contratou um agente  (Milton Bren da Frank Orsatti Agency) e este lhe conseguiu um contrato com a RKO, onde ele dirigiu primeiramente 16 comédias curtas. Em setembro de 1933, a RKO emprestou-o à MGM para dirigir Laurel e Hardy em um segmento de Festa de Hollywood / Hollywood Party, lançado em 1934. Quando Stevens retornou para a RKO, o estúdio precisava de um diretor para uma comédia com Stuart Erwin, Bachelor Bait / 1934, e o convocou para esta tarefa.

Lupe Velez, Oliver Hardy e Stan Laurel em Festa de Hollywood

Seguiram-se mais duas comédias, Em Palpos de Aranha / Kentucky Kernels / 1934 e Na Pista da Viúva / The Nitwits  / 1935 ambas com a dupla Bert Wheeler e Robert Woolsey e uma comédia dramática, Nobreza Americana  / Laddie / 1935, sobre uma família da Indiana do final do século dezenove, focalizando o romance entre o filho mais velho da família, Laddie Stanton (John Beal) e Pamela Pryor (Gloria Stewart), filha do fazendeiro vizinho (Donald Crisp).

Katharine Hepburn  e Fred MacMurray em A Mulher Que Soube Amar

Embora já tivesse demonstrado  ser um diretor capaz de abordar um assunto mais sério em Nobreza Americana, foi quando Stevens dirigiu Katharine Hepburn em A Mulher Que Soube Amar / Alice Adams / 1935, que ele ingressou nas fileiras dos diretores mais importantes da RKO. Baseado em um romance de Booth Tarkington, esta sátira social comovedora conta a história de uma jovem pobre (Katharine Hepburn), que deseja ascender socialmente, mas é vítima do esnobismo de uma pequena cidade americana. Quando Arthur Russell (Fred MacMurray), rapaz da classe média alta, se interessa por Alice, ela pensa que deve esconder dele a situação financeira de sua família, mas finalmente é obrigada a encarar a vida de frente. O filme foi indicado para o Oscar e deu a Katharine Hepburn uma indicação para Melhor Atriz.

 

Fred Astaire e Ginger Rogers em Ritmo Louco

Katharine Hepburn e Franchot Tone em Rua da Vaidade

Ainda na RKO, Stevens fez: 1935 – A Mira de um Coração / Annie Oakley, rápida e agradável cinebiografia ficcionalizada da    exímia atiradora de Dark County, Ohio  (Barbara Stanwyck) que se tornou estrela do Wild West Show de Buffalo Bill no final do século dezenove e seu romance com o colega e competidor Frank Butler (no filme chamado de Toby Walker), interpretado por Preston Foster; 1936 – Ritmo Louco / Swing Time, boa comédia musical com a dupla Fred Astaire – Ginger Rogers   dsestacando-se a dança solo de Astaire em homenagem a Bill Robinson, “Bojangles in Harlem” (em que Astaire dança com sua sombra triplificada); “ A Fine Romance”  (com Astaire e Ginger cantando em dueto em um cenário de inverno e “Never Gonna Dance” (com Astaire fazendo uma serenata para Ginger). Dorothy Fields e Jerome Kern ganharam o Oscar de Melhor Canção (“The Way You Look Tonight”) e Hermes Pan teve um indicação para a categoria Melhor Direção de Dança. 1937 – Rua da Vaidade / Quality Street comédia romântica de época, adaptada de uma peça de J.M. Barrie conta – vagarosamente, apesar dos esforços do diretor para disfarçar a teatralidade – a história de Phoebe Throssel (Katharine Hepburn) que aguarda ser pedida em casamento pelo Dr. Valentine Brown (Franchot Tone) mas em vez disso ele parte para as guerras Napolônicas por dez anos. Quando retorna, encontra uma Phoebe envelhecida como diretora de uma escola para crianças. Para reconquistá-lo, ela se faz passar por sua sobrinha Livvie, mas descobre que o Capitão Brown prefere a verdadeira Phoebe no final. Cativa e Cativante / A Damsel in Distress, comédia musical com Fred Astaire sem a sua parceira habitual Ginger Rogers (substituída por Joan Fontaine depois de ter sido cogitada a britânica Jessie Mathews), mas com um score de George e Ira Gershwin e a dupla George Burns-Gracie Allen, que tem os seus fãs. Foi um fracasso de bilheteria, mais provavelmente pela ausência de Gingers embora o coreógrafo Hermes Pan tivesse obtido um Oscar pela sequência no parque de diversões (“Stiff Upper Lip”) e o Diretor de Arte Carroll Clark recebido uma indicação.

Nos seus três últimos filmes na RKO, 1938 – Que Papai Não Saiba / Vivacious Lady; 1939 – Gunga Din / Gunga Din. 1940 – Noites de Vigília / Vigil in the Night, Stevens acumulou as funções de produtor e diretor.

James Stewart e Ginger Rogers emQue Papai Não Saiba

O primeiro filme é uma comédia romântica aprazível (apesar de certas situações muito longas) na qual James Stewart interpreta o papel de um professor de botânica de uma cidade pequena chamado Peter Morgan Jr., que vai para a cidade de Nova York, conhece e se casa impetuosamente com uma cantora de cabaré chamada Francey (Ginger Rogers), mas não consegue dar a notícia para seu pai (Charles Coburn), o severo e autoritário reitor da universidade. Fotografia (Robert De Grasse) e som mereceram uma indicação para o Oscar.

Sam Jaffe

Douglas Fairbanks Jr, Victor MacLaglen,Eduardo Ciannelli e Cary Grant em Gunga Din

O segundo filme (com Douglas Fairbanks Jr., Cary Grant e Victor Mac Laglen nos papéis principais) é um clássico no gênero de aventura, tendo  como pano de fundo o colonialismo britânico. Os executivos do estúdios vinham pensando em realizá-lo desde 1936 e escalaram Howard Hawks como diretor. Depois, achando que ele trabalhava lentamente, entregaram o projeto a Stevens e, para surpresa de todos, este era ainda mais lento, por causa do seu perfeccionismo. O filme acabou custando quase dois milhões de dólares, a produção mais cara da RKO até então. O argumento da dupla Ben Hetcht-Charles MacArthur, sugerido por um poema de Rudyard Kipling, foi adaptado por Joel Sayre, Fred Guiol e, no anonimato, William Faulkner, entre outros. A área próxima de Lone Pine, na Califórnia foi transformada em um autêntico cenário indiano. Todo o elenco, que parece ter sido escolhido a dedo, atua com muita energia e entusiasmo, destacando-se Sam Jaffe (depois de ter sido cogitado Sabu) pela maravilhosa composição do fiel e valoroso aguadeiro.

O terceiro filme, baseado em um romance de A. J. Cronin, é um drama sombrio e absorvente sobre a vida de duas irmãs enfermeiras em um hospital do interior da Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial. Anne Lee (Carole Lombard) é conscienciosa e dedicada e Lucy Lee (Ann Shirley), imatura e irresponsável, causa a morte de uma criança logo no início do relato. Anne assume a culpa para proteger a irmã, é demitida, e vai para uma outra cidade e um novo hospital, onde ao lado de um médico devotado (Brian Aherne) enfrenta com sacrifício e heroísmo uma epidemia.

Stevens assinou contrato com a Columbia em maio de 1940 e dirigiu e produziu três filmes neste estúdio: 1941 – Serenata Prateada / Penny Serenade. 1942 – E A Vida Continua / The Talk of the Town. 1943 – Original Pecado / The More the Merrier. Mas, entre a filmagem do primeiro e do segundo filme, ele deixou Harry Cohn enfurecido por ter ido á MGM dirigir A Mulher do Dia / Woman of the Year.

