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WILLIAM WYLER

Ele foi o diretor mais premiado de Hollywood, com doze indicações ao Oscar de Melhor Diretor, tendo arrebatado por três vezes a estatueta nesta categoria. Consumado perfeccionista, fez filmes em variados gêneros por um longo período de tempo (de 1925 a 1970), mas a falta de pretensão de autoria e ausência de um estilo bem definido, contribuíram para sua fama de excelente artesão a serviço de um produto. Era no entanto um verdadeiro artista, que abordou grandes temas com notável consciência cinematográfica, deixando uma obra artisticamente uniforme, raramente igualada por qualquer outro cineasta.

Wiliam Wyler

William Wyler (1902 – 1981) nasceu com o prenome de Willi, em Mulhouse, Alsácia (então parte do Império Germânico), filho de Leopold Wyler e Melanie Auerbach. Seu pai era um vendedor ambulante, que se tornou próspero dono de armarinho. Wyler estudou no Institut Bloch em Lausanne e depois em um internato chamado “The Monastery”, tendo sido expulso de ambos por mau comportamento. Cinco meses após ter se matriculado na École Supérieure de Commerce, deixou a escola sem completar seus estudos. Ele voltou para Mulhouse e, para desfazer sua reputação de rapaz mau comportado, ficou algum tempo trabalhando com o pai. Percebendo que seu filho não era mau vendedor e necessitava de um treinamento em uma loja de departamentos, Leopold levou-o para Paris e o introduziu no circuito do atacado. Após três meses de aprendizado em um estabelecimento de varejo em Charenton-le-Pont e depois em uma rede de lojas denominada “100,000 Shirts” perto de Les Halles, Melanie percebeu que seu filho não estava mesmo interessado no negócio de armarinho e pediu ao primo Carl Laemmle um emprego para ele no estúdio da Universal, do qual era dono.

Wyler iniciou suas atividades no escritório da Universal Film Manufacturing Company em Nova York como encarregado da expedição e, depois de passar pelo departamento  de publicidade, pediu ao tio Laemmle para ser transferido para a Universal City na Califórnia. No estúdio californiano ele começou como moço de recados e, depois de ter segurado um megafone pela primeira vez durante a filmagem de O Corcunda de Notre Dame / The Hunchback of Notre Dame / 1923, ajudando dois assistentes de direção a controlar a multidão de figurantes, foi promovido a segundo assistente de direção. Nesta função, trabalhou para Irving Cummings em Na Senda do Crime / Fool´s Highway / 1924 e Rosa de Paris / The Rose of Paris / 1924 e para King Baggot em Nobreza de Sangue / The Gaiety Girl / 1924.

Depois de servir como auxiliar do ator-diretor William Duncan no seriado Lobos do Norte / Wolves of the North / 1924 e como primeiro assistente de alguns diretores (v. g. William Craft, William Crinley, Arthur Rosson), Wyler tornou-se, aos 23 anos de idade, o diretor mais jovem da Universal ao filmar Crook Buster / 1925, o primeiro western de dois rolos da série Mustang. Depois de dirigir outros seis westerns Mustang em 1926 (The Gunless Badman, Ridin’ for Love, The Fire Barrier, Don´t Shoot, The Pinnacle Rider, Martin of the Mounted) e, em um breve período em que ficou desempregado, ter prestado serviço como um dos sessenta assistentes extras na filmagem de Ben–Hur / Ben-Hur / 1925 na MGM, Willi foi  readmitido, e fez mais 14 Mustang: 1927 – The Two Fister, Kelcy Gets His Man, Tenderfoot Courage, The Silent Partner, Galloping Justice, The Haunted Homestead, The Lone Star, The Ore Raiders, The Home Trail, Gun Justice, The Phantom Outlaw, The Square Shooter, The Horse Trader, Daze of the West. Os westerns Mustang foram estrelados por cowboys como Jack Mower, Edmund Cobb ou Fred Gilman.

Wyler dirigiu ainda 6 westerns de cinco rolos da série Blue Streak: 1926 – Um Preguiçoso de Mérito / Lazy Lightning, A Fazenda Roubada / The Stolen Ranch. 1927 – Lá no Oeste / Blazing Days, O Remido / Hard Fists, Cavalheirismo da Fronteira / The Border Cavalier, Reto como o Dever / Straight Shootin’ e dois outros westerns avulsos: 1927 – Pó do Deserto / Desert Dust. 1928 – A Prova da Coragem / Thunder Riders, estrelados por cowboys como Art Acord, Fred Humes, Ted Wells. Ainda na década de vinte, dirigiu três filmes que não eram westerns: 1928 – À Caça de um Marido / Anybody Here Seen Kelly? (com Bessie Love, Tom Moore). 1929 – O Trapaceiro / The Shakedown (com James Murray, Barbara Kent) Cilada Amorosa / The Love Trap (com Laura La Plante, Neil Hamilton).

Cena de Os Três Padrinhos

Após certa hesitação, mas diante da comprovada capacidade profissional de Wyler, Carl Laemmle Junior designou-o para dirigir Os Três Padrinhos / Hell´s Heroes / 1930, a primeira versão sonora do romance “Three Godfathers” de Peter B. Kyne, tantas vezes levado à tela. No enredo três bandidos, Bob Sangster (Charles Bickford), Barbwire Gibbons (Raymond Hatton) e Wild Bill Kearney (Fred Kohler) encontram uma mulher moribunda no deserto e lhe prometem levar seu bebê para New Jerusalem, onde haviam assaltado um banco. No percurso, Wild Bill morre em virtude dos ferimentos recebidos durante o roubo. Kearney perece de sede e Bob bebe água de uma fonte envenenada, a fim de ganhar força para entregar a criança sã e salva na igreja da cidade. O diretor soube produzir belos efeitos de composição na paisagem desértica e criar uma cena original: um dos bandidos batiza o bebê jogando areia nos seus pezinhos, pois a água de cantil não podia ser desperdiçada. Foi uma boa estréia no cinema falado.

Até meados dos anos 30 Wyler fez mais 7 filmes para a Universal: 1930 – A Invernada / The Storm (drama com Lupe Velez, Paul Cavanagh, Tom Moore). 1931 – A Casa da Discórdia / A House Divided (melodrama com Walter Huston, Douglass Montgomery, Helen Chandler). 1932 – Cadetes de Honra / Tom Brown of Culver (drama com Tom Brown, H. B. Warner, Richard Cromwell). 1933 – O Piloto de Água Doce / Her First Mate (comédia com Slim Summerville, ZaSu Pitts, Una Merkel), O Conselheiro / Counsellor at Law (drama com John Barrymore, Bebe Daniels, Doris Kenyon). 1934 – Fascinação / Glamour (drama com Paul Lukas, Constance Cummings, Philip Reed). 1935 – A Boa Fada / The Good Fairy (comédia romântica com Margaret Sullavan, Herbert Marshall, Frank Morgan e um para a Twentieth Century-Fox: 1935 – Sua Alteza, o Garçom / The Gay Deception (comédia romântica com Francis Lederer, Frances Dee, Benita Hume). Destaco sempre os melhores em granito, deixando bem claro que isto não quer dizer que os demais filmes sejam ruins.

Bebe Daniels e John Barrymore em O Conselheiro

O Conselheiro é uma adaptação da peça de Elmer Rice sobre George Simon (John Barrymore) um advogado judeu de Nova York, que começa a questionar sua ascensão da pobreza ao sucesso, quando descobre a infidelidade da esposa, Cora (Doris Kenyon), chegando quase ao suicídio, do qual é salvo por sua secretária Regina “Rexie” Gordon (Bebe Daniels), apaixonada por ele. Wyler consegue imprimir um ritmo incessante ao texto teatral e Barrymore faz uma caracterização perfeita do personagem.

Em The Good Fairy Wyler transmite  com esmero o charme do conto de fadas de Ferenc Molnar, cujos diálogos e personagens Preston Sturges remodelou à sua maneira. Luisa Ginglebush (Margaret Sullivan), criada em um orfanato, torna-se lanterninha de um cinema em Budapest. Nesta função conhece Detlaff (Reginald Owen), garçom simpático, que a leva para conhecer o meio da alta sociedade onde trabalha. Neste ambiente ela é cortejada pelo milionário Konrad (Frank Morgan). Para se esquivar de seu assédio, diz que é casada, e quando Konrad, armando um plano para conquistá-la, quer saber quem ele é, para lhe dar um bom emprego, Louise seleciona em um catálogo de telefone um nome qualquer, para ser seu esposo. O escolhido é o Dr. Max Sporum (Herbert Marshall), advogado pobre, mas honesto. Luisa então vê a oportunidade de, tal como prometera à diretora do orfanato, fazer o Bem para os outros, mantendo sua pureza. O advogado obviamente vai gostar da moça e vice-versa, e tudo acaba bem.

Em 19 de setembro de 1935 Wyler assinou um contrato com Samuel Goldwyn que lhe permitia aceitar projetos de outras companhias. Até o fim da década de 30 realizou 5 filmes para Goldwyn: 1936 – Infâmia / These Three (drama com Merle Oberon, Miriam Hopkins, Joel McCrea, Bonita Granville), Fogo de Outono / Dodsworth (drama com Walter Huston, Ruth Chatterton, Mary Astor). 1937 – Beco Sem Saída / Dead End (drama social com Sylvia Sidney, Humphrey Bogart, Joel McCrea). 1939 – O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights (melodrama romântico com Laurence Olivier, Merle Oberon, David Niven, Geraldine Fitzgerald) e 1 filme para a Warner Bros.: 1938 – Jezebel / Jezebel (drama romântico com Bette Davis, Henry Fonda, George Brent). Em 1936 Wyler co-dirigiu Meu Filho é Meu Rival / Come and Get It com Howard Hawks, porém nunca o considerou como um de seus filmes.

Ruth Chatterton e Walter Huston em Fogo de Outono

Fogo de Outono é uma adaptação por Sidney Howard do romance de Sinclair Lewis sobre problemas conjugais na meia-idade, retratando simultaneamente a mentalidade da classe média do interior dos Estados Unidos entre as duas guerras mundiais. Em uma viagem à Europa, o industrial aposentado Sam Dodsworth (Walter Huston) descobre como a esposa Fran (Ruth Chatterton) é fútil e vazia, entendendo-se melhor com outra mulher, Edith Cartwright (Mary Astor), mais preparada para ser uma boa companheira. O filme concorreu ao Oscar em sete categorias (Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro, Direção de Arte, Som), conquistando o de Melhor Direção de Arte para Richard Day, e é uma verdadeira aula de narração cinematográfica, lecionada por rigoroso perfeccionista.

Merle Oberon e Laurence Olivier em O Morro dos  Ventos Uivantes

Na realização de O Morro dos Ventos Uivantes, os roteiristas Ben Hecht e Charles MacArthur simplificaram o romance gótico e sombrio de Emily Bronte, e Wyler tratou-o com sólido profissionalismo. Heathcliff (Laurence Olivier), órfão cigano criado por um  fidalgo de Yorkshire, cresceu junto com a filha deste, Cathy (Merle Oberon). Eles se amam desde a infância, mas a desigualdade de suas condições sociais os separa e ela se casa com um rico proprietário de terras, Edgar Linton (David Niven). Anos depois, Heathcliff retorna, transformado em gentil-homem, e ainda apaixonado por Cathy, mas é tarde demais. Neste clássico do romantismo vitoriano os elementos da natureza se alternam com o sobrenatural. A voz de fantasma de Cathy se mistura com o vento para chamar Heathcliff. O filme recebeu oito indicações para o Oscar – Melhor Filme, Direção, Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro, Fotografia preto-e-branco, Música Original, Direção de Arte – saindo vitorioso apenas o fotógrafo Gregg Toland.

Bette Davis e Henry Fonda em Jezebel

Na Warner, Wyler dirigiu magnificamente Jezebel, com uma heroína sulista de caráter semelhante ao de Scarlet O´Hara, e proporcionou a Bette o seu segundo Oscar. Vestida com belos figurinos de Orry-Kelly e fotografada por Ernest Haller, seu cameraman favorito, ela teve um desempenho notável, destacando-se a cena do baile, quando a protagonista, Julie Marsden, surge de vermelho em contraste com os trajes brancos tradicionalmente usados por todas as jovens solteiras da cidade. Houve cinco indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz, Atriz Coadjuvante, Fotografia, Música Adaptada. Bette Davis e Fay Bainter conquistaram a a estatueta da Academia respectivamente como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.

Wyler e Margaret Sullavan

Em 25 de novembro de 1934 Wyler casou-se com a atriz Margaret Sullavan, da qual se divorciou em 1936. Em 23 de outubro de 1938 ele contraiu matrimônio com outra atriz, muito menos famosa que Sullavan, Margaret Tallichet, e permaneceram juntos até o falecimento dele. O papel mais conhecido de Tallichet foi em O Homem de Olhos Esbugalhados / Stranger on the Third Floor / 1941 ao lado de Peter Lorre e John McGuire.

Margaret Tallichet e Wyler

Nos anos 40 Wyler realizou mais 3 filmes para Samuel Goldwyn: 1940 – O Galante Aventureiro / The Westerner (western com Gary Cooper, Walter Brennan, Doris Davenport). 1941 – Pérfida / The Little Foxes. (drama com Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson, Gale Sondergaard). 1946 – Os Melhores Anos de Nossa Vida / The Best Years of Our Lives; (drama de pós guerra com Fredric March, Myrna Loy, Dana Andrews, Teresa Wright, Virginia Mayo, Cathy O´Donnell, Harold Russell); 1 para a Warner Bros. / First National: 1940 – A Carta / The Letter; (drama criminal com Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson). 1 para a MGM: 1942 – Rosa de Esperança / Mrs. Miniver (drama de guerra com Greer Garson, Walter Pidgeon); 1 para a Paramount: 1949 – Tarde Demais / The Heiress (drama psicológico com Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins) e dois documentários:  1944 – Por Céus Inimigos / The Memphis Belle, A Story of a Flying Fortress para a 8th Air Force Photographic Section em cooperação com a Army Air Forces First Motion Picture Unit., distribuído pela Paramount 1947 – Thunderbolt para A U.S. Air Force e Carl Krueger Productions, terminado somente após o armstício e distribuído pela Monogram. Foi durante a filmagem deste último documentário (sobre o bombardeiro B-25), que Wyler perdeu parte de sua audição, por causa ao ruído dos motores e o som alto do vento com a janela aberta do aparelho.

Walter Brennan e Gary Cooper em O Galante Aventureiro

Em O Galante Aventureiro, preso por um roubo de cavalo que não cometeu, Cole Hardin (Gary Cooper) é condenado pelo juiz Roy Bean (Walter Brennan), mas consegue escapar do enforcamento, prometendo-lhe trazer uma mecha dos cabelos de sua atriz idolatrada, Lily Langtry. Logo depois, Hardin se alia a um grupo de fazendeiros que estão sendo expulsos de suas terras por ordem do juiz. Após várias complicações – estouro de boiada, incêndio nas plantações e das casas dos colonos e uma briga formidável -, dá-se o confronto final entre o vaqueiro e o excêntrico magistrado, em um clímax que se tornou famoso. Bean, sozinho no teatro, esperando a performance de Lily Langtry e a cortina subindo, para revelar a presença de Hardin de arma em punho no palco. O filme recebeu três indicações ao Oscar: Melhor Ator Coadjuvante, História Original e Direção de Arte. Wyler dirigiu com o empenho fílmico de sempre e Walter Brennan ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Herbert Marshall e Bette Davis em Pérfida

Baseado na peça de Lillian Hellman, Pérfida, passado em uma pequena cidade da Louisiana em 1900 – gira em torno dos Hubbard, uma família voraz. Necessitando de 75 mil dólares para construir uma fábrica de tecidos de algodão, Ben (Charles Dingle) e Oscar (Carl Benton Reid) Hubbard planejam, com sua irmã Regina (Bette Davis), fazer com que o marido dela, o banqueiro Horace Giddens (Herbert Marshall), se disponha a investir no empreendimento. Quando Horace recusa o pedido de dinheiro, Regina é tomada por uma raiva violenta e revela a Horace que nunca o amou. A direção de Wyler é impecável. Na sequência mais famosa, diante de uma câmera absolutamente  imóvel, Regina, sentada  em primeiro plano de frente para a objetiva, percebe que no fundo do quadro Horace está sofrendo um ataque cardíaco, e se recusa deliberadamente a socorrê-lo,  aguardando friamente sua morte. O filme proporcionou oito indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Direção de Arte preto-e-branco, Música de filme dramático, Montagem.

Harold Russell, Dana Andrews e Fredric March em Os Melhores Anos de Nossa Vida

Gregg Toland e Wyler na filmagem de Os Melhores Anos de Nossa Vida

Os Melhores Anos de Nossa Vida sobressai pela humanidade e realismo de seu tema e pela quantidade de prêmios da Academia que proporcionou. Em 1945 três soldados americanos desmobilizados após o fim da 2ª Guerra Mundial – Al (Fredric March), sargento da infantaria, Fred (Dana Andrews), capitão da aviação e Homer (Harold Russell), um marujo mutilado  -, se conhecem na viagem de volta para a sua cidade natal. Como vai se passar o retorno à vida pessoal e social? Wyler narra com delicadeza e Inteligência os acontecimentos, utilizando – com a ajuda de Gregg Toland – primorosamente a profundidade de campo e e coordena com autoridade uma equipe de atores e técnicos bem afinados. Os prêmios da Academia foram sete: Melhor Filme, Direção, Ator (Fredric March), Ator Coadjuvante (Harold Russell), Roteiro Adaptado (Robert E. Sherwood), Música de filme não musical (Hugo Friedhofer), Montagem (Daniel Mandell).

Bette Davis em A Carta

Dirigido solidamente por Wyler, A Carta, baseada em uma peça de Somerset Maugham, tem uma trama de adultério, assassinato e vingança, que prende a atenção do espectador do início ao fim do filme. Leslie Crosbie (Bette Davis), esposa de Robert Crosbie (Herbert Marshall), administrador de um seringal na Malásia, mata a sangue frio seu amante e alega legítima defesa da honra. Graças a uma manobra de seu advogado (James Stephenson) é absolvida, mas não consegue esquecer o homem que assassinou, e vai ao encontro da morte, que lhe reserva a viúva eurasiana (Gale Sondergaard) do morto. A sequência inicial sem uma única palavra ou um único corte introduz o clima, o cenário e a personagem principal, tornando-se digna de uma antologia. A produção foi honrada com sete indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção, Atriz, Ator Coadjuvante, Fotografia preto-e-branco, Montagem, Música (partitura original).

Greer Garson e Walter Pidgeon em Rosa de Esperança

Mrs. Miniver mostra uma família inglêsa da classe média, que enfrenta estoicamente o ataque alemão durante a Segunda Guerra Mundial. A certa altura da narrativa, Kay Miniver (Greer Garson), na ausência de seu marido Clem (Walter Pidgeon), que está em seu pequeno bote participando da evacuação de Dunquerque, lida calmamente com um nazista fanático, piloto de um avião da Luftwaffe, que ela encontra no seu jardim. Após um bombardeio, no qual várias pessoas – inclusive Carol (Teresa Wright) a nora de – são mortas, a congregação se reúne na sua igreja danificada e ouve o vigário proferir um sermão, afirmando que a guerra é agora “a guerra do povo”. Wyler coordenou com sensibilidade esta produção, proporcionando-lhe doze indicações ao Oscar, conquistando seis estatuetas da Academia: Melhor Filme, Direção, Atriz (Greer Garson), Atriz Coadjuvante (Teresa Wright), Fotografia preto-e-branco (Joseph Ruttenberg), Roteiro (Arthur Wimperis, George Froeschel, James Hilton, Claudine West).

Montgomery Clift, Olivia de Havilland e Ralph Richardson em Tarde Demais

Inspirado em uma peça sugerida pela novela “Washington Square” de Henry James, Tarde Demais conta a história de Catherine (Olivia de Havilland), jovem tímida e feia, menosprezada pelo pai, Dr. Sloper (Ralph Richardson, e cortejada por um caça-dotes, Morris Townsend (Montgomery Clift) que, ao descobrir os verdadeiros sentimentos de seu progenitor e do noivo, se torna dura, intransigente, vingativa. Wyler expõe o drama com esplêndido discernimento cinematográfico, mantendo o ritmo vivo e extraindo dos intérpretes o máximo de expressividade. São inesquecíveis a cena de Olivia sentada em frente de sua casa no momento em que o pai está morrendo e o final com o noivo batendo desesperadamente na porta de Olivia. A produção suscitou oito indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção, Atriz, Ator Coadjuvante, Fotografia preto e branco, Música de filme não musical, Direção de Arte preto-e-branco, Figurinos preto-e-branco. Ganharam: Olivia de Havilland (Atriz), Aaron Copland (Música), Harry Horner – John Meehan (DIreção de Arte), Edith Head – Gile Steele (Figurinos).

Na década de 50 Wyler realizou quatro filmes na Paramount: 1951- Chaga de Fogo / Detective Story (drama com Kirk Douglas, Eleanor Parker, George Mcready). 1952 – Perdição por Amor / Carrie (melodrama com Laurence Olivier, Jennifer Jones, Miriam Hopkins). 1953 – A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday (comédia romântica com Audrey Hepburn, Gregory Peck, Eddie Albert). 1955 – Horas de Desespero / The Desperate Hours (drama criminal com Fredric March, Humphrey Bogart, Arthur Kennedy, Martha Scott ); um para a Allied Artists: 1956 – Sublime Tentação / Friendly Persuasion (drama histórico com Gary Cooper, Dorothy McGuire, Anthony Perkins); um para a Anthony-Worldwide Productions: 1958 – Da Terra Nascem os Homens / The Big Country (western com  Gregory Peck, Jean Simmons, Carroll Baker, Charlton Heston, Burl Ives, Charles BIckford);  e um para a MGM: 1959 – Ben-Hur / Ben-Hur (drama histórico  com Charlton Heston,  Stephen Boyd, Jack Hawkins, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott).

Kirk Douglas e Eleonor Parker em

Chaga de Fogo conta o drama psicológico e moral de Jim McLeod (Kirk Douglas), detetive recalcado pela experiência de um pai criminoso, que se torna vítima de um ódio irracional contra todos os delinquentes, inclusive um médico sem escrúpulos (George Mcready), até que vem a saber que sua própria esposa (Eleanor Parker) recorrera justamente a ele para fazer um aborto. Quase todo o filme é passado em uma delegacia, onde tramitam os tipos habituais, salientando-se entre eles uma cleptomaníaca (Lee Grant), um facínora degenerado e histérico (Joseph Wiseman), e seu companheiro débil mental (Michael Strong). Apesar da limitação do ambiente Wyler consegue dissimular a origem teatral do filme e colher uma interpretação corretíssima de todos os atores. A produção possibilitou quatro indicações ao Oscar: Melhor Diretor, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro.

Gregory Peck, Eddie Albert e Audrey Hepburn em A Princesa e o Plebeu

Em A Princesa e o Plebeu a princesa Ann (Audrey Hepburn), durante uma viagem oficial, procura escapar da pompa e cerimônia dos protocolos diplomáticos, passeando incógnita pelas ruas de Roma. Ela trava conhecimento com um jornalista americano, Joe Bradley (Gregory Peck). Ambos escondem suas identidades ela, por motivos compreensíveis, ele, porque sente que terá um “furo” jornalístico sensacional, ajudado pelo seu fotógrafo Irving Radovich (Eddie Abert). Após passarem por divertidas aventuras, se enamoram. Porém acabam renunciando ao amor: a princesa, obedecendo aos seus deveres, retorna ao palácio e Joe, desiste de sua reportagem, e entrega gentilmente a Anne em uma conferência de imprensa, as fotos tiradas durante sua fuga. Realizado inteiramente em Roma, o filme recebe por causa disso um selo de autenticidade e se enriquece com as vistas dos monumentos mais belos da Cidade Eterna, sem deixar de mostrar a vida fervilhante do povo simples da capital italiana. Com uma direção alerta Wyler deu alegria e animação ao espetáculo. A produção mereceu dez indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção, Atriz, Ator Coadjuvante, Fotografia preto e branco, História Original, Roteiro, Montagem, Direção de Arte preto e branco, Figurino preto -e-branco. Os vencedores foram Audrey Hepburn, Ian McLellan Hunter, que era o  testa de ferro de Dalton Trumbo (História Original) e Edith Head (Figurino).

Dorothy McGuire, Anthony Perkins e Gary Cooper em Sublime Tentação

Baseado no romance de Jessamyn West, o relato de Sublime Tentação desenrola-se durante a Guerra Civil americana e conta a história de uma família de Quakers, cuja vida quieta e tranquila é abalada pelas notícias do conflito, que criam para estes apóstolos da não violência um problema de consciência. Como todos os quakers, Jess (Gary Cooper, sua esposa Eliza Birdwell (Dorothy McGuire) e o filho mais velho deles, Josh (Anthony Perkins), se recusam a participar da luta que separa o Norte do Sul, porém diante de tanta violência cometida pelos sulistas, Josh decide ingressar nas fileiras nortistas. Ele toma parte em uma batalha sangrenta e não retorna.  Seu pai então pega uma arma e vai à sua procura. Wyler conjuga com argúcia e sentimento o tema dramático com registros pitorescos ou cômicos (v. g. os incidentes com o ganso de estimação da famíia, o lance da compra do órgão e a reação de Eliza, o episódio com a  viúva Hudspeth (Marjorie Main) e suas três filhas, as corridas de charrette com o vizinho (Robert Middleton), que Dimitri Tiomkin  entafiza com inspirada partitura. A produção gerou seis indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Canção, Som e arrebatou a Palma de Ouro em Cannes.

