Arquivo da categoria: Posts

PETE SMITH

Uma das mais longas e bem sucedidas séries de curtas-metragens de todos os tempos foi Uma Especialidade de Pete Smith / Pete Smith Specialties, produzida pela MGM. Seu criador, cujo verdadeiro nome era Peter Schmidt (1892-1979), nasceu na cidade de Nova York e entrou para a indústria do entretenimento como secretário do diretor geral de um sindicato de artistas do vaudeville. Ele trabalhou na revista do sindicato e, quando esta encerrou suas atividades, arrumou emprego na revista Billboard como editor e crítico. Movendo-se para a assessoria de imprensa, Pete trabalhou com expoentes da cinematografia como Douglas Fairbanks e Samuel Goldwyn e eventualmente tornou-se o chefe do departamento de publicidade da Matro-Goldwyn-Mayer. Quando em 1931 precisaram de alguém para escrever e narrar os curta-metragens do estúdio, Pete foi o escolhido e assumiu o posto concomitantemente como os seus deveres como publicista. Em pouco tempo, no entanto, os curtas se tornaram sua única ocupação.

Pete Smith

Os primeiros shorts do quais Pete se ocupou faziam parte de duas séries da MGM: Fisherman’s Paradise e Sports Champions. Um deles, Wild and Wooly / 1931, apresentava cenas de rodeio. Pete decidiu que, em vez de exibí-las na maneira tradicional, ele iria fazer umas trucagens, filmando-as de trás para frente, congelando-as e até mostrando-as de cabeça para baixo, e acrescentando sua narração irônica e efeitos sonoros engraçados. Este se tornou seu estilo padrão.

À medida em que a popularidade de Pete cresceu e a MGM percebeu seu potencial, a MGM colocou-o em outras séries: Fisherman´s Paradise, Sports Champions, Cinemalucos / Goofy Movies; MGM Oddities, Sports Parade, MGM Miniatures, MGM Specials, MGM Musical Revue (todas com alguns exemplares exibidos no Brasil) e finalmente, em 1935, o estúdio lhe deu a sua própria série: Uma Especialidade Pete Smith.

Treze Especialidades foram indicadas para o Oscar, sendo que duas ganharam a estatueta: Dona Prudência / Penny Wisdom / 1937 e Prodígios Fotográficos ou Coisas Que Os Olhos Não Vêem / Quicker’ n a Wink / 1940.  Em 1943 Smith narrou um short patriótico para o Governo dos Estados Unidos, The Tree in a Test Tube, filmado em cores com Stan Laurel e Oliver Hardy. O narrador das Especialidades era o próprio Smith, cuja voz de tenor e tom nasal era reconhecida como uma marca da série. Aqui no Brasil ele foi dublado por Luiz Jatobá. Nos créditos o nome de Pete Smith aparecia assim: “Produzido e Narrado por um Smith chamado Pete”.

Quicker´n a Wink

Entre os diretores que trabalharam com Smith estavam Felix Feist, Will Jason, Nick Grinde, Edward L. Cahn, Joseph M. Newman, Roy Rowland, David Miller, Gunther V. Fritsch, especialistas em curtas como Ray McCarey e Jules White (que supervisionaria a carreira de Os Três Patetas), e outros como Jacques Tourneur, Fred Zinnemann e George Sidney, que construiriam uma carreira proeminente na produção A.

Cena de Os Cacetes do Cinema

Durante os anos quarenta o stuntman, depois conhecido como mocinho de westerns B e de um seriado, Capitão Meia-Noite / Captain Midnight / 1942, Dave O’Brien tornou-se o principal ator das Especialidades, interpretando sempre um sujeito enfrentando incômodos cotidianos e outros problemas com os quais os espectadores podiam se identificar, expressando sua satisfação ou frustração inteiramente em termos visuais enquanto o narrador Smith fazia um comentário. O´Brien dirigiu vários shorts, usando o nome de David Barclay.

Dave O´Brien e Dorothy Noiteem Capitão Meia-Noite

Dave O´Brien como o Capitão Meia-Noite

Alguns dos shorts de O´Brien eram baseadas em várias  “pestes”. A primeira delas, Os Cacetes do Cinema / Movie Pests é encontrada em uma platéia de cinema: a senhora que insiste em usar seu chapéu na poltrona à frente de outro infeliz espectador; um sujeito que quebra amendoins durante toda a projeção do filme e joga as cascas fora aleatoriamente; um espectador de pernas longas que mantém um pé no corredor, fazendo com que pessoas tropecem, e assim por diante. O short, indicado para o Oscar, é muito engraçado, mas o melhor ocorre no final quando alguns espectadores incomodados pelas “pestes” se vingam, um cortando as plumas do chapéu da senhora na sua frente, outro pisando no pé do idiota de pernas longas etc. Já em Como é Bom Andar de Ônibus / Bus Pests / 1945, Convidados Indigestos / Guest Pets / 1945 e Vizinhos Indigestos / Neighbor Pests / 1948, Dave tem que lidar com outras “pestes”. Neste último short os vizinhos de Dave usam seu telefone, tomam emprestado seu cortador de grama, dão festas de arromba até tarde da noite e, pior do que tudo, , abrigam um cão policial ferocíssimo.

The Romance of Radium

Em 1937 a equipe de Smith tornou-se a primeira a fotografar o radium no California Institute of Technology para o short O Romance do Radium / The Romance of Radium, indicado ao Oscar. No ano anterior, dois jovens, Arthur Ornitz e Gunther von Fritsch, trouxeram para Smith um filme de 16mm que haviam feito sobre um viralata sem teto em uma cidade movimentada. Smith gostou e os contratou para expandí-lo e refilmá-lo como Wanted: A Master, também indicado ao prêmio da Academia

Nos anos 40 Fritsch continuou a fazer shorts sobre cães para Smith, inclusive o excelente Fala-O Cachorrinho do Presidente / Fala-The President’s Dog / 1943. Este foi um dos melhores shorts do tempo da guerra, uma “ autobiografia” do cãozinho do Presidente Roosevelt que (com a voz de Pete Smith) nos conta  sobre um dia típico na sua vida . O short combina cenas de atualides e material de arquivo com novas cenas filmadas na Casa Branca, inclusive algumas tomadas de Fala brincando com “o Chefe”. Uma continuação em Technicolor, Fala-O Cachorro Prodígio / Fala at Hyde Park, foi feita anos depois com um script aprovado e ligeiramente revisado por Franklyn Delano Roosevelt.

Fala, the President´s Dog

Durante o Segundo Conflito Mundial Mundial Smith colaborou para o esforço de guerra realizando filmes para levantar a moral dos soldados e/ou filmes instrutivos.

Marines in the Making

Dois deles, Campeões do Exército / Army Champions / 1941 e Fuzileiros de Tio Sam / Marines in the Making / 1942, foram indicados para o Oscar. Porém o mais original foi Ferro Velho / Scrap Happy, contando a história de pedaços de metal curiosos achados nos montes de ferro velho recolhidos para a fabricação de armamentos.

Animado com a popularidade do seus shorts sobre esportes, principalmente Football Thrills of 1937 /1938, Smith resolveu lançar um todo ano no início de cada campeonato de futebol. Outra série-dentro-da série foi Testes / What´s Your I. Q.? , um short de testes para o público cobrindo variados temas. Em 1940, Smith superou sua série sobre 3-D iniciada nos seus MGM Specials (Audioscópios / Audiscopiks / 1935, A Nova Audioscopia / New Audioscopiks / 1938, Assassinato Metroscópio / Third-Dimensional Murder / 1941) com outro short singular, Prodígios Fotográficos ou Coisas Que Os Olhos Não Vêem / Quicker ‘n a Wink (Já mencionado acima). Ele nasceu de uma colaboração  entre o diretor George Sidney, o roteirista Buddy Adler (depois produtor e chefe de produção da 20thCentury-Fox) e o Dr. Harold Eggerton do Massachusetts Institute of Technology. Foi a primeira fez que o estroboscópio foi usado para filmar ações fugazes, para mostrar o que realmente acontece em uma fração de segundo (v. g.  uma bolha estourando, e assim por diante).

Em 1953 Smith foi agraciado com um Prêmio Honorário da Academia “pelas suas observações espirituosas e pungentes da cena americana na série Pete Smith Specialties”. Ele passou os últimos anos anos de sua vida com problemas de saúde, internado em uma casa de convalescença em Santa Monica, Califórnia e, em 12 de janeiro de 1979, cometeu suicídio, saltando do telhado do edifício, onde estava internado.

FILMOGRAFIA DAS ESPECIALIDADES PETE SMITH

1936

Killer Dog (Dir: Jacques Tourneur)

Behind the Headlines (Dir: Edward Cahn)

Olympic Ski Champions (Dir:  não creditado)

Sports on Ice (Dir: não creditado)

Hurling (Dir: David Miller)

Wanted: A Master (Dir: Gunther Von Fritsch, Arthur Ornitz). Indicado ao Oscar.

1937

Destreza / Dexterity (Dir: David Miller)

Embelezando o Belo / Gilding the Lily (Dir: David Miller).

Bar-Rac’s Night Out (Dir: Earl Frank)

Dona Prudência / Penny Wisdom (Dir: David Miller). Filmado em Technicolor. vencedor do Oscar.

Tennis Tactis (Dir: David Miller)

Grand Bounce (Dir: Jacques Tourneur)

Golf Mistakes (Dir: Felix E. Feist)

Pigskin Champions (Dir: Charles Clarke)

Acrobacias Equestres / Equestrian Acrobatics (Dir: David Miller)

Jungle Juveniles (Dir: John A. Haeseler)

Ski Skill (Dir: não creditad)

Romance do Radium / The Romance of Radium (Dir: Jacques Tourneur). Indicado ao Oscar.

Cameramaníacos / Candid Cameramaniacs (Dir: Hal Yates)

Decathlon Champion (Dir: Felix E. Feist)

1938

Verdadeiro Amigo / Friend Indeed (Dir: Fred Zinnemann)

Jungle Juveniles #2 (Dir: John A. Haeseler)

Três Numa Corda / Three on a Rope (Dir: Willard Vander Veer)

La Savate (Dir: David Miller). Filmado em Technicolor.

Penny’s Party (Dir: David Miller). Filmado em Technicolor.

Manequins de Carne e Osso / Modeling for Money (Dir: David Miller).

Heróis das Ondas / Surf Heroes (Dir: Charles T. Trego)

A História do Dr. Carver / The Story of Dr. Carver (Dir: Fred Zinnemann)

Anestesia / Anesthesia (Dir: Will Jason)

Arco e Flecha / Follow the Arrow (Dir: Felix E. Feist)

A Arte de Esmurrar / Fisticuffs (Dir: David Miller).

Footbal Thrills of 1937 (Dir: não creditado)

Grid Rules (Dir: Edward Cahn)

Tempo Quente no Gelo / Hoton Ice (Dir: Willard Vander Veer)

O Maior Amigo do Homem / Man’s Gretest Friend (Dir: Joe Newman).

O Picnic de Dona Prudência / Penny´s Picnic (Dir: Will Jason). Filmado em Technicolor.

1939

Mergulhos Duplos / Double Diving (Dir: Felix E. Feist).

Heróis por Esporte / Heroes at Leisure (Dir: Charles T. Trego)

Circo Marinho / Marine Circus (Dir: James A. FitzPatrick)

 

Profetas do Tempo

Profetas do Tempo / Weather Wizards (Dir: Fred Zinnemann)

Radio Amadores/ Radio Hams (Dir: Felix E. Feist)

A Poesia da Natureza / Poetry of Nature (Dir: Mervyn Freeman)

A Arte de Trinchar

A Arte de Trinchar / Culinary Carving (Dir: Felix E. Feist)

O Jôgo do Bilhar / Take a Cue (Dir: Felix E. Feist).

Football Thrills of 1938 (Dir: não creditado)

O Jôgo da Bola / Set’em Up (Dir: Felix E. Feist).

O Perú Assado / Let´s Talk Turkey (Dir: Felix E. Feist)

Esquiadores Alados / Ski Birds (Dir:  Charles T. Trego)

A História da Batata / Romance of the Potato (Dir: Sammy Lee).

1940

Justiça Acima de Tudo / Maintain the Right (Dir: Joe Newman, Willard Vander Veer)

What´s Your I. Q. #1 (Dir: não creditado).

Stuffie / Stuffie (Dir: Fred Zinnemann).

Sexo Forte / The Domineering Male (Dir: John Hines)

Manchas Que Desmancham / Spots Before Your Eyes (Dir: John Hines)

Testes / What´s Your I. Q. #2 (Dir: George Sidney).

Feras de Estimação / Cat College (Dir: Joe Newman).

Focas Sociais / Social Sea Lions (Dir: John Hines).

Please Answer (Dir: Roy Rowland).

Football Thrills of 1939 (Dir: não creditado).

Pete Smith, George Sidney e Dave O´Brien

Prodígios Fotográficos ou Coisas Que Os Olhos Não Vêem / Quicker’n a Wink (Dir: George Sidney. Vencedor do Oscar.

Contas de Casamento / Wedding Bills (Dir: Roy Mack)

Divertimentos Aquáticos / Sea for Yourself (Dir: Charles T. Trego)

1941

Prudência em Ação / Penny to the Rescue (Dir: Will Jason). Filmado em Technicolor.

Quiz Biz (Dir: Will Jason)

Memory Tricks (Dir: Will Jason)

Calouros do Ar  / Aeronautics (Dir: Francis Corby, S, B. Harrison)

Leões à Solta / Lions on the Loose (Dir: Marjorie Freeman)

Ritmo Cubano

Ritmo Cubano / Cuban Rhythm (Dir: Will Jason)

Piolhos D´Água / Water Bugs (Dir: Will Jason)

Football Thrills of 1940 Dir: não creditado)

Um Drama / Flicker Memories (Dir: George Sidney)

Campeões do Exército / Army Champions (Dir: Paul Vogel). Indicado ao Oscar.

Fancy Answers (Dir: Basil Wrangell)

Como Prender Seu Marido / How To Hold Your Husband -Back (Dir: John Hines)

1942

Passatempos Aquáticos / Aqua Antics (Dir: Louis Lewyn)

Quem Tem Pena de Papai / What About Daddy? (Dir: Will Jason)

Férias de Circo / Acro-Batty (Dir: Louis Lewyn)

Victory Quiz (Dir: Will Jason)

O Album de Pete Smith / Pete Smith’s Scrapbook (Dir: não creditado)

Barbee-Cues (Dir: Will Jason)

Defesa Própria / Self Defense (Dir: Philip Anderson)

Vida de Câo / It´s a Dog Life (Dir: Robert Wilmot)

Victory Vittles (Dir: Will Jason)

Football Thrils of 1941 (Dir:  Não creditado)

Como é Bom Ser Papai / Calling All Pa´s (Dir: Will Jason)

Fuzileiros Navais de Tio Sam / Marines in the Making (Dir: Herbert Polesie). Indicado  ao Oscar.

1943

Primeiros Socorros/ First Aid (Dir: Will Jason)

Os Temerários de Hollywood / Hollywood Daredevils (Dir: Louis Lewyn)

Fala – O Cachorro do Presidente / Fala – The President’s Dog (Dir: Gunther V. Fritsch)

Wild Horses (Dir: não creditado)

Asas Seguras /Sky Science (Dir: Will Jason)

Asilo Canino / Dog House (Dir: Robert Wilmot)

Mãos Videntes / Seeing Hands (Dir: Gunther V. Fritsch). Indicado ao Oscar.

A Sétima Coluna / Seventh Column (Dir: Will Jason).

Ferro Velho / Scrap Happy (Dir: Wil Jason)

Coisas Que Incomodam / Fixin’ Tricks (Dir: Will Jason)

Football Thrills of 1942 (Dir: não creditado)

Tips on Trips (Dir: Will Jason)

Sabedoria Aquática / Water Wisdom (Dir: não creditado)

1944

O Engraçadinho / Practical Joker (Dir: Will Jason)

Feito em Casa / Home Maid (Dir: Will Jason)

Groovie Movie (Dir: Will Jason)

Memórias de um Desportista / Sportsman’s Memories (Dir: não creditado)

Os Cacetes do Cinema / Movie Pests (Dir: Will Jason). Indicado ao Oscar.

Sabatina Desportiva / Sports Quiz (Dir: não creditado)

Football Thrils of 1943 (Dir: não  creditado)

Abaixo com os Acidentes/ Safety Sleuth (Dir: Will Jason)

1945

Track and Field Quiz (Dir: não creditado)

Totós de Hollywood / Hollywood Scout (Dir: Phil Anderson)

Football Thrills of 1944 (Dir: não creditado)

Convidados Indigestos / Guest Pests (Dir: Will Jason)

Como é Bom Andar de Ônibus / Bus Pests (Dir: Chuck Riesner)

Badminton (Dir: Philip Anderson)

1946

Sports Sticklers (Dir: não creditado)

Fala – O Cachorro Prodígio / Fala at Hyde Park (Dir: Gunther V. Fritsch)

Getting’ Glamor (Dir: Philip Anderson)

Studio Visit (Dir: não creditado)

Você é Bom Cavaleiro ?/ Equestrian Quiz (Dir: não creditado)

Treasures from Trash (Dir: David Barclay)

Football Thrills #9 (Dir: não creditado)

Sure Cures (Dir: David Barclay). Indicado ao Oscar.

Eu Gosto de Meu Marido … às Vezes / I Love my Husband, But! (Dir: David Barclay)

Brincando no Escuro / Playing by Ear (Dir: David Barclay)

1947

Athletiquiz (Dir: David Barclay)

Diamond Demon (Dir: David Barclay)

Esportes de Antigamente / Early Sports Quiz (Dir: David Barclay)

I Love My Wife, But! (Dir: David Barclay)

Vizinhos Indigestos / Neighbor Pests (Dir: David Barclay)

Coisas Que Aborrecem / Pet Peeves (Dir: David Barclay)

Football Thrills # 10 (Dir: não creditado)

Surfboard Rhythm (Dir: David Barclay)

What D’Ya Know (Dir: David Barclay)

Have You Ever Wonderer (Dir: David Barclay)

1948

O Rei do Boliche / Bowling Tricks (Dir: David Barclay)

Eu Gosto de Minha Sogra … às Vezes / I Love My Mother-in-Law, But! (Dir: David Barclay)

Now You See It (Dir: Richard L. Cassell). Indicado ao Oscar.

You Can´t Win (Dir: David Barclay). Indicado ao Oscar.

Vamos Supor / Just Suppose (Dir: David Barclay)

Football Thrills #11 (Dir: não creditado)

Por Que Será? / Why Is It? (Dir: David Barclay)

Pigskin Skill (Dir: Carl Dudley). Filmado em Technicolor.

Arte Sobre o Gelo / Ice Aces (Dir: David Barclay)

Vamos Cogitar / Let’s Cogitate (Dir: David Barclay)

1949

Super Homens do Bilhar / Super Cue Men (Dir: David Barclay)

What I Want Next (Dir: David Barclay)

Scientifiquiz (Dir: não creditado)

Those Good Old Days (Dir: David Barclay)

Pescando e Brincando / Fishing for Fun (Dir: Lewis Ossi). Filmado em Technicolor.

Football Thrills #12 (Dir: não creditado)

Water Trix (Dir: Charles T. Trego). Indicado ao Oscar.

Mas Como? / How Come? (Dir: David Barclay)

We Can Dream, Can´t We? (Dir: David Barclay)

Proezas Desportivas / Sports Oddities (Dir: não creditado)

Pest Control (Dir: David Barclay)

Atores a Muque / Crashing the  Movies (Dir: não creditado)

Wrong Son (Dir: Gunther V. Fritsch)

1950

Did’Ja Know (Dir: David Barclay).

Quem Conta um Conto … / That’s His Story (Dir: David Barclay). Indicado ao Oscar.

A Wife’s Life (Dir: David Barclay)

 

Wrong Way Butch (Dir: David Barclay). Indicado ao Oscar.

Football Thrills #13 (Dir: não creditado)

Magos do Bilhar / Table Toppers (Dir: David Barclay)

Competições Originais/ Curious Contests (Dir: não creditado)

Wanted: One Egg (Dir: David Barclay)

1951

Esquiadores dos Céus / Sky Skiers (Dir: Charles T. Trego) Curious Contests (Dir: não creditado)

O Gênio Louco / Fixin’Fool (Dir: David Barclay)

Fotógrafo Detetive / Camera Sleuth (Dir: David Barclay)

A Delícia dos Médicos/ Bandage Bait (Dir: David Barclay)

Football Thrills #14 (Dir: não creditado)

Isso é o Que Você Pensa / That’s What You Think (Dir: David Barclay)

Se Você é Curioso / In Case You’re Curious (Dir: David Barclay)

Proezas de Pesca / Fishing Feats (Dir: Charles T. Trego)

Acham Que Entendem os Músicos? / Musiquiz (Dir: David Barclay)

1952

Dona Gordurosa / Reducing (Dir: David Barclay)

É Só Saber Como / Mealtime Magic (Dir: Will Jason). Filmado em Technicolor.

 

Ginástica Rítmica / Gymnastic Rhythm (Dir: não creditado). Filmado em Technicolor.

It Could Happen to You (Dir: David Barclay)

Pedestrian Safety (Dir: David Barclay)

Football Thrills #5 (Dir: não creditado)

Doces Memórias / Sweet Memories (Dir: David Barclay)

Keep it Clean (Dir: David Barclay). Não foi lançado.

Adoro Crianças, Mas … / I Love Children, But! (Dir: David Barclay)

 

1953

Esquiadores Aquáticos Infantís / Aquatic Kids (Dir: não creditado)Sinuca de Bico / The Mosconi Story (Dir: David Barclay)

Você Pode Responder? / Travel Quiz (Dir: não creditado)

The Postman (Dir: não creditado)

Cachorros e Patos / Dogs’n Ducks (Dir: não creditado)

Ancient Cures (Dir: não creditado)

Cash Stashers (Dir: David Barclay)

Serviço Bem Feito / It Would Serve’ em Right (Dir: David Barclay)

This is a Living (Dir: não creditado)

Os Males do Senhorio / Landlording (Dir: David Barclay)

Things We Can Do Without (dir: David Barclay)

1954

Film Antics (Dir: David Barclay)

Ain’t It Aggravatin’(Dir: David Barclay)

Conversa Fiada / Fish Tales (Dir: não creditado). Filmado em Technicolor.

Isso de Favores… / Do Someone a Favor (Dir: David Barclay)

Out of Fun (Dir: David Barclay)

Perigos Domésticos / Safe at Home (Dir: David Barclay)

Raridades Fílmicas / The Camera Caught It (Dir: não creditado)

Rough Riding (Dir: não creditado). Filmado em Technicolor.

Sem Jeito Mandou Lembranças / The Man Around the House (Dir: David Barclay)

Mantenha-se Jovem / Keep Young (Dir: não creditado)

Proezas Esportivas / Sports Trix (Dir: não creditado)

Só Faltava Isto / Just What I Needed (Dir: David Barclay)

Adivinhe Se Puder! / Global Quiz (Dir: não creditado). Filmado em Technicolor.

Cenas do Reino Animal / Animals in Action (Dir: não creditado)

Curiosidades Históricas / Historical Oddities (Dir: não creditado)

 

Fraturas, Escoriações e Cia. / Fall Guy (Dir: não creditado). Tributo a Dave O´Brien e suas proezas atléticas com cenas de cinco de seus shorts:  You Can´t Win, Wrong Way Butch, Pet Peeves, We Can Dream Can´t We? e Let´s Cogitate.

 

TELEVISÃO CONTRA HOLYWOOD

A televisão ameaçou Hollywood com uma nova tecnologia, e Hollywood reagiu com algo equivalente, explorando as vantagens tecnológicas que o cinema possuía em 1950 sobre o novo meio: a cor, os processos de tela e filme largos e a 3a Dimensão.

A competição com a televisão ocasionou a rápida conversão da produção em preto e branco para a colorida entre 1952 e 1955. Em 1947, apenas 12% dos filmes de longa-metragem americanos eram feitos em cores; em 1954 o número havia subido para mais de 50%.

A cor foi amplamente usada desde os primórdios do cinema. Os sistemas de cor pódiam ser naturais ou artificiais. Os sistemas de cor artificial datam do nascimento do cinema e envolvem a colorização do filme no todo ou em parte. Os processos então disponíveis eram a colorização à mão, a estencilização, o tingimento e a viragem.

O Roubo do Grande Expresso

Os primeiros filmes foram coloridos à mão imagem por imagem (v. g. o plano da explosão de um tiro de revólver no final de O Roubo do Grande Expresso / The Great Train Robbery / 1903 de Edwin S. Porter). Em 1905, Charles Pathé inventou um processo de pintura por meio de estêncil chamado Pathécolor (rebatizado de Pathéchrome em 1929), que mecanizava a aplicação da cor. Nos Estado Unidos uma outra forma de estencilização foi patenteada em 1916 pelo gravador Max Handschiegl e pelo cinegrafista Alvin Wycoff. O processo Handschiegl foi usado, por exemplo, em Intolerância / Intolerance / 1916 (Dir: David Wark Griffith) e Ouro e Maldição / Greed / 1925 (Dir: Erich von Stroheim).

Ouro e Maldição

Depois, os filmes passaram a ser colorizados por meio dos processos de tingimento e viragem. O processo de tingimento (tinting) consistia na imersão do filme positivo preto-e-branco em um banho de tinta. O processo de viragem (toning) era obtido pelo tratamento químico da prata que havia no filme. A combinação do tingimento com a viragem permitia efeitos de cor complexos – tais como o efeito de crepúsculo e luar sobre as água  -, mas eram muito difíceis e caros (King Vidor usou-os em The Sky Pilot / 1921). No começo dos anos 20, 80 a 90% de todos os filmes americanos usavam um desses processos em pelo menos algumas cenas. Porém a chegada do som trouxe problemas, porque as tintas usadas interferiam na trilha de som, absorvendo muita luz.

O primeiro processo natural foi um sistema de duas cores, vermelho e azul-esverdeado denominado Kinemacolor. O filme colorido era produzido por um processo aditivo, usando-se filtros coloridos na câmera e depois no aparelho de projeção. Este sistema patenteado na Inglaterra em 1906 por George Albert Smith, e explorado nos Estados Unidos por Smith e Charles Urban, não deu bom resultado. Ele foi aperfeiçoado por William Van Doren Kelley, que usou um processo subtrativo (eliminando as cores não desejadas do espectro). Seu sistema, Prizmacolor, foi usado em shorts e inserções ocasionais em filmes como Horizonte Sombrio / Way Down East / 1920  (Dir: David Wark Griffith) e Flor de Ouro / The Gilded Lily / 1921 (Robert Z. Leonard), mas também tinha defeitos. Para solucioná-los, Kelley se uniu com Handschiegl em 1926, e lançaram um sistema de embebimento (imbibition) com o nome de Kelley Color. Todavia, nessa ocasião, o mercado do filme colorido já estava dominado pela Technicolor Motion Picture Corporation.