Cary Grant, Edgar Buchanan e Irene Dunne em Serenata Prateada

Serenata Prateada é um melodrama comovente e lacrimogêneo sobre um casal,  Julie e Roger (Irene Dunne, Cary Grant), que enfrenta uma dor contínua: perde um filho ainda por nascer em um terremoto no Japão e depois uma filha adotiva em um acidente. Stevens empregou bem uma idéia original a saber as lembranças evocadas pela audição sucessiva de vários discos e essas lembranças sendo vividas de novo e inseriu no dramalhão algumas cenas humorísticas como aquela, antológica, em que Julie não consegue dar banho na filhinha até que o tio Applejack  (Edgar Buchanan) se encarrega da tarefa maravilhosamente. O filme ensejou a Cary Grant uma indicação para o Oscar.

Cary Grant, Ronald Colman eJean Arthur em E A Vida Continua

E A Vida Continua é uma comédia dramática verbosa – mas atraente pela competência interpretativa do seu trio de astros e pelo comentário social -, envolvendo três personagens: Leopold Dilg (Cary Grant), fugitivo da polícia por ter cometido um incêndio causador da morte de um homem, que se refugia na casa de Nora Shelley (Jean Arthur), a qual ela acabara de alugar para o jurista, Michael Lightcap (Ronald Colman). Perturbada, ela esconde Dilg no sotão e o faz passar por Joseph, o jardineiro. Eventualmente os dois homens se encontram e se respeitam embora cada qual tenha uma visão radicalmente diferente do mundo enquanto Nora se envolve romanticamente com os dois. O espetáculo suscitou várias indicações ao Oscar: Melhor Filme, Fotografia em Preto e Branco, História Original, Direção de Arte em Preto e Branco, Música de Filme Não Musical.

Jean Arthur, Charles Coburn e Joel MacCrea em Original Pecado

Original Pecado é uma comédia romântica deleitosa com um roteiro inteligente, passada em Washington na época da Segunda Guerra Mundial quando, devido a  escassez de moradia, o industrial Benjamin Dingle (Charles Coburn) aluga metade do apartamento de uma funcionária do governo, Connie Miligan (Jean Arthur) e depois subaluga metade de sua parte a um sargento da Força Aérea, Joe Carter (Joel McCrea) e o resultado é que Connie logo se apaixona por Joe com a conivência de Benjamin. O filme funciona muito bem graças sobretudo às performances dos seus três intérpretes centrais enquanto Stevens mantém o ritmo sempre vivo, resultando várias indicações para o Oscar: Melhor Filme, Direção, Atriz, Ator Coadjuvante (Charles Coburn), História Original (Robert Russell, Lewis R. Foster, Frank Ross, Richard Flournoy) saindo vencedor apenas Coburn, merecidamente pelo seu papel de cupido.

A Mulher do Dia é uma comédia sobre a guerra dos sexos, enfocando o  relacionamento muito competitivo entre dois jornalistas, Tess Harding (Katharine Hepburn) e Sam Craig (Spencer Tracy). O casal discute, depois se casa e luta para ver quem (metaforicamente) usa as calças na família. Stevens dirigiu muito bem seus intérpretes, porém os diálogos, por sua abundância, retardam frequentemente a ação apesar de uma montagem hábil. Ficou famoso o final do filme, quando Tess tenta frustadamente – em uma sequência digna de Laurel e Hardy – providenciar o café da manhã como prova de sua intenção séria de que está domada. Hepburn foi indicada para o Oscar de Melhor Atriz e Ring Lardner Jr. e Michael Kanin conquistaram o Oscar de Melhor Roteiro Original. A alquimia entre Tracy e Hepburn é evidente neste seu primeiro dos nove filmes que fizeram juntos.

Stevens deixou Los Angeles na segunda semana de fevereiro de 1943 para servir como major no U.S. Army Signal Corp, que estava responsável por fotografar a atividade das Fôrças Aliadas durante a guerra. Ele cobriu primeiro o combate na campanha do Norte da África, depois, sediado em Londres, filmou cenas enquanto estava no teatro de guerra europeu e fotografou algumas das operações estratégicas do conflito mundial inclusive a invasão da Normandia, a libertação de Paris, a Batalha do Bulge e, finalmente, a libertação do campo de concentração de Dachau. Stevens ficou na Alemanha quase até o final da guerra em 1945, quando preparou, como o escritor Budd Schulberg, cenas filmadas em Dachau para o documentário The Nazi Plan, que foi apresentado como prova no Julgamento de Nuremberg.

Irene Dunne em A Vida de um Sonho

Ao retornar para a América, Stevens formou com Frank Capra, William Wyler e o produtor Sam Briskin a Liberty Films. A companhia conseguiu fechar um acordo de distribuição com a RKO em troca de 15 milhões de dólares para a produção de três filmes, um para cada realizador. Devido a problemas financeiros, a Liberty acabou sendo vendida para a Paramount Pictures e Stevens, Wyler e Capra tornaram-se diretores contratados deste estúdio. Stevens foi emprestado para a RKO por um ano, para dirigir A Vida de um Sonho / I Remember Mama, que deu início ao ciclo do pós-guerra de filmes mais sérios e cada vez mais pessoais do cineasta. O filme é um retrato episódico e sentimental dos altos e baixos de uma família de imigrantes noruegueses na San Franciso da primeira década do século vinte, unida por uma matriarca (Irene Dunne) forte e sábia. Gerou quatro indicações para o Oscar: Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante (Barbara Bel Geddes e Ellen Corby) e Melhor Fotografia (Nicholas Musuraca).

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol

Shelley Winters e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol

Produzido pela Paramount, Um Lugar ao Sol, baseado no romance de Theodore Dreiser,“ An American Tragedy”, foi o primeiro filme que refletiu a transformação pessoal pela qual Stevens passou durante a Segunda Guerra Mundial.  É um drama social e humano, uma história de amor com dimensões trágicas que suscita ao herói  (George Eastman / Montgomery) um problema doloroso:  casar-se com aquela que ama (Angela Vickers / lizabeth Taylor) e satifazer assim suas ambições ou esposar a jovem de condição modesta (Alice / Shelley Winters) que ele seduziu, sem amá-la, e considerar em manter uma situação sem futuro. Contando com as interpretações impecáveis de seus três intérpretes centrais para manter o interesse do espectador  pela ação e utilizando  magnificamente a profundidade de campo, os travelings, os planos sequência e os closes,  sem falar nas longas e belas fusôes, Stevens realizou uma obra-prima do cinema que lhe deu o Oscar de Melhor Diretor. O filme foi indicado para o prêmio da Academia e houve indicações também para Melhor Ator (Montgomery Clift), Melhor Atriz (Shelley Winters), Melhor Roteiro  (Michael Wilson, Harry Brown), Melhor Música para Filme Não Musical (Franx Waxman).

Enquanto Um Lugar ao Sol ainda estava em produção, Stevens aceitou sem hesitação duas histórias que a Paramount lhe ofereceu: elas o ajudariam a cumprir sua obrigação e afrouxar seus laços com o estúdio. Uma história era o romance de Jack Schaefer, “ Shane”. A outra era “Something to Live For”, roteiro escrito por Dwight Taylor e supostamente baseado na vida de sua mãe, a atriz Laurette Taylor, e sua luta contra o alcoolismo.