Jennifer Jones e Laurence Olivier em Perdição por Amor

Perdição por Amor é uma adaptação do romance “Sister Carrie” de Theodore Dreiser, contando a história de um amor desesperado. Nos anos 1890, Carrie Meeber (Jennifer Jones), viaja de uma pequena cidade do Missouri para Chicago e conhece o caixeiro-viajante Charles Drouet (Eddie Albert) no trem. Quando perde seu emprego em uma fábrica de calçados, Carrie passa a viver com Drouet. Mas eis que ela se apaixona por George Hurstwood (Laurence Olivier), gerente de um grande restaurante e ele corresponde a este sentimento. Para esposar Carrie, ele se afasta de sua esposa Julia (Miriam Hopkins). Um dia, Hurstwood dá um desfalque na caixa do restaurante, é descoberto, e perde seu emprego. Quando Julia informa Carrie que seu marido não se divorciou dela, Carrie, grávida, acaba deixando seu amante. Este vai aos poucos se degradando e, enquanto Carrie progride como corista do teatro de variedades, ele morre na mais sórdida miséria. Wyler conduz habilmente o melodrama com seu estilo discreto, sobressaindo alguns lances de excelência técnica (v. g. a longa panorâmica no restaurante; a parada do trem em Englewood) e a notável interpretação de Olivier. Hal Pereira, Roland Anderson (Direção de Arte), Emil Kuti (Decoração de Interiores) e Edith Head (Figurinos) receberam o Oscar

Superespetáculo baseado no romance de Lewis Wallace, Ben-Hur descreve a amizade rompida e a rivalidade terrível entre dois amigos de infância, Judah Ben-Hur (Charlton Heston), príncipe judeu e Messala (Stephen Boyd), jovem tribuno romano bem como outros acontecimentos ocorridos no tempo do Império Romano. Wyler realizou um filme comercial artisticamente digno, conseguindo um entrosamento perfeito entre o drama íntimo e as cenas de ação, das quais a mais sensacional é a corrida de quadrigas, que contou com a inestimável colaboração de Andrew Marton, Mario Soldati e Yakima Canutt). A música é grandiosa e acompanha cada cena magistralmente. Cenários magníficos, centenas de figurantes, fotografia e nível técnico geral corretíssimo completam o quadro. A produção arrebatou onze prêmios da Academia:  Melhor Filme, Direção, Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Fotografia em cores (Robert Surtees), Música de filme não musical (MIklos Rosza), Direção de Arte (William A. Horning, Edward Carfagno), Hugh Hunt (Decoração de interiores), Efeitos Especiais (Arnold Gillespie, Robert MacDonald, Milo Ory), Montagem (Ralph E. Winters, John D. Dunning), Figurinos em Cores (Elizabeth Haffenden), Som (Departamento de som da MGM, Diretor de Som Franklin Milton).

Na fase final da carreira de Wyler suas obras – 1961 – Infâmia / The Children´s Hour / Mirisch-World Wide (drama com Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Miriam Hopkins). 1965 – O Colecionador / The Collector / Columbia (drama psicológico com Terence Stamp e Samantha Egar). 1966 – Como Roubar Um Milhão de Dólares / How To Steal a Million / Twentieth Century-Fox (comédia com Audrey Hepburn, Peter O´Toole, Eli Wallach). 1968 – Funny Girl – A Garota Genial / Funny Girl / Rastar, Columbia (cinebiografia com Barbra Streisand, Omar Shariff). 1970 – A Libertação de L. B. Jones / The Liberation of L. B. Jones / Columbia (drama com Lee J. Cobb, Roscoe Lee Brown, Anthony Zerbe, Lola Falana) -, embora realizadas com eficiência técnica, não tiveram a mesma envergadura artística de seus melhores filmes anteriores.

Terence Stamp e Samantha Egar em O Colecionador

O melhor de seus últimos filmes foi O Colecionador, baseado em um romance de John Fowles. Freddie Clegg (Terence Stamp), bancário insignificante e reprimido que coleciona  borboletas, ganha na loteria esportiva e compra uma casa  isolada em um subúrbio londrino com um porão espaçoso. Em seguida sequestra uma estudante de arte, Miranda Grey (Samantha Egar), por quem tem uma paixão doentia, na esperança de que ela o conheça melhor e acabe por amá-lo. Enfrentando um desafio inédito em sua carreira, dirigir um filme com ação concentrada em dois personagens e em um espaço cenográfico reduzido, Wyler saiu vitorioso, mostrando com vigor dramático a aventura amorosa mórbida e angustiante do casal aprisionado, concluída de forma imprevisível. A produção ocasionou três indicações ao Oscar (Melhor Atriz, Direção. Roteiro Adaptado). Terence Stamp e Samantha Egar ganharam o prêmio de Melhor Interpretação no Festival de Cannes.

A PARADA DA VIDA DE JOHN NESBITT

Um dos shorts mais interessantes que passavam antes do filme principal na programação dos Cines Metro nas décadas de 30 e 40 era A Parada da Vida / John Nesbitt Passing Parade. Nascido no Canadá, Nesbitt herdou de seu pai um báu cheio de recortes de jornais, acumulados durante uma vida inteira de viagens. Quando o jovem Nesbitt foi trabalhar no rádio nos anos 30 (começando por fazer adaptações de uma hora de Shakespeare para a estação KXL de San Francisco), ele desenvolveu um programa próprio intitulado “Headlines of the Past”, que gradualmente evoluiu para “Passing Parade”. Foi o sucesso deste programa que levou Nesbitt para a MGM,  inicialmente para narrar a mais nova série de shorts do estúdio, Um Momento Histórico / Historical Mysteries, que incluia: O Navio que Morreu / The Ship That Died (Dir: Jacques Tourneur); Bravest of the Brave (Dir: Edward L. Cahn), Face Behind the Mask (Dir: Jacques Tourneur), O Enigma de Santa Helena / Man on the Rock (Dir: Edward L. Cahn), Nostradamus / Nostradamus (Dir: David Miller); Providência Requerida / Forgotten Step (Dir: ; Salvando a Vida das Mães / That Mothers May Live (Dir: Fred Zinnemann); O Rei sem Trono / King Whitout a Crown (Dir: Jacques Tourneur); O Homem do Galpão / Man in the Barn (Dir: Jacques Tourneur); Joaquin Murietta (Dir: Fred Wilcox); Captain Kid´s Treasure (Dir: Leslie Fenton) e um “especial” A Vida lhes sorrí de Novo / They Live Again (Dir: Fred Zinnemann).

John Nesbit

Logo a popularidade de Nesbitt cresceu e lhe deram a chance de ter a sua própria série e assim nasceu A Parada da Vida, que compreendia basicamente  três tipos de temas: fatos pouco conhecidos sobre grandes homens, homens que mudaram o mundo e acontecimentos extraordinários. Havia também um tema mais geral na série: um grande amor pela América e um desejo de mostrar seus maiores atributos.

Nesbitt narrava cada short, geralmente escrevia o texto da narração e frequentemente o roteiro de seus filmes (de aproximadamente 11 minutos), mas muitas vezes os roteiros eram escritos por outros. O diretor era designado para realizar o short independentemente, para combinar com a narração. As cenas eram silenciosas e sem música, ouvindo-se apenas o narrador.

Um short da série importante e profético foi Tesouro Escondido / Forgotten Treasure / 1943, mostrando o acervo da filmoteca do Museu de Arte Moderna de Nova York e seus filmes raros por ela recuperados entre eles vários cinejornais: o dia seguinte ao terremoto de San Francisco; Presidente McKinley em 1901, um dia antes de ser assassinado; o Canal de Panamá em construção; o primeiro vôo dos irmãos Wright; e muitos outros.  A série A Parada Vida, apresentada muitas vêzes sob o som de uma canção tema da Quinta Sinfonia de Tchaikovsky, foi produzida entre 1938 e 1949 quando, por motivos ignorados, foi descontinuada. Em 1961-1966 a série foi editada para a televisão. Nesbitt faleceu em 1960, de um ataque cardíaco, aos 49 anos de idade.

RELAÇÃO DOS SHORTS DA SÉRIE A PARADA DA VIDA

1938

Singularidades / Passing Parade # 1 (Dir: Basil Wrangell) compreendendo três episódios: The Marriage Industry (história de um casamento por correspondência); Unclaimed Millions (mostrando o dinheiro que indefinitivamente nos bancos); e Autobiography of a Car (da fábrica para um monte de sucata).

1939

Novos Caminhos / New Roadways (Dir: Basil Wrangell). Vários projetos desenvolvidos nos laboratórios de pesquisa científica dos Estados Unidos que beneficiam a Humanidade (v. g. energia solar, experiências com dieta com camondongos que podem levar à cura do daltonismo).

A História de Alfred Nobel / The Story of Alfred Nobel (Dir: Joseph M. Newman). Vida e carreira de Alfred Nobel (Paul Guilfoyle), que inventou a dinamite como uma força construtiva para o Bem e verificou que ela se tornar uma arma de guerra.

A História do Dr. Jenner / The Story of Dr. Jenner (Dir: Henry K. Dunn). A história de Edward Jenner (Matthew Boulton), o naturalista e médico britânico que inventou a vacina contra a varíola.

Clara Barton – Angel of Mercy

Anjo de Caridade / Angel of Mercy (Dir: Edward L. Cahn). A história de Clarissa Harlowe “Clara” Barton (Sara Haden), fundadora da Cruz Vermelha.

O Espírito de um Povo / Yankee Doodle Goes to Town (Dir: Jacques Tourneur). Realizado pouco antes da América entrar na Segunda Guerra Mundial, este short é uma breve história dramatizada da democracia americana. Mostra como “o espírito da democracia” continua incansável desde 1766 enquanto Nathaniel Curdleface (Clem Bevans) vê o pior em tudo. Albert Russel interpeta o papel de Abraham Lincoln.

O Gigante da Noruega / The Giant of Norway (Dir: Edward L. Cahn). A história do  explorador e diplomata norueguês Fridtjof Nansen (Lumsden Hare) que devotou sua vida a ajudar os refugiados  e pessoas deslocadas após a Primeira Guerra Mundial.

A História Que Não Pode Ser Contada / The Story That Couldn’t Be Told (Dir: Joseph M. Newman). A história de John Peter Zenger (Victor Kilian), tipógrafo e jornalista de Nova York que, acusado de difamação em 1734, foi absolvido, tornando-se um símbolo da liberdade de imprensa.

Um Contra o Mundo / One Against the World (Dir: Fred Zinnemann). A história do Dr. Ephraim McDowell (Jonathan Hale), o primeiro cirurgião a fazer com sucesso uma remoção de um tumor ovariano em 1809 em Danville no Kentucky, apesar de ter sido ameaçado de linchamento pela população local.

Sentinelas Invisíveis/ Unseen Guardians (Dir: Brasil Wrangell). Focalizando “guardiões invisíveis” como o Postal Inspection Bureau, que investiga a extorsão por correspondência; os Underwriter´s Laboratories, que testam aparelhos elétricos, extintores de incêndio e grandes cofres; e aqueles que administram orfanatos, para assegurar que as crianças sob seus cuidados sejam colocadas em lares adotivos adequados.

Vitória Esquecida / Forgotten Victory (Dir: Fred Zinnemann). Tributo a Mark Alfred Carleton (Donald Douglas), botânico americano famoso por ter trazido da Rússia para os Estados Unidos uma variedade de trigo resistente à sêca.

1940

XXX Medico / Medico (Dir: Basil Wrangell). Realçando um novo sinal de socorro, XXX Medico, que permite aos médicos diagnosticar doenças à longa distância. Frederick Burton é o Capitão do Navio e Stanley Andrews o especialista de Nova York.

A Força Oculta / The Hidden Master (Dir: Sammy Lee). Três exemplos históricos de como a sorte pode ser importante na vida de uma pessoa envolvendo Robert Clive  (Peter Cushing), um dos fundadores do Império Britânico na Índia; o Dr. William Rongten (Emmett Morgan), físico e engenheiro alemão descobridor dos raios-X;  Harry Jones (Louis Jean Heydt), homem pobre acordado de noite pelo telefonema de um bêbado, que discou o número errado.

Um Caminho nas Selvas / A Way in the Wilderness (Fred Zinnemann). A história de um imigrante húngaro, Joseph Goldberger (Shepperd Strudwick), que descobriu a cura para a pelagra, doença nutricional que estava matando milhares de pessoas no sul dos Estados Unidos.

Pequenos Nadas Que São Tudo / Trifles of Importance (Dir: Basil Wrangell). Mostra como três coisas aparentemente sem importância podem afetar as pessoas. A primeira coisa é como o número 7 afeta um estudante acusado de roubos. A segunda é como os rabiscos de uma pessoa podem revelar traços de personalidade. A terceira é como certos ítens – por exemplo  lapelas – estão em ternos masculinos.

A Barão e a Rosa / The Baron and the Rose (Dir: Basil Wrangell). A história de Henry Steigel, um ferreiro em Elizabeth Furnace na Pennsylvania que, nos tempos coloniais, se tornou um vidraceiro, adquiriu terras, ganhou muito dinheiro e desperdiçou sua fortuna.  Na velhice ele alugou uma de suas propriedades para a Igreja por um aluguel a ser determinado posteriormente. Apesar de sua condição financeira, Steigel, sempre um artista, exigiu como aluguel, uma rosa vermelha, razão pela qual a igeja em Mannheim, continua pagando o aluguel desta maneira no século vinte em 1940.

A Morte da Utopia / Utopia or Death (Dir: nenhum diretor creditado). Conta a história da expedição conduzida por Harold Austin (o próprio) na Ilha de Tiburón no Golfo da Califórnia. Austin estava em busca dos Índios Seri, que se acreditava ser um povo moribundo, quando o filme foi feito. A preocupação com a sobrevivência dos Seris se revelou prematura.

Sonhos / Dreams (Dir: Felix E. Feist). O que acontece em nossa mente quando sonhamos e como isto pode afetar nossas vidas. Um dos exemplos diz respeito a um sonho de Abraham Lincoln predizendo sua morte.

American Spoken Here (Dir: Basil Wrangell). Em voz over o narrador John Nesbitt nos fala que o idioma inglês tem duas línguas: a língua padrão  e a gíria. Em reconstituições de cenas do passado, atores ilustram as origens de algumas expressões comuns enquanto o narrador as explica.

Boatos / Whispers (Dir: Basil Wrangell). Como a fofoca pode ser usada como propaganda ou arruinar a reputação de uma pessoa. O narrador John Nesbitt adverte os espectadores de que devem ser céticos a rumores, especialmente em tempo de guerra.

1941

Outras Bagatelas de Importância / More Trifles of Importance (Dir: Basil Wrangell). Uma chícara de chá e uma pequena flor provam mais uma vez como pequenas coisas podem desempenhar papéis importantes na vida.

Chama Entre Cinzas / Out of Darkness (Dir: Sammy Lee). Mostra os esforços da Alemanha e do exército alemão para fecharem o jornal  clandestino de resistência, La Libre Belgique, na Bélgica ocupada durante a Primeira Guerra Mundial e como ele voltou a surgir na Segunda Guerra Mundial.

Willie and the Mouse (Dir: George Sidney). Ratos têm cérebros, e este estudo mostra como eles, tal como acontece como os humanos, são membros da espécie espertos ou idiotas.

A Rua da Amargura / This is the Bowery (Dir: Gunther W. Fritsch). Mostra o distrito do Bowery em Nova York e algumas figuras trágicas que viveram ali. VIsitamos a Bowery Mission, onde homens recebem alimentos, roupas limpas e a oportunidade de se tornar de novo um membro útil para a sociedade.

O Último Ato / Your Last Act (Dir: Fred Zinnemann). Um olhar sobre alguns dos legados mais estranhos de todos os tempos. Entre eles,  uma mulher que deixou sua fortuna para seu animal de estimação e um assassino que garantiu que sua córnea seria doada a uma jovem cega antes de ser eletrocutado. No final, o testamento do mendigo Charles Lounsberry.

Cães e Charadas / Of Pups and Puzzles (Dir: George Sidney) Experiências com vários animais tornam possível adequar homens a vários empregos. Este short ganhou o  Oscar de Melhor Curta-Metragem de Um Rolo.

Manias / Hobbies (Dir: George Labrousse). Um olhar sobre alguns dos hobbies mais interessantes, incluindo miniaturas de estradas de ferro e de navios colocados dentro de garrafas.

Strange Testament (Dir: Sammy Lee) A história de Julian de Lallande Poydras (Edward Ashley), cujo encontro com uma jovem no carnaval de Mardi Gras teve um efeito profundo em sua vida posterior.

1942

Qual a Razão? / We Do It Because (Dir: Basil Wrangell). A origem de costumes como apertar as mãos, beijar, tirar o chapéu para damas, fazer a barba, quebrar uma garrafa de vinho no lançamento de um navio, a tradição da aliança de casamento e do véu da noiva etc.

Bandeira de Misericórdia / Flag of Mercy (Dir: Edward L. Cahn). Relançamento de Anjo de Caridade / 1939 com novo comentário para introduzir a entrada da América na Segunda Guerra Mundial após o ataque japonês a Pearl Harbor.

Enclausurada pelo Medo / The Woman in the House (Dir: Sammy Lee). Em 1901, Catherine Starr (Ann Richards) uma jovem que vive em uma pequena cidade costeira da Inglaterra, tem uma briga com seu noivo. Ele vai servir na Guerra dos Boers, e morre de malária. Catherine se culpa pela morte dele e teme que outras pessoas também a culparão. Ela não sai mais de casa durante quarenta anos. Quando os nazistas bombardeiam sua casa em setembro de 1941, ela é forçada a lidar com o mundo exterior.

Cena de O Desconhecido Misterioso

O Desconhecido Misterioso / The Incredible Stranger (Dir: Jacques Tourneur). Em  1892 em Bridgewood, um homem oriundo de Chicago (Paul Guilfoyle) se recusa a aceitar o fato de que sua esposa e um casal de filhos estão mortos, e continua a agir como se eles estivessem ainda vivos. A cidade inteira eventualmente fica sabendo porque ele se mudou para Bridgewood, porque não fala com ninguém, e o que se encontra em sua residência.

Vendetta / Vendetta (Dir: Joseph M.Newman). Dois jovens corsos fazem um juramento de sangue de que eles farão sempre tudo o que for necessário para manter a Córsega livre. Um dos meninos, que cresceu e se tornou Napoleão Bonaparte, quebra sua promessa quando anexa a Córsega à França. O amigo de infância de Napoleão, Carlo Andrea Pozzo di Borgo (Horace Mc Nally, que depois adotou o nome artístico de Stephen McNally), jura vingança.

O Alfabeto Mágico / The Magic Alphabet (Dir: Jacques Tourneur). A história do Dr. Christiaan Eijkman (Horace McNally), o físico holandês que descobriu a importância das vitaminas.

Enganos Famosos / Famous Boners (Dir: Douglas Foster). Mostra três pessoas que causaram ou foram vítimas de erros. Como um manuscrito de Thomas Carlyle sobre a Revolução Francêsa foi queimado; como um prisioneiro estúpido escapou e foi logo capturado; como um espião frustrou um plano de sabotagem etc.

O Filme Perdido / The Film That Was Lost (Dir: Sammy Lee). Os problemas da preservação de filmes nos anos 30 e 4., mostrando os esforços do MOMA que começaram em 8 de agosto de 1953.  Cenas de cinejornais antigos que foram salvos.

Francisco Madero, Herói Mexicano / Madero of Mexico (Dir: Edward L.Cahn). A vida política de Francisco Madero (Paul Guilfoyle), o homem que desencadeou a Revolução Mexicana e sacrificou sua vida pela liberdade de seu país.

1943

Quem não é Supersticioso? / Who´s Superstitious? (Dir: Superstições famosas e suas origens, inclusive a de cruzar os dedos quando está mentindo e a que diz que abrir um guarda-chuva dentro de casa dá azar. Alguns minutos são dedicados à lenda do “Navio Fantasma”.

Foi Por Isso Que Te Deixei / That´s Why I Left You (Dir: Edward L. Cahn). Um jovem escreve uma carta para sua esposa explicando os motivos pelos quais quer cair fora da “Vida de Competição” em que eles vivem.

Bagatelas que contriburm para a Vitória / Trifles That Win War (Dir: Harold Daniels). Coisas como uma garrafa vazia, uma aranha e uma pesquisa química em bolas de bilhar ditaram o destino de várias guerras.

Nem Toda História é Verdade / Don´t You Believe It (DIr: Edward L. Cahn).  Várias “verdades” históricas são falsas: Steve Brodie se jogou da Brooklyn Bridge; a vaca de Mrs. O´Leary não começou o incêndio de Chicago; Nero não tocava música enquanto Roma ardia;  e Lady Godiva nunca andou nua pelas ruas de Coventry.

Como Nascem as Cantigas de Ninar / Nursery Rhyme Mysteries (Dir: Edward L. Cahn). Origens de algumas das canções de ninar mais populares – e da própria Mamãe Ganso.

Tesouro Esquecido / Forgotten Treasure (Dir: Sammy Lee). Mais cenas de antigos cinejornais da filmoteca do  Museu de Arte Moderna de Nova York que foram preservados.

Tormenta / Storm (Dir: Paul Burnford). Como a  Agência Metereológica tenta avisar fazendeiros e homens de negócios sobre grandes tempestades que se aproximam. Embora algumas precauções possam ser tomadas para diminuir seu impacto, as tempestades têm que seguir seu curso e realmente não há muito que possamos fazer sobre elas.

A Meu Filho Por Vir / To My Unborn Son (Dir:  Um pai checoslovaco escreve para o filho que ele jamais verá, para explicar sua resistência à invasão nazista da Checoslováquia.

Este é o Amanhã / This is Tomorrow (Dir: nenhum diretor creditado). O narrador John Nesbitt discute a evolução da cidade americana começando pelas aldeias agrícolas coloniais. O desejo por “algo melhor” provocou a revolução industrial, que levou os operários a viverem em cidades apertadas e sujas perto das fábricas. A ascensão da metrópole moderna proporcionou cidades mais bonitas, mas o alvoroço e o congestionamento de carros e pessoas são indesejáveis para muitos. O futuro da América com cidades e comunidades planejadas.

1944

O Ferreiro Imortal/ The Immortal Blacksmith (Dir: Sammy Lee). A história de Thomas Davenport (Chill Wills), um fazendeiro de Vermont que, no século dezenove, inventou o motor elétrico (neste short os personagens falam seu próprio diálogo, com uma narração mínima).

A Arte de Antanho / Grandpa Called It Art (Dir: Walter Hart). Uma enquete sobre a Arte Americana desde seus tempos primitivos com obras de muitos mestres da pintura moderna.

Voltando do Nada / Return from Nowhere (Dir: Paul Burnford). O marujo de um cargueiro torpedeado,  Allan  (Don DeFore),  recobra a memória, quando um médico  (Morris Ankrum) o faz  reviver acontecimentos nos seus sonhos.

Ressurgimento do Normandie / A Lady Fights Back (Dir: (Dir: nenhum diretor  creditado). A história do transatlântico de luxo Normandie. Quando a querra irrompeu no final dos anos trinta, ele estava atracado no porto  de Nova York para não cai rn as mãos dos alemães.Logo após o ataque a Pearl Harbor, o govêrno americano  apreendeu o navio, rebatizou-o de USS Lafayette, e começou a reformá-lo para servir como transporte de tropas.  Ele sofreu um incêndio em 1942, mas após dezessete mêses, estava de novo servindo na guerra

1945

Parece Que Vai Chover / It Looks Like Rain (Dir: Paul Burnford). A importância da previsão do tempo, especialmente para fazendeiros, e o quye eles fazem para se preparar para as tormentas.

The Seesaw and the Shoes (Dir: Douglas Foster). Dois objetos que inspiraram invenções. Crianças brincando em uma gangorra inspirou o físico francês Rene Laennec a inventar o estetoscópio e um par de sapatos feitos de borracha levou Charles Goodyear (Arthur Space) a descobrir o processo de vulcanização da borracha.

The Great American Mug (Dir: Cyril Endfield). Uma visita nostálgica a uma barbearia dos anos 1890.

Caminho para a Luz / Stairway to Light (Dir: Sammy Lee). A história do Dr. Philippe Pinel (Wolgang Zilzer), o primeiro homem a tratar o insano com compaixão Este short ganhou Oscar de Melhor Curta-Metragem de Um Rolo.

People on Paper (Dir: Herbert Morgan). HIstória concisa das histórias em quadrinhos com clipes dos cartunistas e suas criações: H. H. Knerr (Katzzenjammer Kids), Bud Fisher (Mutt e Jeff), Fred Lasswell Jr. (Barney Google), Frank King (Gasoline Alley), Chester Gould (Dick Tracy), Dick Calkins (Buck Rogers), Milton Caniff (Terry and the Pirates), Chic Young (Blondie), Raeburn Van Beuren (Abbie and Slats), Ham Fisher (Joe Palooka), Hal Foster (Prince Valiant|), Harold Gray (Little Orphan Annie), Al Capp (Li’l Abner).

