FILME DOCUMENTÁRIO AMERICANO 1920-1940

O documentário é uma das três modalidades básicas da criação cinematográfica, sendo as outras a ficção narrativa e a vanguarda experimental. Antes dos anos vinte foram realizados documentários ocasionais (vg. In the Land of the Head Hunters / 1914 e In the Land of the War  Canoes / 1914 de Edward S. Curtis), mas estes não constituíram um  gênero  significativo.

No decorrer da década, entretanto, o documentário atingiu uma nova estatura, na medida em que ficou identificado com o cinema artístico. Podemos distinguir três tendências principais nos documentários daquela época: o exotismo, o registro direto da realidade e a compilação.

O documentário exótico foi particularmente importante nos Estados Unidos. Ele chamou a atenção do público em 1922 com a exibição de Nanook do Norte / Nanook of the North / 1922 de Robert Flaherty.

Nascido no Michigan, de origem irlandesa, Flaherty era filho do proprietário de uma mina de ferro no Canadá.  Ainda criança, acompanhava seu pai nas suas prospecções, vivendo meses na companhia de mineiros e índios. Ali nasceu seu gosto pela natureza e pelos grandes espaços.

Em 1910, aos vinte e seis anos de idade, Flaherty foi contratado por Sir William Mackenzie, o construtor Canadian Northern Railway, para procurar jazidas de ferro na área da baía de Hudson. Na sua segunda e terceira expedição, nos anos de 1914 e 1915, Flaherty levou uma câmera cinematográfica e filmou a vida dos esquimós. Em uma quarta expedição, obteve mais imagens porém os negativos foram destruídos em um incêndio. Flaherty convenceu-se de que o desastre fôra benéfico, porque não estava satisfeito com o filme, que parecia um travelogue – “uma cena disto e daquilo, nenhuma relação entre elas, nenhum enredo”.

Ele então decidiu voltar ao Grande Norte e fazer um filme diferente, centralizado em um esquimó e sua família, revelando eventos característicos de suas vidas, com a intenção de evocar o espírito de um povo esquecido.

Flaherty obteve o patrocínio da firma francêsa Revillon Frères e partiu novamente para a baía de Hudson. Como personagem principal de seu filme, ele escolheu Nanook, um caçador da nação inuíte (chamado na realidade Allariallak), que era solteiro, e lhe deu duas mulheres e dois filhos postiços.

Allariallak e seus companheiros encenaram a caçada das morsas para a câmera mas ela era anacrônica, pois os inuítes aparecem usando arpões e facas quando, na época em que o filme foi feito, eles dispunham de armas de fogo. Para registrar imagens no interior do iglu de Nanook,  Flaherty retirou a calota gelada do teto e rodou a céu aberto as cenas em que a família esquimó apareceu dormindo. Para exprimir sua visão, o cineasta utilizou  todos os procedimentos do cinema de ficção: decupagem, direção de atores, construção dramática, reconstituição de acontecimentos etc.

O filme de Flaherty foi chamado de “romântico” pelo fato de não estar refletindo a vida corrente daquelas pessoas mas a imagem que elas tinham de sua vida tradicional. Entretanto, como observou Erik Barnouw  (Documentary – A History of Non-Fiction Film, Oxford University, 1993), “a auto-imagem de um povo pode ser um ingrediente crucial em sua cultura e digno de ser registrado. Os antropologistas, embora conscientes da lente distorcida, a estudam com carinho. E, com efeito, foi o que Flaherty fez”.

Em toda a sua obra, Flaherty comportou-se mais como um artista do que como um documentarista. Ou melhor, seus documentários são poéticos e pouco têm a ver com o que chamamos hoje de documentário, o qual exige o respeito absoluto dos dados brutos da matéria filmada no momento,  e nos lugares em que ela é captada pela câmera. Como ele próprio comentou: “One often has to distort a thing to catch its own value” (Muitas vezes a gente tem que distorcer uma coisa para captar seu verdadeiro valor).

As grandes companhias de Hollywood recusaram-se a distribuir Nanook do Norte, porém a companhia independente Pathé Exchange exibiu-o no Cinema Capitol de Nova York. O filme fez grande sucesso nos Estados Unidos e teve um êxito substancial no exterior, sendo aclamado por quase todos os críticos.

Em consequência, a Paramount patrocinou a expedição de Flaherty a Samoa, para dirigir um filme semelhante, Moana. Ele partiu em 1923 e verificou que os nativos haviam adotado costumes ao estilo ocidental. Flaherty persuadiu seus “atores” a voltar a usar seus trajes tradicionais a fim de incutir drama no filme, reencenando um doloroso e obsoleto ritual de tatuagem. A esta altura, Flaherty já havia adquirido o hábito de ultrapassar o tempo previsto para a filmagem e filmar quantidades imensas de celulóide. Moana (que recebeu o título estranhíssimo em português de O Homem Perfeito) só ficou pronto para o lançamento em 1926 e não obteve o mesmo sucesso de Nanook do Norte.

Embora nenhum movimento ou escola tivesse se formado em torno dele, o exemplo de Flaherty foi seguido de uma maneira geral por outros americanos que focalizaram a vida de povos-primitivos. A dupla Ernst B. Schoedsack e Merian C. Cooper realizou Náufragos da Vida / Grass, A Nation’s Battle for Life / 1925 (também financiado e distribuído pela Paramount), que registrava uma migração perigosa de nômades iranianos  pelas montanhas da Persia à procura de pastagens para seus rebanhos. A travessia do caudaloso rio Karun, com perdas de vidas entre homens, mulheres, crianças, cabras, ovelhas, macacos, cavalos, proporcionou uma das mais espetaculares sequências jamais filmadas. Porém, como observou Barnouw, os migrantes continuaram sendo uma massa de estranhos para o público, nenhum retrato individual emergiu deles. E a ênfase final não recaiu sobre o que eles haviam suportado mas – em uma impetuosa exibição de egoísmo –  no feito heróico dos realizadores.

Ainda sob encomenda da Paramount, a mesma dupla realizou Chang / Chang / 1927, um relato – que parece ter sido pre-planejado em Hollywood – sobre uma família das selvas siamêsas lutando pela sobrevivência contra animais hostís. Em uma cabana construída sobre pilotis, vivem Kru, sua mulher, seus três filhos e o macaco Bimbo. Uma pantera ataca a cabra de Kru, e um tigre mata seu búfalo.  Kru reúne os homens de uma aldeia próxima, para caçar os felinos, que são abatidos. Pouco tempo depois, a família descobre seu campo de arroz devastado, e o rastro de Chang, um filhote de elefante. Kru prepara uma armadilha para capturá-lo, com a intenção de domesticá-lo. Porém, subitamente, a mãe do elefantezinho surge para libertar seu filhote e destrói a morada de Kru. A família atravessa a selva e vai buscar refúgio na aldeia. E então aparece um perigo maior: uma grande manada de elefantes. Filmado na nova técnica do Magnascope, e exibida com um score especial de Hugo Riesenfeld, Chang foi um grande sucesso crítico e financeiro. Posteriormente, os dois cineastas levariam seu interesse pelo exótico para um filme totalmente de ficção, o imensamente exitoso King Kong / King Kong / 1933.


Na primeira metade do século vinte, Martin (Martin Elmer Johnson) e Osa Johnson (Osa Helen Johnson) captaram a imaginação do público através de seus filmes e livros de aventura em terras exóticas e distantes. Em 1917, já tendo feito um travelogue em 1912, o casal partiu para as ilhas Novas Hébridas e Salomão, onde filmaram seu encontro com uma tribu chamada Big Nambas, de uma das ilhas do arquipélago Novas Hébridas, Malakula. Com o material filmado, fizeram Among the Cannibal Isles of the South Seas / 1918. Entre seus filmes mais conhecidos podem ser citados: Jungle Adventures / 1921, Headhunters of the South Seas / 1922, Entre Bichos e Feras Africanas / Trailing African Wild Animals /1923, Simba / Simba, King of the Beasts/ 1928, Across the World with Mr. and Mrs. Johnson / 1930, Congorilla / Congorilla / 1932, Wonders of the Congo / 1934, Baboona / Baboona / 1935, Bornéo / Borneo / 1937.



O tom predominante nas suas realizações era a auto-glorificação. Os Johnsons estavam constantemente diante das câmeras em sequências demonstrando a sua coragem e o seu humor. Sua idéia de humor, por exemplo, era dar um charuto para um pigmeu e aguardar até que ele ficasse enjoado; ou dar para um outro pigmeu uma bola para ele assoprar e ver sua reação quando ela explodia; ou dar cerveja para um macaco e ver o resultado.  Durante uma tomada de um crocodilo abrindo sua mandíbula, a narração de Johnson comentava: “Nossa, que lugar para se jogar lâminas de barbear velhas”. Martin faleceu em um desastre de avião. Osa ficou gravemente ferida no acidente. Mais tarde prestou assistência a Henry King na filmagem de As Aventuras de Stanley e Livingstone / Stanley and Livingstone / 1939. Em 1940, ela produziu Casei-me com a Aventura / I Married Adventure, cinebiografia de sua vida com Martin (traduzida para o português e lançada pela  Editôra José Olympio) e, em 1942, African Paradise.

Na mesma linha, o caçador e “colecionador de animais selvagens”, Frank Buck (Frank Howard Buck) ajudou a encher vários jardins zoológicos e ficou muito conhecido pelo seu best seller “Bring Em Back Alive”. Em 1932, ele foi ator e narrador de um documentário passado nas selvas da Malásia, com o mesmo título do seu livro. O filme (que passou noBrasil com o título de Agarrem-nos Vivos), dirigido por Clyde E. Elliott e fotografado por Nick Cavaliere e Carl Burger, combinava trechos engraçados (vg. a vã tentativa dos nativos de transportar um filhote de elefante capturado) e cenas das lutas entre as grandes feras, inoculadas com efeitos sonoros e quase sempre pre-planejadas. A passagem mais longa e excitante era o confronto entre um tigre e uma cobra pitão, que deixava o público quase sem fôlego. Buck participou ainda de mais dois documentários, Carga Selvagem / Wild Cargo / 1934 e Unhas e Dentes / Fang and Claw / 1935 e de uma compilação desses três filmes citados (Aventuras na Selva / Jungle Cavalcade / 1941). Depois, funcionou como narrador em Jacaré, o Assassino do Amazonas / Jacaré, The Killer of the Amazon / 1942 (com música de Miklos Rosza) e como ator em  Tiger Fangs / 1943) e no seriado, A Ameaça das Selvas / Jungle Menace / 1937.

Desde o seu início, o documentário americano de registro direto da realidade esteve profundamente envolvido com posições políticas, geralmente de esquerda, e abordou os temas principais dos anos trinta, como Depressão, o desemprêgo e a pobreza, o sindicalismo e a crescente ameaça do fascismo no exterior.

Em 1930, a Worker’s Film and Photo League, foi organizada em Nova York, com o objetivo de treinar diretores e fotógrafos para produzirem material de mídia que mostraria a “verdadeira imagem” da vida nos Estados Unidos, isto é, do ponto de vista marxista – uma imagem que não era revelada pelas agências de notícias, cine-jornais ou imprensa capitalista. Entre seus consultores ou associados estavam os fotógrafos Margaret Bourke-White, Berenice Abbott, Leo Hurwitz, Herbert Kline, Willard Van Dyke, Irving Lerner, Ralph Steiner e Paul Strand; Elia Kazan, ator e depois diretor de teatro e cinema; o dramaturgo Elmer Rice; os atores Burgess Meredith e James Cagney; Slavo Vorkapich, téorico do cinema e um especialista no montage. (sequência de montagem); Thomas Brandon,  futuro  distribuidor de filmes em 16mm para cineclubes e escolas.

Os primeiros filmes da Film and Photo League (ela depois retirou a palavra Worker’s da sua denominação) apenas registravam comícios, greves e marchas contra a fome que ocorriam por todo o país. (vg. National Hunger March / 1931, Hunger: The National Hunger March to Washington / 1932, Bonus March / 1932). A ausência de uma forma cinematográfica sofisticada era compensada por uma intensidade emocional e um compromisso político apropriado para o momento histórico no qual esses filmes estavam sendo realizados.

Outras atividades da Film and Photo League incluíam a realização de palestras em reuniões da esquerda, redação de críticas denunciando os filmes de Hollywood e a organização de protestos contra a exibição de filmes nazistas.

Como observaram Jack C. Ellis e Betsy A. McLane (em A New History of Documentary Film, Continuum, 2006), uma divisão crescente nesse grupo de esquerda desenvolveu-se entre os que queriam continuar apegados aos cine-jornais de agitação e propaganda e filmes polêmicos e aqueles que achavam que a causa da revolução (ou do progresso social – as intenções políticas variavam de pessoa a pessoa) poderiam ser melhor servidos por filmes com maior apelo estético e emocional. Este último contingente alegava que através da artisticidade fílmica eles poderiam de fato serem capazes de persuadir os não persuadidos, enquanto que as formas padronizadas e óbvias de propaganda que estavam sendo usadas eram essencialmente uma pregação para os que já haviam sido convertidos.

Em 1934, três membros importantes – Leo Hurwitz, Ralph Steiner e Irving Lerner – deixaram a Film and Photo League para formar a Nykino (obviamente uma abreviação russonizada para New York Cinema), da qual passaram a fazer parte também Lionel Berman, Sidney Meyers, Ben Maddow e Paul Strand. Pie in the Sky / 1934 com Elia Kazan, Molly Day Thatcher, Ralph Steiner e Irving Lerner, uma sátira às promessas feitas para os pobres durante a Depressão, foi o primeiro lançamento da Nykino. No mesmo ano, Paul Strand realizou Redes / 1937, documentário social encarregado pelo governo mexicano, trabalhando em colaboração com vários artistas como Carlos Chávez, Henwar Rodakiewicz e Fred Zinnemann. O assunto tratado era a revolta dos pescadores da região de Alvarado, explorados por um negociante sem escrúpulos. A Nykino tornar-se-ia subsequentemente a Frontier Films, cuja produção veremos adiante ao falarmos sobre os documentários não-governamentais.

Ao lado desses filmes patrocinados pela esquerda, um outro, A Marcha do Tempo / The March of Time, custeado pela direita (ou, no mínimo, pelo centro), representada pela Time-Life, Inc., ofereceu uma nova e diferente espécie de jornalismo cinematográfico, um cruzamento entre o cine-jornal e o documentário , usando sequências de atualidades, porém combinando-as com  dramatizações das notícias.

Eric Barnouw entende que a ambiência dos acontecimentos tal como descrita em A Marcha do Tempo era quase sempre inteiramente uma criação da Time e não tinha caráter de um “documentário” ou “cine-Jornal”. Henry Luce, o fundador da Time-Life, Inc., definia o estilo da série como “falsificação com submissão à verdade”. Louis de Rochemont dizia que era “jornalismo pictórico”. Quanto ao formato, seria uma revista cinematográfica, porque tinha o dobro (vinte minutos) da duração de um cine-jornal comum e oferecia uma cobertura mais aprofundada (e provocativa)  das histórias individuais.

A série cinematográfica foi precedida por um programa radiofônico semanal com o mesmo título, criado por Roy E. Larsen, gerente geral da revista Time (depois editor da revista Life e presidente da Time, Inc.), que também foi, de início, responsável pela série cinematográfica, posteriormente comandada por Louis de Rochemont.

O programa radiofônico, narrado alternadamente por Ted Housing, Westbrook Van Voohris e Harry Von Zell, usava atores profissionais para interpretar o papel de celebridades conhecidas, cujas vozes eram imitadas em recriações das notícias da semana. Entre os atores estavam Agnes Moorehead, Nancy Kelly, Jeanette Nolan (que costumavam interpretar Eleanor Roosevelt), Art Carney, Bill Adams and Staats Cotsworth (Franklin D. Roosevelt), Dwigth Weist (Adolph Hitler), Edwin Jerome (Josef Stalin), Ted de Corsia (Huey long,  Herbert Hoover, Mussolini), Maurice Tarplin (Winston Churchill), Gary Merrill, Ray Collins, Pedro de Cordoba, Porter Hall, Arnold Moss, Paul Stewart, Juano Hernandez, Everett Sloane, John McIntire e muitos outros (os nomes e personagens de todos estão relacionados em On the Air – The Encyclopedia of Old-Time Radio de John Duning  (Oxford University, 1998), inclusive o ainda muito jovem Orson Welles.

A série cinematográfica A Marcha do Tempo foi o protótipo americano do “documentário de compilação”, introduzido pioneirísticamente por Esfir (Esther) Shub na União Soviética (vg. Padenie dinasti Romanovykh / 1927). Através de sua narração, pronunciada em um tom apocalíptico por Westbrook Van Voorhis, referido sempre como “A Voz do Time” (e, às vezes, irreverentemente, como “A Voz de Deus”), era anunciada nas marquises dos cinemas antes do filme principal de longa-metragem. No auge de seu sucesso, no final dos anos trinta e nos anos da Segunda Guerra Mundial, foi vista nos Estados Unidos por mais de vinte milhões de pessoas por mês em nove mil salas de projeção e também distribuída internacionalmente, inclusive no Brasil. Em 1937, a série recebeu um Oscar da Academia por ter “revolucionado” os cine-jornais e seu estilo foi frequentemente imitado e parodiado, de maneira mais memorável por Orson Welles com o seu “News on the March” em Cidadão Kane / Citizen Kane/ 1941. Ao todo foram 204 edições regulares entre 1935 e 1951, distribuídas sucessivamente pela First Division, RKO e Twentieth Century-Fox, descritas pormenorizadamente no livro “The March of Time”, de Raymond Fielding ( Oxford University, 1978).

Em 1942, o produtor Frederic Ullman, Jr. desenvolveu para a RKO Assim é a America / This is America, série devotada primordialmente aos valores das pequenas cidades americanas. Nas suas 112 edições, abordou vários assuntos mas seu foco era limitado, quase sempre enfatizando a América tradicional.  Compunha-se de compilações de cine-jornais cobrindo os acontecimentos históricos nos Estados Unidos do final da Primeira Guerra Mundial até 1933. Os filmes tinham entre quinze e vinte minutos de duração e em quase todos o narrador, Allois Havrilla, falava como um cidadão comum, e não no estilo estentório de Van Voorhis, que caracterizava A Marcha do Tempo. Muitos episódios foram dirigidos por Richard Fleischer e pelo mestre de sequência de montagem, Vlavko Vorkapich.

A Film and Photo League e A Marcha do Tempo haviam sido precursores, de certa forma, porém o documentário no sentido institucional (ou no sentido de John Grierson) atraindo e educando os cidadãos para os assuntos do Estado – teve início em junho de 1935, quando Rexford Guy Tugwell, chefe da récem-formada Resettlement Administration, tomou a decisão de usar os filmes para interpretar  o programa e os objetivos da organização. A Resettlement Administration tinha como escopo ajudar os fazendeiros que estavam sendo obrigados a deixar suas terras por causa da terrível sêca nas Grandes Planícies, causada pelo Dust Bowl (fenômeno climático de tempestades de areia que atingiu os Estados Unidos na década de trinta e durou quase dez anos).

O crítico de cinema Pare Lorentz, convenceu Tugwell de que o que ele precisava era um novo tipo de filme dramático / informativo / persuasivo. Assim nasceu The Plow That Broke The Plains / 1936, marco do filme documentário americano, que abriu um novo caminho, juntando perfeitamente imagem pictórica, música sinfônica e verso livre poético, com muita artisticidade. Ideologicamente, ele resumia indelevelmente os esforços do New Deal de Franklin Delano Roosevelt. Foi o primeiro filme criado pelo Governo dos Estados Unidos para distribuição comercial.

Lorentz nunca havia feito um filme e contratou como cameramen Ralph Steiner, Paul Strand, Leo Hurwitz e Paul Ivano. O grupo começou a filmar em Montana e rumou para o Texas, seguindo as tempestades de areia que estavam transformando rapidamente milhões de hectares de terra de fazenda em um deserto. Como Lorentz não tinha um roteiro preciso, Strand e Hurwitz lhe propuseram um,  porém ele o rejeitou, porque seus dois companheiros, como esquerdistas, viam as tempestades não somente como uma catástrofe da natureza, mas como consequência do mal uso da terra por um sistema social voraz. Isso não ficava bem em um documentário patrocinado pelo governo.

Com o término das sequências de tempestade de areia, Lorentz dispersou sua equipe e partiu para Hollywood. Ele esperava descrever o pano de fundo histórico do Dust Bowl por meio de tomadas de arquivo, que os estúdios costumavam alugar por um determinado preço por metro de filme. Entretanto, as companhias haviam aparentemente adotado uma política de não cooperação com o governo – ou pelo menos com a administração Roosevelt. Felizmente, alguns artistas de Hollywood – notadamente King Vidor – não aprovavam a política dos estúdios e ajudaram Lorentz a conseguir as tomadas de arquivo de que necessitava (vg. as cenas da corrida do ouro com as carroças cobertas e as cenas da Primeira Guerra Mundial).

Lorentz contratou o montador Leo Zochling para ensiná-lo a editar o material filmado e começou uma colaboração com o compositor Virgil Thomson, que se tornou o elemento  chave de The Plough That Broke The Plains. Eles combinaram  perfeitamente imagens e música (folclórica e sinfônica) com palavras faladas (em verso livre poético pelo narrador Thomas Chalmers) e efeitos sonoros, obtendo um resultado emocionante. Como disse o musicólogo Neil Lerner, “ a colaboração entre Lorentz e Thomson rivaliza com a de Eisenstein e Prokofieff”. E, por falar no grande cineasta russo, é bem evidente sua influência nas cenas em que se alternam os tratores com os tanques de guerra.

Lorentz e Thomson trabalharam em outro documentário para o governo, The River / 1937, patrocinado pela Farm Security Administration. O filme contava a história do Rio Mississipi, mostrava a necessidade de um sistema de represas que controlasse as suas águas e propunha a Tennessee Valley Authority como um meio de tornar viáveis a terra devastada e as áreas  economicamente debilitadas.

No outono de 1936, Lorentz havia completado a pesquisa e contratado como cameramen Willard Van Dyke e Stacy e Horace Woodard, estes dois últimos depois substituídos por Floyd Crosby. O roteiro de Lorentz relacionava a Depressão com o excesso de cultivo e urbanização do vale do Mississipi, deixando a região imprópria para a agricultura e gerando os americanos sem moradia, sem roupa e sem comida.

Thomson conjugou hinos (“Yes, Jesus Loves Me”), música folclórica (“Go Tell Aunt Rhody”) e canções populares (“Hot Time  in the Old Town Tonight”), e a voz  sonora de Thomas Chalmers assumiu um estilo encantatório, reminiscente de Walt Whitman – e também do documentário russo Turksib / 1929, conhecido por todos os participantes do projeto. No texto falado, as palavras “we built a hundred cities and a thousand towns”, foram usadas como refrão. Lorentz referia-se ao filme como uma “ópera”, que também incluía tomadas de arquivo  de  dois filmes de Hollywood: Meu Filho é Meu Rival / Come and Get It / 1936  e Magnólia / Showboat / 1936 bem como de cine-jornais.

The River obteve um sucesso crítico e comercial estrondoso. A Paramount Pictures aceitou-o para distribuição nacional. O script de Lorentz, um poema Whitmaniano, chamado por James Joyce de “a prosa mais linda que ouví em muito anos”, foi indicado para o Pulitzer Prize. Competindo com Olimpíadas – Mocidade Olímpica /Olympia / 1938 de Leni Riefenstahl, ganhou o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Veneza de 1938.

Devido ao êxito de The River, Lorentz pôde persuadir a administração Roosevelt (com o apoio do próprio presidente, que gostara muito do filme) a criar o United States Film Service em 1938. A primeira realização do U.S. Film Service foi The Fight for Life / 1940, produzida pelo U.S. Public Health Service. Escrito e dirigido por Lorentz e fotografado por Floyd Crosby, o filme foi baseado em um livro do Dr. Paul de Kruif, que popularizou assuntos médicos e científicos e trata das atividades do Chicago Maternity Center, providenciando cuidados pré-natais para mães e partos em casas de famílias pobres. A música, composta por Louis Gruenberg era inovadora, incluindo o uso de blues enquanto um médico jovem passeia pelas ruas da cidade à noite e o elenco misturava não atores com atores como Will Geer. Com duração de longa-metragem, The Fight for Life era um semi-documentário e pode ser considerado um precursor dos semi-documentários de Hollywood do pós guerra como A Casa da Rua 92 / The House on 92nd Street / 1945, O Justiceiro / Boomerang / 1947 e Sublime Devoção / Call Northside 777 / 1948.

A próxima produção do U.S. Service, Power and the Land / 1940, distribuída pela RKO, foi patrocinada pela Rural Electrification Administration e pelo Departamento de Agricultura. Joris Ivens, o documentarista holandês que vivia nos Estados Unidos,  dirigiu; Helen van Dongen, sua esposa na época, montou o filme; Floyd Crosby e Arthur Ornitz o fotografou; Stephen Vincent Benet escreveu o comentário e Douglas Moore compôs a trilha musical. O objetivo do documentário era persuadir os fazendeiros a organizarem cooperativas, a fim de obterem a energia fornecida pelo governo.  Vemos os fazendeiros  trabalhando antes deles terem eletricidade e depois.

O documentário seguinte, The Land / 1941, argumentando que as práticas cientificas e máquinas modernas tornariam as terras mais produtivas. foi concebido e dirigido por Robert Flaherty, retornando à América após passar uma década na Grã Bretanha. A montagem ficou à cargo de Helen van Dongen, a fotografia aos cuidados de Irving Lerner, Douglas Baker, Floyd Crosby e Charles Herbert, Richard Arnell encarregou-se da música e o próprio Flaherty escreveu e leu o comentário.

The Land nunca foi exibido em cinemas e o U.S. Film Service terminou, segundo Robert Snyder (Pare Lorentz and the Documentary Film, University of Oklahoma, 1968) devido a vários motivos: antagonismo e antipatia do Congresso com relação a ele; falta de apoio do governo (Roosevelt agora estava mais preocupado com assuntos internacionais); oposição do público e do Congresso contra as atividades de propaganda do governo  (descontentes porque The Plough That Broke The Plains retratara os Estados do sudoeste e do oeste como desertos); oposição de Hollywood.

Na área dos documentários não governamentais (como haviam sido os da Film Photo League e A Marcha do Tempo), a Frontier Film (na qual se metamorfoseara a Nykino) e a Contemporary Film Historians, Inc., formada por um grupo de escritores que incluía John Dos Passos, Ernest Hemingway, Archibald Mac Leish, Dorothy Parker e Lilliam Hellman, preocuparam-se mais ainda do que A Marcha do Tempo, com a ameaça do fascismo na Europa e as conquistas imperialistas japonesas na Ásia. Vários filmes foram feitos sobre a Guerra Civil Espanhola, apoiando a causa Legalista: na Frontier Films, Heart of Spain / 1937 e Return to Life / 1938; na Contemporary Film Historians,  The Spanish Earth / 1937.

O mais ambicioso e o mais visto dos documentários sobre a Guerra Civil Espanhola foi The Spanish Earth, dirigido por Joris Ivens, fotografado por John Ferno, montado por Helen Van Dongen, escrito e narrado por Ernest Heminghway e com arranjos musicais de Marc Blitzstein e Virgil Thomson baseado em melodias folclóricas espanholas.

Como notaram Jack Ellis e Betsy McLane, Hemingway comenta as imagens que estamos vendo como se estivéssemos assistindo o filme junto com ele. “Não consigo ler alemão também”, ele diz, quando aparecem palavras gravadas em pedaços de um bombardeiro germânico abatido por um avião de combate Legalista. Estes são identificados como o povo em oposição a Franco e seus estrangeiros – Alemães, Italianos, mercenários Mouros e a Guarda Civil. As palavras de Hemingway são fortalecidas por close-ups dos rostos de soldados, mulheres chorando, crianças. A informalidade e a natureza democrática desse exército de cidadãos são evidentes assim como sua camaradagem e solidariedade. Nunca vemos os rebeldes; eles permanecem um inimigo sem face.

Quanto a filmes abordando a defesa da China contra as agressões japonesas, a Frontier Films fez China Strikes Back / 1937 e a Contemporary Film Historians,  The Four Hundred Million / 1939; quanto à crise de Munich de 1938, podemos citar Crisis / 1938 e Lights Out of Europe / 1938, produzidos e dirigidos por Herbert Kline e co-dirigido por Alexander Hackenschmied (depois Hammid quando emigrou para os Estados Unidos).

No que se refere a documentários não governamentais versando sobre assuntos domésticos, a maioria tinha “tendências progressivas” e lidava com temas de particular interesse da esquerda política, como sindicalismo em People of the Cumberland / 1938, United Action / 1939 e, principalmente no longa-metragem, Native Land / 1939 (mas lançado somente em 1942), dirigido e escrito por Leo Hurwitz e Paul Strand, fotografado por Strand, com música de Marc Blitzstein, narração de Paul Robeson e o ator Howard da Silva, interpretando um lastimável espião no meio trabalhista a serviço dos patrões.

Outro tema tratado foi o do planejamento urbano. A Place to Live / 1939, enfocou de maneira convincente a derrubada de cortiços em Filadélfia e The City / 1939 fomentou o conceito de comunidades localizadas em um cinturão verde, separado dos grande centros urbanos.

Exibido com grande êxito na New York World’s Fair de 1939, The City, dirigido por Ralph Steiner e Willard Van Dyke, e patrocinado pelo American Institute of City Planners, contou com o comentário de Lewis Mumford (que foi lido por Morris Carnovsky) e com a colaboração do grande compositor, Aaron Copland. The City apresenta vinhetas cômicas vislumbradas por câmeras escondidas combinadas com ritmo rápido, produzindo entretenimento além da informação. Em uma cena célebre, um café automático serve comida para os fregueses como se eles estivessem em uma linha de montagem.

Alguns documentários cuidaram do desemprego. (Valley Town / 1940) e da educação (And So They Live /  1940, The Children Must Learn / 1940 e One Tenth of a Nation / 1940 este, chamando a atenção para a necessidade de melhores escolas para os negros do Sul.

Como resumiu Richard M. Barsam (Non-Fiction Film – A Critical History, Indiana University, edição revista e ampliada de 1992), o filme de não-ficção floresceu nos Estados Unidos durante os anos trinta com vários diretores emergindo como líderes (Flaherty, Ivens, Lorentz, Van Dyke). Experimentações com fotografia, som, narração, música e cor ajudaram a expandir as potencialidades dos documentários. Avanços no modo de financiamento e distribuição tornaram os filmes mais facilmente disponíveis para o grande público e aumentaram o interesse deste  por filmes que alargam o seu conhecimento e ajudam a formar opiniões sobre os acontecimentos contemporâneos.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939, o filme americano de não-ficção, que foi desenvolvido quase à plena maturidade durante os anos trinta, assumiria novas responsabilidades e criaria novas formas cinematográficas.

SERIADOS MUDOS AMERICANOS E EUROPEUS NO BRASIL II

Através dos anos foram escritos muitos volumes sobre vários aspectos da História do Cinema, porém poucos historiadores se dedicaram ao estudo dos seriados mudos. Convém esclarecer que os seriados da era silenciosa eram levados a sério tanto pelos fãs como pelos estúdios. Seus valores de produção eram consideravelmente melhores do que aqueles seriados produzidos nos anos 30 e seguintes. Não havia o estigma de filme de complemento de programa atribuído a eles, que se desenvolveu depois, nem seus intérpretes eram considerados atores que “já-eram” ou “nunca-foram”. Seus astros eram idolatrados universalmente, seus episódios eletrizantes passavam nos melhores cinemas dos grandes centros urbanos e eram destinados a divertir não somente as crianças como também os adultos.