Em Na Voragem do Vício, melodrama romântico desenvolvido em torno do problema da dualidade amorosa, um desenhista ex-acoólatra (Ray Milland) , designado  pelos Alcoólatras Anônimos (a sociedade que o ajudara a abandonar o vicio) para prestar assistência a uma atriz da Broadway (Joan Fontaine),  descobre uma grande identidade de temperamento entre os dois devido à necessidade que têm de apoio recíproco, surgindo um romance entre eles. Mas então manifesta-se um problema dramático: ele é casado e vive feliz ao lado da esposa (Teresa Wright) e os filhos. Stevens deu ao tema um tratamento a contento do ponto de vista psicológioco, voltando a empregar – como fez em Um Lugar ao Sol – de modo primoroso os closes e as as fusões demoradas.

Brandon De Wilde, Jean Arthur, Van Heflin, Alan Ladd em Os Brutos Também Amam

Jack Palance em Os Brutos Também Amam

Os Brutos Também Amam tem óbvias qualidades: o realismo dos cenários e das vestimentas, os exteriores magníficos, os planos de conjunto cuidadosamente compostos, a narrativa fluente, a grande cena de impacto na qual o pistoleiro (Jack Palance) mata o pobre colono metido a valente (Elisha Cook Jr.) etc. Entretanto, existe algo de forçado no filme, uma visão simplificada e idealizada da vida no Oeste tal como é vista por um menino, Para o crítico francês André Bazin, Os Brutos Também Amam é um “western em segundo grau em que a mitologia do gênero é conscientemente tratada como tema do filme. Procedendo a beleza do western da espontaneidade e da perfeita inconsciência da mitologia nele dissolvida como sal no mar, esta destilação laboriosa é uma operação contra-natura que destrói o que revela. Tanto como idolatria de uma criança por um adulto como tratamento criativo de um mito Os Brutos Também Amam não é uma historia do Oeste; é mais propriamente, o Oeste tal como nós acreditamos que ele deva ter sido”.  O filme teve várias indicações para o Oscar (Melhor Filme, Diretor, Fotografia em cores (Loyal Griggs), Roteiro (A. B. Guthrie Jr.), mas somente Griggs arrebatou a estatueta.

Os quatro últimos filmes de Stevens, 1956 – Assim Caminha a Humanidade / Giant (Warner Bros.) 1959 – O Diário de Anne Frank / The Diary of Anne Frank (Twentieth Century-Fox). 1965 – A Maior História de Todos os Tempos / The Greatest Story Ever Told (United Artists). 1970 – Jogo de Paixões / The Only Game in Town (Twentieth Century-Fox) alcançaram índices artisticos variados.

Elizabeth Taylor e James Dean em Assim Caminha a Humanidade

Assim Caminha a Humanidade é um vasto, longo e lento afresco ao mesmo tempo histórico (evolução do Texas) e familiar (três gerações sucessivas de uma família, os Benedict). O diretor encontrou dificuldades com o volume do romance e com um elenco de atores jovens (James Dean, Rock Hudson, Elizabeth Scott|) esforçando-se por passar por pais de outros atores de idades semelhantes, produzindo um espetáculo decepcionante.

Cena de O Diário de Anne Frank

O Diário de Anne Frank mostra, por meio de retrospecto, aqueles dois anos vividos por Anne Frank (Millie Perkins, depois de cogitada Romy Schneider), familiares e amigos (Shelley Winters, Joseph Skildkraut, Ed Wynn, Richard Beymer, Lou Jacobi, Gusti Huber, Diane Baker) na promiscuidade de um esconderijo confinado, sob constante ameaça e em pânico, com choques de toda ordem, provocados pelo medo, pela fome e pela tensão nervosa nascida do pavor da captura. Toda esta situação dramática é mostrada em termos de bom cinema, da utilização inteligente do contraste entre o silêncio e os ruídos e de fusões muito bem imaginadas, que fazem com que o espectador esqueça o tamanho demasiado longo da narrativa. Stevens que fracassou no filme anterior, volta aos seus domínios do cinema-arte nos quais logrou filmes como Um Lugar ao Sol e Os Brutos Também Amam.

Max Von Sydow em A Maior História de Todos os Tempos

A Maior História de Todos os Tempos é uma versão visualmente majestosa (seguindo a linhagem clássica) e por vezes de ritmicamente arrastada da Vida de Cristo, com alguns momentos de grande efeito como a ressureição de Lázaro, cenas de massa eficientemente coreografadas, boa utilização dos cenários naturais, fotografia em cores proporcionada por dois mestres (Loyal Griggs, William C. Mellor) e perfeito apoio musical de Alfred Newman. Ao ator sueco Max von Sydow coube o papel de Jesus, cercado por uma parada de atores bem conhecidos. Jean Negulesco e David Lean filmaram algumas cenas enquanto Stevens estava se ocupando da filmagem em locação.

Elizabeth Taylor e Warren Beatty em Jogo de Paixões

Jogo de Paixões é uma comédia romântica intimista de origem teatral (a peça de Frank Gilroy), quase que inteiramente confinada em interiores, com desenvolvimento lento e intérpretes  principais visivelmente inadequados para os respectivos papéis. A trama tem início quando Fran Walker (Elizabeth Taylor),  corista de boate que há anos espera o divórcio do amante (Charles Braswell) para casar-se com ele, conhece em um bar o jogador e pianista Joe Grady  (Warren Beatty depois de cogitado Frank Sinatra); após os incidentes habituais em qualquer intriga desse tipo, eles se unem para sempre.

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JOHN M. STAHL

Ele foi um especialista do melodrama e do woman’s picture (filme para mulheres) nos anos 20-30, mas como seus filmes mudos eram considerados como  perdidos e seus filmes sonoros foram ofuscados pelo glamour das refilmagens de Douglas Sirk  nos anos cinquenta, somente há pouco tempo sua obra começou a ser melhor conhecida e celebrada.

John M. Stahl

Em agosto de 1981 o British Film Institute organizou a mostra  “John M. Stahl: The Romantic Image”, com 17 filmes do diretor, sendo dois filmes mudos que tinha em seus arquivos e mais 15 filmes sonoros. Em 1999, no Festival de San Sebastian na Espanha, houve uma retrospectiva mais abrangente, inclusive cobrindo mais o período silencioso. Finalmente, em 2018, realizou-se uma Retrospectiva Stahl, compreendendo um seleção de filmes sonoros na Semana do Cinema Ritrovato em Bologna e outra, de filmes silenciosos, em Pordennone. Neste mesmo ano saiu o livro editado por Bruce Babington e Charles Barr, intitulado “The Call of the Heart – John M. Stahl and Hollywood Career”, publicado pela John Libbey e distribuido mundialmente pela Indiana University Press, que fornece sinopses e informações sobre todos os filmes do cineasta, valendo a pena assinalar ainda a existência de duas publicações anteriores: “John M. Stahl: The Man Who Understood Women”, ensaio de George Morris publicado em Film Comment (Maio / Junho 1977) e “Home is Where the Heart is: Studies in Melodrama and Woman’s film”, editado por Christine Gledhill e publicado pelo BFI em 1987.