Van Doren e a câmera do Prizmacolor

Câmera do Kinemacolor

The Gulf Between

Flor de Lotus

Os fundadores da Technicolor (o “ Tech” de Technicolor derivou de sua associação com o Massachussetts Institute of Technology), Herbert T. Kalmus e Daniel Comstock, criaram um sistema de duas cores baseado na colagem ou cimentação de dois negativos. Primeiramente, eles experimentaram um sistema aditivo parecido como o Kinemacolor em The Gulf Between / 1917 (Dir: Wray Physioc), que apresentou problemas no ajuste do prisma acoplado ao projetor para registrar adequadamente as duas imagens coloridas na tela. Kalmus e Comstock então introduziram o Technicolor subtrativo de duas cores em Flor de Lotus / The Toll of the Sea / 1922 (Dir: Chester Franklin). O processo número dois tinha como novidade o registro da cor na própria imagem, sem necessidade de filtros. Um único negativo registrava tanto o vermelho quanto o azul-esverdeado. Duas matrizes eram produzidas  e recebiam um banho de tinta de uma cor complementar à cor original registrada (a vermeha recebia o ciano e a azul-esverdeada o magenta), sendo depois coladas, para dar origem às cópias de exibição.

Os Dez Mandamentos

Ben-Hur

O Fantasma da Ópera

 

O Vagabundo do Deserto

O Pirata Negro

Os avanços do novo sistema encorajaram os produtores hollywoodianos a empregar o Technicolor em algumas cenas de filmes em preto e branco (v. g. Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments / 1923 (Dir: Cecil B. DeMille), O Grande Desfile / The Big Parade / 1925 (Dir: King Vidro), Ben-Hur / Ben-Hur / 1926 (Dir: Fred Niblo), O Fantasma da Ópera / Phantom of the Opera / 1926 e depois em filmes inteiramente em Technicolor como O Vagabundo do Deserto / Wanderer of the Wasteland / 1924 (Dir: Irvim Willat|) e O Pirata Negro / The Black Pirate / 1926 (Dir: Albert Parker). Porém o segundo processo também tinha suas próprias dificuldades: as tiras de película coladas dobravam-se sob o calor da projeção, deixando o vfilme fora de foco.

O Rei dos Reis

A Marcha Nupcial

Um terceiro processo empregou um método de embebimento parecido como de Kelley e Handschiegl, que dispensava a colagem. O embebimento permitiu à Technicolor um controle muito maior das cores. O Rei dos Reis / The King of Kings / 1927 (Dir: Cecil B. DeMille) e A Marcha Nupcial / The Wedding March / 1928 (Dir: Erich von Stroheim) usaram este sistema, que ficou em uso geral até 1933. Na fase Sonora, o novo processo foi primeiramente usado em sequências de Broadway Melody / Broadway Melody / 1929 (Dir: Harry Beaumont) e A Canção do Deserto / The Desert Song / 1929 (Dir: Roy Del Ruth) e os primeiros filmes sonoros inteiramente em Technicolor foram Toca a Música / On With the Show / 1929 (Dir: Alan Crosland) e As Mordedoras / Gold Diggers of Broadway / 1929 (Dir: Roy Del Ruth). A Warner realizou o ultimo filme em technicolor de duas cores, Os Crimes do Museu / The Mystery of the Wax Museum / 1933 (Dir: Michael Curtiz). No final dos anos 20, foi também utilizado um outro processo de duas cores intitulado Multicolor (v. g. algumas sequências de Follies / Fox Movietone Follies of 1929 / 1929 (Dir: David Butler).

Toca a Música

 

As Mordedoras

Os Crimes do Museu

Finalmente, em 1932, Kalmus lançou um processo de três cores, o chamado glorious technicolor. Ele criou uma câmera especial, dentro da qual correm três negativos diferentes, cada um deles sensível à uma cor básica: o vermelho, o verde e o azul. Os negativos servem para fazer as matrizes, cujas superfícies retêm os colorantes por embebimento, tal como as pedras litográficas retêm a tinta de impressão. Cada matriz é coberta com uma tinta de cor complementar, a matriz vermelha recebendo o ciano; a verde, o magenta; e a azul, o amarelo. Uma de cada vez, as matrizes são postas em contato, sob alta pressão, com o filme receptador (que é um filme preto-e-branco coberto de uma substância para fixar as cores), e a tinta é transferida para este.

Natalie Kalmus

O processamento das cópias era totalmente controlado pela companhia. Os produtores alugavam as câmeras especiais da Technicolor e o trabalho de cameramen que sabiam operá-las, inicialmente J. Arthur Ball e, depois, Ray Rennahan. Outra imposição da Technicolor era a de que a mulher de Kalmus, Natalie Kalmus, servisse como consultora, para garantir o controle de qualidade. Por isso, o nome dela aparece nos créditos de todos os filmes rodados no processo technicolor. Esse processo de três cores era tecnicamente superior a qualquer outro, mas tinha seus inconvenientes. O aluguel das câmeras custava caro e elas eram muito pesadas, complicando a filmagem em locação. A exposição de três nergativos em preto e branco requeria muita luz, aumentando ainda mais os custos de produção.

Herbert Kalmus e Walt Disney

Flores e Árvores

Vaidade e Beleza

 

A Technicolor não quis se aventurar no campo da produção por conta própria, preferindo oferecer o processo inicialmenteaos pequenos independentescomo Walt Disney e a Pioneer Film. Disney foi o primeiro a usar o Technicolor de três cores no seu desenho Flores e Árvores / Flowers and Trees / 1932, obtendo grande sucesso e arrebatando um Oscar da Academia. O primeiro filme de ação ao vivo neste processo foi um curta-metragem da Pioneer intitulado La Cucaracha / La Cucaracha / 1934 (Dir: Lloyd Corrigan), que também ganhou o Oscar.Animada com este êxito, a Pioneer realizou o primeiro longa-metragem em Technicolor de três cores com o título Vaidade e Beleza / Becky Sharp / 1935 (Dir: Rouben Mamoulian). A técnica do filme em cores foi evoluindo e, em 1941, a Technicolor criou um processo que dispensava os três negativos; porém este processo, chamado demonopack ou tripack integral, foi considerado insatisfatório. Surgiram alguns processos concorrentes como o Cinecolor e o Tricolor, mas o Technicolor praticamente monopolizou o Mercado até que, nos anos 50, um novo sistema tripack integral aperfeiçoado pela Eastman Kodak, denominado Eastmancolor, que podia ser usado por qualquer câmera e revelado pelos meios convencionais, iria prevalecer.

Dá-me um Beijo

Sete Noivas para Sete Irmãos

A Lenda dos Beijos Perdidos

O Eastmancolor foi baseado no processo alemão Agfacolor, muito usado no cinema nazista em produções espetaculares (v. g. Die goldene Stadt / 1942 e Immensee / 1943 de Veit Harlan), O Barão Münchausen / Münchausen / 1943 de Josef von Baky), depois por Eisenstein em Ivã, o Terrível -Parte II / Ivan Grosny / 1945-46, e se tornou a base técnica para o sistema Sovcolor durante os anos 50. Após a guerra, e a liberação das patentes Agfa, os princípios do Agfacolor foram também empregados emm vários sistemas , como o Ferraniacolor (Itália), o Gevacolor (França) e, mais notavelmente, no Anscolor, que teve uso corrente em Hollywood (Dá-me um Beijo / Kiss me Kate / 1953 (Dir: George Sidney), Sete Noivas para Sete Irmãos / Seven Brides for Seven Brothers / 1954 (Dir: Stanley Donen), A Lenda dos Beijos Perdidos / Brigadoon / 1954 (Dir: Vincente Minnelli) etc). Mas foi o Eastmancolor que substituiu o Technicolor como sistema de cor dominante no Ocidente, ficando conhecido pelos nomes dos estúdios que pagavam para usá-lo (v. g. WarnerColor, MetroColor, PathéColor, SupeCineColor da Columbia) ou pelos laboratórios que o processavam (Movielab, DeLuceColor, e a Technicolor – que, a partir de 1975, fazia apenas cópias fotografadas em eastmancolor).

O problema com o Eastmancolor, não previsto na época de sua introdução, e só  manifestado na década seguinte, é que suas cores eram menos estáveis (i. e. mais sucetíveis de descoloração do que o velho processo de embebição do technicolor), resultando em um protesto por parte de cineastas e arquivistas no começo dos anos 80. Em resposta, a Eastman Kodak lançou um novo “ filme de baixa descoloração”. Em 1979, 96 % de todos os filmes americanos de longa-metragem eram realizados Para vencer a concorrência com a televisão, a indústria também experimentou uma série de sistemas óticos, que davam maior largura ou profundidade da imagem em cores.

Napoleon de Abel Gance

O primeiro dos novos formatos, introduzidos em setembro de 1952, foi o processo de câmeras e projetores triplos, denominado Cinerama, parecido como o processo Polyvision, usado por Abel Gance em Napoleão / Napoleon / 1927, e originalmente projetado como simulador de batalha para o treinamento da artilharia durante a Segunda Guerra Mundial pelo inventor Fred Waller. As três cameras trabalhavam ao mesmo tempo e registravam, cada uma delas, um terço da cena filmada: depois, três projetores projetavam os segmentos filmados sobre uma grande tela côncava, formada pela conjugação de três telas. A imagem projetada era três vezes mais larga do que a imagem padrão de 35mm, e também quase duas vezes mais alta, por causa de duas perfurações laterais extras (seis em vez de quatro) – a formatação (aspect ratio) variava de 3:1 a 2.6:1. Combinado com o som estereofônico de sete faixas, o Cinerama criava uma ilisão de profundidade e envolvimento do espectador, que era muito excitante para as platéias acostumadas com a tela plana retilínea das décadas passadas, e, por algum tempo, foi imensamente popular.

Cena de How the West Was Won

Porém o processo era defeituoso (a junção entre as três imagens nunca foi satisfatória e muito caro (tanto para o realizador como para o exibidor e, portanto, para o público pagante). Consequentemente, ele oferecia circo em vez de narrativa. Filmes como Isto é Cinerama / This is Cinerama / 1952, Cinerama Holiday / Cinerama Holiday / 1955, As Sete Maravilhas do Mundo / The Seven Wonders of the World / 1956, Cinerama em busca do paraíso / Search for Paradise / 1957 (exibidos no Brasil nos anos 60) ou Windjammer / (958 (filmado em um processo rival chamado Cinemiracle, que havia sido comprado pela Cinerama Corporation) apresentavam uma sucessão de espetáculos extravagantes e viagens exóticas, e não histórias dramáticas. Os primeiros filmes com histórias realizados em Cinerama, A Conquista do Oeste / How the West Was Won / 1962 (Dir: John Ford, Henry Hathaway, George Marshall) e O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm / The Wonderful World of the Brothers Grimm / 1962 (Dir: Henry Levin, George Pal) provaram que o processo de câmera múltipla era simplesmente impróprio e muito dispendioso para produção  de narrativas convencionais.

The Power of Love

Tal como o Cinerama, a experiência seguinte de Hollywood com novos formatos óticos foi inicialmente muito popular. A estereoscópica 3-D teve precedentes nos primeiros dias do cinema, quando pioneiros como William Friese-Greene e os Lumière experimentaram sistemas anaglíficos (duas tiras de filme, um  pintada de vermelho e outra de azul-esverdeado, projetadas simultaneamente para uma platéia usando óculos com lentes dessas cores, produziam a ilusão de profundidade). Em 1922, Harry K. Fairall exibiu em 3-D, The Power of Love (Dir: Nat Deverich). Na mesma ocasião, William Van Doren Kelley mostrou seu processo, conhecido como Plasticon e, dois anos depois, Frederick Eugene Ives e J. F. Leventhal produziram uma série de curtas tridimensionais intitulada Plastigrams. George K. Spoor, com a ajuda do cientista sueco Paul Berggen, usou o processo  Natural Vision no longa-metragem  Fugindo ao Perigo / Danger Lights / 1930 (Dir: George B. Seitz). Ligeiramente diferente do processo anaglífico foi o Teleview, inventado por Laurens Hammond e William F. Cassidy, e aplicado no filme Radiomania / Radio-Mania / 1923 (Dir: Roy William Neill). Nos anos 30, a MGM lançou dois shorts analíticos, produzidos por Pete Smith, sob os títulos de Audioscópios / Audioscopiks / 1935 e A Nova Audioscopia ou 10 Minutos de Cinema em Relevo / New Audioscopiks / 1938, ambos sem diretor creditado. Em 1941, foi feito um terceiro exemplar da série, Assassinato Metroscópio / The Third Dimensional Murder, dirigido por George Sidney.

Em novembro de 1952, o produtor independente e diretor Arch Oboler introduziu um processo de 3-D polarizado, denominado Natural Vision (inventado por Milton Gunzburg), no filme Bwana, o Demônio / Bwana Devil. Uma câmera especial, de lentes duplas, registrava, em duas tiras de filme separadas, imagens ligeiramente diferentes da mesma cena, em ângulo; na projeção, interligavam-se dois projetores equipados com lentes Polaroid e as duas imagens eram simultaneamente projetadas na tela, formando um todo tridimensional. A grande vantagem do Natural Vision era que ele não necessitava de uma conversão em larga escala como o Cinerama (bastava a adição de uma câmera especial) e o custo da instalação do projetor adequado saía muito mais barato para os exibidores. O segundo filme em Natural Vision, Museu de Cera / House of Wax / 1953 (Dir: Andre de Toth) foi um êxito de crítica e de público, e a corrida para produção de depthies, como os jornais que circulavam no âmbito da exibição agora os estavam chamando, tornou-se ainda mais disputada.

Durante os anos 1953 e 1954, foram feitos muitos filmes em 3-D. mas a novidade  logo passou, porque a ilusão de profundidade criada pelo Natural Vision não era particularmente satisfatória e as pessoas não gostavam de usar os óculos polaróides, indispensáveis para se obter o efeito de terceira dimensão pretendido; muitos espectadores reclamavam de fadiga ocular e dores de cabeça. Além disso, a 3-D encontrou um rival poderoso no processo anamórfico de tela larga, patenteado pela 20thCentury-Fox cono CinemaScope, que explorava a profundidade através da visão periférica, e se anunciava como  “O Milagre Moderno Que Você Vê Sem Óculos”.

A Grande Jornada

 

Durante os anos 20 e início dos 30 vários filmes foram produzidos em formato largo, processos como o Magnascope da Paramount (v. g. A Fragata Invicta / Old Ironsides / 1926 (Dir: James Cruze); Grandeur da Fox (v. g. Follies / Fox Movietone Follies of 1929 / 1929 (Dir David Butler), A Grande Jornada / The Big Trail / 1930 (Dir: Raoul Walsh), O Cantar do meu Coração / Song O´ My Heart / 1930 (Dir: Frank Borzage); o Realife da MGM (v. g. O Vingador / Billy the Kid / 1930 (Dir: King Vidor) e Terra Virgem / The Great Meadow / 1931 (Dir: Charles Brabin); o Vitascope da Warner Bros. (v. g. A Soldier´s Plaything / 1930 (Dir: Michael Curtiz); O Chicote / The Lash / 1930 (Dir: Frank Lloyd) e Kismet / Kismet / 1930 (Dir: John Francis Dillon), o Magnifilm da Joseph M. Schenck Productions / United Artists (v. g. The Bat Whispers / 1930 (Dir: Roland West), mas o sistema que vingou foi inventado na década de 50.

O CinemaScope, introduzido em setembro de 1953 com o filme O Manto Sagrado / The Robe (Dir: Henry Koster), era baseado na lente anamórfica  “Hypergonmar”, inventada pelo Dr. Henri Chrétien, e usada pela primeira vez em 1928 (no filme de Claude Autant-Lara, Pour Construire un Feu). O CinemaScope permitia registrar em película de 35mm uma imagem que abarca um campo mais extenso do que as objetivas normais. A imagem era comprimida por meio de uma lente anamórfica e, na projeção, lente de propriedade inversa colocava as imagens filmadas em proporções normais, projetando-as em grandes tela retangulares. A formatação convencional da tela de cinema, chamada Academy aperture, havia sido padronizada em 1.33:1 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O CinemaScope oferecia uma ratio radicalmente nova de 2.55:1, subsequentemente reduzida para 2.35: 1, e tinha a vantagem de não precisar de câmeras, filme e projetores especiais, apenas lentes especiais, uma tela larga metalizada   som estereofônico magnético de quatro faixas. Suas desvantagenms eram uma perda de brilho na iagem (logo corrigida pela tela refletiva Miracle Mirror) e problemas de distorção.

Natal Branco

No final de 1953 todo grande estúdio de Hollywood, exceto a Paramount, havia obtido licença para usar os filmes em CinemaScope, tendo surgido processos como o RegalScope (para a produção classe “ B “ em preto e branco da Fox até1960), Techniscope, SuperScope, Warnescope etc. Em 1960, Robert E. Gottschalk inventou a lente prismática variável, que oferecia uma definição da imagem sem distorção e o novo processo, chamado de Panavision, gradualmente substituiu o CinemaScope  como sistema anamórfico dominante. Em abril de 1954, no filme Natal Branco / White Christmas (Dir: Michael Curtiz), a Paramount introduziu o seu próprio sistema de tela larga denominado VistaVision. Este era um processo anamórfico singular, no qual o filme de 35mm corria na câmera horizontalmente, e não verticalmente, para produzir um negativo duas vezes mais largo do que convencional, e ligeiramente mais alto. O negativo era então revolvido oticamente, 90 graus no processo de copiagem, de modo que as cópias positivas pudessem correr verticalmente em qualquer projeto.

A Face Oculta

A formatação do Vista Vision variava de 1.33:1 para 1.96:1 (mas a Paramout recomendava a projeção na formatação 1.85:1). A maior nitidez da imagem e a manutenção da intensidade da cor produzida pelo VistaVision ficou evidente para o público, e os exibidores o do sistema, porque ele não necessitava de nenhuma modificação no equipamento existente. Os filmes em VistaVision eram lançados em som Perspecta, que custava metade do preço do sistema de quatro faixas da Fox, facilitando a sua comercialização. A Paramount continuou usando o VistaVision até 1961 quando, logo após o lançamento de A Face Oculta / One Eyed Jacks (Dir: Marlon Brando), o estúdio passou a adotar o Panavision por razões financeiras.

Em 1956, a Tecnicolor lançou o processo de tela larga Technirama, utilizando uma lente anamórfica e filme de 35mm, que corria na câmera horizontalmente tal como o VistaVision; em 1960, uma nova versão do Technirama foi introduzida como SuperTechnirama 70.

Oklahoma!

Em 1955, um processo de filme largo de 70mm foi introduzido na versão cinematográfica do sucesso da Broadway Oklahoma! / Oklahoma! (Dir: Fred Zinnemann), produzida independentemente por Michael Todd. O processo, denominado Todd-AO (com formatação 2.2:1), foi desenvolvido  pelo Dr. Brian O´Brien da American Optical Company, para competir não somente com o CinemaScope, mas também como o Cinerama, porque seu filme e lentes ofereciam a cobertura visual daquele processo, sem recorrer às suas múltiplas câmeras e projetores. O negativo do Todd-AO era de 65mm; a cópia para projeção tinha 70mm, com os 5mm extras carregando seis faixas de som magnético, mais uma sétima para controle  de áudio. Todd apresentou mais dois filmes, A Volta ao Mundo em 80 Dias / Around the World in 80 Days / 1956 (Dir: Michael Anderson) e Ao Sul do Pacífico / South Pacific / 1958 (Dir: Joshua Logan) – e depois morreu em um desastre de avião. A Fox adquiriu os direitos para usar o sistema, e produziu oito filmes em Todd-AO, inclusive o multimilionário Cleópatra / Cleopatra / 1963 (Dir: Joseph L. Mankiewicz) e A Noviça Rebelde / The Sound of Music / 1965 (Dir: Robert Wise).

A Volta ao Mundo em 80 Dias

Ao Sul do Pacífico

 

Cleopatra

A Noviça Rebelde

Foram também experimentados o SuperPanavision (também conhecido como Panavision 70), o Ultra Panavision 70 (originariamente chamado de MGM Camera 65, quando introduzido em 1976) e o CinemaScope-55, lançado em 1955 e somente utilizado em duas produções: Carrossel / Carousel / 1956 (Dir: Henry King) e O Rei e Eu / The King and I / 1956 (Dir: Walter Lang).

O Rei e Eu

Assim como o som, os processos de tela larga apresentaram dificuldades para os realizadores (v. g. os close-ups se tornaram subitamente problemáticos, dado o vasto tamanho da tela e a tendência das lentes anamórficas para distorcê-los). Porém, com o correr do tempo, ficou comprovadoque muitasde suas supostas limitações eram falsas. O CinemaScope foi bem recebido pelos críticos da revista Cahiers du Cinéma (principalmente André Bazin), porque estendia bas possibilidades de encenação, criando uma nova estética, na qual a mise-en-scène predominaria sobre a montagem, e a principal unidade narrativa não seria mais o plano dialético, mas o plano longo ou plano-sequência.

O exame das inovações técnicas usadas para combater a televisão não estaria completo sem a menção de dois filmes, que utilizaram cheiros para aumentar o senso de realismo da platéia. O documentário La Muraglia Cinesa/ 1958 (Dir: Carlo Lizzani quando foi exibido em Nova York, tinha como atração um processo chamado AromaRama (inventado por Charles Weiss) que, através do sistema de ar condicionado, infiltrava aromas orientais no auditório para coincidir com algumas cenas na tela. Outro filme, Scent of Mystery / 1959 (Dir: Jack Cardid), usou o processo Smell-O Vision, chamado inicialmente de Scento Vision (inventado por Hans Lauber) que emitia odores para cada espectador por intermédio de pulverizadores colocados estrategicamente entre as fileiras de poltronas do cinema.

OS FILMES DE FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ANOS 50 -II

FILMES DE FICÇÃO CIENTÍFICA AMERICANOS DOS ANOS 50 -I I

A Guerra dos Mundos / War of the Worlds / 1953, produzido por George Pal para a Paramount e dirigido por Byron Haskin, ganhou um prêmio da Academia pelos efeitos especiais sob supervisão de Gordon Jennings. Chesley Bonestell chefiou a equipe responsável pelos mattes e pinturas, o roteiro foi escrito por Barré Lyndon e Sir Cedric Hardwicke atuou como narrador.

Baseado no conhecido romance de H. G. Wells, o filme passa-se na Califórnia em vez da Inglaterra e em 1953 em vez de 1890. Um disco voador pousa perto de uma pequena comunidade, mas um físico nuclear famoso, chamado Clayton Forrester (Gene Barry), supõe que se trata de uma espaçonave marciana. Na realidade a nave é parte de uma invasão em massa, pois os discos surgem em todo o mundo, abrindo-se para mostrar máquinas com raios mortíferos. Forrester manda chamar o exército, mas não importa quanto armamento seja usado contra os marcianos, eles são invencíveis. Estas máquinas marcianas inquietantes e futuristas, os jatos de fogo  transformando os objetos ou os humanos em cinzas, tudo isto consitui uma bela vitória sob o ponto de vista dos cenários, efeitos fotográficos, côr e encenação. A luta cruel e impiedosa entre humanos para escapar da catástrofe aumenta ainda mais a angústia das cenas de destruição. São vistas imagens de cidades em ruínas e de refugiados enquanto Forrester e outros rezam para que Deus intervenha.  Símbolos religiosos abundam e a solução parece mesmo ter sido enviada por Ele, porque os marcianos começam a morrer por exposição às bactérias da Terra.

O melhor filme sobre infiltração alienígena foi Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers, dirigido por Don Siegel, produzido por Walter Wanger e distribuído pela Allied Artists em 1956. O filme apresenta o inimigo como vagens gigantes que, como resultado da radiação atômica, chegam na Terra para se apossar de corpos humanos em uma pequena cidade da Califórnia. Apenas duas pessoas escapam, o Dr. Miles J. Bennell (Kevin McCarthy) e sua namorada Becky Driscoll (Dana Wynter). Como as vítimas continuam vivas, porém não mais controlando suas próprias mentes, a invasão alienígena aqui assemelha-se a uma lavagem cerebral, como ocorria nas prisões políticas durante a Guerra da Coréia. Miles e Becky têm que se esconder dos alienígenas e não podem dormir, porque é então que as vagens se apossam dos corpos humanos. Becky dorme quando Miles deixa o esconderijo deles por alguns momentos. Quando ele volta e a beija, os olhos dela se abrem com um olhar vazio e ele percebe que ela também é uma pessoa vagem. Miles corre pela rodovia, tentando em vão parar os carros. Ele grita: “Vocês serão os próximos, seus tolos! Vocês correm perigo! “, mas os motoristas o ignoram. Como o estúdio achou que o filme era muito pesssimista, um prólogo e uma conclusão foram acrescentados com Miles contando a história em retrospecto e finalmente conseguindo fazer com que as autoridades se conscientizassem da ameaça. Com um orçamento barato Siegel consegue criar uma atmosfera de temor apesar da quase completa ausência de efeitos especiais. O filme foi lançado em Superscope.

Em Casei-me com um Monstro / I Married a Monster from Outer Space / 1958, dirigido e produzido por Gene Fowler Jr. e distribuído pela Paramount, após um ano de casamento, Marge Bradley Farrell (Gloria Talbot) sente que seu marido Bill  Farrell (Tom Tryon) não demonstra a mesma afeição que tinha por ela, quando eram noivos. Uma noite, ele sai para um passeio, e ela o segue até uma área isolada no bosque, onde vê uma forma de vida extraterrestre deixar o corpo de Bill e entrar em uma espaçonave escondida. Ela confronta o alienígena e ele explica que veio do planeta Andromeda Nebula, onde uma explosão solar matou todas as mulheres de sua raça. Ele e outros machos de sua espécie estão assumindo a forma humana para terem filhos com a mulheres da Terra, salvando sua raça de extinção. Marge fica aterrorizada com esta perspectiva e tenta avisar outras pessoas do plano alienígena, porém muitos homens da cidade ja foram assumidos pelos invasores de corpos, inclusive o Chefe de Polícia Collins (John Eldredge), que nada faz, depois de ouvir sua história. Finalmente, seu médico, Dr. Wayne (Ken Lynch), acredita em Marge e reune um grupo de homens – que ele sabe que não são alienígenas, porque se tornaram pais recentemente – na sala de espera da maternidade Eles atacam os invasores, mas as balas não lhes fazem mal; somente um par de cães pastores alemães consegue matá-los. Entrando na espaçonave, o grupo verifica que todos os machos humanos cativos estão inconscientes, porém ainda vivos, inclusive Bill.