1921

AS AVENTURAS DE TARZAN / THE ADVENTURES OF TARZAN / Weiss Brothers.. Elmo Lincoln, Louise Lorraine, Frank Whitson. 15 ep.

A FLECHA VINGADORA / THE AVENGING ARROW / Pathé. Ruth Roland, Edward Hearn, Viriginia Ainsworth. 15 ep.

A RAPOSA AZUL / THE BLUE FOX / Arrow.  Ann Little, J. Morris Foster, Joseph W. Girard. 15 ep.

A CONQUISTA DO AMOR E DA FORTUNA / BREAKING THROUGH / Vitagraph. Carmel Myers, Wallace MacDonald, Vincent Howard. 15 ep.

A RAINHA DOS BRILHANTES / THE DIAMOND QUEEN / Universal. Eileen Sedgwick, George Chesebro,  Frank M. Clark. 18 ep.

O SINETE DE SATANÁS / DO OR DIE / Universal. Eddie Polo, Inez McDonald, Magda Lane. 18 ep.

A DUPLA AVENTURA / DOUBLE ADVENTURE / Pathé. Charles Hutchinson, Josie Sedgwick, Carl Stockdale. 15 ep.

LUTANDO CONTRA O DESTINO / FIGHTING FATE / Vitagraph. William Duncan, Edith Johnson, Ford West. 15 ep.

A GRANDE RECOMPENSA / THE GREAT REWARD / Burston. Francis Ford, Ella Hall, Carl Gerard. 15 ep.

O MISTÉRIO DO DIAMANTE AZUL / THE HOPE DIAMOND MYSTERY / Kosmik. Harry Carter, Grace Darmond, George Chesebro. 15 ep.

A MANTILHA PRATEADA / HURRICANE HUTCH. Pathé. Charles Hutchinson, Lucy Fox, Warner Oland. 15 ep.

OS MILAGRES DA SELVA / MIRACLES OF THE JUNGLE / Warner Bros. Ben Hagerty, Wilbur Higby, Al Ferguson. 15 ep.

A PÉROLA MISTERIOSA / THE MYSTERIOUS PEARL / Photoplay Serials. Ben Wilson, Neva Gerber, Joseph W. Girard . 15 ep.

OS CAVALEIROS DE ROXO / THE PURPLE RIDERS / Vitagraph. Joe Ryan, Elinor Field, Joseph Rixon. 15 ep.

OS QUATRO AGENTES SECRETOS / THE SECRET FOUR / Universal. Eddie Polo, Kathleen Myers, Doris Dedan. 15 ep.

SENTINELA DO FIRMAMENTO / THE SKY RANGER / Pathé. June Caprice, George B. Seitz, Harry Semels.15 ep.

A PISTA DO TERROR / THE TERROR TRAIL / Universal. Eileen Sedgwick, George Larkin, Theodore Brown. 18 ep.

AS OPALAS DO CRIME / THE WHITE HORSEMAN / Universal. Art Acord, Duke R. Lee, Iva Forrester. 18 ep.

OS CONQUISTADORES DO OESTE / WINNERS OF THE WEST / Universal. Art Acord, Burton C. Law, Myrtle Lind.18 ep.

O BRAÇO AMARELO / THE YELLOW ARM / Pathé. Juanita Hansen, Marguerite Courtot, Warner Oland. 15 ep.

AS DUAS GAROTAS DE PARIS / LES DEUX GAMINES / Gaumont. Georges Biscot, Sandra  Milowanoff,  Olinda Mano. 12 ep.

GIGOLETTE / GIGOLETTE  / Pathé-Consortium. Pierre Labry, Séphora Mosse, Andrée Lionel. 4 ep.

A MÁRTIR / LA POCHARDE  / Ermolieff. Jacqueline Forzane, Charles Norville, Alexander Volkoff. 12 ep.

A ORFÃZINHA / L ‘ORPHELINE / Gaumont. Sandra Milowanoff, Georges Biscot, Jane Grey. 12 ep.

OS TRÊS MOSQUETEIROS / LES TROIS MOUSQUETAIRES / Films Diamant – Pathé-Consortium-Cinéma. Aimé Simon-Gerard, Henri Rollan, Charles Martinelli, Pierre de Guingand. 12 ep.

MATHIAS SANDORF / MATHIAS SANDORF / Les Films Louis Nalpas. Romuald

Joubé, Yvette Andreyor, Jean Toulot. 9 ep.

O IMPERADOR DOS POBRES / L’EMPEREUR DES PAUVRES / Societé des Cinéromans. Léon Mathot, Gina Relly, Henry Krauss. 6 ep.

O HOMEM SEM NOME / DER MANN OHNE NAMEN / Projektions AG Union- UFA. Harry Liedtke, Goerg Alexander, Mady Chtristians. 6 ep.

1922

ROBINSON CRUSOE ou AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE / THE ADVENTURES OF ROBINSON CRUSOE / Universal. Harry Myers, Noble Johnson, Gertrude Olsmtead. 18 ep.

O CAPITÃO KIDD / CAPTAIN KIDD / Star Serial. Eddie Polo, Katherine Meyers, Leslie J. Casey. 15 ep.

SOMBRAS DAS SELVAS / A DANGEROUS ADVENTURE / Warner Bors. Grace Darmond, Philo Mcullough, Jack Richardson. 15 ep.

CARLOS, O REBITADOR / GO GET ’EM HUTCH / Pathé. Charles Hutchinson, Marguerite Clayton, Richard Neill. 15 ep.

 BUFFALO BILL / IN THE DAYS OF BUFFALO BILL / Universal. Art Acord, Dorothy Woods, Duke R. Lee. 18 ep.

A DEUSA DO SERTÃO / THE JUNGLE GODDESS / Export-Import Film Company. Elinor Field, Truman Van Dyke, Marie Pavis. 15 ep.

O ANTRO DO DEMÔNIO / NAN OF THE NORTH / Arrow. Ann Little, Leonard Clapham, Joseph W. Girard. 15 ep.

OS PERIGOS DO YUKON / PERILS  OF THE YUKON / Universal. William Desmond, Laura La Plante, Fred Stanton. 15 ep.

O REI DO RÁDIO / THE RADIO KING / Universal. Roy Stewart, Louise Lorraine, Sidney Bracey. 10 ep.

O REI DA VELOCIDADE / SPEED /  Pathé. Charles Hutchison, Lucy Fox,  John Webb Dillon. 15 ep.

A RAINHA DOS BOSQUES / THE TIMBER QUEEN / Pathé. Ruth Roland, Bruce Gordon, Val Paul. 15 ep.

ÁGUIA BRANCA / WHITE EAGLE / Pathé. Ruth Roland, Earl Metcalfe, Harry Girard. 15 ep.

COM STANLEY NA ÁFRICA / WITH STANLEY IN AFRICA / Universal. George Walsh, Louise Lorraine, Charles Mason. 18 ep.

PARISETTE / PARISETTE / Gaumont. Sandra Milowanoff, Georges Biscot, Fernand Herrmann. 12 ep.

A MORDAÇA / LA BALLONÉE / Pathé-Consortium. Paul Gidé, Louis Loubas, Pierre Fresnay. 7 ep.

O SEGREDO DA FILHA / LA FILLE SAUVAGE / Ermolieff – Pathé-Consortium- Cinéma. Nathalie Lissenko, Romuald Joubé, Irene Wells. 12 ep.

VINTE ANOS DEPOIS / VINGT ANS APRÈS / Pathé-Consortium. Jean Yonel, HenriRolan, Pierre de Guingand. 12 ep.

OS SEGREDOS DE PARIS / LES MYSTÈRES DE PARIS / Phocéa. Huguette Duflos, Georges lannes, Suzanne Bianchetti. 12 ep.

O FILHO DO CORSÁRIO / LE FILS DU FLIBUSTIER / Gaumont. Aimé-Simon Girard, Georges Biscot, Sandra Milowanoff. 13 ep.

O AVIADOR MASCARADO / L’AVIATEUR MASQUÉ. Aigle Film – Pathé-Consortium. Julien Dalsace, Elaine Amazar, Gabriel Rosca. 8 ep.

A CASA DOS MISTÉRIOS / LA MAISON DU MYSTÈRE / Ermolieff. Ivan Mosjoukine, Charles Vanel, Helene Darly. 10 ep.

DOKTOR MABUSE, O JOGADOR / DR. MABUSE, DER SPIELER / Decla-Bioscop -UFA.  Rudolf Klein-Rogge, Bernhard Goetzke, Alfred Abel. 15 ep. Obs. O filme de Fritz Lang passou no Brasil em duas partes e também, como seriado, em 15 ep.

1923

O PIRATA SOCIAL / THE SOCIAL BUCCANEER / Universal. Jack Mulhall, Margaret Livingston, William Welsh. 10 ep. ADIANTE

A VOLTA AO MUNDO EM 18 DIAS / AROUND THE WORLD IN EIGHTEEN DAYS /  Universal. William Desmond, Laura La Plante, William P. De Vaul. 12 ep.

FERAS DO PARAISO / BEASTS OF PARADISE / Universal. William Desmond, Eileen Segdwick, William N. Gould 15 ep.

NAS GARRAS DA ÁGUIA / THE EAGLE’S TALONS / Universal. Fred Thomson, Ann Little, Al Wilson. 15 ep.

O MARUJO VALENTE / THE FIGHTING SKIPPER / Arrow. Peggy O’Day, Jack Perrin, Bill White. 15 ep.

A  CIDADE FANTASMA / GHOST CITY  /Universal. Peter Morrison, Margaret Morris, Frank Rice. 15 ep.

O VALE ENCANTADO / HAUNTED VALLEY / Pathé. Ruth Roland, Jack Daugherty, Larry Steers. 15 ep.

AREIAS FEITICEIRAS / HER DANGEROUS PATH / Pathé. Edna Murphy, Charles Parrott (Charlie Chase), Hayford Hobbs. 10 ep.

NOS DIAS DE DANIEL BOONE / IN THE DAYS OF DANIEL BOONE / Universal. Jack Mower, Eileen Segdwick, Charles Brinley. 15 ep.

A PISTA DO OREGON / THE OREGON TRAIL / Universal. Art Acord, Louise Lorraine, Duke R. Lee. 18 ep.

A FORTUNA FANTASMA / THE PHANTOM FORTUNE / Universal. William Desmond, Esther Ralston, Lewis Sargent. 12 ep.

O TESOURO OCULTO / PLUNDER /  Pathé. Pearl White, Harry Semels, Warren Krech (Warren Williams). 15 ep.

RUTH, A VELOZ / RUTH OF THE RANGE / Pathé. Ruth Roland, Bruce Gordon, Ernest C. Warde. 15 ep.

OS MISTÉRIOS DA MONTANHA / THE SANTA FE TRAIL / Arrow. Neva Gerber, Jack Perrin, James Welch. 15 ep.

O PIRATA SOCIAL / THE SOCIAL BUCCANEER / Universal. Jack Mulhall, Margaret Livingstone, William Welch. 10 ep.

O CAMINHO DE FERRO / THE STEEL TRAIL / Universal. William Duncan, Edith Johnson, Harry Carter. 15 ep.

A CIGANITA / GOSSETTE / Societé des Cinéromans. Régine Bouet, Georges Charlia, Jean d’Yd.

O REI DE PARIS / LE ROI DE PARIS / Établissements Louis Aubert. Jean Dax, Suzanne Munte, Germaine Vallier. 12 ep.

VIDOCQ / VIDOCQ  / Societé des Cinéromans. René Navarre, Rachel Devirys, Elmire Vautier. 10 ep.

TAO / TAO / Societé des Cinéromans. Joe Hamman, Mary Harald, Andrée Brabant. 10 ep.

1924

O MISTÉRIO DE OURO E SANGUE  / BATTLING BREWSTER / Rayart. Franklyn Farnum, Helen Holmes, Leon Holmes. 15 ep.

A FEBRE DO OURO / DAYS OF ’49 / Arrow. Neva Gerber, Edmund Cobb, Charles Brinley. 15 ep.

O EXPRESSO MISTERIOSO ou O MISTÉRIO DO EXPRESSO / THE FAST EXPRESS / Universal. William Duncan, Edith Johnson, Edward Cecil. 15 ep.

PORTAS MALDITAS / THE FORTIETH DOOR  / Pathé. Allene Ray, Bruce Gordon, Frank Lackteen. 10 ep.

CASCOS QUE VOAM / GALLOPING HOOFS / Pathé. Allene Ray, Johnnie Walker, J. Barney Sherry. 10 ep.

NAS MALHAS DA LEI / INTO THE NET / Pathé. Edna Murphy, Jack Mulhall, Constance Bennett. 10 ep.

O HOMEM DE AÇO / THE IRON MAN / Universal. Lucien Albertini, Margaret Morris, Joe Bonomo. 15 ep.

A CONQUISTA DOS BÁRBAROS / LEATHERSTOCKING / Pathé. Edna Murphy, Harold Miller, Frank Lackteen. 10 ep.

O CAVALEIRO DAS SOMBRAS / THE RIDDLE RIDER / Universal. William Desmond, Eileen Segdwick, Helen Holmes. 15 ep.

EMOÇÕES SANGRENTAS / RIDERS OF THE PLAINS / Arrow. Jack Perrin, Marilyn Mills, Ruth Royce. 15 ep.

AS DEZ CICATRIZES / TEN SCARS MAKE A MAN / Pathé.  Allene Ray, Jack Mower, Rose Burdick. 10 ep.

O DESTINO DE UM HOMEM / WAY OF A MAN / Pathé. Allene Ray, Harold Miller, Bud Osborne. 10 ep.

LOBOS DO NORTE / WOLVES OF THE NORTH / Universal. William Duncan, Edith Johnson, Joseph W. Girard.  10 ep.

MANDRIN / MANDRIN / Societé des Cinéromans. Romuald Joubé, Johanna Sutter, Hugues de Bagratide. 8 ep.

O REI GALANTE / LE VERT-GALANT / Societé des Cinéromans. Aimé-Simon- Gerard, Maurice Schutz, Pierre de Guingand. 8 ep.

OS FILHOS DO SOL / LE FILS DU SOLEIL / Societé des Cinéromans. Marquisette Bosky, Georges Charlia,  Marcel Vibert. 8 ep.

O GAROTO DA PRAÇA / L’ ENFANT DES HALLES / Societé des Cinéromans. Jean-Paul de Baere, Gabriel Signoret, Suzanne Bianchetti,. 5 ep.

1925

O ÁS DE ESPADAS / ACE OF SPADES / Universal. William Desmond, Mary McAllister, Albert J. Smith. 15 ep.

O ENIGMA DO TOPÁZIO / FIGHTING RANGER / Universal. Jack Daugherty, Eileen Sedgwick, Al Wilson. 18 ep.

O HERÓI DA BRIGADA DE FOGO / THE FLAME FIGHTER / Rayart. Herbert Rawlinson, Brenda Lane, Jerome  La Gasse. 10 ep.

O SANSÃO DO CIRCO / THE GREAT CIRCUS MYSTERY / Universal. Joe Bonomo. Louise Lorraine, Robert J. Graves. 15 ep.

O FANTASMA VERDE / THE GREEN ARCHER / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Burr McIntosh. 10 ep.

A MERCÊ DA VIDA / IDAHO / Pathé. Vivian Rich, Mahlon Hamilton, Frederick Vroom. 10 ep.

A CAIXA DOS MISTÉRIOS / THE MYSTERY BOX / Vital Exchanges (Davis Distributing Division). Ben Wilson, Neva Gerber, Lafe Mckee. 10 ep.

PERIGOS DAS FLORESTAS / PERILS OF THE WILD / Universal. Joe Bonomo, Margaret Quimby, Jack Mower. 15 ep.

A MÃO ARMADA / PLAY BALL /  Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Harry Semels. 10 ep.

O DEUS DA ENERGIA / THE POWER GOD / Vital Exchanges (Davis Distributing Division). Ben Wilson, Neva Gerber, Lafe McKee. 15 ep.

NAS MALHAS DO SERVIÇO SECRETO / SECRET SERVICE SAUNDERS / Rayart. Richard Holt, Ann Little, Helen Broneau. 15 ep.

AS DOBRAS DE PRATA / SUNKEN SILVER / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Frank Lackteen. 10 ep.

OS CONQUISTADORES DO EL-DORADO 0u OS PIONEIROS / WILD WEST / Pathé. Jack Mulhall, Helen Fergusson, Ed Burns. 10 ep.

O FALSO LORD / MYLORD L ‘ARSOUILLE / Societé des Cinéromans. Aimé-Simon Gerard, Maria Dalbalcín, Simone Vaudry.  8 ep.

SURCOUF, O REI DOS CORSÁRIOS / SURCOUF  / Societé des Cinéromans. Jean Angelo, Jacqueline Blanc, Maria Dalbacín. 8 ep.

OS MISERÁVEIS / LES MISERABLES  / Societé des Cinéromans. Gabriel Gabrio, Sandra Milowanoff, Jean Toulot. 4 ep.

O CORCUNDA / LE BOSSU  / Établissements Jacques Haik. Gaston Jacquet, Marcel Vibert, Claude France. 4 ep.

1926

A HERDADE MISTERIOSA / THE BAR-C MYSTERY / Pathé. Wallace McDonald, Dorothy Phillips, Ethel Clayton. 10 ep.

O HERÓI DA GUARDA-COSTA / CASEY OF THE COAST GUARD (Pathé. George O’Hara, Helen Ferguson, J. Barney Sherry. 10 ep.

PUNHOS DE AÇO / THE FIGHTING MARINE / Pathé. Gene Tunney, Walter Miller, Marjorie Gay.  10 ep.

AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL / FIGHTING WITH BUFFALO BILL / Universal. Wallace MacDonald, Elsa Benham, Edmund Cobb. 10 ep.

A CASA SEM CHAVE / HOUSE WITHOUT A KEY / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Frank Lackteen. 10 ep.

O RELÂMPAGO / LIGHTNING HUTCH / Arrow (Hurricane). Charles Hutchinson, Edith Thornton, Vriginia Pearson. 10 ep.

O PILOTO MISTERIOSO / MYSTERY PILOT / Rayart. Rex Lease, Kathryn McGuire, Jack McReedy. 10 ep.

O OFICIAL 444 / OFFICER 444 / Goodwill (Davis Distributing Division). Ben Wilson, Neva Gerber, Ruth Royce. 10 ep.

O POLICIA FANTASMA / PHANTOM POLICE / Rayart. Herbert Rawlinson, Gloria Joy, Edward Featherstone. 10 ep.

O SHERLOCK DO RADIUM / THE RADIO DETECTIVE / Universal. Jack Daugherty, Margaret Quimby, John T. Prince. 10 ep.

O RAIO ESCARLATE / THE SCARLET STREAK / Universal. Jack Daugherty, Lola Todd, John Elliott. 10 ep.

FAÇANHAS DE UM ESCOTEIRO / SCOTTY OF THE SCOUTS / Rayart. Ben Alexander, Paddy O’Flynn, Mary Jane Irving. 10 ep.

O AVIÃO SILENCIOSO / THE SILENT FLYER / Universal. O cachorro Silver Streak Malcolm MacGregor, Louise Lorraine. 10 ep.

NO DESERTO DA NEVE / SNOWED IN / Pathé. Allene Ray, Walter Miller,  Frank Austin. 10 ep.

TENTÁCULOS DE AÇO / STRINGS OF STEEL / Universal. William Desmond, Eileen Segdwick, Albert J. Smith. 10 ep.

O OFICIAL 77 / TROOPER 77 / Rayart. Herbert Rawlinson, Hazel Deane, jimmy Aubrey. 10 ep.

O ROUBO DOS MILHÕES / VANISHING MILLLIONS / Sierra. William Fairbanks, Vivian Rich, Alec B. Francis. 15 ep.

O ÍDOLO PISCADOR / THE WINKING IDOL / Universal. William Desmond, Eileen Segdwick, Jack Richardson. 10 ep.

A TEIA DE ARANHA / THE SPIDER’S NET / Tenneck. Tomadas de arquivo de filmes de dois rolos com Eileen Sedgwick e o cão Lightning, reeditada sob a forma de seriado.

1927

O REI DOS DETETIVES / BLAKE OF THE SCOTLAND YARD / Universal. Hayden Stevenson, Gloria Grey, Herbert Prior. 12 ep.

A CENTELHA ENCARNADA / THE CRIMSON FLASH / Pathé. Cullen Landis, Eugenia Gilbert, Tom Holding. 10 ep.

AS AVENTURAS DE UM REPÓRTER / FIGHTING FOR FAME / Rayart. Ben Alexander, Hazel Dean, Eddie Featherstone. 10 ep.

A LUTA CONTRA O FOGO / THE FIRE FIGHTERS / Universal. Jack Daugherty, Helen Ferguson, Florence Allen. 10 ep.

O CAVALO SELVAGEM / THE GOLDEN STALLION / Pathé. Maurice “Lefty” Flynn, Joe Bonomo, Molly Malone, o cavalo White Fury. 10 ep.

O TERRÍVEL BANDOLEIRO / HAWK OF THE HILLS / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Frank Lackteen. 10 ep.

O CAVALO  FANTASMA ou O REI DOS GAUCHOS / HEROES OF THE WILD / Mascot. Jack Hoxie, Josephine Hill, Joe Bonomo, o cão Tornado, o cavalo White Fury. 10 ep.

A ILHA DO TESOURO ENTERRADO / THE ISLE OF SUNKEN GOLD / Mascot. Anita Stewart, Bruce Gordon, Duke Kahanomoku. 10 ep.

O REI DA FLORESTA / KING OF THE JUNGLE / Rayart. Elmo Lincoln, Sally Long, Gordon Standing. 10 ep.

A CASA DOS MISTÉROS / THE MANSION OF MYSTERY / Pizor. William Barrymore, Teddy Reavis, Fred Church. 10 ep.

O GRANDE ENIGMA / THE MASKED MENACE / Pathé. Larry Kent, Jean Arthur, Tom Holding. 10 ep.

A FORTUNA INFERNAL / MELTING MILLIONS / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, E.H. Calvert. 10 ep.

VIGILÂNCIA DO DIREITO / ON GUARD / Pathé. Cullen Landis, Muriel Kingston, Louise Du Pre. 10 ep.

OS PERIGOS DA SELVA / PERILS OF THE JUNGLE / Weiss Brothers Artclass. Eugenia Gilbert, Frank Merrill, Albert J. Smith. 10 ep.

REAPARIÇÃO DO CAVALEIRO DAS SOMBRAS / RETURN OF THE RIDDLE RIDER / Universal. William Desmond, Lola Todd, Scotty Mattraw. 10 ep.

A CICATRIZ ESCARLATE / THE SCARLET BRAND / New-Cal. Neal Hart, William Quinn, Lucille Irwin. 10 ep.

AS PEGADAS DO TIGRE / TRAIL OF THE TIGER / Universal. Jack Daugherty, Frances Teague, Jack Mower. 10 ep.

A ESTRADA DA MORTE / WHISPERING SMITH RIDES / Universal. Wallace MacDonald, Rose Blossom, J. P. McGowan. 10 ep.

O FANTASMA DO LOUVRE / BELPHEGOR / Societé des Cinéromans. René Navarre, Elmire Vaultier, Lucien Dalsace. 8 ep.

O FANTASMA DA TORRE EIFFEL / LE MYSTÈRE DE LA TOUR EIFFEL / Établissements Louis Aubert. Félicien Tramel, Gaston Jacquet, Régine Bouet. 6 ep.

1928

OS MISTÉRIOS DO BAIRRO CHINÊS / THE CHINATOWN MYSTERY / Syndicate Pictures. Joe Bonomo, Ruth Hiatt, Paul Malvern. 10 ep.

A ÁGUIA DA NOITE / EAGLE OF THE NIGHT / Pathé. Frank Clarke, Shirley Palmer, Earle Metcalfe. 10 ep.

A ILHA MALDITA / HAUNTED ISLAND / Universal. Jack Daugherty, Helen Foster,  Carl Miller. 10 ep.

O HOMEM SEM ROSTO / THE MAN WITHOUT A FACE / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, E. H. Calvert. 10 ep.

A QUADRILHA DOS SAPOS /  MARK OF THE FROG / Pathé. Donald Reed, Margaret Morris, George Harcourt. 10 ep.

O AVIADOR MISTERIOSO / THE MYSTERIOUS AIRMAN / Weiss Brothers Artclass. Walter Miller, Eugenia Gilbert, Robert Walker. 10 ep.

A MÃO SINISTRA / THE MYSTERY RIDER / Universal. William Desmond, Derelys Perdue, Tom London. 10 ep.

O TUBO SECRETO / THE POLICE REPORTER / Weiss Brothers Artclass. Walter Miller, Eugenia Gilbert, William A. Lowery. 10 ep.

A SETA ESCARLATE ou A SETA VERMELHA / THE SCARLET ARROW / Universal. Francis X. Bushman, Jr., Hazel Keener, Edmund Cobb. 10 ep.

TARZAN, O PODEROSO / TARZAN, THE MIGHTY / Universal. Frank Merrill, Natalie Kingston, Al Ferguson. 15 ep.

OS TERRÍVEIS / THE TERRIBLE PEOPLE / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Larry Steers. 10 ep.

A SOMBRA DO TIGRE / THE TIGER’S SHADOW / Pathé. Gladys McConnell, Hugh Allen, Frank Lackteen. 10 ep.

O CAVALEIRO INVISÍVEL / THE VANISHING RIDER / Universal. William Desmond, Ethlyne Clair, Bud Osborne. 10 ep.

O OESTE BRAVIO ou O TESOURO DO PASSADO / THE VANISHING WEST / Mascot. Jack Perrin, Eileen Sedgwick, Jack Daugherty. 10 ep.

ABUTRES DO MAR / VULTURES OF THE SEA / Mascot. Johnnie Walker, Shirley Mason, Tom Santschi. 10 ep.

O CAMAFEU AMARELO / THE YELLOW CAMEO /  Pathé. Allene Ray, Edward Hearn, Noble Johnson, o cão Cyclone. 10 ep.

1929

O ÁS DA POLICIA LONDRINA / THE ACE OF SCOTLAND YARD /  Universal. Crauford Kent, Florence Allen, Herbert Prior. 10 ep.

O LIVRO NEGRO / THE BLACK BOOK / Pathé. Allene Ray, Walter Miller, Frank Lackteen. 10 ep.

O REI DOS DIAMANTES / THE DIAMOND MASTER / Universal. Hayden Stevenson, Louise Lorraine, Al Hart. 10 ep.

O AVISO FATAL / THE FATAL WARNING / Mascot. Helene Costello, Ralph Graves,  George Periolat. 10 ep.

O BOMBEIRO DETETIVE / THE FIRE DETECTIVE. Pathé. Gladys McConnell, Hugh Allan, Leo Maloney. 10 ep.

O UIVAR DAS FERAS ou O REI DO CONGO / KING OF THE KONGO. Mascot. Jacqueline Logan, Walter Miller, Richard Tucker. 10 ep.

O PIRATA DO PANAMÁ / PIRATE OF PANAMA / Universal. Jay Wilsey, Natalie Kingston, Al Ferguson. 12 ep.

O LOBO SINISTRO / QUEEN OF THE NORTHWOODS / Pathé. Ethlyne Clair, Walter Miller, Tom London. 10 ep.

TARZAN, O TIGRE / TARZAN, THE TIGER.  Universal. Frank Merrill, Natalie Kingston, Lillian Worth. 15 ep.

1930

ÍNDIOS DO OESTE / THE INDIANS ARE COMING / Universal. Tim McCoy, Allene Ray, Edmund Cobb. 12 ep. Obs. Lançado em duas versões, muda e sonora.

A CAIXA SAGRADA / THE  JADE BOX / Universal. Jack Perrin, Eileen Sedgwick, Monroe Salisbury. 10 ep. Obs.Lançado em duas versões, muda e sonora, esta última como score musical sincronizado, efeitos sonoros e diálogos.

O EXPRESSO DO OESTE / THE LIGHTNING EXPRESS / Universal. Lane Chandler, Louise Lorraine, Al Ferguson. 10 ep. Obs. Lançado em duas versões, muda e sonora, esta última com musical score sincronizado, efeitos sonoros e diálogos.

A QUADRILHA DOS MENDIGOS / TERRY OF THE TIMES / Universal. Reed Howes, Lotus Thompson, Sheldon Lewis. 10 ep. Obs. Lançado em duas versões, muda e sonora,  esta última com score musical sincronizado, efeitos sonoros, mas sem diálogo.

ADENDO:

Fernando Moretzohn, notável pesquisador de Belo Horizonte, enviou-me uma relação de títulos em português alternativos para alguns seriados, que ele colheu nas revistas Cinearte e Scena Muda. Presumo que se trata de títulos dados à reprises. No meu artigo coloquei apenas os títulos referentes à primeira exibição.

Zudora –  O Detetive Misterioso

The Exploits of Elaine – As Bravuras de Elaine

The Broken Coin –  A Moeda Quebrada

Il Triangulo Giallo – Za la Mort

Hands Up! – O Cavaleiro Misterioso

Perils of Thunder Mountain – O Mistério da Montanha do Trono

The Lurking Peril –  O Pacto da Morte

Hidden Dangers – Perigos Ocultos

Hurrucane Hutch – Furacão

The Sky Ranger – O Batedor do Céu

Vidcoq – Vidocq, o Forçado Evadido

Mandrin – Mandrino

Ten Scars Made a Man – As Dez Cicatrizes

Idaho – Nos Sertões Americanos

Wild West – Os Pioneiros

SERIADOS MUDOS AMERICANOS E EUROPEUS NO BRASIL I

Nos anos sessenta, chegou-me às mãos, por intermédio de Gil Araujo, saudoso guardião da memória cinematográfica, uma relação dos seriados mudos americanos e europeus exibidos no Brasil, elaborada, em décadas anteriores, por um grupo de veteranos estudiosos dos filmes antigos, entre os quais se incluiam Pery Ribas, Fernando Pedreira, Walter Finger, Alex Viany, Michel do Espirito Santo, Antonio Cardoso e Rozendo Marinho. Os cinco últimos eu conhecí pessoalmente. Era um trabalho valioso, principalmente no que dizia respeito aos títulos em português dos seriados e achei que seria muito importante preservá-lo, a fim de que pudesse servir a futuros estudos sobre a exibição de filmes em nosso país.

Com base em variadas fontes, como o Catalog of Copyright Entries  da Biblioteca do Congresso Americano (1912-1939); Serials and Series de Buck Rainey (para o qual  o brasileiro José Simões Filho prestou uma assistência significativa); Bound and Gagged – The Story of the Silent Serials e Continued Next Week de Kalton C. Lahue; French Cinema – The First Wave 1915-1929 de Richard Abel e outros, bem como jornais brasileiros da época, fiz uma revisão da dita relação, corrigindo erros e/ou omissões.

Extirpei filmes que costumam ser classificados como seriados, mas que na realidade são séries, porque não existia conexão entre os episódios e quase sempre não terminavam por um lance de suspense (cliffhanger) como as séries francêsas Main de Fer, Nick Winter, Nick Carter, Rocambole, Zigomar, Fantomas; a inglêsa Dick Turpin, a italiana Maciste com Bartolomeo Pagano; a alemã Ramara com o personagem Phantomas; as americanas de Mary Fuller e As Façanhas de Helen / The Hazards of Helen / 1914 etc. – porém mantive alguns filmes exibidos em três ou mais partes, cujos episódios tinham uma ligação entre si.

1913

AS AVENTURAS DE KATHLYN  ou  AS AVENTURAS DE CATARINA / THE ADVENTURES OF KATHLYN / Selig. Kathlyn Williams, Tom Santschi, Charles Clary. 13 ep.

1914

OS MISTÉRIOS DE NOVA YORK / THE EXPLOITS OF ELAINE / Pathé. Pearl White, Creighton Hale, Arnold Daly. 14 ep.