O Lampejo da Intuição / Golden Hunch (Dir: Dir: nenhum diretor creditado). Histórias de homens famosos que acharam uma resposta ou fizeram uma grande descoberta porque tiveram um bom palpite.

1946

Magic on a Stick (Dir: Cyril Endfield). A história do químico John Walker (Paul Langton) que  inventou o fósforo de enxofre de fricção na primeira metade século dezenove.

Our Old Car (Dir: Cyril Endfield). John Nesbitt traça sua vida (Arthur Space e Jacqueline White interpretam seus pais) e a “história” de sua   vizinhança através da sucessão de carros que seu pai possuia.

1947

A Really Important Person (Dir: Basil Wrangell).  Um menino, Billy Reilly (Dean Stockwell|) tem que escrever uma redação para a escola sobre uma pessoa reralmente importante e percebe quão importante é seu pai.

Tennis in Rhytm (Dir: nenhum diretor creditado). A campeã Alice Marble mostra como um senso de ritmo pode ajudar em um jôgo de tênis.

O Estraordinário Mr. Nordill / The Amazing Mr. Nordill (Dir: Joseph M. Newman). As façanhas do falsificador Mr. Nordill (Leon Ames).

Milagre no Milharal / Miracle in a Cornfield (Dir: nenhum diretor creditado). A história do vulcão que surgiu em um milharal em Paricutín no México.

1948

Isso é Impossível! / It Can’t Be Done (Dir: nenhum diretor creditado). Um passeio pelo Washington Hall of Fame lembra homens cujas grandes idéias foram desprezadas em sua época.

Cena de Goodbye Mrs. Turlock

Goodbye, Miss Turlock (Dir: Edward L. Cahn). Visita nostálgica à escola de uma sala e de sua dedicada professora. Este short ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Um Rolo.

Minha Cidade Natal / My Old Town (Dir: nenhum diretor creditado). A vida idílica em uma pequena cidade da América na primeira metade do século vinte.

Troféus Trágicos / Souvenirs of Death (Dir: Edward L. Cahn). A história de uma arma do campo de batalha na Alemanha ao submundo americano.

The Fabulous Fraud (Dir: Edward L. Cahn). A história de Franz Anton Mesmer (John Baragrey), um charlatão que inadvertidamente descobriu o segredo do hipnotismo.

Uma História Singela / Annie Was a Wonder (Dir: Edward L. Cahn). Uma jovem sueca, Annie Swenson (Kathleen Freeman) vai trabalhar na casa de uma família de fazendeiros americanos na virada do século dezenove para o século vinte. Este short foi indicado ao Oscar.

Pistas de Aventura / Clues to Adventure (Dir: nenhum diretor creditado). Omo três incidentes não relacionados afetaram The Bill of Rights (A Carta dos Direitos dos Edtados Unidos).

Mr. Whitney Teve Uma Idéia / Mr. Whitney Had a Notion (Dir: Gerald Mayer). O lance ousado de Eli Whitney (Lloyd Bridges) – conhecido como o inventor da descaroçadora de algodão – que introduziu a produção em massa na América.

Cidade das Crianças / City of Children (Dir: nenhum diretor creditado). A história de Mooseheart, Illinois, a casa das crianças orfãs.

Obs: Nesbitt narrou outros shorts que não fazem parte da série A Parada da Vida como, por exemplo, A Cidade e a Guerra / Main Street on the March / 1941 (Dir: Edward L Cahn) e O Boateiro / Mr. Blabbermouth / 1942 (Dir: Basil Wrangell),  filmes de propaganda de guerra).

 

 

 

 

GEORGE HURREL

Ele foi o criador do padrão para os retratos de glamour idealizados de Hollywood, ferramenta essencial da publicidade para os grandes estúdios durante a Época de Ouro do cinema americano. Sempre inovador, inventou a boom light (luz colocada acima do sujeito por meio de uma vara) e desenvolveu várias técnicas de iluminação. Seu uso típico de refletores, sombras e retoque manual nos negativos produziram retratos românticos, que se tornaram a marca registrada de seu estilo. Seu visual influente ficou conhecido como “Estilo Hurrell”.

George Hurrel

George Edward Hurrell (1904 – 1992) nasceu em Covington, Kentucky, mas foi criado em Cincinatti, despertando desde cedo interesse pela pintura. Aos dezesseis anos de idade obteve uma bolsa de estudos para o Art Institute de Chicago. Impaciente, transferiu-se logo para a Academy of Fine Arts. Após um ano e meio, abandonou a escola e arrumou emprego como colorista em um estúdio fotográfico. Intrigado pela fotografia, ele passou um ano trabalhando em vários estúdios até ser contratado pelo fotógrafo de retrato mais prestigioso de Chicago, Eugene Hutchinson. Neste seu novo ambiente de trabalho Hurrell aprendeu muito sobre a arte da fotografia, mas logo estava se tornando impaciente outra vez e resolveu deixar o estúdio. Ainda apaixonado pela pintura, resolveu passar algum tempo em uma colonia de arte em Laguna Beach na Califórnia na companhia do famoso pintor de paisagens Edgar Alwyn Payne; porém sua trégua com a fotografia durou pouco. Hurrell compreendeu que fotografias eram mais lucrativas do que suas pinturas de paisagens. Ele adquiriu equipamento profissional usado e passou os próximos dois anos fotografando artistas locais, suas pinturas e as socialites de Los Angeles, que vinham comprá-las.

Ramon Novarro

Em 1927, Hurrel mudou-se para Los Angeles onde seu Studio Number Nine no Edifício Granada lhe serviu de moradia assim como de lugar de trabalho, sendo que uma prateleira no banheiro minúsculo continha suas bandejas de revelação. Sua grande chance surgiu quando uma de suas primeiras clientes em Laguna Beach,  Florence “Pancho” Barnes, jovem aviadora da alta sociedade de San Marino, Califórnia, apresentou-o ao seu amigo Ramon Novarro, que havia ficara impressionado com as fotos nas quais ela posara para Hurrell.  Novarro posou para Hurrell, levou suas fotos para o Departamento de Publicidade da MGM, a reação foi mais do que favorável, e Hurrell começou a se projetar no meio da indústria cinematográfica.

Norma Shearer

Novarro era muito amigo de Norma Shearer (com quem ele co-estrelou O Príncipe Estudante / The Student Prince in Old Heidelberg, dirigido por Ernst Lubitsch), que estava tentando mudar sua imagem para algo mais glamoroso e sofisticado na tentativa de obter o papel título de A Divorciada / The Divorcee.  Ela adorou as fotos de Novarro e pediu a Hurrell que a fotografasse em poses mais provocantes do que aquelas nas quais os fãs estavam acostumados a vê-la na tela. Quando Norma mostrou estas fotos para seu marido, o chefe de produção da MGM Irving Thalberg, este deu o papel principal de A Divorciada para sua esposa e contratou Hurrell, para o setor de fotos do Departamento de Publicidade da MGM, então chefiado por outro retratista, Clarence Sinclair Bull.

Joan Crawford

O primeiro retrato fotográfico de Hurrell a aparecer  impresso – na edição de abril de 1930 da revista Photoplay –  foi o de Anita Page e a primeira estrela que ele fotografou foi Joan Crawford. Como  informou Mark A. Vieira no seu belíssimo livro “Hurrell´s Hollywood Portraits” (Abrams, 1997) – do qual extraímos muitas informações -, o primeiro encontro entre Hurrell e Crawford foi um choque memorável de vontades. Ele foi designado para fotografar a atriz na sua atividade principal fora da tela, fazendo tricô. Joan achou Hurrell autoritário e ele achou que as poses dela era arqueadas e artificiais.  Anos depois, relembrou: “Eu continuei dizendo a ela como posar. Finalmente Crawford ficou tão perturbada com isso que foi para seu camarim e disse,”Eu não vou mais posar”.  Dois dias depois pediu desculpas a Hurrell, dizendo: “Por favor, perdoa-me, Mr. Hurrell. Acabei de ver as provas. Elas são muito, muito encantadoras”. Assim nasceu uma colaboração histórica, concluiu Mark Vieira.

Greta Garbo

Outros grandes compromissos assumidos por Hurell no mesmo mês de abril de 1930 foram o de fotografar Lon Chaney e Greta Garbo. Vieira nos conta em detalhes como isso correu. Depois de fotografar Chaney como o personagem de Trindade Maldita / The Unholy Three, seu último filme, Hurrell quís captar o “verdadeiro” Lon Chaney também. “Hoje não. Não me sinto confortável sendo fotografado como eu mesmo”, respondeu o “Homem das Mil Caras”. Ele morreu no mesmo mês, vitimado por um câncer na garganta. Garbo não quís cooperar com o fótografo (Hurrell: “Ela simplesmente ficou sentada lá como uma estátua”). As fotos para a publicidade de Romance / Romance não foram utilizadas e Garbo e Hurrell nunca mais trabalharam juntos. Posteriormente Hurrell fotografou vários artistas como Dorothy Jordan, Johnny Mack Brown, William Haines, Marie Dressler, Constance Bennett, Ray Milland, Kay Francis, Lili Damita, Lionel Barrymore, Walter Huston, Clark Gable, Myrna Loy, Marion Davies, Madge Evans, Robert Montgomery, Madge Evans, Jean Harlow, Buster Keaton, John Gilbert, Alfred Lunt e Lynn Fontanne, Johnny Weismuller, John Barrymore, Melvyn Douglas, Karen Morley etc.

Dorothy Jordan

Clark Gable

Myrna Loy

Buster Keaton

Johnny Weissmuller

Em 1932, após desentendimentos com seus superiores  – que cuminaram quando ele foi repreendido por ter ocasionalmente fotografado, Joan Bennett, atriz contratada da Fox, fora do estúdio -, Hurrell deixou a MGM e passou a trabalhar por conta própria, abrindo um estúdio no nº8706 da avenida Sunset Boulevard.  Ele convidou Norma Shearer para uma sessão de retatos de cortesia. Depois que ela escolhesse a sua pose favorita, ele a colocaria na vitrine da loja. Norma gostou das fotos mas sugeriu a Hurrell que usasse uma pose que ele fizera para a publicidade do filme O Amor Que Não Morreu / Smilin´Thru, sua pose predileta. A visita de Norma ao estúdio de Hurrell se espalhou pelo meio cinematográfico. A Fox chamou-o novamente e ele fotografou Lupe Velez, Sally Eilers e Boots Mallory. Outros grandes estúdios (MGM, Paramount e Twentieth Century-Fox – cuja denominação hifenizada foi resultado da fusão em 1935), a United Artists ou produtores independentes (Goldwyn Studios) também solicitaram seus serviços e ele fotografou Joan Crawford, Douglas Fairbanks, Jr., Mary Pickford, Jean Harlow, Anna Sten, Paulette Goddard, Ethel Merman, Warner Baxter, Mae West, Gloria Swanson, Carole Lombard, Wallace Beery, Rosalind Russell, Miriam Hopkins, Clifton Webb, Madge Evans, Conchita Montenegro, Fay Wray, Anna May Wong, Jeanette MacDonald, Marlene Dietrich, Merle Oberon, Nelson Eddy William Powell, Simone Simon, Shirley Temple, Alice Faye, Dolores Del Rio, Loretta Young etc.

Douglas Fairbanks, Jr.

Jean Harlow

Anna May Wong

Marlene Dietrich

No verão de 1938, Robert Taplinger, chefe de publicidade da Warner Brothers-First National, ofereceu a Hurrell um contrato de dois anos como chefe do setor de fotos do estúdio. O primeiro astro que Hurrell teve que fotografar foi ele mesmo. Taplinger declarou-o uma celebridade, obrigou-o a fazer um auto-retrato e começou a divulgar histórias sobre ele tipo “Ele é um Marco em Hollywood” ou “ Confissões de um Fotógrafo de Estúdio”. Hurrel tornou-se um assunto de entrevista pitoresco e começou a receber sua própria correspondência de fãs. Na Warner ele fotografou Ann Sheridan em poses sensuais que fizeram jús ao seu apelido de “the oomph girl, George Brent, Paul Muni, John Garfield, James Cagney, Humphrey Bogart, Errol Flynn, Ida Lupino, Alexis Smith, Lauren Bacall, Olivia de Haviland, Ann Sothern, John Payne, Rosalind Russell e a maior estrela do estúdio, Bette Davis.

Ann Sheridan

Ida Lupino

Bette Davis

Como Mark Vieira contou, Taplinger decidiu que Bette, tal como as demais estrelas da Warner, deveria ser glamorizada. “Eu não quero essa coisa de glamour”, Bette disse. “Quero ser conhecida como uma atriz séria, nada mais”. Porém posar para fotos de glamour estava no seu contrato e ela não teve escolha senão aceitar. Hurrell cumprimentou-a efusivamente: “Você é a jovem mais glamorosa do cinema  e eu vou provar isso!”. “Vai devagar com o glamour, George”, ela avisou. “Eu não sou o tipo”. Hurrell ligou o fonógrafo, alto. Quando ela perguntou porque ele sempre tocava música para as pessoas que fotograva, ele respondeu: “ Não toco música para elas. Toco para mim mesmo. Tenho que me manter animado”. Em julho de 1940, após uma desavença com Jack Warner, que lhe valeu uma suspensão, Hurrell cumpriu o restante de seu contrato e, em 15 de outubro,  foi cuidar de seu novo rumo.

Jane Russell

No outono de 1941 Hurrell alugou um imóvel no nº333 da rua North Rodeo Drive em Beverly Hills, cuja proprietária chamava-se …. Greta Garbo. Foi lá que ele fez a famosa foto de Jane Russell em um celeiro  para a publicidade de O Proscrito / The Outlaw. Infelizmente, o filme teve sérios problemas com a censura e foi logo retirado de circulação – mas todo mundo ficou sabendo quem Jane Russell era.

Em meados de 1942, Robert Taplinger havia se transferido da Warner para a Columbia e convidou Hurrell para trabalhar como chefe do setor fotográfico, onde suas ajudaram a construir a carreira de Rita Hayworth. Entretanto, a maioria das suas fotografadas eram estrelinhas sem graça. Os retratos que ele fez delas eram agradáveis, mas sem vida. No final de outubro ele abriu sua correspondência e teve uma grande surpresa: havia sido convocado para a First Motion Picture Unit of the United States Army Air Force. Ele fez filmes de treinamento no estúdio de Hal Roach em Culver City e depois se tornou um fotógrafo da equipe do Pentágono.

Rita Hayworth

Quando Hurrell voltou para Hollywood nos meados dos anos cinquenta seu velho estilo de glamour caíra em desgraça. O novo estilo de glamour de Hollywood era mais grosseiro e granuloso e pela primeira vez em sua carreira seu estilo não estava mais em demanda. Ele se mudou para Nova York e trabalhou na indústria de publicidade, onde o glamour ainda era valorizado. Em 1958-1960 Hurrel formou parceria com Walt Disney, criando a Hurrell Productions com o objetivo de fazer filmes educativos e fotografou para programas de televisão, revistas de moda e anúncios impressos. Em 1969-1976 trabalhou como fotógrafo free lancer para a  publicidade de vários filmes inclusive O Planeta dos Macacos / Planet of the Apes, Butch Cassidy / Butch Cassidy and the Sundance Kid, Inferno na Torre / The Towering Inferno, Todos os Homens do Presidente / All the President´s Men. Em 1976-1980, semi-aposentado, aceitou alguns trabalhos ocasionais (entre seus clientes: Liza Minnelli, Paul Newman, Robert Redford). Após 1980, Hurrel continuou fotografando para revistas (inclusive a Vogue Paris); artistas como Farrah Fawcett, Brooks Shields, John Travolta e outros astros da Nova Hollywood; Joan Collins nua para a Playboy; e capas de discos como, por exemplo, a capa do album de Paul McCartney “Press to Play” de 1986.

Hurrel casou-se três vezes: com Katherine Cuddy, vencedora de um concurso de beleza em Seattle (1939-1942); com Phyllis Bounds, sobrinha de Walt Disney (1943-1954), com Betty Willis (1955). Ele faleceu em 17 de maio de 1992 aos 87 anos de idade, pouco depois de completar sua participação em voz over no documentário “Legends in Light”, sobre sua vida e carreira.

ATORES BRITÂNICOS NO CINEMA AMERICANO CLÁSSICO

Neste artigo, estou considerando como atores britânicos aqueles que nasceram em países do antigo Império Britânico, da Comunidade Britânica ou trabalharam no cinema britânico antes de irem para os Estados Unidos. O primeiro ator britânico a trabalhar no cinema americano foi Donald Crisp. Em 1906 ele já estava em Nova York, atuando como cantor na Grand Opera House de John C. Fisher e depois como gerente de palco para George M. Cohan. Durante esta época ele conheceu e fez amizade com David Wark Griffith, que o colocou em Through the Breakers / 1909 e em outros filmes curtos. Quando Griffith partiu para Hollywood em 1910, Crisp acompanhou-o, tornando-se seu assistente em O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation / 1915 e aparecendo neste filme como o General Ulysses S. Grant. Como ator, surgiu também em filmes de outros diretores e em 1918 destacou-se como Battling Burrows, o pai brutal de Lillian Gish em Lírio Partido / Broken Blossoms / 1919, dirigido por Griffith. Entre 1914 e 1930 Crisp dirigiu muitos filmes, destacando-se a sua co-direção com Buster Keaton em Marinheiro por Descuido / The Navigator / 1924 e a direção de Don Q, O Filho do Zorro / Don Q, Son of Zorro / 1925, estrelado por Douglas Fairbanks. Sua carreira como ator coadjuvante estendeu-se até o ano de 1963 e ele foi contemplado com um Oscar por seu desempenho em Como Era Verde o Meu Vale / How Green was My Valley / 1942.

Lillian Gish e Donald Crisp em Lírio Partido

Donald Crisp em Como Era Verde o Meu Vale

Em 1910 Stan Laurel e Charles Chaplin visitaram a América pela primeira vez com a trupe de Fred Karno, porém só em 1914, após uma segunda excursão, Chaplin fez seu primeiro filme, Carlitos Repórter / Making a Living e ficou no país até 1952; Laurel fez seu primeiro filme, Nuts in May, em 1917, formou dupla com Oliver Hardy dez anos depois, e permaneceu na Califórnia até o fim de seus dias.

Charles Chaplin em Carlitos Repórter

Stan Laurel em Nuts in May

Em 1917, enquanto filmava na Inglaterra Corações do Mundo / Hearts of the World, Griffith empregou como figurante um rapaz de dezessete anos chamado Noel Coward. Cinco anos depois, Griffith colocou Ivor Novello (que a publicidade batizou de “o Valentino Britânico”), no seu filme A Rosa Branca / The White Rose, rodado não em Hollywood, mas em Miami. Novello fez somente mais um filme americano, Duas Vidas / Once a Lady / 1931, dirigido por Guthrie McClintic.

Noel Coward em Corações do Mundo

Ivor Novello em A Rosa Branca

Herbert Bierbohm Tree e Constance Collier em Macbeth

R. Henderson -Bland em Da Manjedoura à Cruz

George Arliss em Disraeli

Victor MacLaglen em O Delator

Shelley Winters e Ronald Colman em Fatalidade

Outros atores britânicos atuaram no cinema mudo americano apenas uma vez (Sir Herbert Bierbohm Tree, como Macbeth no filme do mesmo nome produzido pela Reliance em 1916 e R. Henderson-Bland como Jesus Cristo em Da Manjedoura à Cruz / From the Manger to the Cross produzido pela Kalem em 1912; mais de uma vez no período silencioso (Alfred Paget, Charles Bryant, Wyndham Standing); uma vez no período silencioso e mais de uma vez no período falado (George Arliss, Philip Merivale, Roland Young, Eric Blore); e mais de uma vez no período silencioso e no período falado (Doris Lloyd, Lupino Lane, Billy Bevan, Marie Dressler, Jimmy Aubrey, Guy Standing, Ernest Cossart, Nigel Barrie, Peggy Hyland, Cyril Maude, Barbara Tenant, Herbert Prior, Percy Marmont, H. B. Warner, Ernest Torrence, George K. Arthur, Beatrice Lillie, Dorothy Mackaill, Constance Collier, Roland Young, C. Aubrey Smith, Clive Brook, Reginald Denny, Boris Karloff, Mary Pickford, Norma Shearer, Basil Rathbone, Douglas Fairbanks Jr., Victor MacLaglen e Ronald Colman). As canadenses Marie Dressler, Mary Pickford e Norma Shearer, Arliss, MacLaglen e Colman foram vencedores do Oscar de Melhor Ator / Atriz: Marie Dressler como a tragicômica Min em Lírio do Lodo / Min and Bill / 1930, Mary Pickford como Norma Besan, a sulista mimada em Coquete / Coquette / 1929, Norma Shearer como Jerry, a mulher envolvida com um casamento desfeito em A Divorciada / The Divorcee / 1930, Arliss como o Primeiro Ministro Disraeli em Disraeli / Disraeli / 1929; MacLaglen como Gypo Nolan em O Delator / The Informer / 1935 e Colman como o ator Anthony John, obsessivo pelos personagens que interpreta, em Fatalidade / A Double Life / 1947.

Wallace Beery e Marie Dressler em Lírio do Lôdo

Mary Pickford e seu Oscar

Norma Shearer e seu Oscar

Alguns atores britânicos trabalharam somente no cinema americano (Arthur Treacher, Alan Mowbray, Henry Travers, Bob Hope) e algumas atrizes ou atores britânicos tiveram apenas uma participação em filmes americanos clássicos (Cicely Courtneidge em The Perfect Gentleman / 1935; Elisabeth Bergner em Paris Está Chamando / Paris Calling / 1941; Jesse Mathews e Anna Neagle em Para Sempre e um Dia / Forever and a Day /1943; Ann Todd em Agonia de Amor / The Paradine Case / 1947; Tom Courtenay e John Standing em Rei de um Inferno / King Rat / 1965, Juliet Mills em Raça Brava / The Rare Breed / 1966, Michael York em Justine / Justine / 1969.

Alan Mowbray recitando Shakespeare em Paixão dos Fortes

O advento do som favoreceu os atores britânicos em Hollywood pois, além de falarem a mesma língua que os atores americanos eles, na sua maioria, possuiam uma voz perfeitamente inteligível e treinada para o palco. Foram muitos (além dos já citados, que atuaram também no cinema silencioso) os que trabalharam no cinema sonoro americano clássico: Heather Angel, Elizabeth Allan, Claude Allister, Judith Anderson, Felix Aylmer, Sara Algood, Jack Buchanan, Anthony Bushell, Freddie Bartholomew, George Brent, Claire Bloom, Nigel Bruce, Peter Bull, Dirk Bogarde, Richard Burton, Jacqueline Bisset, Colin Clive, Gladys Cooper, Violet Kemble-Cooper, Madeleine Carroll, Leo G. Carroll, Phyllis Calvert, Robert Coote, Mrs. Patrick Campbell, Roland Culver, Melville Cooper, Peggy Cummings, Peter Cushing, Julie Christie, Michael Caine, Joan Collins, Sean Connery, Robert Donat, June Duprez, Robert Douglas, Edith Evans, Jill Esmond, Barry Fitzgerald, Alec B. Francis, James Fox, Gracie Fields, Bryan Forbes, Cary Grant, Greer Garson, Edmund Gwenn, Reginald Gardiner, Alec Guiness, John Gieguld, Hugh Griffith, Leslie Howard, Cedric Hardwicke, Richard Haydn, Trevor Howard, Benita Hume, Martita Hunt, Lilian Harvey, Laurence Harvey, Miriam Jordan, Glynnis Johns, Cecil Kellaway, Gertrude Lawrence, Ida Lupino, Frank Lawton, Evelyn Laye, Elsa Lanchester, Charles Laughton, Wilfrid Lawson, Angela Lansbury, Herbert Lom, David Manners, Herbert Marshall, Miles Mander, John Mills, Roddy McDowall, James Mason, Ray Milland, Roger Moore, David Niven, Alan Napier, Robert Newton, Laurence Olivier, Merle Oberon, Una O’Connor, Reginald Owen, Edmund Purdom, Donald Pleasence, Anthony Quayle, Claude Rains, Flora Robson, Harold Russell, Herbert Rawlinson, Michael Rennie, George Sanders, Hugh Sinclair, Paul Scofield, Peter Sellers, Maggie Smith, Jessica Tandy, Terry Thomas, Elizabeth Taylor, May Whitty, Diana Wyniard, Henry Wilcoxon, Michael Wilding, Alan Webb, Alan Young.

Olivia de Havilland e seu Oscar

Joan Fontaine e seu Oscar

Talvez possamos considerar como atrizes britânicas Olivia de Havilland e Joan Fontaine, porque, embora tivessem nascido no Japão, eram filhas de pais ingleses. Ambas conquistaram o prêmio da Academia: Joan como a tpimida e milionária Lina McLaidlaw que aos poucos começa a suspeitar que seu marido pretende assassiná-la em Suspeita / Suspicion / 1941 e Olivia como a solteirona aparentemente ingênua que dá uma lição a um caça dotes em Tarde Demais / The Heiress / 1949.