Jacob Morris Strelitzky (1886-1950) nasceu em Baku (no atual Azerbaijão) e, no início do século vinte, imigrou para os Estados Unidos onde, ainda jovem, foi condenado e preso por vários delitos em Nova York e Pensilvânia sob os cognomes de Jack Stalll e John Stoloff. Em algum momento Jacob deve ter passado de ator teatral para ator de cinema, mas não existem registros para confirmar isto. Segundo uma história contada pelos publicistas de um estúdio, em um filme no qual estava atuando como ator, o diretor caiu doente, e ele assumiu a direção tão bem, que seu futuro ficou decidido.

Antes de ter seu nome  – já mudado para John M. Stahl – creditado pela primeira vez na tela como diretor de Noivado Trágico / Wives of Men / 1918 (melodrama com Florence Reed, Frank Mills), ele sempre alegou ter dirigido dois filmes sem receber crédito: A Boy and the Law / 1914 e The Lincoln Center ou The Son of Democracy/ 1917. Quanto ao primeiro filme, hoje perdido, sabemos que tinha como protagonista o Juiz Willis Brown, titular de uma vara de menores, que resgatava delinquentes juvenis, mantendo “Cidades de Meninos”, onde eles aprendiam a ter responsabilidade e disciplina através do trabalho como fazendeiros e de uma vida comunitária – porém não existe prova cabal de que Stahl tivesse sido o diretor. Com relação ao segundo filme – na verdade uma série de dez filmes de dois rolos dramatizando acontecimentos na vida de Abraham Lincoln -, apesar de constar dos anúncios de publicidade como tendo sido escrito, dirigido e produzido por Benjamin Chapin, o que se sabe hoje é que ele pode ter filmado algumas cenas, mas precisou de um diretor com mais habilidade para  conduzir o restante do filme e este homem foi John M. Stahl.

Depois de Noivado Trágico, Stahl dirigiu mais alguns melodramas (1918 – Suspicion com Grace Davison, Warren Cook. 1919 – Páginas de Ontem / Her Code of Honor com Florence Reed, William Desmond; The Woman Under Oath com Florence Reed, Hugh Thompson. 1920 – Suspicious Wives com Mollie King, Rod La Rocque (filmado e anunciado em 1920 como Greater Than Love, mas devido a uma disputa sobre direitos, o filme foi engavetado e só lançado em 1921 com novo título, para distinguí-lo de um filme de Fred Niblo de título idêntico); Women Men Forget com Mollie King, Edward Langford.

Ramon Novarro e Alice Terry em Amantes

 

Ainda em 1920 Stahl assinou contrato com a companhia produtora recentemente formada por Louis B. Mayer, para a qual dirigiu onze filmes, que foram distribuidos pela First National, e mais três para a MGM quando Mayer passou a integrar esta companhia em 1925: 1920 – The Woman in His House com Mildred Harris Chaplin, Ramsey Wallace.  1921 – Quem Vento Semeia / Sowing the Wind com Anita Stewart, James Morrison; O Filho do Pecado / The Child Thou Gavest Me com Barbara Castleton, Lewis Stone; Suspicious Wives com Mollie King, Rod La Rocque. 1922 – A Flor do Mal ou Canção da Vida / The Song of Life com Gaston Glass, Grace Darmond;  O Desprezado / One Clear Call com Milton Sills, Claire Windsor; A Idade Perigosa / The Dangerous Age com Lewis Stone, Cleo Madison. 1923 – Os Ricos Necessitados / The Wanters com Marie Prevost, Robert Ellis. 1924 – Por Que os Maridos se Aborrecem de Casa / Why Men Leave Home com Lewis Stone, Helene Chadwick; Maridos e Amantes / Husbands and Lovers com Lewis Stone, Florence Vidor. 1925 – Amor a Crédito / Fine Clothes com Lewis Stone, Alma Rubens. 1926 – Evitando o Pecado / Memory Lane; O Adorável Mentiroso / The Gay Deceiver com Lew Cody, Marceline Day. 1927 – Amantes / Lovers com  Ramon Novarro e Alice Terry; Gratidão de Filho / In Old Kentucky com James Murray e Helene Costello. O sucesso dos primeiros filmes levou Mayer a dar uma unidade própria para Stahl: John M. Stahl Productions e, desde seus filmes mudos, ele ficou associado com o melodrama e o “filme para mulheres”, girando quase sempre em torno de problemas familiares, infidelidade conjugal, ciúme, divórcio, devoção feminina, auto-sacrifício. Seu método de trabalho, como ele próprio dizia era: “emoção no lugar da ação”.

James Murray, Stahl e Helene Costello em Gratidão de Fãilho

No final de 1927 Stahl deixou a MGM, para assumir o cargo de Vice-Presidente e Supervisor Geral da Produção da Tiffany Productions, pequeno estúdio independente que, a partir de então mudou de nome para Tiffany-Stahl.  O ingresso de Stahl foi acompanhado pela compra pela Tiffany do Fine Arts (ex-Reliance-Majestic) estúdio e um investimento de 250 mil dólares para reformá-lo

Genevieve Tobin e John Boles em Filhos

No começo da era do som Stahl desligou-se da Tiffany-Stahl, iniciando a segunda parte de sua carreira sob contrato da Universal, onde dirigiu primeiramente um drama romântico, Vencida pelo Amor / A Lady Surrenders / 1930, com Genevieve Tobin, Rose Hobart, Conrad Nagel, Basil Rathbone e um drama, Filhos / Seed / 1931, com John Boles, Genevieve Tobin, Lois Wilson, Zasu Pitts, dedicando-se depois, em um desvio inesperado, a uma comédia, Más Intenções / Strictly Dishonorable  / 1931, com Paul Lukas, Sidney Fox, Lewis Stone, George Meeker.

O passo seguinte na trajetória artística do diretor nos anos 30 foi a realização de cinco dos seus seis grandes melodramas: 1932 – A Esquina do Pecado / Back Street; Nós e o Destino / Only Yesterday; 1934 – Imitação da Vida/ Imitation of Life. 1935 – Sublime Obsessão / Magnificent Obsession. 1939 – Noite de Pecado / When Tomorrow Comes.

Irene Dunne e |John Boles em Esquina do Pecado

Em A Esquina do Pecado, baseado em um romance de Fannie Hurst, em 1905, uma jovem (Irene Dunne) torna – se amante de um homem casado (John Boles) e se contenta em permanecer no anonimato, sacrificada pelo egoismo dele e pelas convenções sociais. Stahl narra a história por meio de cenas lentas, que produzem efeito cumulativo na platéia , atingindo grande intensidade no final. A interpretação de Irene Dunne, na solitária e taciturna vítima do infortúnio, também contribuiu muito para o sucesso do filme.

John Boles e Margaret Sullavan em Nós e o Destino

Nós e o Destino / Only Yesterday, indicado como tendo sido inspirado em um livro de Federick Lewis Allen, mas com intriga muito parecida com a do romance de Stefan Sweig “Brief einer Unbekannter, levado à tela por Max Ophuls como Carta de uma Desconhecida / Letter from an Unknown Woman / 1948, tem como pivô a jovem (Margaret Sullavan) que, em consequência de uma noite de amor com um soldado (John Boles) de partida para a Primeira Guerra Mundial, engravida; quando o pai da criança retorna, não a reconhece. Sem se preocupar com a credibilidade dos fatos que está narrando, Stahl sabe fazer as mulheres chorarem e, dirigindo com simplicidade, mexeu com as emoções delas. Como não pôde contar com Claudette Colbert e Irene Dunne, pois ambas rejeitaram o papel, escolheu Margaret Sullavan nos palcos de Nova York e o desempenho desta ultrapassou todas as expectativas.