Os efeitos terríveis da radiação atômica tornaram-se conhecidos depois de 1952, quando tanto os Estados Unidos como a União Soviética deram início a testes atmosféricos com bombas termonucleares de vários megatons. Um teste com uma bomba de hidrogênio em março de 1954 espalhou resíduos radioativos sobre cerca  de 14 mil quilômetros quadrados do Pacífico. A Comissão de Energia Atômica manteve este caso em segredo do público até, que na primavera de 1955, a Administração Federal de Defesa Civil revelou que a precipitação nuclear era “insidiosa, invisível e singularmente perigosa”.

O pânico sobre os aspectos negativos da radiação forneceu matéria-prima para muitos filmes de ficção científica.  Pequenos insetos transformaram-se em monstros enormes, pessoas tornaram-se impossívelmente grandes ou incrivelmente minúsculas e criaturas extintas há muito tempo ganharam vida.

O Mundo em Perigo / Them! produzido em 1954 pela Warner Bros e dirigido por Gordon Douglas em um estilo semi-documentário tinha um script inteligente escrito por Ted Sherdeman.  A ação ocorre no New Mexico perto de Los Alamos, onde dois policiais, Sargento Ben Paterson (James Whitmore) e o soldado Ed Blackburn (Chris Drake) encontram um armazém destruído, o comerciante morto e uma menina (Sandy Descher), cujos pais desapareceram, em estado de choque. Ben vai pedir ajuda, trazendo o agente do FBI, Robert Graham (James Arness) para o local, onde encontram Ed morto e uma pegada estranha na areia. Dois entomologistas do Departamento de Agricultura Dr. Harold Medford (Edmund Gwenn) e sua filha Patricia  (Joan Weldon) chegam no mesmo lugar e verificam que está faltando açucar no armazém e que os corpos do comerciante e do policial estão cheios de ácido fórmico. Eles identificam a pegada como sendo de uma formiga gigantesca. Além disso, quando os entomologistas fazem a menina aspirar um pouco de ácido fórmico, ela sai do estado de choque e grita: “Them! Them !  (Elas! Elas!)” e, a esta altura, aparece uma formiga gigante. Juntos, os cientistas e os militares destroem o ninho de formigas do New Mexico, porém duas rainhas escapam: uma, para um navio mercante, onde destroem quase toda a tripulação inclusive, em uma cena chocante, o operador de rádio; a outra, vai para um enorme bueiro subterrâneo de Los Angeles, onde se dá o final do filme. Dois meninos estão retidos pelas formiga. Ben consegue salvá-los, mas morre, e as formigas são exterminadas com lança chamas. A mutação genética delas fora causada pela radiação prolongada da explosão da primeira bomba atômica. O Mundo em Perigo trouxe uma mensagem anti-nuclear bem clara e as formigas podiam ser vistas como um inimigo simbólico: a União Soviética.

Tarântula! / Tarantula / 1955, produzido por William Alland, para a Universal- International e dirigido por Jack Arnold, deu continuidade ao ciclo de filmes sobre insetos gigantescos. Em uma pequena cidade do Arizona, um cientista morre em condições misteriosas de acromegalia, causando apreensão no médico local, Dr. Matt Hastings (John Agar), que passa a investigar e descobre que o falecido  trabalhava com o Professor Deemer (Leo G. Carroll) em uma experiência secreta para encontrar a fórmula de determinada substância nutritiva. Deemer injeta uma mistura atômica em vários animais e obtém efeitos de gigantismo extraordinários. Uma târantula que chegou a atingir a altura de 30 metros, escapa do laboratório e prossegue destruindo tudo em seu caminho e atacando o Dr. Matt e a nova assistente de Deemer, Stephanie “Steve” Clayton (Mara Corday), até ser morta por bombas de napalm jogadas pela força aérea americana, cujo piloto principal é … Clint Eastwood.

 

 

Entre outros mutantes cinematográficos da década estavam: gafanhotos inchados pelas radiação que invadem Chicago em O Começo do Fim (TV) / Beginning of the End / 1957 (Dir: Bert I. Gordon); caracóis gigantes afetados por radiação que rastejam em direção à base Naval de Los Angeles para comer o pessoal da Marinha em O Monstro Que Desafiou O Mundo / The Monster That Challenged the World / 1957 (Dir: Jack Arnold) um polvo que se tornou monstro pela radioatividade que quase destrói San Francisco em O Monstro do Mar Revolto / It Came From Beneath The Sea / 1955 (Dir: Robert Gordon) e caranguejos enormes, alterados geneticamente por uma precipitação radioativa que absorvem o conhecimento e as vozes das pessoas que eles comem em A Ilha do Pavor / Attack of the Crab Monsters / 1957 (Dir: Roger Corman). Em cada caso explosões ou radiações atômicas trouxeram à vida um monstro que, por sua vez, foi destruído por algum uso de energia atômica.  O retorno à normalidade se dá, quando a ciência e a tecnologia solucionam os problemas, que elas ajudaram a criar.

Os filmes com temas sobre metarmofoses eram sobre pessoas ou criaturas que mudaram completamente sua forma ou estrutura. A Mosca da Cabeça Branca / The Fly, produzido e dirigido por Kurt Neumann em CinemaScope para a Twentieth Century-Fox estreou em 1958. Em Montreal, Quebec no Canadá, o cientista André Delambre (Al Hedison, que depois adotou o nome de David Hedison) é encontrado morto com sua cabeça esmagada em uma prensa hidráulica. Embora sua esposa, Hélène (Patricia Owens) confesse o crime, ela se recusa a fornecer o motivo e começa a agir estranhamente, obcecada por uma suposta mosca de cabeça branca. Ela finalmente conta para François o que se passou na realidade. André trabalhava para o Ministério da Defesa Aérea, fazendo experiências com uma máquina de teleportação quando, sem que ele perceba, uma mosca cai no aparelho durante o processo e provoca uma fusão de suas moléculas com as do inseto. Ele se torna metade humano metade mosca, ou melhor, ficou com a cabeça e um dos braços iguais ao de uma mosca. Enquanto  ainda pode pensar como um ser humano, André destrói seu equipamento e suas anotações. Depois, aciona a prensa hidráulica, põe sua cabeça e um de seus braços debaixo dela e manda Hélène apertar o botão. Após ouvir a confissão de Hélène, o Inspetor Charas (Herbert Marshall) considera-a insana. Quando ia levá-la para um sanatório, o filho do casal Delambre, Philippe (Charles Herbert) diz a François que viu a mosca presa em uma teia no jardim. François e Charas vêem a mosca com a cabeça e o braço de André gritando: “Ajude-me! Ajude-me!” enquanto uma aranha avança em direção a ela. Quando a aranha está prestes a devorar a criatura, Charas esmaga ambas com uma pedra. Sabendo que ninguém vai acreditar na verdade, ele e François decidem declarar André morto por suicídio. Um texto publicitário do filme   dizia:  “A primeira vez que a mutação atômica de humanos foi mostrada na tela”. Entretanto, no ano anterior as telas dos cinemas mostraram pelo menos três filmes nos quais humanos são metamorfoseados, dois em proporções gigantescas, o outro em dimensões minúsculas.

Em A Mulher de Quinze Metros / Attack of The 50 Foot Woman  / 1958, lançamento da Allied Artists de uma produção de Bernard Woolner, dirigido por Nathan Hertz (Nathan Juran), Nancy Fowler Archer (Allison Hayes), mulher rica mas emocionalmente instável, é sequestrada por um gigante alienígena (Mike Ross) no deserto e contaminada por irradiação pelo seu toque. Nancy consegue fugir, mas ninguém acredita na sua história, devido ao seu problema com alcoolismo e uma recente estadia em um sanatório. Seu marido mulherengo, Harry Archer (William Hudson), está mais interessado na sua última conquista, Honey Parker (Yvette Vickers), e no dinheiro da esposa. Incentivado pela amante, Harry planeja injetar na esposa uma dose letal de sedativo, mas quando entra no seu quarto descobre que ela cresceu até atingir um tamanho enorme. O médico da família, Dr. Isaac Cushing (Roy Gordon) e um especialista, Dr. Von Loeb (Otto Waldis) não sabem como tratar sua paciente. Eles mantêm Nancy em um estado de coma induzido por morfina e acorrentada enquanto aguardam o xerife Dubbitt (George Douglas). Nancy desperta, livra-se das correntes, destrói o telhado de sua mansão e ruma para a cidade, a fim de se vingar de seu marido infiel, que ela esmaga, antes de ser morta por uma descarga elétrica provocada pelos tiros do xerife em um transformador de linha de energia.

Em O Monstro Atômico / The Amazing Colossal Man / 1957 lançamento da American-International (James H. Nicholson / Samuel Z. Arkoff), dirigido e produzido por Bert Gordon, o Tenente Coronel Glenn Manning (Glenn Langan creditado como Glen Langan) é queimado em uma explosão de plutônio durante um teste com uma bomba atômica, em Desert Rock, Nevada. Tratado pelo Dr. Paul Linstrom (William Hudson) e pelo cientista militar Major Eric Coulter (Larry Thor), ele regenera sua pele, porém cresce três metros por dia até atingir 21 metros de altura, para espanto de sua noiva, Carol Forrest (Cathy Downs). Quando Coulter informa a Linstrom de que pode ter encontrado uma solução para o crescimento fenonemal de Glenn, este desaparece. Os militares o encontram em Las Vegas, causando muito tumulto depois de ter tido um colapso mental. O gigante ruma para a Represa Boulder, perseguido por helicópteros. Coulter, Carol e Linstrom chegam lá com o sôro criado por Coulter. Quando eles enfiam uma seringa no tornozelo de Glenn, este arranca a seringa e espeta Coulter com ela, matando-o. Glenn apanha Carol e foge mas, atendendo a um apelo de Linstrom, ele a libera e é crivado pelas balas dos militares, mergulhando no rio Colorado.

Nenhum desses filmes tinha a pungência de O Incrível Homem que Encolheu / The Incredible Shrinking Man / 1957, produzido por Albert Zugsmith para a Universal-International e dirigido por Jack Arnold em CinemaScope. Nesta excelente adaptação escrita pelo próprio Richard Matheson de seu romance “The Shrinking Man”, Robert Scott Carey (Grant Williams) estava andando de barco, quando ficou exposto à precipitação nuclear de uma nuvem que deixou partículas brancas cintilantes nele. Isto fez com que começasse a encolher incontrolavelmente porque suas moléculas foram reordenadas e seu crescimento invertido. Ele consulta os médicos e um deles consegue interromper por algum tempo esta redução, porém a doença retoma seu curso e ele tem que iniciar uma luta solitária e permanente para sobreviver. Não há monstros nem alienígenas no filme, somente animais e objetos comuns tais como o tal gato, uma torneira vazando, uma caixa de costura com agulhas e alfinetes e uma aranha, que se tornam ameaçadores e perigosos para o herói liliputiano. Incapaz de ser um marido normal, sente-se humilhado e cheio de auto-aversão, mas quando diminui para pouco mais de dois centímetros e continua a encolher, ele afirma, “Eu existo”. Este é um momento marcante do filme, pois embora Scott tenha se tornado infinitesimal em tamanho, ainda é humano e consciente de sua própria existência. O Incrível Homem Que Encolheu capta as experiências emocionais da América da Guerra Fria com seus temas de paranóia, medo e desconfiança.  Arnold resistiu à preferência da Universal por um final feliz com médicos encontrando um soro para reverter o processo de encolhimento, porque ele queria um final metafísico com o homem aceitando seu destino. No final do filme Scott aguarda com resignação o momento em que seu corpo acabará por se diluir no espaço.

Uma criatura extinta trazida à vida, geralmente por uma explosão atômica, foi a base para filmes como O Monstro do Mar / The Beast From 20.000 Fathoms / 1953. Produzido por Hal Chester e Jack Dietz da Mutual Pictures of Califórnia (pequena companhia independente que foi comprada pela Warner Bros.), e dirigido por Eugene Lourie, o filme é uma adaptação de um conto de Ray Bradbury, “The Foghorn”.  Um redossauro, uma besta fictícia, é solto de uma calota de gelo por uma explosão atômica. Ele é máu, desordenado e mau-humorado, invadindo a cidade de Nova York, esmagando carros, arrazando edifícios, devorando pessoas, e criando pânico entre as multidões ao entrar como um furacão em Times Square. Prédios são destruídos, comunicações são inundadas e muitas vidas perdidas. A Guarda Nacional bombardeia o redossauro com bazucas, canhões e metralhadoras, mas ele desaparece, seriamente ferido. Quando os soldados o rastreiam, seguindo grandes poças de sangue, ficam muito doentes e desmaiam. Depois que amostras  de sangue da fera são analisadas, descobre-se que elas contém uma bactéria tóxica resistente a antibióticos. Um jovem cientista atômico, Tom Nesbitt (Paul Hubschmid creditado como Paul Christian) conclui que eles devem usar um isótopo radioativo para matar o redossauro. Os soldados então confrontam a besta em Coney Island onde, enquanto ela está despedaçando uma montanha russa, um atirador de elite dispara o isótopo e a mata. O “monstro” (magnificamente animado por Ray Harryhauser) toma conta do filme por sua presença colossal, ofuscando a interpretação de Paul Christian e de Paula Raymond, que faz o papel de Lee Hunter, a paleontóloga assistente do Dr. Thurgood Elson (Cecil Kellaway); mas alguns personagens secundários ou episódicos chamam atenção como, por exemplo, o dito professor e Jacob, um marinheiro vítima do redossauro (Jack Pennick)

Talvez a criatura préhistórica mais inesquecível dos filmes de ficção científica dos anos cinquenta tenha sido O Monstro da Lagoa Negra / Creature From The Black Lagoon, uma produção de 1954 da Universal Internacional em 3-D, produzida por William Alland e dirigida por Jack Arnold, dois homens que se tornaram os maiores contribuidores para os filmes de ficção científica dos anos 50. Este filme é sobre o Homem Peixe, um ser metade peixe, metade humano, descoberto por paleontologistas nas selvas do Amazonas. Da expedição fazem parte: Dr. Carl Maia (Antonio Moreno); seu ex-aluno, o ictiologista Dr. David Reed (Richard Carlson), que trabalha no aquário do Instituto de Biologia Marítima e se interessa pelo conhecimento que a excursão  poderá proporcionar; o Dr. Mark Williams  (Richard Denning, chefe de David, que financia o projeto, obcecado pelo lucro econômico com a captura da criatura; a noiva de David, Kay Lawrence (Julia Adams); e um outro cientista, Dr. Edwin Thompson (Whit Bissell). Enquanto tentam estudar o Homem Peixe, vários membros da expedição são mortos. O monstro fica atraído por Kay e impede que os cientistas saiam do lugar onde o encontraram. Mark decide capturá-lo, mas é morto por ele, que o arrasta para as profundezas da Lagoa Negra. O Homem Peixe subsequentemente captura Kay, levando-a para uma caverna., onde  David penetra para para atacar o monstro e salvá-la. O monstro está prestes a liquidar David, quando chegam Maia e o capitão do barco da expedição (Nestor Paiva) e desferem alguns tiros contra ele. Mortalmente ferido, o Homem Peixe cambaleia e desliza para a profundezas do rio. Como a criatura não morre, houve duas continuações: A Revanche do Monstro / The Revenge of the Creature /1955 e À Caça do Monstro / The Creature Walks Among Us / 1957. As cenas submarinas nas quais o Homem Peixe nada em baixo de Kay tentando tocar em suas pernas são tanto assustadoras quanto eróticas. Ricou Browning, estudante da Florida State University foi escolhido para ser o Homem Peixe debaixo d’água porque conseguia prender sua respiração por longos períodos de tempo. O stuntman Ben Chapman, interpretou a criatura em terra.

Godzilla, o Monstro do Mar / Godzilla, King of the Monsters refletiu a ansiedade nuclear tanto dos japoneses quanto do americanos. Realizado originalmente no Japão pela Toho como Gojira em 1954 com direção de Ishirô Honda, o filme japonês foi remontado sob a direção de Terry Morse para a Embassy Pictures (a companhia distribuidora do exibidor Joseph E. Levine) e lançado nos EUA em 1956. O diretor Terry Morse filmou inserções de Raymond Burr como Steve Martin, um repórter americano no Japão, com tal habilidade – respeitando o estilo visual do filme japonês – que pouca gente percebeu que as cenas com Burr foram filmadas 18 meses depois que o espetáculo original foi completado. Testes nucleares revivem um reptil anfíbio préhistórico, Godzilla, que tem mais de 120 metros de altura. Ele sai do mar em Tóquio vomitando chamas e destruindo edifícios, sendo impenetrável a tiros e alta tensão. Até que o cientista Dr. Daisuke Serizawa (Akihiko Hirata) inventa um “destruidor de oxigênio” e Godzilla finalmente sucumbe a esta arma secreta. O filme foi um sucesso de bilheteria e, assim sendo, retornou repetidamente em continuações realizadas no Japão.

O tema mais pessimista dos filmes de ficção científica dos anos cinquenta foi o medo de que as bombas nucleares explodissem a Terra. Entretanto, a maioria dos filmes  também expressaram otimismo quanto a sobrevivência. O primeiro filme de ficção científica a lidar com o holocausto nuclear foi Os Últimos Cinco / Five, escrito, produzido, dirigido por Arch Oboler (Arch Oboler Productions) e distribuído pela Columbia em 1951. Após uma explosão atômica, somente cinco pessoas ainda existem. Nas montanhas perto de uma grande cidade está Michael (William Phipps), poupado porque estava sozinho no tôpo do Empire State Building. Eventualmente chegam os outros quatro únicos sobreviventes: Roseanne (Susan Douglas), que está grávida; um alpinista aventureiro, Eric (James Anderson); um porteiro de banco negro, Charles (Charles Lampkin) e Oliver Peabody Barnstable (Earl Lee), bancário idoso, que logo morre envenenado pela radiação. Eles enfrentam a díficil tarefa de se readaptarem à vida normal diante da destruição total do mundo no qual viviam e que agora está cheio de cadáveres. À medida em que os dias passam, as fraquezas de caráter e misérias humanas se tornam mais patentes neste reduzido grupo de sobreviventes. Charles e Eric se interessam por Roseanne, mas ela está certa de que seu marido ainda vive. Eric mata Charles por motivo racista e leva Roseanne para uma cidade próxima em busca do marido dela. Esqueletos jazem por toda a parte. Ela encontra os restos mortais de seu esposo e quer voltar para as montanhas, mas Eric tenta impedí-la de ir. Os dois lutam, a camisa de Eric se rompe e ele verifica horrorizado feridas de radiação no seu peito. Só ficam vivos Roseanne e Michael. Roseanne perde o bebê. Depois de enterrá-lo, ela e Michael tentarão construir um novo mundo, onde todas as pessoas poderão viver juntas em paz e harmonia.

O Fim do Mundo / When Words Collide / 1951, produzido por George Pal, dirigido por Rudolph Maté e distribuído pela Paramount, foi baseado em um romance de Philip Wylie e Edwin Balmer. A história diz respeito a um cientista que descobre que, dentro de um ano, o planeta Zyra vai passar tão perto da Terra que maremotos, erupções vulcânicas e incêndios irão ocorrer e então a estrela Bellus irá colidir com o que restar do mundo. Com uma reviravolta do tipo “Arca de Noé”, um foguete é construído para transportar 44 pessoas, animais e plantas para um novo planeta. A ONU se recusa a financiar o projeto, mas Sidney Stanton (John Hoyt), um milionário preso a uma cadeira de rodas, se oferece para pagar o custeio dela, se ele puder ir no foguete. Os viajantes são as seis pessoas que tiveram a idéia e 19 homens e 19 mulheres selecionadas por um sorteio. Entre os passageiros estão: o Dr. Cole Hendron (Larry Keating); sua filha Joyce (Barbara Rush); o namorado dela, Dr. Tony Drake (Peter Hanson) e seu rival romântico, o piloto David Randall (Richard Derr). O desastre ocorre, deixando a cidade de algumas pesssoas que não foram sorteados tentam penetrar no foguete. O Dr. Hendron resolve não embarcar para poupar combustível e se recusa a empurrar a cadeira de rodas de Stanton.  Com um esforço desesperado, Stanton fica em pé e caminha em uma tentativa inútil de alcançar o foguete. Quando este levanta vôo, os passageiros vêem em uma tela de televisão a colisão entre a Terra e Bellus. Ao pousarem no novo planeta, verificam que ele é igual à Terra e que eles são peregrinos iniciando uma nova vida.

O Planeta Vermelho / Red Planet Mars, filme de 1952 dirigido por Harry Horner e produzido por Anthony Veiller e Donald Hyde (Melaby Productions) e distribuído pela United Artists, foi baseado na peça “Red Planet” de John L. Balderston e John E. Hoare. Na Califórnia, um casal de cientistas, Chris (Peter Graves) e Linda Cronyn (Andrea King), tenta fazer contato com Marte por meio de um transmissor de rádio com uma válvula de hidrogênio, invenção de um cientista nazista desaparecido logo após o fim do Terceiro Reich. Enquanto isso, Franz Calder (Herbert Berghof), o inventor da válvula, dado como morto, está em um laboratório nos Andes a serviço de comunistas russos, liderados por Gaspardian Arjenian (Marvin Miller). Os comunistas estão insistindo para que ele entre em contato com Marte antes dos Cronyn. Calder explica que não pode fazer contato com Marte, mas pode interceptar as mensagens transmitidas ou recebidas pelo laboratório da Califórnia. Ele então as forja, dando a entender que Marte é governado por um Ente Supremo e que o planeta vermelho está milhares de anos à frente do nosso no que tange à ciência. Essas noticias causam um pandemônio na Terra. O conhecimento de que Marte não necessita de carvão ou petróleo (que seus cientistas substituiram pelo aproveitamente de energia cósmica) acarreta o pânico na indústria e o consequente fechamento das fábricas. O desemprego, as revoltas populares, a proximidade da fome, tudo isto põe em perigo o Ocidente. Porém as últimas mensagens têm outra origem: são realmente de Marte e trazem palavras contidas no Sermão da Montanha. São comunicações de fundo religioso e pacifista e, difundindo-se por todo o mundo, atravessam também a “Cortina de Ferro” e alcançam a Rússia, onde tem lugar uma contra-revolução popular, que restabelece a prática religiosa, pondo fim à opressão comunista.

Day the World Ended / 1955, produzido e dirigido por Roger Corman e distribuído pela American Releasing Corporation (que se tornaria American International em 1956) tem como tema a quase destruição da Terra por uma guerra nuclear. Em um vale isolado o ex-capitão da Marinha, Jim Maddison (Paul Birch) estava preparado para esta eventualidade e sobreviveu, juntamente com sua filha Louise (Lori Nelson), em um abrigo antibomba. Louise aguarda ansiosamente o retorno de “Tommy” (não fica claro se ele é seu noivo ou irmão, provavelmente noivo, pois Maddison nunca se refere a um filho). Eles são surpreendidos com a chegada de Rick (Richard Denning), um geólogo; do pistoleiro Tony Lamont (Mike Connors, creditado como Touch Connors) e sua companheira Ruby (Adele Jergens), dançarina de striptease; do velho garimpeiro Pete (Raymond Hatton); e Radek (Paul Dubov), um homem já morrendo de radiação. Jim não quer recebê-los, porque tem suprimentos limitados, mas Louise insiste. Conflitos previsíveis se seguem. Tony e Rick se confrontam por causa de Louise. Ruby sente ciúmes. Maddison tenta manter contrôle sobre o grupo. Pete quer voltar a garimpar, sem compreender o que aconteceu com o mundo. Radek continua vagando de noite para comer animais selvagens. Maddison mostra para Rick desenhos que ele fez de animais alterados pelos testes da bomba atômica em Bikini. E com certeza, rondando na escuridão, está um sobrevivente humano, que se transformou em um mutante com três olhos. O mutante pode falar telepaticamente com Louise, sugerindo que ele é Tommy, que está voltando para ela (a foto deTommy é a de Roger Corman). A idéia central é a de que esta mutação é o último destino de todas as pessoas no vale. No climax do filme, depois que quase todos são mortos, Rick enfrenta o monstro (Paul Blaisdell) no lago do vale. Ele atira no mutante com seu rifle, porém seu corpo é impenetrável. Aí começa a chover. Aparentemente caindo de nuvens não contaminadas, a simples água da chuva mata a horrenda criatura. O filme foi lançado em SuperScope.

Em 1959 dois filmes retomaram o tema do apocalipse nuclear de uma maneira calma e realista, salientando a experiência de indivíduos comuns em vez de mutações, alienígenas ou outros elementos de fantasia.  O Diabo, a Carne e o Mundo / The World, The Flesh and the Devil lançado pela MGM em CinemaScope foi dirigido por Ranald MacDougall com base no seu próprio argumento. Ele apresenta uma guerra pós-nuclear  na cidade de Nova York habitada por apenas três sobreviventes. Ralph Burton (Harry Belafonte), um inspetor de minas de carvão que estava no subsolo de uma mina na Pennsylvania quando as bombas caíram, escapa do desmoronamento resultante e se dirige para Nova York. Ele encontra um segundo sobrevivente, uma loura chamada Sarah Crandall (Inger Stevens). Eles logo ficam amigos, mas Ralph se torna um tanto distante, quando fica claro que Sarah se sente atraída por ele. Apesar de estarem vivendo em um mundo pós-apocalíptico e do fato de que Susan parece despreocupada com suas diferenças raciais, Ralph não consegue superar as inibições instauradas nele em uma sociedade americana racista. Eventualmente um terceiro sobrevivente aparece: Benson Thacker (Mel Ferrer), que estava no mar quando as bombas caíram. Ralph e Sarah cuidam dele, mas quando ele se recupera, Ben fica interessado em Sarah e vê Ralph como um rival. Esta rivalidade romântica culmina com Benson insistindo em um conflito armado com Ralph. Os dois homens armados caçam um ao outro pelas ruas desertas. Finalmente Ralph passa pelo prédio das Nações Unidas e ao ler uma inscrição de um trecho  da Bíblia que fala sobre a paz, ele joga seu rifle no chão e vai desarmado ao encontro de Ben que, por sua vez, não se sente capaz de matar seu inimigo. No final Sarah dá a mão para os dois e os três caminham juntos para construirem um futuro juntos. Durante toda a primeira parte do filme MacDougall capta muito bem – com o auxílio da magnífica foto em preto e branco de Harold J. Marzorati – o vazio de uma cidade outrora borbulhante, mostrando os carros abandonados e os imóveis meio soterrados, deixando-nos imaginar o pânico da população e a violência do cataclisma. Nota-se apenas uma implausibilidade: a ausência completa de cadáveres após a carnificina de dimensão inimaginável.  No decorrer da intriga surge o problema social, mas a última imagem mostra os três sobreviventes caminhando de mãos dadas enquanto “The Beginning” aparece na tela no lugar do habitual “The End”. O final é ambíguo: os dois homens vão compartilhar a mulher? Ou Benson e Ralph estarão lutando novamente amanhã?