Charles Laughton em Os Amores de Henrique VIII

Robert Donat em Adeus Mr. Chips

Vivien Leigh e seu Oscar por … E O Vento Levou

Greer Garson e seu Oscar

Laurence Olivier e seu Oscar

Alec Guiness em A Ponte do Rio Kwai

Elizabeth Taylor e seu Oscar

Os atores britânicos sempre fizeram bonito na noite de entrega do Oscar. Receberam estatueta da Academia, além dos já mencionados linhas atrás: Charles Laughton como o rei Henrique VIII em Os Amores de VIII / The Private Life of Henry VIII / 1933, Robert Donat como o professor em Adeus Mr. Chips / Goodbye Mr. Chips / 1939, Vivien Leigh como Scarlet O´Hara em  … E O Vento Levou / Gone With the Wind / 1939, Greer Garson como Mrs. Miniver em Rosa de Esperança / Mrs. Miniver / 1942, Barry Fitzgerald como o Padre Fitzgibbon em O Bom Pastor / Going my Way / 1944, Ray Milland como o escritor alcoólatra em Farrapo Humano / The Lost Weekend / 1945, o canadense Harold Russell como o soldado que perdeu as mãos em Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives / 1946, Edmund Gwenn como o velhinho contratado como Papai Noel numa loja de departamentos em De Ilusão Também se Vive / Miracle on 34th Street / 1947, Laurence Olivier como o Príncipe da Dinamarca em Hamlet / Hamlet / 1948,

Walter Huston em O Tesouro de Sierra Madre

o canadense Walter Huston como  velho garimpeiro em O Tesouro de Sierra Madre / The Treasure of Sierra Madre / 1948, George Sanders como o crítico de teatro em A Malvada / All About Eve / 1950, Audrey Hepburn como  a Princesa Anne em A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday / 1953, Alec Guiness como o Coronel Nicholson em A Ponte do Rio Kwai / The Bridge on the River Kwai / 1957, David Niven como o impostor Pollock que se faz passar por um ex-major em Vidas Separadas / Separate Tabes /1958  , Wendy Hiller como a  proprietária do hotelzinho onde se passa a história em Vidas Separadas, Hugh Griffith como o Xeque Ilderim  em Ben-Hur / Ben-Hur / 1959, Elizabeth Taylor como a prostituta Gloria Wandrous em Disque Butterfield 8 / Butterfield 8 / 1960 e como Martha, a fiiha do reitor da Universidade em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? / Who´s Afraid of Virginia Woolf / 1966 , Peter Ustinov como  diretor da escola de gladiadores Lentulus Batiatus em Spartacus / Spartacus / 1960 e como o vigarista envolvido com ladrões de jóias em Topkapi / Topkapi / 1964 , Margareth Rutherford como a Duquesa de Brighton em Gente Muito Importante / The V.I.P.S. / 1963, Rex Harrison como o Professor Higgins em  Minha Bela Dama / My Fair Lady / 1964 , Julie Andrews no papel título de Mary Poppins / Mary Poppins / 1964, Julie Christie como a modelo de publicidade Diana Scott em Darling, A Que Amou Demais / Darling /  1965, Paul Scofield como Sir Thomas More em O Homem Que Não Vendeu Sua Alma / A Man For All Seasons / 1966,  Maggie Smith  como a professora Joan Brodie em Primavera de uma Solteirona / The Prime of Miss Jean Brodie / 1969.

Stan Laurel e seu Oscar

Charles Chaplin e seu Oscar

Em 1961 Stan Laurel recebeu um Oscar Honorário da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas “por sua criatividade pioneira no campo da comedia cinematográfica” e em 1972 foi a vez de Charles Chaplin receber a mesma estatueta da Academia “pela incalculável influência que teve na transformação do Cinema como a Arte deste século”.

DIFICULDADES DO PESQUISADOR DE CINEMA

Entre as dificuldades para os pesquisadores de cinema quando desejam estabelecer a filmografia de um ator estão os curtas-metragens, documentários e aparições  não creditadas ou como extras.  Sem a pretensão de esgotar o assunto, relaciono alguns exemplos.

Ethel Barrymore narrou (com Maurice Evans) Dafni (Panagia Hrysodafniotissa) / 1951, documentário de 15 minutos realizado na Grécia sob direção de George Hoyningen Huene e Angelos Prokopiu e adaptado para o idioma inglês por Aldous Huxley com o título de Daphni, the Virgin of the Golden Laurels. O filme focaliza a arquitetura de uma igreja situada no local de um templo de Apolo perto de Atenas.

George Reeves, Lionel Barrymore

Lionel Barrymore apareceu em The Last Will and Testament of Tom Smith / 1943 que a Paramount produziu para o National War Fund. Dirigido por Harold Bucquet baseado em uma peça de Sephen Longstreet e fotografado por Theodor Sparkhul, Nele figuram ainda George Reeves, Walter Brennan, Barbara Britton e Walter Abel. No filme o avião do piloto americano Tom Smith (George Reeves) é abatido e ele é capturado pelos japoneses. Na prisão, aguardando execução, ele se recorda de sua vida em casa nos Estados Unidos. Houve mais de uma versão deste curta-metragem de 11 minutos, uma das quais acrescida de um prólogo, narrado por Fred Mac Murray. Lionel participou como extra em vários filmes mudos entre eles Judith of Bethulia / 1914 de D. W. Griffith.

Hollywood Victory Caravan

Humphrey Bogart e artistas contratados da Paramount (Bing Crosby, Bob Hope, Betty Hutton, Alan Ladd, Barbara Stanwyck, Olga San Juan e outros) aparecem em Hollywood Victory Caravan / 1945, curta-metragem de 20 minutos, produzido pelo Departamento do Tesouro Americano, com a finalidade de estimular a venda de bônus de guerra. Carmen Cavallaro e sua orquestra também participam. Ladd esteve também em Eyes on Hollywood / 1949, curta-metragem de 9 minutos da Paramount  e Barbara Stanwyck apareceu em um dos shorts (o décimo quarto) da série da Tiffany The Voice of Hollywood / 1930, no qual também são vistos George K. Arthur, Marie Dressler, Ruth Roland Frank Fay, Raquel Torres, Buster Keaton, Cliff Edwards, Al St. John e outros artistas. Bogart aparece, sem ser creditado, em I Am an American / 1944, curta-metragem da Warner de 16 minutos sobre um casal polonês que chega em Nova York no início de 1840 e vai para o Ohio, onde se instala e prospera. O homem perde um braço na Guerra Civil e, em cada nova guerra, morrem membros de sua família, que está sempre se expandindo. Dick Haymes, Danny Kaye, Victor Mature, Dennis Morgan, Joan Leslie também são vistos. Em Report from the Front / 1944, curta-metragem de 6 minutos produzido pelo Office of War Information (OWI) e distribuído pela Warner, Bogart e sua esposa na época, Mayo Methot, explicam aos repórteres  como os cidadãos americanos podem ajudar a Cruz Vermelha.

Gary Cooper apareceu em Lest We Forget / 1937, curta-metragem de 10 minutos produzido pela MGM e dirigido por Henry Hathaway e Richard Thorpe, prestando tributo a Will Rogers e promovendo o Will Rogers Memorial Hospital em Saranac Lake, NY. Participam também do filme: Robert Taylor, Harry Carey e Allan Jones. Cooper fez uma aparição como convidado, sem ser creditado, em Hollywood Boulevard / 1936 (cumprimentando John Halliday no bar). Ele emprestou a voz para um comentárista em Verdadeira Glória / The True Glory / 1945, documentário de 1 hora e 27 minutos sobre a invasão aliada na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, dirigido por Garson Kanin e Carol Reed e apareceu como figurante em vários filmes (v. g. Ben-Hur / Ben-Hur, a Tale of the Christ / 1925 estrelado por Ramon Novarro e O Bandido Mascarado / Dick Turpin / 1925, estrelado por Tom Mix); como um cossaco mascarado em O Águia / The Eagle / 1925 , estrelado por Rodolfo Valentino e como um repórter em O Não Sei Que das Mulheres / It /1927, estrelado por Clara Bow).

Bing Crosby em um um umbilled gag bit ao lado de Virginia Mayo e Bob Hope em A Princesa e o Pirata

Bing Crosby apareceu em comédias-musicais de curta-metragem para a Mack Sennett  Comedies – Educational (I Surrender Dear / 1931, One More Chance / 1931, Dream House / 1931, Billboard Girl / 1933, Blue of the Night / 1933, Sing Bing Sing / 1933, Please / 1933, Just an Echo / 1934), em outros curtas-metragens citados na filmografia de outros artistas (Angels of Mercy, The Road to Victory, Hollywood Victory Caravan) e em unbilled gag bits , ou seja, aparições não creditadas usadas como piadas visuais em vários filmes: Minha Loura Favorita / My Favorite Blonde / 1942; A Princesa e o Pirata / The Princess and the Pirate / 1944; Minha Morena Linda / My Favorite Brunette / 1947; Anjos e Piratas / Angels in the Outfield / 1951; O Maior Espetáculo da Terra / The Greatest Show on Earth / 1952 (ele é um espectador); O Filho do Treme Treme / Son of Paleface / 1952, Morrendo de Medo / Scared Stiff / 1953   (ele e Bob Hope são dois esqueletos); Valentão é Apelido / Alias Jesse James / 1959. Bing participou de All Star Bond Railly / 1945, documentário de 18 minutos da 20thCentury-Fox para o War Activities Committee e US Treasury Department promovendo a venda de bônus de guerra. Bob |Hope, Frank Sinatra, Betty Grable, Harpo Marx, Jeanne Crain, Linda Darnell, Harry James e sua orquestra,  e a nossa Carmen Miranda também comparecem. Encontrei ainda um curta-metragem da MGM de 10 minutos, Hollywood Handicap / 1938, dirigido por Buster Keaton, mostrando o talento vocal de um grupo musical afro-americano chamado The Original Sing Band, cuja apresentação serve de pretexto para mostrar algumas celebridades de Hollywood (v. g. Mickey Rooney, Al Jolson, Ruby Keeler, Dorothy Lamour, Edmund Lowe, Warner Baxter, Robert Montgomery, Charles Ruggles, Oliver Hardy).

Henry Fonda narrou (juntamente com Donald Crisp, Jane Darwell e Irving Pichel) A Batalha de Midway / The Battle of Midway / 1942 documentário de 18 minutos, filmado em Technicolor, dirigido por John Ford e montado por Ford e Robert Parrish. Fonda narrou também: a) It´s Everybody War / 1942, documentário de 18 minutos escrito e dirigido por Will Price; b) Benjy / 1951, documentário de 40 minutos dirigido por Fred Zinnemann com Lee Aaker (o futuro Cabo Rusty da série de televisão As Aventuras de Rin-Tin-Tin / The Adventures of Rin-Tin-Tin), Neville Brand e Helen Brown sobre um menino deficiente desde o nascimento tratado por um médico ortopedista-pediatra. O filme foi originariamente designado para ser usado como angariador de fundos para o Hospital Ortopédico de Los Angeles e embora usasse sequências dramatizadas para contar a história, concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Documentário, conquistando a estatueta; c) segmento de Pictura: An Adventure in Art / 1951 documentário de 1 hora e 20 minutos, Dir: Robert Hessens, Olga Lipska.  Prólogo: Vincent Price falando para os estudantes, dirigido por E. A. Dupont. Parte 6 – Grant Wood. Dir: Marc Sorkin. Narrador: Henry Fonda.

Clark Gable

Clark Gable

Clark Gable atuou como extra em Paraíso Proibido / Forbidden Paradise / 1924, dirigido por Ernst Lubitsch. Ele era um soldado da guarda da czarina. Foi extra também em Ben-Hur / Ben-Hur, a Tale of the Christ /1925 como um guarda romano. Gable narrou e apareceu em Wings Up / 1943, documentário de propaganda de 20 minutos produzido pela Força Aérea Americana, destacando o papel da United States Army Air Forces Officer Candidate School. Robert Preston e Brenda Marshall, William Holden e Gilbert Roland, não creditados, aparecem também no filme. Gable apareceu em Combat America / 1944 documentário de 1 hora e 20 minutos, contando as experiências de um grupo de bombardeio das Forças Armadas Americanas, sediado na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial.

Cary Grant em Singapore Sue

Cary Grant apareceu com Jack Carson, Bing Crosby, Benny Goodman e orquestra, Harry James e orquestra, Herbert Marshall, Dennis Morgan, Frank Sinatra e outros artistas em The Road to Victory / 1944, curta-metragem da Warner de 10 minutos. Grant foi visto também com Errol Flynn, Virginia Bruce, Lili Damita, Chester Morris, Mickey Rooney, Lynn Bari, Marion Davies, Randolph Scott e outros artistas em Pirate Party on Catalina Island  / 1935, curta-metragem colorido da Louis Lewyn Productions de 20 minutos, distribuído pela MGM. No short musical de 10 minutos,  Singapore Sue / 1932 Grant é um marujo.

Betty Hutton, Alan Ladd, Susan Hayward em Skirmish on the Home Front

Susan Hayward, sem ser creditada, apareceu como uma starlet em Hollywood Hotel / Hollywood Hotel / 1937, dirigido por Busby Berkeley; como uma telefonista em As Irmãs / The Sisters / 1938, dirigido por Anatole Litvak; como uma estudante em Campus Cinderella / 1938, comédia musical da Warner de 19 minutos, dirigida por Noel Smith com Penny Singleton e Johnnie Davis nos papéis principais. Ela apareceu também (com Alan Ladd, Betty Hutton e William Bendix) em Skirmish on the Home Front / 1944, curta-metragem de 13 minutos, produzido pela Paramount para a OWI (Office of War Information) com roteiro escrito por Charles Brackett, exortando as virtudes do Plano de Estabilização do Governo Americano em Tempo de Guerra.

Katharine Hepburn narrou Women in Defense / 1941, documentário de 10 minutos escrito por Eleanor Roosevelt e realizado pela OEM (Office of Emergency Management), exaltando  as virtudes e a necessidade das mulheres participarem da preparação da América para a guerra.

Leslie Howard em Four Corners

Leslie Howard apareceu em From the Four Corners / 1942, um dos curtas-metragens de 18 minutos da série Inside Britain, que Anthony Havelock-Allan produziu para o British Ministry of Information. Nele, membros de três exércitos da Commonwealth, um australiano, um canadense e um neo-zelandês, se encontram em Londres com o ator Leslie Howard, que lhes paga uma cerveja, leva-os para o topo da Catedral de São Paulo e os faz compreender porque estão lutando contra Hitler.

Walter Huston narrou: Our Russian Front / 1941, documentário de 45 minutos, dirigido por Lewis Milestone e Joris Ivens, para promover apoio ao esforço de guerra soviético, utilizando material filmado por cinegrafistas russos no campo de batalha e cenas de arquivo; Prelude to War / 1942, primeiro filme da série Why We Fight  dirigido por Frank Capra e Anatole Litvak e fotografado por Robert Flaherty. Ganhou o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem (52 minutos);  Safeguarding Military Information / 1945 filme de treinamento de 10 minutos realizado para o Exército dos Estados Unidos, dirigido por Preston Sturges, acentuando a importância do segredo por parte dos militares e trabalhadores engajados em atividades de defesa e mostrando os resultados de conversas descuidadas como explosões de navios, sabotagem  e ooutros eventos desastrosos, que resultaram de revelações de informação imprudentes para o inimigo. Huston aparece como um general palestrante, Eddie Bracken como o soldado que fala no telefone com sua namorada (Ginger Rogers) e Ian Hunter é um espião; Let There Be Light / 1947 documentário de 58 minutos dirigido John Huston para o US Army Signal Corps, versando sobre o tratamento psiquiátrico de soldados veteranos da Segunda Guerra Mundial com transtôrno de estresse pós-traumático. O filme foi suprimido pelo governo americano, tendo sido exibido para o público em 1981. Foto de Stanley Cortez e música de Dimitri Tiomkin.

Charles Laughton estava em Angels of Mercy / 1942, curta-metragem  de 5 minutos, produzido pela Soundies Corporation of America em apoio à Cruz Vermelha, mostrando o trabalho de voluntários e personalidades do cinema arrecadando fundos e encorajando o recrutamento. Deanna Durbin interpreta uma canção dedicada às enfermeiras e comparecem no filme outros artistas: Don Ameche, Edward Arnold, Gene Autry, James Cagney, John Garfield, Jackie Coper, George Burns, Paul Muni, Pat O´Brien, Bing Crosby, Edward G. Robinson, Bonita Granville, Shirley Temple e Orson Welles.

Fredric March narrou: The 400 Million / 1939, documentário de 1 hora e 1 minuto dirigido por Joris Ivens e John Ferno, com comentário de Dudley Nichols, música de Hanns Eisler, montagem de Helen van Dongen e cinematografia de Ferno com assistência de Robert Capa, sobre a resistência chinesa à ocupação japonesa na Mandchuria. Ferno, Sidney Lumet, Morris Carnowsky, Robert Lewis, Alfred Ryder e Adelaide Bean emprestaram também suas vozes para o filme; Lights Out in Europe / 1940, documentário dirigido por Herbet Kline e fotografado por Alexander Hackenschmied e Douglas Slocombe, mostrando a preparação para a guerra na Grã Bretanha e na Polonia contra os nazistas. O comentário foi escrito por James Hilton; Lake Carrier / 1942, documentário de 9 minutos, produzido pelo Office of Emergency Management e Universal Pictures, descrevendo o transporte de minério de ferro por navio através dos Grandes Lagos, dirigido e escrito por Guy Bolte. March narra e também aparece no filme.

Raymond Massey narrou: The American Road / 1953, documentário de 37 minutos produzido pela Ford Motor Company e MPO Productions, dirigido por George C. Stoney, mostrando filmes domésticos nos quais aparecem Harvey Firestone e Henry Ford e membros de sua família; Man With a Thousand Hands / 1952, documentário colorido de 55 minutos contando a história do projeto Kitimat-Kemano-Necheko de desenvolvimento de energia elétrica no Canadá que incluia a construção de uma represa pela Aluminium Co. of Canada, escrito e produzido por Charles Palmer e dirigido por John E. R. McDougall.

Eleanor Parker apareceu em Men of the Sky / 1942, filme de propaganda em technicolor de 20 minutos, focalizando a formatura de um novo grupo de pilotos, produzido pela Warner em colaboração com a Força Aérea Americana, narrado por Owen Crump e dirigido por B. Reeves Eason. Ela faz o papel de Mrs. Frank Bickley, um dos pilotos, interpretado por Tod Andrews. No filme aparecem também: Don DeFore, Ruth Ford, Ray Montgomery. Eleanor emprestou a voz para uma telefonista, sem ser creditada, no filme O Manda-Chuva / The Big Shot de Lewis Seiler e também  para  o curta-metragem de 20 minutos Vaudeville Days / 1942 de Le Roy Prinz sobre a História do Vaudeville. Ela foi vista também no curta de 21 minutos technicolorido Soldiers in White / 1942, dirigido por B. Reaves Eason, no papel da enfermeira Ryan.

Dick Powell participou (cantando “Ride Tenderfoot Ride”) do documentário de 7 minutos For Auld Lang Syne / 1938, produzido pela Warner, em benefício do Will Rogers Memorial Hospital. Além de Powel, comparecem: John Barrymore, Humphrey Bogart, Paul Muni, Bette Davis, Lili Damita, Errol Flynn, Rudy Vallee, Benny Goodman e sua orquestra e outros artistas convidados. Powell emprestou a voz, sem ser creditado, para o locutor de rádio em Big City Blues / 1932, dirigido por Mervyn LeRoy; no mesmo filme Humphrey Bogart faz o papel de Shed Adkins, sem ser creditado.

James Stewart em Winning Your Wings

James Stewart narrou Fellow Americans / 1942, documentário de 11 minutos, realizado pelo Office of Emergency Management, com a finalidade de angariar fundos para o esforço de guerra  após  o ataque japonês a Pearl Harbor.  O filme foi dirigido por Garson Kanin e contou com música de Oscar Levant. Stewart apresentou e narrou um curta-metragem de 18 minutos da Warner, Quem Quiser Ter Asas / Winning Your Wings / 1942, dirigido por John Huston e Owen Crump (não creditado), destinado a estimular o recrutamento para a Força Aérea Americana e How Much Do You Owe? / 1949, curta-metragem de 9 minutos realizado pela Columbia para o Disabled American Veterans. Ele apresentou o documentário de 20 minutos, 10.000 Kids and a Cop / 1948, dirigido por Charles Barton, mostrando os esforços da Lou Costello Jr. Youth Foundation para a prevenção da delinquência juvenil. Brenda Joyce foi a narradora e William Bendix interpretou o papel do guarda que visita a fundação e verifica que os jovens que lhe deram trabalho agora estão praticando esporte e outras atividades.  Stewart fez o papel de Jack Burton, sem ser creditado, na comédia curta Art Trouble, dirigida por Ralph Staub com Shemp Howard e Harry Gribbon nos papéis principais.

Laurel e Hardy em Stolen Jewels

Existem muitos outros exemplos, porém mencionei apenas alguns, para não cansar os leitores e escolhí, para fechar este artigo, o curioso The Stolen Jewels / 1931 (também conhecido com The Slippery Pearls), curta-metragem promocional de 21 minutos, destinado a angariar fundos para o sanatório para tratamento de tuberculose do National Variety Artists, produzido pelo Masquers Club of Hollwywood e distribuído pela Paramount. O enredo do filme gira em torno do furto das jóias de Norma Shearer. Um detetive se dirige à residência da atriz para interrogar os convidados de uma festa, a maioria osd quais são astors e estrelas de Hollywood. Wallace Beery é um sargento da polícia; Buster Keaton, um policial; Edward G. Robinson, um gângster; Stan Laurel também é um policial e Oliver Hardy, o chofer do carro da polícia; Hedda Hopper é uma amiga de Norma; Gary Cooper é um editor de jornal; George “Gabby” Hayes, um projecionista. Aparecem como eles mesmos: Joan Crawford, William Haines, Victor MacLaglen, Irene Dunne, Richard Dix, Maurice Chevalier, Douglas Fairbanks Jr., Richard Barthelmess, Ben Lyon, Bebe Daniels, Loretta Young. Fay Wray e outros e adivinhem quem é o suspeito do crime? O “Boca Larga”, Joe E. Brown.

 

BILLY WILDER II

 

Wilder iniciou a década de cinquenta realizando duas obras-primas: Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard / 1950 e A Montanha dos Sete Abutres / Ace in the Hole ou The Big Carnival / 1951.

Billy Wilder

Crepúsculo dos Deuses é um drama passional  que oscila entre o trágico e o grotesco, e um retrato cínico e cruel de Hollywood tingido de humor negro. O enredo de Wilder e Brackett e D. M. Marshman Jr. apresenta em primeiro plano a decadência de Norma Desmond (Gloria Swanson), atriz do cinema silencioso, que vive agarrada na sombra de seu passado. Bonita e famosa no tempo da cena muda é hoje uma estrela esquecida. Seu ex-marido e diretor, Max von Mayerling  (Erich von Stroheim) serve-lhe de mordomo em uma mansão lúgubre, tentando realizar todos os seus caprichos.  Saudosista da fama de outrora, egocêntrica e a um passo da loucura, ela se apaixona por um jovem roteirista obscuro, Joe Gillis (William Holden), que, para fugir de seus credores, se escondera no palacete. Norma contrata-o para ajudá-la a escrever o roteiro de um filme com o qual pretende voltar à luz dos refletores, dirigida por Cecil B. DeMille (que também a dirigira outrora) e o rapaz acaba se tornando seu gigolô. Os planos de Norma não se concretizam e ela descobre que Joe está se encontrando com uma moça, Betty Schaefer (Nancy Olson), leitora de argumentos e aspirante a roteirista. Quando ele decide romper sua relação humilhante com sua  “protetora”, ela o mata.

Billy Wilder examina os fotogramas de Crepúsculo dos Deuses

Gloria Swanson e William Holden em Crepúsculo dos Deuses

Wilder com Cecil B.DeMIlle e Gloria Swanson na filmagem de Crepúsculo dos Deuses

Os roteiristas imaginaram uma narrativa audaciosa (é o morto que conta a história) que termina com uma cena original e de um poder emocional muito forte (Norma descendo lentamente a escada e se encaminhado em direção à uma câmera, até sair de foco) e Wilder soube criar uma atmosfera perturbadora e fascinante  com a ajuda do score soberbo de Franz Waxman ( v. g. o tango que acompanha Norma  quando ela desce as escadas em um êxtase de loucura) e à fotografia em preto e branco, que John F. Seitz sempre soube utilizar. A força da realização se encontra também no comentário muito bem escrito e dito em voz over (a voz do morto) que apoia a ação, nas frases antológicas (v. g. “We didn´t need dialogue, we had faces” ou “I´m still big, it´s the pictures that got smaller”) e no elenco. Desde o primeiro momento em que ela aparece, Gloria Swanson toma conta da tela, expondo sua personagem desquilibrada  com gestos amplos e riqueza de emoção.  Erich von Stroheim mostra bem porque era uma das grandes figuras do cinema. William Holden desempenha com brilho o seu papel difícil. Nancy Olson os coadjuva com afinco. Artistas famosos da cena muda (Buster Keaton, Anna Q. Nillson, H. B. Warner aparecem na cena do jogo de bridge e DeMIlle na visita de Norma ao estúdio da Paramount. O papel de Norma foi oferecido a outras duas grandes estrelas Mary Pickford e Pola Negri que rejeitaram o convite. Montgomery Clift e Fred MacMurray foram cogitados para o papel de Joe Gillis. A Academia concedeu o Oscar de Melhor História e Roteiro para Wilder, Brackett e Marshmam e de melhor Música de filme não musical para Waxman. Foram indicados: Wilder como Melhor Diretor, Gloria Swanson como Melhor Atriz, Stroheim como Melhor Ator Coadjuvante, Nancy Olson como Melhor Atriz Coadjuvante, Seitz pela Melhor Fotografia preto-e-branco e Doane Harrison, Arthur P. Schmidt pela Melhor Montagem. Stroheim sugeriu algumas idéias para Wilder e este aproveitou duas: o mordomo escrever cartas de fãs para Norma para manter a ilusão de que ela não foi esquecida e a utilização de um trecho de Minha Rainha / Queen Kelly. Depois deste filme Wilder e Brackett se separaram após quatorze anos de colaboração.

Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres

Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres

Jan Sterling e Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres

A Montanha dos Sete Abutres foi inspirado em dois fatos autênticos, divulgados pela imprensa americana. No primeiro, ocorrido em 1925, um repórter descobriu um guia turístico preso em uma gruta, conseguiu esgueirar-se até onde estava o infeliz e conduziu as operações de socorro, durante as quais cobriu o acontecimento para seu jornal. No segundo, ocorrido em 1949, a morte de uma menina que caiu em um poço suscitou uma comoção nacional. Lembrando-se deles, Wilder e seus dois novos colaboradores, Lesser Samuels e Walter Newman, procuraram mostrar a curiosidade mórbida da multidão e a exploração sórdida e racional desta “fraqueza” pela imprensa sensacionalista. O personagem central, Charles Tatum (Kirk Douglas), é um jornalista bêbedo e inescrupuloso, obrigado por uma série de circunstâncias que o desmoralizaram no meio jornalístico novaiorquino a trabalhar na redação do Sun Bulletin, em Albuquerque no New Mexico. Enquanto aguarda um “assunto” capaz de restaurar sua reputação, ele antevê excepcionais oportunidades jornalísticas na agonia de um homem, Leo Minosa (Richard Benedict), que havia entrado em uma antiga caverna de índios à procura de relíquias e ficara preso entre os escombros após um desmoronamento. Com a cumplicidade de um xerife corrupto (Ray Teal) Tatum prolonga deliberadamente a permanência da vitima na caverna ao mesmo tempo em que garante para si a exclusividade da história. Havendo outros meios mais fáceis para salvar o infeliz, ele consegue que se perfure a rocha, de cima para baixo, para que o tempo de salvamento dure mais e possa, assim, tirar maior partido nas reportagens.  Tatum persuade também a esposa da vítima, Lorraine (Jan Sterling), a continuar no local, convencendo–a de que o afluxo de pessoas de todos os cantos do país ao seu café-restaurante lhe permitiria ganhar algumas centenas de dólares. Realmente uma multidão ávida de sensações chega ao local e com eles o rádio e a televisão, os vendedores de hamburgueres e refrigerantes, turistas, jornalistas impedidos pelo xerife de fazer concorrência a Tatum e até um parque de diversões se instalam diante da caverna. A situação se complica quando vítima contrai pneumonia. Arrependido, Tatum tenta desesperadamente salvá-lo. Tarde demais, e após uma série de acontecimentos provocados pelo seu remorso, é punido. Em uma discussão com Lorraine ela o esfaqueia com um par de tesouras e ele vai morrer na redação do Sun Bulletin. Wilder esmiuça a personalidade ríspida e contundente do jornalista que começa provocando um grande furo e termina com um denso problema de consciência. Fustigando sem piedade e com lucidez o lado mau da imprensa e a curiosidade da massa que se delicia com uma catástrofe e com um espetáculo carnavalesco, Wilder imprimiu um vigor extraordinário na narrativa, que não se desacelera um só instante. Kirk Douglas domina todo o filme com sua magnífica atuação e Jan Sterling está impecável na mulher fria e vulgar. A história e o roteiro proporcionaram uma indicação para o Oscar. O título original era Ace in the Hole, mas o chefão da Paramount, Y. Frank Freeman, mudou-o para The Big Carnival, sem o consentimento de Wilder.  Muitos anos depois o cineasta declarou que este foi o melhor filme que ele fez.

William Holden em Inferno nº17

Ainda no decênio de cinquenta, Wilder fez: 1953 – Inferno nº 17 / Stalag 17, drama de guerra envolvente com efeitos cômicos, suspense e notável interpretação de William Holden premiada com o Oscar, proporcionando ainda indicações para Wilder (Melhor Diretor) e Robert Strauss (Melhor Ator Coadjuvante).

William Holden, Audrey Hepburn e Humphrey Bogart em Sabrina

1954 – Sabrina / Sabrina, comédia romântica charmosa conjugando conto de fadas moderno e sátira social, com um trio de intérpretes (Audrey Hepburn, William Holden, Humphrey Bogart) de grande categoria, suscitando nomeações ao Oscar para Wilder, Hepburn e o fotógrafo Charles Lang Jr.

Tom Ewel e Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado

1955 – O Pecado Mora ao Lado / The Seven Year Itch, comédia de costumes maliciosa e satírica contando com a presença impactante de Marilyn Monroe e o histrionismo de Tom Ewell, porém às vezes maçante.

James Stewart em Águia Solitária

1957 – Águia Solitária / The Spirit of St. Louis, aventura cinebiográfica sobre o vôo solitário e histórico de Charles Lindbergh (excluindo certos fatos da vida dele), estruturada por meio de solilóquios e retrospectos, com boas soluções técnicas na mise-en-scène, interpretação lacônica de James Stewart dos pensamentos e sensações do aviador;

Gary Cooper e Audrey Hepburn em Amorna Tarde

Amor na Tarde / Love in the Afternoon, comédia romântica lubistcheana, com os ingredientes de sátira e irreverência habilmente manipulados pela direção e apoiados pela excelência do elenco e canções sugestivas. Foi a primeira colaboração de Wilder com I. A. L. Diamond.

Os dois últimos filmes de Wilder nos anos cinquenta foram mais duas obras-primas: 1959 –Testemunha de Acusação  / Witness for the Prosecution e 1959 – Quanto Mais Quente Melhor / Some Like It Hot.

Elsa Lanchester e Charles Laughton em Testemunha de Acusação

Tyrone Power em Testemunha de Acusação

Marlene Dietrich e Charles Laughton em Testemunha de Acusação

Testemunha de Acusação é um drama criminal na modalidade filme de tribunal, baseado em uma peça de Agatha Christie. Acusado de haver assassinado uma solteirona rica e solitária em cujo testamento figura como único herdeiro, Leonard Vole (Tyrone Power) apresenta-se ao famoso criminalista, Sir Wilfrid Roberts (Charles Laughton), récem saído de um hospital, por ter sofrido un enfarto, solicitando-lhe que o defenda. Apesar da proibição médica, ele aceita.  A única testemunha que Vole possui, é sua própria mulher, Christine  (Marlene Dietrich), mas ela depõe contra ele. No segundo dia do julgamento o criminalista recebe um telefonema de alguém que lhe quer vender cartas comprometedoras, que invalidarão o depoimento de Christine. Ele vai apanhar as cartas, que estão na posse de uma mulher e, ao mostrá-las no tribunal, assegura a vitória ao seu constituinte. Porém depois do veredicto ocorrem dois fatos surpreendentes que ocasionam um violento desfecho passional. Wilder e seu novo colaborador, Harry Kurnitz, reescreveram o texto de Agatha Christie (criando a figura da enfermeira, mas conservando os personagens principais e sem mexer na trama inteligente) e com ele Wilder realizou um filme palpitante, que surpreende por seus desenvolvimentos imprevistos e mantém a platéia permanentemente atenta e interessada. Charles Laughton no papel do advogado perspicaz e astuto (aquele seu teste com o monóculo é um grande achado), devotado e apaixonado pela sua profissão, é a grande atração do espetáculo. Os duelos verbais com sua enfermeira, Miss Plimsoll, esplendidamente interpretada por Elsa Lanchester (indicada para o Oscar), são prazerosos assim como as réplicas tipicamente wilderianas (v. g. a certa altura Sir Wilfrid diz para Miss Plimsoll: “Se você fosse mulher, eu ia bater em você” ). Marlene Dietrich está magnífica, particularmente nas cenas de interrogatório no tribunal. Tyrone Power  tem uma atuação  corretíssima e convincente.

Tony Curtis, Jack Lemmon e Marilyn Monroe em Quanto Mais Quente Melhor

Wilder dirige Marilyn em Quanto Mais Quente Melhor

Joe E. Brown e Jack Lemmon em Quanto Mais Quente Melhor

Billy Wilder e I. A. L Diamond

Quanto Mais Quente Melhor, comédia burlesca, satirizando a época da Lei Sêca e abordando de maneira sutil o homossexualismo, narrada em ritmo vertiginoso. Dois saxofonistas, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), perseguidos por Spats Colombo (George Raft) e seu bando, por terem assistido involuntariamente a um massacre parecido com o de São Valentim, perpetrado por estes mafiosos, vestem-se de mulher e fogem para Miami, para integrar uma orquestra feminina, cuja vedete é Sugar Kane (Marilyn Monroe), loura adorável e sensual, que toca o ukulele e canta imitando a Betty Boop. As confusões causados pelo transformismo começam quando Joe tenta conquistar Sugar, fazendo-se passar por Shell Oil Junior, falso milionário com a voz de Cary Grant ou quando Jerry é assediado por um milionário de verdade, o desconcertante Osgood Fielding III (Joe E. Brown). Pontuado do início ao fim por réplicas (v. g. o antológico “Nobody´s Perfect!”) e gags visuais  (v. g, Jerry dançando o tango erótico com Osgood) hilariantes, o filme recebeu seis indicações ao Oscar: Jack Lemmon para Melhor Ator, Wilder para Melhor Diretor, Wider e I. A. L. para Melhor Roteiro Adaptado, Charles Lang Jr. para Melhor Fotografia (preto-e-branco), Ted Haworth (decoração de Edward G. Boyle) para Melhor Direção de Arte (preto-e-branco) e Orry-Kelly para Melhor Figurino (preto-e-branco). Mas Orry Kelly foi o único vencedor.

Jack Lemmon e Shirley MacLaine em Se Meu Apartamento Falasse

Wilder, Shirley McLaine e Jack Lemmon na filmagem de Se Meu Apatamento Falasse

Fred MacMuyrray e Jack Lemmon cem Se Meu Apartamento Falasse

No início dos anos sessenta, Wilder realizou sua última obra-prima, Se Meu Apartamento Falasse / The Apartment, um drama com momentos de comédia romântica e sátira social (à crueldade da cultura corporativa americana). Jovem e solitário empregado subalterno de uma grande companhia de seguros, C. C. Baxter (Jack Lemmon) empresta seu apartamento de solteiro a seus superiores casados, para encontros mais seguros e confortáveis com suas amantes. Em troca os favorecidos, prometem-lhe uma futura promoção, que eles garantem conseguir com o diretor de pessoal da firma, Jeff D. Sheldrake (Fred Mac Murray). Baxter já está quase desistindo dessas promessas e só pensa em conseguir marcar um encontro com a ascensorista da empresa, Fran Kubelik (Shirley MacLaine), por quem está apaixonado quando, de repente. sai a promoção. Baxter é transferido para uma sala só dele com secretária particular e outros privilégios e se surpreende com a forte influência que seus superiores exerceram sobre Sheldrake. Na verdade sua melhoria de posição na firma ocorreu, porque o chefão queria exclusividade: de agora em diante o apartamento seria emprestado só para ele. Mas certa noite Baxter encontra Fran inconsciente em seu apartamento. Descobre então que ela é a amante de Sheldrake e tentou o suicídio, porque ele se recusava a deixar a mulher. Na verdade tanto Baxter como Fran estão sacrificando sua integridade por algo que esperam obter de Sheldrake – ele, seu upgrade na compahia, ela, uma aliança matrimonial. Finalmente, Baxter como queria seu vizinho, Dr. Dreyfus (Jack Kruschen), torna-se um “Mensch” (em outras palavras, “um ser humano”), quando desafia o sistema pelo amor de Fran e esta, se liberta de sua devoção pelo cínico Sheldrake, ao descobrir o verdadeiro sentido da palavra amor. Mas no final feliz  (e original) não tem abraço nem beijo, mas um simples “ Shut up and deal”. A Academia premiou regiamente a realização: Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor História e Roteiro Originais (Billy Wilder, I. A. L. Diamond), Melhor Direção de Arte em preto-e-branco (Alexander Trauner e decoração de interiores Edward G. Boyle). Indicações para: Melhor Ator (Jack Lemmon), Melhor Atriz (Shirley MacLaine), Melhor Ator Coadjuvante (Jack Kruschen), Melhor Fotografia em preto-e-branco (Joseph LaShelle) e Som (Samuel Goldwyn Studio; Gordon E. Sawyer). Todos os prêmios foram merecidíssimos. Wilder deveria ter encerrado sua carreira neste momento como lhe aconselhou Moss Hart, um dos apresentadores na cerimônia. Depois se arrependeu.

Pamela Tiffin , Horst Buchholz e James Cagney em Cupido Nâo Tem Bandeira

Jack Lemmon e Shirley MacLaine em Irma la Douce

Dean Martin, Kim Novak e Ray Walston em Beija-me Idiota

Jack Lemmon e Walter Mathau em Uma Loura Por um Milhão

No decorrer da década de sessenta, o cineasta fez apenas um bom filme, embora sem o mesmo brilho de suas grandes comédias: Cupido Nâo Tem Bandeira / One, Two, Three / 1961, sátira política tanto do capitalismo quanto do comunismo,  focalizando os esforços e os dissabores de um próspero e audacioso industrial americano (interpretado  por um James Cagney a mil por hora), que resolve vender Coca-Cola aos consumidores atrás da Cortina de Ferro enquanto sua filha (Pamela Tiffin) se casa com um beatnik (Horst Buchholz) da zona soviética. Seus filmes restantes do decênio (1963 – Irma la Douce / Irma la Douce. 1964 – Beija-me Idiota / Kiss Me Stupid e 1966 – Uma Loura Por Um Milhão / The Fortune Cookie representam um declínio artístico evidente na trajetória fílmica do diretor.

Robert Stephens e Genevieve Pase em A Vida Íntima de Sherlock Holmes (ao fundo Colin Blakely como Dr. Watson)

Na década de setenta, ocorreu o mesmo: um bom filme, A Vida Íntima de Sherlock Holmes / The Private Life of Sherlock Holmes  / 1970, aventura inédita (imaginada por Wilder e I. A. L. Diamond), apresentando o detetive famoso  (Robert Stephens) como um homem vulnerável sentimentalmente e não apenas como uma “ máquina pensante”, quando ele se envolve com uma espiã alemã (Genevieve Page), ao investigar o mistério do Monstro do Loch Ness -, seguido por três obras frustradas: 1972 – Amantes à Italiana / Avanti. 1974 – A Primeira Pàgina / The Front Page e 1978 – Fedora.

Jack Lemmon em Amantes à Italiana

Walter Mathau e Jack Lemmon em A Primeira Página

Marthe Keller  e Henry Fonda em Fedora

Jack Lemmon e Walter Mathau em Amigos, Amigos … Negócios à Parte (TV)

O derradeiro filme de Billy Wilder, Amigos, Amigos … Negócios à Parte (TV) / Buddy Buddy / 1981, foi uma despedida triste do grande cineasta, um fracasso total. Mas em 1986 ele recebeu o AFI Live Achievement Award, em 1989 o Irving Thalberg Memorial Award, em 1993 a National Medal of Arts. Faleceu aos 95 anos de idade.

 

BILLY WILDER I

Samuel Wilder (1906-2002) nasceu em Sucha Beskidzka, pequena cidade da província de Galicia, que fazia parte do Império Austro-Húngaro e hoje faz parte da Polônia. Ele era filho de Eugenia Dittler e Max Wilder, maitre em um restaurante de Kraków, capital da Galícia, que depois se tornou dono de uma cadeia de pequenos cafés em estações ferroviárias. Mais tarde, Max abriu um hotel e restaurante de quatro andares em com o nome inglês de Hotel City, para dar uma impressão de classe ao seu estabelecimento. Quando a Galícia foi invadida na Primeira Guerra Mundial, a família mudou-se para Viena, onde enfrentou dias difíceis. A mãe de Billy – apelidado de “Billie” por sua mãe, ele passou a se chamar “Billy”, depois que chegou na América e seu irmão mais velho, Wilhem, apelidado de “ Willie”, também se tornou roteirista, produtor e diretor em Hoillywood e passou a se chamar William Lee Wilder – queria que ele se formasse em Direito, mas o rapaz optou pela profissão de repórter.

Billy Wilder

Wilder gostava de contar que a sua grande façanha como jornalista foi entrevistar no mesmo dia Richard Strauss, Arthur Schnitzler, Alfred Adler e Sigmund Freud.  Freud estava almoçando, quando ele chegou. Wilder mostrou seu cartão para a criada e conseguiu ver, através de uma porta aberta, a sala de consultas e o famoso sofá. O Dr. Freud surgiu com um guardanapo no queixo e perguntou a Wilder se ele era um repórter do jornal Die Stunde. Ao receber resposta afirmativa, Freud apontou para a porta de entrada e disse: “Raus” (Rua). Em 1990 Wilder finalmente admitiu que essas quatro entrevistas não ocorreram no mesmo dia, porém continuou insistindo que falou com os quatro homens embora em diferentes ocasiões.

Wilder era apaixonado pelo jazz americano e fã de Paul Whiteman. Quando o famoso chefe de orquestra visitou Viena em 1926, Wilder fez amizade com ele, servindo-lhe depois como guia em Berlim … apesar de nunca ter ido lá. Quando Whiteman voltou para a América, Billy ficou em Berlim em situação de penúria até que, como era um excelente dançarino, arranjou emprego no Hotel Eden na função de Eintänzer (dançarino-gigolô). Wilder trabalhou ali por algum tempo e depois  retomou suas atividades como articulista, publicando sua experiência como Eintänzer no jornal B.Z am Mittag. O artigo fez grande sucesso e lhe proporcionou mais trabalho em outras publicações, mas o seu sonho era escrever para o cinema.

Wilder conseguiu vender seu primeiro script graças a uma situação escabrosa: atendendo ao pedido desesperado de sua vizinha Lulu, filha de sua locadora, ele escondeu no seu quarto o amante dela, Maxim Galitzenstein, presidente da Maxim Film, ajudando-o a escapar da fúria do namorado da moça. Wilder ofereceu-lhe um script e Galitzenstein o comprou por quinhentos marcos. Wilder agradeceu sua vizinha dizendo: “Obrigado por ter me mandado Galitzenstein. Mas ele é um pequeno produtor. Da próxima vez, por favor … Erich Pommer!”. Parece que Galitzenstein nunca produziu o script de Wilder pois segundo todas as filmografias do cineasta, seu primeiroscript  (sobre um repórter que vendeu a alma ao Diabo)  foi Der Teufelsreporter: Im Nebel Der Grosstadt / 1929, dirigido por Ernest Laemmle (sobrinho de Carl Laemmle) e estrelado por Eddie Polo e Gritta Ley.

Cena deMennschen am Sontag

Após servir como ghost writer para alguns roteiristas, Wilder escreveu seu segundo script (que era na verdade um tratamento) para o filme Mennschen am Sontag / 1929, dirigido pelo então montador Robert Siodmak com base em uma história de seu irmão Kurt, sobre dois rapazes e duas moças e o que eles faziam em um domingo. Filmado nas ruas e em um parque de Berlim sem atores profissionais e uma câmera na mão, o filme foi um trampolim para várias carreiras. O cameraman era Eugene Shuftan (inventor do famoso processo), seu assistente chamava-se Fred Zinnemann, e o assistente de direção respondia pelo nome de Edgar G. Ulmer.

Depois de ter feito na UFA Der Kampf mit Dem Drachen / 1930, fantasia surrealista de 12 minutos (com roteiro de Wilder e Kurt ou de um ou de outro conforme cada historiador), contando como um inquilino (Felix Bressart), acusado de matar seu  “dragão”, ou seja, sua feroz senhoria (Hedwig Wangel), é depois absolvido por um júri composto de inquilinos igualmente maltratados por seus senhorios, Robert Siodmak ganhou sua própria unidade de produção no grande estúdio alemão  administrado por Erich Pommer e levou Wilder consigo.

Durante quatro anos Wilder escreveu, sozinho ou em colaboração (alguns com Kurt Siodmak), roteiros para filmes nos mais variados gêneros: 1931 – De Falsche Ehemann (Dir: Johannes Guter com Johannes Riemann e Maria Paudler); Terrível Armada / Emil und die Detektive (Dir: Gerhard Lamprecht); Ihre Hoheit Befiehlt (Dir: Hans Schwarz com Kathe von Nagy e Willy Fritsch); Seitensprünge (Dir: Stefan Székely com Oskar Sima e Gerda Maurus); Der Mann der Seinen Mörder Sucht (Dir: Robert Siodmak com Heinz Rühmann e Lien Deyers). 1932 – Cinco Minutos de Amor / Das Blaue vom Himmel (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Ein Blonder Traum(Dir: Paul Martin com Lilian Harvey, Willy Fristch, Willi Forst); Es War Einmal ein Walzer (Dir: Viktor Janson com Martha Eggerth); Scampolo, ein Kind der Strasse (Dir: Hans Steinhoff com Dolly Haas). 1933 – Madame Wünscht Keine Kinder (Dir: Hans Steinhoff com Georg Alexander e Liane Haid); O Que Sonham as Mulheres / Was FrauenTraümen (Geza von Bolvary com Nora Gregor, Gustav Frölich, Peter Lorre). O último script de Wilder para Pommer foi  “Der Frack mit der Chrisantheme”, escrito de parceria com Walter Reisch, porém não chegou a ser produzido.

Cena de Terrível Armada

O melhor filme desse período de Wilder na UFA foi Terrível Armada, adaptação muito divertida e movimentada de um clássico da liteatura infanto-juvenil de autoria de Eric Kästner sobre as aventuras de um menino de doze anos, Emil Tischbein (Rolf Wenkhaus), encarregado por sua mãe de levar uma certa quantia de dinheiro para a avó, que vive em Berlim. No trajeto de trem, o dinheiro é roubado por um homem sinistro de chapéu côco.  Emil persegue o ladrão (Fritz Rasp) através de Berlim. Outros meninos – “os detetives” – ajudam-no a surpreender o gatuno e Emil recebe uma recompensa, porque o malfeitor tinha também roubado vários bancos. O famoso parceiro de Michael Powell, Emeric Pressburger, colaborou com Wilder na adaptação para a tela do best seller de Kästner. O BFI (British Film Institute) produziu um excelente dvd do filme.

Danielle Darrieux e Pierre Mingand em Horas do Diabo

Em 27 de fevereiro de 1934 ocorreu o incêndio do Reichstag e, no dia seguinte, Wilder pegou o trem noturno para Paris, onde passou a viver como refugiado. Sem ter um visto de trabalho, escreveu algumas histórias usando o nome de outras pessoas. Entre estas histórias havia uma sobre um bando de jovens ladrões de carros, que foi levada à tela como Horas do Diabo / Mauvaise Graine, graças ao patrocínio de Edouard Corniglion-Molinier, dono de um estúdio em Nice e amigo de Alexander Esway, novo parceiro de Wilder. O filme foi dirigido conjuntamente por Wilder e Esway e tinha como atriz principal uma jovem de dezessete anos chamada Danielle Darrieux. Como Jeanette, irmã do chefe do grupo de delinquentes desocupados, ela se apaixona pelo jovem Henri (Pierre Mingand), rapaz honesto que, por fraqueza, se envolvera como os marginais. A função de Jeanette é seduzir os proprietários de veículos luxuosos, a fim de que o bando tenha tempo para roubá-los. Franz Waxman, então conhecido como Franz Wachsmann, compôs um score jazzístico. Como Corniglion-Molinier tinha certo prestígio or ter sido herói da Primeira Guerra Mundial, Wilder pôde sair do anonimato.

Depois desta primeira experiência como diretor Wilder escreveu outra história,  “Pam-Pam” – musical sobre uma jovem fugitiva que se refugia em um teatro abandonado da Broadway e se envolve com falsários, que a ajudam a montar um espetáculo – e enviou o argumento para seu amigo dos tempos da Ufa, o diretor Joe May, que emigrara para os Estados Unidos e se tornara produtor na Columbia Pictures. Sam Briskin, um dos principais assessores do presidente da Columbia, Harry Cohn, gostou da história, pagou a passagem de Wilder para a América e o contratou para escrever o roteiro. Seis semanas depois ele apresentou seu primeiro esboço, mas não impressionou ninguém e o projeto  não prosperou.

Para renovar seu visto de permanência nos Estados Unidos, Wilder teve que sair do país e, da cidade mexicana Mexicali, tentar retornar para a cidade americana fronteiriça de Calexico. Quando Wilder aceitou o Thalberg Award na cerimônia da Academia em 1988, aproveitou para agradecer ao anônimo burocrata, que aprovou o seu reingresso nos Estados Unidos, apesar de não dispor dos documentos requeridos. Quando soube que o jovem imigrante ia escrever roteiros para filmes em Hollywood, o burocrata disse, “Escreva alguns bons”, e carimbou o passaporte imediatamente.