Louise Beavers e Claudette Colbert em Imitação da Vida

Imitação da Vida, foi baseado em um romance de Fannie Hurst, que conjuga problema racial com sacríficio materno. Uma viúva (Claudette Colbert) enriquece vendendo panquecas feitas pela empregada negra (Louise Beavers), mas ambas têm problemas com as filhas. A da patroa (Rochelle Hudson) apaixona-se pelo namorado da mãe; a da criada (Fredi Washington) quer passar por branca, envergonhando-se da progenitora. Stahl soube explorar todos os convencionalismos e extrair desempenhos convincentes das atrizes. O filme foi indicado para o Oscar.

Irene Dunne e Robert Taylor em Sublime Obsessão

Sublime Obsessão adaptação de compasso um pouco arrastado do romance de Lloyd Douglas conta a história implausível do rico playboy (Robert Taylor,) que se torna cirurgião, para operar a jovem (Irene Dunne) que ficara cega em virtude de um acidente de automóvel causado por ele.  Inegavelmente um mestre no gênero lacrimogêno, Stahl expõe a intriga de forma direta, sem se preocupar com floreios estilísticos, alcançando seu objetivo. O filme foi um extraordináriuo sucesso popular.

Charles Boyer e Irene Dunne em Noite de Pecado

Noite de Pecado reuniu Charles Boyer e Irene Dunne em uma história de amor baseada em um romance de James Cain. Dunne vive a garçonete sindicalista apaixonada por Boyer, um pianista cuja esposa sofre das faculdades mentais. Embora cheio de lugares-comuns, o filme é dirigido com a sobriedade e a sinceridade caraterística do cineasta e muito bem interpretado, atingindo os seus fins.

Clark Gable e Myrna Loy em Parnell, O Rei Sem Corôa

Andrea Leeds e Adolph Menjou em Dia de Promessa

Além deles, cedendo ao apelo de Louis B. Mayer para dirigir na MGM um projeto inabitual para o cineasta, Stahl realizou uma cinebiografia frustrada do nacionalista irlandês Charles Parnell, Parnell, O Rei Sem Corôa / Parnell /1937 com Clark Gable e Myrna Loy e terminou a década, de novo na Universal, com uma comédia dramática, Dia de Promessa / Letter of Introduction / 1938, interrompendo a todo instante o drama vivido por Adolphe Menjou e Andrea Leeds com as gracinhas de Edgar Bergen e seu boneco.

Gracie Fields e Monty Woolley em A Palheta da Vida

Gregory Peck em As Chaves do Reino

Maureen O´Hara e Rex Harrison em Débil é a Carne

Cornel Wilde e Linda Darnell em Muralhas Humanas

Nos anos 40, antes de ingressar na 2Oth Century-Fox, onde ficaria até o final de sua carreira, Stahl realizou na Columbia A Noiva de Meu Marido / Our Wife / 1941, comédia romântica fraquinha com Melvyn Douglas, Ruth Hussey e Ellen Drew. Na Fox ele fez nove filmes variados: 1943 – O Sargento Imortal / The Immortal Sergeant, filme de propaganda de guerra com Henry Fonda, Maureen O’Hara e Thomas Mitchell, que devota boa parte do tempo para um melodrama romântico na frente doméstica; A Palheta da Vida / Holy Matrimony,  boa comédia com Monty Woolley, Gracie Fields e Eric Blore sobre um pintor inglês célebre (Woolley) que se faz passar por morto e usurpa  a identidade de seu falecido mordomo (Eric Blore). 1944 – A Véspera de São Marcos / The Eve of St. Mark, filme de propaganda de guerra com William Eyth e Anne Baxter que intercala cenas no quartel e na frente de batalha e incorpora um romance entre um soldado e sua namorada na sua cidade natal; As Chaves do Reino / The Keys of the Kingdom,  adaptação  (por Joseph L. Mankiewicz) de um romance de A. J. Cronin tendo como figura central um padre católico missionário na China (Gregory Peck), com algumas cenas individuais bem sucedidas (v. g. o adeus do padre à madre superiora (Rose Stradner) com a qual ele teve um relacionamento tenso), interpretação convincente de Peck (indicado ao Oscar) e boa fotografia (Arthur Miller) também indicada para o prêmio da Academia, mas prejudicada por um ritmo as vêzes arrastado; 1945 – Amar foi Minha Ruína Leave Her to Heaven. 1947– Débil é a Carne / The Foxes of Harrow, drama de época baseado em um romance de Frank Yerby, aproveitando bem a atmosfera sugestiva de New Orleans no tempo da escravidão, que serve de cenário para o romance agitado entre um jogador audacioso (Rex Harrison) e uma fidalga arrogante (Maureen O’Hara), porém com desequilíbrio rítmico; 1948 – Muralhas Humanas / The Walls of Jericho, drama evocando com mordacidade o ambiente de uma pequena cidade do Centro Oeste americano, que um bom grupo de atores (Anne Baxter, Linda Darnell, Cornel Wilde, Kirk Douglas, Ann Dvorak, Marjorie Rambeau) tenta em vão animar durante o desenrolar monótono do espetáculo. 1949 – Papai foi um Craque / Father Was a Fullback, comédia familiar e esportiva bem modesta; Bonequinha Linda / Oh, You Beautifull Doll, musical baseado em episódios da vida do compositor Fred Fisher (interpretado por S. Z. Sakall) com June Haver e Mark Stevens compondo o par romântico, conduzida sem grande vivacidade, mas repleta de boas canções, sem falar na presença sempre divertida de Sakall.

Gene Tierney em AS,mar foi Minha |

Deixei para o final o sexto grande melodrama de Stahl, Amar Foi Minha Ruína, de conteúdo sombrio, explorando uma situação tipicamente freudiana: um pai falecido e a filha que o idolatra. Esta heroína (Gene Tierney) com complexo de Édipo, casa-se com um homem (Cornel Wilde) que parece físicamente com seu progenitor e sua obsessão amorosa por ele (um verdadeiro incesto por interposta pessoa) leva-a até ao crime, ao aborto e ao suicídio. O filme contém algumas cenas antológicas (a cavalgada da heroína neurótica espalhando as cinzas de seu pai, o afogamento do jovem cunhado no lago sem que ela lhe preste socorro, a sua queda voluntária da escada) e uma belíssima fotografia em cores de Leon Shamroy (premiada com o Oscar), absolutamente crucial para o impacto do filme, pois realça e estiliza as paixões excessivas da heroína.

A LEGIÃO ESTRANGEIRA NO CINEMA (1912-1960)

Ela foi criada por ordem do Rei Luís Felipe da França em 1831 e, na primeira década do século vinte, surgiram os primeiros filmes sobre esta corporação, disseminando ainda mais a sua já consideravel fama, promovida através da literatura ou do teatro.

P. C. Wren

A imensa popularidade de “Beau Geste”, romance publicado em 1924 por um ex-legionário, Percival Christopher Wren, estabeleceu as bases para a maioria dos filmes de Hollywood sobre a Legião Estrangeira. Entretanto, o livro considerado como o primeiro romance sobre a Legião, “Under Two Flags”, não era sobre ela, mas sim sobre os Chasseurs d’Afrique, a unidade de cavalaria ligeira do Exército Francês. Ele foi escrito por uma mulher, Maria Louise de la Ramée (que assinava sob o pseudônimo de “Ouida”) e publicado em 1867. O romance de Ouida foi levado à tela pela primeira vez em 1912 através de dois filmes lançados no mesmo mês, o primeiro pela Tanhouser (Dir: Lucius Henderson com um elenco no qual se destacavam Katherine Horn (Cigarette), William Garwood, William Russell, Florence La Badie) e o segundo pela Gem (Dir: George Nicholls com Vivian Preston (Cigarette), Herschel Mayall, Janet Salisbury, Charles Perley).