A Hora Final / On the Breach / 1959, produzido e dirigido por Stanley Kramer e distribuido pela United Artists, baseado no romance de Nevil Shute e adaptado para a tela por John Paxton, não mostra um holocausto nuclear com cidades bombardeadas e uma vasta destruição, mas sim os efeitos da chuva radioativa e os sentimentos de desesperança dela resultantes. A história tem início quando quase todas as pessoas do mundo morreram. Um submarino nuclear americano “Sawfish”, comandado por Dwight Towers (Gregory P9eck), chega na Austrália, onde os sobreviventes aguardam a morte na medida em que uma nuvem letal de poeira atômica desce lentamente sobre eles. Em Melbourne Towers encontra Porter Holmes (Anthony Perkins), oficial da Marinha cuja esposa Mary (Donna Anderson) deu à luz recentemente e o cientista britânico Julian Osborne (Fred Astaire). Julian sente-se amargurado por ter ajudado a desenvolver a Bomba. Em uma festa na praia organizada para ele por Holmes e sua esposa, Towers conhece Moira (Ava Gardner); eles são fortemente atraídos um pelo outro, porém Towers ainda se sente casado: ele sabe que sua esposa e família em Mystic, Connecticut estão mortos, mas não consegue aceitar o fato emocionalmente. Towers deixa a Austrália, procurando em vão sinais de vida em outro lugar. De volta a Melbourne, ele finalmente se permite amar Moira no tempo em que lhe resta. Julien compete pela primeira vez com o seu Ferrari em uma corrida automobilística, sai vencedor, volta para casa e, na sua garagem, senta no seu carro, acelera o motor e morre asfixiado pelo monoxido de carbono. Holmes convence sua esposa a tomar as pílulas de suicidio (que estão sendo distribuídas pelo governo) com ele e dar uma para seu bebê; eles morrem na  cama, no seu lar. Sua tripulação deseja retornar aos Estados Unidos para morrer em casa – ou pelo menos naquela direção – e então Towers despede-se de Moira e parte no submarino. Ela fica na praia assistindo sua partida. As cenas finais mostram as ruas desertas de Melbourne. Um cartaz visto anteriormente no filme, “Ainda Há Tempo, Irmão” (presumivelmente significando tempo para encontrar Deus), se agita frouxamente sob o vento.

OS FILMES DE FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ANOS 50- I

Os filmes de ficção científica tornaram-se um grande gênero hollywoodiano nos anos 50, repercutindo a ansiedade e o medo do povo americano diante da possibilidade de um holocausto nuclear ou uma invasão comunista da América. Este medo foi expresso de várias formas, tais como alienígenas usando o controle da mente, mutantes monstruosos desencadeados por precipitações radioativas, terríveis efeitos da radiação sobre a vida humana, e cientistas obcecados por experiências perigosas.

Nenhum outro gênero na história do cinema se desenvolveu e se multiplicou tão rapidamente em um período tão curto. Até então os filmes de ficção científica de Hollywood haviam sido limitados aos seriados nos anos 30-40 (v. g. Buck Rogers  / 1939; Flash Gordon / 1940). O gênero só deslanchou em 1950 por diversas razões. Em primeiro lugar, como era em grande medida uma resposta à ansiedade nuclear, esta ansiedade recebeu um grande impulso quando os russos testaram com sucesso um bomba atômica em 1949. Em segundo lugar, a literatura de ficção cientifica representada por autores com Robert A. Heinlein e Ray Bradbury e pelo escritor e editor John W. Campbell Jr., estava crescendo no início dos anos 50. Em terceiro lugar, o sucesso de bilheteria dos filmes de ficção científica em 1950 e 1951 levou a um aumento de produção nos anos futuros como é típico dos ciclos de Hollywood. Em quarto lugar, o relançamento exitoso do King Kong de 1933 em 1952 demonstrou ainda mais o apetite do público pela ficção científica  – e deve ter influenciado os filmes de ficção científica dos anos 50 relacionados com o sub gênero de mutantes e monstros.

Outros acontecimentos contemporâneos que inspiraram os realizadores de filmes de ficção científica foram os avistamentos de objetos voadores não identificados (UFO) e o início da viagem especial. Os UFOs foram relatados desde 1947 perto de Roswell, New Mexico e no Estado de Washington, e os avistamentos continuaram durante os anos 50. A viagem especial tornou-se uma realidade em 4 de outubro de 1957 quando a União Soviética lançou o Sputnik. Esta demonstração de proeza científica e tecnológica pelos soviéticos deu início a uma nova onda de pânico e paranóia nos Estados Unidos.

Como a indústria de Hollywood havia sofrido reversões econômicas devido à decisão anti-truste e à popularidade da televisão, os estúdios menores e as companhias produtoras independentes acharam que era mais fácil obter recursos financeiros para projetos de orçamento relativamente pequeno.  Embora os filmes de ficção científica de grande orçamento como O Dia em que a Terra Parou  / The Day the Earth Stood Still /1951 fossem comercializados para adultos, os filmes de orçamento pequeno eram agressivamente comercializados para adolescentes e cinemas drive-in. Mais filmes B de ficção científica produzidos por realizadores independentes como Roger Corman ou produtores como Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson da American International Pictures foram exibidos em cinemas drive-in do que qualquer outro gênero.

Quatro grandes temas podem ser percebidos nos filmes de ficção científica dos anos 50: 1. Viagem Extraterrestre. 2. Invasão e Infiltração Alienígenas. 3. Mutantes, Metamorfoses e Ressurreição de Espécies Extintas. 4. Quase Aniquilação ou o Fim da Terra. Cada um destes temas se relaciona, pelo menos indiretamente, aos eventos mundiais dos anos 50 e refletem o medo e a ansiedade da era atômica e da Guerra Fria.

O filme sobre viagem extraterrestre mais importante foi Destino à Lua / Destination Moon / 1950, vagamente baseado em uma história de Robert A. Heinlein, “Rocketship Galileo”, produzido por George Pal, dirigido por Irving Pichel e distribuído pela Eagle-Lion, fez com que a idéia de uma viagem espacial fosse não somente plausível mas também fascinante. A história é simples. Temendo que uma nação menos benigna do que os Estados Unidos pudesse assumir o controle da Lua, o General Thayer (Tom Powers) convence o empresário Jim Barnes (John Archer) a financiar uma expedição ao nosso satélite em foguete movido por energia atômica, o Luna. A tripulação incluia: Barnes, como piloto; Dr. Charles Cargraves (Warner Anderson), o cientista que projetou o motor do foguete; Thayer como co-piloto; e o técnico em electrônica e especialista em rádio Joe Sweeney (Dick Wesson). O orçamento do filme ($586,000) não era muito alto, mas deu para cobrir os elementos necessários: Technicolor, bons efeitos especiais (Lee Zavitz) e precisão técnica. Para garantir autenticidade, Pal empregou como consultores técnicos físicos e engenheiros e o eminente ilustrador científico Chesley Bonestell. O desenhista de produção Ernst Fegté ganhou um prêmio da Academia. Pal queria realismo documentário para o filme e portanto este é altamente técnico e bastante profético do verdadeiro pouso na Lua, que ocorreu em 1969. Foi inserida uma sequência de animação produzida por Walter Lantz na qual Woody Woodpecker explica a teoria da viagem por foguete.

Outros filmes sobre o mesmo assunto foram Da Terra à Lua / Rocketship X-M /  1950 e Voando para Marte / Flight to Mars / 1951.

Da Terra à Lua, escrito, produzido, e dirigido por Kurt Neumann (com script adicional de Dalton Trumbo – não creditado) para a Lippert Pictures (Robert L. Lippert) foi o primeiro filme de ficção científica dos anos 50 a enfatizar que a humanidade poderia se aniquilar em uma guerra nuclear; entretanto, neste caso, a humanidade estava em Marte. Uma expedição americana composta pelos astronautas Coronel Floyd Graham (Lloyd Bridges), Dra. Lisa Van Horn (Osa Massen), Dr. Carl Eckstrom (John Emery), Major William Corrigan (Noah Beery Jr.) e Harry Chamberlain (Hugh O’Brien) a caminho da Lua é desviada por meteoros para Marte, onde a tripulação descobre que a civilização foi varrida por armas atômicas. Os marcianos sobreviventes, cegos, horrivelmente desfigurados e enlouquecidos, voltaram à Idade da Pedra. Vivendo como trogloditas, eles matam o Dr. Eckstrom e o Major Corrigan. Um terceiro homem, Harry Chamberlain, é ferido. Os outros dois Floyd e Lisa conseguem chegar à sua espaçonave com o homem ferido e rumar para a Terra, porém os três morrem em um pouso forçado, mas não antes de transmitir pelo rádio a sua descoberta. O Dr. Fleming (Morris Ankrum) o outro responsável responsável pela expedição, anuncia planos para  RX-M II imediatamente. Para todas as cenas em Marte o filme foi tingido em vermelho rosado.

Outro vôo para fora de nosso planeta teve lugar no filme Voando para Marte / Flight To Mars, dirigido por Lesley Selander em Cinecolor, produzido por Walter Mirisch e distribuído pela Monogram. Desta vez, dois cientistas Dr. Lane e Professor Jackson (John Litel, Richard Gaines); um engenheiro, Jim Barker (Arthur Franz) e sua assistente Carol (Virginia Huston); e um jornalista, Steve Abbott (Cameron Mitchell) fazem um pouso forçado em Marte, onde os marcianos, cuja aparência se assemelha à dos terráqueos, vivem uma vida subterrânea confortável. O líder dos marcianos, Ikron (Morris Ankrum) fala inglês fluentemente, que ele aprendeu escutando transmissões de rádio e televisão da Terra. Embora de início eles pareçam amigáveis, os marcianos desejam tomar posse do foguete dos terráqueos, fazer alguns milhares deles e partir para a conquista da Terra, pois seu suprimento de Corium  (material não existente inventado para o filme) se exauriu e logo Marte se tornará inabitável, mesmo no subterrâneo. A maioria de seus governantes decide manter os visitantes prisioneiros, mas estes têm simpatizantes entre os marcianos e logo um plano é armado para introduzir os terráqueos e dois de seus aliados marcianos Alita (Marguerite Chapman) e Tillamar (Robert Barrat) na espaçonave interditada e escapar para a Terra.

Outros filmes sobre viagens extraterrestres foram feitos durante a década mas, realizado com maiores valores de produção e atores mais famosos, o melhor foi Planeta Proibido / Forbidden Planet / 1956, lançado pela MGM em CinemaScope e Eastman Color e dirigido por Fred McLeod Wilcox. Baseado vagamente na peça “The Tempest”. de William Shakespeare (Prospero torna-se Morbius, Miranda torna-se Altamira, e Robby e o monstro ocupam o lugar de Ariel e Caliban respectivament) e escrito por Cyril Hume, sua ação transcorre no século 23 no planeta Altair – IV, onde uma missão militar americana chega em um disco voador suntuoso, o C-57-D, em busca de sobreviventes de um vôo anterior de vinte anos atrás. Os únicos sobreviventes no planeta são o Dr. Edward Morbius (Walter Pidgeon) e sua filha Altaira (Anne Francis) que vivem em uma casa de alta tecnologia com um robô espantoso chamado Robby, que tem força sobrehumana. Os americanos ficam sabendo que uma super raça, conhecida como Krel, havia habitado Altair – IV, porém seus membros foram destruídos quando seus próprios ids subconscientes voltaram-se contra eles. Além disso, um monstro invisível espreita o planeta, matando alguns americanos. O monstro é uma projeção do id invejoso do Dr. Morbius: uma criatura separada, seu eu mal que fica furioso com a atenção do comandante John J. Adams (Leslie Nielsen) para com sua filha. Para protegê-la, Morbius explode Altair – IV (e a si próprio) enquanto os americanos escapam com Altaira e Robby. Este robô simpático  – que trazia um ator dentro dele (Frankie Carpenter, Frankie Darro) e cuja voz era de Marvin Miller – apareceu mais uma vez em O Menino Invisível / The Invisible Boy / 1957, em parte porque custou caro para ser construído e a MGM se sentiu na obrigação de usá-lo novamente. O design soberbo foi obra dos diretores de arte Arthur Lonergan, Irving Block, Mentor Huebner, Arnold Gilespie (também responsável pela equipe de efeitos especiais) e algumas sugestões do chefe do departamento de arte da MGM Cedric Gibbons. Robert Kinoshita desenhou e construiu Robby e os efeitos de animação foram feitos por técnicos do Walt Disney Studios sob a direção Joshua Meador.

Dois dos filmes mais notáveis sobre invasão e infiltração alienígena foram lançados em 1951: O Monstro do Ártico/ The Thing from Another World e O Dia em que a Terra Parou / The Day The Earth Stood Still.

Em O Monstro do Ártico, produção da Winchester Pictures de Howard Hawks, distribuída pela RKO Radio (provavelmente dirigida por Christian Nyby sob supervisão de Hawks), com roteiro de Charles Lederer e Ben Hecht (não creditado) inspirado em uma história de John Campbell, Jr, “ Who Goes There?”, o Capitão Patrick Hendry (Kenneth Tobey) da Fôrça Aérea e seus homens; um repórter, Ned Scott (Douglas Spencer); um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Arthur Carrington (Robert Cornthwaite); e uma secretária, Nikki (Margaret Sheridan), descobrem no Polo Norte, os vestígios de uma nave espacial enterrada no gêlo.  Ao tentarem tirá-la do gêlo, a nave explode. Perto dali eles encontram um corpo de mais de dois metros de altura congelado. Eles o levam para uma estufa e descobrem que ele não é um homem mas uma espécie de vegetal humanóide evoluido, que se alimenta de sangue. Em vez de usar efeitos especiais, o filme mete medo porque a criatura (James Arness) somente é vista nas sombras e em uma escuridão claustrofóbica, deixando os detalhes para a nossa imaginação. A trilha sonora assustadora de Dimitri Tiomkin aumenta os calafrios. A equipe de militares derrota o invasor malévolo, porém eles têm que resistir ao cientista, que deseja preservá-lo para estudo. No final, após o monstro ter sido torrado por uma armadilha elétrica, o cientista pede desculpas por sua falta de cautela e o repórter adverte o mundo a  “continuar observando os céus”.

O Dia em que a Terra Parou, produzido por Julian Blaustein para a Twentieth Century-Fox e dirigido por Robert Wise, foi baseado em um conto de Harry Bates, “Farewell to the Master” e não tinha cenas no espaço. Os olhos do mundo convergem para Washinton D.C. onde disco voador pousou e, de dentro dele, emerge um alienígena com forma humana, Klaatu (Michael Rennie) e um enorme robô Gort. Quando Klaatu procura na sua roupa especial por um objeto que era nada mais que um presente para o presidente dos Estados Unidos, ele é alvejado por um soldado. Gort reage, destruindo todas as armas à vista. O alienígena deseja um contato com todos os líderes do mundo, mas é informado por um membro da Casa Branca de que isto é impensável. Klaatu foge do hospital e se esconde em uma pensão sob o nome de Mr. Carpenter. Lá ele conhece uma jovem viúva, Helen Benson (Patricia Neal) e seu filho Bobby (Billy Gray). Por indicação de Bobby, Klaatu procura o eminente cientista, professor Jacob Barnhardt (Sam Jaffe), ao qual revela sua identidade e explica suas preocupações: as armas nucleares estariam preocupando os habitantes de outros planetas. Ele pede que Barnhardt reuna membros importantes da comunidade científica internacional para que eles sejam os portadores de sua mensagem. Em uma demonstração não violenta de seus poderes, o alienígena interrompe toda eletricidade na Terra por trinta minutos mas, a contrário do que previa, ele é considerado uma ameaça ao país e começa a ser perseguido. Klaatu tenta chegar à sua espaçonave e é ferido mortalmente pelos militares. Agindo sob suas instruções, Helen procura a ajuda de Gort. O robô recolhe o corpo de Klaatu e o ressuscita. Antes de partir, dá um ultimato para aos cientistas reunidos próximos à espaçonave: outros planetas passaram a viver uma coexistência pacífica por causa da vigilância de robôs poderosos como Gort e a Terra deve ser juntar a eles, caso contrário será destruída. Locke Martin, um sujeito muito alto que era porteiro do Grauman’s Chinese Theater vestiu a roupa de Gort, mas só conseguia ficar dentro dela meia hora de cada vez, A trilha musical foi composta por Bernard Herrmann, usando violinos elétricos, contrabaixo e teremins. A fala mais famosa do filme está em uma de suas cenas mais excitantes. Klaatu foi alvejado e Helen ouve seu último desejo. Ele diz a ela o que ela deve dizer para Gort. Helen consegue chegar onde se encontra a nave especial. onde o gigante metálico está de pé, encerrado em um sólido bloco de um material plástico transparente. Ouve-se um ruído como se energia elétrica estivesse se produzindo. O ruído aumenta. A matéria plástica começa a se derreter. A cabeça de Gort está livre. Dois soldados avançam para ele, porém são desintegrados por faíscas de luz projetadas de seu único ôlho. O material plástico de suas pernas começa a se derreter. Ele se move em direção a Helen, derrubando uma fileira de cadeiras, que haviam sido colocadas para a reunião com Barnhardt e se inclina sobre a mulher apavorada, que está agachada contra uma parede de metal. O visor de Gort se abre, o raio de cristal dentro dele começa a cintilar, e ela finalmente consegue gritar: “Klaatu barada nikto!”

Os filmes sobre invasão ou iniltração alienígena que se seguiram eram mais apavorantes. Os invasores, mesmo quando não pretendiam fazer nenhum mal, eram frequentemente marcianos perigosos ou monstros com uma inteligência superior, capazes de controlar os humanos em proveito próprio ou de uma destruição em massa.

Veio do Espaço  / It Came From Outer Space, dirigido por Jack Arnold para a Universal, lançado em 1953, foi o primeiro filme em 3-D de um grande estúdio, apresentado em uma tela larga com som estereofônico e também o primeiro no gênero ficção científica produzido por William Alland (lembram-se dele como o repórter que nós acompanhamos durante o desenrolar de Cidadão Kane?). Baseado em uma história de Ray Bradbury, “The Meteor”, ele tem início quando, em uma pequena cidade do Arizona, o astrônomo amador John Putnam (Richard Carlson) e sua noiva Ellen Fields (Barbara Rush) assistem à queda de uma nave especial, que parece um meteoro, logo coberta por um deslizamento de terra. Os alienígenas são xenomorfos, seres ectoplasmáticos capazes de assumir a identidade de outros mas, no seu estado natural, parecem globos oculares gigantes. Estes seres estranhos assumem a identidade de pessoas da cidade apenas porque precisam consertar sua nave para seguir viagem sem serem percebidos e temem que os humanos lhes façam mal. Eventualmente, a população tenta destruí-los, mas Putnam os protege na confrontação final, explicando: “Eles não confiam em nós porque o que nós não compreendemos, nós destruimos”. Em algumas cenas, o diretor Jack Arnold cria belas composições ameaçadoras como aquela tomada de um alienígena duplicata do personagem de Barbara Rush no topo de uma montanha. Este filme é um tanto inusitado pelo fato de que não há forças militares, somente um xerife (Charles Drake), para lutar contra os invasores, que deixam a Terra ilesos.

Já os alienígenas de Os Invasores de Marte / Invaders from Mars / 1953 – produzido pela National Pictures, dirigido pelo desenhista de produção William Cameron Menzies e distribuído pela Twentieth Century-Fox em Eastmancolor – queriam fazer o mal, porque implantaram rádios nos pescoços dos cidadãos, tornando-os frios, sem emoção, escravos usados para destruir as armas e estações de pesquisa dos Estados Unidos. O filme é visto pelo olhos de Jimmy Hunt (David MacLean), um menino de doze anos de idade, de uma pequena cidade da Califórnia, que desperta de noite e vê uma nave espacial marciana pousar e afundar em uma área arenosa. Os marcianos são verdes muito altos com rostos rígidos sem emoção e olhos arregalados. Eles são controlados por uma inteligência suprema desencarnada na forma de uma cabeça em um globo de vidro e pretendem sabotar a construção de um foguete nuclear. Sem conseguir convencer a população de que os marcianos chegaram e estão se apropriando das pessoas, inclusive de seus pais (Leif Erickson, Hillary Brooke), o menino persuade uma psicóloga, Dra. Pat Blake (Helena Carter), um cientista, Dr. Stuart Kelston (Arthur Franz) e um oficial do exército, Coronel Fielding (Morris Ankrum): este então destrói os marcianos e sua espaçonave com explosivos. No final do filme, Jimmy acorda e ficamos sabendo que tudo não passou de um sonho, e aí ele vê uma nave espacial no céu. Jimmy estará para sempre à mercê de um mundo de pesadêlo de invasores marcianos / comunistas. O score deRaoul Kraushaar é muito inventivo. Usando um côro de 16 vozes, ele criou um som sobrenatural diferente de qualquer outro filme de ficção científica. Curiosamente a silenciosa mas poderosa Inteligência Marciana dentro do globo foi interpretada pela atriz anã Luce Potter (nome artístico da mexicana Luz Villalobo).

Em Guerra Entre Planetas / This Island Earth / 1955, produzido por William Alland, em Technicolor, distribuído pela Universal-International e dirigido por Joseph M. Newman, um alienígena, Exeter (Jeff Morrow), do planeta Metaluna, situado a milhões de anos luz da Terra, captura dois cientistas nucleares, Dr. Cal Meacham (Rex Reason) e Dra. Ruth Adams (Faith Domergue) e os transporta para seu planeta, que está se desintegrando. É preciso uma nova fonte de energia atômica, para instalar uma camada de isolamento em torno de Metaluna, a fim de protegê-lo do ataque contínuo do mais poderoso planeta Zahgon; entretanto, o alienígena e os cientistas americanos chegam tarde demais, pois o inimigo explodiu ogivas nucleares em Metaluna. Embora tecnológica e intelectualmente mais avançados do que os terráqueos, os metalunos têm um sistema social cheio de regras, imposto por um ditador, The Monitor (Douglas Spencer), que exige obediência completa. Os dissidentes são lobotomizados. Os Mutantes, monstros grotescos meio-insetos, meio-homens, são seus escravos. Com a ajuda de Exeter, os cientistas sequestrados voltam para a Terra mais devotados ao sistema político americano e convencidos da necessidade de um arsenal atômico forte, para dissuadir qualquer ataque da União Soviética. Esta é a mensagem do filme.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EDMUND GOULDING

Ele não somente dirigiu alguns dos melhores dramas dos anos 30-40 (e nos anos 50  duas boas comédias), mas assumiu múltiplas funções na realização de cada um deles, escrevendo ou co-escrevendo roteiros, compondo música incidental, produzindo e até sendo consultado sobre maquilagem, figurinos e penteados. Foi também um grande diretor de intérpretes, porém não deixou nos seus filmes a marca de um estilo pessoal inconfundível, adaptando-se sempre ao molde de cada estúdio no qual trabalhou.

Edmund Goulding

Goulding se concentrou mais na interpretação. Durante os ensaios (aos quais  dedicava um tempo considerável) interpretava ele mesmo cada papel nos seus mínimos detalhes, embora estivesse sempre disposto a ouvir as sugestões dos atores. Por outro lado, não se interessava pela câmera, a não ser na medida em que ela permitia registrar de forma mais completa e fielmente a atuação dos intérpretes. Segundo Lee Garmes “Ele gostava que a câmera seguisse os atores o tempo todo”.

Na sua vida particular o cineasta era um homem complicado e contraditório cujas orgias notórias, bissexualidade, alcolismo e dependência de drogas foram propaladas em Hollywood durante anos. Entretanto, ele fazia uma distinção muito clara entre seu comportamento privado e o que a tela podia e deveria mostrar para o público.

Edmund George (1891-1959) nasceu em Feltham, Middlesex, Inglaterra filho de George Goulding e Florence Ivis Charlotte Hartshorn, que imigraram do campo para Londres em meados do século XIX, onde a promessa de melhores salários e um rendimento regular  eram irresistíveis. Em 1905, George Goulding abriu um açougue no distrito de Chelsea e Edmund ajudou o pai puxando um carrinho com carne para ser entregue aos fregueses. Depois, ele trabalhou como carregador de malas no Savoy Hotel e ali conheceu o empresário teatral Robert Gelardi, que o incentivou a seguir uma carreira no palco. Goulding escreveu e atuou em algumas peças em Londres,  participou de dois filmes silenciosos, Henry VIII (Dir: Will Barker) e The Life of a London Shopgirl (Dir: Charles Raymond) e serviu brevemente (por ter sido ferido) na Primeira Guerra Mundial. Em 1915 partiu para a América.

Chegando em Nova York, graças à sua voz respeitável de barítono, embora destreinada, conseguiu emprego como cantor de pequenos papéis de ópera em uma casa de espetáculos dos irmãos Shubert. Ele retornou brevemente à Londres, onde escreveu nominalmente com Gabrielle Enthoven, frequentador de teatro cheio da grana, a peça “Ellen Young”, cujo enredo serviu como precedente de muitos melodramas, que ele faria em Hollywood. De volta a Nova York, Goulding  decidiu seguir carreira de escritor para o cinema e, sem nenhuma experiência, ingressou na Lewis Selznick Company como aprendiz de montador, com a intenção de conseguir depois a função de roteirista.  Entretanto, sua passagem como montador na Selznick durou pouco meses porque, ao saber que Jesse Lasky estava pagando mil dólares por histórias originais, foi trabalhar para ele no seu quartel general em Astoria, Long Island.

Goulding forneceu argumentos para The Quest for Life  / 1916 – Dir: Ashley Miller) e Crença e Constância / The Silent Partner / 1917 – Dir: Marshall Neilan) mas, quando os EUA entraram na guerra, ele se alistou, e acabou sendo relocado para a Inglaterra, onde realizou um bom trabalho na recepção dos soldados americanos. Nesta ocasião, enviou algumas histórias para os realizadores na América, as quais originaram filmes como Não Há Tal Coisa / The Ordeal of Rosetta / 1917 (Dir: Emile Chautard); The Glorious Lady  / 1919  (Dir: George Irving) e The Perfect Lover / 1919 (Dir: Ralph Ince). Voltando à Terra de Tio Sam, Goulding continuou escrevendo ou co-escrevendo argumentos e roteiros ou fazendo adaptações para 32 filmes de vários estúdios (principalmente  Selznick Pictures), dos quais o mais importante foi Tol’able David / 1921 (Dir: Henry King).

Greta Garbo e John Gilbert em Anna Karenina

Em 1925, Goulding começou a trabalhar na MGM como diretor, roteirista, produtor ou adaptador. Seus filmes na MGM como diretor foram: 1925- O Filho das Selvas / Sun-Up com Pauline Stark, Conrad Nagel; Sally, Irene e Mary/ Sally, Irene and Mary com Constance Bennett, Joan Crawford, Sally O´Neil, William Haines. 1926 – Paris / Paris com Charles Ray, Joan Crawford; Elas Querem Diamantes / Women Love Diamonds com Pauline Starke, Owen Moore. 1927 – Anna Karenina / Love com Greta Garbo, John Gilbert. Em 1929, ele escreveu a história original de Melodia da Broadway / The Broadway Melody (Dir: Harry Beaumont) – filme musical premiado  com o Oscar. Ainda na década de vinte, ele permitiu adaptação de uma peça sua para Loucuras de Mãe / Dancing Mothers / 1926 (Dir: Herbert Brenon – Famous Players-Lasky-Paramount); forneceu o argumento de O Amor é Cego / Happiness Ahead / 1928 (Dir: William A. Seiter – First National); dirigiu, co-produziu, escreveu o roteiro e compôs (com Elise Janis) uma canção para Tudo Pelo Amor / The Trespasser / 1929 com Gloria Swanson, Robert Ames (Gloria Productions-United Artists).