 

Entre 1934 e 1941 Wilder trabalhou como roteirista, sozinho ou com outros colaboradores ou forneceu história original para os seguintes filmes: 1934 – roteiro com Howard I. Young, Robert Liebmann para Música no Ar / Music in the Air (Fox. Dir: Joe May. Gloria Swanson, John Boles). 1935 – roteiro com Franz Schulz, Hans Schwartz para Sorteio Amoroso / Lottery Lover  (Fox. Dir: William Thiele. Lew Ayres, Pat Patterson, Peggy Fears). 1938 – roteiro com Charles Brackett para A Oitava Esposa do Barba Azul / Bluebeard´s Eighth Wife (Paramount. Dir: Ernst Lubistch. Claudette Colbert, Gary Cooper). 1939 – roteiro com Charles Brackett para Meia- Noite / Midnight (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); roteiro com Charles Brackett, Walter Reisch  para Ninotchka / Ninotchka (MGM. Dir: Ernst Lubitsch. Greta Garbo, Melvyn Douglas); roteiro com Charles Brackett para A Vida Começa aos 14 / What a Life (Paramount. Dir: Jay Theodore Reed. Jackie Cooper, Betty Field) 1940 – roteiro com Charles Brackett para Levanta-te Meu Amor / Arise my Love (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Claudette Colbert, Ray Milland); história original com Jacques Théry para Melodia Roubada / Rhythm on the River (Paramount. Dir: Victor Schertzinger. Bing Crosby, Mary Martin). 1941 – roteiro com Charles Brackett para A Porta de Ouro / Hold Back the Dawn (Paramount. Dir: Mitchell Leisen. Charles Boyer, Olivia de Havilland, Paulette Goddard); roteiro com Charles Brackett em Bola de Fogo / Ball of Fire (Goldwyn. Dir: Howard Hawks. Gary Cooper, Barbara Stanwyck).

Greta Garbo e Melvyn Douglas em Ninotchka

John Barrymore, Don Ameche e Claudette Colbert em Meia-Noite

Meia-Noite e Ninotchka foram duas das comédias mais brihantes dos anos trinta. A primeira é uma comédia sofisticada construída por meio de mal entendidos e mentiras bem articulados com um elenco que se desincumbe soberbamente de suas funções notadamente Claudete Colbert e John Barrymore, este muito divertido nas expressões fisionômicas e frases maliciosas (e ainda mais engraçdado imitando voz de criancça). O segundo é uma comédia romântica e sátira política, tendo como alvo o bolchevismo, através do contraste entre os valores russos e franceses manifestados por frases sarcásticas ditas por Garbo (perfeita no papel da agente soviética sisuda e exigente) e Melvyn Douglas (impecável no nobre capitalista elegante e bon vivant). Wilder, Brackett e Reisch foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro.

Charles Brackett e Billy Wilder

O acontecimento mais importante nesta fase da carreira de Wilder foi a formação de sua parceria com Charles Brackett e sua colaboração com Ernst Lubitsch, o grande cineasta que ele admirava e no qual sempre se inspirou. Brackett e Wilder estavam social e temperamentalmente em polos opostos. Brackett era calmo e bem educado, proveniente de uma família rica da classe alta e com diploma de curso superior enquanto Wilder – quatorze anos mais jovem do que ele –  era agitado, rude e indelicado, de origem mais humilde e sem currículo acadêmico. Wilder gostava de esportes; Brackett odiava. Além da paixão por jogos de cartas (cribbage e bridge) e palavras, Billy e Bracket tinham poucas afinidades … mas constituiram uma das melhores duplas de roteiristas de Hollywod.

No outono de 1941 a Paramount Pictures e Billy Wilder finalmente concordaram que o próprio Wilder seria o diretor do próximo roteiro da dupla, A Incrível Suzana / The Major and the Minor. Para dar apoio moral e aconselhamento técnico ao novo diretor, Lubitsch arregimentou todos os diretores alemães em Hollywood. Eles visitaram o palco de filmagem em massa: E. A. Dupont, William Wyler, Wiliam Dieterle, Henry Koster e Michael Curtiz. Preston Sturges também veio para dar uma força, mas quem o ajudou de fato foi Doane Harrison, o montador que iniciara sua carreira nas comédias de Mack Sennett. Doane conhecia a técnica do filme e se  tornou o braço direito de Wilder, até falecer em 1967.

Ray Milland e Ginger Rogers em A Incrível Suzana

No enredo dessa comédia alegre e movimentada a jovem Susan Applegate (Ginger Rogers), após ter tido muitas desilusões em Nova York, resolve voltar ao lar materno em Iowa. Não tendo dinheiro suficiente para comprar uma passagem de adulto, ela se veste de criança e adquire apenas um tíquete pela metade do preço. No trem, ao ser descoberto o seu truque pelos bilheteiros, Susan se esconde na cabine do Major Kirby (Ray Milland). Este resolve tomá-la a seus cuidados, surgindo a partir daí situações cômicas e sentimentais, principalmente quando Susan é levada para a Academia Militar cheia de novos cadetes e entra em cena Pamela (Rita Johnson), a noiva do major. Graças a uma narrativa muito bem construída, o filme prende a atenção do espectador do começo ao fim, divertindo-o com a excelente caracterização de Ginger como uma menina de doze anos e com os diálogos muito espirituosos, contendo inclusive algumas citações, como naquela cena em que Susan diz a célebre frase de Garbo: “I want to be alone” ou quando no baile aparecem todas as mulheres com o cabelo igual ao de Veronica Lake.

O próximo filme de Wilder contou com a participação de seu segundo ídolo depois de Lubitsch: Erich von Stroheim (“Meu ideal, se esta mistura é possível, seria Lubitsch mais Stroheim”). No dia em que eles se encontraram, Wilder disse para Stroheim que ele estava dez anos adiante de seu tempo. Stroheim corrigiu-o: “VInte, Mr. Wilder, vinte”. Noutra ocasião Wilder declarou: “ Em matéria de perversões sexuais, Mr. von Stroheim não estava somente vinte anos adiante de seu tempo – ele estava cinquenta anos adiante de seu tempo” (em On Sunset Boulevard – The Life and Times of Billy Wilder de Ed Sikov, Hyperion, 1998).

Franchot Tone, Anne Baxter e Erich Von Stroheim em Cinco Covas no Egito

Billy Wilder e Erich von Stroheim

Cinco Covas no Egito / Five Graves to Cairo / 1943 é um drama de guerra e espionagem de atmosfera angustiante, baseado na peça “Hotel Imperial” de Lajos Biró, que já havia sido filmada duas vezes pela Paramount. Wilder e Brackett tranferiram a intriga para o norte da África. Durante a retirada do exército britânico após uma vitória dos alemães o único soldado sobrevivente da tripulação de um tanque, John Bramble (Franchot Tone), se esconde em um hotel administrado por Farid (Akim Tamiroff) e Mouche (Anne Baxter), que se torna o quartel general do Marechal de Campo Rommel (Erich von Stroheim). Bramble se faz passar por um garçom falecido, que era agente germânico, e fica sabendo dos preparativos para um próximo ataque do general. O código para sua estratégia é “cinco covas”, porque indica em um mapa os cinco locais onde Rommel enterrara suprimentos e munição nas areias do deserto. Após uma sequência de abertura mórbida com o tanque fantasma movimentando-se sobre as dunas, a narrativa se desenrola sob uma tensão permanente com a ajuda do score de Miklos Rosza, irrompendo no final as imagens patrióticas requeridas para o esforço de guerra. A fotografia (preto-e-branco) de John F. Seitz, a montagem de Doane Harrison e a direção de arte (preto-e-branco) de Hans Dreier, Ernst Fegt (decoração de Bertram Granger) foram indicadas para o Oscar. Os dois filmes seguintes de Wilder foram suas duas primeiras obras-primas: Pacto de Sangue e Farrapo Humano.

Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue

Em Pacto de Sangue Wilder não contou com a colaboração de seu parceiro Charles Brackett, porque este considerava a história de James M. Cain muito sórdida e se recusou a fazer parte do projeto de filmagem. Wilder queria trabalhar com Cain, mas este não estava disponível e quem substituiu Brackett foi Raymond Chandler, outro grande escritor de romances policiais.  Walter Neff (Fred MacMurray), corretor de seguros é quem conta a trama do filme em retrospecto. Seduzido por Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), mulher de um segurado (Tom Powers), os dois armam um plano para assassinarem o marido dela e receberem a indenização dupla da apólice. Entretanto, depois que o crime é cometido, as coisas se complicam. Barton Keyes (Edward G. Robinson), o astuto investigador de sinistros, amigo de Neff, suspeita de que não houve acidente. Desde a apresentação dos letreiros, com a figura de um homem de muletas em contra luz aproximando-se cada vez mais da objetiva até o último instante do entrecho, os espectadores ficam em permanente suspense, participando intensamente do planejamento e da execução do crime, dos sobressaltos do casal de amantes malditos e de seu fim trágico.

Edward G. Robinson e Fred Mac Murray em Pacto de Sangue

No decorrer do relato, às cenas sensuais da aparição de Phyllis no segundo andar da casa enrolada na toalha e depois descendo as escadas com a chamativa corrente de ouro no tornozerlo, de seu flerte com Neff usando frases de duplo sentido e da sedução no apartamento de Neff, sucedem os momentos de tensão – a assinatura do contrato de seguro sem que o marido saiba do que se trata; a presença incômoda do passageiro quando Neff se prepara para saltar do trem; o carro que não quer pegar durante a fuga; o comparecimento da viúva no escritórtio da companhia de seguros após o assassinato mentindo deseperadamente e trocando olhares quase imperceptíveis com o amante; os encontros dos criminosos no supermercado, ela implacável e ele nervoso, discutindo entre sussuros atrás das prateleiras; o interrogatório da testemunha diante do criminoso angustiado; a visita inesperada de Keyes pouco antes da chegada de Phyllis – construídos com precisão absoluta.

Billy Wilder dá instruções para Barbara Stanwyck e |Fred macMurray na filmagem de Pactov de Sangue

Bastante inspirado, o fotógrafo John F. Seitz elaborou formidáveis constrastes de breto e branco, que atingem o ápice plástico naquelas formas dispersas de luz e sombra, produzidas pela venezianas fechadas da casa de Phyllis, onde se dá o climax do drama. Outra colaboração importante foi a do compositor Miklos Rósza, cuja música essencialmente trágica se adaptou ao cinema noir, contribuindo muito para reforçar os efeitos dramáticos do filme. Chandler e Wilder foram indicados para o Oscar de Melhor Roteiro, John F. Seitz para o de Melhor Fotgrafia (preto-e- branco), MIklos Rosza para o de Melhor Música de filme não musical e o filme também esteve entre os candidatos ao prêmio da Academia.

Philip Terry, Jane Wyman e Ray Milland em Farrapo Humano

Wilder berrando Ray Milland e Doris Dowling na filmagem de Farrapo Humano

Wilder voltou a formar dupla com Charles Brackett em Farrapo Humano drama  realista e angustiante sobre alcoolismo, descrevendo  a descida ao inferno de um romancista frustrado, Don Birnam (Ray MIlland), que se entregou à bebida. O irmão de Don, Wick (Philip Terry) e a noiva, Helen (Jane Wyman) esforçam-se em vão para fazê-lo abandonar seu vício, mas ele consegue escapar da vigilância deles e vai piorando, a ponto de furtar a bolsa de um mulher em um restaurante e empenhar a própria máquina de escrever, seu instrumento de trabalho. Para obter uma bebida, implora ao garçom de um bar e pede dinheiro emprestado a uma amiga. Embriagado, ele cai em uma escada e vai parar em um hospital psiquiátrico, onde tem uma crise de delirium tremens.

Ray Milland em Farrapo Humano

Respeitando a unidade de tempo (tudo se desenrola no espaço de um fim-de-semana), de lugar (Nova York abafada pelo calor do verão) e de ação (a procura do álcool que recomeça sem cessar) e utilizando com eficácia os exteriores (boa parte das filmagens ocorreu na Terceira Avenida de Nova York com as câmeras escondidas para não atraírem a curiosidade dos passantes e no Hospital Bellevue); beneficiando-se de uma fotografia e montagem apuradas, de um score original  (com o uso do theremin, instrumento perfeito para sugerir o delírio do protagonista) e principalmente da estupenda interpretação de Ray Milland, Wilder realizou um filme perfeito em todos os domínios técnicos e artísticos, apesar do final feliz  forçado. São impressionantes a sequência do delirium tremens, quando o dipsomaníaco imagina um morcego atacando um rato em um buraco da parede e a sequência na ópera, reveladora da aflição e do problema de Birnam, quando vemos suas alucinações em plena representação. Filme, roteiro adaptado, diretor e ator foram vencedores do Oscar e houve indicação para Música de Filme Não Musical (Miklos Rosza), Fotografia (preto-e-branco) (John F. Seitz) e Montagem (Doane Harrison).

Os dois últimos filmes de Wilder nos anos 40 foram A Valsa do Imperador / The Emperor Waltz e A Mundana / A Foreign Affair, ambos de 1948.

Joan Fontaine e Bing Crosby em A Valsa do Imperador

A Valsa do Imperador é uma comédia romântica semimusical, luxuosa e technicolorida, cuja ação transcorre na Viena do Imperador Francisco José, contando os amores de uma condessa austríaca, Johanna Franziska von Stoltzenberg-Stoltzenberg (Joan Fontaine) com um caixeiro viajante americano vendedor de gramofones, Virgil Smith (Bing Crosby), em paralelo malicioso com o amor canino entre a cadela de raça de Johanna e o viralata de Virgil. Alguns personagens caricatos  – o imperador sob constante perigo de vida (Richard Haydn), o barão mulherengo e falido (Roland Culver) e o veterinário-psiquiatra da côrte (Sig Ruman) – e algumas boas piadas  divertem; os figurinos, os interiores e a paisagem montanhesa do Tyrol (na verdade o Jasper National Park em Alberta, Canadá) encantam; porém faltou vivacidade no ritmo e nas interpretações dos dois artistas principais. Edith Head e Gile Steele foram indicadas para o Oscar de Melhor Figurino (cores) e Victor Young para o de Melhor Música (de musical).

Marlene Dietrich, John Lund e Jean Arthur em A Mundana

 A Mundana é uma comédia romântica ridicularizando o moralismo americano puritano, que assume um aspecto realista ao mostrar em locação uma cidade devastada no pós-guerra, os problemas diários do exército de ocupação, as dificuldades de existência  em uma capital em ruínas, as maquinações engenhosas dos exploradores do mercado negro. Em 1948, uma delegação do Congresso Americano é enviada a Berlim para investigar sobre a moral das tropas ali estacionadas. Phoebe Frost (Jean Arthur), uma senadora representante republicana de Iwoa, fica escandalizada com a depravação moral reinante, notadamente a propósito de um oficial do exército que estaria protegendo uma cantora de cabaré, Erika von Schlütow (Marlene Dietrich), suspeita de estar escondendo seu amante nazista Hans Otto Birgel (Peter von Zerneck), ex-agente da Gestapo. Phoebe pede a ajuda do Capitão John Pringle (John Lund), sem saber que ele é justamente o oficial em questão. Para acalmá-la, Pringle começa a namorá-la, os dois se apaixonam, e ele finalmente esclarece as razões de sua “amizade” com Erika: descobrir o paradeiro de Birgel, que  finalmente morre em um confronto com a polícia militar. Erika é presa e o casal de namorados volta para a América. Wilder exercita seu talento sarcástico em vários diálogos e cria situações de apreciável comicidade como, por exemplo, quando o Coronel Plummer (Millard Mitchell), para evitar que seus homens cedam aos encantos de Erika, manda dois guardas escoltarem-na até a prisão e eles por sua vez são vigiados por outros dois ou quando Phoebe recita um poema de Longfellow “The Midnight Ride of Paul Revere”, para evitar os avanços de Pringle e ele, no final, faz o mesmo quando ela lhe pede um beijo. O primeiro passeio de Phoebe  pelo setor americano, monitorada por Plummer, é hilariante. O compositor Frederick Hollander compôs três canções “Lovely Illusions”, “Ruins of Berlim” e “Black Market”, que refletem o período de tempo no qual se passa a ação e são interpetadas por Marlene no seu estilo inimitável, acompanhada ao piano pelo próprio Hollander. Marlene, Jean Arthur e John Lund, compenetrados nos seus respectivos papéis, sustentam com brilho o espetáculo.

MYRNA LOY

Myrna Adele Williams (1905 – 1993) nasceu em Helena, Montana, filha de Della Mae Johnson e de David Franklin Williams, dono de um rancho em Crow Creek Valley. O avô paterno de Myrna, David Thomas Williams, era galês e emigrou de Liverpool, Inglaterra para os Estados Unidos em 1856. Ele se instalou no Território de Montana, onde se tornou um rancheiro. Os avós maternos de Myrna eram imigrantes escocêses e suecos. Aos vinte e três anos de idade, seu pai foi o homem mais jovem jamais eleito para servir na legislatura da cidade de Montana. Sua mãe havia estudado música no American Conservatory of Music em Chicago e chegou a pensar em se tornar uma artista de concerto, mas acabou se devotando à criação de seus filhos, Myrna e seu irmão mais novo, David.

Myrna Loy fotografada por George Hurrell

Myrna passou a infância em Radersburg, comunidade rural de mineração situada no sudeste de Helena. Após a morte de seu pai durante a epidemia de gripe de 1918, sua mãe mudou-se permanentemente com a família para a Califórnia, fixando residência em Culver City, fora de Los Angeles. Myrna estudou na Westlake School for Girls, escola particular de elite, mas quando revelou para duas diretoras que queria se tornar dançarina profissional, elas a castigaram, informando-lhe que, para uma jovem que havia recebido todas vantagens e uma educação para entrar na sociedade, uma futura carreira como dançarina era imprópria. Diante disso Myrna saiu da Westlake e foi estudar em uma escola pública, Venice Union Polytechnic High.

Enquanto estava fazendo o curso colegial, Myrna arranjou alguns empregos de meio expediente tais como ensinar dança para crianças ou substituindo uma amiga coladeira de filmes nos laboratórios do pioneiro do cinema David Horsley. Um trabalho que não foi pago em dinheiro, mas lhe trouxe beneficios de outra espécie, foi servir de modelo para o seu professor de escultura na Venice High School, Harry Fielding Winebrenner. Sua figura representava a “Inspiração” no grupo de escultura alegórica “Fountain of Education” que, completado em 1922, foi instalado em frente da piscina externa do campus em maio de 1923, onde ficou por décadas. Uma foto de sua figura esguia com o rosto erguido e um braço estendido em direção ao céu apresentando “uma visão de pureza, graça, vigor juvenil, e aspiração”, foi escolhida para ilustrar uma matéria dos Los Angeles Times juntamente com o nome da modelo – a primeira vez em que o nome de Myrna apareceu em um jornal.

Estátua de Myrna – Fountain of Education

Aos 18 anos de idade Myrna saiu da escola para ajudar nas finanças da família e conseguiu trabalho no Grauman´s Egyptian Theatre, como dançarina nos prólogos (números musicais apresentados ao vivo no palco dos cinemas com temas relacionados com os dos filmes que seriam exibidos em seguida). Toda a trupe de dançarinas dos prólogos do Grauman’s Egyptian apareceu em uma cena de orgia de um filme dirigido por Raoul Walsh, Babilônia ou O Filho Pródigo / The Wanderer / 1926, mas com ela era um membro anônimo de um grupo, Myrna não considerou esta como sua verdadeira estréia no cinema.

Após uma performance no Egyptian Theatre, um fotógrafo de retratos de Hollywood chamado Henry Waxman, aproximou-se de Myrna nos bastidores e se ofereceu para tirar umas fotos dela. Durante uma visita ao estúdio de Waxman, Rudolph Valentino viu a foto de Myrna, achou-a notavelmente fotogênica, mostrou-a para sua esposa Natasha Rambova, porque sabia que esta também ficaria impressionada com a jovem dançarina, e lhe ofereceu um teste para seu próximo filme Cobra / Cobra / 1925; porém ela não se saiu bem, perdendo o papel para Gertrude Olmstead. Desapontada, Myrna deixou seu emprego no Egyptian Theatre e procurou o departamento de elenco da MGM, conseguindo aparecer em duas produções do estúdio, porém apenas como figurante: Ben-Hur / Ben-Hur / 1925, como uma espectadora da corrida de bigas (cena cortada posteriormente) e A Mosca Negra / Pretty Ladies / 1925 como uma das coristas. Frustrada, Myrna recorreu a Natasha Rambova e esta lhe ofereceu um papel no filme O Preço da Beleza / What Price Beauty? (estrelado por Nita Naldi), que estava produzindo com a ajuda financeira de Valentino, embora os dois estivessem prestes a se divorciar. A certa altura da narrativa a heroína sonha que está em um salão de beleza, onde desfilam vários tipos de mulher, representados por diferentes modelos, vestindo roupas do figurinista Adrian. Myrna aparecia como uma “vamp intelectual”, com uma maquilagem e vestido exóticos e, embora esta sua participação fosse muito pequena, chamou a atenção da revistas de fãs. Em julho de 1925, um mês antes de seu vigésimo aniversário, Myrna Loy assinou um contrato com a Warner Bros. Nesta ocasião resolveu adotar o nome artístico de Myrna Loy, sugerido por um poeta de vanguarda, Peter Rarick, amigo de Henry Waxman.

Quem possibilitou esta contratação foi Minna Wallis, irmã do futuro produtor da Warner, Hal. B. Wallis, que era secretária particular de Jack Warner e se tornaria depois agente de vários artistas. Waxman mostrou-lhe as fotos de Myrna e pediu que ela conseguisse agendar um teste para a sua descoberta, porém Minna preferiu introduzir Myrna em uma cena de um filme intitulado O Demônio Elegante / Satan in Sables / 1925, sentada no colo do ator Lowell Sherman. O ardil funcionou. Depois de ver os rushes, Jack Warner perguntou “Quem está ao lado de Sherman?”. Suas próximas palavras foram, “Contrate-a”.

Conrad Nagel e Myrna Loy em The girlfrom Chicago

Myrna Loy em Através do Pacífico

Entre 1926 e 1929 ela participou de  36  filmes na Warner em pequenos papéis; sem ser creditada; como vamp ou personagens de origem asiática; em alguns papéis principais. 1926 – O Homem da Caverna / The Caveman; Entre Uma Noiva e Outra / The Love Toy; Quando Elas se Arrependem / Why Girls Go Back Home / A Felicidade  Dependerá do Dinheiro / The Gilded  Highway; O Rapaz e a Cigana ou Ele e a Cigana / Exquisite Sinner; Em Paris é Assim / So This is Paris; Don Juan / Don Juan (Mai, uma dama de companhia); Através do Pacífico / Across the Pacific (seu primeiro papel de asiática como uma nativa filipina); O Terceiro Degrau / The Third Degree. 1927 – Noite Infernal / Finger Prints; Quando o Homem Ama / When a Man Loves; A Vingança / Bitter Apples; Banida da Corte / The Climbers; A Doutrina do Bem / The Heart of Maryland; Nunca é Tarde Para o Amor / A Sailor´s Sweetheart; O Cantor de Jazz / The Jazz Singer (como uma corista); Uma Pequena de Fora  / The Girl from Chicago (primeiro papel principal ao lado de Conrad Nagel);

Conrad Nagel e Myrna Loy em Uma Pequena de Fora

Dois Turunas na Guerra / Ham and Eggs at the Front; Se Eu Fosse Solteiro / If I Were Single. 1928 – Cuidado com os Casados / Beware a Married Man; Uma Noiva em Cada Porto / A Girl in Every Port; Horas Que Voltam / Turn Back the Hours; Quando o Destino Castiga / The Crimson City (como a escrava chinesa Onoto);

Myrna Loy em Quando o Destino Castiga

Myrna Loy em Astúcia de Mulher

Myrna Loy em A Canção do|Deserto

Pague na Entrada / Pay As You Enter); Astúcia de Mulher / State Street Sadie; O Taxi da Meia-Noite / The Midnight Taxi; A Arca de Noé / Noah’s Ark (dançarina na sequência da Broadway; escrava na sequência bíblica); Menina da Fuzarca / Fancy Baggage. 1929 – Rosa Encantada / Hard Boiled Rose; A Canção do Deserto / The Desert Song (a mestiça Azuri); A Guarda Negra / The Black Watch (a indiana Yasmani); The Squall (a cigana Nubi); Amor Silvestre / The Great Divide (a mexicana Manuella); Evidência / Evidence (uma nativa birmanesa); A Parada das Maravilhas / Show of Shows (em dois números de dança:  “What Became of Floradora´s Boys” e “ Chinese Fantasy”). Em dezembro de 1929 Myrna foi dispensada da Warner sob a alegação de que os papéis de orientais estavam fora de moda e que portanto não precisavam mais do seu tipo.