Theda Bara em Under Two Flags

Duas adaptações seguintes surgiram em 1915 pela Biograph (Dir: Travers Vale com Louise Vale (Cigarette) Franklin Ritchie, Helen Bray, Herbert Barrington) e em 1916 pela Fox (Dir: J. Gordon Edwards com Theda Bara (Cigarette), Herbert Hayes, Stuart Holmes, Claire Witney). Hoje ninguém poderá ver Theda com Cigarette, a mestiça que pratica o último sacrifício levando o tiro direcionado para seu amante, porque o filme (aquí lançado com o título de Sob Duas Bandeiras) é considerado perdido.

As versões mais famosas dessa aventura romântica, ambas exibidas no Brasil com o título de Sob Duas Bandeiras, foram a de 1922 da Universal-Jewel (Dir: Tod Browning com Priscilla Dean (Cigarette), James Kirkwood, Stuart Holmes Ethel Grey Terry, John Davidson) e a de 1936 da Twentieth Century-Fox (Dir: Frank Lloyd com Claudette Colbert (Cigarette), Ronald Colman, Rosalind Russell, Victor MacLaglen, Nigel Bruce, Gregory Ratoff).

Victor MacLaglen, Rosalind Russel e Ronald Colman em Entre Duas Bandeiras 1936

Ronald Colman e Claudette Colbert em Sob Duas Bandeiras 1936

Na primeira versão ocorreu um desastre na filmagem em locação na cidade de Oxnard ao norte de Los Angeles, onde a areia da praia parecia com o Sahara (desde que a câmera não focalizasse o Oceano Pacífico). Para dar realismo ao passeio de camelo de Priscilla Dean através deste cenário de deserto, o diretor Tod Browning transportou várias máquinas equipadas com hélices de avião para simular uma tempestade de areia; porém uma tempestade de verdade enterrou as máquinas de vento. Levou duas semanas para desenterrar as máqinas e colocá-las para funcionar novamente. Na segunda versão Colman é o legionário disputado por Colbert e Russell e alvo da inveja do enciumado major, interpretado por McLaglen. A atriz francesa Simone Simon, contratada para ser Cigarette, foi despedida após duas semanas de filmagem a pedido do diretor Frank Lloyd, que não aguentou suas atitudes temperamentais. Frase da publicidade: “Um amor tão quente quanto as areias do Saara”.

A história da fraternidade inabalável entre três irmãos (Michael, Digby e John Geste) imaginada por P. C. Wren, cheia de aventura e mistério, foi transportada para a tela duas vêzes no período abordado neste artigo, resultando dois filmes excelentes, ambos produzidos pela Paramount: o Beau Geste / Beau Geste de 1926 (Dir: Herbert Brennon com Ronald Colman (Michael “Beau” Geste), Neil Hamilton (Digby), Ralph Forbes (John), Noah Beery, Mary Brian, Alice Joyce, William Powell, Victor MacLaglen) e o Beau Geste / Beau Geste de 1939 (Dir: William Wellman com Gary Cooper (Beau Geste), Robert Preston (Digby), Ray Milland (John), Brian Donlevy, Susan Hayward, J. Carrol Naish, Abert Dekker, Broderick Crawford).

Ralph Forbes, Ronald Colman e Neil Hamilton em Beau Geste 1926

Ray Milland, Gary Cooper e Robert Preston em Beau Geste 1939

O primeiro filme, foi rodado nas áreas desérticas de Yuma, no Arizona fotografadas com efeitos de luz e sombra (por J. Roy Hunt) que, somados às esplêndidas sequências de ação e ao desempenho dos atores, principalmente Noah Beery como o cruel Sargento LeJaune, abrilhantaram o espetáculo, fazendo com que o nome de Brennon ficasse tão conhecido do público como os de D.W, Griffith e Cecil B. De Mille. No segundo filme, fotografado por Theodor Sparkhul e Archie Stout, o Saara também foi reconstruído no deserto de Yuma, Arizona e mais uma vez o ator que interpretou o comandante sádico do Forte Zinderneuf, Brian Donlevy, se destacou em cena, merecendo uma indicação para o Oscar. Hans Dreier e Robert Odell também concorreram ao prêmio da Academia na categoria de Melhor Direção de Arte. O filme estava programado para ser o primeiro filme em Technicolor da Paramount, dirigido por Henry Hathaway em 1936, porém o estúdio depois mudou esta decisão.

Gary Cooper e Evelyn Brent em Beau Sabreur

“Beau Geste” foi o primeiro de uma tetratologia de romances de P.C. Wren, que seria seguido por “Beau Sabreur”, “Beau Ideal” e “Good Gestes”. O segundo e o terceiro foram adaptados para o cinema e o quarto nunca foi filmado. Beau Sabreur / Beau Sabreur / 1928, foi produzido pela Paramount (Dir: John Waters com Gary Cooper, Evelyn Brent, Noah Beery, William Powell). Beau Ideal / Beau Ideal / 1931 foi produzido pela RKO (Dir: Herbert Brenon com Lester Vail, Leni Stengel, Ralph Forbes, Don Alvarado, Loretta Young, Irene Rich).

A era silenciosa gerou outros filmes sobre a legião Estrangeira: The Dishonorable Medal  / 1914 (Dir: Christy Cabanne  (Supervisão de D. W. Griffith) com Miriam Cooper, George Gebhart, Raoul Walsh, Frank Bennett); Captain Macklin / 1915 (Dir: John O’Brien com Jack Conway, Lillian Gish, Spottiswoode Aitken, W.E. Lowery); The Unknown / 1915 (Dir: George Melford com Lou Tellegen, Theodore Roberts, Dorothy Davenport, Raymond Hatton); A Soldier of the Legion / 1917 (Dir: Ruth Ann Baldwin com Irene Hunt, Leo Pierson, Grace Marvin, Noble Johnson); Os Mouros do DesertoThe Man Who Turned White / 1919 relançado como  The Sheik of Araby (Dir: Park Frame com H.B. Warner, Barbara Castleton, Wedgewood Nowell, Carmen Phillips); O Filho do Sahara / A Son of the Sahara (Dir: Edwin Carewe com Claire Windsor, Bert Lytell, Walter McGrail, Rosemary Theby); Amor e Glória / Love and Glory / 1924 (Dir: Rupert Julian com Madge Bellamy, Charles de Roche, Wallace MacDonald, Ford Sterling); A Escada de CaracolThe Winding Stair / 1925 (Dir: Griffith Wray com Edmund Lowe, Alma Rubens, Warner Oland, Mahlon Hamilton); O Novo Mandamento / The New Commandment / 1925 (Dir: Howard Higgin com Blanche Sweet, Ben Lyon, Holbrook Blun, Clare Eames);  Paixão Oculta / The Silent Lover / 1926 (Dir: George Archimbaud com Milton Sills, Natalie Kingston, William Humphrey, Arthur  Edmund Carewe); A Mulher Fatídica / The Forbidden Woman /  1927 (Dir: Paul Stein com Joseph Schildkraut, Jetta Goudal, Victor Varconi, Ivan Lebedeff); A Legião Estrangeira / The Foreign Legion / 1928 (Dir: Edward Sloman com Lewis Stone, Mary Nolan, Norman Kerry, Crawford Kent).