Os cinco primeiros filmes de Goulding nos anos 30 foram: 1930 – O Despertar da Vida / The Grand Parade (roteirista, produtor e autor de canções – Pathé); Paramount em Grande Gala / Paramount on Parade  (diretor do segmento com Richard Arlen, Jean Arthur, Mary Brian, Virginia Bruce, Gary Cooper  – Paramount); Noivado de

Phillips Holmes e Nancy Carroll em Noivado de Ambição

Fredric March e Nancy Carrol em O Anjo da Noite

Ambição / The Devil´s Holiday (diretor, roteirista) com Nancy Carroll, Phillips Holmes – Paramount). 1931 – O Príncipe dos Dólares / Reaching for the Moon (diretor, co-argumentista e co-roteirista) com Douglas Fairbanks, Bebe Daniels, Edward Everett Horton – United Artists; O Anjo da Noite / The Night Angel (diretor, roteirista) com Nancy Carroll, Fredric March – Paramount. O drama romântico Noivado de Ambição passou no Brasil dublado em português con Nancy Carroll no papel que ia ser de Jeanne Eagels e ficou vago quando ela morreu. Nancy demonstrou capacidade dramática até então insuspeitada e quase arrebatou o Oscar de Melhor Atriz, afinal outorgado a Norma Shearer.

Em 28 de novembro de 1931, para surpresa de todos, Goulding contraiu matrimônio com Marjorie Violet Moss, que formava com George Fontana um par de dançarinos no vaudeville e estava desempregada e doente, diagnosticada como tuberculosa. Segundo Louise Brooks, Goulding casou-se com Marjorie por compaixão, com a intenção de lhe trazer felicidade no pouco tempo de vida que lhe restava. Ela faleceu em 1935. Mais tarde, ele revelaria para sua amiga e advogada Fanny Holtzmann que nunca amara Marjorie e aceitara se casar com ela durante uma bebedeira.

Greta Garbo e John Barrymore em Grand Hotel

Os astros de Grande Hotel

Goulding na filmagem de Grande Hotel

Em 1932, Goulding fez Grande Hotel / Grand Hotel, adaptação do romance de Vicki Baum, com elenco multiestelar, idéia de Irving Thalberg. Greta Garbo é a bailarina decadente; John Barrymore, o aristocrático ladrão de jóias; Lionel Barrymore, o contador que resolve passar no luxo os últimos dias de vida; Joan Crawford, a ambiciosa estenógrafa a serviço de Wallace Beery, o industrial prussiano prestes a falir; Lewis Stone, o gerente do hotel. Quando a filmagem terminou, os roteiristas apelidaram Goulding de “o domador de leões”. A certa altura, Garbo pronuncia a legendária frase: “I want to be alone”. O filme, dirigido com classe por Goulding, arrebatou o Oscar, deu uma renda bruta e um grande prestígio para seu diretor.

Edmund Goulding, Leslie Hayward e em Ann Harding na filmagem de Corações em Duelo

Em seguida, ele dirigiu, ainda na MGM, Princesa da Broadway / Blonde of the Follies / 1932 com Marion Davies, Robert Montgomery, Billy Dove; Quando Uma Mulher Ama / Riptide / 1934 com Norma Shearer, Robert Montgomery, Herbert Marshall; Corações en Duelo / The Flame Within / 1935 com Ann Harding, Herbert Marshall, Maureen O´Sullivan, Louis Hayward e escreveu histórias para Carne / The Flesh / 1932 (Dir: John Ford – MGM) e Casar por Azar / No Man of Her Own / 1932 (Dir: Wesley Ruggles – Paramount).

Bette Davis e Henry Fonda em Cinzas do Passado.

Quando Irving Thalberg morreu, em 14 de setembro de 1936, Louis B. Mayer resolveu fazer uma “limpeza” no estúdio e, depois de provocar uma discussão acirrada com Goulding, ele o expulsou da MGM, ameaçando-o de “nunca mais trabalhar nesta indústria”. Porém Goulding logo foi acolhido pela Warner Bros., onde ocorreu a melhor fase de sua carreira. Jack Warner queria fazer mais filmes com papéis femininos fortes e Goulding se encaixou perfeitamente neste novo esquema . Para ele começar no estúdio, Jack teve a idéia de refilmar The Trespasser, que ele escrevera e dirigira para Gloria Swanson em 1929, e este foi o primeiro encontro do diretor com Bette Davis, cujo parceiro no filme era Henry Fonda. Os atores e os técnicos admiraram o trabalho de Goulding especialmente Bette, que  graças à ajuda do fotógrafo Ernest Haller, nunca esteve tão formosa na tela. “Ele era o que chamamos de “a woman´s director” e um “star maker”, ela declarou. O filme, de 1937, chamava-se That Certain Woman exibido no Brasil como Cinzas do Passado.

No ano seguinte, Gouding dirigiu Novos Horizontes / White Banners com Fay Bainter, Claude Rains, Jackie Cooper, Bonita Granville, seguindo-se quatro de seus melhores filmes na década de trinta: 1938 – A Patrulha da Madrugada / The Dawn Patrol. 1939 – Vitória Amarga / Dark Victory; Eu Soube Amar / The Old Maid; Não Estamos Sós /  We Are Not Alone.

Basil Rathbone, David Niven e Errol Flynn em A Patrulha da Madrugada

A Patrulha da Madrugada é a segunda filmagem do drama de aviação escrito por John Monk Saunders, agora com uma quase imperceptível mudança de ênfase em relação ao pacifismo, mais de acordo com a época. Foram aproveitadas muitas tomadas aéreas da versão de 1930 e rodados exteriores do campo de aviação no rancho Calabasas, de propriedade da Warner. Errol Fynn tem uma de suas melhores perfomances como o líder de uma esquadrilha que não suporta ver pilotos inexperientes serem mandados para missões perigosas. Basil Rathbone e David Niven dão forte apoio interpretativo ao espetáculo, que não fica nada a dever à versão de 1930, dirigida por Howard Hawks.

Bette Davis e Ronald Reagan em Vitória Amarga

O script de Casey Robinson em Vitória Amarga conta uma história cuja pungência é acentuada pela direção sensível de Goulding e pela música romântica de Max Steiner. Bette Davis fez muita gente chorar como a jovem da sociedade condenada por um tumor no cérebro, que se apaixona pelo médico interpretado por George Brent. A cena final da morte da protagonista, com ela deitada na cama e seu rosto em close até sair de foco é sublime e antológica. Bette, Steiner e o filme foram indicados para o Oscar. Nos créditos percebe-se ainda os nomes de Ronald Reagan e Humphrey Bogart como coadjuvantes.

Bette Davis e Miriam Hopkins em Eu Soube Amar

Foi novamente um roteiro de Casey Robinson, aqui baseado no romance de Edith Wharton, que serviu para Goulding dirigir Bette Davis em outro drama notável, Eu Soube Amar, e o diretor mostrou mais uma vez como sabia lidar com o gênero e com atrizes. Bette é a jovem que tem uma filha ilegítima e a entrega para ser criada por uma prima, vivida por Miriam Hopkins. Esta, apesar de ter se casado com outro, ainda amava o ex-noivo, pai da criança, surgindo daí os vários conflitos. Absorvente do início ao fim, o filme, além das primorosas atuações das duas atrizes, tem ainda bela partitura de Max Steiner e a apurada fotografia de Tony Gaudio.

Flora Robson e Paul Muni em Não Estamos Sós

Ator principal de Não Estamos Sós, Paul Muni considerava seu melhor papel o do médico do interior que, na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, é acusado de matar a mulher e ter caso amoroso com uma governanta austríaca. Ele, Jane Bryan (como a amante) e Flora Hobson (como a esposa) têm brilhantes atuações e Goulding reproduz satisfatoriamente o ambiente britânico do romance de James Hilton.

Nos anos 40, Goulding fez mais quatro filmes para a Warner: 1940 – O Último Encontro / Till We Meet Again com Merle Oberon, George Brent, Geraldine Fitzgerald, Pat O´Brien, Binnie Barnes, Frank McHugh, Eric Blore. 1941 – A Grande Mentira / The Great com Bette Davis, Mary Astor, George Brent; De Amor Também Se Morre / The Constant Nymph com Joan Fontaine, Charles Boyer, Alexis Smith, Charles Coburn, Brenda Marshall, Peter Lorre. 1946 – Escravo de uma Paixão / Of Human Bondage com Eleanor Parker, Paul Henreid, Alexis Smith, Edmund Gwenn (obs. filmado em 1944, mas só lançado em 1946).

Merle Oberon e George Brent em O Último Encontro

O primeiro filme é uma refilmagem com acréscimo de personagens e situações de A Única Solução / One Way Passage / 1932  (Dir: Tay Garnett com William Powell e Kay Francis). Brent e Oberon não têm o mesmo charme de Powell e Francis, mas não decepcionam. Os coadjuvantes são todos muito bons, sobressaindo Binnie Barnes, como uma vigarista que tem um passado com o personagem de Brent.

Bette Davis, George Brent e Mary Astor em A Grande Mentira

No segundo filme, Pierre (George Brent,) um piloto, se casa com Sandra (Mary Astor), pianista muito conhecida Ele não tarda a lamentar este matrimônio muito rápido e percebe que ama Maggie (Bette Davis), uma de suas amigas do tempo de estudante. Entrementes, seu advogado descobre que o casamento é nulo, porque Sandra não estava ainda divorciada. Pierre se casa com Maggie e parte em uma expedição, pouco depois considerada como perdida, Sandra espera um bebê. Maggie quer criar o filho de Pierre. Oferece uma boa quantia e a artista aceita. Pierre é encontrado alguns meses depois. Ele pensa que Maggie é a mãe do bebê. Em presença de Sandra, Maggie confessa sua mentira a seu marido, mas Sandra parte, deixando a criança com eles. Ajudado pela grande atriz Bette Davis, Goulding soube conduzir o drama, dando às cenas uma emoção poderosa. Porém foi Mary Astor que ganhou o Oscar.

Charles Boyer e Joan Fontaine em De Amor Também se Morre

O terceiro filme é a terceira versão de um romance de Margaret Kennedy, contando em síntese a história de uma jovem de sáude frágil, Tessa (Joan Fontaine), apaixonada por seu professor Lewis Dodd (Charles Boyer), compositor egocêntrico e mais velho do que ela. Ele se casa com a prima de Tessa, a rica socialite Florence  (Alexis Smith) e a pobre moça morre, escutando no rádio o triunfo do músico. A interpretação tocante de Joan Fontaine como a adolescente apaixonada (que lhe valeu uma indicação para o Oscar) e a música arrebatadora de Erich Wolfgang Korngold ajudaram Goulding a realizar um bom drama romântico.

O quarto filme é a segunda versão do romance de Somerset Maugham (que agora se passa no final do século XIX, tão boa ou melhor do que a primeira  (Escravos do Desejo / 1934 (Dir: John Cromwell com Bette Davis e Leslie Howard), graças aos dois intérpretes centrais, Paul Henreid e Eleanor Parker em perfomances magníficas, à beleza plástica da fotografia de Paverel Marley, à sinfonia inspirada de Erich Wolfgang Korngold e a consciência cinematográfica de Goulding.

Goulding colaborou com o esforço de guerra, participando com outros seis diretores e muitos astros e estrelas de Para Sempre e Um Dia / Forever and a Day / 1943, produzido pela RKO. O filme conta a história de uma casa inglesa, por onde passam várias gerações. O segmento sob responsabilidade de Goulding mostra a dita casa aproveitada como hotel residência de militares durante a Primeira Guerra Mundial e tem como personagens principais um soldado americano (Robert Cummings) e a balconista do hotel (Merle Oberon); porém a cena mais comovente  ocorre entre um casal de idosos (Gladys Cooper, Roland Young), quando recebem a notícia de que seu filho foi morto em ação.

Antes de ingressar definitivamente na Twentieth Century-Fox, Goulding fez para esta companhia, Claudia / Claudia /1943, comédia dramática demasiadamente teatral (baseada na peça de Rose Franken), contando a história de uma jovem (Dorothy McGuire, repetindo seu papel na Broadway e estreando no cinema) casada com um homem maduro e compreensivo (Robert Young) e suas atribulações, a maioria das quais girando em torno de sua imaturidade crônica e seu apêgo à mãe (Ina Claire). A moça acaba aprendendo muito sobre a vida e se tornando adulta.

Devidamente instalado na Twentieth Century-Fox, foi lá que Goudling encerrou sua carreira, após ter realizado oito filmes, começando com dois dramas e duas comédias de bom nível artístico (1946 – O Fio da Navalha / The Razor´s Edge. 1947 – O Beco das Almas Perdidas / Nightmare Alley. 1949 – Cante Noutra Freguesia / Everybody Does It. 1950 – Senhor 880 /Mister 880) e depois fez apenas filmes indignos de seu talento (1952 – Travessuras de Casados / We´re Not Married. 1953 – À Sombra das Palmeiras / Down Among the Sheltering Palms. 1956 – Alma Rebelde / Teenage Rebel).

Gene Tierney e Tyrone Power em O Fio da Navalha

John Payne, Herbert Marshall, Gene Tierney e Clifton Webb em O Fio da Navalha

O Fio da Navalha é um drama psicológico e filosófico baseado em um romance de Somerset Maugham, interpretado no filme por Herbert Marshall, como um observador imparcial e involuntário dos acontecimentos. O principal protagonista, Larry Darrell (Tyrone Power), jovem aviador americano traumatizado pela morte de um amigo na Primeira Grande Guerra, abandona tudo, inclusive seu noivado com uma jovem da alta sociedade, Isabel (Gene Tierney), em busca de um sentido para a vida. Ele vai para Índia consultar um místico hindu. Ao retornar, Isabel faz de tudo para reconquistá-lo, embora já esteja casada com outro. Apesar de uma cena horrível do Himalaia com montanhas de papelão e uma reconstituição ridícula do ambiente parisiense, Goulding mantém o drama sob controle, auxiliado por boas interpretações de todo o elenco. Anne Baxter ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante como Sophie, a jovem que se torna alcoólatra após a morte do marido e do filho em um desastre de automóvel e Clifton Webb foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante pela sua divertida composição como Elliott Templeton, tio esnobe de Isabel. O filme também foi indicado para o prêmio da Academia. A música de Alfred Newman e a fotografia de Arthur Miller são outros trunfos do espetáculo.

Tyrone Power e Joan Blondell em O Beco das Almas Perdidas

 

O Beco das Almas Perdidas é um drama com história original e atmosfera corrosiva, tocando em assuntos ousados na época (dipsomania, sexo pré-marital, pseudo religião) e contendo elementos noirs (mulher fatal, protagonista cínico e amoral, degradação, venalidade, fotografia expressionista). Stanton Carlisle (Tyrone Power) aprende com Zeena (Joan BLondell) o código que esta usa no seu espetáculo de telepatia. Depois, abandona-a e seduz Molly (Colleen Gray), uma garota que trabalha no mesmo parque de diversões. Os dois vão para Chicago, onde Stanton faz muito sucesso em uma boate. Ali conhece uma psicóloga, Dra. Lilith Ritter (Helen Walker), que passa a ser sua sócia, fornecendo as gravações das consultas de seus pacientes para que ele , como reputado espiritualista, possa enganar os incautos. Durante uma farsa para tirar dinheiro de um ricaço, o charlatão é desmascarado. Stanton passa a viver como um vagabundo, tornando-se alcoólatra. Ele se degrada tanto, que acaba como uma repugnante atração de feira. Embora sendo um diretor mais especializado no filme “ para mulheres”, Goulding lida bem como o tema em desacordo com seu temperamento, dando força trágica ao protagonista e um bom andamento à narrativa.

Linda Darnell e Paul Douglas em Cante Noutra Freguesia

Paulo Douglas e Celeste Holm em Cante Noutra Freguesia

Cante Noutra Freguesia é uma comédia satírica, baseada em uma história de James M. Cain sobre uma burguesa, Doris Borland (Celeste Holm) que, sem ter a devida vocação, deseja ser uma grande cantora lírica, atormentando seu marido Leonard (Paul Douglas.) Levado pela mania da mulher a conhecer empresários e cantores, Leonard encontra a famosa prima dona Cecil Carver (Linda Darnell), que anda à procura de um barítono. Ela descobre por acaso que Leonard tem uma voz formidável e o converte da noite para o dia na maior sensação dos meios musicais de Nova York. Porém seu contato com o público na Ópera é um desastre, porque ele tem um medo do palco que o impede de mostrar suas aptidões sonoras. Cecil Carver se afasta dele enquanto Doris perdoa sua fuga. E partem os dois… cantando. A direção de Goulding é ágil, mantendo o desenrolar dos acontecimentos em um ritmo rápido. As situações cômicas são bem tratadas com diálogos bastante humorísticos.

Brrt Lancaster, Dorothy McGuire e Edmund Glenn em Senhor 880

 

Senhor 880 é uma comédia dramática, inspirada em um fato policial autêntico, conhecido como o “ caso 880”, adaptado à tela por Robert Riskin. O entrecho gira em torno de um velhinho, ex-capitão da Marinha, Skipper Miller (Edmund Gwenn, depois de cogitado Walter Huston), que “emite” em uma velha prensa, notas mal confeccionadas de um dólar para seu modesto sustento e é precisamente a natureza diminuta dos valores dispersamente lançados que intriga e desnorteia a polícia. Quando sua vizinha, Ann Winslow (Dorothy McGuire,) passa inconscientemente duas dessas cédulas falsas, ela é seguida pelo agente do FBI Steve Buchanan (Burt Lancaster) e acaba descobrindo o ingênuo falsário. Com a ajuda dos numerosos amigos do velhinho, Ann defende Skipper e ele é condenado a uma pena mínima por um juiz indulgente e compreensivo. Este entrecho leve e interessante, habilmente conduzido por Goulding, é muito bem interpretado pelos três atores centrais, principalmente Edmund Gwenn, adorável como o velhinho de uma afabilidade e de uma lógica désarmante.

KAY FRANCIS

Ela foi uma das atrizes mais populares da tela no anos 30, classificada como “a rainha da Warner Bros.“, “a mulher mais bem vestida do Cinema” e, por sua cor de pele morena e cabelos negros, “a americana mais brasileira de Hollywood” (aqui no Brasil houve até rumores de que ela teria nascido em Pernambuco). Entre 1930 e 1937 ninguém, a não ser Shirley Temple, apareceu mais nas capas das revistas de cinema dos Estados Unidos e, em nosso país, basta folhear as nossas Cinearte e A Scena Muda para constatar a constância de suas fotos em quase todos os números destas duas publicações, sempre chique em modelos muito admirados pelas fãs. Apesar de sofrer de uma leve gagueira e pronunciar os “rs” como “ws” (palavras começando por “r” eram cortadas dos roteiros de Francis) ela era uma das estrelas mais glamourosas e bem pagas (em meados da década de trinta seu salário de mais de 5 mil dólares semanais ultrapassava o de várias outras colegas), interpretando, primeiro na Paramount e depois na Warner Bros., mulheres elegantes e mundanas em melodramas românticos e, eventualmente, em algumas comédias.

Kay Francis

Katharine Edwina Gibbs (1905-1968), nasceu em Oklahoma City, filha de Joseph Gibbs, proprietário de terras e criador de cavalos que havia perdido sua fortuna quando ela nasceu e de Katherine Clinton, atriz de teatro. Quando Kay tinha nove meses de idade a família se mudou para a Califórnia e depois foi para Denver e Salt Lake City onde, Mrs. Gibbs, cansada das frequentes mudanças, problemas financeiros e alcoolismo de Joseph, e arrependimento por ter abandonado a carreira teatral, decidiu se separar do marido e voltar para o palco.

A pequena Katharine passou a infância acompanhando a mãe em suas excursões frequentes, estudando em alguns colégios religiosos e finalmente em uma escola de treinamento para secretárias de Nova York até que arrumou emprego como assistente de Juliana Cutting, organizadora de festas para a alta sociedade novaiorquina. Nesta ocasião a carreira de sua mãe teve um impulso, quando ela apareceu em duas peças no Garrick Theater de Nova York, produzidas pelo prestigioso Theatre Guild.

Em 1922 Kay trabalhou brevemente como modelo e como secretária, perdeu sua virgindade e iniciou uma vida de sexualidade desinibida (casou-se aos 17 anos de idade com James Dwight Francis, filho de família rica, teve amantes de ambos os sexos e fez três abortos). Ela se divorciou de James em 1925 e neste mesmo ano estreou no teatro em uma versão moderna do “ Hamlet” de Shakespeare, casou-se com William Gaston, assistente de um promotor público (outro matrimônio frustrado) e fez um teste no estúdio da Famous Players em Astoria para o diretor David Wark Griffith, provavelmente para ser incluída no elenco de Tristezas de Satanás / Sorrow of Satan. Mas não deu em nada.

Deixando de lado a vida pessoal de Kay – seus / suas amantes, mais um aborto, início de sua tendência para o alcoolismo, algumas aparições no teatro, trabalho como modelo, vejamos como ela debutou no cinema. Existem várias versões, mas parece que foi por intermédio de Walter Huston, o ator principal de “Elmer the Great”, peça na qual ela desempenhara um pequeno papel como uma corista. Escolhido para liderar o elenco de Algema Cruel / Gentlemen of the Press / 1929, Huston teria convencido os responsáveis pela Paramount a contratar Kay. Logo em seguida, ela participou de um filme dos Irmãos Marx, Hotel da Fuzarca / The Cocoanuts / 1929, usando em ambos o nome artístico de Katherine Francis. Após Kay ter completado seus dois primeiros filmes em Nova York, a Paramount decidiu transferí-la para Los Angeles a fim de continuar sua carreira no estúdio da Melrose Avenue em Hollywood e, assim que ela chegou, imediatamente iniciou uma campanha de publicidade, lançando Kay como competidora das duas atrizes consideradas as ”mais bem vestidas” da época, Constance Bennett e Lilyan Tashman. Sua presença esbelta e vistosa, figura de modelo (com 1.75 ms de altura), cabelos  bem pretos e capacidade de se vestir com elegância  (com figurinos de Travis Banton e Orry-Kelly) ela conquistou o público, principalmente o feminino.

Kay Francis e Ronald Colman em Raffles

Nos seus filmes iniciais em Hollywood, a maioria deles na Paramount – Curvas Perigosas / Dangerous Curves / 1929 com Clara Bow e Richard Arlen; Ilusão / Illusion / 1929 com Charles “ Buddy” Rogers, Nancy Carroll; Órfãos do Divórcio / The Marriage Playground / 1929 com Mary Brian, Fredric March; Por Traz da Máscara / Behind the Make-Up / 1930 com Hal Skelly, William Powell, Fay Wray; Caminhos da Sorte / Street of Chance / 1930 com William Powell, Jean Arthur; Paramount em Grande Gala / Paramount on Parade / 1930 com um elenco de astros e estrelas; Mulher Desejada / A Notorious Affair / 1930  (First National) com Billie Dove, Basil Rathbone – Kay não teve o papel principal, o que só viria acontecer em Defesa Que Humilha / For the Defense  / 1930 e logo depois em Raffles /  Raffles / 1930 (Samuel Goldwyn), nos quais dividiu o estrelato respectivamente com William Powell e Ronald Colman. Foram os seus dois melhores filmes até então.

Kay Francis e Jack Oakie em Naufrágio Amoroso

Ela fez sucessivamente, – salvo quando mencionados outros estúdios – na Paramount: Naufrágio Amoroso / Let´s Go Native / 1930 (com Jeannette MacDonald encabeçando o elenco); Coragem de Amar / The Virtuous Sin / 1930 com Walter Huston, Kenneth MacKenna); Um Sonho Apenas / Passion Flower / 1930 (MGM) com Kay Johnson, Charles Bickford; Página de Escândalo / Scandal Sheet /1931 com George Bancroft, Clive Brook; O Benzinho de Todas / Ladie´s Man /1931 com William Powell, Carole Lombard. The Vice Squad / 1931 com Paul Lukas; Reconquistada / Transgression / 1931 (RKO) com Paul Cavanagh, Ricardo Cortez; Mãos Culpadas / Guilty Hands/ 1931 (MGM) com Lionel Barrymore, Madge Evans; 24 Horas / 24 Hours / 1931 com Clive Brook, Miriam Hopkins; Prá Que Casar / Girls About Town / 1931 com Joel McCrea, Lilyan Tashman; A Falsa Madona / The False Madonna / 1932 com William “ Stage” Boyd; A Volta do Deserdado / Strangers in Love  / 1932 com Fredric March.

Lionel Barrymore e Kay Francis em Mãos Culpadas

Neste lote destaco em negrito Mãos Culpadas, drama criminal com ótimo enredo: em uma viagem de trem, o ex-promotor público e agora advogado, Richard Grant (Lionel Barrymore), diz para seus companheiros de viagem que, baseado em sua longa experiência, o assassinato algumas vezes pode ser justificado e uma pessoa inteligente deve ser capaz de cometê-lo, sem ser descoberto. É o que ele pretende fazer, a fim de impedir que sua filha (Madge Evans) se case com Gordon Rich (Alan Mowbray) um canalha bem mais velho do que ela. Kay faz o papel da amante despeitada de Rich, que suspeita de que a morte dele não foi suicídio, como Grant fizera a polícia crer. O diretor W. S. Van Dyke dirigiu com boa imaginação cinematográfica um roteiro cheio de reviravoltas e Barrymore brindou o espectador com um de seus melhores desempenhos.