A RAPARIGA MISTERIOSA / LUCILLE LOVE, GIRL OF MYSTERY / Universal. Francis Ford, Grace Cunnard, Harry Schumm. 15 ep.

THE MAN WHO DISAPPEARED / Edison. Marc MacDermott, Barry O’Moore, Miriam Nesbitt. 10 ep.

A CHAVE MESTRA / THE MASTER KEY / Universal. Robert Leonard, Ella Hall, Harry Carter. 15 ep.

O MISTÉRIO DE UM MILHÃO DE DÓLARES / THE MILLION DOLLAR MYSTERY / Thanhouser. Florence LaBadie, Marguerite Snow, James Cruze. 23 ep.

AS AVENTURAS DE ELAINE / THE PERILS OF PAULINE / Pathé. Pearl White, Crane Wilbur, Paul Panzer. 20 ep. Obs. A rigor, trata-se de uma série porém, cf. Kalton C. Lahue,  pode ser classificado como seriado, porque alguns episódios terminavam por um lance de suspense.

OS TRÊS CORAÇÕES / THE TREY O’ HEARTS / Universal. Cleo Madison, George Larkin, Edward Sloman. 15 ep.

ZUDORA ou O MISTÉRIO DOS 20 MILHÕES DE DÓLARES / ZUDORA. Obs. Após o décimo capítulo, o título original mudou para  THE TWENTY MILLION DOLLAR MYSTERY / Thanhouser. James Cruze, Marguerite Snow, Harry Benham. 20 ep. Como me informou Sergio Leemann, em São Paulo foi lançado como O Detetive Misterioso.

1915

THE ROAD TO STRIFE / Lubin. Crane Wilbur, Mary Charleson, Jack Standing.15 ep.

A CAIXA NEGRA / THE BLACK BOX / Universal. Herbert Rawlinson, Anna Little, William Worthington. 15 ep.

NEAL OF THE NAVY / Balboa (Pathé). William Courtleigh, Jr., Lillian lorraine, William Conklin. 14 ep.

THE GODDESS / Vitagraph. Anita Stewart, Earle Williams, Paul Scardon. 15 ep.

RUNAWAY JUNE / Reliance. Norma Phillips, J.W. Johnston,Myra Brooks. 15 ep.

A MOEDA PARTIDA / THE BROKEN COIN / Universal. Francis Ford, Grace Cunnard,  Harry Schumm. 22 ep.

O DIAMANTE DO CÉU / THE DIAMOND FROM THE SKY / North American. Lottie Pickford, Irving Cummings, William Russell. 30 ep.

THE FATES AND FLORA FOURFLUSH (THE TEN BILLION DOLLAR VITAGRAPH MYSTERY SERIAL) / Vitagraph. Clara Kimball Young, Charles Brown, L. Rogers Lytton. 3 ep.

MULHER AUDACIOSA / THE GIRL AND THE GAME  / Signal (Mutual). Helen Holmes, J. P. McGowan, Leo Maloney. 15 ep.

OS MISTÉRIOS DE NOVA YORK / THE NEW EXPLOITS OF ELAINE / Pathé. Pearl White, Creighton Hale, Arnold Daly. 10 ep.

O MISTÉRIO DA MALHA RUBRA ou O ESTIGMA / THE RED CIRCLE / Pathé. Ruth Roland, Frank Mayo, Gordon Sackville. 14 ep.

OS MISTÉRIOS DE NOVA YORK / THE ROMANCE OF ELAINE / Pathé. Pearl White, Creighton Hale, Arnold Daly. 12 ep.

OS VAMPIROS / LES VAMPIRES / Gaumont. Edouard Mathé, Musidora,  Marcel Levesque, Jean Aymé, Stacia Napierkowska. 10 ep.

1916

A FILHA DO CIRCO / THE ADVENTURES OF PEG O’THE RING / Universal. Francis Ford, Grace Cunnard, G. Raymond Nye. 15 ep.

OS ESTRANGULADORES DE NOVA YORK ou OS MISTÉRIOS DA MANCHA VERMELHA / THE CRIMSON STAIN MYSTERY / Consolidated  (Metro). Maurice Costello, Ethel Grandin, Thomas J. McGrane. 16 ep.

GLORIA’S ROMANCE / O ROMANCE DE GLÓRIA / Kleine. Billie Burke, David Powell, William Roselle. 20 ep.

THE GRIP OF EVIL / Pathé.Jackie Saunders, Roland Bottomely, Charles Dudley. 14 ep.

THE SECRET KINGDOM / Vitagraph. Charles Richman, Dorothy Kelly, Arline Pretty. 15 ep.

O ENIGMA DA MÁSCARA ou A GARRA DE FERRO / THE IRON CLAW / Pathé. Pearl White, Creighton Hale, Sheldon Lewis. 20 ep.

LASS OF THE LUMBERLANDS / Signal (Mutual).  Helen Holmes, Thomas Lingham, Leo Maloney. 15 ep.

A HERANÇA FATAL / LIBERTY, A DAUGHTER OF THE U.S.A. / Universal. Marie Walcamp, Jack Holt, Eddie Polo. 20 ep.

OS MISTÉRIOS DE MYRA ou OS MISTÉRIOS DA SEITA NEGRA / THE MYSTERIES OF MYRA / International (Pathé). Jean Sothern, Howard Eastabrook, Allen Murname. 15 ep.

O CORREIO DE WASHINGTON / PEARL OF THE ARMY / Pathé. Pearl White, Ralph Kellard, Marie Wayne. 15 ep.

A MÁSCARA VERMELHA / THE PURPLE MASK / Universal. Francis Ford, Grace Cunnard, Jean Hathaway. 16 ep.

O SEGREDO DO SUBMARINO / THE SECRET OF THE SUBMARINE / American (Mutual). Juanita Hansen, Thomas Chatterton, George Clancy. 15 ep.

THE SEQUEL TO THE DIAMOND FROM THE SKY / American (Mutual). William Russell, Charlotte Burton, Rhea Mitchell. 4 ep.

RAVENGAR / THE SHIELDING SHADOW / Pathé. Grace Darmond, Leon Bary, Ralph Kellard. 15 ep.

O ENIGMA DO SANGUE / THE STRANGE CASE OF MARY PAGE / Essanay. H.B. Walthall, Edna Mayo, Ernest Cossart. 15 ep.

O PERIGO AMARELO ou OS CRIMES DA QUADRILHA TONG FOO / THE YELLOW MENACE / Serial (Unity Sales). Edwin Stevens, Florence  Malone, Margaret Gale. 16 ep.

OS LADRÕES DO GRANDE MUNDO / LOS LADRONES DEL GRAN MUNDO / Royal. Margarida Miró, Lucilla Porres, Pablo Frou. 5 ep.

HOMÚNCULO / HOMUNCULUS / Deustsche Bioscop. Olaf Föens, Friedrich KÜhene, Ernst Ludwig. 6 ep.

1917

JÓIA FATAL / THE FATAL RING / Pathé. Pearl White, Earle Fox, Warner Oland. 20 ep.

O RASTRO SANGRENTO / THE FIGHTING TRAIL / Vitagraph. William Duncan, Carol Holloway, George Holt. 15 ep.

O TELEFONE DA MORTE ou A VOZ FUNESTA / THE VOICE ON THE WIRE / Universal.  Ben Wilson, Neva Gerber, Joseph W. Girard. 15 ep.

THE LOST EXPRESS / Signal. Helen Holmes, Leo Maloney, Thomas G. Lingham. 15 ep.

O ÁS DE OUROS / THE RED ACE / Universal. Marie Walcamp, Larry Peyton, L.M. Wells. 16 ep.

THE RAILROAD RAIDERS / Signal  (Mutual). Helen Holmes, Leo Maloney, William Brunton. 15 ep.

O FANTASMA PARDO / THE GRAY GHOST / Universal. Harry Carter, Priscilla Dean, Emory Johnson. 16 ep.

O GRANDE SEGREDO / THE GREAT SECRET / Serial (Metro). Francis X. Bushman, Beverly Baine, Fred R. Stanton. 18 ep.

THE RAILROAD RAIDERS / Signal (Mutual).Helen Holmes,  Leo Maloney, William Brunton.15 ep.

A MÃO DO DIABO / THE HIDDEN HAND / Pathé. Doris Kenyon, Sheldon Lewis, Mahlon Hamilton. 15 ep.

JIMMMY DALE ALIAS THE GREY SEAL / Monmouth (Mutual). Elmo Lincoln, Edna Hunter, Doris Mitchell. 16 ep.

O MISTÉRIO DA DUPLA CRUZ / THE MYSTERY OF THE DOUBLE CROSS / Pathé. Mollie King, Leon Bary, Ralph Stuart. 15 ep.

O NAVIO FANTASMA / THE MYSTERY SHIP / Universal. Neva Gerber, Ben Wilson, Duke Worne. 18 ep.

A ESPOSA DESPREZADA / THE NEGLECTED WIFE  / Pathé. Ruth Roland, Roland Bottomley, Corinne Grant. 15 ep.

PATRIA / PATRIA  / International Film Service (Pathé). Irene Castle, Milton Sills, Warner Oland. 15 ep.

AS SETE PÉROLAS / THE SEVEN PEARLS / Pathé. Mollie King, Creighton Hale, Leon Bary. 15 ep.

A VINGANÇA E A MULHER. / VENGEANCE AND THE WOMAN / Vitagraph. William Duncan, Carol Holloway, George Holt. 15 ep.

QUEM É O NÚMERO UM? / WHO IS NUMBER ONE?  / Paramount. Kathleen Clifford, Cullen Landis, Gordon  Sackville. 15 ep.

JUDEX / JUDEX / Gaumont. René Cresté, Musidora, Yvette Andreyor. 12 ep.

A QUADRILHA DOS RATOS CINZENTOS ou O ETERNO ZA LA MORT / I TOPI GRIGI / Tiber. Emilio Ghione, Kally Sambucini, Albert-Francis Bertone. 8 ep.

O TRIÂNGULO AMARELO / IL TRIANGOLO GHIALLO / Tiber. Emilio Ghione, Kally Sambucini, Odette De Virgili. 4 ep.

OS MISTÉRIOS DE PARIS / PARIGI MISTERIOSA / Caesar. Olga Benetti, Alfredo Bracci, Lea Giunchi. 4 ep.

MEFISTO, O HOMEM MISTERIOSO / MEFISTO / Studio Film. Lola Paris, Baltasar Banquells, Blanca Valoris. 12 ep.

A SEITA DOS MISTERIOSOS / LA SECTA DE LOS MISTERIOSOS / Hispano. José Durany, Joaquin Carrasco, Helena Bernis. 3 ep.

1918

A BALA DE BRONZE /THE BRASS BULLET / Universal. Juanita Hansen, Jack Mulhall, Josep W. Girard. 18 ep.

CODY, O INVENCÍVEL  ou  ROLLEAUX , O INVENCÍVEL / BULL’S EYE / Universal. Eddie Polo, Vivian Reed, Frank Lanning. 18 ep.

A DAUGHTER OF UNGLE SAM / Jaxon (General Film Corporation). Jane Vance, William Sorelle, Henry Carleton. 12 ep.

OS OLHOS DA ÁGUIA / THE EAGLE’S EYE  / Wharton – American. King Baggot, Marguerite Snow, Bertram Marburgh. 20 ep.

A LUTA PELOS MILHÕES / A FIGHT FOR MILLIONS / Vitagraph. William Duncan, Edith Johnson, Joe Ryan. 15 ep.

O CAVALEIRO FANTASMA ou A PRINCESA INCA / HANDS UP / Pathé. Ruth Roland, George Chesebro, George Larkin. 15 ep.

A CASA DO ÓDIO / THE HOUSE OF HATE / Pathé. Pearl White, Antonio Moreno, Peggy Shanor. 20 ep.

A MÁSCARA SINISTRA / THE IRON TEST / Vitagraph. Antonio Moreno, Carol Holloway, Barney Furey. 15 ep.

TIH -MINH / Gaumont. Mary Harald, René Cresté, Georges Biscot. 12 ep.

NAS GARRAS DOS LEÕES / THE LION’S CLAW / Universal. Marie Walcamp,  Roy Hanford, Neal Hart.  18 ep.

SEDUÇÃO DO CIRCO / LURE OF THE CIRCUS / Universal. Eddie Polo, Eileen Sedgwick, Harry Carter. 18 ep.

O SILÊNCIO MISTERIOSO / THE SILENT MYSTERY / Burston. Francis Ford, Mae Gaston, Rosemary Theby. 15 ep.

OS MENSAGEIROS DA MORTE / WOLVES OF KULTUR / Pathé. Leah Baird, Charles Hutchinson, Sheldon Lewis. 15 ep.

EM PALPOS DE ARANHA / A WOMAN IN THE WEB / Vitagraph. Hedda Nova, J. Frank Glendon, Robert Bradbury. 15 ep.

A NOVA MISSÃO DE JUDEX / LA NOUVELLE MISSION DE JUDEX / Gaumont. René Cresté, Marcel Levesque, Yvette Andreyor. 12 ep.

O CONDE DE MONTE-CRISTO / LE COMTE DE MONTE-CHRISTO / Film d’Art. Léon Mathot, Nelly Cormon, Alexander Colas. 8 ep.

MASCAMOR / MASCAMOR (Phocéa). Marthe Lenclud, Pierre Marodon, Susanne Roumestan. 14 ep

O PROTEGIDO DE SATANÁS / EL PROTEGIDO DE SATAN (Studio Film). Lola Paris, Baltazar Banquells, Blanca Valoris. 14 ep.

FORÇA E NOBREZA / FUERZA Y NOBLEZA / Royal. Jack Johnson, Lucielle, Fernando Delgado. Série. 4 ep.

1919

AS AVENTURAS DE RUTH ou O MISTÉRIO DAS 13 CHAVES / THE ADVENTURES OF RUTH / Pathé. Ruth Roland, Herbert Heyes, Thomas Lingham. 15 ep.

O SEGREDO NEGRO / THE BLACK SECRET / Pathé. Pearl White, Walter McGrail, Wallace McCutcheon. 15 ep.

PRESO E AMORDAÇADO / BOUND AND GAGGED / Pathé. Marguerite Courtot, George B. Seitz, Nellie Burt. 10 ep.

DUELO MISTERIOSO / THE CARTER CASE  (THE CRAIG KENNEDY SERIAL) / Oliver Films. Herbert Rawlinson, Marguerite Marsh, Ethel Grey Terry 15 ep.

ELMO, O PODEROSO / ELMO, THE MIGHTY / Universal. Elmo Lincoln, Grace Cunnard,  Fred Starr. 18 ep.

A FORTUNA FATAL / THE FATAL FORTUNE / SLK Serial Corporation. Helen Holmes, Jack Levering, Leslie King. 15 ep.

O JOGO TEMERÁRIO / THE GREAT GAMBLE / Pathé. Anne Luther, Charles Hutchinson, Richard Neill. 15 ep.

O MISTÉRIO DO RADIUM / THE GREAT RADIUM MYSTERY / Universal. Eileen Sedgwick, Cleo Madison, Robert Reeves.  18 ep.

O FIO DO DESTINO / LIGHTNING BRYCE / National Film (Arrow). Jack Hoxie, Anna Little, Paul C. Hurst. 15 ep.

A VAMPIRO RELÂMPAGO ou VAMPIRO RELÂMPAGO / THE LIGHTNING RAIDER / Pathé. Pearl White, Warner Oland, Henry G. Sell. 15 ep.

O HOMEM-LEÃO / THE LION MAN / Universal. Kathleen O’Connor, Jack Perrin, Mack Wright. 18 ep.

A SENDA PERIGOSA / THE LURKING PERIL / Wistaria (Arrow). George Larkin, Anne Luther, William Betchel. 15 ep.

O HOMEM PODEROSO / MAN OF MIGHT / Vitagraph. William Duncan, Edith Johnson, Joe Ryan. 15 ep.

O CAVALEIRO MASCARADO / THE MASKED RIDER / Arrow. Harry Myers, Ruth Stonehouse, Paul Panzer. 15 ep.

O HOMEM DE AÇO / THE MASTER MYSTERY / Octagon. Harry Houdini, Marguerite Marsh, Ruth Stonehouse. 15 ep.

O HOMEM DA MEIA-NOITE / THE MIDNIGHT MAN / Universal. James J. Corbett, Kathleen O’Connor, Joseph W. Girard. 18 ep.

O MISTÉRIO DO Nº 13 / THE MYSTERY OF 13 / Burston. Francis Ford, Rosemary Theby, Pete Gerald. 15 ep.

PRECIPÍCIOS DO ÓDIO / THE PERILS OF THUNDER MOUNTAIN / Vitagraph. Antonio Moreno, Carol Holloway, Kate Price. 15 ep.

A LUVA VERMELHA / THE RED GLOVE / Universal. Marie Walcamp, Pat O’Malley, Truman Van Dyke. 18 ep.

TRANSPONDO BARREIRAS / SMASHING BARRIERS / Vitagraph. William Duncan, Edith Johnson, Walter Rodgers. 15 ep.

O TERROR DAS SERRAS / THE TERROR OF THE RANGE / Pathé. Betty Compson, George Larkin, H.P. Carpenter. 7 ep.

NO RASTRO DO TIGRE / THE TIGER’S TRAIL. / Pathé. Ruth Roland, George Larkin, Mark Strong. 15 ep.

O RASTRO DO POLVO / THE TRAIL OF THE OCTOPUS / Hallmark. Ben Wilson, Neva Gerber, Howard Crampton. 15 ep.


A NOVA AURORA/ LA NOUVELLE AURORE / Societé des Cinéromans. René Navarre, José Davert, Rachel Devirys. 15 ep.

A ANDORINHA DE AÇO / L’ HIRONDELLE D’ACIER / Parisienne Films. Georges Gauthier, Suzy Pierson, Anton  De Verdier. 10 ep.

O TRABALHO / LE  TRAVAIL/ Film d’Art. Léon Mathot, Huguette Duflos, Raphaël Duflos. 7 ep.

DÓLARES E FRANCOS / DOLLARI E FRAKS / Tiber. Emilio Ghione, Kally Sambucini, Amilcare Taglienti. 4 ep.

O BOTÃO DE FOGO / EL BOTÓN DE FUEGO / Studio Film. Jose Ardevol, Anita Stephenson, Marco Fox. 10 ep.

A SOBERANA DO MUNDO / DIE HERRIN DER WELT / May-Film GmbH. Mia May, Michael Bohnen, Henry Sze. 8 ep.

1920

AS QUATRO VIRGENS MARCADAS / THE BRANDED FOUR / Select. Ben Wilson, Neva Gerber, Joseph Girard. 15 ep.

AS 13 NOIVAS / BRIDE 13 / Fox. Marguerite Clayton, John O’Brien, William Lawrence. 15 ep.

VIVO OU MORTO / DAREDEVIL JACK / Pathé. Jack Dempsey, Josie Sedgwick, Herschel Mayall. 15 ep.

A REDE DO DRAGÃO ou NAS GARRAS DO DRAGÃO / THE  DRAGON’S NET / Universal. Marie Walcamp, Harlan Tucker, Otto Lederer. 12 ep.

ELMO, O DESTEMIDO / ELMO, THE FEARLESS / Universal. Elmo Lincoln, Louise Lorraine, William Chapman. 18 ep.

MAU OLHADO / THE EVIL EYE / Hallmark. Benny Leonard, Ruth Dwyer. Stuart Hansen. 15 ep.

FANTOMAS / FANTOMAS / Fox. Edward Roseman, Edna Murphy, Johnnie Walker. 20 ep.

O SINAL FATAL / THE FATAL SIGN / Arrow. Claire Anderson, Harry Carter, Leo Maloney. 15 ep.

O DISCO DE FOGO / THE FLAMING DISC / Universal. Elmo Lincoln, Louise Lorraine, Fay Holderness. 18 ep.

O HOMEM DE FERRO / THE HAWK’S TRAIL / Burston. King Baggot, Rhea Mitchell, Grace Darmond. 15 ep.

O PERIGO OCULTO / HIDDEN DANGERS / Vitagraph. Joe Ryan, Jean Paige, George Stanley. 15 ep.

A MÃO INVISÍVEL ou A QUADRILHA DA MÃO DE FERRO / THE INVISIBLE HAND / Vitagraph. Antonio Moreno, Pauline Curley, Jay Morley. 15 ep.

O RAIO INVISÍVEL ou O CLARÃO INVISÍVEL / THE INVISIBLE RAY / Frohman (Joan Film Sales). Jack Sherrill, Ruth Clifford, Sidney Bracey. 15 ep.

O REI DO CIRCO / KING OF THE CIRCUS / Universal. Eddie Polo, Corrine Porter, Kittoria Beveridge. 18 ep.

A CIDADE PERDIDA / THE LOST CITY / Warner Bros. Juanita Hansen, George Chesebro, Frank Clark. 15 ep.

OS CAVALEIROS DA LUA / THE MOON RIDERS / Universal. Art Acord, Mildred Moore, Charles Newton. 18 ep.

O DOMINADOR / THE MYSTERY MIND / Supreme (Pioneer). J. Robert Pauline, Peggy Shanor, Paul Panzer. 15 ep.

UM MILHÃO DE RECOMPENSA / THE $1,000,000 REWARD /  Grossman. Lillian Walker, Coit Albertson, Charles Middleton. 15 ep.

O FANTASMA INIMIGO / THE PHANTOM FOE / Pathé. Juanita Hansen, Warner Oland, Wallace McCutcheon. 15 ep.

OS PIRATAS DO OURO / PIRATE GOLD  / Pathé. Marguerite Courtot, George B. Seitz, Frank Redman. 10 ep.

RUTH DAS MONTANHAS ou RUTH DAS ROCHAS / RUTH OF THE ROCKIES / Pathé. Ruth Roland, Herbert Heyes, Thomas Lingham. 15 ep.

O GRITO DA SOMBRA / THE SCREAMING SHADOW / Hallmark.. Ben Wilson, Neva Gerber, Frances Terry. 15 ep.

A VINGANÇA SILENCIOSA / THE SILENT AVENGER / Vitagraph. William Duncan, Edith Johnson, Jack Richardson. 15 ep.

O FILHO DE TARZAN / SON OF TARZAN / National Film. Kamuela C. Searle, P. Dempsey Tabler, Karla Schram. 15 ep.

O TESTEMUNHO OCULTO / THE THIRD EYE / Pathé. Eileen Percy, Warner Oland, Jack Mower. 15 ep.

JACK, O DESTEMIDO / THUNDERBOLT JACK / Berwilla (Arrow). Jack Hoxie, Mari Sais, Chris Frank. 15 ep.

ALMA DE TIGRE / THE TIGER BAND / Holmes Producing Corporation (Warner Bros.). Helen Holmes, Jack Moweer, Dwigth Crittenden. 15 ep.

PERSEGUIDO POR TRÊS / TRAILED BY THREE / Pathé. Frances Mann, Stuart Holmes, Wilfred Lytell.15 ep.

A PUNHALADA MISTERIOSA / THE VANISHING DAGGER /Universal. Eddie Polo, Thelma Percy, G. Norman Hammond. 18 ep.

CAMINHOS OCULTOS / VANISHING TRAILS / Canyon. Franklyn Farnum, Mary Anderson, Duke R. Lee. 15 ep.

O VÉU MISTERIOSO / THE VEILED MYSTERY / Vitagraph. Antonio Moreno, Pauline Curley, Henry A. Barrows. 15 ep.

DEDOS DE VELUDO / VELVET FINGERS / Pathé. George B. Seitz, Marguerite Courtot, Harry Semels. 15 ep.

O FURACÃO ou A MOTOCICLETA DA MORTE / THE WHIRLWIND / Allgood (Republic). Charles Hutchinson, Edith Thorton, Richard Neill. 15 ep.

A CASA DOS MISTÉRIOS ou A DAMA EM GRIS / A WOMAN IN GREY / Serico. Arline Pretty, Henry G. Sell, Fred Jones. 15 ep.

O PACTO INFERNAL / QUAND ON AIME / Pathé. Julia Bruns, Arnold Daly, Renée Fagan. 10 ep.

A PONTE DOS SUSPIROS / IL PONTE DEI SOSPIRI / Albertini Films. Luciano Albertini,  Antonietta Calderari, Onorato Garaveo. 8 ep.

OS MISTÉRIOS DE PARIS / PARIS MYSTÉRIEUX / Parisienne. Georges Gauthier, Jeanne Brindeau, Marie Heil. 10 ep.

BARRABAS / BARRABAS / Gaumont. Gaston Michel, Fernand Hermann, Edouard Mathé, Georges Biscot. 12 ep.

FILMES POLICIAIS DE JEAN-PIERRE MELVILLE

Ele foi um dos mais importantes cineastas independentes do cinema francês, emergindo no período imediato após a Segunda Guerra Mundial. Desde a infância, tornou-se um grande admirador da cultura americana, da qual derivaram o seu nome artístico (homenagem ao autor de Moby Dick, Herman Melville) e seus filmes, especialmente os policiais.

Jean-Pierre Melville (1917-1973), cujo verdadeiro nome era Jean-Pierre Grumbach, tinha como  ancestrais  judeus da Alsácia. O pai, homem de negócios, mudou-se para Paris, onde Jean-Pierre nasceu e estudou (no Lycée Condorcet, colégio muito respeitado para alunos da classe média). Em 1924, quando tinha sete anos de idade, Jean-Pierre ganhou de presente de sua família uma câmera Pathé-Baby e logo depois um projetor, que lhe permitia ver lançamentos de filmes recentes em 9.5mm. Graças ao seu projetor ele podia ver quatro ou cinco filmes novos por semana.

Depois do advento do som, seu dia começava às nove horas da manhã em um cinema (o Paramount) e terminava da mesma maneira às três horas da manhã seguinte. Como observou Ginette Vincendeau (Jean-Pierre Melville – An American in Paris, British Film Institute, 2006), “a educação cinematográfica de Melville, na sua voracidade e americanofilia, antecipavam à dos críticos da Nouvelle Vague”.

Em 1937, aos 17 anos, Jean-Pierre prestou serviço militar no “Spahis”, regimento de cavalaria colonial. Em setembro de 1940, o regimento ficou encurralado na Bélgica e ele foi evacuado via Dunquerque e repatriado para a França. No seu retorno, Jean-Pierre  dirigiu-se para Castres no Sul, para onde sua família havia se mudado, juntando-se às redes da Resistência “Libération” e “Combat” sob o nome de Cartier e depois, Melville.

Após a Libertação, a sua cinefilia e familiaridade com o meio cinematográfico levaram Melville a realizar um curta-metragem, 24 Heures de la vie d’un Clown / 1946, semi-documentário de 17 minutos sobre a vida do palhaço Béby do circo Médrano, que poucas pessoas viram e ele sempre renegou veementemente. Depois dessa falsa estréia, o seu “verdadeiro” começo foi mais espetacular – Le Silence de la Mer / 1949, tornou-se um clássico instantaneamente.

Pude ver todos os 13 filmes em longa-metragem de Melville, entre os quais se incluem ainda Les Enfants Terribles / 1950; Quando Leres Esta Carta / Quando Tu Liras Cette Lettre / 1953; Deux Hommes dans Manhattan / 1959; Léon Morin, o Padre (TV) / Léon Morin, Prêtre / 1961; L’Ainé des Ferchaux / 1963; e o extraordinário O Exército das Sombras / L’Armée des Ombres; porém, neste artigo, falo apenas sobre seus filmes policiais ou de gângster: Bob le Flambeur / 1956, Técnica de um Delator / Les Doulos / 1962, Os Profissionais do Crime / Le Deuxième Souffle / 1966, O Samurai / Le Samourai / 1967, O Círculo Vermelho / Le Cercle Rouge / 1970 e Expresso para Bordeaux / Un Flic / 1972.

Melville inaugura a série de filmes policiais com Bob le Flambeur / 1956. É a história de Robert Montagné (Roger Duchesne), conhecido como Bob le Flambeur, ex-gângster, agora na meia-idade e viciado no jogo, que anda sem sorte, mas ainda é uma “lenda viva” em Montmartre. Ele passa suas noites em antros de jogatina e boates (“entre a noite e o dia entre o céu e o inferno”) na companhia de seu velho amigo Roger (André Garet) e do seu jovem protegido Paulo (Daniel Cauchy), sob  o olhar atento do inspetor de polícia local Ledru (Guy Decomble), cuja vida Bob havia salvo no passado. Depois de ganhar algum dinheiro nas corridas, Bob vai para Deauville com Roger, a fim de jogar no cassino, onde perde tudo o que ganhara. Roger fica sabendo por Jean (Claude Cerval), ex-criminoso e agora crupiê, sobre um depósito fabuloso de dinheiro que fora feito no cofre do cassino no ano anterior na véspera do Grand Prix. Bob e Roger planejam arrombar o cofre como um último trabalho, antes de se aposentarem. O assalto é cuidadosamente preparado e ensaiado por um bando reunido para tal propósito. Entretanto, Paulo, que está associado ao projeto, revela o plano para Anne (Isabelle Corey), uma jovem prostituta que lhe fora apresentada por Bob, a fim de impressioná-la. Esta,  ingenuamente, conta tudo a Marc (Gérard Buhr), um rufião e informante da polícia, com o qual ela também vinha dormindo. Anne confessa o seu ato para Bob, que repreende Paulo. Este, para corrigir seu erro, mata o informante antes que ele possa avisar a polícia. Porém eles serão denunciados pela mulher do crupiê (Colette Fleury), inconformada com a quantia que seu marido receberia pela sua colaboração no assalto. Na noite do roubo, Bob não resiste e joga, para passar o tempo enquanto aguarda a hora marcada para o assalto. Sua sorte retorna e ele ganha tanto dinheiro, que se esquece do assalto. O bando é preso pelos homens de Ledru, antes de entrar no cassino e Paulo é morto. Bob e Roger são conduzidos no carro de Ledru, com o dinheiro ganho por Bob no porta-malas. Ledru graceja, dizendo que, com um bom advogado, que ele agora pode pagar, Bob conseguirá obter uma sentença suave. E este acrescenta: ou até requerer uma indenização.

Trabalhando pela primeira vez inteiramente no seu próprio estúdio, na rua Jenner em Paris, com um mínimo de recursos – o que explica a quantidade de cenas filmadas em locação – e ausência de astros, Melville realizou seu primeiro filme policial, inspirado nos filmes americanos desse gênero, porém sem copiá-los servilmente.

Nele já se vislumbram os sinais do estilo Melville: simplicidade, discrição de inspiração documentária (repudio ao pitoresco e aos clichês), ritmo lento mas fluente com abundância de planos,  minuciosidade na encenação, elegância dos enquadramentos. Pode-se identificar também a influência de O Segredo das Jóias / The Asphalt Jungle / 1949 de John Huston. Bob le Flambeur, tal como o filme de Huston, não é um filme sobre aventuras, mas um filme sobre os personagens, os caractéres, os estados d’alma e aborda o mesmo tema da ambição e do fracasso, resultando em um final irônico e cínico.

O ambiente dos pequenos cafés de Montmartre onde os jogadores se reúnem e as noites de Pigalle são reconstituídos habilmente. A intriga evolui dos cabarés ao luxuoso cassino de Deauville, nas salas de jogo que servem de cenário natural a várias sequências. Todo esse ambiente foi muito captado pela câmera de Henri Decae (um dos colaboradores mais assíduos do diretor), que usou as condições precárias da produção como estímulo para a inovação, uma qualidade que o tornou muito  requisitado pelos cineastas da Nouvelle Vague.

Os sentimentos, sempre adequados e lógicos e os diálogos de Auguste Le Breton, um especialista no gênero, dão um tom de verdade às situações e Roger Duchesne, ator de segundo plano nos anos quarenta, retorna às telas em um papel principal, dando conta do recado com sua interpretação minimalista.