Myrna Loy em Amor Nativo

Myrna Loy e Warner Baxter em Don Juan do México

Myrna Loy em A Noiva do Regimento

Myrna Loy e Warner Baxter em Renegados

Entre 1930 e 1933 Myrna fez filmes para a Fox, MGM, RKO e outras companhias, já se impondo em determinados papéis a partir de 1932: 1930 – Colhendo Amores / Cameo Kirby; Amor Nativo / Isle of Escape; Don Juan do México/ Under a Texas Moon; O Seguro do Amor / Cock O´ The Walk; A Noiva do Regimento / Bride of the Regiment; Na Ronda do Faroeste / The Last of the Duanes; A Princesa do Bairro / The Jazz Cinderella; O Homem Mau / The Bad Man; Renegados / Renegades; The Truth About Youth; Rogue of the Rio Grande; The Naughty Flirt; O Diabo Que Pague / The Devil to Pay. 1931 – Corpo e Alma / Body and Soul; Um Ianque na Corte do Rei Arthur / A Connecticut Yankee (como Fada Morgana, irmã do Rei Arthur);

Myrna Loy em Um Ianque na Corte do Rei Arthur

Myrna Loy e Ronald Colman em Médico e Amante

Myrna Loy, Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald em Ama-me Esta Noite

Myrna Loy e Boris Karloff em A Mâscara de Fu Manchu

Myrna Loy e John Barrymore em Topázio

Myrna Loy e Ramon Novarro em Uma Noite no Cairo

O Preço da Ventura / Hush Money; O Preço da Ventura / Hush Money; Rebound; Transatlântico / Transatlantic; A Babel de Ferro / Skyline; Casamento de Consolação / Consolation Marriage; Médico e Amante / Arrowsmith. 1932 – Emma / Emma; Vanity Fair (primeiro papel principal na Allied Artists como Becky Sharp); E O Mundo Marcha / The Wet Parade; A Mulher no Quarto 13 / The Woman in Room 13; New Morals for Old; Ama-me Esta Noite / Love Me Tonight (como a Condessa Valentine, sobrinha do Duque d’Artel (C. Aubrey Smith); Treze Mulheres / Thirteen Women; A Máscara de Fu Manchu / The Mask of Fu Manchu (inesquecível como Fah Lo See, a filha sádica e sensual de Fu Manchu); Pouco Amor Não é Amor / The Animal Kingdom. 1933 – Topázio / Topaze  (como Coco, a sedutora amante do barão de la Tour-La Tour, contracenando com John Barrymore no papel título), O Rio Escarlate / Scarlet River; Uma Noite no Cairo / The Barbarian (finalmente como leading lady na MGM ao lado de Ramon Novarro); A Rival da Esposa / When Ladies Meet); Pela Vida de um Homem/ Penthouse; Asas da Noite / Night Flight (como esposa do piloto brasileiro (William Gargan); O Pugilista e a Favorita / The Prizefighter and the Lady. Uma curiosidade: Myrna recusou o papel de Cleopatra, a trapezista que se casa com o anão interessada no seu dinheiro em Monstros / Freaks / 1932, personagem afinal interpretada por Olga Baclanova.

Myrna Loy e Clark Gabvle em Alma de Médico

William Powell, Asta e Myrna Loy em A Ceia dos Acusados

Jean Harlow, Spencer Tracy e Myrna Loy, astros de Ciúmes

Robert Montgomery e Myrna Loy em Tirano Irresistível

Myrna Loy e William Powell em Ziegfeld, o Criador de Estrelas

Clark Gable, Myrna Loy e Spencer Tracy, astros de Piloto de Provas

Myrna Loy e Clark Gable em Sob o Céu dos Trópicos

Tyrone Power e Myrna Loy em E As Chuvas Chegaram

A partir de 1934 Myrna tornou-se uma estrela, atuando como leading lady ou na companhia de outros astros e estrelas na MGM e também quando emprestada para outros estúdios. 1934 – Alma de Médico / Men in White (com Clark Gable); Vencido pela Lei / Manhattan Melodrama (com Clark Gable, William Powell); A Ceia do Acusados / The Thin Man (primeiro dos seis filmes da famosa série que mistura  admiravelmente comédia maluca com drama criminal de mistério, baseada  no romance de Dashiell Hammett, com Myrna e William Powell como Nora e Nick Charles um casal perfeitamente feliz e sofisticado, que se diverte bancando os detetives, ajudados por sua cadela de estimação Asta); Uma Noite em Istanbul / Stamboul Quest (com George Brent); Chantagem / Evelyn Prentice (com William Powell); A Vitória Será Tua / Broadway Bill (com Warner Baxter na Columbia). 1935 – Asas nas Trevas / Wings in the Dark (com Cary Grant na Paramount); Ladra Encantadora / Whipsaw (com Spencer Tracy). 1936 – Ciúmes / Wife vs. Secretary (com Clark Gable, Jean Harlow); Tirano Irresistível / Petticoat Fever (Robert Montgomery); Ziegfeld, o Criador de Estrelas / The Great Ziegfeld (com William Powell, Luise Rainer); Esposa e Amante / To Mary – with Love (com Warner Baxter na Twentieth Century-Fox); Casado com Minha Noiva / Libeled Lady (com William Powell, Jean Harlow, Spencer Tracy); A Comédia dos Acusados / After the Thin Man (com William Powell). 1937 – Parnell, O Rei sem Corôa / Parnell (com Clark Gable); Amor em Duplicata / Double Wedding (com William Powell). 1938 – Amor de Ida e Volta / Man-Proof (com Franchot Tone, Rosalind Russell); Piloto de Provas / Test Pilot (com Clark Gable, Spencer Tracy); Sob o Céu dos Trópicos / Too Hot to Handle (com Clark Gable, Walter Pidgeon). 1939 – Noite Feliz / Lucky Night (com  Robert Taylor); E As Chuvas Chegaram / The Rains Came com Tyrone Power na Twentieth Century-Fox); O Hotel dos Acusados / Another Thin Man (com William Powell).

Em 1941 Myrna fez Meu Querido Maluco / Love Crazy e A Sombra dos Acusados / Shadow of the Thin Man (ambos com William Powell) e, depois de alguns acontecimentos na sua vida particular (divórcio em 1942 do produtor Arthur Hornblow Jr., de quem fôra amante desde 1932  – quando ele ainda era casado – e com quem se casara em 1936; divórcio de John Hertz, Jr. com quem se casara em 1942 e se divorciara em 1944) e de ter abandonado sua carreira para colaborar com o esforço de guerra  e de trabalhar para a Cruz Vermelha, Myrna retornou em 1944 à MGM para atuar em, O Regresso Daquele Homem / The Thin Man Goes Home (com William Powell).

Myrna Loy e Fredric March em Os Melhores Anos de Nossas Vidas

Cary Grant e Myrna Loy em Lar … Meu Tormento

Myrna Loy e Robert Mitchum em O Vale da Ternura

A partir de 1946, Myrna trabalhou para vários estúdios: 1946 – Amor Tempestuoso /  So Goes My Love (com Don Ameche na Universal; Os Melhores Anos de Nossa Vida / The Best Years of Our Lives  (seu filme predileto como a compreensiva e suave Milly, esposa do banqueiro que retorna da guerra (Fredrich March) na Goldwyn). 1947 – Solteirão Cobiçado / The Bachelor and the Bobby-Soxer (Com Cary Grant, Shirley Temple na RKO); A Canção dos Acusados / Song of the Thin Man (com William Powell na MGM); Senador Indiscreto /The Senator Was Indiscreet(uma breve aparição sem ser creditada na Universal). 1948 – Lar … Meu Tormento / Mr. Blandings Builds His Dream House (com Cary Grant na RKO). 1949 – O Vale da Ternura / The Red Pony (com Robert Mitchum na Republic). The Dangerous Age / If This Be Sin nos EUA (com Roger Livesey na London Films, Inglaterra). Em 1946 Myrna casou-se com Gene Markey, de quem se divorciou em 1950 e no ano seguinte contraiu matrimônio com Howland H. Sargeant, divorciando-se deste seu último marido em 1960.  Em 1948 ela foi a primeira celebridade de Holllywood a trabalhar para a UNESCO.

Myrna Loy e Clifton Webb em Papai Batuta

Myrna Loy em Aeroporto 70

 

De 1950 até o final de sua carreira em 1980, Myrna fez: 1950 – Papai Batuta / Cheaper by the Dozen (com Clifton Webb na Twentieth Century-Fox). 1952 – A Família do Gênio / Belles on Their Toes (continuação de Papai Batuta com Jeanne Crain na Twentieth Century-Fox). 1956 – A Filha do Embaixador / The Ambassador’s Daughter (com Olivia de Havilland, John Forsythe para a Norman Krasna Prod. / UA). 1958 – Por um Pouco de Amor / Lonely Hearts (com Montgomery Clift, Robert Ryan para a Dore Schary Prod. / UA). 1960 – Paixões Desenfreadas / From the Terrace (com Paul Newman, Joanne Woodward para a Linebrook Prod. / T. C. Fox; A Teia de Renda Negra / Midnight Lace (com Doris Day, Rex Harrison para a Arwin Prod. / UI). 1969 – Um Dia em Duas Vidas / The April Fools (com Jack Lemmon, Catherine Deneuve, Charles Boyer para a Jalem Prod.). 1974 – Aeroporto 75 / Airport 1975 (com Charlton Heston e outros na Universal). 1978 – Se Não Me Mato, Morro / The End (com Burt Reynolds, Sally Fields para Reynolds Prod./UA). Diga-me o que Você Quer / Just Tell Me What you Want (com Alan King, Ali Mac Graw na Warner). Myrna trabalhou também no teatro  (1961-1978) e na televisão (1955-1982) mas neste artigo relembro apenas sua carreira cinematográfica.

Em 1990, aos 85 anos de idade, Myrna recebeu um Oscar Honorário da Academia “em reconhecimento às suas extraordinárias  qualidades, no Cinema e fora dele, com a admiração por uma vida de desempenhos inesquecíveis”. Sem ter mais forças para viajar, ela foi vista por satélite no seu apartamento em Nova York, dizendo simplesmente, “Vocês me fizeram muito feliz. Muito obrigado”. Myrna faleceu durante uma cirurgia no Lennox Hill Hospital em Manhattan aos 88 anos de idade.

Myrna “a única menina boazinha de Hollywood”

John Ford, que tinha uma certa atração por ela, costumava provocá-la chamando-a de “ The only good girl in Hollywood” (“A única menina boazinha de Hollywood”), sempre discreta, ao contrário de outras jovens atrizes sedutoras. Se levarmos em conta tudo o que Myrna realizou na tela e fora dela, demonstrando (como disse Emily W. Leider (na sua magnífica biografia publicada pela University of California em 2011, que foi muito útil para a minha pesquisa) uma preocupação permanente com os problemas mundiais e por outras pessoas, o rótulo de menina boazinha ressoa além do significado original de Ford.

 

ANTES DE HOLLYWOOD

Os primeiros grandes centros de produção de filmes nos Estados Unidos foram Nova York, Chicago e Filadélfia. Devido à constante demanda de filmes, as companhias tinham de produzí-los regularmente. Entretanto, os longos meses de inverno naquelas cidades traziam problemas, notadamente para as firmas que não possuíam um estúdio bem equipado e com luz artificial adequada. Para dar conta dos pedidos, os principais produtores enviavam equipes para filmagem em locações em todo o país ou fora dele, procurando cenários ideais e tempo ensolarado. Várias companhias experimentaram lugares como Fort Lee, New Jersey; Jacksonville, Flórida; San Antonio, Texas; Santa Fé, Novo México; e até Cuba – até que encontraram o local definitivo da indústria de cinema americana: o sul da Califórnia, mas especificamente o subúrbio de Los Angeles chamado Hollywood.

Recentemente, graças ao livro “Silent Films in St. Augustine” (University Press of Florida, 2017) de autoria de Thomas Graham, professor emérito de História do Flagler College de Saint Augustine na Flórida, fiquei sabendo da existência de mais um centro de produção importante na história do cinema americano. A região de St. Augustine foi descoberta em 1513 pelo explorador espanhol Juan Ponce de Leon. Em 1565 Pedro Menéndez de Avilés fundou um assentamento permanente em St. Augustine e nos séculos seguintes os espanhóis, índios, franceses e ingleses lutaram pela posse da terra, até que ela se tornou parte dos Estados Unidos em 1821.

Henry M. Flagler

Nos anos 1880, Henry M. Flagler, co-fundador da Standard Oil Company com John D. Rockefeller, veio a St. Augustine e construiu hotéis de veraneio, que pareciam palácios da Renascença Espanhola. Ele construiu também uma ferrovia que ligava a Flórida aos estados do norte e eventualmente se estendeu para o sul até Key West. Foi durante a era Fagler que as companhias de cinema descobriram St. Augustine e por alguns anos usaram a Antiga Cidade como cenário para filmes que requeriam uma atmosfera tropical ou exótica. Eventualmente, mais de 120 filmes seriam feitos no todo ou em parte em St. Augustine.

Hotel Ponce de Leon em St. Augustin, um dos hotéis de Flagler

O primeiro filme conhecido feito em St. Augustine foi um travelogue de dez minutos intitulado A Trip to St. Augustine, lançado pela Selig Polyscope Company de Chicago em junho de 1906. Nos anos seguintes as estruturas da velha Espanha de St. Augustine, os hotéis magníficos de Fagler e o panorama tropical da área representariam Espanha, Itália, França, Brasil, Egito, Arábia, Africa do Sul, Hawai e até a Califórnia.

Em 1909 um grupo de atores da Kalem Company tomou o trem de Jacksonville para St. Augustine para filmar um cena no velho Fort Marion, que faria parte de um curta de 1 rolo, The Seminole´s Vengeance. Nesta época as companhias de cinema não davam crédito a nenhum dos principais envolvidos na realização dos filmes, mas é bastante provável que Sidney Olcott dirigiu e atuou no filme e que Gene Gauntier escreveu o roteiro e interpretou o principal papel feminino. Com o passar do tempo, quando o público começou a reconhecer o rosto de Gauntier, ela ficou conhecida como “The Kalem Girl” e iria se tornar uma das roteiristas mais prolíficas da era silenciosa.

Gene Gauntier

Em janeiro de 1910 uma equipe da Lubin Company hospedou-se no Florida House Hotel em St. Augustine durante dois dias, para filmar algumas cenas de A Honeymoon Through Snow to Sunshine. O diretor do filme era Arthur Hotaling, um dos realizadores mais produtivos da Lubin, que apresentaria Oliver Hardy ao público em 1914 no filme Outwitting Daddy, filmado em Jacksonville. Em 1911, os atores da Kalem retornaram a St. Augustine para filmar In Old Florida, história de amor convencional, passada no tempo da dominação espanhola. Olcott e Gauntier colaboraram neste filme. A maioria das cenas foram rodadas nos jardins paisagísticos de um dos hotéis de Fagler.

No mesmo ano, a Selig Polyscope voltou a St. Augustine para filmar The Rose of Old St. Augustine, outra história de amor cuja ação transcorria na Flórida Espanhola, desta vez entremeada com muita ação e aventura.  O ator mais conhecido no filme interpretava apenas um papel coadjuvante: Tom Mix aparecia como Black Hawk um guerreiro Seminole. Somente mais tarde Mix se tornaria o cowboy ator mais famoso da tela.

Em 1912 a arquitetura no estilo árabe de um hotel em St. Augustine atraiu o pessoal da Thanhouser Company que, durante seis semanas produziu 17 filmes no local, o primeiro dos quais chamava-se The Arab´s Bride, estrelado por Florence La Badie, James Cruze e William Russell. Cruze iria se tornar um dos diretores mais bem pagos em Hollywod.

Fort Matanzas en St. Augustine

Durante o inverno de 1913 George Nichols, que havia trabalhado como diretor para a Thanhouser em St. Augustine, voltou, desta vez a serviço da Lubin, e realizou filmes explorando a paisagem, o forte, as ruas e os grandes hotéis da cidade como, por exemplo, em Women of the Desert, no qual estes cenários davam a sugestão de realidade às cenas no deserto, à cidade Mourisca e ao palácio do Califa, onde o herói beduíno encontra e resgata a heroína, que havia sido vendida como escrava por sua irmã ciumenta.

Hotel Alcazar em St. Augustine

Ainda em 1913, quatorze membros da American Éclair Company registraram-se no Hotel Alcazar, para passar algum tempo filmando cenas de Sons of a Soldier, o filme mais ambicioso feito em St. Augustine até aquela data, acompanhando as façanhas da família Primrose desde a Guerra Revolucionária através da Guerra Civil a uma hipotética guerra futura contra o Japão.

A companhia francesa Pathé Frères, que mantinha um estúdio em Fort Lee, New Jersey, abriu um estúdio ao ar livre em St Augustine em um local chamado Neptune Park, onde mantinha uma coleção de animais selvagens, para serem usados nos seus filmes. Frederick E. Wright, um dos principais diretores da Pathé, chefiava a companhia em St. Augustine. Ele realizou Bungling Bink´s Bunco, empregando dois atores principais, Walter Seymour e Lillian Wiggins e vários animais como um leão e um tigre de Bengala.  Outro filme de Wright, Pearl of Punjab, abordava o tema do casamento interracial, envolvendo  um médico britânico na Índia (Walter Seymour), sua noiva (Lillian Wiggins) e a meia-irmã indiana desta (Nell Craig). Um terceiro filme de Wright, baseado no romance de Hal Caine “ The Christian”, foi lançado como When Rome Ruled, tendo como atores principais Nell Craig como Nydia, uma jovem cristã e Clifford Bruce como um nobre romano pagão chamado Caius, que se apaixona por Nydia.

Pearl White

Um outro grupo da Pathé, liderado pelos diretores Louis Gasnier e Donald McKenzie chegou em St. Augustine para realizar um projeto mais ambicioso: filmar cenas para um próximo seriado de 20 episódios intitulado As Aventuras de Elaine / The Perils of Pauline, que faria de Pearl White uma estrela.  Os dois episódios rodados em St. Augustine giravam em torno do desejo de Pauline de pilotar um avião. Os técnicos da Pathé ergueram cenários que parecessem hangares de avião no Lewis Park, o campo de beisebol de St. Augustine e todas as pessoas da cidade foram convidadas para atuarem como figurantes. Durante a filmagem de uma cena de desastre algumas mulheres, que não faziam parte da companhia Pathé, desmaiaram nas arquibancadas contribuindo inconscientemente para a vivacidade do espetáculo.

 

Old Vedder House

A Edison Company enviou um grande contingente de realizadores para a Flórida. Alguns ficaram em Jacksonville, mas outro grupo foi para St. Augustine Os diretores A. Jay Williams e Richard Ridgely comandavam o grupo. Seu objetivo era explorar ao máximo os cenários da velha Espanha da Cidade Antiga. Sua primeira produção, A Night at the Inn, foi rodada em um dos edifícios mais famosos, o velho Vedder House em frente da baía (que seria a estalagem no caso). O filme da Edison foi feito poucas semanas antes de um incêndio ter destruído o prédio antigo. A Edison usou St. Augustine para representar locais exóticos como América do Sul (The Lovely Señorita), América Central (The Silent Death) e Itália (The Message in the Rose). Outro filme da Edison, Rorke´s Drift / 1914, tornou-se uma grande produção envolvendo centenas de pessoas da comunidade. O filme foi baseado em um incidente na Guerra Anglo-Zulu na África do Sul, quando um bando de guerreiros africanos invadiram um pôsto avançado britânico chamado Rorke´s Drift. Os residentes de St. Augustine retratando soldados ingleses e guerreiros zulús (estes interpretados por cidadãos negros da área) travaram um combate na Anastasia Island, que passava pela África do Sul

É impressionante a quantidade de companhias que foram filmar em St. Augustine: além das já citadas, algumas das quais lá retornaram como Kalem, Lubin, Thanhouser, Thomas Graham aponta: Stellar Feature Photoplay Company, Aetna Film Company, Vitagraph, Fox Film Corporation, All Star Feature Films, Peerless Pictures, Dyreda Art Film Corporation, Famous Players, Ocean Film Company, Equitable, Metro Film Company, Gaumont Motion Picture Company, Mutual Film, Serial Film Company, Vim Comedy Film Company, B. S. Moss Photoplays, Popular Plays and Players, Ivan Film Company, Petrova Picture Company, American Cinema Company etc.

Uma produção da Vitagraph, A Florida Enchantment / 1914, é talvez o mais conhecido dos filmes silenciosos rodados na Flórida, em parte porque sobreviveu enquanto a grande maioria dos filmes de nitrato se perderam. Sidney Drew (tio de Lionel, John e Ethel Barrymore) atuou como diretor e ator ao lado de Edith Storey, atriz que trabalhou mais em westerns, porque sabia montar a cavalo muito bem.

A Peerless Pictures teve dois astros trabalhando em St. Augustine: Howard Eastabrook e Barbara Tennant. No filme deles, The Butterfly / 1915, Tennant é Butterfly, dançarina famosa acusada de assassinato e Eastabrook um de seus amantes que finalmente a resgata da polícia e do verdadeiro assassino. Os hotéis Alcazar e Ponce de Leon de Flagler serviram como locação para algumas cenas. O segundo filme da Peerless em St. Augustine, M´Liss / 1915, era uma adaptação do romance de Bret Harte, que havia sido também um sucesso no palco, com Howard Eastabrook e Barbara Tennant nos papéis  principais. Durante uma entrevista ao St. Augustine Record, o presidente da Peerless, J. E. Brulatour, comparando a Flórida com a Califórnia, observou que a Flórida estava apenas 32 horas distante de Nova York enquanto a viagem de trem para a Califórnia durava cinco dias. Ele reconheceu que na Flórida não havia as grandes montanhas do Oeste, mas acrescentou que St. Augustine tinha vegetação tropical, edifícios no estilo espanhol e o velho forte. Howard Eastabrook retornou a St. Augustine como protagonista de Four Feathers, filme produzido pela Dyreda Art Film Corporation. St. Augustine e as dunas  de areia de Anastasia Island faziam-se passar como o Sudão embora algumas cenas tivessem sido rodadas em Jacksonville e Nova York.

O célebre filme de Theda Bara, Escravo de uma Paixão / A Fool There Was  / 1915, produzido pela Fox Film Corporation foi rodado parcialmente em St. Augustine. No filme, Bara, a mulher fatal, escolhe como vítima, um negociante milionário (Edward Jose) como sua presa. Alguns momentos mais cedo da intriga uma das antigas vítimas da mulher vampiro implora para que ela o receba de volta e aponta um revólver em sua direção. Ela diz, “Kiss me my fool”, e ele vira a arma contra si mesmo, cometendo suicídio. Theda atuou em outros filmes com cenas rodadas em St. Augustine: Gioconda ou A Filha do Diabo / The Devil´s Daughter / 1915; Seu Grande Amor  / Her Greatest Love / 1917; Coração e Alma / Heart and Soul / 1917) sempre muito admirada e homenageada pela população local.

Pauline Frederick em Bella Donna

Quando a Famous Players decidiu produzir Bella Donna / 1915, filme que requeria cenários egípcios, aproveitou as dunas de Anastasia Island e a Villa Flora, residência particular de tijolo amarelo e pedra coquina muito usada em St. Augustine. Dirigido por Hugh Ford e Edwin S. Porter, o filme foi estrelado por Pauline Frederick no papel de uma mulher cruel e ambiciosa, que está envenando lentamente seu marido. A Famous Players anunciou-a como “sedutora e traidora … a Serpente do Nilo”. Em 1916 Pauline voltou a St. Augustine para filmar cenas de A Aranha / The Spider e em 1917, retornou mais uma vez para cenas de Madame Ciúme / Madame Jealousy e A Tosca / La Tosca.

Os esforços da câmara de comércio e do governo de St. Augustine para atrair companhias de cinema para a cidade deram bons resultados em 1917. Neste ano outras atrizes famosas da cena muda estiveram em St. Augustine para filmar algumas cenas de seus filmes: Norma Talmadge (The Law of Compensation), Evelyn Nesbitt (Redemption), Ethel Barrymore (The Call of Her People), Viola Dana (God´s Law and Man´s), Olga Petrova (The Law of the Land, Até a Morte / To The Death, Chama d´Alma / The Undying Flame, Exílio / Exile, Daughter of Destiny), Marie Doro (Heart´s Desire), Elsie Ferguson (A Canção do Deserto / Barbary Sheep), Alla Nazimova (Joguete do Destino / Toys of Fate).

Até o grande empresário teatral Florenz Ziegfeld foi parar em St. Augustine, na companhia de sua esposa e estrela Billie Burke, em busca de um convento católico e jardins exuberantes necessários para a filmagem de Divorciemo-nos / Let´s Get a Divorce, comédia baseada na peça “Divorçons” de Victorien Sardou e Émile de Najac. No filme, Billie interpreta o papel de uma jovem que cresceu vivendo uma vida protegida no claustro e anseia pela emoção de um romance. Após uma série de acontecimentos, ela cai na realidade.

Marguerite Namara e Rudolph Valentino em O Esplêndido Amante

Em 1918-1919 poucas filmagens foram feitas em St. Augustine, mas em 1920 um grupo de atores e técnicos da American Cinema Company chegou na cidade para rodar cenas de O Esplêndido Amante / Stolen Moments nos jardins e no pátio do Hotel Ponce de Leon e depois no Fort Marion e na Vila Zorayda. No enredo, Marguerite Namara é Vera Blaine, escritora que tem uma casa em Savannah na Geórgia. Vera se apaixona por Jose Dalmarez, romancista brasileiro interpretado por Rudolph Valentino (antes dele se tornar um grande astro). Dalmarez tenta convencê-la a ir com ele para o Brasil, mas admite que não pensa em casamento. Vera se recusa a acompanhá-lo e depois se casa com outro homem. Enquanto isso, Dalmarez retorna ao Brasil e tenta em vão seduzir Inez Salles (Aileen Pringle), filha de um alto funcionário do governo brasileiro (Alex Shannon). Após uma luta corporal com o irmão de Inez, Dalmarez volta para Savannah e procura chantagear Vera com uma carta de amor, que ela havia escrito para ele antes do seu casamento. Quando Dalmarez é subsequentemente assassinado, a suspeita recai sobre Vera, até que uma reviravolta na intriga revela o verdadeiro assassino. No seu lançamento em dezembro de 1920, Esplêndido Amante era um longa-metragem de seis rolos para promover Marguerite Namara, então uma cantora de ópera de sucesso. Em novembro de 1922 o filme foi remontado para três rolos, enfatizando o personagem de Valentino e relançado pela Select Film Corporation, para usufruir de seu estrelato, alcançado por sua performance em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse / The Four Horsemen of the Apocalypse / 1921.