Kay Francis e Ricado Cortez em Capricho Branco

Em 1931, Kay casou-se com o ator Kenneth MacKenna. Pouco depois assinou contrato com a Warner Bros. e, depois de fazer três de seus melhores filmes em 1932 – Ladrão Romântico / Jewel Robbery; A Única Solução / One Way Passage; Ladrão de Alcova / Trouble in Paradise (este na Paramount) – seus papéis foram diminuindo de qualidade em produções de menor merecimento artístico: 1932 – Amante Discreta / Cynara com Ronald Colman. 1933 – Pela Fechadura / The Keyhole com George Brent; Aurora de Duas Vidas / Storm at Daybreak (MGM) com Nils Asther, Walter Huston; Mulher e Médica / Mary Stevens, M.D. com Lyle Talbott, Glenda Farrell; A Mulher Que Eu Amei / I Loved a Woman (First National) com Edward G. Robinson; Presa do Destino / The House on 56th Street com Ricardo Cortez, Gene Raymond. 1934 – Capricho Branco / Mandalay com Ricardo Cortez, Lyle Talbot; Wonder Bar / Wonder Bar (First National) com Al Jolson, Dolores Del Rio, Ricardo Cortez, Dick Powell; Monica / Dr. Monica com Warren William.  Espionagem / British Agent (First National) com Leslie Howard. 1935 – Vivendo em Veludo / Living on Velvet (First National) com Warren William; O Primeiro Beijo / Stranded com George Brent; A Favorita / The Goose and the Gander com George Brent; Amores Trágicos / I Found Stella Parrish com (First National) com Ian Hunter, Paul Lukas. 1936 – Anjo de Piedade / White Angel com Ian Hunter, Donald Woods; Dá-me Teu Coração / Give Me Your Heart com George Brent; 1937 – Ventura Roubada / Stolen Holiday com Claude Rains, Ian Hunter; Outra Aurora / Another Dawn com Errol Flynn, Ian Hunter; Confession; Intrigas da Alta Roda / First Lady com Anita Louise, Preston Foster. 1938 –  Assim São as Mulheres / Women Are Like That com Pat O´Brien , Ralph Forbes; Filhos Sem Lar / My Bill com Dickie Moore, Bonita Granville; Segredos de uma Atriz / Secrets of an Artist com George Brent, Ian Hunter; Promessa Cumprida / Comet Over Broadway com Ian Hunter. 1939 – Contra a Lei / King of the Underworld com Humphrey Bogart; Mulheres Que O Vento Leva / Women in the Wind com William Gargan.

Kay Francis e Ronald Colman em Amante Discreta

Kay Francis, Walter Huston e NIls Asther em Aurora de Duas Vidas

Ricardo Cortez, Dolores Del Rio,   Al Jolson, Kay Francis e Dick Powell  em Wonder Bar

Kay Francis e Warren William em Monica 

Leslie Howard e Kay Francis em Espionagem

George Brent e Kay Francis em Dá-me Teu Coração

Ladrão Romântico, muito bem dirigido por William Dieterle, é uma comédia romântica excelente, baseada em uma peça de Ladislaus Fodor, sobre uma dama da alta sociedade, Baronesa Teri (Kay Francis), esposa adúltera de um milionário que percebeu o vazio de sua vida e se curou de seu tédio com um ladrão de jóias audacioso, elegante e requintado  (William Powell), – parecido com o Arsène Lupin de Maurice Leblanc. Dotado de uma técnica incomparável para esvaziar as joalherias da Ringstrasse de Viena nas barbas das autoridades, ele ridiculariza os representantes da lei e até o prefeito sucumbe aos cigarros de marijuana oferecidos pelo charmoso larápio. Outra dose parecida de amoralidade – pois trata-se de um filme anterior ao Código Hays – é o decote escandalosamente ousado nas costas de Teri e, no final, o oferecimento de seu marido para uma cura de descanso em Nice, onde a espera o irresistível gatuno.

Kay Francis e William Powell em Ladrão

A Única Solução é um melodrama com história original de Robert Lord premiada com o Oscar. Dan Hardesty (William Powell), condenado  por homicídio e preso em Honk Kong é levado para San Francisco no transtlântico  SS Maloa a bordo do qual se encontra com uma doente incurável, Joan Ames (Kay Francis). Os dois se envolvem em um idílio, cada qual sem saber que a vida do outro está prestes a se extinguir. O diretor Tay Garnett deu pungência ao tema romântico, equlibrando-o com toques de comédia, providenciados por Aline MacMahon e Frank McHugh, um vigarista e uma falsa condessa, espécie de cupidos dos casal com os dias contados.

William Powell e Kay Francis em A Única Solução

Em Ladrão de Alcova, comédia romântica dirigida magnificamente por Ernst Lubitsch, Gaston Monescu (Herbert Marshall) e Lily (Miriam Hopkins) são dois ladrões cosmopolitas que pretendem furtar as jóias de Madame Mariette Colet  (Kay Francis), dona de uma fábrica de perfumes, empregando-se em sua casa. Depois de muitos imprevistos, finura e mordacidade, termina esta farsa mundana, deliciosamente cínica e amoral, um dos filmes prediletos do diretor, que conta ainda com a presença hilariante de Edward Everett Horton e Charles Ruggles como os rivais pela mão de Madame Cole.

Kay, Herbert Marshall e Miriam Hopkins em Ladrão de Alcova

Kay Francis e Herbert Marshall em Ladrão de Alcova

Confession, é a refilmagem – incompreensívelmente inédita no Brasil, pois se tratava de uma produção classe A da Warner – do filme alemão Mazurca / Mazurka / 1935 de Willi Forst com Pola Negri, coincidentemente dirigida por outro alemão, Joe May, então radicado nos EUA. Tal como na produção germânica, a história foi valorizada pela excelência da direção. Kay é Vera Kowalska, cantora de ópera pupila de um grande maestro, Michael Michailow (Basil Rathbone), seu admirador; porém ela se casa com outro e tem uma filha, Lisa (Jane Bryan). Quando o marido vai para a guerra, ela se embriaga em uma festa e se entrega ao maestro. O marido fica sabendo de tudo,  deixa-a e se casa novamente, obtendo a guarda da filha. Vera, para ganhar a vida, vai ser cantora em um cabaré. Basta descrever uma sequência do filme para mostrar a intuição de cinema de Joe May. Vera está cantando no cabaré. De repente ela avista em uma das mesas, o ex-amante beijando sua filha. Vera desmaia. Nervoso, o maestro resolve sair rapidamente com a garota. Quando estão subindo a escada em direção à porta de saída, a câmera se volta para baixo, onde vemos Vera com um revólver na mão. Ela atira e atinge Michailov pelas costas. O corpo dele rola pela escada, indo cair ao lado de algumas serpentinas e da arma assassina.

Kay Francis na filmagem de Confession

Na sua vida íntima sempre turbulenta Kay divorciou-se de Kenneth MacKenna, continuou se entregando à bebida, fazendo abortos e colecionando amantes entre eles Maurice Chevalier, Otto Preminger, Delmer Daves, Rouben Mamoulian e Fritz Lang. Sua carreira que parecia tão promissora dez anos atrás, tornou-se um fardo em 1939, por ter a Warner colocado a atriz em um amontoado de filmes com histórias ruins; mas havia se tornado uma milionária. Durante a filmagem de seu último filme neste estúdio, Mulheres Que O Vento Leva, ela concedeu uma entrevista para a revista Photoplay, cujo título e primeira frase era: “I can´t wait to be forgotten”.

Em fevereiro de 1939 a RKO contratou-a para Esposa Só No Nome / In Name Only, bom filme de John Cromwell, no qual ela contracenou com Carole Lombard e Cary Grant e impressionou os críticos, interpretando uma esposa vingativa e amarga. Em janeiro de 1940 trabalhou com Deanna Durbin e Walter Pidgeon na Universal em Rival Sublime / It´s a Date, sob a direção de William Seiter, atuando como mãe de Deanna. Esta, é claro, era a principal atração, porém Kay não ficou embaraçada no papel de uma estrela envelhecida que é obrigada a competir com sua filha.

Jack Benny e Kay Francis em A Tia de Carlitos

 

Cena de Sempre no MeuCoração

Como free lancer Kay fez em seguida: 1940 – A Vingança dos Daltons  / When The Daltons Rode  (Universal) com Randolph Scott, Brian Donlevy; Homenzinho / Little Men (RKO) com Jack Oakie, George Bancroft. 1941 – Mulheres de Luxo / Play Girl (RKO) com James Ellison); O Homem Que Se Perdeu / The Man Who Lost Himself (Universal) com Brian Aherne; A Tia de Carlitos / Charley´s Aunt (Twentieth Century-Fox) com Jack Benny, James Ellison, Anne Baxter; Ciúme Não é Pecado / The Feminine Touch (MGM) com Rosalind Russell, Don Ameche, Van Heflin. 1942 – Sempre no Meu Coração / Always in My Heart (Warner Bros.), com Walter Huston, Gloria Warren; Fruta Cobiçada / Between Us Girls (Universal) com Diana Barrymore, Robert Cummings. 1944 – Quatro Moças Num Jeep/ Four Jills in a Jeep (Twentieth Century-Fox) com Carole Lombard, Martha Raye, Mitzi Mayfair. Neste grupo de filmes, sobressaiu Sempre no Meu Coração, apenas por ter sido grande sucesso de público no Brasil, tendo ficado 22 semanas em cartaz no Rio de Janeiro

Durante a Segunda Guerra Mundial Kay colaborou com o esforço de guerra, ajudando a divertir as tropas em shows domésticos e no exterior, visitando hospitais e servindo mesas em cantinas especiais para soldados. Em abril de 1945  esteve no Brasil, cumprindo missão da U. S. O. Camp Shows, primeiro no Recife e depois no Rio de Janeiro.

Em 1945-1946 Kay produziu com Jeffrey Bernerd seus três filmes derradeiros, todos de baixo orçamento e distribuídos pela Monogram:  1945 – Divórcio / Divorce com Bruce Cabot; Esposas Errantes / Allotment Wives com Paul Kelly. 1946 – Precisa-se de uma Esposa / Wife Wanted com Paul Cavanagh. Em 1946 ela se retirou do cinema e, exceto algum trabalho no palco e aparições na televisão no início dos anos 50, evitou totalmente os refletores. Quando faleceu em 1968, vitimada pelo cancer, deixou a maior parte da sua fortuna de quase 2 milhões de dólares para a Seeing Eyes, Inc., organização que treinava cães para serem guias de cegos.

MATHILDE COMONT

Ela era uma atriz nos filmes de Hollywood dos anos 20-30, que sempre chamava atenção pelo seu físico imponente e suas qualidades interpretativas. Hoje talvez ninguém mais se lembre dela, mas tendo revisto recentemente  suas atuações em O Ladrão de Bagdad / The Thief of Bagdad e O Bamba do Rio Verde / The Hard Hombre e visto pela primeira vez Rosita / Rosita (em uma cópia restaurada exibida no canal franco-alemão Arte, que me foi enviada por Sergio Leemann), achei que ela merecia uma homenagem.

Mathilde Comont

Mathilde Comont (1886-1938) apareceu primeiramente no cinema em oito curtas-metragens franceses : 1908 – Mon Chef Vient Dejeuner (Dir: Maurice de Féraudy / Gaumont); Les Vingt-Huit Jours de Clairette (Dir: Maurice de Féraudy / Gaumont). 1909 – La Dormeuse (Dir: Michel Carré / Pathé-Frères). Ordre du Roi (Dir: Michel Carre´/ Pathé-Frères); Mathurin Fait la Noce (Dir: Michel Carré / Pathé-Frères); Mange ta Soupe (Dir: Georges Monca / Pathé-Frères); Ce que Femme Veut (Dir: Georges Monca (Pathé-Frères). 1910 – L´Inspecteur des Becs-de-Gaz (Dir: René Chavance / Pathé-Frères).

Mathilde e Stan Laurel

Instalada definitivamente nos EUA, participou de alguns filmes curtos: não creditada em Max in a Taxi e Max Wants a Divorce, ambos de 1917 (Dir: Max Linder / Essanay); A Bad Little Good Man / 1917 e Eddie Get the Mop / 1918 (Dir: William Beaudine, argumento King Vidor / Nestor); Romance de um Apache / A Rogue´s Romance / 1919 (Dir: James Young / Vitagraph); não creditada em O Lírio do Reino Florido / A Tale of Two Worlds / 1921 (Dir: Frank Lloyd / Goldwyn); The Handy Man / 1923 (Dir: Robert Kerr / Quality Film) contracenando com Stan Laurel.

Seus dois primeiros papéis importantes ocorreram em duas grandes produções: Rosita / 1923 (Dir: Ernst Lubitsch), interpretando a mãe de Rosita (Mary Pickford) e O Ladrão de Bagdad / 1924 (DIr: Raoul Walsh), filme de aventuras orientais protagonizado por Douglas Fairbanks no qual, sem receber crédito, assumiu a figura masculina do Príncipe Persa, de bigode e turbante.

Mathilde ao lado de Mary Pickford em Rosita

Mathilde em O Ladrão de Bagdad

Ainda na década de trinta, fez mais 27 filmes como coadjuvante, em pequenos papéis ou apenas pontas, algumas vezes sem ser creditada: 1924 – O Espírito da Meia-Noite / Mademoiselle Midnight (Dir: Robert Z. Leonard); Confissão Suprema / His Hour (Dir: King Vidor). 1925 – não creditada em Playing with Souls (Dir: Raph Ince): A Falência do Casamento / If Marriage Fails (Dir: John Ince). 1926 – A Fera do Mar / The Sea Beast (Dir: Millard Webb); A Montanha Encantada / The Enchanted Hill (Dir: Irvin Willat); A Dansarina de Montmartre / The Girl from Montmartre (Dir: Alfred E. Green); Um Grito D´Alma / The Far Cry (Dir: Silvano Balboni); La Bohème / La Bohème (Dir: King Vidor); A Felicidade Depende do Dinheiro / The Gilded Highway /  (Dir: J. Stuart Blackton); não creditada em Kiki / Kiki (Dir:  Clarence Brown); Meia-Noite em Paris / Paris at Midnight (Dir: E. Mason Hopper); Coração Que Hesita / Volcano (Dir: William K. Howard); Amor Napolitano / (Dir: George Archainbaud); não creditada em Sonhos e Realidade / The Passionate Quest (Dir:  J. Stuart Blackton); Sangue por Glória  / What Price Glory (Dir: Raoul Walsh); A Flor dos Cortiços / Rose of the Tenements (Dir: Phil Rosen). 1927 – em cenas extirpadas de Que Escândalo! / The Whole Town´s Talking (Dir: Edward Laemmle); Dois Xarás e uma Xarada / The Wrong Mr. Right  (Dir: Scott Sidney); Os Amores de Carmen / The Loves of Carmen (Dir: Raoul Walsh); Anna Karenina / Love (Dir: Edmund Goulding); Ruas de Shanghai / Streets of Shanghai (Dir: Louis J. Gasnier). 1928 – Noite de Estréia ou O Caminho de uma Mulher / A Woman´s Way (Dir: Edmund Mortimer); Ramona / Ramona (Dir: Edwin Carewe); Una Nueva y Gloriosa Nación / The Beautiful Spy (Co-Prod. Argentino-Americana. Dir: Albert Kelly); You Know What Sailors Are (Prod britânica. Dir: Maurice Elvey); Paris de Contrabando / The Rush Hour.

Mathilde e Lilian Gish  em La Bohème

Mathilde em Meia-Noite em Paris

Mathilde em A Woman´s Way

Às vezes o nome de Mathilde aparecia como Matilde ou Mathilda nos créditos. Entre seus melhores papéis (Madame Benoit em La Bohème, com Lilian Gish e John Gilbert; Camille em Sangue por Glória com Victor MacLaglen, Edmund Lowe, Dolores Del Rio; Emilia em Os Amores de Carmen com Dolores Del Rio, Don Alvarado, Victor MacLaglen; Marda em Ramona com Dolores Del Rio, Warner Baxter) destaca-se o de Madame Vauquer, a dona da pensão do romance famoso de Honoré de Balzac, “Le Père Goriot”, em Meia-Noite em Paris, adaptação cinematográfica (com muita liberdade) da obra do grande escritor, na qual estão presentes também outros conhecidos personagens da Comédia Humana como Vautrin (Lionel Barrymore), Eugene de Rastignac (Edmund Burns) e Pai Goriot (Emile Chautard).

Mathilde com Ramon Novarro em Seviha de Meus Amores

Nos anos 30 foram mais 30 longas-metragens e 1 curta: 1930 – O Monstro Marinho / The Sea Beast (Dir:  Lionel Barrymore, Wesley Ruggles); Sevilha de Meus Amores / Call of the Flesh (Dir: Charles Brabin); Romance / Romance (Dir: Clarence Brown); Just Like Heaven (Dir:  Roy William Neill); não creditada em O Chicote / The Lash(Dir: Frank Lloyd); não creditada em Along Came Youth (Dir: Lloyd Corrigan, Norman Z. McLeod); Le Chanteur de Séville (Dir: Ramon Novarro, versão de Sevilha de Meus Amores / Call of the Flesh); não creditada em The Lady Who Dared (Dir: William Baudine); O Bamba do Rio Verde / The Hard Hombre  (Dir: Otto Brower); Melodia Cubana / The Cuban Love Song ( Dir: W. S. Van Dyke); não creditada em Monstros / Freaks (Dir: Tod Browning); não creditada em Coquetel de Amores / Lady With a Past (Dir: Edward H. Griffith); não creditada em Mulheres e Aparências / Careless Lady / 1932 (Dir: Kenneth MacKenna); L´Athlète Incomplet (Dir: Claude Autant Lara, versão de Sêde de Escândalo / Local Boy Makes Good). 1933 – Rindo-se da Vida / Laughing at Life (Dir: Ford Beebe); não creditada em Vidas sem Rumo / The Devil´s in Love (Dir: William Dieterle); não creditada em Sócios no Amor / Design for Living (Dir: Ernst Lubitsch). 1934 – não creditada em Paixão de Zíngaro / Caravan (Dir: Erik Charell); A Torch Tango (curta-metragem musical com Ruth Etting); Idílio Interrompido / All Men Are Enemies (Dir: George Fitzmaurice); não creditada em Promessa de Mãe / A Wicked Woman (Dir: Charles Brabin). 1935 – Flirt / Escapade (Dir: Robert Z. Leonard); Um Brinde ao Amor / Here´s to Romance (Dir: Alfred E. Green); Waterfront Lady (Dir: Joseph Santley). 1936 – não creditada em Heróis do Ar / Ceiling Zero (Dir: Howard Hawks); não creditada em O Bandoleiro de El Dorado / Robin Hood of Eldorado (Dir: William Wellman); Pobre Menina Rica / Poor Little Rich Girl (Dir: Irving Cummings); Adversidade / Anthony Adverse (Dir: Mervyn LeRoy); não creditada em Noite sem Fim / The Longest Night (Dir: Errol Taggart); Along Came Love (Dir: Bert Lytell). 1937 – Porque o Diabo Quis / God´s Country and the Woman (Dir: William Keighley); não creditada em Moça de Expediente / Wise Girl (Dir: Leigh Jason).

Hoot Gibson, Lina Basquette e Mathilde em O Bamba do Rio Verde

Gostei muito de Mathilde, ou Matilde, como saiu o nome dela como o terceiro nome nos créditos logo depois de Hoot Gibson e Lina Basquette em O Bamba do Rio Verde, um dos melhores westerns cômicos do cowboy menos convencional da História do Western.  No filme, Hoot é William Penn “ Peaceful” Patton, rancheiro simplório  queridinho de sua mamãe, que pede emprego de capataz na fazenda de uma linda viúva, Isabel Martinez (Lina Basquette). Confundido com um bandido perigosíssimo, conhecido como The Hard Hombre, ele consegue defender os interesses de sua patroa, pois todos estremecem de medo diante dele, inclusive Maria Romero, vizinha de Isabel, o personagem interpretado por Matilde. Quando o verdadeiro Hard Hombre aparece e ameaça a mãe de  “ Peaceful”, ele fica furioso, acaba com o fora-da-lei e conquista Isabel.

Grande Mathilde

Vi Mathilde também em outros filmes (v. g. Sevilha de Meus Amores, no qual ela é La Rumbarita, que aluga o quarto onde Juan de Dios (Ramon Novarro), Maria Consuelo (Dorothy Jordan) e Esteban (Ernest Torrence) se hospedam em Madrid; Pobre Menina Rica como a esposa de Tony (Henry Armetta), tocador de realejo italiano em cuja casa Barbara (Shirley Temple) se abriga depois de ter ficado sozinha na rua quando a empregada que a conduzia para uma nova escola foi atropelada por um carro) sempre com o maior prazer, por mais breve que tivesse sido as suas aparições na tela (v. g. como a cozinheira de Norma Talmadge em Kiki ou como uma cigana dançando com Eugene Pallette em Paixão de Zíngaro).

Mathilde Comont morreu prematuramente aos 51 anos de idade, vitimada por um ataque cardíaco pouco depois do lançamento de seu último filme.

WILLIAM WITNEY

William Nuelsen Witney (1915-2002) nasceu em Lawton, Oklahoma. Sua família mudou-se para a Califórnia e seu pai polaco-americano morreu quando ele tinha quatro anos de idade. Em 1933, seu cunhado, Colbert Clark, diretor de seriados na Mascot, utilizou-o como figurante no seriado Os Cavaleiros Mascarados ou Sacrifício Glorioso / Fighting With Kit Carson e depois lhe arrumou um emprego como ajudante de escritório neste estúdio da Poverty Row. Após algum tempo, Witney serviu como segundo assistente de direção na filmagem do seriado O Dominador das Selvas / Law of the Wild / 1934 (Dir: Armand Schaefer e B. Reeves Eason), estrelado por Rex, o Rei dos Cavalos Selvagens e Rin-Tin-Tin. Em 1935, quando a Mascot se fundiu com a récem formada Republic Pictures ele foi promovido a assistente da montadora Helene Turner, em uma equipe supervisionada por Joseph H. Lewis que, logo depois passou a ser diretor, sendo substituído por Murray Seldene. O próximo passo de Witney no estúdio foi como continuista e sua primeira atuação neste cargo foi na filmagem de A Deusa de Joba / Darkest Africa (Dir: B. Reeves Eason, Joseph Kane), o primeiro seriado da Republic.

William Witney

Em 1937, Witney assumiu a direção do seriado O Aliado Misterioso / The Painted Stalllion. Alan James dirigiu no primeiro dia de filmagem e Ray Taylor no segundo dia. Esta era uma prática comum na realização de seriados: o revezamento de dois diretores, pois seria demais esperar que apenas um homem pudesse filmar centenas de cenas dia após dia. Quando um se ocupava da direção, o outro aproveitava sua folga, preparando-se para o próximo dia de filmagem. A certa altura, Ray Taylor teve que ser afastado por causa de seu problema com o alcoolismo e então o supervisor da produção, Larry Wickland, pediu a Witney para substituí-lo momentaneamente com a promessa de que iria logo convocar outro diretor para o lugar de Taylor. Ouvindo com atenção os conselhos do primeiro cameraman William Nobles, Witney  deu conta do recado, e acabou permanecendo no novo pôsto até o final da filmagem.

Julia Thayer em O Aliado Misterioso

No enredo do seriado, Clark Stuart (Ray Corrigan), a caminho de Santa Fe para negociar um tratado entre os Estados Unidos e o governador de New Mexico, junta-se a um comboio de carroças liderado por Walter Jamison (Hoot Gibson), Neste seguem também Jim Bowie (Hal Taliaferro) e um jovem Kit Carson (Sammy McKim)  e mais tarde David Crockettt (Jack Perrin) se torna um aliado do grupo contra Alfredo Dupray (LeRoy Mason), que controla o território de Santa Fe enquanto o novo governador não chega e, com a ajuda de Zamorra (Dunca Renaldo) e seus capangas, planeja sabotar o tratado e substituir Stuart por um de seus homens.

Cena de O Aliado Misterioso

Os roteiristas inventaram um personagem original: uma jovem branca montada em um cavalo malhado e vestida com um cocar emplumado, única sobrevivente de um massacre, que fôra criada pelos índios, ajudava o comboio a chegar ao seu destino, desfechando uma flecha sibilante para avisá-los do perigo. Para o papel da bela amazona escolheram uma jovem atriz que havia sido uma Wampas Baby Star. Seu nome era Jean Carmea, mas foi creditada no filme como Julia Thayer.

Witney compartilhou com Alan James a direção de um segundo seriado, Guarda-Costa Alerta! / SOS Coast Guard (com Ralph Byrd, Bela Lugosi e Maxine Doyle), e quando terminou seu trabalho, realizou um western, O Trio do Gatilho / The Trigger Trio, para a série The Three Mesquiteers com Ray Corrigan, Max Terhune e Ralph Byrd (substituindo Bob Livingstone, que sofrera um acidente enquanto nadava em um rio).

Após terminar a filmagem de Guarda-Costa Alerta, John English substituiu Alan James como o outro diretor no próximo seriado A Volta do Zorro  / Zorro Rides Again com John Carroll, Helen Christian, Reed Howes. John English era canadense e havia trabalhado na MGM como montador em alguns filmes de Irving Thalberg. Eles formaram um dupla muito eficiente proporcionando 17 seriados inesquecíveis. 1938 – O Guarda Vingador / The Lone Ranger¡ Demônios em Luta / Fighting Devil Dogs¡ A Volta de Dick Tracy / Dick Tracy Returns¡ O Falcão da Floresta / Hawk of the Wilderness. 1939 – A Volta do Cavaleiro Solitàrio / The Lone Ranger Rides Again¡ Os Demônios do Círculo Vermelho / Daredevils of the Red Circle¡ Novas Aventuras de Dick Tracy / Dick Tracy´s G-Men¡ A Legião do Zorro / Zorro´s Fighting Legion. 1940 – Os Tambores de Fu Manchu / Drums of Fu Manchu¡ Aventuras de Red Ryder/ Adventures of Red Ryder¡ O Rei da Polícia Montada  / King of The Royal Mounted¡O Misterioso Dr. Satan / Mysterious Dr. Satan. 1941 – O Homem de Aço / Adventures of Captain Marvel¡ A Filha das Selvas / Jungle Girl¡ Contra a Quinta Coluna / King of the Texas Rangers¡ Dick Tracy Contra o Crime/ Dick Tracy´s vs Crime. Destaco em negrito os melhores.

Cena de O Guarda Vingador

Em O Guarda Vingador, após a Guerra Civil, cinco Texas Rangers  – Allen King (Lee Powell), Bert Rogers (Herman Brix), Dick Forrest (Lane Chandler), Bob Stewart (Hal Taliaferro) e Jim Clark (George Lentz) – combatem um bando de fora-da-lei liderado pelo indivíduo chamado Jeffries (Stanley Andrews). Eles são auxiliados por um cavaleiro mascarado (montado no seu esperto cavalo Silver) e seu fiel companheiro, o índio Tonto (Chief Thundercloud). Aproveitando o personagem criado por Fran Strayer para um programa de rádio, o seriado distingue-se principalmente pelo elemento de mistério original, pois ficamos sem saber a identidade, não do vilão, mas sim do herói, até o último episódio. De resto, o espetáculo segue a fórmula costumeira dos seriados de western com muitas explosões, diligências  desgovernadas, quedas no abismo, brigas etc.