Em Técnica de um Delator, após sua saída da prisão, Maurice Faugel (Serge Reggiani) mata Gilbert (René Lefevre) um receptador, porque ele havia assassinado sua antiga mulher, Arlette. Gilbert estava examinando jóias roubadas por Nuttheccio (Michel Piccoli) e Armand (Jacques De Leon), cuja visita ele estava aguardando. Quando os dois homens chegam, Faugel escapa sem ser visto, enterra o dinheiro e as jóias, assim como a arma do crime. No apartamento de sua nova amante Thérèse (Monique Henessy), Faugel recebe seus amigos Jean (Aimé de March) e Silien (Jean-Paul Belmondo), notório informante da polícia e amigo do Inspetor Salignari (Daniel Crohem). Silien traz um equipamento para arrombar cofres, do qual Faugel necessita para roubar uma mansão em Neuilly com seu comparsa Rémy (Philippe Nahon). Faugel e Rémy tomam o metrô para Neuilly. Silien telefona para Salignari de um telefone público, retorna ao apartamento de Thérèse, espanca-a e arranca dela o endereço de seu “homem”. Mal o assalto é iniciado, Faugel avista os carros da polícia. Numa tentativa de fuga, Salignari mata Rémy e é morto por Faugel, que fica ferido. Faugel é recolhido por um carro. Ele acorda em casa de Jean diante da mulher deste, Anita (Paulette Breil) e um médico tratando de seu ferimento. Faugel parte à procura de Silien, certo de que este o traíra. Silien é abordado pelo Inspetor Clain (Jean Desailly), que lhe pede para informar quem é o cúmplice de Rémy (sem saber que este é Faugel) e também o interroga sobre a morte de Gilbert. Ele obriga Silien a telefonar para vários bares, a fim de encontrar Faugel. Este é preso em um bar e interrogado por Clain. Silien desenterra as jóias e vai à boate de Nuttheccio, The Cotton Club, onde conversa com sua antiga amante, Fabienne (Fabienne Dali), que agora está com Nuttheccio. Ele convence Fabienne a confessar que ela havia ouvido um tiro de revólver, enquanto estava esperando por Nuttheccio e Armand fora da casa de Gilbert. Silien mata Nuttheccio e Armand no escritório de Nuttheccio e faz com que a morte pareça o resultado de uma briga entre os dois pelas jóias, que ele deixa no cofre. Faugel é solto e descobre que a informante fôra Thérèse, que trabalhava para a polícia e que  Silien encenou a morte de Nuttheccio e Armand, para livrá-lo da acusação de ter matado Gilbert. Silien ruma para sua casa em Ponthiery, onde é esperado pelo alemão Kern (Carl Studer), contratado na prisão por Faugel, para matá-lo pela suposta traição. Faugel parte desesperadamente para impedir que Kern mate Silien. Ele chega na casa primeiro mas é confundido com Silien e morto por Kern. Quando Silien chega, começa um tiroteio, no qual ambos Kern e Silien também morrem.

O aspecto de Técnica de um Delator que atrai mais a nossa atenção é a sua mudança repentina na narrativa. Durante quase noventa minutos de filme, acreditamos que Silien é um doulos (informante). Seu telefonema para Salignari, o espancamento de Thérèse, a apropriação das jóias, a encenação elaborada das mortes de Nuttheccio e Armand, tudo contribui para que o espectador, tal como Faugel, acreditem na traição de Silien. Quando este revela que Thérèse, e não ele, foi o delator, ficamos perplexos ao sabermos de tudo o que havia acontecido.

Na percepção de G. Vincendeau, como foi anunciado em uma nota que aparece após os créditos do filme (“Devemos escolher. Morrer … ou mentir?”), cada personagem em Técnica de um Delator mente (ou pode estar mentindo) para alguém em determinado momento – Gilbert sobre Arlette, Faugel sobre Gilbert, Silien sobre Faugel, Thérèse sobre Silien, Clain sobre a ameaça do esquadrão anti-droga para Silien, etc. Até a série de revelações de Silien pode ser mentira. Ele é apoiado por Jean, porém ambos podem estar mentindo. Para Denitza Bantcheva, que escreveu um livro sobre Melville (Jean-Pierre Melville: de l’oeuvre à l’homme, Librairie Bleue, 1996), o maior mentiroso é sem dúvida o cineasta, que nos conduz de uma falsidade para outra.

Jean-Pierre Melville conhece todos os recursos e todas as manhas de seu ofício. Seu filme é solidamente composto, tem bons intérpretes (com destaque para Reggiani e Belmondo, o primeiro, um tanto esquecido desde Amores de Apache / Casque d’or / 1952 e o segundo, ascendendo ao estrelato após Acossado / A Bout de Souffle / 1960), e Melville mantém sempre o interesse pela trama à qual não falta mistério e suspense bem como numerosas cenas de violência, como a tríplice fuzilaria final, que parece uma transposição, para não dizer um pastiche, de um drama shakespereano.

Os Profissionais do Crime começa quando Gustave “Gu Manda (Lino Ventura), um gângster perigoso e outros dois presidiários fogem da prisão. Um deles morre na tentativa. Gu e o outro escapam num trem de carga. Logo, o outro homem salta do trem e Gu fica sozinho. Na sua boate em Marselha, o gângster Paul Ricci (Raymond Pellegrin) é informado de que um comboio carregando platina sairá da cidade no dia 28 de dezembro. Contra a sua vontade, seu amigo Jeannot (Albert Dagnant) vai a Paris para matar o gângster rival Jacques le Notaire (Raymond Loyer). Na boate de Simone, conhecida como  “Manouche (Christine Fabréga), Jeannot mata Jacques e é ferido. O Inspetor Blot (Paul Meurisse) chega e prende os frequentadores do local. A fuga de Gu é anunciada. Dois bandidos ameaçam “Manouche” e Alban (Michel Constantin), seu fiel empregado. Gu chega e descobre que o gângster Jo Ricci (Marcel Bozuffi), irmão de Paul, os enviara para chantagear “Manouche”; Gu mata os bandidos. Alban e Manouche levam Gu para um esconderijo. Paul Ricci visita o moribundo Jeannot e seu irmão Jo. De volta a Marselha, Ricci sugere a seus capangas Antoine  (Denis Manuel) e Pascal (Pierre Grasset), que Orloff (Pierre Zimmer) substitua Jeannot no assalto. Mas Orloff não aceita a proposta. Blot relaciona a morte dos bandidos à fuga de Gu, faz uma visita a Jo Ricci e lhe diz que Gu está procurando por ele. Gu parte para se vingar de Jo Ricci, mas desiste no último minuto. “Manouche” pede a seu amigo Theo (Louis Bougette) ajuda para obter papéis de identidade falsos para Gu e um barco para a sua fuga para Marselha. Theo fala com seu amigo Orloff sobre Gu. Orloff se prontifica a arrumar os papéis e pede a Theo que informe Gu sobre o assalto. Este chega a Marselha e, apesar da oposição de “Manouche”, concorda em participar do assalto por dinheiro. Paul Ricci, seu velho amigo o admite no bando, sob protesto de Antoine e Pascal. Gu, Paul, Antoine e Pascal praticam o assalto com sucesso, matando dois policiais. A polícia descobre o roubo e os assassinatos. Blot chega de Paris para fúria do inspetor local Fardiano (Paul Frankeur). Gu é preso por policiais disfarçados de gângsteres, que o enganam, fazendo com que ele revele o nome de Paul. Este é preso e ambos são interrogados brutalmente. Perturbado por ter sido apontado como informante, Gu tenta se matar. Jo Ricci chega a Marselha para ajudar seu irmão e se vingar de Gu. Orloff se oferece para procurar Gu dizendo que o matará, se ele tiver provas de sua culpabilidade. Gu foge do hospital da prisão, sequestra Fardiano, obriga-o a confessar por escrito que havia mentido sobre sua traição e o mata. Rendido por Orloff, Gu derruba-o com um soco e vai se confrontar com Jo, Antoine e Pascal. Gu mata os três mas é alvejado por Antoine e um policial. Gu morre nos braços de Blot, pronunciando o nome de “Manouche” e lhe entregando a confissão de Fardiano, que o inspetor dá um jeito de ser colhida no chão por um jornalista.

Melville confirma seu gosto pelo filme noir e apura seu estilo, já esboçado em Bob le Flambeur e Técnica de um Delator. Tal como neste último, Os Profissionais do Crime aborda o tema da traição. A última terça parte do filme, a partir da prisão de Gu, mostra-o lutando para “limpar seu nome” da mácula de ter traído Paul (uma traição acidental engendrada por Blot e retransmitida para a imprensa por Fardiano). Raiva e vergonha levam Gu a fugir, matar Fardiano e depois Jo, Antoine e Pascal e finalmente a morrer alvejado pelas balas de Antoine e de um dos assistentes de Blot. Foi o orgulho de Gu que o levou à morte. Ele poderia ter partido para uma outra vida (le deuxième souffle), mas procurou obstinadamente salvar sua honra profissional.

Naquele momento, nada mais contava, nem a fuga com Manouche nem o dinheiro. Ele se perde em uma espiral mortífera, da qual conhecia a saída. A certa altura da narrativa ele diz para Manouche: “De qualquer forma não voltarei para a prisão. Eu joguei e perdí”. Tal como Reggiani e Belmondo em Técnica de um Delator, Lino Ventura encarna um herói literalmente suicida, um gângster trágico, como diria Robert Warshow. (The Immediate Experience, artigo “The Gangster as a Tragic Hero”, Harvard University, 2002).

O filme é longo (duas horas e trinta minutos) e se desenvolve em um ritmo lento, porém nele não existe nem um plano, nem uma palavra que se possa tirar sem romper o equilíbrio do conjunto. O realizador esforça-se para filmar de acordo com a duração real dos acontecimentos. Quando ele descreve o assalto, tudo é cuidadosamente mostrado, inclusive a espera tediosa e angustiante  da chegada do carro blindado. Melville rejeita o uso de uma trilha sonora bombástica para envolver o espectador emocionalmente, preferindo trabalhar com o silêncio, um mínimo de diálogo e sons naturais, obrigando-o a observar em vez de ficar preocupado com a natureza do evento.

Logo no início da narrativa, após a apresentação de um texto contendo um aforisma fatalístico (”A sa naissance il n’est donné à l’homme qu’un seul droit: le choix de sa mort. Mais si ce choix est commandé par le dêgout de la vie, alors son existence n’aura été que pure dérision”), segue-se outra sequência admirável, a fuga silenciosa da prisão, que lembra aquela de Um Condenado à Morte Escapou / Un Condamné a Mort s’est Echapé de Robert Bresson e demonstra a poderosa economia de meios do diretor, seu cinema narrativo simples atingindo o máximo de abstração e refinamento. A perfeição técnica da mise-en-scène de Melville encontrará a  sua apoteose no seu próximo trabalho.

A trama de O Samurai resume-se assim: Jef Costello (Alain Delon), assassino de aluguel, rouba um carro e forja um álibi com sua amante Jane Lagrange (Natalie Delon) e um grupo de jogadores de pôquer, antes de executar com sucesso um contrato para matar o diretor de uma boate. Entretanto, ele é visto pela pianista da boate, Valérie (Caty Rosler). Jef  livra-se de sua arma e volta a se reunir com o grupo de jogadores de pôquer mas é preso em uma batida por parte da polícia. A pianista e o garçom da boate negam tê-lo visto ao inspetor encarregado da investigação (François Perier). Outro amante de Jane, Wiener (Michel Boisrond), lembra-se de que viu Jef saindo do edifício dela. Embora acreditando que Jef e Jane são culpados, o inspetor é obrigado a soltá-los, por falta de uma prova mais robusta.  Os policiais  seguem seus passos, mas perdem o seu rastro no metrô. Jef vai receber o dinheiro pelo assassinato, porém é alvejado por um homem (Jacques Leroy), enviado pelo seu mandante traidor e ainda desconhecido. Retornando ao seu quarto de hotel, Jef cuida de seu ferimento. O mandante e seus cúmplices discutem se devem eliminá-lo, pois sua prisão seria um risco em potencial. Enquanto Jef volta à boate para falar com a pianista, a polícia instala um gravador no seu quarto. Jef aborda Valérie e vai para o apartamento dela, querendo saber quem foi o mandante do crime. A polícia ameaça Jane brutalmente em seu apartamento mas a jovem permanece calada. Retornando ao seu quarto, Jef descobre o gravador e o desativa. Pouco depois, é surpreendido pelo homem que o alvejara. Este lhe oferece o dinheiro que o mandante lhe devia e mais dois milhões de francos para executar outro serviço. Jef força-o a revelar a identidade do mandante de ambos, Olivier Rey (Jean-Pierre Posier). A polícia põe em prática uma operação complexa para seguir Jef no metrô mas perde-o de vista novamente. Ele rouba outro carro, visita Jane para se despedir e mata Olivier Rey em seu apartamento. Em seguida, Jef dirige-se à boate para matar a pianista  que era o alvo de seu novo serviço. Porém ele havia descarregado sua arma e, quando finge que vai atirar, é alvejado pelas costas pela polícia e morre.

Ponto culminante da obra de Melville, o filme apresenta logo no início uma frase que o diretor finge ter extraído do “Bushido” (código de honra dos antigos guerreiros japoneses) mas que, na verdade, foi inventado por ele: “Il n’y a pas de plus profonde solitude que celle du samourai si n’est celle du tigre dans la jungle, peut-être”. É uma chave simbólica do espetáculo.

Melville sempre manifestou, nos seus filmes sobre a Resistência como nos seus filmes policiais, uma predileção pelos solitários e anônimos, pelos combatentes nas sombras, marginais de fato e de temperamento. Desde o primeiro plano, Melville já mostra Jef sozinho, fumando, deitado na sua cama à direita da tela, em um quarto sombrio, asceta e espartano, no qual o único sinal de humanidade é o piar do passarinho na gaiola. Ele é um homem quase invisível, mesmo na sua esfera privada, como a sua “profissão” exige.

Depois, com calma e frieza (maneira com que agirá durante toda a narrativa), Jef veste a capa de chuva e o chapéu enquanto seu olhar azul contempla sua imagem elegante e glacial no espelho. Nesta sequência, o cineasta forja o tom hierático e silencioso do filme e Alain Delon reencontra o comportamento, o vestuário e o angelismo mórbido de Alan Ladd em Alma Torturada / This Gun for Hire / 1942. Ao sair dalí, ele vai e vem com uma inexpressividade absoluta, quase que como uma sombra, ao encontro do seu destino trágico.

Os diálogos são raros durante todo o desenrolar da ação e as mortes e atos do matador melancólico, assim como o ritmo, são de uma precisão implacável, o diretor procurando como sempre respeitar a “integridade da ação”, um respeito pela duração, próximo do tempo “verdadeiro”. A utilização habilidosa do complexo urbano  (vg. os corredores do metrô) e dos interiores (o interrogatório na delegacia, a execução de Jef na boate), magnificamente fotografados por Henri Decae e o emprego inspirado da montagem, também contribuem muito para o êxito da realização.

A ação de O Círculo Vermelho tem início em Marselha, onde o Inspetor Mattei (André Bourvil) está escoltando Vogel (Gian Maria Volonté), um criminoso notório, em um trem noturno para Paris. Durante a noite, Vogel se liberta das algemas e salta pela janela do trem. Ao mesmo tempo, Corey (Alan Delon) está sendo libertado da prisão em Marselha. Graças à informação que lhe foi fornecida por um guarda, ele fica a par do sistema de alarme de uma joalheria de alta classe da Place Vendôme em Paris. Corey visita Rico (André Ekyan), um ex- amigo que o traíra e vive agora com a sua antiga amante(Ana Douking). Corey leva dinheiro e uma arma do cofre de Rico e, depois, num salão de bilhar deserto, livra-se de dois capangas de Rico que o perseguiam. Ele compra um carro e segue em direção a Paris. Entrementes, Vogel foge de uma busca massiva da polícia e em uma lanchonete de beira de estrada, penetra na mala destrancada do carro de Corey. Após escapar de uma batida policial, Corey estaciona em um lugar deserto e diz a Vogel para sair da mala. A amizade entre os dois é reforçada, quando Vogel mata mais dois capangas de Rico que queriam vingar o patrão.  Em Paris, Mattei é repreendido pelo Diretor de Assuntos Internos por ter deixado Vogel fugir. Mattei procura vários de seus informantes , inclusive o dono de boate, Santi (François Perier), conhecido de Vogel. Corey e Vogel decidem assaltar a joalheria da Place Vendôme com a ajuda de um perito no tiro ao alvo, Jansen (Yves Montand), um ex-policial alcoólatra. Corey e Jansen se encontram na boate de Jansen enquanto este é preso. Jensen inspeciona o local do assalto e providencia balas especiais com as quais pretende imobilizar o sistema de alarme da joalheria. Corey procura um receptador (Paul Crauchet). Rico, ainda procurando se vingar de Corey, fica sabendo do plano do assalto pelo guarda da prisão. Corey, Vogel e Jansen executam o roubo com sucesso. Entretanto, o receptador, por ordem de Rico, recusa as jóias roubadas. Mattei pressiona Santi, prendendo o filho deste por tráfico de drogas. Corey consegue o nome de outro receptador. Mattei descobre a identidade deste, presumivelmente através de Santi, e toma seu lugar. Ele atrai Corey e Jansen para uma casa isolada no campo. Apesar da ajuda de Vogel, que aparece no instante em que Mattei vai prender seus cúmplices, os três homens são mortos pela polícia.

Dois malfeitores se cruzam. Corey saiu da prisão. Vogel fugiu. Com a cumplicidade de um ex-policial, que se tornou alcoólatra, eles organizam um roubo à uma joalheria. Mas sem contar com  a tenacidade do comissário Mattei.

O título do filme se explica por uma citação atribuída ao Buda (“Quand les hommes, même s’ils  s’ignorent,  doivent se retrouver un jour, tout peut arriver à chacun d ‘entre eux, et ils peuvent suivre des chemins divergents, au jour dit, inexorablement, ils seront réunis dans le cercle rouge”), que aparece na tela antes dos letreiros de apresentação. Os três assaltantes solitários, prisioneiros do seu destino, impotentes diante da fatalidade, serão reunidos no “círculo vermelho”, no desenlace trágico.

Melville confere intensidade dramática a uma trama policial convencional, construída através de cenas compostas nos seus mínimos detalhes com sobriedade e sofisticação. Ele orquestra grandes momentos de cinema recorrendo a uma dilatação angustiante dos planos, raridade de diálogos e  utilização percuciente dos enquadramentos como, por exemplo, nos mais de vinte minutos do assalto, durante o qual os assaltantes não trocam nenhuma palavra entre si, para que o espectador possa se concentrar nas suas ações,  meticulosamente filmadas pelo cineasta.

Todos os atores estão impecáveis mas o desempenho de Bourvil (num papel bem diferente do que aqueles que ele estava acostumado a interpretar), como o policial solitário que mora em um apartamento triste e frio povoado por apenas três gatos (lembrando o passarinho de Jef Costello em O Samurai), foi mais pungente, porque ele estava muito doente na ocasião da filmagem e viria a falecer poucos dias após o lançamento do filme.

Expresso para Bordeau, começa quando uma quadrilha – Simon (Richard Crenna), Marc (André Pousse), Paul (Riccardo Cucciolla) e Louis (Michael Conrad) – sob uma tempestade, assalta um banco situado à beira-mar em Saint-Jean-de-Monts. Um caixa aciona o alarme, alveja Marc e é morto. O bando escapa, enterra o produto do roubo e levam Marc para uma clínica. Enquanto isso, em Paris, o Inspetor Édouard Coleman (Alain Delon), acompanhado por seu assistente Morand (Paul Crauchet), faz a sua ronda, investigando o assassinato de uma mulher e o furto de um ricaço (Jean Desailly) por um garoto de programa, encontrando um informante travesti (Valérie Wilson) e interrogando três batedores de carteiras. Coleman vai à boate de seu amigo Simon ver a esposa deste, Cathy (Catherine Deneuve), que é sua amante. Os gângsteres se encontram no Louvre. Para evitar que Marc fale, Simon, Louis e Paul, entram na clínica disfarçados de enfermeiros, tentando removê-lo e, não conseguindo seu intento, mandam Cathy, disfarçada de enfermeira, aplicar uma injeção letal no dito paciente. O corpo (não identificado) de Marc é examinado por Coleman no necrotério. Coleman e Cathy se encontram em um quarto de hotel. Simon, Louis e Paul planejam seu próximo golpe (financiado pelo produto do assalto ao banco), o roubo de duas malas cheias de droga conduzidas por Mathieu (Léon Minisini) no trem Paris-Lisboa. Coleman fica sabendo do transporte da droga através do travesti informante e decide deixar que a polícia da fronteira prenda o interceptor. Porém Simon chega ao trem primeiro por meio de um assalto ousado. no qual ele desce por um cabo de um helicóptero, entra no leito onde está Mathieu, derruba-o com um soco, apodera-se das duas malas e depois é trazido de volta pelo mesmo cabo até o helicóptero. A identidade de Marc é descoberta e Coleman prende Louis que revela o envolvimento de Simon. Paul se suicida para não ser preso. Simon se esconde em um hotel e tenta escapar com Cathy, mas é impedido por Coleman, que havia grampeado o telefone deles. Coleman alveja Simon aparentemente em auto-defesa embora transpareça que Simon não estava armado e teria na verdade “cometido suicídio”. Coleman avista Cathy que estava esperando Simon, porém não a prende. Ele recebe outro chamado da central e retoma a sua ronda na companhia de Morand, visivelmente perturbado.

Um balneário fustigado pela chuva, um banco isolado e gângsteres em ação. A sequência de abertura do último filme de Melville é plasticamente brilhante, apesar da incongruência da possibilidade de existir um estabelecimento bancário em um lugar urbano, como que esperando ser assaltado.

O filme todo é um exercício de estilo, como sempre despojado, distanciado e detalhado, mas recorrendo a certos efeitos fáceis como a sequência do trem e do helicóptero que, embora excitante, é um tanto inverossímil e filmada com miniaturas bem visíveis, com prejuízo para a credibilidade desta parte do espetáculo. Por outro lado, Melville não se aprofunda no relacionamento entre Coleman, Simon e Cathy; parece mais interessado na ação física do que nos desejos e motivações dos participantes do triângulo amoroso, deixando algumas coisas mal explicadas.

Curiosamente, Catherine Deneuve pronuncia apenas três palavras em uma hora e quarenta minutos de projeção. Como explicou Melville, ela aceitou fazer um papel de participação, porque compreendeu que, sendo a única mulher do filme, de repente sua presença tornou-se importante. O verdadeiro projeto em comum de Melville e Catherine seria o próximo filme dele porém, infelizmente, o mais americano dos cineastas francêses veio a falecer alguns meses depois da estréia de seu derradeiro longa-metragem.

OS PRÓLOGOS NOS CINEMAS AMERICANOS E BRASILEIROS

Durante o período 1915-1928, observou Richard Koszarski em An Evening’s Entertainment (The Age of The Silent Feature Picture, University of California, 1994), que a experiência de ver um filme era bem diferente do que teria sido em qualquer outro tempo. Os exibidores consideravam-se showmen e não simples programadores de filmes. De acordo com uma pesquisa realizada em 1922, o filme de longa-metragem era apenas uma parte do entretenimento de uma noite. Com efeito, 24% dos gerentes de cinema entrevistados nesse levantamento, verificaram que não fazia diferença alguma na bilheteria se o filme, apresentado como atração principal, fosse bom ou mau. Consequentemente, não se sentiam totalmente dependentes daquela parte do show, que chegava na sala de cinema dentro de uma lata.

Desde os primórdios das exibições houve uma mistura de vaudeville com os filmes mas foi ocorrendo uma mudança na medida em que os filmes começavam a ocupar, cada vez mais, pelo menos metade do espetáculo. Quando se iniciou a era dos grandes cinemas (movie palaces) no final dos anos 1910,  surgiram os stage shows, com três fórmulas dominantes. Para a chamada “pure presentation”, o cinema montava um espetáculo tipo revista teatral com grande orquestra, dançarinos, cantores, comediantes, conjunto coral, recitais de órgão ou outro instrumento etc. No “prologue” o tema do espetáculo ao vivo estava ligado ao filme de longa-metragem, de modo que, por exemplo, um show náutico (com cantores vestidos como escafandristas suspensos por cabos) precedia o filme de Buster Keaton,  Marinheiro por Descuido / The Navigator / 1925. E, finalmente, via-se o “vaudeville show”, no qual vários números de vaudeville eram simplesmente agrupados.

Porém havia algo mais do que um filme de longa-metragem e um stage show. A maioria dos cinemas apresentavam shorts (curtas-metragens) – comédias e cine-jornais. Na era do cinema mudo, desenhos animados, travelogues e outras espécies de curtas eram lugar-comum. O filme de longa-metragem, como já foi mencionado acima, era apenas uma parte dessa mistura e frequentemente ele era projetado em uma velocidade maior do que a normal ou mesmo cortado, para assegurar que o show pudesse incluir todas as atrações e não se estendesse demasiadamente.

Sid Grauman e Samuel “Roxy” Rothapfel foram os grandes criadores do Prológo Cinematográfico que, esclarecendo melhor, era uma apresentação no palco em um estilo parecido com um musical luxuoso da Broadway, que se baseava nos elementos temáticos, dramáticos ou estéticos do filme de longa-metragem, a ser projetado logo em seguida.

Sidney Patrick Grauman (1879 – 1950), nascido em Indianapolis, era um dos seis filhos de David J. Grauman e Rosa Goldsmith. Sua carreira no mundo dos espetáculos começou quando David Grauman levou seu filho Sid, de 17 anos de idade,  ao Território de Yukon durante a Corrida do Ouro, onde o velho Grauman pretendia encenar um show de benefício para garimpeiros doentes, abrir um pequeno teatro e possivelmente ver se achava umas pepitas do precioso metal.

Dois anos depois, Sid e seu pai abriram o teatro Unique em San Francisco, no qual já se notavam os toques de elegância, que mais tarde tornariam Sid Grauman mundialmente famoso – escadas atapetadas, fachadas ornamentadas e um porteiro chinês fardado, para receber os frequentadores. Após passarem mais alguns anos em San Francisco, os Grauman se mudaram para o Sul da Califórnia, incapazes de resistir ao canto da sereia vindo de Hollywood.

Como nos conta Charles Beardsley (Hollywood’s Master Showman – The Legendary Sid Grauman, Rosemont Publishing, 1983), o primeiro grande cinema dos Grauman em Los Angeles, o Million Dollar (2.100 lugares), foi inaugurado no dia 1 de fevereiro de 1918 e a estréia foi conduzida com muita cerimônia. A sala de espera estava repleta com grande número de arranjos florais. Os espectadores eram conduzidos para seus lugares através de corredores cobertos de flores por lanterninhas vestidas com uniformes de cadete, sob uma iluminação suficientemente forte para mostrar as várias maravilhas do auditório.

Exatamente na hora prevista, as cortinas se abriram para revelar a Grauman Symphony Orchestra no poço e o palco atrás dela. Então, sob a direção de Rudolph G. Kopp, números populares e de ópera foram oferecidos como abertura: o organista Jesse Crawford executou um pot-pourri de canções de sucesso e Miss Lina Reggiani cantou “Most Beautiful Bird” e outras árias, sendo ambos muito ovacionados pelo público.

Sid Grauman ainda não havia introduzido o Prólogo em toda a sua glória nos seus cinemas mas o que esses primeiros espectadores viram e ouviram os impressionou enormemente e os deixou calorosamente receptivos ao filme de longa metragem que se seguiu: William S. Hart em Braço de Ferro / The Silent Man.

O tema da música incidental  (para o filme) era uma composição nova intitulada “Big Bill”, escrita por Victor Schertzinger. Quando o filme terminou, o próprio William S. Hart apareceu no palco vestido de cowboy, para receber os aplausos da platéia, recitou um poema curto e contou algumas histórias sobre os seus dias no Oeste, antes de se tornar um astro da tela. Como aconteceria na maioria das estréias promovidas por Grauman, a audiência era uma atração tão estelar quanto o filme, compondo-se de várias celebridades como Jesse L. Lasky, Thomas H. Ince, Mack Sennett, Hal Roach, Cecil B. DeMille, D.W. Griffith, Douglas Fairbanks, Charles Chaplin, Edna Purviance, Sessue Hayakawa, Mae Murray, Thomas Meigham e muitos outros.


Para a inauguração de seu novo cinema, o Egyptian Theatre (1.900 lugares), em 18 de outubro de 1922, Grauman escolheu o filme Robin Hood / Robin Hood de  seu amigo íntimo, Douglas Fairbanks. A primeira parte do programa ao vivo começava com a abertura da ópera Aida de Verdi executada pela Egyptian Theatre Symphony Orchestra sob a condução do maestro Jan Sofer. Este número foi seguido por um recital de Frederick Burr Scholl no console do órgão apelidado de “Mighty Wurlitzer”, porque era capaz de reproduzir uma variedade incrível de sons.

Depois vinha o prólogo, cuja parte mais importante mostrava uma cena na corte de Ricardo Coração de Leão com Lady Marian, o bufão do rei, o Príncipe João, Robin Hood, o Cardeal, damas da corte e seis cavaleiros. Uma dançarina especializada chamada Julanne Johnston (que mais tarde seria a leading lady de Fairbanks em O Ladrão de Bagdad / The Thief of Bagdad / 1924) também aparecia. Um grupo de damas da corte e de damas de companhia, moças com flores, guardas do castelo, os homens do Príncipe João, pagens e criados rodeava o elenco de cinquenta atores de teatro, personificando suas cópias no filme, vestidos com as roupas magníficas que haviam sido usadas na produção. Na metade da projeção, Grauman introduziu um intervalo de oito minutos,  durante o qual o público foi convidado a dar uma volta pela Côrte Egípcia e inspecionar o novo e  belo cinema. Após o final do filme, os espectadores desfilaram sob uma marcha de saída original composta por Schertzinger e executada pela Egyptian Symphony Orchestra.

Um aspecto que chamava atenção do lado de fora do cinema, era a presença de sentinelas vestidos como egípcios, andando nos parapeitos do prédio (pintado de cor-de-rosa e sépia e com uma arquitetura massiva mas graciosa), iluminados fazendo contraste com a escuridão da noite.

A construção do Chinese Theatre (2.500 lugares), depois de ter aberto o Metropolitan (3.458 lugares), foi o feito supremo de Grauman, conhecido entre seus pares como “o P.T. Barnum do Cinema”. A arquitetura do prédio era uma combinação de vários estilos da arte clássica oriental. Os telhados chamavam a atenção imediatamente de quem estava diante da fachada. Sustentada por dois pilares octogonais enormes, a grande torre da entrada central na parte traseira do pátio apontava seu pagode cheio de telhas de bronze verde em direção ao céu. Diante do pagode havia um pátio com palmeiras, plantas tropicais e fontes que decoravam suas paredes. O topo das torres era ornamentado com pequenos arbustos que complementavam o efeito de jardim dado ao pátio. O vestíbulo, tinha tapetes espessos e lindamente desenhados; tapeçarias e quadros adornavam as paredes, com relicários e altares ocasionais e figuras de cera de espantosa realidade estavam cobertas com suntuosas vestes orientais. Os candelabros de vidro e metal intrincados despejavam uma luz multicolorida e difusa nos altos vasos e urnas, que eram peças chinesas autênticas.