Gary Cooper, Marlene Dietrich e Adolphe Menjou em Marrocos

O advento do som no final dos anos vinte não interrompeu a produção de filmes sobre a Legião Estrangeira. O filme mais importante nesta época foi Marrocos / Morocco / 1930 (Dir: Josef von Sternberg com Marlene Dietrich, Gary Cooper, Adolphe Menjou, Ulrich Haupt, Juliette Compton). Esta aventura romântica foi o primeiro filme americano de Marlene Dietrich, com momentos de refinamento estético do diretor austríaco que a trouxe para Hollywood. A cena em que Marlene canta vestida de cartola e casaca e dá um beijo na boca de uma mulher, inspirou os publicistas, que a anunciaram como “a mulher que todas as mulheres querem ver”. A ambiguidade sexual se tornaria a marca registrada da estrela, e seus trajes masculinos ditaram a moda. O fotógrafo Lee Garmes filmou nuitas das cenas ao meio-dia. Aproveitando a luz natural do sol, coisa rara na época. Ele, o cenógrafo Hans Dreier, Marlene e Sternberg foram indicados para o Oscar. Adolph Zukor confessaria mais tarde a Sternberg que Marrocos salvou a Paramount da falência.

John Boles e Carlotta King em A Canção do Deserto

No período sonoro foram ainda realizados: Amor no Deserto / Love in the Desert / 1929 (Dir: George Melford com Olive Borden, Hugh Trevor, Noah Beery, Frank Leigh); Dois Homens e Uma Mulher / Two Men and a Maid / 1929 (Dir: George Archainbaud com William Collier Jr., Alma Bennett, Eddie Gribbon, George E. Stone); A Canção do Deserto / The Desert Song / 1929 (Dir: Roy Del Ruth, musical com John Boles, Carlotta King, Louise Fazenda, Johnny Arthur); Homem dos Meus Sonhos / Women Everywhere / 1930 (Dir: Alexander Korda com Fifi D’Orsay, J. Harold Murray, George Grossmith, Rose Dione); A Ilha do Inferno ou A Ilha do Inferno  / Hell’s Island /  1930 (Dir: Edward Sloman com Jack Holt, Ralph Graves, Dorothy Sebastian, Richard Cramer); Renegados / Renegades / 1930 (Dir: Victor Fleming com Warner Baxter, Myrna Loy, Noah Beery, Bela Lugosi); Beija-me Outra Vez / Kiss Me Again / 1931 (Dir: William Seiter, musical com Walter Pidgeon,  Bernice Claire,  Edward Everett Horton, June Collyer); The Red Shadow / 1931 (Dir: Roy Mack, curta metragem musical com Alexander Gray, Bernice Claire, Max Stamm, Grace Worth;  Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers / 1933 (Seriado da Mascot com Jack Mulhall. Raymond Hatton, Francis X. Bushman Jr., John Wayne, Ruth Hall, Lon Chaney Jr.); Vidas sem Rumo / The Devil’s in Love / 1933 (Dir: William Dieterle com Victor Jory, Loretta Young, Vivienne Osborne, David Manners); A Legião dos Perdidos / The Legion of Missing Men / 1937 (Dir: Hamilton MacFadden com Ralph Forbes, Ben Alexander, Hala Linda, George Regas); Legionário à Força / Trouble in Morocco / 1937 (Dir: Ernest B. Schoedsack com Jack Holt, Mae Clarke, C. Henry Gordon, Harold Huber); Aventura do Sahara / Adventure in Sahara / 1938 (Dir: D. Ross Lederman com Paul Kelly, C. Henry Gordon, Lorna Gray, Marc Lawrence, Dick Curtis); Tambores do Deserto / Drums of the Desert / 1940 (Dir: George Waggner com Ralph Byrd, Lorna Gray, Mantan Moreland, George Peter Lynn); A Canção do Deserto / The Desert Song / 1944 (Dir: Robert Florey, musical com Dennis Morgan, Irene Manning, Bruce Cabot, Lynne Overman, Gene Lockhart, Faye Emerson, Victor Francen); Legião Sinistra / Rogue’s Regiment / 1948 (Dir: Robert Florey com Dick Powell, Vincent Price, Marta Toren, Stephen McNally);

George Raft em Posto Avançado em Marrocos

GiIbert Roland e Burt Lancaster emHomens do Deserto

Carlos Thompson e Yvonne De Carlo em O Forte da Coragem

Posto Avançado em Marrocos / Outpost in Morocco / 1949 (Dir: Robert Florey com George Raft, Marie Windsor, Akim Tamiroff, John Litel); Homens do Deserto / Ten Tall Men / 1951 (Dir: Willis Goldbeck com Burt Lancaster, Gilbert Roland, Jody Lawrence, Kieron Moore,  Mike Mazurki); O Forte da Coragem / Fort Algiers / 1953 (Dir: Lesley Selander com Yvonne De Carlo, Carlos Thompson, Raymond Burr,Leif Erickson, Anthony Caruso); Legião do Deserto / Desert Legion / 1953 (Dir: Joseph Pevney com Alan Ladd, Richard Conte, Arlene Dahl, Akim Tamiroff, Anthony Caruso); A Canção do Sheik / The Desert Song / 1953 (Dir: Bruce Humberstone, musical com Kathryn Grayson, Gordon MacRae, Steve Cochran, Raymond Massey); Um Salto no Inferno / Jump into Hell / 1955 (Dir: David Butler com Jack Sernas, Kurt Kasnar, Arnold Moss, Peter Van Eyck, Marcel Dalio); Areias do Deserto / Desert Sands / 1958 (Dir: Lesley Selander com Ralph Meeker, Marla English, J. Carrol Naish, John Smith, John Carradine); No Umbral da China / China Gate / 1957 (Dir: Samuel Fuller com Gene Barry, Angie Dickinson, Nat “King” Cole, Lee Van Cleef); Desert Hell / 1958 (Dir: Charles Marquis Warren com Brian Keith, Barbara Hale, Richard Denning, John Desmond); Legion of the Doomed / 1958 (Dir: Thor Brooks com Bill Williams, Dawn Richard, Anthony Caruso, Kurt Kreuger).

Como a Legião Estrangeira combateu em várias partes do globo era natural que surgissem filmes sobre ela em outros países, porém, neste artigo, vou mencionar apenas os mais importantes realizados na França.

Em 1924 o seriado Os Filhos do Sol / Les Fils du Soleil, produzido pela Societé des Cineromans / Pathé-Consortium-Cinema (Dir: René le Somptier com Marquisette Bosky, Leila Djali, Georges Charlin, Joe Hamman, Mario Nasthasio), eletrizou as platéias, não só da França como do Brasil, contando em 8 episódios como um sheik árabe cruel, Abd el Kassem (Mario Nasthasio) governava uma região do Marrocos graças às armas vendidas para ele pelo Barão von Horn (Joe Hamman), financista internacional igualmente cruel até que Hubert de Beauvoisin (Georges Charlia), cadete brilhante de Saint-Cyr (o equivalente francês a West Point) é obrigado a ingressar na Legião. após ter sido vítima de uma armação por von Horn, que estava apaixonado por sua noiva Aurore (Marquisette Bosky). Ela e seu pai também são obrigados a partir para o Marrocos, onde o sheik se apaixona pela moça e a sequestra. No final, de Beauvoisin consegue libertar sua noiva, vencer o sheik e punir von Horn. Os capítulos receberam os seguintes títulos em português: 1. Desonrosa Intriga. 2. O Capitão Youssouf. 3. Cristão e Muçulmana. 4. A Justiça do Emir. 5. A Evasão. 6. A Guerra Santa, 7. A Derrota, 8. A Honra Triunfa.