Em Demônios em Luta, Tom Grayson (Lee Powell) e Frank Corby (Herman Brix), tenentes do Corpo de Fuzileiros Navais, cumprem a missão de encontrar o criminoso conhecido apenas como ¨The Lightning¨, que usa um raio artificial para conseguir seus objetivos.  Os dois militares são apoiados por um grupo que inclui o coronel Grayson (Sam Flint), pai de Tom¡ Warfield (Hugh Sothern), rico fabricante de maquinária elétrica¡ Janet (Eleanor Stewart), sua assistente¡ e Crenshaw (Perry Ivins, famoso inventor. Aos poucos, torna-se óbvio que um destes é o vilão. O seriado tem diversos cenários  (selva asiática, ilha dos Mares do Sul, San Francisco), um vilão carismático (cuja indumentária lembra a do Darth Vader) e uma variedade de cenas de ação  (debaixo do mar, em lanchas, aviões, zeppelins, submarinos, cavernas etc.). Enfim, material suficiente para agradar o público.

 

Herman Brix em O Falcão da Floresta

Em O Falcão da Floresta, em uma ilha vulcânica, o Dr. Munro (Tom Chatterton), sua filha Beth (Jill Martin) e o namorado desta, Allen Kendall (George Eldridge), confrontam-se com um grupo de contrabandistas, liderados por Solerno (William Royle) e com índios hostís, tendo à frente o feticeiro Yellow Weasel (Monte Blue). Kioga (Herman Brix), um homem branco, filho de um cientista amigo de Munro, que fora salvo de um naufrágio ainda bebê e criado pelo índio Mokuyi (Noble Johnson), aparece para proteger os membros da expedição. Em um cenário suntuoso de montanhas e florestas virgens, Kioga anda pelas árvores, usando seu laço como cipó e pratica toda sorte de esforços para ajudar o Dr.Munro e seus amigos, demonstrando um fôlego inesgotável. Além da bela paisagem e de um ator em plena forma física, o seriado tem a seu crédito uma intriga com muita aventura, parecido com aquela dos livros de James Fenimore Cooper e Robert Louis Stevenson.

 

Em Demônios do Círculo Vermelho, o prisioneiro 39013 (Charles Middleton) escapa da penitenciária e começa a se vingar de Granville (Miles Mander), seu ex-patrão, praticando atos de sabotagem nas fábricas deste. Três amigos atletas de circo, Gene (Charles Quigley), Tiny (Herman Brix) e Burt (David Sharpe), que se apresentam como Os Demônios do Círculo Vermelho, ficam indignados quando um irmão deles morre em consequência de um atentado planejado pelo 39013 e resolvem levar o criminoso à Justiça. O espetáculo tem alguns componentes originais (três heróis em vez de um¡ o vilão que se disfarça com uma máscara reproduzindo o rosto de sua vítima) e boas cenas de ação, destacando-se aquela em que Gene percorre o túnel submarino de motocicleta, tentando escapar da inundação, e todas as lutas tendo como cenário as instalações fotogênicas das fábricas.

 

Cena de Os Tambores de Fu Manchu

Em Os Tambores de Fu Manchu, Fu Manch (Henry Brandon) lidera uma organização secreta cujo propósito é fomentar a guerra na Ásia Central. Ajudado por sua filha, Fah Lo Suee (Gloria Franklin), ele procura o cetro perdido de Gengis Khan, que lhe dará autenticidade como um novo conquistador do mundo. Sir Nayland Smith (William Royle), representante do British Foreign Office e o jovem Alan Parker (Robert Kellard), filho de um arqueólogo assassinado por Fu Manchu, impedem que as intenções maléficas deste se concretizem. Inspirado no personagem de Sax Rohmer, o seriado é um dos melhores da Republic, distinguindo-se pela ênfase dada aos elementos de mistério e pelos imaginativos momentos de perigo arquitetados pelo diabólico oriental (v. g. Allan caindo em uma armadilha onde um polvo o esperava com seus ansiosos tentáculos, o lagarto envennenado na cama de Sir Nayland etc.). Em suma, algo mais do que a fórmula habitual de socos e explosões.

Tommy Cook e Donald Barry em As Aventuras de Red Ryder

Em Aventuras de Red Ryder, quando Calvin Drake (Harry Worth), o banqueiro de Mesquita, fica sabendo que uma ferrovia vai ser construída naquela região, ele e seus capangas Ace Hanlon (Noah Beery) e One-Eye Chapin (Bob Kortman) intimidam os rancheiros para ficar com suas terras. Red Ryder (Donald Barry) e seu pai, o Coronel Tom Ryder (William Farnum), enfrentam os pistoleiros.. Com a ajuda do indiozinho Little Beaver / Filhote de Castor (Tommy Cook) e Cherokee (Hal Taliaferro), Red põe fim às atividades dos bandidos. O herói, criado nos quadrinhos por Fred Harman em 1934, chamava-se inicialmente Bronc Peeler (Bronco Piler no Brasil)¡ a partir de 1938 o nome do vaqueiro mudou para Red Ryder. Dos seriados no gênero western é um dos mais movimentados, destacando-se, além do mocinho esquentado e bom de briga, o indiozinho Navajo, sempre atento e prestativo, com o qual todo garoto se identifica.

Allan Lane em O Rei da Polícia Montada

Em O Rei da Polícia Montada, o Sargento King da Polícia Montada do Canadá (Allan Lane) impede que espiões comandados por Juan Kettler (Robertr Strange) e seu capanga Wade Garson (Harry Cording) usem uma substância denominada Complexo X para fins destrutivos. Inspirado no personagem das histórias em quadrinhos, criado por Zane Grey, o seriado é um excelente northwestern com elementos modernos. A cavalo, em automóvel, lancha, trem e avião, o sargento King continua a luta contra os agentes inimigos, escapando de desastres em todos estes veículos, sem mencionar os momentos em que se safa de um incêndio ou de ser retalhado por uma serra elétrica etc. A melhor cena de ação, no entanto, acontece quando King dá um salto espetacular de uma ponte para cima de um bandido que está fugindo, e os dois, ainda brigando, são arrastados pelas águas de uma represa em direção a uma cachoeira.

Cena de O Misterioso Dr. Satã

 

Em O Misterioso Dr. Satan, o Dr. Satã (Eduardo Ciannelli), misterioso mestre do crime, inventou um robô, mas necessita do controle remoto desenvolvido por um eminente cientista, Dr. Scott (C. Montague Shaw). Suas tentativas para obtê-lo são frustradas pela aparicão do Copperhead (um homem com uma máscara sugerindo a cabeça de uma cobra venenosa) que, na realidade, é Bob Wayne (Robert Wilcox), um rapaz que deseja proteger a sociedade das maquinações do Dr. Satã. O seriado está entre os melhores da Republic e, além de um vilão diferente (porque elegante), apresenta cenas espetaculares com os dublês, salientado-se aquele salto que o  Copperhead dá de uma varanda do segundo andar de uma casa, indo cair sobre o bandido lá embaixo – um pulo realmente sensacional.

Tom Tyler em O Homem de Aço

Em O Homem de Aço, Billy Batson (Frank Coghlan Jr.), assistente do operador de rádio de uma expedição científica no Sião, é o único do grupo que não penetra na câmara proibida de uma tumba sagrada e, por isso, recebe do velho guardião do templo, Shazam, o poder mágico de se transformar no indestrutível Capitão Marvel (Tom Tyler). Assim, ele vai enfrentar o Escorpião  (na realidade um dos membros da expedição), para impedir que este se apodere de uma arma perigosíssima  encontrada na tumba. Trazer um herói  sobre-humano dos quadrinhos para as telas , de um modo que a platéia o aceitasse, não era uma tarefa fácil, mas a Republic desempenhou-a com louvor. O que mais chama a atenção no seriado  são as cenas de vôo do Capitão Marvel, que parecem absolutamente reais graças aos efeitos especiais de Howard Lydecker e das acrobacias do excelente dublê David Sharpe.

 

Frances Gifford em A Filha das Selvas

A Filha das Selvas, baseado em um romance de Edgar Rice Burroughs, tem como heroína uma jovem criada nas selvas da África chamada Nyoka (Frances Gifford). Auxiliada por dois aviadores, Jack Stanton (Tom Neal) e Curly Rogers (Eddie Acuff), Nyoka enfrenta os vilões que mataram seu pai e estão à procura de diamantes. A grande atração do espetáculo, além das lindíssimas pernas da srta. Gifford são as acrobacias de Nyoka nos cipós, muito mais sensacionais do que aquelas executadas por Johnny Weissmuller nos filmes de Tarzan. A melhor delas ocorre quando Nyoka vê o menino atacado pelo crocodilo, dá um salto mortal ao passar de um cipó para outro e depois, com a faca entre os lábios, mergulha no rio, para lutar contra a fera.

Em Contra a Quinta Coluna, a ação transcorre nos tempos modernos, envolvendo sabotadores que operam no Texas, usando como base um gigantesco Zeppelin. Para o papel do Texas Ranger Tom King, a Republic contratou o craque do futebol American Sammy Baugh, e ele se comportou como um verdadeiro astro de seriado. A cena mais emocionante ocorre quando os sabotadores dinamitam uma montanha para soterrar um trem. O mocinho aguarda no alto de uma colina e cai sobre o teto do trem quando este passa velozmente. A locomotiva entra em um túnel cavado na montanha. King penetra na cabine de comando e a explosão ocorre. No episódio seguinte, ele grita para o maquinista “Acelere!”, e a locomotiva dispara que nem um torpedo para fora da montanha, livrando-se do desmoronamento.

Witney dirigiu mais 4 seriados sozinho (O Terror dos Espiões / Spy Smasher, Os Perigos de Nyoka / Perils of Nyoka, Polícia  Montada Contra a Sabotagem / King of the Mounties, O Dragão Negro  / G-Man vs The Black Dragon) e um co-dirigido com Fred Brannon.  O Espirito Escarlate / The Crimson Ghost.

Cena de O Terror dos Espiões

Em O Terror dos Espiões, com a ajuda de seu irmão gêmeo Jack, o Spy Smasher, na realidade Allan Armstrong (Kane Richmond em papel duplo), combate o Máscara, líder de uma rede de espionagem alemã na América. Eles protegem o almirante Corby (Sam Flint), pai da noiva de Jack, Eve (Marguerite Chapman), e contam com a colaboração de Pierre Durand (Frank Corsaro), um combatente da França Livre. Baseada nas histórias em quadrinhos criadas em 1941 por Bill Parker, o seriado é excelente, não só pelos efeitos especiais e pela acão dos dublês, mas tambvém porque tem uma trama bem construída, boas caracterizações e uma fotografia até, em certos momentos, artística. A seqûencia  mais espetacular é aquela em que Spy Smasher e Jack perseguem o carro dos bandidos em uma motocicleta. Eles cortam caminho subindo uma colina, mas a motocicleta derrapa. O Spy Smasher então corre para o alto da colina e salta sobre o carro dos bandidos, que passa lá embaixo em alta velocidade.

Lorna Gray e Kay Aldridge em Os Perigos de Nyoka

Como foi a Republic que criou o nome de Nyoka no seriado A Filha das Selvas, o estúdio ficou com o direito de filmar uma continuação usando aquele nome, sem se basear em um romance de Edgar Rice Burroughs. O novo seriado tinha uma nova atriz (Kay Aldridge), um novo mocinho, Dr. Larry Grayson (Clayton Moore), em momentos eletrizantes (v. g. Nyoka escapando de uma carroça em chamas que despenca em um desfiladeiro, de ser retalhada por uma lâmina em movimento pendular, de cair em um poço de lava derretida, de ser esmagada por pregos em forma de estalactite etc.)¡ porém  a heroína não dava mais os maravilhosos saltos mortais no cipó como fazia sua predecessora. O vilão desta vez é uma mulher, Vultura (Lorna Gray), com quem Nyoka trava uma luta corpo a corpo no final.

A ação de O Dragão Negro trancorre durante a Segunda Guerra Mundial. A agente britânica Vivian Mash (Constance Worth), une-se ao investigador especial americano Rex Bennett (Rod Cameron) e a Chang (Roland Got) do Serviço Secreto Chinês, para destruir a Sociedade do Dragão Negro, liderada pelo satânico Haruchi (Nino Pipitone). Quando Haruchi e seus capangas provocam vários afundamentos , colocando um ingrediente incendiário na pintura dos navios, os agentes percebem o poder  e a engenhosidade de seu oponente. O seriado é bem animado e tem boas cenas de briga. No último episódio, ocorre um dos momentos mais excitantes quando, perseguido por Rex, Haruchi foge em uma lancha carregada de explosivos. Rex pula para a lancha de Haruchi, luta com ele e o deixa desacordado, pouco antes do submarino japonês submergir. Rex salta, a lancha bate no submarino, e ambos explodem.

Witney e Roy Rogers

Além de O Trio do Gatilho, Witney dirigiu outro exemplar da série The Three Mesquiteers, Heróis do Sertão / Heroes of the Saddle / 1940¡ um western com Don Barry, O Seis de Paus / Outlaws of Pine Ridge, 27 westerns de Roy Rogers (1946 – Luar do Sertão Texano / Roll On Texas Moon¡ Nas Terras de Oklahoma / Home in Oklahoma¡ Delegado de Saias / Heldorado. 1947 – A Barca do Jogo / Apache Rose¡ Sinos de San Angelo / Bells of San Angelo¡ Primavera nas Ser / Springtime in the Sierras¡ Na Velha Senda / The Old Spanish Trail. 1948  – Aconteceu no Sertão / The Gay Ranchero¡ Balas Traidoras / Under California Stars¡ Amigo Fiel / Eyes of Texas¡  Sob o Luar de Nevada / Night Time in Nevada¡ A Sineta de Prata / Grand Canyon Trail¡ Carga Humana / The Far Frontier. 1949 – O Mistério do Lago / Susanna Pass¡ Trilha do Perigo / Down Dakota Way¡ Cavalgada do Ouro / The Golden Stallion. 1950 – Médico da Roça / Bells of Coronado¡ Crepúsculo na Serra / Twilight in the Sierras¡ Vida de Circo / Trigger Jr.; Comoção na Fronteira / Sunset in  the West¡   Barragem Maldita / North of the Great Divide¡ Cowboys em Desfile / Trail of Robin Hood. 1951 – Foguete Misterioso / Spoilers of the Plains¡ Acusação Injusta / Heart of the Rockies¡ O Paladino da Lei / In Old  Amarillo¡ Ao Sul de Caliente / South of Caliente¡ Reduto de Assassinos / Pals of the Golden West), 9 westerns de Rex Allen (1952 – Cavaleiro do Colorado / Colorado Sundown¡ O Último Mosqueteiro / The Last Musketeer¡ Raposas  da Fronteira / Border Saddlemates¡ O Caminho do Terror / Iron Mountain Trail¡ Golpe Traiçoeiro / Old Oklahoma Plains¡ Emboscada Sangrenta / South  Pacific Trail. 1953 –  Flecha Ligeira / Old Overland Trail¡ O Salto da Morte / Down Laredo Way¡ O Vale do Medo / Shadows of Tombstone), 28 filmes de diversos gêneros para vários estúdios (1952 – Garota Infernal / The WAC From Walla Walla. 1954 – Tropel de Vingadores /  of Shadows¡ Assassinos Desalmados / Headline Hunters¡ Ambição Desenfreada / The Fighting Chance.1955 – Massacre Traiçoeiro / Santa Fe Passage;  Homens Perversos / City of Shadows. 1956 – A Lei do Revólver / Stranger at My Door¡ Quadrilha Sanguinária / A Strange Adventure. 1957 – Destinos Cruzados / Panama Sal. 1958 – The Cool and the Crazy¡ Entre o Crime e a Lei / Juvenile Jungle¡ Jovens e Selvagens / Young and Wild¡ Gângsteres em Fúria / The Bonnie Parker Story¡ Paratroop Command. 1960 – O Vale da Traição / Valley of the Redwoods¡O Segredo dosArrecifes / The Secret of the Purple Reef. 1961 – O Laço Ameaçador / The Long Rope¡ Robur, o Conquistador do Mundo / Master of the World¡ The Cat Burglar. 1964 – Rifles Apaches / Apache Rifles (com Audie Murphy) 1965 – Brotinhos de Biquini / The Girls On the Beach¡ Bandoleiros do Arizona / Arizona Raiders (com Audie Murphy). 1967 – Os Rifles da Desforra / 40 Guns To Apache Pass (com Audie Murphy). 1970 –O Rebelde da Selva / Tarzan´s Jungle Rebellion (piloto da série de TV ¨Tarzan” , exibido nos cinemas)¡A Pedra Azul / The Blue Stone of Heaven. 1973 –Fuga da Ilha do Diabo / I Escaped From Devil’s´sIsland. 1975 – Darktown Strutters. 1982 – Showdown at Eagle Gap).

Entre 1954 e 1974 o incansável Witney dirigiu dezenas de episódios de várias séries de televisão.

THELMA TODD-ZASU PITTS-PATSY DRAKE

Hal Roach, o produtor que formou a dupla Stan Laurel e Oliver Hardy, mais conhecidos no Brasil como O Gordo e o Magro, imaginou Thelma Todd e Zasu Pitts como o equivalente feminino de seus dois grandes comediantes. Entre 1931 e 1933, elas fizeram 16 comédias curtas. Quando ZaSu se desligou da parceria com Thelma, foi substituída por Patsy Kelly em mais 21 shorts produzidos entre 1934 e 1935.

Thelma Todd

Thelma Alice Todd (1905-1935) nasceu em Lawrence, Massachusetts, filha de um imigrante irlandês, John Shaw Todd e de uma imigrante do Canadá, Alice Elizabeth Edwards. Ex-professora e modelo em regime de tempo parcial, ela foi levada para a Paramount por um descobridor de talentos, quando ganhou o título de Miss Massachusets em 1925. O primeiro filme no qual apareceu foi Desafio à Mocidade / Fascinating Youth / 1926 e seu primeiro filme parcialmente falado, produzido pela First National, intitulou-se Nos Domínios de Satã / Seven Footprints to Satan / 1929.

Thelma Todd e Charley Chase em pose para a publicidade

Grouch Marx e Thelma Todd

Thelma e John Barrymore em O Conselheiro

Thelma Todd em O Falcão Maltês

Sua popularidade cresceu no início dos anos trinta, quando atuou em várias comédias curtas ao lado de Harry Langdon, Charley Chase, Laurel e Hardy; como leading lady em um longa metragem com estes últimos (Fra Diavolo / The Devil´s Brother) e em dois outros com os Irmãos Marx (Os Quatro Batutas /  Monkey Business / 1931 e Os Gênios da Pelota / Horse Feathers / 1932); contracenando com astros do porte de Clara Bow (Sangue Vermelho / Call Her Savage / 1932 e John Barrymore em O Conselheiro / Counsellor at Law / 1933); interpretando o papel da traiçoeira esposa de Miles Archer, o parceiro de Sam Spade (Ricardo Cortez) em O Falcão Maltês / The Maltese Falcon, primeira versão do romance de Dashiel Hammett; e nas comédias curtas com Zasu Pitts e depois Patsy Kelly, além de trabalhar em filmes de outros comediantes como Buster Keaton, Joe E. Brown e da dupla Wheeler e Wolsey. No seu filme derradeiro, A Princesa Boêmia / The Bohemian Girl, Thelma ocupava nos créditos o papel principal feminino ao lado do Gordo e do Magro. Thelma trabalhou sob o nome artístico de Alison Loyd em um filme do diretor Roland West, O Corsário / The Corsair / 1931.

Em agosto de 1934 ela abriu o Thelma Todd´s Sidewalk Café, que atraiu uma clientela diversificada de celebridades e também muitos turistas. Em 14 de dezembro de 1935, após participar de uma festa, Thelma foi encontrada morta caída sobre o volante de seu carro. Ela faleceu envenenada por monóxido de carbono; não ficou satisfatoriamente determinado se ela cometeu suicídio, foi assassinada por gângsteres que haviam tentado extrair dinheiro dela, ou se morreu acidentalmente. A infortunada atriz tinha apenas 29 anos de idade. Em vida recebeu um apelido carinhoso dos fãs: “The Ice Cream Blonde”.

ZaSu Pitts e Thelma Todd

Zasu Pitts (1894-1963), cujo verdadeiro nome era Eliza Susan Pitts, nasceu em Parsons, Kansas, filha de Rulandus Pitts e Nelly Shay. Os nomes das irmãs de seu pai, Eliza and Susan, serviram de base para seu apelido de ZaSu. Ela depois adotou o apelido profissional e legalmente. Em 1903, quando ZaSu tinha nove anos de idade, sua família mudou-se para Santa Cruz, Califórnia, onde ela estudou na Santa Cruz High School. Depois de ter feito sua estréia no palco em representações escolares e no teatro comunitário da cidade, ZaSu foi para Los Angeles. Depois de trabalhar em alguns filmes como figurante ou como parceira de Billy Franey em comédias de um rolo da Universal, obteve, por intermédio da roteirista Frances Marion, uma participação no fime A Princesinha / A Little Princess / 1917, estrelado por Mary Pickford.

ZaSu com Mary Pickford em A Princesinha

Zasu em Ouro e Maldição

ZaSu, Gus Meins e Thelma Todd

ZaSu obteve seu primeiro papel principal em A Estalagem do Tio Libório / Better Times / 1919 (Dir: King Vidor). No ano seguinte casou-se com Tom Gallery, com o qual formou dupla em alguns filmes. Em 1924, depois de firmar uma reputação como boa comediante ela obteve o maior papel dramático de sua carreira em Ouro e Maldição / Greed / 1924 de Erich von Stroheim e continuou servindo ao grande cineasta (v. g. Lua de Mel / The Honeymoon / 1928, A Marcha Nupcial / The Wedding March / 1928). Ainda nos anos 30 esteve no elenco de bons filmes (v. g. Monte Carlo / Monte Carlo / 1930 e Não Matarás / Broken Lullaby / 1932 de Ernst Lubitsch e Vamos à América  Ruggles of Red Gap / 1935), sucedeu Edna May Oliver como a solteirona detetive da série Hildergard Withers; atuou em filmes com Slim Summerville) e principalmente nos exemplares da série que compartilhou com Thelma Todd. Nos anos 40 / 50 seus filmes mais importantes foram Nossa Vida com Papai / Life With Father / 1947 (Dir: Michael Curtiz) ao lado de William Powell, Irene Dunne, Elizabeth Taylor e … E O Mulo Falou / Francis com Donald O´Connor e Patricia Medina, primeiro filme de uma série de sucesso popular. Na década de quarenta trabalhou também no rádio e no teatro e no decênio seguinte na televisão, destacando-se no Gale Storm Show da CBS no papel de Elvira Nugent.

Patsy Kelly  e Thelma Todd

Patsy Kelly (1910-1981), cujo verdadeiro nome era Bridget Sara Veronica Kelly, nasceu no Brooklyn, Nova York, filha dos imigrantes irlandeses John e Delia Kelly. Ela começou sua carreira no vaudeville como dançarina aos doze anos de idade e desfrutou de muita popularidade na Broadway no início dos anos 30, notadamente nas revistas musicais Earl Carroll Vanities, Earl Carroll Sketch Books e Wonder Bar. Patsy estreou no cinema em uma comédia curta da série Vitaphone Varieties de 1931 e no mesmo ano Hal Roach contratou-a para substituir ZaSu Pitts como co-estrela de Thelma Todd para o período 1934-1935. Após a morte de Thelma, Patsy fomou dupla com Pert Kelton em uma comédia da série e depois em mais duas com Lyda Roberti. Quando a popularidade dos shorts começou a diminuir, Patsy passou para os longas-metragens, distinguindo -se com a cozinheira Etta em Sua Excelência, o Chofer / Merrily We Live / 1938 (Dir: Norman Z. McLeod), indicado para o Oscar em cinco categorias. Nos anos 50 aderiu à televisão e nos anos 60 participou de dois filmes classe A famosos, O Beijo Amargo / The Naked Kiss / 1964 de Samuel Fuller e O Bebê de Rosemary / Rosemary´s Baby / 1968 de Roman Polanski. Em 1971, ela retornou à Broadway em um relançamento de No, No Nanette, co-estrelando com sua amiga de infância Ruby Keeler. Patsy fez um tremendo sucesso como a criada piadista e sapateadora e ganhou o Tony Award de Melhor Atriz em um musical.

Thelma Todd e Patsy Kelly

Patsy e Thelma

Como observou Leonard Maltin (The Great Movie Shorts, Crown Publishers, 1972), Thelma e ZaSu forneceram o contraste certo para uma boa comédia, com a garota esperta Thelma geralmente tendo que livrar as duas de situações causadas pela ignorância inocente de ZaSu. Segundo Anke Sterneborg no Catálogo de uma Retrospectiva sobre Hal Roach publicado pela Stiftung Deutsche Kinemathek de Berlim em 1992, a substituição de ZaSu por Patsy Kelly implicou uma mudança radical no relacionamento entre as duas estrelas. ZaSu havia sido a vítima dos planos ambiciosos de Thelma; agora a própria Thelma é a vítima da turbulência e energia incontrolável de sua nova amiga. Seja qual for o esquema humorístico utilizado, o fato é que as três formidáveis comediantes conquistaram o público, particularmente em nosso pais.

ZaSu Pitts e Thelma Todd

FILMOGRAFIA THELMA TODD – ZASU PITTS

1931 – Let´s Do Things (Dir: Hal Roach); Amor a Muque / Catch As Catch Can (Dir: Marshall Neilan); Festa de Arromba / The Pajama Party (Dir: Hal Roach;) Companheiras de Guerra / War Mamas (Dir: Marshall Neilan); Farra de Praxe / On the Loose (Hal Roach). 1932 Bicho Precioso / Seal Skins (Gil Prat, Morey Lightfoot); Gripadas / Red Noses (Dir: Hal Roach); Criadinha de Confiança / Strictly Unreliable (Dir: George Marshall); Leão de Verdade / The Old Bull (Dir: George Marshall); Gente de Palco / Show Business (Dir: Jules White); Oh, Seu Doutor! / Alum and Eve (Dir: George Marshall); Ora Pílulas / Sneak Easily (Dir: Gus Meins). 1933 – Salão da Fuzarca / Asleep in the Fleet (Dir: Gus Meins); Vestidas à Francesa / Maids a la Mode (Dir: Gus Meins); A Grande Pechincha / The Bargain of the Century (Dir: Charley Chase); A Caminho de Hollywood / One Tracks Minds (Dir: Gus Meins).

Patsy e Thelma

FILMOGRAFIA THELMA TODD – PATSY KELLY

1933 – Beauty and the Bus (Dir: Gus Meins); Natureza Torta / Back to Nature (Dir: Gus Meins); Asas do Dia / Air Fright (Dir: Gus Meins). 1934 – Verifiquem Nossos Preços / Babes in the Goods (Dir: Gus Meins); Distintas Senhoritas / Soup and Fish (Dir: Gus Meins); A Caminho de Hollywood / Maid in Hollywood (Dir: Gus Meins;) Tua Perna Não Nega/ I´ll Be Suing You (Dir: Gus Meins); Bom Partido / Three Chumps Ahead (Dir: Gus Meins); Casinha Pequenina / One Horse Farmers (Dir: Gus Meins); Aberta por Engano / Opened by Mistake (Dir: James Parrott;) Pintado a Óleo / Done in Oil (Dir: Gus Meins); Viagem Acidentada / Bum Voyage (Dir: Nick Grinde). 1935 – Tesouro de Ilusão / Treasure Blues (Dir: James Parrott); Cante e Acalme-se / Sing, Sister, Sing (Dir: James Parrott); The Tin Man (Dir: James Parrott); Duas Desastradas / The Misses Stooge (Dir: James Parrott;) Slightly Static (Dir: William Terhune); Gêmeos por Encomenda / Twin Triplets (Dir: William Terhune); Hot Money (Dir: James W. Horne;) Top Flat (Dir: William Terhune); All -American Toothache (Dir: Gus Meins).