Curiosamente, entre os tesouros do foyer (em 1938) estava uma pintura intitulada Hollywood Comes to Napoleon’s Art, que descrevia Napoleão e seu estado maior após a vitória de Austerlitz. Os generais eram celebridades reconhecíveis do cinema, pintadas por um artista de Hollywood auto-didata de 13 anos de idade, Charles D. Ravenne, que levou três anos para realizar o trabalho, avaliado em 25 mil dólares. Entre os personagens no fundo do quadro estavam Erich von Stroheim, Douglas Fairbanks, Clive Brook, Adolphe Menjou, Sid Grauman, Joseph Schenck, William Powell, Charles Chaplin e Marion Davies. Essa pintura desapareceu há muito tempo.

Quem quiser ler uma descrição mais detalhada do Chinese Theatre, recomendo o livro de Beardsley citado atrás que, além disso, descreve vários prólogos levados a efeito nas salas de projeção de Sid Grauman (inclusive Argentine Nights, que antecedeu a exibição de O Gaucho / The Gaucho /  1927,  o segundo  filme projetado no Chinese).Vou falar apenas sobre o estupendo prólogo da inauguração, relacionado com o filme de Cecil B. DeMille, Rei dos Reis (ou, no seu lançamento no Brasil, Jesus Cristo, o Rei dos Reis, como me lembrou Sergio Leemann) / The King of Kings / 1927.

Na noite do dia 18 de maio de 1927 Grauman organizou uma estréia de gala para uma platéia selecionada de Hollywood. Todas as pessoas mais importantes da indústria estavam lá e uma multidão se aglomerava pelos quarteirões do Hollywood Boulevard em volta do Chinese Theatre, para ver os seus astros favoritos chegarem de limusine. O prólogo e o filme foram precedidos por uma apresentação especial, que incluiu a presença de Fred Niblo, diretor de Ben-Hur / Ben-Hur / 1925. Niblo, por sua vêz, apresentou David Wark Griffith, que então introduziu Will Hays, o czar da censura do cinema, que por sua vez apresentou a última atração, Mary Pickford, a “Namorada da América”. Então Miss Pickford apertou um botão de jade,  a pesada  cortina se abriu e o prólogo começou.

Como o descreveu Beardsley, o prólogo de Rei dos Reis era espetacular, solenemente bíblico e certamente sem nenhum espalhafato, como costumavam ser os prólogos. O elenco de mais de cem atores foi escolhido a dedo por Grauman. A cena principal intitulada “The Meeting Place of the Populace” era composta por vários segmentos: “Twilight Prayers of the Common People” e “Dance of the Ebony Slave”, destacando-se um solo de Maurice Morgan. A próxima cena foi “The Chant of the Israelite Priests”, seguida  por “The Holy City”, cantada pungentemente por Stewart Brady, um garoto forte com voz de soprano, vestido de pastor de ovelhas, que foi acompanhado por uma orquestra sinfônica completa.

Os trajes bíblicos, ricamente detalhados, foram desenhados pelo figurinista da MGM, Adrian e a orquestra instalada no poço tocou música apropriada para a ocasião, composta pelos irmãos Bakaleinikoff. Espetacularmente encenadas e entusiasticamente recebidas pela platéia cheia de astros, o prólogo demorou tanto, que o filme só começou a ser exibido às vinte e três horas e daí continuou por mais três horas. Consta que DeMille ficou tão irritado pela longa duração do programa, que jurou nunca mais estrear um outro filme em Hollywood.

Samuel Lionel “Roxy” Rothapfel (1882 – 1936), nasceu na Alemanha, filho de Gustave Rothapfel e Rosalie Schwerzens e emigrou para os Estados Unidos com a idade de dois anos. Ele começou sua carreira no mundo dos espetáculos em Forest City, Pennsylvania, onde criou o “Family Theatre”, uma combinação de cinema e rinque de patinação. Em 1912, Roxy rumou para Nova York, onde gerenciou e produziu shows nos cinemas Strand (3.500 lugares), Rialto (1.900 lugares), Rivoli (2.100 lugares) e Capitol (5.300 lugares).

Sua maior façanha foi a construção do seu Cinema Roxy (6.200 lugares) na Times Square, inaugurado em 11 de março de 1927. Em 1932, ele abriria o Radio City Music Hall, que apresentava ao vivo um grupo de dança de precisão denominado as Roxyettes (depois rebatizadas de The Rockettes), que ele trouxe consigo do Cinema Roxy (O filme de estréia do Radio City Music Hall foi O Último Chá do General Yen / The Bitter Tea of General Yen / 1933; mas antes  as Roxyettes compartilharam o palco com 17 números ao vivo, incluindo The Flying Vallendas, Ray Bolger e Martha Graham).

Roxy também se notabilizou no rádio, onde começou em meados de novembro de 1922. Durante o ano de 1926, as transmissões radiofônicas ao vivo do seu programa de variedades Roxy and His Gang diretamente do Cinema Capitol em Nova York, tornaram-se imensamente populares. Além disso, Roxy e seu diretor musical Erno Rapee atraíram a Brunswick e outras companhias, para gravar os números executados pelas orquestras e organistas dos cinemas Capitol e Roxy. No final dos anos vinte, Roxy e Rapee também começaram a escrever scores para alguns filmes da Fox em Movietone tais como Aurora / Sunrise /  1927, Anjo da Rua /  Street Angel / 1928 e Quatro Filhos /  Four Sons / 1928. Os livros The Best Remaining Seats de Ben Hall (Clarkson N. Potter, 1961) e American Showman de Ross Melnick (Columbia University, 2012) fornecem mais informações sobre as atividades desse notável empreendedor.

O luxo e a magnificência do Cinema Roxy eram impressionantes: este cinema tinha seis bilheterias, foyers e lobby imensos, decoração deslumbrante com mármores, tapeçarias e candelabros de cristal, grandes escadarias, poltronas muito confortáveis (entre as quais uma pessoa podia passar sem incomodar a que estava sentada), tapetes de pelúcia, elevadores espaçosos para o balcão, ar-condicionado, banheiros esplêndidos, grupo coral de cem vozes, corpo de balé com cinquenta dançarinos, grande orquestra, quatorze pianos, Steinway, um colossal órgão Kimball (tocado por três organistas em três consolos separados), mini-hospital pronto para atender a qualquer emergência, pequeno estúdio de estação de rádio, cabines telefônicas, sistema de iluminação perfeito, equipe de lanterninhas bem uniformizados e militarmente disciplinados sob o comando  de um coronel reformado do Corpo de Fuzileiros Navais etc.

O filme escolhido para a inauguração do Cinema Roxy, referido pela imprensa como “A Catedral do Cinema” e “O Maior Cinema do Mundo”, foi O Amor de Sunya / The Love of Sunya / 1927, estrelado por Gloria Swanson. Segundo o Moving Picture World noticiou, “Todos que eram alguém no mundo do cinema estavam lá com suas respectivas esposas”.

O programa começou com um grande concerto de órgão antes de Stephen Wright ler uma invocação religiosa. “A Symphonic Tone Poem”, descrição tonal dos acontecimentos em torno da composição do hino “The Star Spangled Banner”, regido por Erno Rapee, Charles Previn e  Maurice Jacquet seguiu-se à invocação. Depois veio “A Floral Fantasy”, interpretada por Maria Gambarelli e pelo Roxy Ballet Corps, com coreografia de Leo Staats e Leon Leonidoff. Sucedeu-se a projeção de um trecho de cine-jornal, intitulado “Film Greetings”, saudando o Presidente Coolidge e outras autoridades. Em continuação, foi mostrado o número “A Fantasy of the South”, executado pelo Roxy Chorus com Charles Previn como mestre do côro. O show prosseguiu com o barítono Julius Bledsoe cantando “Swanee River”, seguido por ”The Southern Rhapsody”, com um arranjo vocal de Erno Rapee.

O “Roxy Pictorial Review”, cine-jornal do Cinema Roxy,  então precedeu a primeira apresentação de “A Russian Lullaby” de Irving Berlin, cantada por Gladys Rice e Douglas Stanbury, apoiados pelo Roxy Chorus. Tendo acertado com a Warner Bros. aparelhar o Cinema Roxy com os projetores Vitafone e amplificação do som, Roxy ofereceu ao público uma “Vitaphone Presentation” constituída por árias selecionadas da Carmen de Bizet. O Metropolitan Opera Chorus and Ballet acompanhou os solistas Giovanni Martinelli e Jeanne Gordon na música gravada pelo Vitaphone, que foi conduzida por Erno Rapee. Finalmente, Roxy continuou sua interpolação de filme com interpretações ao vivo, encenando um Prólogo antes da exibição de O Amor de Sunya.

Outros pioneiros na criação de prólogos  foram Fanny (Fanchon) e Mike (Marco) Wolff conhecidos como “Fanchon e Marco”. Eles  começaram suas carreira como um par de irmão e irmã dançarinos e eventualmente se tornaram produtores e promotores de seu próprio musical da Broadway intitulado Sunkist em 1921. A certa altura a dupla teve uma idéia brilhante. Os cinemas pequenos queriam apresentar stage shows mas não tinham dinheiro suficiente e então Fanchon e Marco lhes ofereceram equipes por um preço razoável, ensaiaram e as equiparam com vestuários, cenários e canções. Seu estúdio na Sunset Boulevard tornou-se uma fábrica de produção em massa de espetáculos de quinze minutos. Nesse local eles desenvolveram muitos números de variedades inclusive “The Fanchonettes”, uma chorus line de dançarinas semelhante às Rockettes do Radio City Music Hall. Os stage shows de Fanchon e Marco necessitavam de jovens talentosos que ajudariam a diminuir seus custos e assim despontaram, sob a orientação de Fanchon e Marco: Janet Gaynor, Myrna Loy, Bing Crosby, Cyd Charisse (aos doze anos de idade), Joan Crawford e Judy Garland (com uma das  Gumm Sisters).

Conforme informação prestada pela professôra da Universidade  Federal de São Carlos, Luciana Corrêa de Araujo no seu trabalho exemplar, ”Prólogos Envenenados”: Cinema e Teatro Nos Palcos da Cinelândia Carioca e também por Alice Gonzaga no seu preciosíssimo livro, Palácios e Poeiras – 100 Anos de Cinemas no Rio de Janeiro (Record / Funarte, 1996), em 1926, o exibidor Francisco Serrador trouxe para o circuito cinematográfico brasileiro a novidade dos prólogos cinematográficos. Estes constituíam uma das várias atrações oferecidas por Serrador nos cinemas Capitólio, Glória, Império e Odeon, as quatro primeiras salas construídas na Cinelândia Carioca entre 1915 e 1926.

Conta Alice Gonzaga que, quando esteve nos Estados Unidos pela primeira vez, Serrador conheceu o prólogo cinematográfico e trouxe algumas práticas de Rothapfel na administração do seus cinemas como o uso de pessoal com a função de indicar os lugares dos espectadores (os chamados lanterninhas), o artifício da diminuição gradativa da iluminação do salão, preparando o início da projeção e o hábito de vestir os funcionários de acordo com o figurino do filme em cartaz, no caso de grandes produções. Todos esses “modernismos”, aliados ao conforto e amplitude dos novos cinemas, comporiam o ambiente de luxo, arte e bom gôsto. Ao voltar da segunda viagem, em novembro de 1924, com os pacotes de filmes comprados para o Programa Serrador, nome de sua nova linha de locação, o temerário espanhol trouxe também acertada a introdução dos prólogos nas salas da Cinelândia.

A agência Paramount, forneceria os textos para os filmes distribuídos pela empresa. Para os demais, contratou-se o diretor de cinema e teatro Luiz de Barros. Ao contrário do que se poderia esperar, todos os esquetes acabaram sendo escritos por aqui, a maioria de autoria conjunta de Anibal Pacheco, Benjamin Fineberg e Celestino Silveira, publicistas daquela companhia.

Houve porém, como aponta a professora Luciana Corrêa de Araujo, uma campanha sistemática, promovida pelas revistas Selecta e Cinearte contra esses prólogos considerados “envenenados”. Segundo a Cinearte, vieram os prólogos, “timidamente a princípio, alargando-se depois, ampliando-se, transbordando  afinal, convertidos em verdadeiras peças de teatro, sacrificando os filmes, tomando a maior parte do tempo da sessão, como a querer constituir a parte principal do espetáculo oferecido ao público”(Cinearte, ano I, n.19, 7 jul 1926, p.3).

A professora Luciana dá exemplos de alguns prólogos: “Para Órfãs da Tempestade / Orphans of the Storm / 1921, monta-se no palco do Cinema Glória o salão de um palácio, no qual dez artistas devidamente paramentados com vestidos armados, meias e perucas, incorporam a aristocracia francesa em meio aos conflitos da revolução de 1789; no mesmo Glória, cria-se um ambiente de mil e uma noites para o prólogo de O Ladrão de Bagdad / The Thief of Bagdad / 1924), com cenário em um estilo mourisco adornado por meia dúzia de dançarinas envoltas em véus e observadas por dois criados negros de turbante; para a inauguração do Odeon, com Amor de Príncipe / Graustark /1925), mais de dez artistas se apresentam no prólogo, incluindo dançarinas com vestidos armados nas laterais, com estratégicas aberturas e transparências na frente, deixando as pernas à mostra (Cinearte, ano I, n. 25, 18 ago 1926, p.27; ano I, n. 26, 25 ago 1926, p.27; e ano I , n. 9, 28 abr 1926, p.31).

No Correio da Manhã  de 29 abr 1926 colhí um anúncio de O Fantasma da Ópera / The Phantom of the Opera / 1925, referindo-se a “uma grande orquestração de 20 professores, a parte dramática e cantante confiada a Carmen de Azevedo e Roberto Vilmar, os bailados executados “pela escultural” Oeser Valery, os cenários luxuosos de Luiz de Barros e aos costumes e guarda roupas “riquíssimos” de R. Barras. Mas, conforme a opinião de um leitor de Cinearte , “Na noite em que fui ver o The Phantom of the Opera – ele escreveu o título assim, em inglês -, o fantasma pôs tanta imponência  nas atitudes, que acabou tropeçando na capa, indo abaixo todo o espanto que a sua rubra figura deveria inspirar”(cf. L.C.A., Cinearte, ano 1, n. 16, 16 jun 1926, p.2).

Na sua pesquisa modelar (que pode ser encontrada facilmente na Internet, bastando acessar o Google e digitar: Prólogos Cinematográficos), a professora Luciana  faz referência ainda a outros prólogos, que foram criticados  por terem tomado a liberdade de inserir canções e bailados ausentes dos filmes ou por resvalarem às vezes em pretensões de pompa e circunstância, que já no papel se mostravam excessivas. Em um deles, o prólogo para Castelo de Ilusões / The Tower of Lies / 1925), os trejeitos exagerados do ator que deveria ser “reprodução fiel do protagonista do filme”, Jan, interpretado na tela por Lon Chaney, somados aos retumbantes efeitos especiais, exemplificaram bem o que Alvaro Rocha descreveu como aquelas representações bombásticas, próprias para epílogos de espetáculos de circo”, para imediatamente se corrigir: “Que circo! Não quero desmoralizar os circos! Pior do que isso!” (Cinearte, v.1, n.2014 jul 1926, p.27-28).

Nas páginas do Correio da Manhã dos anos 1923 – 1933, encontrei anúncios de filmes em vários cinemas, indicando a presença de prólogos e / ou espetáculos ao vivo (pure presentation) antes ou depois da apresentação dos mesmos. Por exemplo, o Cinema Rialto anunciando no palco a peça A Francezinha com Alda Garrido e na tela, Richard Barthelmess em O Proscrito / The White Black Sheep / 1926; o Cinema  Iris  anunciando no palco a Companhia Nacional de Burletas Flor do Manacá com uma burleta de Luiz Iglesias, interpretada por La Conchita e na tela Sangue por Glória / What Price Glory / 1926 com Dolores Del Rio, Victor McLaglen e Edmund Lowe;

o Cinema Central anunciando no palco a bailarina Marinova, o parodista Alfredo Albuquerque, a rainha das operetas Gina Astréa, os sapateadores americanos The Ascots, o tenor italiano Caetano Breda, o rei dos sapateadores Marchisio, o equilibrista João Vasques, os duetistas cômicos Los  Caiafas, os bailarinos de salão Viley e Palos, Bettazzoni, barítono do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, os reis do trapézio Reckess e Arley, os acrobatas Los Condor’s, os ilusionistas Maquillon and Violet e na tela o  filme Alvorada Rubra / Purple Dawn / 1923 com Bessie Love;

o Cinema Eldorado anunciando no palco “um conjunto formidável de artistas de todos os gêneros” da Grande Cia. de Variedades Irmãos Queirolo e, na tela, Capricho de Mulher / Society Girl / 1932 com James Dunn, Peggy Shanon e Spencer Tracy e, em outro dia, no palco, Coisas de Caboclo com Jararaca e Ratinho  e um “estupendo elenco” e, na tela, Devoção / Devotion /1931 com Ann Harding e Leslie Howard;

o Cinema Broadway anunciando no palco, Darwin , “o mais assombroso imitador de mulheres” e, na tela, A Mulher Miraculosa / Miracle Woman / 1932 com Barbara Stanwyck; o Cinema Eldorado anunciando no palco “todas as novidades do Carnaval” e a presença dos “azes do samba” (Francisco Alves, Mario Reis, Lamartine Babo) e a Orquestra do Odeon e , na tela, O Filho Adotivo / Young Donovan’s Kid / 1931 com Jackie Cooper, Richard Dix e Boris Karloff. Ainda em 1941, o Cinema Colonial anunciava Os Amores de Schubert / Sérénade / 1939 na tela e, no palco, Silvino Neto, Moreira da Silva, a acordeonista Maria Guerrreiro, a fadista portuguêsa Curtali e a bailarina argentina Rita Gouilloux (e, pela manhã, Beatriz Costa, Jararaca e Ratinho, Jorge Murad); o Cinema Odeon anunciando no palco Suzy Regine interpretando o esquete “J’ai Que Çá” (criado em Paris por Mistinguette), os dançarimos Oeser Valery e Mario Soares dançando a “Java”e o barítono Roberto Vilmar com cenários magníficos e direção de Luiz de Barros e, na tela, O Barba Azul com ben Lyon.

Verifiquei também que alguns cinemas apresentavam apenas uma ouverture antes do filme: por exemplo, o Theatro Casino anunciava uma grande orquestração da  Abertura Egmont de Beethoven, regida pelo maestro Francisco Braga, antes da projeção de A Letra Escarlate / The Scarlet Letter / 1926 e da Abertura de Os Mestres Cantores de Wagner, também regida por Francisco Braga, antes da projeção de O Grande Desfile / The Big Parade / 1925). Na avant-première de gala de Grand Hotel (assim mesmo, sem o e)/ Grand Hotel / 1932 no Palácio Theatro, o jornal anunciava a apresentação no palco da orquestra Villa Lobos executando um trecho da VII Sinfonia de Beethoven e o Prelúdio Sinfônico da ópera “Izath” com regência do próprio maestro Villa-Lobos, e a transmissão radiofônica desta parte musical como também da recepção dos espectadores no saguão do cinema.

O advento do cinema sonoro causou o fim dos stage shows (Hollywood ofereceu uma Broadway virtual nos primeiros filmes falados, produzindo fac-símiles filmados das performances dos astros que as platéias queriam ver) e a Grande Depressão enterrou-os. Como disse Douglas Gomery (Shared Pleasures – A History of Movie Presentation in the United States, University of Wisconsin, 1992), “os poços das orquestras foram cobertos, a pintura dos camarins começou a descascar; e os bastidores tornaram-se mais um almoxarifado”.

IDA LUPINO II

Ida sempre quís fazer algo mais do que somente representar. Durante muitos anos ela deu vazão à sua expressão artística compondo músicas. No final dos anos trinta, sua “Aladin Suite” foi tocada no rádio pela orquestra de André Kostelanetz. Outras composições foram transmitidas pela Los Angeles Philharmonic. Por volta de 1945, Ida já tinha escrito dezenas de canções como, por exemplo, “When Our Fingers Meet”, “Leave Me Alone” e “Storm In My Heart” em parceria com Nick Arden. Ela estava também escrevendo argumentos e roteiros. Para All Our Yesterdays, usou o pseudônimo “William Threely”. Era a história de músicos de rua britânicos que tocavam enquanto as bombas germânicas explodiam em Londres. Ida e Barbara Reed colaboraram em Miss Pennington, roteiro que  venderam para a RKO por cinco mil dólares.

Quando a Warner escolheu-a para contracenar com Errol Flynn em Quero-te Junto a Mim / Escape Me Never / 1947 (Dir: Peter Godfrey), Ida ficou feliz, porque se dava muito bem com ele. A história se passa na Veneza de 1900, onde uma jovem mãe solteira empobrecida, Gemma Smith (Ida Lupino) é abrigada por um compositor, que está tentando conquistar a fama, Sebastian Dubrok (Errol Flynn); porém a situação se complica com a intervenção de seu irmão Caryl (Gig Young) e a noiva dele, a bela e aristocrática Fenella MacLean.(Eleanor Parker), ocorrendo uma tragédia, que faz Sebastian confirmar seu amor por Gemma. Durante a filmagem, Ida e Flynn transformaram sua amizade em um romance que, infelizmente, durou pouco. O filme foi um fracasso de bilheteria e parece que os fãs de Flynn não gostaram de vê-lo de calças curtas alpinas.

O estúdio custou a arrumar um novo papel para Ida até que, finalmente, para não ficar pagando à atriz sem que ela trabalhasse, desenterrou um velho script, Deep Valley, que havia sido originariamente anunciado para 1942 como um filme a ser estrelado por Humphrey Bogart, John Garfield e Ann Sheridan. Agora, os astros principais eram Ida, Dane Clark e Wayne Morris.

Ida interpretava uma jovem tímida e gaga (Libby Saul), que vive com seus pais rudes em uma fazenda isolada. Afastada de toda interação social, a moça tem como companhia apenas o seu cachorrinho, até que avista um presidiário fugitivo, que trabalhava na construção de estradas (Dane Clark). Ela o esconde de seus perseguidores e o breve idílio entre os dois ajuda-a a se curar de sua gagueira. Então, os policiais chegam à procura do condenado e ele morre ao tentar escapar.

Com excelente fotografia em exteriores de Ted McCord, o filme, intitulado no Brasil O Vale do Destino (Dir: Jean Negulesco), exigiu muito esforço físico por parte da atriz. As cenas supostamente passadas no verão foram filmadas sob um frio intenso em uma montanha e Ida, vestida com roupas leves, pegou uma gripe. Pouco depois, quando ela corria descalça sobre pedras, cortou o pé, desenvolvendo-se uma infecção, que afetou seus tornozelos. Ida insistiu em permanecer no local, para evitar que a filmagem se atrasasse e sua saúde frágil piorou, ao sofrer uma crise de bronquite crônica. Mesmo assim, ela proporcionou ao público uma de suas melhores interpretações, do tipo para o qual era singularmente dotada. Após a realização de O Vale do Destino, a Warner pediu que Ida assinasse um contrato de sete anos com exclusividade mas ela recusou e deixou o estúdio.

Ida queria mais do que tudo a liberdade artística e o desejo de ser independente levou-a a uma associação apressada com o produtor Benedict Bogeaus. Eles formaram a Arcadia Productions, porém a companhia não foi avante, porque Ida arrumou um novo parceiro, seu futuro marido, Collier Young, na época assistente de Harry Cohn na Columbia mas com vontade de se tornar produtor e autor de seus próprios filmes.

Antes de se casar com Collier Young, Ida fêz para a Twentieth Century-Fox, A Taverna do Caminho / Road House / 1948 (Dir: Jean Negulesco), no qual era Lily Stevens, cantora de uma estalagem à beira de estrada envolvida em um triângulo amoroso, com o impulsivo e ciumento dono do estabelecimento (Richard Widmark) e o seu gerente (Cornel Wilde). Os pontos altos do melodrama são as interpretações intensamente dramáticas de Richard Widmark (Zanuck descreveu  a presença de Widmark no papel como “estar sentado em cima de um vulcão”) e de Ida (surpreendentemente ela mesma cantando “One for My Baby” de Johnny Mercer-Harold Arlen e “Again” de Lionel Newman com sua voz rouca e sensual).

Em 28 de junho de 1948, Ida tornou-se orgulhosamente cidadã americana e, em 5 de agosto, contraiu matrimônio com Collier Young em uma capela da Igreja Presbiteriana em La Jolla. Após a lua-de-mel, Collier retornou para seu emprego na Columbia e Ida concordou em aparecer em um filme desse estúdio, Escravos da Ambição / Lust for Gold / 1949 (Dir: S. Sylvan Simon), com a intenção de ficar perto do marido; entretanto, a maior parte da filmagem ocorreu no Arizona.

Ao lado de Glenn Ford e Gig Young, Ida interpreta o papel de Julia Thomas, mulher ambiciosa e desonesta que comete um assassinato para obter o ouro que cobiça e acaba morrendo durante um terremoto. Ela permanecia no set mesmo quando não estava filmando, observando atentamente o trabalho do diretor e dos técnicos. Mais ou menos nesta ocasião, Ida conheceu o diretor Roberto Rosselini, um dos expoentes do neo-realismo italiano, que lhe perguntou: “Quando é que a indústria de cinema americana vai fazer filmes sobre pessoas comuns em situações comuns?”.

Essa conversa causou forte impressão sobre a atriz que, no mesmo ano do lançamento de Escravos da Ambição, assumiu a direção (quando Elmer Clifton  teve, logo no primeiro dia de filmagem, um ataque cardíaco) de Not Wanted / 1949), um melodrama (produzido por Ida e Collier Young – que deixara a Columbia- , em parceria com a Emerald Productions de Anson Bond) sobre o tema da mãe solteira (interpretada por Sally Forrest), que entrega seu bebê para adoção, depois se arrepende e sequestra outra criança para substituir o filho que perdeu. Foi o início de uma nova carreira para Ida (aos 31 anos de idade), como a mais bem sucedida e prolífica diretora de sua época.

Not Wanted teve um sucesso maior do que o esperado e Ida e Collier Young puderam realizar seu sonho de fundar a sua própria companhia, incluindo na sociedade Malvin Wald, o autor da história original do referido filme. Wald enunciou a essência na nova companhia, a Filmakers: “Vamos tentar fazer filmes com temas sérios, dramas abordando problemas sociais”. Foi anunciado um plano grandioso de realizar seis filmes de orçamento modesto. Ida declarou que não iria aparecer em nenhum deles; como ela brincou: “Não tenho condições de pagar meu próprio salário”.

Para viabilizar financeiramente o primeiro projeto da nova companhia, Never Fear, Ida foi buscar dinheiro fazendo Entre o Amor e a Morte / Woman in Hiding / 1949 (Dir: Michael Gordon) na Universal, cujo argumento gira em torno de  uma jovem recém-casada, Deborah Chandler, que teme que seu marido (Stephen McNally, depois de cogitado Bruce Bennett) esteja planejando matá-la. O terceiro papel importante na trama coube a Howard Duff, entrando no lugar previsto para Ronald Reagan. Depois de uma antipatia inicial, Ida acabou atraída por Duff e a distância entre ela e Collier Young aumentou. O desempenho de Ida como uma mulher aterrorizada foi soberbo. O diretor Michael Gordon ficou impressionado não somente com a criatividade interpretativa de sua estrela mas também com o seu profissionalismo, como ela dominou seu medo de altitudes e participou de um clímax vertiginoso de perseguição pelos andaimes de um prédio.

A Filmakers funcionou de 1949 a 1955 e durante esse tempo produziu nove filmes: Quem Ama Não Teme / Never Fear / 1949, O Mundo é  Culpado / Outrage / 1950, Laços de Sangue / Hard, Fast and Beautiful / 1951, Abismos do Desejo / On the Loose / 1951, Escravo De Si Mesmo / Beware My Lovely / 1952, O Mundo Odeia-Me / The Hitch-Hiker / 1953, O Bígamo / The Bigamist / 1953, Dinheiro Maldito / Private Hell 36 / 1954 e Volúpia do Desejo / Mad at the World / 1955..  Ida dirigiu cinco dos nove filmes, deixando Abismo do Desejo para  Charles Lederer, Escravo de Si Mesmo para Harry Horner, Dinheiro Maldito para Don Siegel e Volúpia do Desejo para  Harry Essex. Ida trabalhou como atriz em: Escravo de Si Mesmo e Dinheiro Maldito e acumulou as funções de diretora e atriz em O Bígamo.

A primeira produção da Filmakers dirigida por Ida, Quem Ama Não Teme, foi estrelado por Sally Forrest no papel de uma jovem dançarina vitimada pela poliomielite que, através de muita determinação, se recupera. A maior parte do filme (rodado no Kabat-Kaiser Rehabilitation Institute em Santa Monica, Califórnia), transcorre em um sanatório e mostra o tratamento da moça e a adaptação da mesma à sua nova vida. Tal como a maioria das pessoas que enfrentam essa situação, ela passa por surtos severos de depressão e chega a repudiar seu companheiro de dança – embora ele a ame e parece aceitar a sua incapacidade física. Tudo isso é mostrado com realismo, aptidão cinematográfica e quase que em um estilo documentário.

Todavia, mesmo após ter sido reintitulado de The Young Lovers, para atrair mais espectadores, o espetáculo não pagou os seus custos. Porém ele chamou a atenção de Howard Hughes, que acabara de comprar a RKO e estava procurando fornecedores de filmes de orçamento barato para preencher o seu esquema de distribuição. Ele concordou em distribuir os próximos três filmes da Filmakers e contribuiu com 250 mil dólares para cada filme (em troca da metade dos lucros), deixando a companhia com controle total sobre o conteúdo e a criação. Trabalhando nessa situação ideal, os três trabalhos seguintes dirigidos por Ida foram bem sucedidos comercial e criticamente.

O Mundo é Culpado lidou com o estupro de uma maneira não sensacionalista e sem um discurso moralizador mas com planos magníficos de ternura para descrever o drama da jovem (Mala Powers) obrigada a se afastar de seus próximos para levar uma vida normal. Neste filme, Ida demonstra pela primeira vez seu domínio da câmera móvel com um número impressivo de tomadas de grua e travellings e adota uma iluminação contrastada, colocando a maioria dos acontecimentos da primeira metade da narrativa em um ambiente de sombras agourentas.

Em Laços de Sangue, Claire Trevor surge como uma figura materna egoísta e oportunista, que obriga sua filha ingênua (Sally Forrest), a se tornar uma jogadora de tênis profissional. A mãe não somente arquiteta os primeiros estágios da carreira da filha como também usa de práticas comerciais nada aceitáveis para impulsioná-la. Entretanto, graças à crítica contínua de seu namorado, a moça começa a questionar a validade de sua busca pela glória esportiva e, finalmente, desiste de continuar sendo uma campeã, frustrando os planos de sua progenitora. Filmando em locação, tal como fêz em Quem Ama Não Teme e O Mundo é Culpado, Ida dá ao filme uma aparência de documentário, que torna a tentativa  da jovem de alcançar a fama bastante real, fazendo ao mesmo tempo, uma análise detalhada dos mecanismos impuros de exploração comercial no meio esportivo. Em Laços de Sangue Ida faz uma aparição à la Hitchcock com Robert Ryan atrás dela, ambos vistos brevemente como espectadores aplaudindo o jogo.

Em 20 de 0utubro de 1951, Ida divorciou-se de Collier Young e, no dia seguinte, se casou com Howard Duff, do qual se divorciaria em 7 de junho de 1984. Logo depois de Laços de Sangue e antes de dirigir seu filme seguinte, O Mundo Odeia-me, ela integrou o elenco de uma produção da RKO, Cinzas que Queimam/ On Dangerous Ground / 1951. Nela, Ida é Mary Malden, a irmã cega do rapaz mentalmente perturbado que molestou e assassinou uma jovem e está sendo perseguido em um ambiente rural coberto de neve por um policial (Robert Ryan) acostumado a tratar os malfeitores com muita brutalidade. Enternecido pelo convívio com a cega e observando a ira do pai da vítima (Ward Bond), ele consegue encontrar a serenidade e agir como um verdadeiro defensor da lei. Um grande filme noir (impuro) dirigido com mão de mestre por Nicholas Ray.