Pierre Richard-Willm e Françoise Rosay em A Última Cartada

Em 1934, Última Cartada / Le Grand Jeu (Dir: Jacques Feyder com Marie Bell, Pierre Richard-Willm, Françoise Rosay, Charles Vanel, Georges Pitöeff, Line Clévers, Pierre Larquey) desenvolvia o seguinte enredo: Pierre Martel  (Pierre Richard-Willm) se desonrou por Florence (Marie Bell), amante indigna. Ele se alista na Legião Estrangeira e encontra Irma (Marie Bell), prostituta desmemoriada muito parecida com Florence, no cabaré de Clément (Charles Vanel) e de sua esposa Madame Blanche (Françoise Rosay), que é cartomante. Ao receber uma herança, ele decide voltar para a França na companhia de Irma, mas se depara com Florence, que o rejeita novamente. Ele dá todo o seu dinheiro para Irma e promete seguí-la nos próximos dias. Após a partida do navio, Pierre se alista de novo na Legião Estrangeira e Blanche prediz sua morte. Impregnado de fatalismo e desesperança existencial, o filme já anuncia o realismo poético. Feyder deu credibilidade a uma trama romântica convencional e a elevou ao nível de um drama pirandelliano, utilizando os cenários e o quadro geográfico para completar a psicologia dos personagens. Na cena final, Pierre se embebeda com Blanche no cabaré. Ele pede a ela que leia as cartas. Um par de noves – prenúncio da morte – aparece. Pierre se despede, sabendo que vai partir em sua última missão. Blanche espalha as cartas e elas caem no chão. Ela se ajoelha, soluçando, e as apanha uma a uma. Ouve-se a marcha do regmento que parte. A câmera recua lentamente, afastando-se de Blanche, como se estivesse com medo de ser contagiada pelo seu desespêro.

Annabella, Jean Gabin e Robert Le Vigan em A Bandeira

Em 1936, a história de A Bandeira / La Bandera (Dir: Julien Duviviver com Jean Gabin, Annabella, Robert Le Vigan, Aimos, Pierre Renoir, Viviane Romance) tem início quando, depois de matar um homem em Montmartre, Pierre Gilieth (Jean Gabin) se alista na Legião Estrangeira espanhola, onde se liga a dois compatriotas, Mulot (Aimos) e Lucas (Robert Le Vigan). Em um café, Gilieth apaixona-se por Aischa (Annabella), uma jovem dançarina berbere e se casa com ela no meio das prostitutas e dos soldados. Seu companheiro de armas, Lucas, é na realidade um policial, que seguia sua pista desde Paris, visando a uma recompensa. O batalhão é enviado para um posto avançado. O forte é cercado, os legionários caem um após o outro. Só resta Lucas, de pé, no meio de seus camaradas mortos. Desde o início, Gilieth está marcado pelo destino e pela fatalidade, pedras angulares sobre as quais uma faceta essencial do “mito Gabin”vai ser construída. Embora tendo de lidar com certos convencionalismos do gênero aventura colonialista, Duvivier cria algumas sequências notáveis : o crime contado por meio de uma elipse – a jovem embriagada e a mancha de sangue que ela descobre no seu vestido; o tumulto no café apanhado por uma câmera oblíqua oscilante; a cusparada no rosto do policial encoberto sob a bandeira da legião; Mulot bebendo a água envenenada debaixo do fogo inimigo e morrendo feliz com a sede aliviada; a chamada geral terminada a luta, a que só um homem responde.

Danielle Darrieux e Geroges Marchal em História de um Pecado

Outro filme francês muito conhecido foi História de um Pecado / Bethsabée / 1947 (Dir: Leonide Moguy com Danielle Darrieux, Georges Marchal, Jean Murat, Paul Meurisse, Andrée Clement, Pierre-Louis), adaptação de um romance de Pierre Benoit, inspirado na história da heroína bíblica.  No melodrama, Arabella (Danielle Darrieux) reune-se com seu noivo, o capitão Dubreil (Georges Marchal) em um quartel de spahis nos confins do Marrocos. Arabella está separada de seu primeiro marido, Lucien Sommerville (Paul Meurisse), que sucumbiu ao alcoolismo, porque ela o deixou e ignora que Sommerville é colega de Dubreil. Arabella suplica-lhe que lhe conceda o divórcio, mas ele se recusa. Quando Sommerville vê Arabelle nos braços de Dubreil, passa a atormentá-la, acusando-a de ter sido a causa do suicídio de um amigo, que era loucamente atraído por ela. O comandante do forte (Jean Murat), também sensível aos encantos de Arabella, tem uma filha, Évelynne (Andrée Clement) que, apaixonada por Sommerville, sente ciúmes de Arabella. Esta tenta explicar a Dubreil que não é responsável pelas paixões que desperta, porém ele acusa sua noiva de traição. O pai de Évelyne envia Sommerville para uma missão no lugar de Dubreil e o militar encontra a morte, mas a tempo de perdoar Arabella. Évelyne, enraivecida, mata então Arabella com um tiro de revólver. Moguy não se compara a Feyder e Duvivier, mas o elenco sustenta o espetáculo.

No decorrer dos anos 30/40, surgiram outros filmes francêses sobre a Legião, : Les Hommes Sans Nom /1937 (Dir: Jean Vallére com Constant Remy, Tania Fodor, Thomy Bourdelle, Lucas Gridoux); Legions D’Honneur / 1938 (Dir: Maurice Gleize com Charles Vanel, Abel Jacquin, Marie Bell, Pierre Renoir, Jacques Baumer); Le Chemin de L’Honneur / 1939 (Dir: Jean-Paul Paulin com Renée Saint Cyr, Henri Garat, Marcelle Geniat, Constant , André Lefaur, Fernand Charpin); Face au Destin / 1939 (Dir:  Henri Fescourt com Georges Rigaud, Jules Berry,  Gaby Paul Bernard, Gaby Sylvia, Joselyne Gael, Jean Max); Fort de la Solitude / 1948 (Dir: Robert Vernay com Claudine Dupuis, Alexandre Rignault, Lucien Nat. Em 1954 Robert Siodmak dirigiu sem inspiração a refilmagem de Le Grand Jeu, aqui intitulada A Grande Paixão, com Gina Lollobrigida, Jean-Claude Pascal, Arletty, Peter Van Eyck, Raymond Pellegrin.

Oliver Hardy e Stan Laurel em Paixonite Aguda

Desde os tempos do cinema mudo a Legião Estrangeira serviu de motivo para os comediantes: O Gordo e o Magro (Beau Gênio ou Dois Recrutas no Deserto / Beau Hunks / 1931; Os Três Patetas (Legionários de Ocasião / We We Monsieur / 1938; Abbot e Costello (Abott e Costello na Legião Estrangeira / Abott and Costello in the Foreign Legion / 1950; Charles Chase (Arabian Tights / 1933), Fernandel (Un de la Legion) e não posso deixar de terminar este artigo citando uma sequência antológica de Stan e Oliver em Paixonite Aguda / The Flying Deuces / 1939 (Dir: Edward Sutherland), como os dois recrutas cantando e dançando “Shine on Harvest Moon” com uma graça e leveza encantadoras, um dos instantes inesquecíveis da maior dupla cômica do Cinema.