Pert Kelton e ZaSu

PATSY KELLY – PERT KELTON

1936 – Pan Handlers (Dir: William Terhune)

Lyda Roberti e Patsy Kelly

PATSY KELLY – LYDA ROBERTI

1936 – At Sea Ashore (Dir: William Terhune); Hill Tillies (Dir: Gus Meins); Hill Tillies (Dir:Gus Meins).

 

JEAN NEGULESCO

Ioan Negulescu (1900-1993) nasceu em Craiova, Rumênia, um dos oito filhos (teve seis irmãs e um irmão) do dono de um hotel e estudou no Colégio Nacional Carol I nesta mesma cidade. Aos quatorze anos de idade, como escoteiro, estava prestando serviços em um hospital militar durante a Primeira Guerra Mundial. Quando Georges Enesco veio tocar violino para os feridos, Negulesco desenhou um retrato dele, que o compositor famoso comprou. Ioan então decidiu ser pintor e estudar arte em Bucarest. Em 1920, ele foi para Paris, onde se matriculou na Academie Juliane e, para ajudar nas despesas, trabalhou como dançarino profissional no Hotel Negresco.

 

Jean Negulesco

Na sua autobiografia ”Things I Did and Things I Think I Did – A Holllywood Memoir”(Linden Press/Simon & Schuster, 1984) Negulesco conta que sua vida foi salva duas vezes pelo cinema. A primeira vez foi quando escapou de morrer em um desastre de automóvel porque, quando foi buscar sua mala para partir com seus amigos no Mercedes fatídico, passou diante de um cinema, onde estava sendo exibido Sangue por Glória / What Price Glory / 1926 com Dolores Del Rio e ele preferiu não viajar e ver o filme. A segunda vez foi quando mandou para o Salon d´Automne um nú artístico de sua autoria, que foi adquirido pelo famoso diretor da MGM Rex Ingram por três mil francos, quantia que garantiu sua subsistência por algum tempo.

Em 1927, Negulesco visitou Nova York para uma exposição de suas pinturas e depois se mudou para a Califórnia, onde ganhou a vida como retratista e começou a se interessar pelo cinema, realizando por contra própria um filme experimental, Three and a Day, ou seja, um dia na vida de três pessoas: um pintor (Mischa Auer), uma bailarina (Katya Sergaya) e um fazendeiro (John Rox).  Negulesco conseguiu convencer o talentoso cameramaniugoslavo Paul Ivano a fotografar sua “obra-prima” mas, sem aceitar seus conselhos técnicos, dirigiu o filme como bem queria e depois não conseguiu montá-lo, perdendo todas as suas economias, que haviam sido investidas na produção.

Entretanto, através de Mischa Auer, Negulesco conheceu Frank Tuttle em uma festa e este o convidou para desenhar sketches para a abertura de Esposa Improvisada / This is the Night / 1932 (produção da Paramount inicialmente intitulada Tonight We Sing). O fotógrafo Victor Milner gostou dos desenhos de Negulesco e lhe pediu sugestões para a colocação da câmera durante a filmagem. Contratado pela Paramount, o produtor Benjamin Glazer deu-lhe a incumbência de desenhar uma cena de estupro em Levada à Força / The Story of Temple Drake / 1933, que pudesse passar pela censura. Ele cumpriu muito bem sua tarefa e ainda supervisionou a filmagem desta sequência inesquecível, que perdurou na memória dos fãs de Miriam Hopkins, a Temple Drake nesta adaptação de “Sanctuary” de William Faulkner, bem dirigida por Stephen Roberts. Na Paramount, Negulesco atuou também como diretor de segunda unidade em Ondas Sonoras / The Big Broadcast / 1932; Beijos para Todos / Bed Time Story / 1933 e Adeus às Armas / Farewell to Arms / 1934 e co-dirigiu com Harlan Thompson Templo da Beleza / Kiss and Make Up / 1934.

Em 1936 Negulesco perdeu o emprego na Paramount. Seu protetor no estúdio, o executivo encarregado da produção, Sam Jaffe, também. Jaffe abriu uma agência e Negulesco lhe apresentou um argumento intitulado Rio, que ele conseguiu vender para Joe Pasternak (produtor da maioria dos filmes de Deanna Durbin na Universal) por dez mil dólares e ainda conseguiu que seu cliente fosse contratado para colaborar com o roteirista do filme que dele resultaria. Mas Negulesco, com os nove mil que lhe coube na transação (pois dez por cento dos dez mil ficou com o agente) preferiu conhecer o México, onde passou três meses no país, cujos aspectos pitorescos ele captou em 600 desenhos.

 

Em 1940 Negulesco ingressou na Warner Bros. como diretor de curtas-metragens para várias séries (Melody Masters; Technicolor Specials; Broadway Brevities e Featurettes), destacando-se os shorts sobre bandas, balés ou orquestras. Em 1941, ele fez seu primeiro longa-metragem Mulher Fatídica / Singapore Woman (com Brenda Marshall, David Bruce, Virginia Field), mas somente a partir de 1944, depois de reconhecida sua capacidade técnico-artística nos curtas, é que ele pôde demonstrar seu talento em sete longas-metragens (1944 – A Máscara de Dimitrios / Mask of Dimitrios; Os Conspiradores / The Conspirators. 1946 – Regeneração / Nobody Lives Forever; Três Desconhecidos / Three Strangers; Acordes do Coração / Humoresque. 1947 – O Vale do Destino / Deep Valley. 1948 – Belinda / Johnny Belinda) que, sem dúvida, constituíram a parte mais artisticamente eminente de sua filmografia.

Peter Lorre e Sidney Greenstreet em A Máscara de Dimitrios

Faye Emerson e Zachary Scott em A Máscara de Dimitrios

Baseado em um romance de Eric Ambler, A Máscara de Dimtrios é um drama criminal absorvente com um bom nível de suspense e originalidade. No enredo, o escritor de livros de mistério Cornelius Leyden (Peter Lorre) está viajando por Istanbul quando conhece o Coronel Haki (Kurt Katch), chefe da polícia secreta, que é um grande fã de seu trabalho. Através dele, Leyden fica sabendo que o corpo de um criminoso notório, Dimitrios Makroupolos (Zachary Scott), foi encontrado morto na praia. Parece que Makropoulos estava envolvido em toda espécie de atos ilegais imagináveis de homicídio, contrabando, chantagem a assassinato político. Fascinado, Leyden decide que Makroupolos seria um bom argumento para seu próximo livro e começa a pesquisar sobre sua vida, a partir do dossier de Haki sobre o criminoso. A investigação de Leyden o leva para muitos lugares da Europa, onde se encontra com várias pessoas que conheceram Makroupolos: Irana Prevaya  (Faye Emerson), a mulher que ele amou; Grodek (Victor Francen), que ele enganou; Bulic (Steve Geray), que ele desonrou e Mr. Peters (Sidney Greenstreet), que foi sua vítima e não está convencido da morte do criminoso. Este retrato de um personagem misterioso tal como foi visto por diversas pessoas o faz aparecer sucessivamente sob aspectos bem diferentes e mantém um interesse constante pelo relato, conduzido com vigor pelo cineasta. que contou com um excelente roteiro de Frank Gruber, uma câmara inspirada de Arthur Edeson e um elenco admirável.

Hedy Lamarr e Paul Henreid em Os Conspiradores

Os Conspiradores é um melodrama romântico em tempo de guerra mais ou menos na mesma linha de Casablancade Michael Curtiz. Após ter cometido um ato de sabotagem contra os nazistas, o holandês Vincent Van Der Lyn (Paul Henreid), foge para Lisboa, onde se encontra com Ricardo Quintanilla (Sidney Greenstreet) e seu grupo de conspiradores, que inclui Jan Bernaszak (Peter Lorre), Irene (Hedy Lamarr) e seu marido, Hugo Van Mohr (Victor Francen). Um dos conspiradores é assassinado por um traidor do grupo e Vincent é acusado do crime. Ele escapa da polícia portuguesa e, depois de vários acontecimentos, desmascara e mata o assassino, que não é outro senão o traidor Van Mohr, um nazista que se infiltrara entre os conspiradores. Negulesco teve dificuldades na filmagem depois que seu produtor Hal Wallis foi substituído, porém com o apoio de um conjunto de atores muito competentes (além dos citados, Steve Geray, Joseph Calleia e Eduardo Cianelli) e de uma fotografia (Arthur Edeson), cenografia (Anton Grot) e música (Max Steiner) apropriadas para criar uma atmosfera de intriga, ele conseguiu realizar um filme com uma ação movimentada. Curiosamente a nossa Aurora Miranda canta um fado em uma cantina de Lisboa.

John Garfield e Geraldine Fitzgerald em Regeneração

Walter Brennan e John Garfield em Regeneração

Regeneração é um drama criminal com um personagem bem conhecido nos filmes do imediato pós-guerra do veterano que retorna da Segunda Guerra Mundial e tenta retomar sua vida. Antes da guerra Nick Blake (John Garfield) era um escroque, criado nos quarteirões pobres de Nova York, que havia deixado uma certa quantia de dinheiro com sua amante Toni (Faye Emerson); mas esta encontrou um novo parceiro (Robert Shayne), dono de uma boate onde trabalha como cantora. Nick recupera à força seus dólares e, na companhia de seu amigo Al Doyle (George Tobias), vai para Los Angeles, onde eles encontram um velho mentor de Nick, Pop Gruber (Walter Brennan) e um grupo de golpistas chefiado por Doc Ganson  (George Colouris). Ganson propõe a Nick dar um golpe em uma viúva rica, Gladys Halvorsen (Geraldine Fitzgerald); porém Nick se apaixona por ela. Nick quer sair do acordo, mas Toni convence Ganson de que Nick está tentando trair o bando, resultando consequências trágicas. Com a ajuda de um bom roteiro (W. R. Burnett), de uma boa fotografia (Arthur Edeson) e de um elenco escolhido a dedo, Negulesco mantêm o interesse contínuo do espectador, embora a direção seja discreta, sem grandes efeitos cinematográficos.

Peter Lorre, Geraldine Fitzgerald e Sidney Greenstreet em Três Desconhecidos

Peter Lorre e Sidney Greenstreet em Três Desconhecidos

Três Desconhecidos é um drama criminal com elementos místicos tendo como tema a ambição de riqueza, ligando três destinos em contraste: o de Crystal Shakelford (Geraldine Fitzgerald) e o de dois homens – Jerome K. Arbutny (Sidney Greenstreet), advogado inescrupuloso e Johnny West (Peter Lorre), pianista alcoólatra – que ela atraiu para seu apartamento, a fim de fazer um pedido diante da estátua de uma deusa chinesa conhecida como Kwan Yin. Acredita-se que Kwan Yin fará realizar um desejo se ele for feito por três desconhecidos à meia-noite. Eles concordam em comprar mutuamente um bilhete de loteria e dividir o valor do bilhete premiado. Porém as coisas não ocorrem como planejado. Recebendo um excelente roteiro de John Huston e Howard Koch, contando mais uma vez com a fotografia primorosa  em preto e branco de Arthur Edeson e principalmente com três intérpretes perfeitos nos seus respectivos papéis, Negulesco, coordenou muito bem a passagem de um episódio para outro, realizando um filme inquietante com um final maravilhosamente irônico.

Joan Crawford e John Garfield em Acordes do Coração

Negulesco, John Garfield e Joan Crawford na filmagem de Humoresque

Acordes do Coração, é um melodrama baseado em um conto de Fannie Hurst e adaptado por Clifford Odets e Zachary Gold, no qual o amor deve ceder lugar a uma paixão mais forte. Paul Boray (John Garfield) é um violinista de grande talento mas desconhecido. Ele encontra Helen Wright (Joan Crawford) – mulher rica, neurótica e com pendor para o alcoolismo, vivendo um casamento sem amor com Victor Wright (Paul Cavanaugh) – e ela se torna sua patrocinadora e amante. Entretanto, seu relacionamento é abalado pela índole possessiva de Helen, pois Paul não quer ser dominado por ela, reafirmando sistematicamente uma dedicação inabalável à sua arte. Quando Helen compreende que está prejudicando sua carreira, ela decide por fim ao romance de um modo trágico: jogando-se no mar enquanto Paul está  executando em um concerto a Liebestod, ária final da ópera “ Tristão e Isolda” de Richard Wagner. A música clássica tem lugar de relevo na narrativa, ouvindo-se trechos de Dvorak, Rimsky-Korsakov, Wagner, Tchaikovsky, Brahms, Bach, Bizet, Sarazate, Mendelsohn, César Franck, Prokofiev, Shostakovski, Grieg etc. Negulesco teve um cuidado especial com o modo de encadear as sequências, usando a fusão (v. g. uma cortina de enrolar que se fecha transmuda-se em teclas de um piano, as cordas de um violino se transformam em trilhos, à batida de um copo na mesa faz irromper a orquestra, o sifão converte-se nas espumas das ondas). A sucessão das imagens descrevendo o desespero da heroína caminhando para a morte na praia enquanto ocorre o triunfo do músico no concerto é excelente. Franz Waxman foi indicado para o Oscar de Melhor Música (para filme não musical) e quem faz a platéia vibrar como os solos de violino é Isaac Stern. Joan Crawford com sua interpretação interiorizada tem aqui um de seus melhores papéis no cinema. As réplicas mordazes sobre arte e talento, a maior parte delas improvisadas por Oscar Levant (como Sid Jeffers, o melhor amigo de Paul), aliviam o clima  pesado do filme.

O fotógrafo Ted McCord dá instruções para Ida Lupino e Dane Clark emO Vale do Destino

Dane Clark e Ida Lupino em O Vale do Destino

O Vale do Destino é um melodrama romântico passado em uma área rural da Califórnia, onde Libby Saul (Ida Lupino), jovem tímida e gaga, vive com seus pais rudes (Henry Hull, Fay Bainter) em uma fazenda isolada. Afastada de todo convívio social, a moça tem como companhia apenas o seu cachorrinho até que avista Bary Burnette (Dane Clark), presidiário fugitivo que trabalha na construção de estradas. Ela o esconde de seus perseguidores e o breve idílio entre os dois resulta na cura da sua gagueira. Então os policiais chegam à procura do condenado, que morre ao tentar escapar. Com excelente fotografia em exteriores de Ted McCord o filme exigiu muito esforço físico por parte da atriz. As cenas supostamente passadas no verão foram filmadas sob um frio intenso em uma montanha e Ida, vestida com roupas leves, pegou uma gripe. Pouco depois, quando ela corria descalça sobre pedras, cortou o pé, desenvolvendo-se uma infecção, que afetou seus tornozelos. Ida insistiu em permanecer no local, para evitar que a filmagem se atrasasse e sua saúde frágil piorou, ao sofrer uma crise de bronquite crônica. Mesmo assim, ela proporcionou ao público uma de suas melhores interpretações, do tipo para o qual era singularmente dotada.

Lew Ayres e Jane Wyman em Belinda

Stephen McNally e Jane Wyman em Belinda

Belinda é um drama profundamente humano. Filha de um fazendeiro pobre, McDonald (Charles Bickford) de um povoado da Nova Escócia no Canadá, Belinda (Jane Wyman), é surda-muda de nascença. Um jovem médico, Dr. Robert Richardson (Lew Ayres), lhe ensina a falar por meio de sinais, revela sua inteligência e a liberta da solidão. A jovem é estuprada por Locky (Stephen McNally), rapaz de maus instintos, e ela dá à luz uma criança, Johnny, cuja paternidade é atribuída ao médico. Este, aborrecido com a situação, retira-se da cidadezinha. Locky se casa, mas como sua esposa não pode ter filhos, ele toma o filho de Belinda. Esta, para se defender, o mata; mas no final a verdade vem à tona e o médico pede Belinda em casamento. Negulesco narra esta história com delicadeza e sobriedade, valendo-se de uma fotografia de grande beleza (Ted McCord), de um fundo musical melodioso (Max Steiner) e sobretudo do desempenho de Jane Wyman que, sem pronunciar uma só palavra durante todo o transcurso do entrecho, conseguiu criar com grande veracidade a sua personagem, conquistando o prêmio da Academia. A produção ensejou mais onze indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Lew Ayres), Diretor, Ator Coadjuvante (Charles Bickford), Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em preto e branco, Roteiro (Irmgard von Cube, Allen Vincent), Direção de Arte em preto e branco  (Robert Haas, William Wallace /decorador), Música de filme não musical, Montagem (David Weisbart), Som (Nathan Levinson).

Em 1948 Negulesco foi trabalhar para a 20thCentury-Fox, onde fez 22 filmes:  1948 – A Taverna do Caminho / Road House. 1949 – A Rua Proibida / Britannia Mews. 1950 – Vingança do Destino / Under my Skin; Feras Que Foram Homens / Three Came Home; O Garoto e a Rainha / The Mudlark. 1951 – Clube de Moças / Take Care of My Little Girl. 1952 – Telefonema de um Estranho / Phone Call From a Stranger; Lydia Bailey, a Feticeira do Haiti / Lydia Bailey; Um Grito no Pântano / Lure of the Wilderness; Páginas da Vida / O. Henry´s Full House (episódio). 1953 – Náufragos do Titanic / Titanic; Como Agarrar um Milionário / How to Marry a Millionnaire. 1954 – A Fonte dos Desejos / Three Coins in the Fountain; O Mundo é da Mulher / A Woman´s World. 1955 – Papai Pernilongo / Daddy Long Legs; As Chuvas de Ranchipur / The Rains of Ranchipur. 1957 – A Lenda da Estátua Nua / Boy on a Dolphin. 1958 – A Angústia de Tua Ausência / The Gift of Love; Um Certo Sorriso / A Certain Smile. 1959 – Sob o Signo do Sexo / The Best of Everything. 1964 – Em Busca do Prazer / The Pleasure Seekers. 1970 – Um Instante, Adeus / Hello Goodbye. Negulesco participou ainda de dois filmes da MGM (Os Maridos da Mamãe / Scandal at Scorie / 1953 e Mesmo Assim Eu Te Amo / Count Your Blessings / 1959) e mais dois de outros produtores: A Greve do Sexo / Jessica  / 1962 (Prod: Dear Film, Les Films Ariane); Os Seis Invencíveis / The Invincible Six ou The Heroes/ 1969. A partir dos anos 50 a criatividade do cineasta foi se desgastando daí a irregularidade artística de sua filmografia desde então. Destaco em negrito seus melhores filmes nesta fase.

Ida Lupino e Richard Widmark em A Taverna do Caminho

A Taverna do Caminho é um drama com intriga psicológica contando uma vingança curiosa e inédita. Jefferson “Jefty” Robbins (Richard Widmark), dono de uma boate que tem uma pista de boliche adjacente, contrata Lily Stevens (Ida Lupino) como cantora e se apaixona por ela. Ao saber que Lily ama Pete Morgan (Cornel Wilde), seu amigo de infância e gerente do estabelecimento, ele o acusa falsamente de roubo e depois consegue obter com o juiz a custódia do condenado. Nesta condição, Lefty leva Pete, Lily e Susie (Celeste Holm), a moça que cuida da caixa do cabaré, para sua cabana de caça perto da fronteira canadense, com a intenção de fazer com que Pete e Lily tentem fugir atravessando a fronteira e ele então os mataria. Quando Pete e Lily resolvem escapar, Susie intervém para impedir a execução do plano diabólico de Lefty e é ferida por ele. Peter retorna e se confronta com Lefty. Enquanto os dois lutam, Lily se apodera da arma e mata Lefty, quando ele ia atacá-la com uma pedra.  Graças a Susie, que encontrou uma prova da inocência de Peter, este e Lily não serão mais incomodados. Negulesco expôe gradualmente esta história de amor não correspondido e obsessão, primeiramente com uma exposição um pouco longa mas animada por alguns atrativos como as duas canções interpretadas por Lily (com uma voz encantadoramente  rouca) e a briga na boate entre Peter e um grandalhão; na segunda parte da narrativa o ritmo do filme fica mais nervoso por causa das manifestações psicóticas de Jefty (com suas risadas insanas), resultando em um espetáculo atraente.

Sesse Kayakawa e Claudette Colbert em Feras Que Foram Homens

Feras Que Foram Homens é um drama de guerra com roteiro de Nunally Johnson, baseado no livro da escritora americana Agnes Newton Keith, que relata a angústia e os sofrimentos pelos quais ela e outras companheiras passaram como prisoneiras de um campo de concentração japonês em Borneo. A novidade aqui é a apresentação da figura do Coronel Suga (Sessue Hayakawa) não como um monstro, de acordo com a velha fórmula dos filmes do gênero, mas sim como um homem gentil e culto admirador da obra da escritora sem que a brutalidade de seus comandados deixe de estar presente. Sob o ponto de vista cinematográfico Negulesco construiu boas cenas como a chegada dos invasores no hotel, o metralhamento dos australianos na cêrca de arame farpado ou o encontro clandestino de Mrs. Keith com o marido sob um coqueiro sendo seguida por um sentinela pelo ruído das aves até ser agredida inesperadamente pelo soldado japonês. Trata-se de um espetáculo denso que desperta muita emoção.

Keenan Wynn, Shelley Winters,Gary Merrill e Michael Rennie em Telefonema de um Estranho e em

Telefonema de um Estranho é um drama psicológico (ou melhor, quatro dramas diversos), escrito por Nunnally Johnson. Johnson seccionou o argumento em três partes, ligando-as por um desastre aéreo do qual escapa um único sobrevivente, o Dr. David Trask (Gary Merrill), que estabelecera uma camaradagem com outros três companheiros de viagem: Binky Gay (Shelley Winters), Dr. Robert Fortness (Michael Rennie) e Eddie Koke (Keenan Wynn). O Dr. Trask, é um advogado que deixa o lar para esquecer a infidelidade da esposa; Binky é uma atriz do teatro de variedades incompatibilizada com a sogra; o Dr. Fortness é um médico alcoólatra  que agora, cinco anos depois de ter enganado a justiça, tenciona apresentar-se ao promotor e confessar que ele foi o culpado do desastre automobilístico em que pereceu um colega e assim recuperar a confiança da mulher; e Eddie é um caixeiro- viajante extrovertido cuja consorte, Marie (Bette Davis), é uma semi-paralítica presa ao leito. O Dr. Trask telefona para as famílias dos três companheiros vitimados e as procura para relatar o que fôra a última noite que passaram juntos. Na casa do médico restabelece aos olhos da viúva e do filho do morto o respeito que este pretendia obter. No cabaré mantido pela sogra da atriz faz desaparecer o ódio que existia entre ela e a nora. Finalmente, na última casa, a do vendedor-viajante, Marie, cuja invalidez foi consequência de sua traição ao marido, enaltece o morto, como homem que sabia verdadeiramente amar e isto leva Trask a dar o seu último telefonema no filme: para dizer à esposa que a perdoou e voltará para casa. A direção de Negulesco, discreta e fluente, é muito feliz no uso dos flashbacks habilmente interligados, exprimindo em sequências comoventes o Poder do Amor e a Atratividade do Lar. Ajudaram-no, e muito, o bom desempenho de todos os seus intérpretes e uma fotografia (Milton Krasner) e música (Franz Waxman) que impressionam.

Betty Grable,Lauren Bacall e Marilyn Monroe em Como Agarrar um Milionário

Como Agarrar um Milionário é uma comédia romântica divertida e espirituosa,  satirizando a mulher americana ocupada em caçar um marido rico. Duas amigas, Loco (Betty Grable) e Pola (Marilyn Monroe) alugam com a inteligente Schatze (Lauren Bacall) um apartamento soberbamente mobiliado e, a partir desta base segura, pretendem fazer boas relações e conquistar o milionário de seus sonhos.  Elas viverão vendendo pouco a pouco os belos móveis do apartamento. Finalmente Loco se casa com um guarda florestal (Rory Calhoun) e Pola com um rapaz (David Wayne) que tem problemas com o fisco. Somente Schatz se dá bem e está prestes a se casar com um homem velho, mas rico (William Powell). Entretanto, no último instante, torna-se a esposa de um rapaz charmoso (Cameron Mitchell), que ela pensa que é um simples mecânico. As três amigas quase desmaiam, quando ficam sabendo que o mecânico, com o qual se casou por amor, é um industrial riquíssimo. Adaptado de uma peça teatral por Nunnally Johnson, esta segunda produção em CinemaScope da Fox, pela maneira inteligente pela qual foi fotografada (Joe MacDonald), mostrou que o então novo sistema de tela larga podia se adaptar a um ambiente quase todo em interiores. Negulesco mantém o filme bem ritmado, servindo-se dos diálogos espirituosos e da interpretação sutil do trio de atrizes formosas.

Van Heflin, Cornel Wilde, Fred MacMurray e Clifton Webb em O Mundo é da MUlher

O Mundo é da Mulher tem situações humorísticas se misturando com outras de ordem sentimental ou dramática, um certo suspense e uma sátira aos costumes (devassando o alto mundo da indústria automobilística). Três chefes de sucursais de uma fábrica de automóveis importante (Cornel Wilde, Fred MacMurray e Van Heflin) são convocados à sede da matriz em Nova York pelo diretor-presidente (Clifton Webb) para que, com as respectivas esposas (June Allyson, Lauren Bacall e Arlene Dahl), sejam submetidos ao teste para ocupar a vaga de gerente-geral da organização. Esta competição é conduzida com uma fluência suave por Negulesco, que nos oferece ainda uma viagem deslumbrante pela cidade dos arranha-céus, utilizando o CinemaScope com perfeição não somente nos exteriores mas também  nos interiores.

Na sua autobiografia Negulesco fornece mais estes dados: como autor da história original: Nova Orleans / New Orleans (Universal, 1947), Amores em Budapest / Fight For Your Lady (RKO, 1937), Dinheiro Demais / Beloved Brat (Warner Bros., 1938), Queijo Suiço / Swiss Miss (Hal Roach, 1938); como diretor de segunda unidade: Capitão Blood / Captain Blood (Warner, 1935), O Destemido Donovan / Crash Donovan (Universal, 1936); como diretor: The Dark Wave, 1956, documentário de curta-metragem produzido pela 20thCentury-Fox para a Variety Club Foundation to Combat Epilpesy. Elenco: Cornell Borchers, Charles Bickford, Nancy Reagan, Russ Conway.