Baseado em um caso verídico, O Mundo Odeia-me começa quando um perigoso assassino psicopata (William Tallman), fugitivo da prisão, pede carona a dois homens (Edmond O’Brien, Frank Lovejoy), que viajam de férias. Sob a mira de um revólver, os dos amigos são obrigados a levar o criminoso para o México, onde ele pretende escapar de barco para a América Central. Um dos cativos quer reagir imediatamente, porém o outro prefere aguardar uma boa oportunidade. Enquanto isso, a polícia americana trabalha em conjunto com a mexicana na caçada ao foragido. O filme tem uma ação bastante tensa e brutal, desenrolando-se quase inteiramente em uma paisagem desértica que, embora não seja tão dark como uma cidade à noite, produz praticamente o mesmo efeito sobre os protagonistas, isolando-os em um ambiente potencialmente mortal como de qualquer filme noir. A sensação de solidão dos três homens e a  angústia dos dois “raptados” são perfeitamente criadas pela direção firme de Ida, empregando muito bem os close-ups opressivos, para aumentar o suspense.

Depois de Cinzas Que Queimam, Ida voltou para a Filmakers, atuando apenas como atriz em Escravo de Si Mesmo e Dinheiro Maldito nesta companhia e na Allied Artists em Jennifer / 1953 (Dir: Joel Newton), retornando à Filmakers como atriz e diretora em O Bígamo. No thriller psicológico, Escravo de Si Mesmo, Ida é Helen Gordon, professora e viúva de guerra, que emprega um desconhecido (Robert Ryan), para serviços domésticos e descobre que ele é um psicopata. No filme noir (impuro), Dinheiro Maldito, Ida é Lili Marlowe, uma cantora de boate, que se envolve com dois policiais de Los Angeles (Steve Cochran, Howard Duff), que embolsaram o dinheiro roubado em um audacioso assalto. Em Jennifer, Ida é Agnes Langley, zeladora de uma  velha mansão, onde ela descobre um assassinato. Dos três, o melhor foi o dirigido por Don Siegel. Os personagens principais pertencem ao mundo noir por sua corruptibilidade e amargura  porém o tom do espetáculo não é bem dark. Lili também não chega a ser uma mulher fatal. Sente-se culpada por seu desejo de riqueza ter levado o amante (um dos dois policiais) para o caminho da inevitável destruição. Artesão hábil, Siegel consegue manter o interesse mas os problemas mais sérios são mais ou menos esquematizados segundo a moral de Hollywood.

Em O Bígamo, Harry (Edmond O’Brien) e Eve Graham (Joan Fontaine) estão tentando adotar um bebê. O chefe da agência sente que Harry esconde um segredo e investiga.  Ele logo descobre que Harry, fêz um número incomum de viagens de sua casa em San Francisco para Los Angeles. Harry é seguido até esta cidade, onde ele mantém uma segunda esposa, a garçonete Phyllis Martin (Ida Lupino) e um filho. Por meio de retrospectos, Harry conta para o investigador da agência como acabou mantendo dois casamentos.

Ida deu um tratamento sério a um assunto controvertido, evitando o sentimentalismo e a emoção óbvia, fugindo das convenções do gênero “filme para mulheres” e  trata o personagem do bígamo de uma maneira simpática mas sem desculpar os seus atos. A diretora explorou com precisão a sua própria capacidade interpretativa e a de seus dois colegas; porém o filme poderia ter sido mais excitante visualmente.

Depois de O Mundo Odeia-me, a Filmakers resolveu se desligar da RKO e  distribuir seus próprios filmes, erro fatal que propiciou o fim da companhia. O sonho de Ida de trabalhar independentemente transformou-se em cinzas e ela teve que procurar emprego como atriz. O público ainda a viu nos anos cinquenta: como Amelia van Zandt, diretora sádica e inflexível de um presídio em Mulheres Condenadas / Women’s Prison / 1955 (Dir: Lewis Seiler);

como Marion Castle, mulher de um ator pressionado por um chefão de estúdio em A Grande Chantagem / The Big Knife / 1955 (Dir: Robert Aldrich); como Mildred Donner, colunista de um grande jornal envolvida nas intrigas pela disputa de um alto cargo na organização enquanto um jovem psicopata (John Barrymore, Jr.) está cometendo crimes sexuais em No Silêncio de uma Cidade / While the City Sleeps / 1956 (Dir: Fritz Lang) e como Alice Carmichael, esposa de um prisioneiro na guerra da Coréia prestes a morrer, que confessa ao marido que o traiu porém está arrependida e, após o conflito, recebe a visita de um ex-companheiro neurótico de seu esposo, com a obsessão de impedir que os filhos do casal sejam criados por outro homem em Um Estranho em Minha Vida / Strange Intruder/ 1956 (Dir: Irving Rapper).

O melhor desses filmes foi No Silêncio de uma Cidade. A parte policial da intriga serve apenas de contraponto para o verdadeiro tema do filme, a luta impiedosa entre os candidatos a um pôsto de alta projeção em uma empresa jornalística. Lang não se interessa pelo drama psicológico ou ações criminosas do doente mental mas sim pelos métodos inescrupulosos utilizados pelos concorrentes, fazendo uma crítica mordaz do arrivismo na vida profissional americana.

No dia 31 de dezembro de 1953, Ida estreou na televisão (no papel de uma mulher que se encontra com um assassino psicopata) em House for Sale, episódio do programa Four Star Playhouse, iniciando, primeiro como atriz e depois como diretora, uma longa carreira no novo veículo, sobre a qual não vou me pronunciar, para não alongar este artigo. Menciono apenas, como exemplo, sua pungente atuação no episódio The Sixteen-Millimeter Shrine do seriado Além da Imaginação / Twilight Zone, dirigido por Mitchell Leisen, como uma atriz envelhecida, Barbara Jean Trenton, cujo mundo é uma sala de projeção, “cujos sonhos são feitos de celuloide” e seu desejo de retornar aos dias mais felizes do passado se tornam realidade.

No cinema, ela voltou a dirigir em Anjos Rebeldes / The Trouble with Angels / 1966, filme sobre as estrepolias de duas garotas em um internato católico, endoidecendo a madre superiora (Rosalind Russell) e atuou como atriz: personificando Elvira Bonner, mãe de um profissional do rodeio solitário e lacônico (Steve McQueen) em Dez Segundos de Perigo / Junior Bonner (Dir: Sam Peckinpah); Mrs. Preston, mãe de um rapaz (William Shatner), que detém um livro muito procurado por satanistas no filme de horror The Devil’s Rain / 1975 (Dir: Robert Fuest); Mrs. Skinner, mulher do campo que descobre um líquido estranho na sua propriedade em A Fúria das Feras Atômicas / Food for the Gods / 1976 (Dir: Bert L. Gordon), aventura de ficção científica sobre animais e insetos mutantes; e Mrs. Morton, esposa do líder  (Ralph Meeker) de delinquentes juvenís que, em My Boys are Good Boys / 1978 (Dir: Bethel Buckalew), fogem de uma prisão, assaltam um carro-forte, e voltam para suas celas sem serem descobertos.

Ida Lupino não foi uma grande cineasta , não deixou a marca de um estilo porém foi uma diretora muito competente, cuja obra se impõe pela sua coesão e originalidade. Ela gostava de abordar como temas de seus filmes problemas sociais ousados e controversos, que eram negligenciados pelos estúdios de Hollywood na época e abriu caminho para futuras gerações de mulheres diretoras. Como intérprete, foi uma das maiores atrizes de seu tempo, cativando o público com seu temperamento ardente, sua energia dramática e, é claro, com seus lindos olhos azuis.

IDA LUPINO I

Embora sendo comumente referida como “a cópia reserva de Bette Davis”, Ida era mais do que isso. Foi uma grande atriz da Época de Ouro de Hollywood e uma diretora muito capaz e estimada do Cinema Americano, além de atuar com igual destaque diante e atrás das câmeras na Televisão.

Ida (1918-1995) nasceu no dia 4 de fevereiro em Londres, no seio de uma família de artistas com raízes que iam até a Itália da Renascença. Seu pai, Stanley Lupino (1893-1942), era um astro do teatro musicado, acrobata, cantor, dançarino e ator, primo de Wallace Lupino e Lupino Lane, ambos também atores, sendo este último mais conhecido internacionalmente por sua notável participação em Alvorada do Amor / The Love Parade / 1930, a deliciosa opereta de Ernst Lubitsch. A mãe de Ida, Connie Emerald, também descendia de uma família teatral, embora de menor renome que os Lupino e era considerada a  sapateadora mais rápida de sua época.

Stanley percebeu logo o talento de sua filha e construiu em sua residência o Tom Thumb Theater (Teatro do Pequeno Polegar), onde escreveu uma revista para as crianças da família, entre as quais se incluíam Ida, sua irmã Rita e as primas. Durante os próximos três anos, Ida e Rita foram treinadas por seu pai na arte da interpretação. Em 1932, aos quatorze anos de idade, Ida matriculou-se na Royal Academy of Dramatic Arts. Seus professores ficaram impressionados com a jovem aspirante a atriz e passaram informações elogiosas aos profissionais da indústria do cinema. A esta altura Ida costumava acompanhar Stanley ao Elstree Studio, onde ficava horas estudando o trabalho do pai diante da câmera. “Seja sempre natural”, ele lhe dizia.

Certo dia, Ida recebeu um telefonema de seu agente, dizendo que ela estava sendo cogitada para um papel no filme Her First Affaire / 1932. O diretor Allan Dwan havia visto Ida em uma peça encenada na Royal Academy e, depois de um teste, contratou-a; após a estréia, profetizou: “Aposto que ela não ficará neste país por mais de um ano”.

Como Dwan previra, Ida começou a receber propostas dos estúdios americanos com promessas de um contrato de longo prazo e alto salário. Porém ela queria adquirir mais experiência antes de decidir ir para a América e prosseguiu sua carreira no cinema inglês, participando no ano seguinte de cinco filmes: Money for Speed (drama esportivo sobre corrida de motocicletas com Cyril McLaglen e John Loder), High Finance (drama com Gibb McLaughlin e John Batten), The Ghost Camera (drama criminal de mistério com Henry Kendall e John Mills), I Lived with You (comédia romântica com Ivor Novello – padrinho de Ida na vida real – e Ursula Jeans) e Prince of  Arcadia (comédia musical com Carl Brisson e Margot Grahame).

Quando filmava The Ghost Camera, Ida recebeu uma oferta dos executivos da Paramount, para interpretar o papel de Alice em Alice no País das Maravilhas / Alice in Wonderland / 1934. “Eu nunca poderei sentir Alice”, ela lamentou para seu pai. “Nunca tive a idade de Alice”. “É verdade”, ele respondeu. Mas Stanley aconselhou-a a ir para a América, pois achava que o melhor treinamento era atuar com grandes astros.

Para alívio de Ida, o papel acabou caindo nas mãos de Charlotte Henry, que logo ficou no esquecimento. A Paramount decidiu que a sua estréia dar-se-ia em A Conquista da Beleza / Search for Beauty / 1934, comédia romântica sobre campeões olímpicos (entre eles  Larry “Buster” Crabbe), que se envolviam com vigaristas (Robert Armstrong e James Gleason). Um mês depois, o segundo filme de Ida na Paramount, Fuzileiros da Fuzarca ou Galgos e Ninfas/ Come on, Marines! / 1934, no gênero aventuras (fuzileiros comandados por Richard Arlen, resgatavam a personagem de Ida e um grupo de moças nas selvas das Filipinas), já estava sendo exibido nos cinemas.

Enquanto o tempo passava, Ida começou a temer que a Paramount a havia descartado como atriz séria. Ansiava por um filme artisticamente gratificante. Ao ser escolhida para ser a filha malvada de uma atriz extravagante (Marjorie Rambeau) em Surpresas de Cupido / Ready for Love / 1934, exultou. Agora ela teria uma chance. Entretanto, as câmeras mal começaram a rodar e Ida se confrontou com uma doença que a levou ao desespêro: a poliomielite. Ela pensou que iria ficar para sempre em uma cadeira de rodas porém, após alguns dias de dores e angústia quanto ao seu destino artístico, a paralisia desapareceu. Quando a produção terminou, Ida partiu imediatamente para a Inglaterra.

Depois de um descanso no seu país natal, ela se apresentou na Paramount cheia de esperança quanto a sua carreira porém seu entusiasmo esfriou quando o estúdio a colocou em terceiro plano como uma nativa ingênua ao lado de Mary Ellis e Tullio Carminatti em Primavera em Paris / Paris in Spring / 1935);  formando dupla com Gail Patrick como duas moças que ficam desamparadas após o suicídio do pai em Bonita e Ladina / Smart Girl / 1935; em um pequeno papel (a coquete Agnes) contracenando com Gary Cooper e Ann Harding em Amor sem Fim / Peter Ibbetson / 1936. No filme seguinte, Fuzarca a Bordo / Anything Goes / 1936 Ida teve melhor destaque como a herdeira fugitiva por quem Bing Crosby se apaixona mas os maiores elogios foram para Ethel Merman por suas interpretações de “You’re the Top” e “I Get a Kick out of You” de Cole Porter.

Subsequentemente, Ida foi emprestada para a Pickford-Lasky Company para a qual fez dois filmes de nível artístico superior como atriz principal: Aconteceu numa Tarde Chuvosa /One Rainy Afternoon / 1936 e O Mundo é Meu / The Gay Desperado / 1936. O primeiro filme, dirigido por Rowland V. Lee,  uma farsa romântica na qual Ida Lupino é a moça que um ator (Francis Lederer) beija por engano em um cinema, causando um rebuliço. O segundo filme, dirigido por Rouben Mamoulian,  uma divertida paródia musical, na qual Ida é uma herdeira americana raptada por um bandido mexicano (Leo Carrillo) juntamente com um tenor (Nino Martini); o dito bandido raptou o tenor, porque gostava de ouví-lo cantar e a herdeira, para pedir o resgate. No intervalo entre esses dois filmes Ida ingressou no elenco de Viva o Cassino! / Yours for the Asking / 1936, de novo na Paramount e em terceiro plano ao lado de George Raft e Dolores Costello.

Seguiram-se mais sete filmes: um para a Paramount  (Artistas e Modelos / Artists and Models / 1937); dois emprestada para a RKO (Heróis do Mar / Sea Devils / 1937 e Amor em Budapeste / Fight for your Lady / 1937); três para a Columbia (Agora Convém Casar / Let’s Get Married / 1937, Alibi Nupcial / Lone Wolf Spy Hunt / 1939, Capangas do Barulho / The Lady and the Mob /1939); um para a Twentieth Century-Fox, Sherlock Holmes / The Adventures of Sherlock Holmes / 1939 e, finalmente, mais um para a Paramount, Luz Que Se Apaga / The Light That Failed / 1939.

Merece destaque o último filme, dirigido por William Wellman e com esplêndida atuação de Ronald Colman como o pintor Dick Heldar, que vê seu amor rejeitado pela namorada de infância e interrompida a carreira justamente quando criara a sua obra-prima, pela perda da visão. Ida sempre sonhara em interpretar no cinema o papel de Bessie Broke, a prostituta temperamental que serviu de modelo para o quadro do artista, antes de ficar cego, pois sabia que este papel lhe proporcionaria o sucesso que lhe vinha sendo sonegado nos seus seis anos em Hollywood. Wellman foi tomado de surpresa quando Ida irrompeu pela porta de seu escritório. Muito excitada, ela lhe disse: “Você está fazendo The Light That Failed de Rudyard Kipling e este papel é para mim. Você tem que me dar uma chance. Já conheço todo o script, porque eu o roubei!”. Ainda espantado com a intromissão inesperada, Wellman lhe disse que ela não poderia fazer o teste, porque o astro do filme, Ronald Colman, não estava alí. Audaciosamente, Ida insistiu que Wellman lesse o texto com ela. Queria interpretar a cena mais difícil, na qual Bessie ficava histérica. Impressionado pela manifestação de coragem e auto-confiança da jovem atriz, Wellman concordou em fazer a cena. Ida subitamente transformou-se em uma cockney louca, selvagem e assustadora. Wellman nunca vira nada tão impressionante em toda a sua vida e imediatamente levou Ida à presença do produtor Budd Schulberg. A repetição da performance foi tão magnífica quanto a original e Schulberg concordou que ela fosse Bessie Broke. O filme foi um sucesso de bilheteria e também para Ida Lupino.

Em 17 de novembro de 1938, Ida casou-se com o ator Louis Hayward. Ele se alistou como fuzileiro naval no começo da Segunda Guerra Mundial e, à frente de uma unidade fotográfica da Marinha, arriscando a vida no campo de batalha, filmou a Batalha de Tarawa com sua câmera de 16mm, realizando depois o documentário With the Marines at Tarawa (exibido no Brasil como A Tomada de Tarawa), que foi premiado com o Oscar. Hayward voltou do conflito com neurose de guerra e esta condição levou ao divórcio dos dois astros em 11 de maio de 1945.

Entusiasmado com o desempenho de Ida em Luz que se Apaga, o produtor Mark Hellinger, levou-a para a Warner Bros., colocou-a no elenco de Dentro da Noite / They Drive by Night /1940 ao lado de George Raft, Ann Sheridan e Humphrey Bogart, e ela “roubou” o filme como Lana Carlsen, a assassina e  esposa infiel, que enlouquece durante seu julgamento, contorcendo seu lenço sem parar, até explodir em uma crise de riso maníaco, dizendo: ”Foram as portas que me fizeram matá-lo. Sim, foram as portas, as portas”.

Mark Hellinger escolheu Ida para o seu novo filme, O Último Refúgio / High Sierra / 1941 (Dir: Raoul Walsh), como a dançarina de aluguel, Marie Garson, acolhida pelo bando de assaltantes liderado por Roy Earle (Humphrey Bogart), criminoso envelhecido e amargurado e ela soube criar com perfeição o retrato de uma mulher que manifesta um sentimento de lealdade e amor pelo único homem que lhe havia tratado com bondade. Magnificamente dirigido por Raoul Walsh, O Último Refúgio foi um dos melhores filmes da carreira de Ida.

No mesmo ano, ela integrou a equipe de O Lobo do Mar / The Sea Wolf / 1941, (Dir: Michael Curtiz) ao lado de Edward G. Robinson e John Garfield. Antes da filmagem, o  Breen Office informou a Warner que o personagem de Ida não podia ser uma prostituta e os roteiristas tiveram que transformá-la em “uma fugitiva da justiça”. Como era esperado, Edgar G. Robinson como Wolf Larsen, o capitão brutal e tirânico do navio batizado de “Fantasma”, dominou o filme; mas, embora ofuscada pela brilhante interpretação de Robinson, Ida recebeu elogios da crítica pela excelente atuação como “a garota com um passado”.

Quando Barbara Stanwyck recusou o papel de Stella, a jovem telefonista seduzida por Harold Goff, um malfeitor de fala macia e arrogante em Quando a Noite Cai / Out of the Fog / 1941 (Dir: Anatole Litvak), Ida assumiu-o com entusiasmo, porque a peça na qual o filme se baseava, obtivera um grande êxito, ao ser encenada pelo Group Theater com Franchot Tone e Silvia Sidney como atores principais. Ida se debruçou sobre o roteiro, encantada com o drama de Irwin Shaw – uma descrição de injustiça social, um estudo sobre pessoas simples e gentís (na trama dois pescadores interpretados por John Qualen e Thomas Mitchell), atormentadas a tal ponto, que acabam se unindo para exterminar seu agressor – e chegou a propor algumas sugestões que, segundo ela, contribuiriam para melhorar algumas cenas. O ator coadjuvante veterano, John Qualen  gostava de ficar espiando nas sombras enquanto Ida atuava diante da câmera. Eis o que ele disse: “Quando ela entra em um personagem, é como se ela não estivesse representando. É como se ela fosse aquela pessoa”.

Como o contrato de um ano que assinara com a Warner lhe permitia trabalhar também como free lancer em outras companhias, Ida fêz Mistério de uma Mulher / Ladies in Retirement / 1941 (Dir: Charles Vidor) para a Columbia e Brumas / Moontide / 1942 (Dir: Archie Mayo) para a Twentieth Century-Fox.  No primeiro filme, como Ellen Creed, a acompanhante de uma atriz aposentada, Mrs.  Leonora Fiske (Isobel Elsom) que, para amparar suas duas irmãs doentes mentais (Elsa Lanchester, Edith Barrett), assassina a patroa, Ida teve um de seus melhores desempenhos. A cena mais lembrada é aquela na qual Ellen estrangula a velha pelas costas a sangue frio com uma corda enquanto esta está tocando piano: as pérolas do colar de Mrs. Fiske caem no assoalho, uma a uma tal como gotas de sangue. No segundo filme, como Ada, uma garçonete recolhida por um estivador das docas (Jean Gabin), quando tentara o suicídio, Ida está linda, notadamente em uma cena de forte discussão com o chantagista (Thomas Mitchell), ambos – e o filme todo – focalizados em extraordinária fotografia em claro-escuro (de Charles Barnes), a principal atração do espetáculo.

Durante o intervalo entre um e outro filme, Ida renegociou seu contrato com a Warner. Seu salário subiu para três mil dólares semanais e ela continuou com o direito de aparecer em quatro filmes produzidos em outras companhias. Porém logo vieram os aborrecimentos. Quando o estúdio a designou para o papel de Cassandra em Em Cada Coração um Pecado / King’s Row / 1942, ela respondeu que o papel era muito pequeno e a posição de seu nome nos letreiros muito baixa. Nesta ocasião, Ida machucou o joelho e o estúdio mandou o seu próprio médico examiná-la em casa, suspeitando que se tratava de uma simulação para não fazer o papel indesejado. Ida ficou furiosa e logo depois ela não quís participar de Corsários das Nuvens / Captain of the Clouds / 1942  (com James Cagney), queixando-se de que o papel que lhe atribuíram era insignificante. O estúdio tentou convencê-la mais uma vez a integrar o elenco de Em Cada Coração um Pecado e ela mais uma vez recusou. A Warner aplicou-lhe uma suspensão e Betty Field interpretou Cassandra.

Nova recusa por parte de Ida, desta vez com relação à sua participação em Pés Inquietos / Juke Girl / 1942 (no papel que depois coube a Ann Sheridan), levou o estúdio a pensar em cancelar seu contrato. O desentendimento entre o estúdio e a atriz começou a se dissipar quando Ida obteve permissão para aparecer  (como uma criada, no terceiro episódio) em Para Sempre e um Dia / Forever and a Day / 1943, tributo recheado de astros à coragem do povo britânico no tempo de guerra. Um dos diretores do filme, Cedric Hardwicke, convidou-a para a produção e foi pedir pessoalmente a aprovação de Jack Warner. Este concordou desde que ela trabalhasse de graça e os rendimentos que lhe coubessem, fossem doados para caridade.

A crise com a Warner terminou quando o estúdio ofereceu a Ida (depois de cogitadas Ginger Rogers, Rosalind Russell e Olivia de Havilland) o  papel de Helen Chernen em É Difícil Ser Feliz / The Hard Way / 1942  (Dir: Vincent Sherman), mulher ambiciosa e dominadora que impele sua irmã mais moça e talentosa, Katherine (Joan Leslie), para o mundo do entretenimento, a fim de que ambas possam sair da pobreza. Entretanto, durante a filmagem, achando que  o público não iria aceitar personagens tão desajustados, exausta e abalada emocionalmente por causa do seu mau relacionamento com o diretor e também pela morte do seu querido pai ao 48 anos de idade, Ida teve que ser internada em um hospital.

Uma semana após a morte do pai, ela voltou para frente das câmeras. Ida chegou ao estúdio às 9.15 horas da manhã e logo teve uma crise de histeria. Quando pôde continuar seu trabalho, as desavenças com Sherman aumentaram. Durante uma cena, quando Sherman tentava lhe explicar o que ele queria, ela explodiu: “Este filme fede”, Ida gritou, “e eu vou ficar fedendo nele”.

Na estréia do filme, Ida saiu no meio da projeção, porém seu desempenho como Helen Chernen era soberbo (notadamente na cena em que Helen revela seu anseio por amor e afeição e retribui com paixão o beijo que lhe deu Paul Collins (Dennis Morgan) e, logo depois, recebe um fora dele e lhe dá um tapa, furiosa por ter exposto o seu lado fraco), e ela ganhou o New York Film Critics Award. Compreendendo muito bem as atrizes temperamentais, Sherman telefonou para Ida em busca de uma reconciliação. Ida estava encantadora, como se eles nunca tivessem brigado. ”Oh, querido, como você está?”, ela perguntou. Sherman congratulou-a. Depois disso, eles se tornaram grandes amigos.

Ida ficou muito animada com o seu próximo projeto, Ao Levantar o Pano / Life Begins at 8.30 / 1942, baseado em uma peça de Emlyn Williams sôbre um ator alcoólatra, outrora famoso, que entrou em decadência, tendo que se sujeitar a se fantasiar de Papai Noel em uma loja de departamentos. Monty Woolley seria Madden Thomas, o tal ator, e Ida faria a sua filha, Kathy, que era coxa. Na Twentieth Century-Fox, ela se sentia mais relaxada e se entendeu bem com Monty. Ida foi muito elogiada pelo momento mais pungente da trama, quando diz a verdade para o pai, que ele fôra responsável por seu defeito físico, porque havia deixado a filha ainda bebê cair enquanto estava bêbado.

Depois de marcar presença em dois filmes “patrióticos”, Graças à Minha Boa Estrela / Thank Your Lucky Stars / 1943 (com Olivia de Havilland em uma sátira  das Irmãs Andrews)  e Um Sonho em Hollywood / Hollywood Canteen / 1944, ambos com um elenco all-star, ela fêz um drama e uma comédia de guerra, respectivamente, Viveremos Outra Vez / In Our Time / 1944 e Que Falta faz um Marido / Pillow to Post / 1945. No primeiro filme, Ida é Jennifer Whittredge, acompanhante de uma dama inglesa em busca de antiguidades na Polônia, que se casa com um conde polonês (Paul Henreid) no limiar da invasão de Varsóvia pelos nazistas; no segundo filme, é Jean Howard, vendedora itinerante de uma companhia petrolífera que, devido à escassez de moradias durante a guerra, precisa de um marido militar para conseguir um lugar para ficar na cidade em que está; o Tenente Mallory (William Prince) concorda em se fazer passar por  seu marido e as confusões começam.

Devoção / Devotion já havia sido filmado em 1942-1943, porém o filme só foi lançado em 1946, com Ida Lupino, Olivia de Haviland e Nancy Coleman como as famosas escritoras e irmãs Emily, Charlotte e Anna Bronte, que tentam ajudar seu irmão Bramwell (Arthur Kennedy), pintor talentoso, cuja vida está sendo destruída pelo alcoolismo. É uma biografia muito romanceada, mostrando essencialmente a devoção da irmãs pelo irmão atormentado e a paixão de Emily e Charlotte pelo mesmo homem, o Reverendo Arthur Nicholls (Paul Henreid), com quem Charlote se casa após a morte de Bramwell e Emily. Ida e Olivia protestaram em vão contra essa imprecisão histórica.

A Warner pensou levar à tela Meu Único Amor / The Man I Love com Ann Sheridan mas Ida acabou substituindo-a sob a direção de Raoul Walsh. No início da filmagem ela parecia fraca e irritadiça, queixando-se da sua maquilagem e vestuário. Ida ganhava na época quatro mil dólares semanais e, quando começou a chegar atrasada no set, os executivos se alarmaram. Logo Ida caiu doente e, ao retornar ao trabalho, desmaiou durante uma cena dramática por causa do calor intenso e pelo vestido bastante apertado que Milo Anderson havia concebido para a sua personagem.

Porém sua interpretação nesse “women’s film” – como Petey Brown, mulher solteira muito independente e cantora de uma boate de Nova York (dublada por Peg la Centra), que procura ser a base sólida de sua família e a amante compreensiva de um pianista fracassado, que no final a deixa -, foi impecável. Os críticos acharam a história lacrimosa, reminiscente das novelas radiofônicas porém as fãs da atriz, enfrentaram as filas dos cinemas para vê-la. Quando aquela mulher, Petey Brown, forte mas vulnerável emocionalmente, se vê sozinha quando seu homem parte, um sentimento correspondente ao dela bateu no coração de muitas espectadoras.

OS WESTERNS DE DELMER DAVES

Em todos os seus westerns, Delmer Daves procura uma verdade documentária, uma exatidão, tanto no que se refere ao cenário e ao vestuário, como no que concerne às reações humanas, à mentalidade da época. Flechas de Fogo / Broken Arrow / 1950, Rajadas de Ódio / Drumbeat / 1954, Ao Despertar da Paixão / Jubal / 1956, A Última Carroça / The Last Wagon / 1956, Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma / 1957, Como Nasce um Bravo / Cowboy / 1958, Os Homens das Terras Bravas / The Badlanders / 1958  e  A Árvore dos Enforcados / The Hanging Tree / 1959 não se afastam dessa linha realista

Daves se esforça antes de tudo para que as situações que ele imagina sejam reais e, em consequência, fez sempre um estudo preciso e honesto do meio onde elas se passam. Neto de pioneiros e tendo passado muito tempo entre os índios, o diretor está à vontade nas paisagens do oeste.  Sabe o valor exato,  o significado profundo daquelas florestas, planícies e desertos e conhece também os homens, seus costumes, dificuldades e modo de vida. Razão pela qual as aventuras que ele nos conta são ao mesmo tempo lúcidas reportagens.

Até os anos 50, os índios eram apresentados na tela como assassinos, sequestradores e incendiários, raramente como indíviduos e, com toda certeza, sem uma tentativa de se compreender e refletir sobre a sua visão dos fatos históricos. Flechas de Fogo foi o primeiro filme que mudou essa imagem, iniciando-se um processo de reabilitação, que prosseguiria nos anos seguintes.

Ele gira em torno da amizade entre Cochise (Jeff Chandler) e Tom Jeffords (James Stewart) – encarregado pelo governo de convencer o chefe índio a assinar um tratado de paz – e o amor puro entre o americano e uma índia e começa com esta constatação: é pelo reconhecimento das qualidades humanas que se pode chegar a um entendimento entre os homens.

Entretanto, nada se consegue sem sacrifício e por duas vezes a câmera mostra a morte de inocentes – o menino salvo por Jeffords e sua esposa, Sonseeaharay (Debra Paget). Estas mortes condenam, sem didatismo supérfluo, o racismo que o diretor denuncia ao longo da narrativa.

Daves declarou a propósito do filme: “Pela primeira vez no cinema americano mostramos os índios como pessoas respeitáveis e não como selvagens, procurando compreender sua civilização, religião e cultura”. E a inclusão de um romance na trama, coloca em questão o ângulo da miscigenação, que Daves literalmente defende.

O cineasta descreve com muito respeito a vida cotidiana dos índios, seus costumes, suas contradições. Os heróis, índios ou brancos, não são simples personagens, mas sim pessoas nobres para as quais a palavra dada é sagrada. Todo o filme pode ser sintetizado na frase que Cochise diz para Jeffords: “Talvez um dia você me matará, talvez eu o matarei  – mas nós nunca nos desprezaremos”

Em Rajadas de Ódio, Johnny MacKay (Allan Ladd), especialista em problemas indígenas, é encarregado pelo presidente Grant de apaziguar Captain Jack (Charles Bronson), chefe de uma facção rebelde dos índios Modoc (que usa a farda de um falecido capitão da Cavalaria dos Estados Unidos). Johnny vai sozinho ao encontro de Jack, porém este é intratável. Graças à intervenção de Toby (Marisa Pavan) e seu irmão Manok (Anthony Caruso), pertencentes ao grupo de Modocs que deseja a paz, Johnny, acompanhado de representantes do governo, tenta de novo a conciliação, mas os índios os atacam traiçoeiramente . Johnny consegue escapar e posteriormente, após uma luta feroz com Jack, consegue levá-lo preso para ser julgado.