Pouco mais de uma semana depois que o pessoal da American Company deixou St. Augustine, um grupo da velha Vitagraph Company chegou para filmar The Whisper Market / 1920, pois a história passaria em algum local da América do Sul e assim as costumeiras locações “espanholas” em torno da cidade foram usadas como cenários. Corinne Griffith estrelava o filme como a esposa de um consul americano em um país que seria presumidamente o Brasil.

Em 1924 Thomas Meigham chegou em St. Augustine para filmar apenas uma cena de Um Moderno Rocambole / The Confidence Man, no qual ele faz o papel de um vigarista, Don Corvan, que chega em uma pequena cidade, para aplicar mais um golpe. Entretanto a bondade dos habitantes daquele lugarejo toca o seu coração e ele se apaixona por uma jovem, interpretada por Virginia Valli. A única cena rodada em St. Augustine teve lugar no extremo oeste da Cincinnati Avenue na parte norte da cidade. Era uma cena de tempestade e o Corpo de Bombeiros Municipal providenciou a  chuvarada. As pessoas que assistiam à filmagem se amontoaram  tão próximo da filmagem, que acabaram ficando encharcadas junto com os atores.

Nos meados dos anos vinte St. Augustine já havia abandonado suas aspirações de se tornar um centro de produção cinematográfica. A produção de filmes na Costa Leste foi declinando e Hollywood já se tornara a capital mundial do cinema.

VINCENT PRICE

Vincent Leonard Price Jr. (1911-1993) nasceu em St. Louis, Missouri filho de Vincent Leonard Price, presidente da National Candy Company e Marguerite Willcox Price. Seu bisavô, Vincent Clarence Price, inventou o “Dr. Price´s Baking Powder”, o primeiro fermento em pó, e garantiu a fortuna da família. Vincent estudou no St. Louis Country Day School e na Milford Academy em Milford, Connecticut. Formado em História da Arte pela Universidade de Yale, após lecionar durante um ano, ele ingressou no Courtauld Institute of Art em Londres, para fazer o mestrado em Belas Artes, mas foi atraído pelo teatro, aparecendo profissionalmente no tablado em 1935 na peça “Chicago”.

Vincent Price

Em 1936, Price desempenhou o papel do Príncipe Alberto na peça de Laurence Housman “Victoria Regina”, depois encenada na Broadway, onde repetiu seu personagem ao lado de Helen Hayes, tendo sido muito elogiado pelos críticos, pelos colegas e pelo público. Ele trabalhou em mais algumas peças incusive “Parnell”, desta vez contracenando com Edith Barrett. Em 1938 Vincent foi convidado por Orson Welles para ingressar na companhia Mercury Theater, onde rencontrou Edith e se casou com ela. Neste mesmo ano, iniciou sua carreira cinematográfica na comédia romântica da Universal Serviço de Luxo / Service de Luxe ao lado de Constance Bennett, Charles Ruggles e Helen Broderick.

Vincent Price e Constance Bennett em Serviço de Luxo

Até 1945, Price interpretou somente papéis secundários, embora importantes, nos seguintes filmes: 1939 – Meu Reino por Um Amor / The Private Lives of Elizabeth and Essex. A Torre de Londres / The Tower of London 1940 – A Volta do Homem Invisível / The Invisible Man Returns, Inferno Verde / Green Hell, A Casa das Sete Torres / The House of the Seven Gables. O Filho dos Deuses / Brigham Young. 1941 – O Renegado / Hudson´s Bay 1943 – A Canção de Bernadette / The Song of Bernadette. 1944 – A Véspera de São Marcos / The Eve of St. Mark. Wilson / Wilson. Laura / Laura. As Chaves do Reino / The Keys of the Kingdom. 1945 – Czarina / A Royal Scandal. – Amar Foi Minha Ruína / Leave Her To Heaven.

Bette Davis e Vincent Price em Meu Reino por um Amor

Vincent Price e Jennifer Jones em A Canção de Bernadette

Gene Tierney e Vincent Price em Laura

Gene Tierney e Vincent Price em Amar foi Minha Ruína

Em 1946, Price interpretou seus  primeiros papéis principais em Choque! / Shock e O Solar de Dragonwick / Dragonwick) e prosseguiu como coadjuvante sempre eficiente em: 1947- Uma Aventura Arriscada / The Web. Noite Eterna / The Long Night. Rosas Trágicas / Moss Rose. 1948 – Um Sonho Distante / Up in Central Park. Legião Sinistra / Rogue´s Regiment. Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers. Ainda em 1948, ele emprestou sua voz para Às Voltas com Fantasmas / Abott and Costello Meets Frankenstein. 1949 – Lábios Que Escravizam / The Bribe. Bagdad / Bagdad. Em 1949 Vincent divorciou-se de Edith (com quem teve um filho, Vincent) e se casou com a figurinista Mary Grant (com quem teve uma filha, Victoria).

Lynn Bari e Vincent Price em Choque!

Vincent Price e Gene Tierney em O Solar de Dragonwick

Edmond O´Brien, Ella Raines e Vincent Price em Uma Avenrura Arriscada

Lana Turne e Vincent Price em Os Três Mosqueteiros

Nos anos cinquenta, Price brindou o público com três atuações memoráveis: em O Barão do Arizona / The Baron of Arizona / 1950 como James Addison Reavis, o aventureiro audacioso e arrogante que através de documentos falsos tentou se apropriar de todo o território do Arizona; em Champagne para Cesar / Champagne for Caesar / 1951 como Burnbridge Waters, o fabricante de sabonetes patrocinador de um programa de rádio de perguntas que vê a cada minuto o seu fim, quando um sabetudo vai respondendo tudo corretamente e com certeza  ganhará o prêmio milionário; em Seu Tipo de Mulher / His Kind of Woman / 1951 como Mark Cardigan, o ator cabotino e fanfarrão, que se jacta de exímio caçador e tem oportunidade de demonstrar esta habilidade, ao fazer na vida real o que fazia como herói na tela, recitando Shakespeare e desbaratando uma quadrilha de malfeitores no final do filme.

Vincent Price em O Barão Aventureiro

Vincent Price e Ronald Colman em Champagne para Cesar

Robert Mitchum, Vincent Price e Jane Russel em Seu Tipo de Mulher

No restante da década Price continuou se apresentando como coadjuvante em filmes de vários gêneros (1950 – Arrojado Embuste / Curtain Call at Cactus Creek. 1951 – Aventuras do Capitão Fabian / Adventures of Captain Fabian. 1952 – A Caminho do Pecado / The Las Vegas Story. 1954 – Tenho Sangue em Minhas Mãos / Dangerous Mission. A Grande Noite de Casanova / Casanova´s Big Night. 1955 – O Filho de Sinbad / Son of Sinbad. 1956 –Serenata / Serenade. No Silêncio de uma Cidade / While the City Sleeps. Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments. 1957 – The Story of Mankind, somente exibido na TV como A História da Humanidade. 1959 – O Grande Circo / The Big Circus) e iniciou sua trajetória exitosa no campo do horror (1953 – Museu de Cera / House of Wax. A Máscara do Mágico / The Mad Magician. 1958 – A Mosca da Cabeça Branca / The Fly. 1959 – A Casa dos Maus Espíritos / House on Haunted Hill. Força Diabólica / The Tingler.  O Monstro de Mil Olhos / Return of the Fly. Nas Garras do Morcego / The Bat). Museu de Cera e A Mosca da Cabeça Branca foram duas produções classe A de muito sucesso, o mesmo ocorrendo com duas produções classe B, A Casa dos Maus Espíritos e Força Diabólica.

Vincent Price em Museu de Cera

Museu de Cera (Warner Bros.) é uma refilmagem de Os Crimes do Museu / The Mystery of the Wax Museum / 1933 com roteiro de Crane Wilbur e direção de Andre de Toth, utilizando o Natural Vision, sistema que, por exigir óculos polarizados e ampliar a perspectiva visual, garante uma sensação ótica tridimensional (acentuada quando objetos saem da tela, projetados à face do espectador). Em um ambiente de mistério da Nova York de 1900, um escultor de figuras de cera, Henry Jarrod (Vincent Price), enlouquecido com o incêndio do seu atelier por um sócio inescrupuloso, procura reconstituí-lo e, apaixonado pela idéia de uma galeria de personagens históricas famosas, utiliza criaturas reais como matéria-prima. Entrementes, uma das visitantes do atelier verifica que uma figura assemelha-se com sua amiga que fôra assassinada, o que dá margem a uma investigação policial, que culmina com a morte do escultor ao cair em um recipiente de cera em ebulição. A narrativa do tema truculento proporciona uma série de momentos de terror que o diretor Andre De Toth – integrando-se no espírito do novo processo – maneja muito bem, mantendo o suspense e a ação movimentada.

Herbert Marshall e Vincent price em A Mosca da Cabeça Branca

A Mosca da Cabeça Branca (Regal, 20thCentury-Fox), filmado em CinemaScope, é um filme de horror acrescido de ficção científica, com roteiro de James Clavell, que tem início quando o vigia noturno de um grande laboratório, atraído pelo funcionamento da prensa, depara-se com uma cena espantosa – da máquina baixada até o ponto zero, pendem as pernas de um cientista Andre Delambre (Al Hedison) enquanto uma mulher, visivelmente transtornada, abandona às pressas o local. A polícia, na pessoa do inspector Charas (Herbert Marshall) interroga Helene (Patricia Owens), esposa do morto, supostamente a autora do crime. Em um retrospecto, o espectador é levado, com o inspector Charas (Herbert Marshall) e o cunhado de Helene (Vincent Price), para os antecedentes do fato: o cientista morto inventara um processo de desintegração e reintegração sucessiva para transportar os corpos no espaço: ao testá-lo consigo próprio viu-se misturado com uma mosca que, sem ser pressentida, entrara na câmara desintegradora. Voltando ao presente, sem que mais ninguém saiba do ocorrido, a esposa procura desesperadamente localizar o inseto para salva o marido. O diretor Kurt Neumann constrói o suspense, primeiro deixando-nos imaginar o que aconteceu no laboratório e depois adiando o desmascaramento de Andre o máximo possível. O som estereofônico (desde o ruído da prensa elétrica, ao zumbido de uma mosca) é usado para se criar o clima assim como a tela larga, como naquela cena em que vemos imagens múltiplas de Helene de uma maneira que supomos uma mosca veria e ouvimos o seu grito de terror. E quem pode esquecer a cena final quando a aranha se aproxima da mosca e ouvimos a súplica desta pedindo socorro?

 Em A Casa dos Maus Espiritos (Allied Artists) o milionário Frederic Loren (Vincent Price) reúne um grupo de convidados em uma velha mansão, onde ocorreram vários crimes, e oferece 10 mil dólares para quem passar a noite lá. Os hóspedes são assustados por aparições de esqueletos, sangue pingando do teto, uma cabeça cortada etc. Na manhã seguinte, Loren lhges revela que sua esposa e o amante haviam planejado um crime perfeito, do qual ele seria a vítima. A atmosfera de tensão e de terror é bem criada, ganhando intensidade no curso dos episódios, cada vez mais angustiantes. Emergo, o truque publicitário empregado pelo produtor-diretor William Castle – “mais espantososo do que a 3-D”, era simplesmente um esqueleto preso por fios, que delizava sobre a platéia no momento em que Loren fazia com que os dois amantes caíssem em um tanque de ácido, para serem transformados instantaneamente em um monte de ossos.

 

Vincent Price em Força Diabólica

O enredo de Força Diabólica é ridículo, porém original: um médico, Dr. Warren Chapan (Vincent Price), descobre que o medo faz com que um microorganismo, parecido com uma centopéia, cresça dentro de um corpo humano até quebrar a sua coluna vertebral, causando a morte. Ele verifica também que gritar alivia a tensão, sendo, portanto, a única maneira de impeder que o microorganismo cresça. Mais tarde, ao examinar uma surda-muda que morrera aterrorizada, pois não podia gritar, encontra a centopéida dentro do corpo da falecida. Porém o monstro foge e provoca o pânico em um cinema, onde só passam filmes mudos. Esta é a melhor cena do filme: a centopéia aparece enquanto a platéia está assistindo ao clássico bucólico de Henry King, David, o Caçula / Tol’able David / 1921. Neste ponto, algumas poltronas dos cinemas nos quais Força Diabólica estava sendo exibido, previamente eletrificadas por ordem do Sr. Castle, começavam a vibrar, e o horror se transferia da arte para a vida.

 

Vincent Price em O Solar Maldito

 

 

 

VIncent Price em Orgia da Morte

Vincent Price em O Túmulo Sinistro

Nos anos sessenta, período áureo para o horror gótico, Price participou de oito produções dirigidas por Roger Corman em cores e tela larga, adaptados livremente das obras de Edgar Allan Poe e distribuídos pela American International Pictures (AIP). Esta associação de Price com Corman obteve grande êxito comercial e mereceu o respeito dos críticos. Foram sete filmes (1960 – O Solar Maldito / The Fall of the House of Usher. 1961 – A Mansão do Terror / The Pit and the Pendulum.1962 – Muralhas do Pavor / Tales of Terror. 1963 – O Corvo / The Raven. O Castelo Assombrado / The Haunted Palace. 1964 – Orgia da Morte / Masque of the Red Death.  O Túmulo Sinistro / The Tomb of Ligéia). A literatura gótico -romântica de Poe, explorando o lado sombrio da experiência humana – morte, alienação, ansiedade existencial, pesadelos, fantasmas, várias formas de insanidade e melancolia -, apesar de discrepâncias radicais entre os textos dos contos (ou poema) originais e os enredos dos filmes, encontrou um intérprete compreensivo em Corman, que soube manter o espírito do genial escritor. Mas o principal trunfo de Corman foi obviamente Vincent Price, que embora tivesse sido às vezes criticado por superrepresentar, tirou excelente partido de sua voz suave e dicção perfeitas para expressar com perfeição os seres humanos atormentados e excêntricos desses filmes impregnados de terror psicológico, os quais examinei detalhadamente no meu post de 21 de janeiro de 2012.

Vincent Price em O Caçador de Bruxas

Ainda nos anos sessenta Price atuou em: 1961 – Robur, o Conquistador do Mundo / Master of the World. Nefertiti, a Rainha do Egito / Queen of the Nile. O Pirata Negro / Gordon, Il Pirata Nero – Rage of the Buccaneers. 1962 – Vício Que Mata / Confessions of an Opium Eater. A Morte Caminha a Meu Lado / Convicts 4. A Torre de Londres / Tower of London. 1963 – Diário de um Louco / Diary of a Madman. A Praia dos Amores / Beach Party. Nos Domínios do Terror / Twice Told Tales. Farsa Trágica / The Comedy of Terrors. 1964 – Mortos Que Matam / The Last Man on Earth. 1965 – Monstros da Cidade Submarina / War Gods of the Deep. A Máquina de Fazer Bikinis / Dr. Goldfoot and the Bikini Machine. 1966 – Bonecas Explosivas / Le Spie Vengono del  Semifreddo – Dr. Goldfoot and the Girls Bombs. 1967 – La Casa de Las Mil Muñecas –  House of a 1.000 Dolls. Os Chacais / The Jackals. 1968 – O Caçador de Bruxas(TV) / Witchfinder General. 1969 – Mais Morto Do Que Vivo / More Dead Than Alive. Lindas Encrencas: As Garotas / The Trouble with Girls. O Ataúde do Morto Vivo / The Oblong Box.

 

Dentre estes, merece destaque Farsa Trágica. uma paródia dos filmes de horror com roteiro de Richard Matheson (que colaborou com Roger Corman em quatro exemplares da série Poe), valorizada pela presença de quatro intérpretes famosos familiarizados com o gênero  (Vincent Price, Peter Lorre, Basil Rathbone, Boris Karloff) e uma breve participação do “Boca Larga” (Joe E. Brown) como um coveiro. Esta farsa cômica, misturando humor negro e burlesco, explora uma única idéia: o dono de uma empresa funerária falida, o beberrão e inescrupuloso Waldo Trumbull (Vincent Price), não podendo pagar os aluguéis atrasados reclamados pelo senhorio, Sr. John F. Black (Basil Rathbone), decide matar algumas pessoas com a ajuda de seu empregado Felix Gillie (Peter Lorre), para aumentar a clientela, inclusive o cobrador – porém este sofre de catalepsia (citando Shakesperare após cada ataque) e ressuscita diversas vezes, levando o desespero aos seus desatinados matadores. Boris Karloff é Amos Hinchley, velho senil, surdo e glutão, fundador da empresa funerária e sogro de Trumbull, cuja maltratada esposa, Amarylis (Joyce Jameson), tem mania de cantora e acaba fugindo com seu eternamente apaixonado Felix, deixando o marido em depressão. O espetáculo se excede por vezes no grotesco e vira uma chanchada, mas é bem divertido.

Vincent Price emO Uivo da Bruxa

Nos anos setenta e oitenta Price fez: 1970 – Agonia do Terror / Scream and Scream Again. O Uivo da Bruxa / Cry of the Banshee. 1971 – O Abominável Dr. Phibes / The Abominable Dr. Phibes. 1972 – A Câmara de Horrores do Diabólico Dr. Phibes / Dr. Phibes Rises Again. The Aries Computer. 1973 – As Sete Máscaras da Morte / Theater of Blood. A Casa dos Rituais Satânicos / Madhouse. 1974 – Após o Transplante, o Super-Homem / Percy´s Progress – It´s Not The Size That Counts. 1975 – Jornada do Pavor / Journey Into Fear. 1977 – The Butterfly Ball. 1979 – Scavenger’s Hunt. 1981 – O Clube dos Monstros / The Monster Club. 1983 – A Mansão da Meia-Noite / House of the Long Shadows. 1984 – Banho de Sangue na Casa do Terror / Bloodbath in the House of Death. 1987 – Do Sussurro ao Grito / The Offspring – From a Whisper to a Scream. Baleias de Agosto / The Whales of August.1988 – Um Tira do Outro Mundo / Dead Heat. O Abominável Dr. Phibes e As Sete Máscaras da Morte foram os mais importantes.

Vincent Price em O Abominável Mr.Phibes

No primeiro, dirigido por Robert Fuest e baseado em personagens criados por James Whiton e William Goldstein, em Londres, na década de 30, vários médicos são mortos de modo brutal. O Dr. Anton Phibes (Vincent Price) e sua assistente muda Vulnavia (Virginia North) são os responsáveis. Phibes fora horrivelmente desfigurado em um acidente, dado como morto, e procede à vingança contra os nove médicos nas mãos dos quais morreu sua esposa Victoria (Caroline Munro), cujo corpo está conservado em uma cripta, utilizando as Dez Pragas do G’Tach que os hebreus usaram contra os egípcios. Assim um médico é morto por picadas de abelhas; outro estraçalhado por morcegos; um terceiro sufocado por uma máscara de sapo em uma festa; o quarto deixado sem uma gota de sangue; o quinto congelado por um aparelho que produz granizo; o sexto mutilado por ratos; o sétimo empalado pelo chifre de um unicórnio de bronze. A enfermeira Allen (Susan Travers) acaba devorada por gafanhotos; e o médico-chefe Vesalius (Joseph Cotten) tem seis minutos para extrair uma chave implantada no peito de seu filho, chave com que poderá libertá-lo e impedir que um ácido caia sobre ele. Vesalius salva o filho in extremis e o ácido mata Vulnavia. Phibes se junta ao cadáver da esposa na cripta e se auto-embalsama. Quando a polícia espera a última praga – a Maldição das Trevas – as luzes se apagam e ouvimos uma gargalhada sob o som de ”Over the Rainbow”. O sucesso comercial do fime propiciou o lançamento da continuação  A Câmara dos Horrores do Diabólico Dr. Phibes, do mesmo diretor.

Vincent Price emAs Sete Máscaras da Morte

No segundo iludido por um telefonema, o crítico teatral Maxwell (Michael Hordern) é morto a facadas em um beco por uma turba de mendigos, enquanto um homem recita um texto de “Júlio Cesar”; pouco depois, seu colega Snipe (Dennis Price) é traspassado por uma lança e seu corpo arrastado por uma biga, tal como Heitor em  “Troilus e Cressida”. O inspetor Boot  (Milo O’ Shea) e o presidente da associação de críticos teatrais Devlin (Ian Hendy) suspeitam de que o supostamente  morto ator shakespereano Edward Lionheart (Vincent Price) perpetra uma vingança contra  os críticos que lhe recusaram o prêmio de melhor ator.  Ajudado por sua filha Edwina (Diana Rigg), o alucinado Lionheart mata os críticos baseando os crimes em passagens de peças de Shakespeare. A mulher de Sprout (Joan Hickson) depara-se de manhã com o marido  (Arthur Lowe) decapitado tal como Margarida em “Cymbeline”. Dickman (Harry Andrews) tem o coração arrancado e pesado pelo Shylock de “O Mercador de Veneza”. Larding (Robert Coote) se afoga em um barril de vinho (“Ricardo III”). Psaltery (Jack Hawkins) se enciúma  da mulher a ponto de matá-la (“Othelo”). A srta Moon (Coral Browne) é eletrocutada  (paródia de “Henrique VI”). Merridew (Robert Morley) devora sem querer sues cães de estimação (“Tito Andrônico”). Devlin, ferido ao esgrimar no estilo de “Romeu e Julieta”, é poupado para o final: ter seus olhos vazados (“Rei Lear”) se não entregar o prêmio a Lionheart. O crítico recusa e a polícia chega em tempo para salvá-lo, enquanto o ator faz uma derradeira apresentação e se lança do alto do teatro.

Vincent Price em Edward Mãos de Tesoura

Em 1990 a trajetória cinematográfica de Price encerrou-se com dois filmes,  Atraída pelo Perigo / Catchfire  e Edward Mãos de Tesoura / Edward Scissorshands, no qual fez o papel do criador de Edward, que morreu sem terminar sua criação. Foi seu último papel no cinema.

Price esteve sempre ativo no teatro (v .g. na companhia La Jolla Playhouse); no rádio em novelas, radioteatros ou séries radiofônicas (v. g. como Simon Templar na série imensamente popular The Saint); na televisão (v. g. aparecendo em inúmeros teleteatros, telefilmes, documentários, sitcons, séries (quem não se lembra dele como Cabeça de Ovo no seriado Batman ou como convidado de Here´s Lucy, do Carol Burnett Show, do Muppet Show entre outros?), game shows (v. g. o controvertido $64.000 Challenge, no qual disputou o prêmio, respondendo sobre arte, com Edward G. Robinson) ou animando vários talk shows com o seu irresistível senso de humor; emprestando sua voz para filmes ou vídeos (v. g. o inolvidável Thriller de Michael Jackson).

Vincent Price como O Cabeça de Ovo na série Batman

Além disso, com o seu diploma de História da Arte na Yale e um ano de estudos na Courtauld, Price foi aceito na comunidade artística de Los Angeles como um connoisseur de arte legítimo. Ele abriu uma galeria de arte de parceria com seu colega George Macready; organizou um museu de arte moderna em Los Angeles, The Modern Institute of Art; foi curador do Los Angeles County Museum e membro do UCLA Arts Council; deu palestras sobre arte em universidades e prefeituras,  sendo às vezes solicitado para declamar poemas com sua dicção impecável, acompanhado às vezes por orquestras sinfônicas; preparou com Mary, “The Michelangelo Bible”, livro luxuoso com reproduções do artista para ser vendido pela Sears; ajudou o The White House Art Committee, presidido por Jacqueline Kennedy, a comprar obras de Arte Americana; escreveu livros sobre arte “The Vincent Price Treasury of American Art), culinária (“A Treasury of Great Recipes”), uma autobiografia visual, “A Visual Autobiography – I Like What I Know” e manteve uma coluna semanal sobre arte no Chicago Tribune.

Price e sua coleção de obras de arte

Ele se casou três vezes: com Edith Barrett (1930 – div. 1948), Mary Grant (1949- 1973) e Coral Browne (1974 – 1991, quando ela faleceu). Em “Vincent Price – A Daughter’s Biography” (reeditado pela Dover em 2018) Victoria termina o epílogo do livro, contando uma história sobre seu pai, narrada por Alan Bates, que estava presente quando o fato ocorreu. “Estavamos jantando com Coral e Vincent. No final da refeição uma mulher se aproximou e pediu para Vincent, ‘O senhor pode me dar seu autógrafo?’. E ele respondeu: ‘certamente’ e assinou com o nome ‘Dolores del Rio’. Eu disse, ‘Vincent, você não pode fazer isto. Daqui a um minuto ela vai voltar enraivecida.  Ela vai derramar uma tijela de sopa na sua cabeça’. Ele virou-se para mim e falou, ‘Antes de falecer, Dolores me disse, “Nunca deixe que eles me esqueçam.” ’ ”