Tal como em Flechas de Fogo, Daves examina a relação entre os índios e os brancos, agora sob a perspectiva dos colonizadores.  A majestosa paisagem das rochas abruptas (que parecem ruínas antigas), o ataque ao refúgio dos Modocs no alto da montanha e o combate corpo-a-corpo entre Johnny e Jack em um cânion cujas águas arrastam os dois adversários, produzem um efeito espetacular, acentuado por uma partitura musical muito rica.

Em Ao Despertar da Paixão, um vaqueiro errante, Jubal Troop (Glenn Ford) arranja emprego na fazenda de Shep Horgan (Ernest Borgnine). Jubal é logo promovido a capataz para descontentamento de Pinky (Rod Steiger), que ambicionava tal posto. A esposa de Horgan, Mae (Valerie French), assedia Jubal, mas este repele suas investidas amorosas. Pinky faz Horgan suspeitar da infidelidade de Mae que, ao ser interrogada, admite seus sentimentos para com o marido. Furioso, Horgan ataca Jubal e é morto por este em legítima defesa. Pinky, depois de estuprar Mae, recruta cidadãos para linchar Jubal.

Este western psicológico sublinhando o interesse humano (os traumas de Jubal, a solidão e a frustração sexual de Mae, a inveja de Pinky), tem como pano de fundo a magnificente paisagem das montanhas do Wyoming, maravilhosamente focalizadas pela câmera de Charles Lawton Jr. em Technicolor e CinemaScope. Os personagens são esculpidos com uma energia e uma humanidade raros e o cenário selvagem  e rude justifica os lances violentos e trágicos da intriga.

A direção imprimiu ao filme uma forte intensidade dramática, muito bem filmada (vg. as insinuações de Pinky para seu patrão em um acampamento; a desilusão de Shep no seu quarto; a saída de Jubal diante dos cavaleiros) e os travelings com a grua criam algumas cenas notáveis (vg. o movimento de câmera partindo das costas de Jubal até chegar ao fusil de Shep). A cena em que Jubal fala de sua mãe e de seu pai para a jovem Naomi (Felicia Farr), a filha de religiosos itinerantes por quem se apaixonara, é uma verdadeira aula de interpretação.

Em A Última Carroça – rodado em locação na região de Sedona, Arizona, perto do Old Creek Canyon – Comanche Todd (Richard Widmark), um branco assim chamado por ter vivido vinte anos entre os comanches, mata três irmãos que haviam estuprado  sua esposa e depois assassinado a mulher e seus dois filhos. O quarto irmão, Bull Harper (George Mathews), que é xerife, prende Todd e quer receber o premio por sua captura. Os dois homens encontram uma caravana e se juntam a ela. Os membros da caravana ficam logo escandalizados pela maneira brutal com que o xerife trata o prisioneiro. Porém, Todd não tarda a eliminar seu torturador. Uma noite, os jovens da caravana decidem tomar um banho noturno. Quando voltam, encontram seus pais massacrados pelos apaches. Somente Todd sobreviveu. Ele conseguirá conduzir os jovens através do deserto e do Desfiladeiro da Morte e deixá-los sãos e salvos na cidade.

O diretor deu uma sólida coesão a essa sequência de episódios. O relato se desenvolve em um ritmo capaz de manter o interesse do espectador até à conclusão e assegurar aos momentos de suspense todo o seu poder de emoção dramática. Os exteriores belos e pitorescos encontram sua amplitude, graças ao uso inteligente e correto do CinemaScope e do DeLuxe color.

Para Daves, A Última Carroça é “um manual de sobrevivência no deserto”, ensinando que é preciso lutar contra os elementos naturais, não perder o senso de direção, procurar os víveres e água e, sobretudo, se esconder dos índios. A jornada de Todd para o autoconhecimento é intensamente física (a certa altura ele é até “crucificado”), tal como os personagens vividos por James Stewart nos westerns de Anthony Mann. O herói é um homem violento, mas sua violência é justificada, tendo em vista o caráter hostil e cruel do universo onde evolui. Neste universo os preconceitos abundam, incitando Daves a fazer uma acusação ao racismo, inserindo o filme, ainda que obliquamente, na sua vontade de reabilitar os índios.

Em Galante e Sanguinário, do alto de uma colina, o fazendeiro Dan Evans (Van Heflin), acompanhado de seus dois filhos, assiste ao assalto de uma diligência, sem intervir, contra o desejo manifestado pelos adolescentes. Após o roubo, os bandidos fogem. A esposa de Dan fica surpresa pela falta de iniciativa do marido, porém ele responde que naquele momento só a seca que devasta a região o preocupa. Ele necessita de duzentos dólares para abrir um poço. Ao saber que pode obter o dinheiro como recompensa ao entregar Ben Wade (Glenn Ford), o chefe do bando de ladrões que fora levado pelo xerife, à prisão estadual  em Yuma, Dan aceita a missão, seguido por Alex Porter (Henry Jones), o bêbado da cidade. Depois de certos incidentes, Alex, Ben e Dan partem a cavalo para Contention City, onde passa o trem para Yuma. Encerrados em um quarto de hotel, Ben e Dan vão se confrontar em um combate todo interior entre o Bem e o Mal. Recolhido em um canto da cama, com o chapéu caindo sobre os olhos, Ben, diabólico, vigia sua presa; Dan, com a carabina na mão, tenta não ouvir o palavrório que o atordoa, resistir às tentações cada vez mais sutís com as quais o malfeitor pretende suborná-lo. Da tentação Ben passa à ameaça. A chegada do seu bando afugenta os homens contratados como reforço pelo proprietário da companhia de diligências. Alex, o bêbado, ferido pelos bandidos, é enforcado no lustre do saguão do hotel. Cada vez mais seguro de si, Ben aguarda o momento propício para fugir.

O roteiro focaliza um homem abandonado (tal como o xerife em Matar ou Morrer / 1952), depois que os homens contratados para ajudá-lo se intimidaram, deixando-o encarar sozinho os seus adversários e a própria consciência. Daves obtém um suspense de intensidade crescente, provocando uma angústia quase insustentável nas últimas cenas, porém não se esquece de acentuar o aspecto social e moral que enriquece o espetáculo. Progressivamente vamos assistindo à transformação daquele homem de aparência medíocre, que se revela corajoso, não somente para reaver a estima da família, mas porque o cumprimento do dever impõe muitas vezes o sacrifício da vida.

A ação transcorre em grande parte no quarto de um hotel, suscitando inspirados close-ups. As cenas em exteriores são igualmente boas, particularmente as de uma terra desesperada por água (“Considero Galante e Sanguinário meu melhor western. Tentei fotografar esta história como fariam nos anos 1870-1875 … Era preciso sentir verdadeiramente a terra seca e queimada”). Notam-se também o uso simbólico da paisagem e os célebres travelings verticais com a grua, marca registrada do diretor.

Em Como Nasce um Bravo, em um hotel de Chicago, o rico criador de gado Tom Reece (Glenn Ford) se embriaga, perde no pôquer e se associa ao recepcionista Frank Harris (Jack Lemon), um rapaz com uma visão romântica do Oeste. Eles partem para comprar uma boiada no México. Durante o percurso, Harris aprende o ofício rude dos vaqueiros e, pouco a pouco, nasce uma amizade entre os dois.

O filme é uma espécie de documentário dramatizado sobre o aprendizado e a evolução  moral de um jovem citadino em contato com a vida dura do sertão. A vontade de mostrar a verdade em oposição à lenda, não impediu que Daves realizasse um espetáculo cheio de ação e humor, no qual os dois intérpretes centrais exprimem com felicidade a oposição de caráter e comportamento dos personagens que interpretam.

Em Homens das Terras Bravas, ao sair da prisão de Yuma, Peter Van Hoeck (Alan Ladd), apelidado de “holandês”, arma um plano para roubar o ouro de uma mina, na qual trabalhara. Van Hoeck convida para serem seus cúmplices um ex-companheiro de penitenciária, John Mac Bain (Ernest Borgnine), e um dinamitador mexicano, Vicente (Nehemiah Persoff). Durante o roubo, a explosão de uma carga de dinamite causa um desabamento, mas eles conseguem fugir. Porém não contavam com a traição de Cyril Lounsberry (Kent Smith), que se dispusera a comprar o ouro.

Trata-se de uma refilmagem como western da história que serviu de base para O Segredo das Jóias / The Asphalt Jungle / 1950, de John Huston, com algumas modificações. A ação se desenrola num estilo nervoso, adotando um movimento rápido, onde o “suspense” atinge por duas vezes seu paroxismo. Os exteriores são belos e numerosos, perfeitamente realçados pelo CinemaScope e o Metrocolor. Daves realizou um espetáculo correto e interessante, mas sem criatividade: salvo na sequência da festa mexicana, com os fogos de artifício que permitem aos dois heróis escaparem do cerco de seus inimigos.

A Árvore dos Enforcados é o western mais complexo e ambicioso de Delmer Daves. O doutor John Frail (Gary Cooper) chega a Skull Creek, uma cidade mineira em formação em Montana. Acolhido com desconfiança pela população, Frail recolhe um jovem ladrão, Rune (Ben Piazza), extrai a bala que ele tem no ombro e o coloca a seu serviço como doméstico, em troca da operação. Apesar da hostilidade de um curandeiro, George Grubb (George C. Scott), Frail conquista a simpatia da comunidade, cuidando das crianças pobres. Ao mesmo tempo, o médico ganha uma fortuna no jogo de pôquer e é em uma dessas noites no saloon, que alguém faz alusão ao seu misterioso passado e a uma casa que ele havia queimado. Mais tarde, Frail cuida de uma jovem suíça, única sobrevivente do assalto a uma diligência, Elizabeth Mahler (Maria Schell), que ficara cega. Com muita dedicação e paciência, Frail cura Elizabeth e ela se apaixona pelo seu benfeitor. Frail, que tivera outrora uma decepção sentimental, a repudia. Associando-se a Rune e a outro garimpeiro, Frenchy Plante (Karl Malden), Elizabeth explora um filão, graças ao dinheiro que Frail, secretamente, fizera chegar às sua mãos. Os três sócios descobrem ouro ao pé de uma árvore desenraizada por uma tempestade. Frenchy se embriaga e tenta violentar Elizabeth, mas Frail intervém a tempo e o mata. Incitados pelo curandeiro e sabendo que Frail matara sua mulher infiel, os habitantes do local decidem enforcá-lo. Elizabeth e Rune então jogam suas pepitas para a multidão e salvam a vida de Frail.

A partir de temas do western clássico (rivalidade entre garimpeiros, nascimento de uma cidade em uma região ainda inexplorada), Daves realiza um melodrama romântico de grande intensidade e beleza visual.


A intriga se parece um pouco com a de La Symphonie Pastorale de Andre Gide (e a adaptação cinematográfica de Jean Delannoy de 1946, intitulada no Brasil, Sinfonia Pastoral) ambas as histórias focalizando o relacionamento de uma moça cega e um homem mais velho, cuja preocupação ostensiva com a caridade esconde as suas próprias motivações. Só que Frail pratica-a de uma forma ambígua: ele trata de Rune e de Elizabeth com um rigor, uma espécie de chantagem moral, que provoca um mal-estar nos seus beneficiários.

Uma das cenas que lembram a obra de Gide (e o filme de Delannoy) é aquela em que Elizabeth, sozinha na cabana, se levanta e reaprende a usar as pernas, embora não tenha ainda recobrado a visão; ela descobre pelo toque o mundo dos objetos familiares, acaricia a superfície de uma mesa, o volume esférico de uma lâmpada …

Da perseguição do ladrão que abre o filme, ao esboço do enforcamento, que o encerra, a narrativa contém cenas de ação conduzidas com muito vigor. A loucura coletiva, com o incêndio da metade da cidade, está impregnada de muita violência.

Um dos pontos altos do espetáculo é a notável utilização dramática do espaço, perceptível na fuga de Rune  e seu resgate por Frail, na busca de Elizabeth pelas montanhas, no traveling acompanhando Elizabeth até o precipício, depois que voltou a enxergar etc. A própria localização da cabana de Frail no topo do despenhadeiro, contemplando toda a cidade, enfatiza o isolamento físico e psicológico do herói, enquanto os movimentos de grua procuram exprimir com a mesma força as emoções dos personagens e uma visão panteísta da natureza.

GRANDES COMPOSITORES DA MÚSICA CLÁSSICA NO CINEMA (1930-1960)

As cinebiografias de compositores da música clássica existem desde a época do cinema mudo como, por exemplo, Beethoven/ 1918 com Fritz Kortner e Paganini /1923, com Conrad Veidt (Paganini) e Gustav Frölich (Franz Liszt). Além delas, existem também filmes de variados gêneros, nos quais aparecem compositores, podendo ser citados, entre outras, a aparição de Franz Liszt no filme de aventura histórica Suez / Suez / 1938 ou ele novamente no filme de horror O Fantasma da Ópera / Phantom of the Opera / 1943.

Sem ter a pretensão de esgotar o assunto, elaborei uma lista de filmes de ficção em longa-metragem, produzidos entre 1930 e 1960, nos quais aparecem grandes compositores da música clássica, mencionando os atores que os personificaram. Não vou apreciar a qualidade dos filmes, nem se eles retratam perfeitamente a personalidade ou a obra musical de cada compositor. Minha intenção é apenas fornecer aos estudiosos do cinema e da música clássica, um material que poderá ser útil para as suas pesquisas.

Schuberts Frühlingstraum / 1931. Dir: Richard Oswald. Carl Jöken (Franz Schubert), Greti Theimer, Alfred Laütner, Willy Stetner.

So lang’ noch ein Walzer von Strauss erklingt / 1931. Dir: Conrad Wiene. Gustav Frölich (Johann Strauss II), Hans Junkermann (Johann Strauss I), Julia Serda, Maria Paudler. Obs.  Título austríaco: Ein walzer von Strauss.

Ao Som de uma valsa de Strauss / Johann Strauss, k.u.k. Hofkapellmeister / 1932. Dir: Conrad Wiene. Michael Bohnen (Johann Strauss I), Lee Parry, Paul Hörbiger, Greti Theimer. Obs. Título austríaco: Heut’ Spielt der Strauss.

Die Tänzerin von Sans Souci ou Barberina / 1932. Dir: Friedrich Zelnik. Otto Gebühr, Lil Dagover, Hans Stüwe, Rosa Valetti, Dr. Philip Manning (Johann Sebastian Bach).

Pergolesi / 1932. Dir: Guido Brignone. Elio Steiner (Giovanni Battista Pergolesi), Dria  Paola, Tina Lattanzi, Livio Pavanelli. Versão francêsa: Les Amours de Pergolèse. Pierre Richard-Willm (Pergolèse).

Sinfonia Inacabada / Leise flehen meine Liebe / 1933. Dir: Willi Forst. Hans Jaray (Franz Schubert), Martha Eggerth, Helen Chandler, Elliott Makeham. Versão Inglêsa: Unfinished Symphony. Dir: Anthony Asquith.

A Guerra das Valsas / Walzerkrieg / 1933. Dir: Ludwig Berger.  Anton Walbrook (Johann Strauss I), Renate Muller, Willy Fritsch, Paul Hörbiger. Versão francêsa: A Guerra das Valsas / La Guerre des Valses. Dir: Ludwig Berger, Raoul Ploquin. Pierre Minand (Johann Strauss I).


Waltzes from Viena / 1933. Dir: Alfred Hitchcock. Jessie Matthews, Edmund Gwenn, Fay Compton, Esmond Knight (Franz Schubert).

Ich und die kanserin / 1933. Dir: Friedrich Hollaender. Lilian Harvey, Mady Christians, Conrad Veidt, Julius Falkenstein (Jacques Offenbach). Versão francêsa: Eu e a Imperatriz / Moi et l’imperatrice. Dir: Paul Martin, Friedrich Hollaender. Julius Falkenstein (Jacques Offenbach). Versão inglêsa: The Only Girl / 1934. Dir: Friedrich Hollaender. Julius Falkenstein (Jacques Offenbach).

A Valsa do Adeus de Chopin / Abschiedwalzer / 1934. Dir: Geza von Bovary. Wolfgang Liebeneiner (Frédéric Chopin), Hans Schlenck (Franz Liszt). Versão francêsa: La Chanson de l’Adieu. Dir: Albert Valentin, Geza von Bolvary. Jean Servais (Frédéric Chopin), Daniel Lecourtois (Franz Liszt)

Primavera de Amor / Blossom Time / 1934. Dir: Paul Stein. Richard Tauber (Franz Schubert), Jane Baxter, Carl Esmond, Athene Sayler.

Serenata do Amor / Love Time / 1934. Dir: James Tinling. Nils Asther (Franz Schubert), Pat Paterson, Herbert Mundin, Harry Green.

Paganini / Gern Hab’ Ich die Frau’n Geküsst ou Paganini / 1934. Dir: E. W. Emo. Ivan Petrovich (Nicolò Paganini), Eliza illiard, Theo Lingen, Adele Sandrock.

Sonho de Amor / Liebesträume / 1935. Dir: Heinz Hille. Franz Herterich (Franz List). Versão húngara: Szeremi Álmok. Ferenc Táray (Franz Liszt).

Casta Diva / Casta Diva /  1935. Dir: Carmine Gallone. Sandro Palmieri (Vincenzo Bellini), Martha Eggerth, Bruna Dragoni, Giulio Donaldi. Versão inglêsa: The Divine Spark. Philips Holmes (Vincenzo Bellini).Reprisado como Um Grande Amor de Bellini.

Uma Valsa na Rússia / Petersburger Nächte / 1935. Dir: E. W. Emo.  Paul Hörbiger  (Johann Strauss I), Theo Linger, Ernst Dumcke, Eliza Illiard.

Wenn die Musik nicht wär / 1935. Dir: Carmine Gallone. Luis Reiner (Franz Liszt), Paul Hörbiger, Willi Schaeffer, Ida Wüst.

Um Grande Amor de Beethoven e, na reprise, Beethoven, Sua Vida, Seus Amores / Un Grand Amour de Beethoven / 1936. Dir: Abel Gance. Harry Baur (Ludwig van Beethoven), Annie Ducaux, Jany Holt, André Nox.

Mozart / Whom the Gods Love / 1936. Dir: Basil Dean. Stephen Haggard (Wolfgang Amadeus Mozart), Victoria Hopper, John Loder, Liane Haid.

Sonata ao Luar / Moonlight Sonata / 1936. Dir: Lothar Mendes. Ignacy Jan Paderewski no papel dele mesmo, Charles Farrell, Marie Tempest, Barbara Greene.

As Três Meninas de Schubert / Drei Mäderl um Schubert / 1936. Dir: E. W. Emo. Paul Hörbiger (Franz Schubert),  Greti Theimer, Maria Andergast, Else Elster.

Valsa de Champagne / Champagne Waltz / 1937. Dir: Edward Sutherland. Gladys Swarthout, Fred Mac Murray, Jack Oakie, Stanley Price (Johann Strauss II).

A Grande Valsa / The Great Waltz / 1938. Dir: Julien Duvivier. Fernand Gravey (Johann Strauss II), Louise Rainer, Miliza Korjus, Hugh Herbert.

Verdi / Giuseppe Verdi / 1938. Dir: Carmine Gallone. Fosco Giachetti  (Giuseppe Verdi),  Gaby Morlay, Germana Paolieri, Camillo Pilotto.

Suez / Suez / 1938. Dir: Allan Dwan. Tyrone Power, Loretta Young, Annabella, Brandon Hurst (Franz Liszt).

Noite de Baile / Es War eine Rauschende Ballnacht / 1939. Dir: Carl Froelich. Zarah Leander, Hans Stüwe (Pyotr Ilyich Tchaikovsky), Aribert Wäscher, Marika Rokk.

Os Amores de Schubert / Sérénade / 1939. Dir: Jean Boyer. Lilian Harvey, Louis Jouvet, Bernard Lancret (Franz Schubert), Auguste Boverio (Ludwig van Beethoven).

Eine Kleine Nachtmusik / 1939. Dir: Leopold Hainisch. Erna Berger, Julius Brandt, Olga Engl, Hannes Stelzer (Wolfgang Amadeus Mozart).

Unsterblicher Walzer / 1939. Dir: E. W. Emo. Paul Hörbiger (Johann Strauss I), Fred Liewehr (Johann Strauss II), Dagny Servaes, Maria Andergast.

Eternas Melodias / Melodie Eterne /1940. Dir: Carmine Gallone. Gino Cervi (Wolfgang Amadeus Mozart), Conchita Montenegro, Luisella Beghi, Maria Jacobini.

A Rainha da Opereta / Operette / 1940. Dir: Willi Forst. Willi Forst, Maria Holst, Paul Hörbiger, Edmund Schellhammer (Johann Strauss II).

Friedemann Bach / 1941. Dir: Traugott Müller. Gustav Grüdgens, Leny Masrenbach, Camilla Horn, Eugen Klopfer (Johann Sebastian Bach).

Serenata de Amor / Melody Master ou New Wine / 1941. Dir: Reinhold Schünzel.  Alan Curtis (Franz Schubert), Illona Massey, Billy Gilberrt, Albert Bassermann (Ludwig van Beethoven).

Symphonie Fantastique / 1942. Dir: Christian-Jaque. Jean-Louis Barrault (Hector Berlioz), Renée Saint-Cyr, Lise Delamare, Maurice Schutz (Nicolò Paganini).

The Great Mr. Handel / 1942. Dir: Norman Walker. Wilfrid Lawson (Georg Friedrich Haendel), Elizabeth Allan, Malcolm Keen, Michael Shepley.

Wen die Götter lieben / 1942 Dir: Karl Hartl. Hans Holt (Wolfgang Amadeus Mozart), Irene von Meyendorff, Winnie Markus, René Deltgen (Ludwig van Beethoven). Saiu um dvd com o título de Mozart, o Gênio da Música.

Pontcarral / Pontcarral, Colonel d’Empire / 1942. Dir: Jean Delannoy. Pierre Blanchar, Annie Ducaux, Jean Chaduc (Frédéric Chopin), Marc Dantzer (Franz Liszt).

O Fantasma da Ópera / Phantom of the Opera / 1943 Dir: Arthur Lubin. Nelson Eddy, Suzanna Foster, Claude Rains, Fritz Leiber  (Franz Liszt).

Os Amores de Rossini / Rossini / 1943. Dir: Mario Bonnard. Nino Besozzi (Gioacchino Bellini), Paola Barbara, Memo Benassi (Ludwig van Beethoven), Cesare Fantoni (Nicolò Paganini).

O Grande Amor de Schumann / Träumerei / 1944. Dir: Harald Braun. Mathias Wieman (Robert Schumann), Hilde Krahl (Clara Schumann), Ullrich Haupt (Johannes Brahms), Emil Lohkamp (Franz Liszt).

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A Noite Sonhamos / A Song to Remember / 1945. Dir: Charles Vidor. Cornel Wilde (Frédéric Chopin), Paul Muni, Merle Oberon, Stephen Bekassy (Franz Liszt),  Roxy Roth (NIcolò Paganini).

Rikard Nordraak / 1945. Dir: Alf Scott-Hansen. Georg Lakkeberg, Axel Thue, Jorn Ording (Edvard Grieg), Ingolf Rogd.

Sonata de Amor / Song of Love / 1946. Dir: Clarence Brown. Paul Henreid (Robert Schumann), Katharine Hepburn (Clara Schumann), Robert Walker (Johannes Brahms), Henry Daniell (Franz Liszt), Leo G. Carroll.

Cordas Mágicas / The Magic Bow / 1946. Dir: Bernard Knowles. Stewart Granger (Nicolò Paganini), Phyllis Calvert, Jean Kent, Dennis Price.

Glinka / 1946. Dir: Lev Arnshtam. Boris Chirkov (Mikhail Glinka),Vasilly Markurev, Mikhail Derzhavin, Vladimir Druzhnikov.

Rêves d’Amour / 1946. Dir:  Christian Stengel. Pierre Richard Willm (Franz Liszt),  Mila Parély, Annie Ducaux, Louis Seigner.

Mrs. Fitzherbert / 1947. Dir: Montgomery Tully. Peter Graves, Joyce Howard, Leslie Banks, Arthur Dulac (Franz Joseph Haydn).

Donizetti, O Cavalheiro do Sonho / Donizetti, Il Cavaliere del Sogno / 1947. Dir: Camillo Mastrocinque. Amadeo Nazzari (Gaetano Donizetti), Mariella Lotti, Mario Ferrari, Dina Sassoli.

Carnegie Hall / Carnegie Hall / 1947. Dir: Edgar G. Ulmer. Marsha Hunt, William Prince, Frank McHugh, Alfonso D‘Artega (Pyotr Ilich Tchaikowsky).

Sedução / Song of Scheherazade / 1947. Dir:  Walter Reisch. Yvonne De Carlo, Jean-Pierre Aumont (Nicolai Rimsky-Korsakov), Brian Donlevy, Eve Arden.

Seine Einzige Liebe / 1947. Dir: Emerich Hanus. Franz Boheim (Franz Schubert), Klamaria Skala, Walter Gynti, Heniz Conrads.

Albeniz / Albéniz / 1947. Dir: Luis César Amadori. Pedro López Lagar (Isaac Albéniz), Sabina Olmos, Marisa Regules, Pedro Aleandro.

Serenata Española / 1947.  Dir: Juan de Orduña. Antonio Vico (Isaac Albéniz), Ricardo Acero, Félix Fernandez, Marichi Fresno.

Violino e Sonho / Housle a sen / 1947 (mais conhecido pelo título inglês Bohemian Rapture). Dir: Václav Krska. Jaromir Spal, Václav Voska (Frédéric Chopin), Karel Dostal (Nicolò Paganini), Vlasta Fabiánová.

História de Mozart / The Mozart Story / 1948. Dir: Karl Hartl, Frank Wisbar. Hans Holt (Wolfgang Amadeus Mozart), Winnie Markus, René Deltgen (Ludwig van Beethoven), William Vedder (Franz Joseph Haydn). Remontagem de Wen die Götter lieben.

Sinfonia Trágica / Song of my Heart / 1948. Dir: Benjamin Glazer. Frank Sundström (Pyotr Ilich Tchaikowsky), Lewis Howard (Modeste Mussorgsky), David Leonard (Nicolai Rimsky-Korsakov), Robert Barron (Aleksandr Borodin).

O Guarani / Guarany / 1948. Dir: Riccardo Freda. Antonio Vilar (Carlos Gomes), Mariella Lotti, Gianna Maria Canale.

La Belle Meunière / 1948.  Dir: Marcel Pagnol.  Tino Rossi (Franz Schubert), Jacqueline Pagnol, Raoul Marco, Lilia Vetti.

Idol of Paris / 1948. Dir: Leslie Arliss. Michael Rennie, Beryl Baxter, Christine Norden, Miles Malleson (Jacques Offenbach).

A Valsa de Paris / La Valse de Paris / 1949. Dir: Marcel Achard. Pierre Fresnay (Jacques Offenbach), Yvonne Printemps, Jacques Charon, Nöelle Norman.

Wiener Mädeln / 1949. Dir: Willi Forst. Willi Forst, Anton Edthofer, Judith Holzmeister, Edmund Schellhammer (Johan Strauss I).

Mussorgsky / 1950. Dir: Grigori Roshal. Aleksandr Borisov (Modeste Mussorgsky),  Nikolai Cherkasov, Vladimir Balashov, Andrei Popov (Nikolai Rimsky-Korsakov).

Romance de Amor / Romanzo d’Amore / 1950. Dir: Duilio Coletti. Dannielle Darrieux, Rossano Brazzi (Enrico Toselli).

Wiener Walzer / 1951. Dir: Emil Reinert. Anton Walbrook (Johann Strauss I), Marte Harell, Lilly Stepanek, Peter Czejke e Albert Truby (Johann Strauss II).

Glinka, Homem da Música / Kompositor Glinka / 1952. Dir: Grigori Aleksandrov. Boris Smirnov (Mikhail Glinka), Sviatoslav Richter (Franz Liszt), Lyubov Orlova, Lev Durasov.

Erkel / 1952. Dir: Márton Keleti.  Andor Ajtay, Gyula Bakos, Gábor Balassa, Ivan Darvas (Franz Liszt).

A Juventude de Chopin / Mlodosc Chopina / 1952. Dir: Aleksander Ford. Czeslaw Wollejko (Frédéric Chopin), Zbigniew Lobodzinski, Józef Nieweglowski, Francisek Jamry (Nicolò Paganini).

Puccini / Puccini / 1952. Dir: Carmine Gallone. Gabrielle Ferzetti (Giacomo Puccini), Marta Toren, Nadia Gray, Paolo Stoppa.

Rimsky-Korsakov / 1952. Dir: Grigori Roshal. Grigori Belov (Nikolai Rimsky-Korsakov), Nikolai Cherkasov, Aleksandr Borisov, Lilya Gritsenko

Verdi / Giuseppe Verdi / 1953. Dir: Raffaello Matarazzo. Pierre Cressoy (Giuseppe Verdi),  Ana Maria Ferrero, Gaby André, Loris Gizzi (Gioacchino Rossini), Emilio Cigoli (Gaetano Donizetti).

Hab’ Ich nur Deine Liebe / 1953. Dir: Eduard von Borsody. Johannes Heesters (Franz von Suppé), Greti Schörg, Egon von Jordan (Jacques Offenbach), Walter Müller.

Franz Schubert – Eine Leben in Zwei Sätzen / 1953. Dir: Walter Kolm-Veltée.  Heinrich Schweiger (Franz Schubert), Aglaja Schmid, Hans Thimig, Carl Bosse.

Valsa eterna / Ewiger Walzer / 1954. Dir: Paul Verhoeven. Bernhard Wicki (Johann Strauss II), HIlde Krahl, Annemarie Düringer, Arnulf Schröder (Jacques Offenbach).

Para o teu Coração / Casa Ricordi / 1954. Dir: Carmine Gallone. Roland Alexandre (Gioacchino Rossini), Gabriele Ferzetti (GIacomo Puccini), Marcello Mastroianni (Gaetano Donizetti), Fosco Giachetti (Giuseppe Verdi), Maurice Ronet (Vincenzo Bellini), Myriam Bru, Elisa Cegani, Andrea Cecchi, Daniele Delorme, Micheline Presle, Marta Toren, Paolo Stoppa.

Casta Diva / Casta Diva / 1954. Dir:  Carmine Gallone. Danilo Berardinelli  (Nicolò Paganini), Maurice Ronet (Vincenzo Bellini), Fausto Tozzi (Gaetano Donizetti), Antonella Lualdi, Nadia Gray.

Por Ordem do Czar / Par Ordre du Tsar / 1954. Dir: André Haguet. Michel Simon, Colette Marchand, Willy Fritsch, Jacques François (Franz Liszt), Peter Lehmbrock (Richard Wagner). Versão alemã: Ungarische Rhapsodie. Dir: Peter Berneis, André Haguet. Paul Hubschmidt (Franz Liszt).

Der Komödiant von Wien / 1954. Dir: Karl Paryla, Karl Stanzl. Karl Paryla, Christi Mardayn, Angelika Hauff, Eduard Strauss Jr. (Johann Strauss II), Wolfgang Heinz (Franz von Suppé).

Os Jovens Anos de uma Rainha / Mädchenjahre einer Königin/ 1954. Dir: Ernst Marischka. Romy Schneider, Adrian Hoven, Magda Schneider, Eduard Strauss Jr. (Johann Strauss I).

Sinfonia de Amor / Sinfonia d’Amore / 1954. Dir: Glauco  Pellegrini. Claude Laydu  (Franz Schubert), Marina Vlady, Lucia Bose, Paolo Stoppa.

Napoleão / Napoléon / 1955. Dir: Sacha Guitry. Jean-Pierre Aumont, Pierre Brasseur, Danielle Darrieux, Gianna Maria Canale, Jean Gabin, Daniel Gélin, Orson Welles, Michéle Morgan, Yves Montand, Françoise Arnoul, Micheline Presle, Maria Schell, Jean Marais, Erich von Stroheim (Ludwig van Beethoven).

Lola Montès / Lola Montès. 1955. Dir: Max Ophuls. Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook, Will Quadflieg  (Franz Liszt).

Mozart / Mozart / 1955. Dir: Karl Hartl. Oskar Werner (Wolfgang Amadeus Mozart),  Johanna Matz, Gertrud Kückelmann, Nadja Tiller.

Ludwig II : Glanz und Ende eines Königs / 1955. Dir: Helmut Kautner. O.W. Fischer, Marianne Koch, Friedrich Domin, Paul Bildt (Richard Wagner).

Eternas Melodias / Melodie Immortali – Mascagni / 1955. Dir: Giacomo Gentilomo. Pierre Cressoy (Pietro Mascagni), Carla Del Poggio, Nerio Bernardi.

Z mého zivota / 1955. Dir: Václac Kruska. Karel Höger (Bedrich Smetana), Zdenka Procházková, Lída Vendlova, Eduard Cupák (Antonín Dvorák), Stepán Bulejko (Franz Liszt).

Chama Imortal / Magic Fire / 1956. Dir: William Dieterle. Yvonne de Carlo, Rita Gam, Valentina Cortese, Alan Badel (Richard Wagner), Carlos Thompson (Franz Liszt), Charles Regnier (Giacomo Meyerbeer)

Casa das Três Meninas / Das  Dreimäderlhaus / 1958. Dir: Ernst Marischka. Karlheinz Böhm (Franz Schubert), Rudolf Schock, Magda Schneider, Gustav Knuter.

Sonho de Amor / Song Without End / 1960. Dir: Charles Vidor (terminado por George Cukor). Dirk Bogarde (Franz Liszt), Capucine. Geneviève Page, Patricia Morison, Lyndon Brook (Richard Wagner), Alexander Davion (Frédéric Chopin).

JAMES CAGNEY II

Durante o período em que James Cagney esteve afastado da Warner, seu irmão William estava preparando a volta do ator ao grande estúdio com melhores condições de trabalho e um aumento de salário robusto de salário.

Seu primeiro filme neste novo retorno foi Comprando Barulho / Boy Meets Girl / 1938 (Dir: Lloyd Bacon), contando as maluquices de dois roteiristas Robert Law (James Cagney) e J.C. Benson (Pat O’Brien), que levam ao desespêro o responsável pelo estúdio (Ralph Bellamy) e um vaidoso astro dos filmes de faroeste (Dick Foran). Eles criam um papel para o filho de uma garçonete (Marie Wilson) e a criança se torna uma sensação, roubando as cenas do galã. Cagney e O’Brien ocuparam o lugar antes reservado para a dupla Olsen e Johnson e tiveram atuações impagáveis nesta comédia satírica de andamento ligeiríssimo.

No mesmo ano, Cagney brindou o público com uma de suas performances mais perfeitas (pondo todo o corpo para representar) em um clássico do filme de gângster, Os Anjos De Cara Suja / Angels With Dirty Faces / 1938, narrado naquele modo de exposição cinematográfica exuberante de Michael Curtiz – o ritmo e as sombras controladas por Sol Polito, assumindo particular relêvo.

Na trama, o gângster Rocky Sullivan (James Cagney) retorna ao bairro onde nasceu e verifica que é idolatrado pelos jovens delinquentes do lugar (Leo Gorcey, Huntz Hall, Bobby Jordan, Billy Halop, Bernard Jordan, Gabriel Dell). A influência de Rocky não agrada ao padre Connelly (Pat O’Brien), seu amigo de infância, que inicia uma verdadeira cruzada contra o criminoso. Depois de acertar contas com os antigos sócios (Humphrey Bogart, George Bancroft), Rocky é preso e condenado à cadeira elétrica. O padre pede-lhe que destrua a adoração nefasta dos rapazes pela sua pessoa. Rocky a princípio recusa mas, na hora da execução, pratica um gesto nobre, fingindo acovardar-se.

Cagney conquistou o prêmio dos críticos de Nova York e recebeu a sua primeira indicação para o Oscar, perdendo para Spencer Tracy pelo seu Padre Flanagan em Com Os Braços Abertos / Boys Town / 1938.

Antes de ser indicado novamente para o prêmio da Academia, Cagney participou de nove filmes: A Lei Do Mais Forte / The Oklahoma Kid / 1939 (Dir: Lloyd Bacon), A Morte Me Persegue / Each Dawn I Die / 1939 (Dir: William Keighley), Heróis Esquecidos / The Roaring Twenties / 1939 (Dir: Raoul Walsh), Regimento Heróico / The Fighting 69th / 1940 (Dir: William Keighley), Zona Tórrida / Torrid Zone / 1940 (Dir: William Keighley), Dois Contra uma Cidade Inteira / City for Conquest / 1941 (Dir: Anatole Litvak), Uma Loura Com Açucar / The Strawberry Blonde / 1941 (Dir: Raoul Walsh), A Noiva Caiu Do Céu / The Bride Came C.O. D. / 1941 (Dir: William Keighley) e Capitão Das Nuvens / Captain Of The Clouds / 1941 (Dir: Michael Curtiz).

A Lei Do Mais Forte mostra Cagney como Jim Kincaid, conhecido como “Oklahoma Kid. Ele faz a sua própria lei, roubando dos ricos para dar aos pobres e vinga a honra da família, matando o líder (Humphrey Bogart) do bando que linchara seu pai. Cagney não deu sorte nesta sua primeira intervenção no faroeste. O filme tem ação, mas é ridículo e cheio de clichês.

Em A Morte Me Persegue vemos Cagney como Frank Ross, um repórter condenado  injustamente, que faz amizade na prisão com Hood Stacey, um ex-chefão do submundo (George Raft) e os dois planejam a fuga. A Warner pôs George Raft (depois de cogitados John Garfield e Fred Mac Murray) ao lado de Cagney, tentando formar uma dupla de sucesso. Entretanto, os atores nunca mais fariam outro filme juntos.

Heróis Esquecidos gira em torno da vida de três soldados, Eddie Barlett (James Cagney), George Hally (Humphrey Bogart) e Lloyd Hart (Jeffrey Lynn), que retornam da Primeira Guerra Mundial. Eddie torna-se traficante de bebidas, apaixona-se por uma jovem corista, Jean (Priscilla Lane) e a emprega em uma boate, graças à sua amiga Panama Smith (Gladys George). Posteriormente, associa-se a George e vem a descobrir que Jean ama Lloyd. Com a crise de 1929, Eddie se arruína. Tempos depois,  Jean procura-o, implorando-lhe que convença George a não matar Lloyd, que se fizera promotor e iria acusá-lo de vários delitos. Eddie mata George, mas também é ferido e morre em plena rua nos braços de Panama.

Raoul Walsh reconstiui com rara felicidade dez anos de vida americana naquela sua maneira de dizer tudo sinteticamente e Cagney tem um desempenho magistral, sublinhado pelos seus célebres maneirismos de gângster. Quando, anos depois, o ator Dick Wesson, que o estava imitando, lhe pediu para explicar como criou aquele maneirismo em que puxa as calças com os punhos cerrados, ele abriu seu paletó e disse: “Simples. Não uso cinto”.

Em Regimento Heróico, Cagney é o irlandês Jerry Plunkett que, durante a Primeira Guerra Mundial, se alista no 69º Regimento. A princípio, não se adapta e demonstra covardia em combate. Depois, com o auxílio espiritual do capelão, Padre Duffy (Pat O’Brien), encontra a fé e morre heroicamente. Apesar dos feitos heroicos providos pelo entrecho soarem falso, esse drama de militarismo patriótico, focalizando o famoso regimento de Nova York composto de imigrantes irlandêses, vale pelas cenas de batalha e pela interpretação de Cagney e O’Brien.

Zona Tórrida tem como local de ação a América Central, onde o dono de uma plantação de bananas, Steve Case (Pat O’Brien) usa uma atriz fracassada, Lee Donley (Ann Sheridan), para persuadir seu ex-capataz Nick Butler (James Cagney), a voltar ao emprego e ajudá-lo  na colheita, enfrentando os bandidos da região. Foi o último filme de Cagney com Pat O’Brien, enriquecido pelas piadinhas sarcásticas da “oomph girl”.

A trama de Dois Contra Uma Cidade Inteira é esquematizada, mas foi bem tratada cinematograficamente. Para impressionar a namorada (Ann Sheridan), Danny  Kenny, chofer de caminhão, vira um pugilista; porém ela parte em uma excursão com um dançarino (Anthony Quinn). Danny fica cego em uma luta, passa a vender jornais para sobreviver e encoraja o irmão (Arthur Kennedy) a realizar seu sonho de se tornar um compositor erudito.

Segundo consta, Cagney ficou desapontado com o filme, porque achou que na montagem foram extirpadas as melhores cenas, a fim de que fosse realçado o sentimentalismo do roteiro. Elia  “Gadge” Kazan aparece como ator no papel de Googi, um gângster amigo de Danny.

Uma Loura Com Açucar transcorre no princípio do século XX. Biff  Grimes (James Cagney) ambiciona formar-se em odontologia e se apaixona por uma bela garota, Virginia (Rita Hayworth); mas ela foge com seu amigo Barnstead (Jack Carson), que enriquecera. Biff casa-se com Ann (Olivia de Havilland) e Barnstead convida-o para trabalhar na sua firma, envolvendo-o em um acidente. Biff vai preso, tira seu diploma por correspondência e, ao sair da cadeia, abre um consultório. Apesar de viver feliz com Ann, ainda nutre uma paixão por Virginia; porém quando revê o casal Barnstead, compreende que se casou com uma moça muito melhor e resolve esquecer tudo.

Esta comédia sentimental e nostálgica, foi dirigida com boa percepção de época, interessante pintura de tipos e a maravilhosa simplicidade narrativa de Raoul Walsh, que extraiu de Cagney e de todo o elenco atuações humanas e convincentes.

Em A Noiva Caiu Do Céu, o locutor de rádio Steve Collins  (James Cagney) rapta uma herdeira, Joan Winfield (Bette Davis), que fugira de casa para se casar com um band-leader (Jack Carson) e pede ao seu rico papai uma recompensa para devolvê-la … solteirinha. Protagonizando uma história comum, Cagney e Bette mostram sua versatilidade na comédia. Entretanto, Bette não gostava do filme e Cagney disse que não o assistiu depois de pronto.

Capitão Das Nuvens, focaliza um dos pilotos da Força Aérea Canadense, Brian MacLane (James Cagney), que se rebela contra a rígida disciplina e depois prova sua bravura em uma perigosa missão. Foi o primeiro filme de Cagney em Technicolor e um tributo à FAC. Os verdadeiros astros são os fotógrafos em terra (Sol Polito, Wilfred M. Cline) e no ar (Elmer Dyer, Charles Marshall, Winton C. Hoch). Polito e Cline foram indicados para o Oscar.

No verão de 1940, Cagney soube por um repórter que estava sendo apontado, juntamente com outras celebridades do cinema, como simpatizante do Partido Comunista. Diante desta notícia, ele convocou uma reunião com os jornalistas, para declarar que era um democrata e que aquela acusação provavelmente derivou do fato dele ter doado uma ambulância para a American Abraham Lincoln Brigade, que lutava pelos Legalistas na Espanha e por ter contribuído para o fundo de socorro social de alguns colhedores de algodão famintos em Salinas, anos atrás. “Olhem, eu pertenço ao Screen Actors Guild e nós somos um sindicato trabalhista. Eu estava tentando ajudar alguns trabalhadores”, ele disse.

No dia seguinte, Cagney compareceu perante o Dies Committee, que estava investigando as atividades comunistas entre o pessoal de Hollywood, para contar a mesma história e Dies acreditou na veracidade de sua declaração.

Para dissipar a impressão causada por esse incidente, nada melhor do que fazer um musical sobre o maior patriota do show business: George M. Cohan. Este queria ver a história de sua vida filmada e procurou vários estúdios, entre eles o de Samuel Goldwyn, que submeteu a idéia a Fred Astaire; mas este achou que o papel não era para ele. Finalmente, Cohan e a Warner escolheram Cagney e o resultado foi sensacional.

Na cinebiografia, Cohan (James Cagney) é chamado à Casa Branca e, animado com a acolhida calorosa do Presidente, narra sua vida desde os primeiros dias, em que formava com os pais (Walter Huston, Rosemary de Camp) e a irmã (Jeanne Cagney) um quarteto de canto e dança, “The Four Cohans”, no vaudeville. No final de cada apresentação, Cohan – Cagney  dizia aquelas palavras que se tornaram antológicas: “My mother thanks you, my father thanks you, my sister thanks you and I thank you”.

O ator recordaria: “Psicologicamente não precisei de preparação para A Canção Da Vitória / Yankee Doodle Dandy / 1942 nem profissionalmente. Não precisei fingir que era um cantor e dançarino, pois é isso que sempre fui”. A fim de imitar perfeitamente o estilo do biografado, Cagney recorreu ao dançarino Johnny Boyle – seu ídolo – , que havia feito coreografias para Cohan e conhecia o seu jeito de dançar e, sob sua orientação, teve um desempenho extraordinário. Cagney adorava o papel  “porque era show business americano de verdade” e sempre o considerou  seu favorito. A Academia ratificou a escolha, outorgando-lhe o Oscar de Melhor Ator e, ainda hoje o filme agrada intensamente.

Em 30 de março de 1942, William Cagney anunciou para a imprensa especializada que ele e seu irmão haviam fundado a William Cagney Productions Inc., para fazer seus próprios filmes, que seriam financiados pelo Bankers Trust de Nova York e distribuídos pela United Artists.

A firma dos Cagney produziu apenas três filmes: Sempre Um Cavalheiro / Johnny Come Lately / 1943 (Dir: William K. Howard), Sangue Sobre O Sol / Blood On The Sun / 1945 (Dir: Frank Lloyd) e Um Momento Em Cada Vida / The Time of Your Life / 1948 (Dir: H.C. Potter). No primeiro filme, cuja ação transcorre no século XIX, Cagney é Tom Richards, jornalista itinerante, leitor apaixonado de Charles Dickens, que é preso por vadiagem. Libertado sob a custódia de uma velha senhora (Grace George), editora de um jornal, ele a ajuda a desmascarar os políticos corruptos do lugar. No segundo filme, Cagney é Nick Condon, editor americano de um jornal de Tóquio nos anos trinta (e bom lutador de judô) que revela um plano militar japonês para a conquista do mundo e luta com todas as suas forças para impedí-lo de concretizar-se. No terceiro filme, baseado em uma estranha fantasia filosófica de William Saroyan, Cagney é Joe, ricaço alcoólatra  e amável, que estimula um grupo de excêntricos frequentadores de um bar de San Francisco, a realizarem seus sonhos.  Sangue Sob o Sol tem seus atrativos como filme de ação, porém quanto aos outros dois, apesar dos bons propósitos de seus realizadores, faltou inspiração artística, resultando espetáculos frustrados.

Nenhum dos três foi melhor do que Rua Madeleine 13 / 13 Rue Madeleine / 1946 (Dir: Henry Hathaway), produzido pela Twentieth Century-Fox, no qual Cagney atuou no intervalo entre o segundo e o terceiro filme da Cagney Productions. Conta a história que quatro agentes americanos da contra-espionagem (James Cagney, Annabella, Frank Latimore, Richard Conte) localizam uma base nazista de foguetes na França e entre eles há um espião. Cagney recusou filmar para Twentieth Century-Fox The Life of O. Henry mas aceitou substituir Rex Harriison nesse thriller de espionagem em tom semi-documentário, conscienciosamente dirigido por Henry Hathaway.

Em 6 de maio de 1949, Cagney retornou à Warner assinando um contrato segundo o qual ele só precisaria fazer um filme por ano, poderia comprar histórias e supervisionar os roteiros. A Cagney Productions tornar-se-ia uma unidade ativa na área do estúdio e ele poderia fazer também filmes para ela. Para cada filme da Warner, Cagney receberia 250 mil dólares. Poucos astros em Hollywood tinham tal poder naquela época.

O  primeiro filme para a Warner sob o novo ajuste foi Fúria Sanguinária / White Heat / 1950, em cujo enredo Cody Jarrett (James Cagney), gângster psicopata, age sob influência da mãe (Margaret Wycherly), por quem nutre forte fixação Edipiana. Um dos elementos do bando, Big Ed (Steve Cochran), ambiciona tomar-lhe o posto de chefe e também sua mulher, Verna (Virginia Mayo). Depois  de cometer vários crimes, Cody entrega-se por um roubo que não cometeu, a fim de forjar um álibi. Enquanto está na penitenciária, Verna foge com Big Ed e sua mãe, que os perseguia, é eliminada.  Cody escapa da prisão, vinga-se de Bid Ed e assalta um laboratório químico onde, traído por um agente da lei (Edmond O’Brien), que se infiltrara entre seus comparsas, é abatido no alto de um dos depósitos de gás, morrendo no meio das chamas.

Nesta obra-prima de Raoul Walsh, Cagney teve a atuação mais fascinante de sua carreira. Como gângster psicopata e perverso, ele está eletrizante. Seus ataques de loucura, principalmente aquele ocorrido na penitenciária, quando é informado sobre a morte de sua mãe e o final apocalíptico no “topo do mundo”, são momentos cinematográficos inesquecíveis.

Dos filmes seguintes de Cagney, Conquistando West Point / The West Point Story / 1950 (Dir: Roy Del Ruth), O Amanhã Que Não Virá / Kiss Tomorrow Goodbye / 1951 (Dir: Gordon Douglas), Degradação Humana / Come Fill The Cup / 1951 (Dir: Gordon Douglas), Estrelas Em Desfile / Starlift / 1951 (Dir: Roy Del Ruth),  Sangue Por Glória / What Price Glory / 1952 (Dir: John Ford), Um Leão Está Nas Ruas / A Lion Is In The Streets / 1953 (Dir: Raoul Walsh) sobressaíram O Amanhã Que Não Virá e O Leão Está Nas Ruas.

Em Conquistando West Point, Cagney é Elwin Bixby, empresário de revistas musicais da Broadway  que se sujeita a ser calouro na Academia Militar de West Point, a fim de ali poder organizar um espetáculo.  Cagney gostava desta comédia musical cheia de disparates mas com boas canções de Jule Styne e Sammy Cahn e que contava ainda com a presença de Doris Day e Gordon MacRae. O melhor número é “B’KLYN”, executado por Cagney e Virginia Mayo.

Em O Amanhã Que Não Virá, Cagney é Ralph Cotter,  criminoso violento, que foge da prisão, mata o sócio, espanca a irmã deste (Barbara Payton), submetendo-a aos seus desejos. Em seguida, pratica um assalto audacioso em pleno dia e se livra de dois policiais corruptos, que o perseguiam, chantageando-os. Neste drama criminal baseado em um romance de Horace McCoy, a Cagney Productions procurou repetir o êxito de Fúria Sanguinária da Warner, fazendo Cagney cometer vilanias com um sorriso nos lábios.

Em Degradação Humana, Cagney é Lew Marsh, jornalista que se cura do alcoolismo com a ajuda de um amigo, ex-alcoólatra (James Gleason) e depois procura libertar do mesmo vício o sobrinho do dono do jornal em que trabalha, um playboy envolvido com gângsteres (Gig Young). Foi Jack Warner que insistiu em introduzir gângsteres no relato, providenciando, como disse McCabe, um final inferior para uma história superior. Entretanto, os bons desempenhos de Cagney, Gleason e Gig Young (este indicado para o Oscar de melhor Coadjuvante) salvaram o filme.

Em Estrelas Em Desfile, na Base Aérea de Travis, ao norte de San Francisco, astros e estrelas do Cinema divertem os soldados que partem para a Coréia. Entre os números musicais, nasce um romance entre uma atriz de Hollywood (Janice Rule) e um cabo (Ron Hagherty). Por dever de ofício, Cagney  e outros artistas da Warner (Virginia Mayo, Ruth Roman, Doris Day, Gordon MacRae etc.) apresentam-se neste musical insignificante e cansativo.

Em Sangue Por Glória, durante a Primeira Guerra Mundial na França, o Capitão Flagg (James Cagney) e o Sargento Quirt (Dan Dailey) comandam a tropa que vai para as trincheiras e, nas horas de folga, brigam pela francesinha Charmaine (Corinne Calvert). Esta refilmagem technicolorida da peça de Maxwell Anderson e Laurence Stallings, realizada por um John Ford desanimado, é inferior à primeira versão de Raoul Walsh, realizada em 1926. Apesar dos esforços de Cagney e Dailey, ambos perdem na comparação com Victor MacLaglen e Edmund Lowe.

Em Um Leão Está Nas Ruas, Cagney é Hank Martin, um vendedor ambulante que se fixa em uma cidadezinha do Sul dos EUA, casa-se com uma professora (Barbara Bates) e é romanticamente assediado por uma jovem (Anne Francis). Depois, defende a causa dos pequenos fazendeiros, descobre que tem queda para a política, candidata-se a governador e se corrompe. O argumento é incoerente mas Cagney compõe bem o tipo do político demagogo enquanto o diretor Raoul Walsh se encarrega de manter a tensão dramática e o fotógrafo Harry Stradling dá uma aula de fotografia.

Como Um Leão Está Nas Ruas foi o último filme feito pela Cagney Productions e o contrato com a Warner havia chegado ao fim, os Cagney tiveram várias opções diante de si. William estava cansado de ser um produtor e voltou a ser o gerente dos negócios de seu irmão. Ele acertou com a Paramount a participação de Cagney em Fora Das Grades / Run For Cover / 1955 (Dir: Nicholas Ray) e assim o ator voltou ao western, desta vez, psicológico. Saindo da prisão, depois de ter sido condenado injustamente, Matt Dow (James Cagney) vai para o Oeste e faz amizade com um rapaz, Davey (John Derek). Os dois são envolvidos inocentemente em um roubo de trem e perseguidos pela lei. Ferido, Davey fica  aleijado, sendo levado para uma fazenda, onde Helga (Viveca Lindfors) cuida dele e se apaixona por Matt. Este torna-se xerife e nomeia Davey seu assistente; mas o rapaz trai Matt, unindo-se aos bandidos locais.

Cagney declarou que ele e Nicholas Ray incutiram alguns toques engenhosos no filme, mas  os responsáveis pela produção não gostavam de idéias novas e mandaram cortar  as novidades. Todavia, estão presentes os temas de conflito de gerações e injustiça social, recorrentes  na obra do diretor.

Os filmes restantes de Gagney nos anos cinquenta  – Ama-me Ou Esquece-me / Love Me Or Leave Me / 1955 (Dir: Charles Vidor), Mister Roberts / Mister Roberts / 1955 (Dir: John Ford, Mervyn LeRoy), Um Coringa  E  Sete Ases / The Seven Little Foys / 1955 (Dir: Melville Shavelson), Honra A Um Homem Mau / Tribute To A Bad Man / 1956 (Dir: Robert Wise), Passado Perdido / Those Wilder Years / 1956 (Dir: Roy Rowland), O Homem Das Mil Caras / Man Of A Thousand Faces / 1957 (Dir: Joseph Pevney), O Rei Da Zona / Never Steel Anything Small / 1958 (Dir: Charles Lederer), De Mãos Dadas Com O Inferno / Shake Hands With The Devil / 1959 (Dir: Michael Anderson) – são de qualidade artística variável, destacando-se  Ama-me Ou Esquece-me, Mister Roberts, Tributo A Um Homem Mau e O Homem Das Mil Caras. Antes de participar dos dois últimos, ele se ofereceu ao amigo A. C. Lyles, produtor da Paramount, para dirigir Atalho para o Inferno / Short Cut to Hell / 1957, refilmagem de Alma Torturada / This Gun for Hire / 1942.

Ama-me Ou Esquece-me é a cinebiografia da cantora Ruth Etting, interpretada com surpreendente eficácia por Doris Day. O entrecho de Daniel Fuchs, premiado com o Oscar,  evolui nos anos vinte quando Ruth Etting, protegida do gângster Marty “The Gimp” Snyder (James Cagney) se apaixona por um jovem compositor (Cameron Mitchell) com consequências trágicas. Como o gângster aleijado, amargo e patético, papel rejeitado por Spencer Tracy, Cagney brilhou intensamente e foi recompensado com uma terceira indicação para o premio da Academia, perdendo para Ernest Borgnine pelo seu trabalho em Marty / Marty / 1955).

Em Mister Roberts, o primeiro oficial J. G. Roberts (Henry Fonda) anseia por entrar em combate e serve de mediador entre o capitão lunático e autoritário (James Cagney) e a tripulação entediada de um cargueiro de abastecimento durante a Segunda Guerra Mundial. William Powell faz sua última aparição na tela, como um médico filósofo e Jack Lemmon teve sua interpretação consagrada por um Oscar como o irreprimível guarda marinha Pulver.

Henry Fonda discutiu com John Ford e, certa vez, agrediu-o fisicamente. Este incidente, mantido em segredo, ocasionou a saída do diretor, que foi substituido por Mervyn LeRoy. Cagney injetou mais humor no papel do que havia na peça que deu origem ao filme e, sem dúvida, retornou à comédia com grande classe como o capitão excêntrico.

Em Um Coringa E Sete Ases, Cagney personifica novamente George M. Cohan  como convidado especial em uma cena breve, sapateando ao lado de Bob Hope, que interpreta outro ator do vaudeville, Eddie Foy.

Em Honra A Um Homem Mau, Cagney é o rancheiro Jeremy Rodock, que abriga em seus domínios um jovem da Pennsylvânia, Steve Miller (Don Dubbins). Steve busca a afeição de Jocasta (Irene Papas), protegida de Rodock, mas percebe que é a este que ela realmente ama. Substituindo Spencer Tracy, Cagney dá vida ao papel e torna o drama convincente, valorizado ainda pela fotografia de Robert Surtees e música de Miklos Rosza.

Em Passado Perdido, Cagney é o industrial Steve Bradford, agora na meia-idade, que volta à sua cidade natal para encontrar o filho  ilegítimo, que havia deixado em um orfanato vinte anos atrás. Logo ele entra em conflito com a diretora atual da instituição (Barbara Stanwyck), que quer impedí-lo de burlar as leis de adoção e possivelmente arruinar a vida do seu filho agora adulto. Cagney e Barbara Stanwyck apenas atuam como bons profissionais neste drama sentimental artísticamente singelo.

O Homem Das Mil Caras é a cinebiografia de Lon Chaney, o grande astro do cinema mudo. Alguns fatos reais foram alterados para fins dramáticos, mas o filme tem dignidade e a interpretação de Cagney é excelente – embora não tivesse a menor semelhança física com o biografado -, servido pelas esplêndidas maquilagens de Bud Westmore e Jack Kevan.


Em O Rei da Zona, Jack MacIllaney (James Cagney), quer ser eleito presidente de um poderoso sindicato dos estivadores e, para isso, comete toda sorte de corrupção. Jack faz amizade com um jovem advogado, Dan (Roger Smith) e se apaixona pela esposa dele, Linda (Shirley Jones). A maior parte do filme consiste nas tentativas de Jack para separar o casal e conquistar Linda; a outra metade, consiste nas chicanas de Jack para fraudar as eleições no sindicato, chegando até ao roubo. Infelizmente Cagney aceitou fazer este drama musical (e amoral) sobre questões trabalhistas com roteiro, direção e canções de segunda classe.

Em De Mãos dadas Com O Inferno, em Dublin, 1912, um americano descendente de irlandeses Kerry O’ Shea (Don Murray) ingressa na rebelião contra a Inglaterra, instigado pelo professor de medicina Sean Lenihan, líder secreto do IRA (James Cagney). Filmada em locação, a narrativa é interessante – embora por vezes um tanto pesada -, reproduz bem o caos perturbador da época e Cagney tem mais uma interpretação vulcânica como o mestre feroz, que adere à revolta pelo prazer da violência,

Nos anos sessenta, Cagney encerrou temporariamente sua carreira no cinema com O Amanhecer da Glória / The Gallant Hours / 1960 (Dir: Robert Montgomery) e Cupido Não Tem Bandeira / One, Two, Three / 1961 (Dir: Billy Wulder). No primeiro filme, sob a direção de seu grande amigo Robert Montgomery, em uma narrativa em geral morosa, Cagney traça com firmeza a figura do Almirante Halsey, que assumiu o comando das Forças Navais Americanas ao Sul do Pacífico e esmagou os japoneses em Guadalcanal. No segundo filme, em hilariante composição sob as ordens de Billy Wilder, ele assume as feições de C.P. MacNamara, representante da Coca-Cola na Alemanha às voltas com o casamento de sua filha (Pamela Tiffin) com um comunista (Horst Buchholz) do setor soviético de Berlim

Cagney era muito admirado pelos seus colegas, dos diretores aos operários cênicos. Em 1974, ele se tornou o primeiro ator a receber o Life Achievement Award do American Film Institute, um prêmio só concedido àqueles artistas “cujo trabalho passou pelo teste do tempo”.

Após vinte anos afastado da tela e ter recusado o papel de Doolittle em Minha Bela Dama / My Fair Lady / 1964, Cagney voltou à tela aos 83 anos de idade como o chefe de polícia  Rheinlander Waldo, em um episódio de Na Época do Ragtime / Ragtime / 1981 (Dir: Milos Forman), que não estava no romance de E. L. Doctorow, no qual o filme se baseou. O relato compõe-se de várias tramas paralelas, principalmente a história fictícia de Coalhouse Walker, Jr. (Howard E. Rollins), pianista negro que, após sofrer humilhações e ter seus direitos negados pela polícia, decide fazer justiça pelas próprias mãos e a história verídica de Evelyn Nesbitt (Elizabeth McGovern), dançarina célebre do começo do século, cujo marido milionário Harry K. Thaw (Robert Joy) assassinou seu antigo amante, o arquiteto Stanford White (Norman Mailer). O delegado de polícia de Nova York que Forman pediu para Cagney interpretar, realmente existiu. Cagney leu o script e, apesar de ser um pequeno papel,  aceitou. Forman declarou: “Eu o deixaria fazer até o papel de Evelyn Nesbitt, se ele quisesse”.

Em 1987, depois da morte de Cagney, Ralph Bellamy escreveu um artigo no Reader’s Digest intitulado “Jimmy Cagney Inesquecível”, relembrando um acontecimento singular na vida do ator, ocorrido em 1982, por ocasião do espetáculo “Night of 100 Stars”. Foram estas as palavras de Bellamy: “Cagney, já velho e doente, ficou aguardando durante muito tempo em um quarto abaixo do palco do Radio City Music Hall em Nova York enquanto transcorria o espetáculo. O público estava impaciente. De repente abriu-se um alçapão e aquele homem idoso foi trazido até o nível do palco, sozinho, sob a luz dos refletores. Nada de dança, nenhum discurso, apenas um homem sentado em uma cadeira. Mas ele era Jimmy Cagney. A platéia se levantou, aplaudindo, aclamando. Os olhos de Jim ficaram trêmulos com a surpresa, e se encheram de lágrimas, à medida em que a ovação aumentava. Ele estava afastado dos olhos dos espectadores por mais de duas décadas, mas ficou claro, naquela noite de 1982, que ele nunca esteve ausente no coração do público”.